Raro fóssil de ave do Pleistoceno é encontrado na Sibéria

18 de janeiro de 2021

Por: Guilherme Marinho

Estado de preservação fóssil do animal permitiu identificação da espécie, seu sexo e idade

Um grupo de cientista suecos encontrou uma carcaça de ave em um estado de preservação excepcional. Segundo os pesquisadores, achados desse tipo são mais comuns para grandes mamíferos, mas dessa vez eles encontraram uma ave, quase intacta. Isso foi possível porque o animal estava em permafrost, um solo congelado específico, típico do Ártico e importantíssimo para o entendimento e reconhecimento de ambientes passados. Até a data do trabalho, que foi publicado num periódico vinculado ao grupo de uma das mais renomadas revistas científicas do mundo, a Nature, nenhuma outra ave nessas condições havia sido descrita como pertencente à época do Pleistoceno.

O local do achado foi a aproximadamente 30 km do centro urbano de Belaya Gora, no estado da Iacútia, na região siberiana da Rússia. Enquanto caçadores de fósseis de marfim escavam túneis, a carcaça foi encontrada a uma profundidade de cerca de sete metros. Por meio de datações de radiocarbono, foi estimado que a ave tenha vivido há cerca de 46 mil anos.

Imagem 1: O ponto vermelho indica a localização onde o fóssil foi encontrado, ao nordeste da Sibéria (extraída do artigo fonte)

O estado de congelamento do fóssil também permitiu que DNA fosse extraído de uma pequena amostra de tecido do animal com a finalidade de se realizarem análises genéticas detalhadas. Esses estudos concluíram que a ave era uma calhandra-cornuda (Eremophila alpestris), também chamada de cotovia costeira. Além disso, técnicas avançadas de biologia molecular permitiram inferir que se tratava de uma fêmea.

Imagem 2: Vista ventral da carcaça (Foto: Love Dalén) (extraída do artigo fonte).

Os autores do estudo ressaltam que achados desse tipo são de suma importância para a Paleontologia, a fim de entender como as mudanças climáticas afetaram os organismos ao longo da história geológica da Terra. Não somente, a Biologia Molecular e a Filogenia – área de estudos que se dedica à classificação das espécies e à relação de parentesco entre elas – também são contempladas.

Espécies de cotovia, em geral, são pouco compreendidas nessa época geológica do Pleistoceno devido à escassez de dados. A linhagem desse exemplar encontrado já está extinta, mas foi descrita como mais aparentada a uma outra linhagem hoje vivente na Escandinávia e ao norte da Rússia, na região do planeta conhecida como Paleoártica.

Artigo fonte: Dussex, N., Stanton, D.W.G., Sigeman, H. et al. (2020). Biomolecular analyses reveal the age, sex and species identity of a near-intact Pleistocene bird carcass. Communications Biology, v. 3, n. 84. https://doi.org/10.1038/s42003-020-0806-7 <Clique aqui para acessar o artigo fonte>

O carniceiro de mamíferos pleistocênicos no Nordeste brasileiro

16 de janeiro de 2021

Por: Bruna Garzedim

Foram encontrados fósseis de mamíferos de grande porte e herbívoros, sendo eles Notiomastodon platensis, Eremotherium laurillardi e Glossotherium sp., no tanque do Jirau, em Itapipoca, no estado do Ceará. Estes apresentaram características tafonômicas até então inusitadas no depósito de vertebrados datados do Pleistoceno no Nordeste do Brasil, que foram marcas de dentes de carnívoros /carniceiros. É importante salientar, que atualmente os exemplares em questão estão alocados no Museu de Pré-história de Itapipoca, na coleção paleontológica.

Mas por que é tão importante o estudo das feições/marcas provocadas por carnívoros /carniceiros? Porque elas fornecem informações principalmente sobre a relação presa-predador e até mesmo podem ser utilizadas como evidência da presença de carnívoros que não apresentam fósseis corporais no local, mas que em algum momento passaram por ali, deixando seus “rastros”.

