Incêndio causado por raio na Bacia do Paraná formou fósseis com detalhes microscópicos*

14 de janeiro de 2021

Por: Ayla Secio

*Texto publicado também no espaço biótico <confira aqui>

As pesquisadoras Isabela Degani-Schmidt, Margot Guerra-Sommer e Taís Freitas, em 2018 publicaram um artigo científico descrevendo fósseis de árvores. Essas plantas viveram durante o período geológico Permiano. Os fósseis carbonizados foram encontrados em um campo de carvão na Formação geológica Rio Bonito, no Rio Grande do Sul. Eles foram tão bem preservados que é possível observar o interior das células. Isso porque elas foram cozinhadas instantaneamente pelos raios que causaram um incêndio florestal na época.

Rio Bonito se encontra principalmente no leste da Bacia do Paraná (Figura 1). É uma região rica em carvão mineral, que esteve na superfície do período Carbonífero (surgimento das florestas) até o Triássico (surgimento dos dinossauros). O período Permiano fica entre eles, de 290 a 248 milhões de anos atrás, e foi quando essas plantas estudadas foram fossilizadas.

Figura 1. Representação aproximada da extensão da Bacia do Paraná (azul) e do Rio Bonito (rosa).

Diferentes partes dos organismos passam por processos diferentes na fossilização. Esse fato pode ser constatado quando reparamos que os fósseis mais conhecidos possuem apenas ossos. Isso ocorre porquê o tecido mole (musculo, órgãos internos, etc.) foi completamente decomposto. Normalmente o tecido mole das plantas também se deteriora, ou se solidifica em um vidro carbonizado sem forma. Sua boa preservação se dá quando o tecido foi seco previamente à carbonização. Porém já foi demonstrado que, em áreas específicas da madeira, a ação de raios pode preservar o citoplasma.

As células afetadas dessas árvores são as mais novas e responsáveis pela vascularização do vegetal. Não apenas o tipo de células, mas também a distância das chamas também influencia na preservação do seu interior. Apenas células com 1mm de distância das chamas foram preservadas.

Dessa forma, os fósseis das plantas possuem tanto células preservadas (Figura 2A) quanto células degradadas (Figura 2B e C). As preservadas ainda sofreram alterações, sendo endurecidas e tendo seu interior encolhido. As outras passaram por diferentes níveis e tipos de decomposição, sendo que algumas tiveram seu interior substituído completamente por minerais.

Figura 2. Imagem de microscópio eletrônico das células fossilizadas. Em A observa-se o interior celular encolhido, com o espaço vazio em preto. Em B observam-se filamentos e restos celulares. Em C há detritos. Imagens extraídas e modificadas do artigo fonte.

Estudos como esse permitem uma maior compreensão sobre o desenrolar da evolução. Por sua vez, entender a evolução gera maiores chances de entendermos nossos problemas e dificuldades atuais (como doenças e interações sociais e com o meio) e, consequentemente, termos maiores chances de resolvê-los.

Artigo fonte: Isabela Degani-Schmidt; Margot Guerra-Sommer; Taís Freitas. (2018). Preserved cytoplasm in charred Agathoxylon-type wood from the Permian of Brazilian Paraná Basin. Revista Brasileira de Paleontologia, v. 21 ,n. 2, p. 112-119. Doi: 10.4072/rbp.2018.2.02 <Clique aqui para acessar o artigo fonte>

Publicado por Alexandre Liparini

Mineiro, gaúcho, sergipano, e por que não, alemão? No caminho sempre a paleontologia como paixão e agora como profissão. Adora dar aulas e pesquisar sobre origens e evolução. Se esse for o tema, podem perguntar, por que não?

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