Os Hobbits da vida real: Homo floresiensis

Escrito em: 20 de maio de 2026

Por: Vitor Paulo 

Já imaginou humanos tão pequenos que foram apelidados de hobbits, espécie fictícia criada por J. R. R. Tolkien nas obras “O Hobbit” e “O Senhor dos Anéis”? Em 2003, na ilha de Flores (Indonésia), pesquisadores encontraram fósseis de uma espécie humana com uma característica surpreendente: os restos ósseos encontrados tinham tamanhos significativamente menores do que os de outros hominídeos já descobertos. O mais impressionante é que essa espécie viveu em um período relativamente recente.

Mas quem eram esses “hobbits”? Nomeados de Homo floresiensis pelos pesquisadores, eram uma espécie humana que desapareceu há cerca de 50 mil anos. Os esqueletos encontrados em uma caverna estavam tão bem preservados que algumas partes ainda permaneciam articuladas, ou seja, os ossos ainda estavam encaixados na posição original do corpo. Além disso, análises do crânio, fêmur, tíbia e outros ossos foram comparadas com os de uma fêmea de Homo sapiens (espécie a qual os humanos modernos pertencem). Essas comparações mostraram que o Homo floresiensis tinha, no máximo, cerca de 1 metro de altura. Estudos posteriores também revelaram que o Homo floresiensis possuía pés relativamente grandes em comparação ao corpo. Características como baixa estatura, pernas curtas e pés longos deram origem ao apelido de hobbits.

As análises do crânio mostraram que os hominídeos de Flores possuíam um cérebro reduzido. Mesmo assim, desafiaram antigas ideias sobre a evolução humana, já que escavações posteriores mostraram que eles eram capazes de utilizar ferramentas sofisticadas e tinham uma cultura.

A hipótese mais aceita atualmente para explicar a baixa estatura dos “hobbits” está relacionada ao processo evolutivo conhecido como nanismo insular. Esse processo ocorre quando animais isolados em ilhas sofrem redução de tamanho devido aos recursos limitados disponíveis nesses ambientes. Essa adaptação é uma resposta direta da seleção natural, pois indivíduos menores gastavam menos energia e, portanto, tinham maiores chances de sobreviver. Esse caso também mostrou que os seres humanos, assim como todos os outros seres vivos, também estão sujeitos aos processos evolutivos e às pressões do ambiente.

A descoberta de mais uma espécie humana abalou a comunidade científica e a sociedade, pois mostrou mais uma vez que o Homo sapiens não foi a única espécie humana a existir. Além disso, reforçou a ideia de que a evolução humana não ocorreu de forma linear. As descobertas na ilha de Flores evidenciam o quanto a paleontologia e a paleoantropologia são importantes para compreendermos nossa própria história. Pensar em quantas outras histórias sobre a humanidade ainda podem ser descobertas torna tudo ainda mais fascinante.

Texto fonte: Brown, P., Sutikna, T., Morwood, M. et al. A new small-bodied hominin from the Late Pleistocene of Flores, Indonesia. Nature 431, 1055–1061 (2004). https://doi.org/10.1038/nature02999. 

Disponível em: https://www.nature.com/articles/nature02999. Acesso em: 06/09/2026

Legenda da imagem de capa: Paralelo comparativo entre o hominídeo histórico e o ser mitológico. À esquerda, a reconstrução do Homo floresiensis (apelidado de “Hobbit”) e seus vestígios fósseis na Ilha de Flores; à direita, a representação literária de um Hobbit do Condado, idealizado por J.R.R. Tolkien.

Imagem gerada por inteligência artificial.


Texto revisado por: Luiza Brasileiro e Alexandre Liparini

Dentes falam muito mais que palavras: implicações de cuidado parental em Maiasaura

Escrito em: 19 de Abril de 2026

Por: Livia Larangote 

É de amplo conhecimento que o cuidado parental é um comportamento essencial para a sobrevivência da prole de vários animais, principalmente entre os mamíferos e aves. O que você provavelmente não sabia era que o cuidado com os filhotes era também uma prática adotada por alguns dinossauros. Pesquisadores canadenses realizaram uma pesquisa sobre esse assunto no gênero Maiasaura (família Hadrosauridae) e fizeram várias descobertas interessantes. 