Os 26 dos 4.149 fósseis coletados apresentaram as características em estudo e foram datados do Pleistoceno tardio através de comparação com outras espécies (Stegomastodon waringi e Xenorhinotherium bahiense) encontradas em tanques nordestinos e que já foram exaustivamente estudadas e com idades determinadas. Além disso, as feições foram correlacionadas com outras já descritas na literatura especializada e com base em fotografias pertencentes à coleção paleontológica da Universidade de Nevada, localiza nos Estados Unidos da América, a fim de desvendar os táxons de carnívoros envolvidos com as acumulações fossilíferas identificadas.

Talvez você se pergunte “será que essas marcas realmente foram causadas por algum animal”? Sim! As marcas deixadas pelas ferramentas durante o processo de coleta/ preparação provocam alteração de cor na porção do osso afetado e isto não foi identificado nas peças. Ademais, os fósseis em questão apresentaram marcas devido sua exposição e ranhuras provavelmente provocadas por pisoteio, antes do soterramento, indicando que não foram geradas durante ou depois da coleta. Além disso, a ação humana com auxilio de instrumentos líticos também foi descartada, pois gera marcas que se distribuem aleatoriamente e não condiz com o observado nos fósseis.

Os padrões para comparação levantados durante o estudo indicaram que as marcas de dentes foram geradas por canídeos de grande porte, devido ao hábito de mordiscar ossos. Sendo assim, Protocyon troglodytes foi o candidato mais admissível, pois seu registro é abundante nos depósitos pleistocênicos do estado do Nordeste, até mesmo em tanques que distam aproximadamente 10 km do Tanque do Jirau; além de se alimentar de animais que se encontram em necrólise. Aliás, tudo indica que as marcas foram provocadas por um mesmo predador.

Artigo fonte: Hermínio Ismael de ARAÚJO JÚNIOR; Kleberson de Oliveira PORPINO; Lílian Paglarelli BERGQVIST. (2011). Marcas de dentes de carnívoros/carniceiros em mamíferos pleistocênicos do nordeste do Brasil. Revista Brasileira de Paleontologia, v. 14, n. 3, p. 291-296. Doi: 10.4072/rbp.2011.3.08 <Clique aqui para acessar o artigo fonte>

Legenda e fonte da imagem: Exemplo de marcas deixadas pelo canídeo Protocyon troglodytes, nos ossos do mamífero Eremotherium laurillardi A. Vista lateral das marcas dos dentes na articulação próxima à tíbia; B. Imagem A ampliada, evidenciando as marcas de dentes; C. Imagem B ampliada, com setas brancas destacando as marcas (extraída do artigo fonte).

Ciências na Escola: A Paleontologia Desde a Infância

07 de janeiro de 2021

Por: Bianca Duffles

É possível introduzir a Paleontologia já no Ensino Infantil? Quais abordagens podem ser utilizadas nessa relação? Neste artigo, escrito por Fernanda Torello de Mello, Luiz Henrique Cruz de Mello e Maria Beatriz de Freitas Torello, é proposto o uso da Paleontologia na alfabetização e na construção do conhecimento.

A Paleontologia é um ramo da ciência repleto de conteúdos que vão muito além daqueles abordados durante a Educação Básica, usualmente sendo os dinossauros, a origem da vida e, de forma mais rara, as definições dos tipos de fósseis. Na Educação Infantil, a não introdução da temática se mostra ainda mais grave, pelo fato de muitos dos professores terem de se desdobrar entre os conteúdos de base, como português, matemática e ciências. Isto pode resultar em uma deficiência de entendimentos específicos desta última disciplina, incluindo a área da Paleontologia.

Para que o conhecimento e a vontade de aprendizado pela ciência possam se desenvolver desde a infância, foram elaboradas diversas atividades relacionadas à área, de forma a facilitar a compreensão por parte dos alunos e tornar o aprendizado mais prazeroso para as crianças, além de ser um estímulo aos professores. Essas iniciativas se mostram importantes na popularização da Paleontologia, um dos objetivos do projeto. Dentre essas atividades, foram realizadas mudanças no espaço físico do colégio, atividades voltadas ao educador e tarefas destinadas aos alunos, tanto durante as aulas quanto nas férias.

Os resultados obtidos com este projeto podem ser considerados extremamente satisfatórios, não apenas no desenvolvimento pedagógico, mas também cultural dos alunos e docentes. Culminando, portanto, no aumento significativo da divulgação da Paleontologia e do interesse dos participantes pelo assunto.

