O carniceiro de mamíferos pleistocênicos no Nordeste brasileiro

16 de janeiro de 2021

Por: Bruna Garzedim

Foram encontrados fósseis de mamíferos de grande porte e herbívoros, sendo eles Notiomastodon platensis, Eremotherium laurillardi e Glossotherium sp., no tanque do Jirau, em Itapipoca, no estado do Ceará. Estes apresentaram características tafonômicas até então inusitadas no depósito de vertebrados datados do Pleistoceno no Nordeste do Brasil, que foram marcas de dentes de carnívoros /carniceiros. É importante salientar, que atualmente os exemplares em questão estão alocados no Museu de Pré-história de Itapipoca, na coleção paleontológica.

Mas por que é tão importante o estudo das feições/marcas provocadas por carnívoros /carniceiros? Porque elas fornecem informações principalmente sobre a relação presa-predador e até mesmo podem ser utilizadas como evidência da presença de carnívoros que não apresentam fósseis corporais no local, mas que em algum momento passaram por ali, deixando seus “rastros”.

Os 26 dos 4.149 fósseis coletados apresentaram as características em estudo e foram datados do Pleistoceno tardio através de comparação com outras espécies (Stegomastodon waringi e Xenorhinotherium bahiense) encontradas em tanques nordestinos e que já foram exaustivamente estudadas e com idades determinadas. Além disso, as feições foram correlacionadas com outras já descritas na literatura especializada e com base em fotografias pertencentes à coleção paleontológica da Universidade de Nevada, localiza nos Estados Unidos da América, a fim de desvendar os táxons de carnívoros envolvidos com as acumulações fossilíferas identificadas.

Talvez você se pergunte “será que essas marcas realmente foram causadas por algum animal”? Sim! As marcas deixadas pelas ferramentas durante o processo de coleta/ preparação provocam alteração de cor na porção do osso afetado e isto não foi identificado nas peças. Ademais, os fósseis em questão apresentaram marcas devido sua exposição e ranhuras provavelmente provocadas por pisoteio, antes do soterramento, indicando que não foram geradas durante ou depois da coleta. Além disso, a ação humana com auxilio de instrumentos líticos também foi descartada, pois gera marcas que se distribuem aleatoriamente e não condiz com o observado nos fósseis.

Os padrões para comparação levantados durante o estudo indicaram que as marcas de dentes foram geradas por canídeos de grande porte, devido ao hábito de mordiscar ossos. Sendo assim, Protocyon troglodytes foi o candidato mais admissível, pois seu registro é abundante nos depósitos pleistocênicos do estado do Nordeste, até mesmo em tanques que distam aproximadamente 10 km do Tanque do Jirau; além de se alimentar de animais que se encontram em necrólise. Aliás, tudo indica que as marcas foram provocadas por um mesmo predador.

Artigo fonte: Hermínio Ismael de ARAÚJO JÚNIOR; Kleberson de Oliveira PORPINO; Lílian Paglarelli BERGQVIST. (2011). Marcas de dentes de carnívoros/carniceiros em mamíferos pleistocênicos do nordeste do Brasil. Revista Brasileira de Paleontologia, v. 14, n. 3, p. 291-296. Doi: 10.4072/rbp.2011.3.08 <Clique aqui para acessar o artigo fonte>

Legenda e fonte da imagem: Exemplo de marcas deixadas pelo canídeo Protocyon troglodytes, nos ossos do mamífero Eremotherium laurillardi A. Vista lateral das marcas dos dentes na articulação próxima à tíbia; B. Imagem A ampliada, evidenciando as marcas de dentes; C. Imagem B ampliada, com setas brancas destacando as marcas (extraída do artigo fonte).

Publicado por Alexandre Liparini

Mineiro, gaúcho, sergipano, e por que não, alemão? No caminho sempre a paleontologia como paixão e agora como profissão. Adora dar aulas e pesquisar sobre origens e evolução. Se esse for o tema, podem perguntar, por que não?

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