Foram analisados dentes de Maiasaura filhotes e de seis dinossauros adultos de outros gêneros de hadrossaurídeos. Ambos os gêneros possuem hábitos alimentares herbívoros. Os dentes dos adultos e juvenis foram comparados e diferenças foram encontradas. As arcadas dentárias eram mais distintas principalmente no formato e nos tipos de marcas de desgaste causadas pela mastigação. Os pesquisadores fizeram um paralelo desses formatos dentários com os de mamíferos herbívoros e chegaram a conclusões bem sugestivas. 

A primeira conclusão foi a de que, dado as diferenças notáveis do formato dos dentes dos juvenis e dos adultos, é possível inferir que suas dietas eram diferentes. Os filhotes possuíam uma alimentação composta principalmente de alimentos menos fibrosos e mais proteicos, com açúcares mais fáceis de serem digeridos, que são os frutos. Já os adultos comiam alimentos com maiores quantidades de fibras, mais voltada ao consumo de folhas. 

Essa informação prévia nos leva à nossa investigação principal: o cuidado parental entre os Maiassaura. Já era de conhecimento científico que esse gênero possuía longos períodos de ninhada de seus filhotes, e com adição dos resultados obtidos de suas informações dentárias, é sugestivo que os adultos levavam comidas – constituídas de baixa quantidade de fibras e alto valor energético, até seus ninhos para alimentar suas crias. Esse tipo de comportamento é de extrema importância no desenvolvimento desses filhotes em futuros adultos, e garante maiores taxas de sobrevivência da prole. 

Assim, os pesquisadores concluíram que há várias evidências que corroboram que Maiassaura tinham desenvolvimento juvenil em ninhos, recebendo cuidado parental, para que crescessem rapidamente em seu primeiro ano de vida. Essa estratégia reprodutiva é análoga a outros animais contemporâneos, como alguns pássaros, onde os filhotes recebem amparo alimentar até conseguirem autonomia suficiente e caçarem suas próprias refeições.

Texto fonte: John P. Hunter, Christine M. Janis, Tooth wear in juvenile and adult hadrosaurs: implications for parental care in Maiasaura, Palaeogeography, Palaeoclimatology, Palaeoecology, Volume 690, 2026, 113707, ISSN 0031-0182

Disponível em: https://doi.org/10.1016/j.palaeo.2026.113707

Legenda da imagem de capa: Ilustração representativa de um Maiasaura adulto e juvenil. Ilustração de Brian Regal.

Disponível em: https://doi.org/10.1016/j.palaeo.2026.113707


Texto revisado por: Fernanda Moreira e Alexandre Liparini

O dia em que os vulcões transformaram uma floresta brasileira em pedra

Escrito em: 26 de maio de 2026

Por: Ana Freitas 

Quando pensamos em erupções vulcânicas, a imagem imediata é a de uma destruição catastrófica. O que raramente imaginamos é que esses eventos apocalípticos também podem funcionar como cápsulas do tempo perfeitas. No norte do Tocantins, no município de Filadélfia, um verdadeiro tesouro paleontológico desafia essa lógica da destruição: uma imensa floresta petrificada com caules gigantescos perfeitamente conservados em três dimensões. 

Este cenário extraordinário, hoje protegido pelo Monumento Natural das Árvores Fossilizadas do Tocantins (MNAFTO), começou a ser moldado há cerca de 270 milhões de anos, no Período Permiano. Naquela época, o que hoje é o Cerrado, era uma vasta planície úmida dominada por samambaias arborescentes que ultrapassavam os 10 metros de altura e atingiam 1,2 metros de diâmetro na base. 

De forma repentina, essa floresta foi soterrada de maneira catastrófica por sedimentos e cinzas vulcânicas. Esse sepultamento rápido foi o segredo da eternidade: sem oxigênio, as plantas não apodreceram. Então, a química da Terra fez sua mágica através de um processo chamado permineralização. A água subterrânea, carregada de sílica proveniente das próprias cinzas vulcânicas, infiltrou-se nas células dos vegetais. Ao longo de eras, essa sílica substituiu a matéria orgânica por quartzo, molécula por molécula, transformando a madeira em rocha viva. 