Artigo fonte: MELLO, Fernanda Torello de; MELLO, Luiz Henrique Cruz de; TORELLO, Maria Beatriz de Freitas. (2005). A paleontologia na educação infantil: alfabetizando e construindo o conhecimento. Ciência & Educação, v. 11, n. 3, p. 395-410. ISSN: 1980-850X. Doi: 10.1590/S1516-73132005000300005 <Clique aqui para acessar o artigo fonte>

Legenda e fonte da imagem: Dinossauro confeccionado pelos alunos da educação infantil após aulas sobre paleontologia (extraída do artigo fonte).

Paleontologia e educação básica: até que ponto o conhecimento é compartilhado?

17 de janeiro de 2021

Por: Sinangelus

Sabe-se que as abordagens sobre a Paleontologia no ensino básico são escassas e superficiais. Isso se dá principalmente devido à formação precária dos professores e ao desinteresse ou dificuldades por parte dos alunos. Muitas vezes, o ensino da Paleontologia trabalhado no ensino básico brasileiro abrange apenas conteúdos com foco em dinossauros e ligeiramente em evolução da vida na Terra. Esse desinteresse e falta de investimento no ensino básico faz com que haja maior dedicação ao estudo paleontológico por instituições universitárias para formação de pesquisadores. Porém como fazer com que os alunos despertem interesse em sala de aula e reconheçam a importância do assunto?

O trabalho em questão apontou as principais deficiências que fazem com que a disseminação de conhecimento sobre a Paleontologia seja pobre no ensino infantil. Portanto, os pesquisadores têm como objetivo desenvolver um projeto que promova o contato das crianças ao tema, utilizando a Paleontologia para a alfabetização dos jovens. Para que o objetivo fosse cumprido, foram desenvolvidas diversas iniciativas focadas no processo de aprendizagem característico de cada faixa etária (ex.: crianças pequenas trabalham melhor com a manipulação de objetos, enquanto as crianças mais velhas precisam de estímulos cognitivos). O foco era que o conhecimento fosse transmitido sem restrições e de forma lúdica e clara.

As iniciativas criadas variam desde o desenvolvimento de uma linha do tempo – retratando a história biológica da Terra –, um minijardim paleobotânico nas interdependências da escola, uma sala de exposições – atuando como um pequeno museu na escola – à criação de atividades voltadas diretamente aos professores e educadores, como um canal de dúvidas permanente e a confecção de apostilas contendo conteúdo paleontológico atualizado e de linguagem simplificada. O projeto auxiliou no processo da alfabetização das crianças em questão e no maior envolvimento e interesse na área da Paleontologia.

Conclui-se que o que pode influenciar um aluno não é apenas o conteúdo que é apresentado a ele, mas a maneira como esse conteúdo é apresentado. Ambos alunos e educadores tiveram de atuar e se envolver mais com o ensino da Paleontologia em sala de aula, de forma teórica e prática. O projeto contribuiu para a construção de um conhecimento mais aprofundado, tanto por alunos quanto por professores, uma vez que foi aplicada a metodologia correta.

Artigo fonte: MELLO, Fernanda Torello de; MELLO, Luiz Henrique Cruz de; TORELLO, Maria Beatriz de Freitas. (2005). A paleontologia na educação infantil: alfabetizando e construindo o conhecimento. Ciência & Educação, v. 11, n. 3, p. 397-410. Doi: 10.1590/S1516-73132005000300005 <Clique aqui para acessar o artigo fonte>

Legenda e fonte da imagem: Linha do tempo criada por alunos e educadores no Colégio Pequenópolis (São Paulo, SP) para promover o conhecimento em Paleontologia (extraída do artigo fonte).

Evidência de carnívoro no Tanque do Jirau

15 de janeiro de 2021

Por: Yuri Lisboa

Um trabalho de 2011 foi o primeiro a registrar a ocorrência de marcas de dentes de carnívoros/carniceiros em fósseis de mamíferos do Pleistoceno no nordeste do Brasil. Os fósseis foram encontrados no “Tanque do Jirau” em Itapipoca no Ceará. Marcas desse tipo ainda não tinham sido registradas para a região.

É possível dizer que os fósseis encontrados são do Pleistoceno tardio devido a presença de dois animais que tem datação, com base em elementos do esqueleto encontrados em outros tanques do nordeste. Foram identificados marcas de dentes de carnívoros em 26 dos 4149 elementos esqueletais coletados. Todos eram elementos esqueletais de herbívoros de grande porte.

Potenciais geradores das marcas, como Felídeos e Ursídeos, foram descartados, pois os padrões observados não são compatíveis com esses grupos. Também foi descartada a possibilidade das marcas terem sido produzidas por homens, uma vez que as marcas geradas por instrumentos de corte formam concavidade em formato de “V“ e as marcas observadas formam concavidade em formato de “U”, que é característico de mordida de carnívoro.

Entre os grupos encontrados nos depósitos pleistocênicos nordestinos, Protocyon troglodytes tem maior abundância de registro e é encontrado inclusive em tanques a 10 km de distância do tanque do Jirau. Considerando por tanto o porte e a distribuição geográfica é sugerido Protocyon troglodytes como o principal candidato para as marcas estudadas. Curiosamente esse táxon não esta registrado no tanque do Jirau em forma de fóssil corporal até o momento, porém essas marcas podem evidenciar sua presença na região.

Artigo fonte: Hermínio Ismael de ARAÚJO JÚNIOR; Kleberson de Oliveira PORPINO; Lílian Paglarelli BERGQVIST. (2011). Marcas de dentes de carnívoros/carniceiros em mamíferos pleistocênicos do nordeste do Brasil. Revista Brasileira de Paleontologia, v. 14, n. 3, p. 291-296. Doi: 10.4072/rbp.2011.3.08 <Clique aqui para acessar o artigo fonte>

Legenda e fonte da imagem: Ulna de mamífero com marcas de mordidas encontrada no tanque do Jirau (extraída do artigo fonte).

Incêndio causado por raio na Bacia do Paraná formou fósseis com detalhes microscópicos*

14 de janeiro de 2021

Por: Ayla Secio

*Texto publicado também no espaço biótico <confira aqui>

As pesquisadoras Isabela Degani-Schmidt, Margot Guerra-Sommer e Taís Freitas, em 2018 publicaram um artigo científico descrevendo fósseis de árvores. Essas plantas viveram durante o período geológico Permiano. Os fósseis carbonizados foram encontrados em um campo de carvão na Formação geológica Rio Bonito, no Rio Grande do Sul. Eles foram tão bem preservados que é possível observar o interior das células. Isso porque elas foram cozinhadas instantaneamente pelos raios que causaram um incêndio florestal na época.

Rio Bonito se encontra principalmente no leste da Bacia do Paraná (Figura 1). É uma região rica em carvão mineral, que esteve na superfície do período Carbonífero (surgimento das florestas) até o Triássico (surgimento dos dinossauros). O período Permiano fica entre eles, de 290 a 248 milhões de anos atrás, e foi quando essas plantas estudadas foram fossilizadas.

Figura 1. Representação aproximada da extensão da Bacia do Paraná (azul) e do Rio Bonito (rosa).

Diferentes partes dos organismos passam por processos diferentes na fossilização. Esse fato pode ser constatado quando reparamos que os fósseis mais conhecidos possuem apenas ossos. Isso ocorre porquê o tecido mole (musculo, órgãos internos, etc.) foi completamente decomposto. Normalmente o tecido mole das plantas também se deteriora, ou se solidifica em um vidro carbonizado sem forma. Sua boa preservação se dá quando o tecido foi seco previamente à carbonização. Porém já foi demonstrado que, em áreas específicas da madeira, a ação de raios pode preservar o citoplasma.

As células afetadas dessas árvores são as mais novas e responsáveis pela vascularização do vegetal. Não apenas o tipo de células, mas também a distância das chamas também influencia na preservação do seu interior. Apenas células com 1mm de distância das chamas foram preservadas.

Dessa forma, os fósseis das plantas possuem tanto células preservadas (Figura 2A) quanto células degradadas (Figura 2B e C). As preservadas ainda sofreram alterações, sendo endurecidas e tendo seu interior encolhido. As outras passaram por diferentes níveis e tipos de decomposição, sendo que algumas tiveram seu interior substituído completamente por minerais.