Hoje, após milhões de anos de erosão e movimentos tectônicos, esse santuário pré-histórico foi esculpido naturalmente pelo vento e pela chuva. Caminhar pela região é como observar um imenso quebra-cabeça caótico: caules de pedra surgem do chão, alguns ainda na posição vertical em que cresceram, outros totalmente expostos e fragmentados. 

Mais do que uma atração geoturística de beleza única, o MNAFTO é uma janela científica crucial para entendermos a evolução da vida e do clima no nosso planeta, um patrimônio da humanidade esculpido em rocha e fogo.

Texto fonte: DIAS-BRITO, D.; ROHN, R.; CASTRO, J. C.; DIAS, R. R.; RÖSSLER, R.  Floresta Petrificada do Tocantins Setentrional. Sítios Geológicos e Paleontológicos do Brasil  (SIGEP 104), 2007.

Disponível em: https://sigep.eco.br/sitio104/sitio104.pdf 

Legenda da imagem de capa: O Monumento Natural das Árvores Fossilizadas do Tocantins (MNAFTO) à noite, usando uma técnica fotográfica chamada Star Trail

Disponível em: https://www.to.gov.br/secom/noticias/floresta-fossilizada-e-um-dos-maiores-patrimonios-do-brasil/3tojss29yunh


Texto revisado por: Tiago Lopes Siqueira e Alexandre Liparini.

Pterossauros gigantes também voavam sobre a Antártica

Escrito em: 25 de maio de 2026

Por: Júlia Vitória Rocha Moreira Brasil

Imagine olhar para o céu da Antártica no fim do Período Cretáceo e ver, além de dinossauros e outros répteis em terra, grandes pterossauros sobrevoando a paisagem. É exatamente isso que um estudo publicado por Alexander W. A. Kellner e colaboradores ajuda a mostrar. Ao descrever dois fósseis encontrados nas ilhas James Ross e Vega, na Península Antártica, os autores reforçam que esses répteis voadores de grande porte também habitavam regiões mais austrais do planeta. 

O primeiro fóssil, chamado MN 7800-V, foi encontrado em na ilha James Ross. Mesmo bastante incompleto, ele preserva características anatômicas compatíveis com a parte distal de uma falange da asa de um pterossauro. Já o segundo, MN 7801-V, foi encontrado em Vega Island e foi interpretado como um metacarpo da asa, provavelmente o quarto metacarpo, um dos ossos mais importantes para sustentar a membrana de voo. 

Os pesquisadores observaram que os dois ossos têm paredes muito finas, uma característica típica dos pterossauros. No caso do material de James Ross, a análise histológica também ajudou na identificação, porque a microestrutura óssea é compatível com a de pterossauros já conhecidos. Embora os fósseis não permitam uma classificação mais precisa, os fósseis indicam que os animais pertenciam ao grupo Pterodactyloidea, que reúne formas mais derivadas e frequentemente maiores. 

As estimativas sugerem animais impressionantes. O exemplar de James Ross pode ter pertencido a um pterossauro com envergadura entre 3 e 4 metros. Já o material de Vega Island talvez pertença a um indivíduo ainda maior, com algo entre 4 e 5 metros de envergadura. Isso significa que a Antártica do Cretáceo abrigava grandes voadores, e não apenas formas pequenas e ocasionais. 

O estudo também é importante por outro motivo, ele mostra como fósseis fragmentários podem ter grande valor científico. Em ambientes de campo difíceis, como a Antártica, é comum encontrar restos incompletos e fora de posição original. Ainda assim, com comparação anatômica, análise microscópica e contexto geológico, é possível tirar conclusões relevantes sobre a distribuição dos organismos no passado. 

No fim, a principal mensagem do artigo é clara, grandes pterossauros pterodactiloides viveram na região da Península Antártica desde pelo menos o Santoniano-Campaniano (há cerca de 80 milhões de anos) até o final do Cretáceo (66 milhões de anos). Além disso, os autores destacam que esses são os primeiros materiais antárticos de pterossauros descritos de forma detalhada. É uma descoberta que ajuda a preencher uma lacuna importante na história evolutiva desses animais e mostra que eles conseguiram ocupar praticamente todas as partes do planeta.