Figura 2. Imagem de microscópio eletrônico das células fossilizadas. Em A observa-se o interior celular encolhido, com o espaço vazio em preto. Em B observam-se filamentos e restos celulares. Em C há detritos. Imagens extraídas e modificadas do artigo fonte.

Estudos como esse permitem uma maior compreensão sobre o desenrolar da evolução. Por sua vez, entender a evolução gera maiores chances de entendermos nossos problemas e dificuldades atuais (como doenças e interações sociais e com o meio) e, consequentemente, termos maiores chances de resolvê-los.

Artigo fonte: Isabela Degani-Schmidt; Margot Guerra-Sommer; Taís Freitas. (2018). Preserved cytoplasm in charred Agathoxylon-type wood from the Permian of Brazilian Paraná Basin. Revista Brasileira de Paleontologia, v. 21 ,n. 2, p. 112-119. Doi: 10.4072/rbp.2018.2.02 <Clique aqui para acessar o artigo fonte>

As marés como força na evolução de peixes ósseos e tetrápodes

31 de outubro de 2020

Por: Maria Eugênia Reis

Uma pesquisa recente feita por pesquisadores da Universidade de Bangor e Universidade de Cambridge no Reino Unido, e da Universidade de Uppsala na Suécia, buscou elucidar a importância das marés como fator ambiental no processo evolutivo de peixes ósseos, e de seus descendentes tetrápodes: vertebrados terrestres, possuidores de quatro membros. Como ressaltado no artigo, as marés desempenham um papel importante na formação do contexto ambiental para a evolução dos organismos marinhos e costeiros rasos, ao compor a interação entre esses ambientes. Hipotetiza-se que grandes variações de maré podem ter promovido a evolução dos órgãos “respiradores de ar” em osteíctes para facilitar a respiração em poços de maré pobres em oxigênio, e o desenvolvimento de membros de tetrápodes que sustentam peso para auxiliar a navegação nas zonas entremarés (regiões costeiras). O ambiente criado nesse cenário possibilitaria a seleção dos órgãos respiradores mencionados, bem como apêndices adaptados para navegação terrestre.

No estudo, utilizou-se uma modelagem para o comportamento das marés e reconstruções paleogeográficas do final do Siluriano ao início do Devoniano (420 Ma, 400 Ma e 380 Ma, [Ma = milhões de anos atrás]), para explorar o envolvimento das alterações cíclicas do nível da água do mar nos processos evolutivos. As regiões de interesse englobou o que hoje é o sul da China (420 Ma), onde provavelmente se deu a origem dos peixes ósseos, e a Europa (Laurussia 400 Ma), por seu registro fóssil de tetrápodes encontrados em sedimentos deltaicos ou estuarinos.

Através da investigação conduzida foi possível observar a presença de grande variações de marés no período que engloba o Siluriano Superior ao início Devoniano, justamente nas localidades onde as evidências dos primeiros osteíctes e tetrápodes foram encontradas. Estes resultados são amplamente consistentes com a hipótese de que as marés foram um importante motor ambiental e evolutivo para os eventos de irradiação adaptativa dos peixes ósseos e origem dos tetrápodes. Esta pesquisa pioneira demonstra a importância de simulações paleogeográficas, que unem diversas ferramentas e áreas de estudo, para se entender tanto o passado da vida na Terra quanto as formas de vida que hoje perduram.

Artigo fonte: H. M. Byrne, J. A. M. Green, S. A. Balbus and P. E. Ahlberg. (2020). Tides: A key environmental driver of osteichthyan evolution and the fish-tetrapod transition? Proceedings of the Royal Society A, vol. 476, n. 2242, p. 20200355. Doi: 10.1098/rspa.2020.0355 <Clique aqui para acessar o artigo fonte>

Legenda e fonte da imagem: Reconstrução de um ambiente aquático com um tetrápoda do Devoniano. Imagem extraída do site Burada Biliyorum (link).

Titanossauro “zumbi”: descoberta inédita de parasitas em fósseis de dinossauro

27 de outubro de 2020

Por: Maria Eugênia Reis

Recentemente, uma equipe de pesquisadores da Unicamp, UFRN e UFSCar, ao analisar fósseis previamente coletados no Noroeste Paulista, encontraram microorganismos parasitas fossilizados dentro de canais vasculares de um Titanossauro que apresentava traços de osteomielite aguda. De início, os paleontólogos perceberam lesões no tecido ósseo, onde era possível observar diferentes níveis de infecção à medida que a doença progrediu dentro do animal. Um aumento gradativo na vascularização, e uma diminuição da densidade do tecido ósseo caracterizam o quadro descrito. O dinossauro em questão, se tratava de um indivíduo senil que provavelmente sentiu muitas dores, antes de sucumbir à doença. Lhe foi atribuído o termo “dino zumbi”, devido ao grau de infecção. O artigo publicado pelo grupo de pesquisa conta com imagens ilustrativas, que retratam a pele do animal coberta por lesões como caroços e feridas com pus.

O interessante desse estudo é justamente o fato de que foram encontrados parasitas de corpo mole preservados dentro do hospedeiro vertebrado, que viveu no fim do período Cretáceo. Geralmente parasitas que se situam em tecidos hospedeiros estão menos sujeitos à fossilização; a maior parte do registro paleoparasitológico diz respeito à ovos de helmintos e às vezes estágios do desenvolvimento de protozoários preservados em âmbar ou coprólitos . Certamente um caso atípico, a preservação destas formas de vida possivelmente ocorreu por meio da replicação de minerais autigênicos, que são formados durante a sedimentação ou por intemperismo. O artigo publicado integrou as áreas da paleontologia, parasitologia, patologia e histologia de forma nunca vista antes, também registrando de forma pioneira a histologia da progressão de um quadro agressivo de osteomielite, em detalhes.

Artigo fonte: Aureliano, T., Nascimento, C. S., Fernandes, M. A., Ricardi-Branco, F. and Ghilardi, A. M. (2021). Blood parasites and acute osteomyelitis in a non-avian dinosaur (Sauropoda, Titanosauria) from the Upper Cretaceous Adamantina Formation, Bauru Basin, Southeast Brazil , Cretaceous Research, vol. 118, p. 104672. Doi: 10.1016/j.cretres.2020.104672 <Clique aqui para acessar o artigo fonte>

Legenda e fonte da imagem: Reconstrução artística do “dino zumbi” (extraída do artigo fonte). Arte de Hugo Cafasso.

Fósseis de mamíferos pré-históricos são encontrados em caverna no Sergipe

24 de setembro de 2020

Por: Tomás J. Lacerda

Cientistas dizem que o estado de Sergipe tem um longo histórico de pesquisas paleontológicas pois é rico em fósseis. A primeira descoberta de fósseis em cavernas sergipanas ocorreu em 1997, na Gruta da Raposa em Laranjeiras, foi achado um dente de tubarão e moluscos que viveram há cerca de 100 milhões de anos atrás, quando essa região do sertão era coberta por água do mar. Ainda em 1997, outro fóssil foi encontrado na caverna Abismo de Simão Dias, no mesmo município de mesmo nome. Era a carapaça de uma tartaruga pré-histórica do gênero Chelonoidis.

Já em 2009, foi descoberto o primeiro fóssil pleistocênico de um mamífero encontrado em uma cavidade natural no estado, foi na caverna Toca da Raposa, localizada na fazenda Manoel Roque, no município de Simão Dias. O animal denominado cientificamente de Glyptodon clavipes, pertence ao grupo dos Gliptodontes, grandes mamíferos herbívoros que viviam sobre as terras nordestinas há mais de dez mil anos atrás. Eram animais com a aparência de tatus gigantes que possuíam uma forte carapaça, para se protegerem de seus predadores, esses enorme animais podiam chegar até 3 m de comprimento e pesar 1 tonelada. O achado fóssil representa uma importante descoberta para a paleontologia sergipana.

O pesquisador Mário André Trindade Dantas, realizador da descoberta, diz que até o momento não havia sido descoberto nenhum fóssil de mamífero em cavernas no estado, pois todos os achados de mamíferos foram encontrados em afloramentos do tipo tanque. Portanto, sua descoberta trata-se do primeiro registro fóssil de mamífero encontrado em cavidades naturais no estado de Sergipe.

Juntamente com o Gliptodonte foi encontrado um fóssil de uma Preá (Galea spixii) roedores pequenos relativamente comuns por todo o país. Os fósseis foram depositados na coleção científica do Laboratório de Paleontologia da Universidade Federal de Sergipe (LPUFS).