Texto fonte: Kellner, A.W.A.; Rodrigues, T.; Costa, F.R.; Weinschütz, L.C.; Figueiredo, R.G.; Souza, G.A.; Brum, A.S.; Eleutério, L.H.S.; Mueller, C.W.; Sayão, J.M. (2019). Pterodactyloid pterosaur bones from Cretaceous deposits of the Antarctic Peninsula.
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Disponível em: https://www.scielo.br/j/aabc/a/CcYBLYkgDhfJfvQDNdRxK4m/?lang=en.

Fonte e legenda da imagem de capa: MN 7801-V, interpretado como o metacarpo da asa direita (?) coletado na Ilha Vega, em vista (a) anterior, (b) ventral, (c) posterior e (d) dorsal. 
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Texto revisado por: Natália Medeiros e Alexandre Liparini.

Um caramujo blindado com sulfeto de ferro e o que ele nos explica sobre a evolução convergente

Escrito em: 28 de maio de 2026

Por: Thelma Alves

Você já imaginou um animal capaz de fabricar sulfeto de ferro – o mesmo mineral da pirita, o “ouro dos tolos” – dentro do seu próprio corpo? Pois ele existe. E vive há mais de 2.400 metros de profundidade, nas fontes hidrotermais do Oceano Índico.

Seu nome é “caramujo de pé escamoso” (Chrysomallon squamiferum). Ele é a única espécie conhecida que incorpora sulfeto de ferro em seu esqueleto externo – pequenas placas (escamas) que recobrem o seu pé  e parte de sua concha são revestidas com esse mineral.

Em 2020, uma equipe internacional de cientistas sequenciou o genoma dessa criatura. O estudo, publicado na Nature Communications, revelou que o caramujo usa um gene chamado MTP9, que fica 27 vezes mais ativo em populações que vivem em águas ricas em ferro. Esse gene ajuda o animal a tolerar o metal e a depositá-lo em suas escamas.

O caramujo vive em fontes hidrotermais – verdadeiras “chaminés” no fundo oceânico, por onde água aquecida carregada de metais como ferro, cobre e zinco é jorrada pelo magma. Esses depósitos são hoje o principal alvo da mineração submarina. Em 2019, o caramujo se tornou a primeira espécie do mundo oficialmente listada como ameaçada pela mineração em águas profundas.

Além de tudo isso, as escamas do caramujo atual são muito parecidas com as de fósseis do Cambriano, como Halkieria e outros gêneros pertencentes a ordem extinta Sachitida, que viveram há cerca de 540 milhões de anos. Não há parentesco direto – as duas linhagens estão separadas por centenas de milhões de anos. O que temos é chamado de evolução convergente: dois grupos de animais não aparentados que, sob pressões ambientais semelhantes, chegaram à mesma solução estrutural de forma independente.

O caramujo de pé escamoso nos ensina que a evolução não parte do zero. Ela reaproveita genes antigos, duplica e recombina soluções já existentes e nos alerta: o fundo do mar guarda não apenas minérios valiosos, mas também espécies únicas que podem desaparecer antes mesmo de serem totalmente conhecidas.


Texto fonte: Sun, J.; Chen, C.; Miyamoto, N.; et al. (2020). The Scaly-foot Snail genome and implications for the origins of biomineralised armour. Nature Communications, v. 11, n. 1, p. 1-14. DOI: 10.1038/s41467-020-15522-3.

Disponível em: https://www.nature.com/articles/s41467-020-15522-3.

Fonte e legenda da imagem de capa: Caramujo de pé escamoso (Chrysomallon squamiferum), espécie de fonte hidrotermal do Oceano Índico. Este é o único animal conhecido que biomineraliza sulfeto de ferro (pirita) em suas escamas e concha. A espécie foi descoberta em 2001 e, em 2019, tornou-se a primeira do mundo listada como ameaçada pela mineração submarina. Fonte: Sun et al. (2020), Nature Communications, Fig. 1 (adaptado).

Disponível em: https://www.forumcoquillages.com/t13844-peltospiridae-chrysomallon-squamiferum-chen-linse-copley-rogers-2015.

Texto revisado por: André Reis Lage e Alexandre Liparini.