Artigo fonte: Dantas, Mário André Trindade. (2009). Primeiro registro de fósseis de mamíferos pleistocênicos em caverna de Sergipe, Brasil. Revista Brasileira de Paleontologia, v. 12, n. 2, p. 161-164. Doi: 10.4072/rbp.2011.3.10 <Clique aqui para acessar o artigo fonte>

Legenda e fonte da imagem: Imagem ilustrativa demonstrando o tamanho dos mamíferos Gliptondes que viviam nas Américas há cerca de 10 mil anos atrás. Arte de Heinrich Harder, c. 1920, extraída do site Sci-New (link).

Grande achado paleontológico: Novo esqueleto parcial de Pterossauro é encontrado na Bacia do Araripe, no Nordeste do Brasil

30 de setembro de 2020

Por: Gabriel Bragança Guedes

Cientistas do departamento de Geologia da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e do setor de Paleovertebrados do Museu Nacional da UFRJ descobriram recentemente um fóssil parcial de Pterossauro (Pterodactyloidea, Tapejaridae). O fóssil foi encontrado no Membro Crato da Formação Santana da Bacia do Araripe, no Nordeste do Brasil, localizada entre os estados do Ceará, Pernambuco e Piauí.

A Bacia do Araripe é um importante sítio paleontológico brasileiro, que abriga uma grande diversidade de fósseis de plantas e animais vertebrados e invertebrados, devido às características específicas do local, que fazem com que acreções calcárias formem nódulos calcários ao redor dos organismos mortos, preservando assim, parte de sua anatomia em forma de fósseis. Do ponto de vista paleontológico, a Formação Santana é o sítio paleontológico mais importante da Bacia do Araripe, devido à sua grande diversidade de táxons preservada em forma de fósseis em concreções calcárias, e por isso esta região é considerada um “Lagerstätten”, ou seja, um sítio que apresenta fósseis com preservação excepcional, sendo uma importante fonte de conhecimento sobre a evolução da vida na Terra e os eventos que ditaram os caminhos da vida.

Os Pterossauros, são uma ordem extinta de répteis voadores, do período Mesozoico, que viveram contemporaneamente aos dinossauros, mas não são considerados dinossauros. Extintos há aproximadamente 65 milhões de anos, durante a grande extinção do Cretáceo-Paleogeno, estes animais possuem fósseis em diversas partes do mundo, entretanto, alguns dos fósseis mais completos e preservados desses animais foram encontrados no Brasil, na Bacia do Araripe.

O material fossilizado encontrado e descrito no artigo em questão consiste em um esqueleto parcial, porém articulado, de um Pterossauro preservado em calcário laminado típico do Membro Crato. O espécime foi nomeado como MN 6588-V, e representa um dos mais completos exemplares fósseis já encontrados desta espécie, onde se pode observar: ambas as escápulas e coracóides (fusionados); o esterno preservado em vista dorsal; uma sequência de vértebras (da última cervical até a terceira caudal, apresentando 29,10cm de comprimento preservado); pré-púbis; cintura pélvica (ílio, púbis e ísquio); várias costelas e elementos da gastrália.

Os ossos deste fóssil apresentam coloração marrom escura, e se encontram distribuídos em cinco placas calcárias, sendo que algumas partes como as escápulas e os coracóides podem ser observadas tridimensionalmente. Apresenta alguns pontos de quebra e superfície óssea um pouco fragmentada, devido às dificuldades no processo de coleta, mas ainda assim, representa um magnífico exemplar que pode nos contar muitas histórias sobre os Pterossauros e o mundo em que viviam.

Artigo fonte: Sayão, J.M.; Kellner, A.W.A. (2006). Novo esqueleto parcial de pterossauro (Pterodactyloidea, Tapejaridae) do membro Crato (Aptiano), Formação Santana, Bacia do Araripe, Nordeste do Brasil. Estudos Geológicos, Vol. 16 (2), .p. 16 – 40. <Clique aqui para acessar o artigo fonte>

Legenda e fonte da imagem: (A e C) fotografia e representação esquemática do esqueleto do fóssil descrito (escala = 10 cm). (B) indicação em preto das porções preservadas do fóssil. (Figura extraída do artigo fonte)