Os “Krakens” da vida real: polvos gigantes dominavam os mares do cretáceo

Escrito em: 30 de abril de 2026

Texto escrito por: Laura Dias Bueno 

Revisão: Damiane Mello

Quem nunca ouviu a lenda sobre um animal mitológico e misterioso chamado Kraken, que afundava navios com seus tentáculos gigantes? Pesquisadores talvez tenham encontrado um animal muito semelhante a lenda, proveniente do Período Cretáceo há cerca de 100 milhões de anos. Um estudo publicado na revista Science revela que os primeiros polvos com nadadeiras foram, na verdade, predadores de topo, competindo com os maiores répteis marinhos da época.

Para chegar a essa conclusão, os pesquisadores estudaram mandíbulas fossilizadas de duas espécies recém-classificadas: Nanaimoteuthis jeletzkyi e N. haggarti. As estruturas em questão estavam surpreendentemente bem preservadas. O tamanho das mandíbulas permitiu estimar o comprimento total desses animais: até 1,84 metros de comprimento do manto (o corpo principal) para a menor espécie, e até 4,43 metros para a maior. Quando se incluem os braços, esses polvos podiam atingir de 7 a 19 metros de comprimento total.

Porém, o que mais chamou a atenção dos cientistas foi o desgaste intenso nas mandíbulas. Marcas de lascados, arranhões e polimento indicam que esses polvos usavam suas bocas para triturar esqueletos duros de presas, como conchas e ossos. Ou seja, eram animais durófagos (especialistas em esmagar), algo raro entre invertebrados modernos. Além disso, o desgaste aparecia de forma assimétrica: um lado da mandíbula estava sempre mais gasto que o outro. Essa é uma evidência de comportamento lateralizado, como o nosso uso preferencial da mão direita ou esquerda, e sugere que esses polvos tinham um sistema nervoso complexo e elevada inteligência.

Para chegar a essas descobertas sobre o desgaste e o tamanho, os pesquisadores usaram uma combinação de métodos inovadores, incluindo o uso de Inteligência Artificial (IA). Eles revisitaram 15 mandíbulas fósseis já conhecidas e descobriram outras 12 por meio de uma técnica chamada “mineração digital de fósseis”. Essa tecnologia utiliza tomografia de alta resolução aplicada para analisar amostras de rochas que passaram pelo processo de moagem e um modelo de inteligência artificial com aprendizado zero-shot (zero-shot learning), desenvolvido especialmente para o estudo. O software de IA processou grandes volumes de imagens com precisão, revelando detalhes invisíveis a olho nu, como padrões de pigmentação e as marcas de desgaste nas mandíbulas. Com essas ferramentas, os cientistas também puderam entender melhor a evolução desses animais.

Outro ponto interessante é que esses animais não tinham concha externa protetora, ao contrário de muitos cefalópodes antigos. Eles se diversificaram amplamente após o Triássico Superior (entre 237 e 201 milhões de anos atrás), e uma das mais importantes é que perderam essa concha externa. Com um corpo mole e ágil, isso lhes permitiu desenvolver visão apurada e habilidades de caça sofisticadas. Essa combinação foi tão bem-sucedida que surgiu de forma convergente tanto em polvos gigantes quanto em vertebrados marinhos predadores.

A descoberta, por fim, também quebra um paradigma: durante os últimos 370 milhões de anos, grandes vertebrados dominaram o topo da cadeia alimentar marinha. Agora, sabemos que, no Cretáceo, invertebrados enormes e inteligentes ocuparam esse posto. Esses polvos dotados de nadadeiras cefálicas não eram monstros lendários, mas predadores reais, capazes de influenciar toda a estrutura dos ecossistemas oceânicos da época.

Antes do asteroide: mudanças climáticas já estavam afetando a vida dos dinossauros

Escrito em: 27 de maio de 2026

Por: Júlia Dell’Isola Silva

O Planeta Terra, ao longo de sua história, passou por diversos eventos climáticos extremos, incluindo grandes extinções em massa e profundas mudanças nos ecossistemas. Entre os grupos mais conhecidos desse passado estão os dinossauros, que dominaram a Terra por milhões de anos antes de se extinguirem.

Esses animais viveram durante o Mesozoico, mas foram extintos há cerca de 66 milhões de anos, no final do Período Cretáceo. Já se sabe que um dos principais responsáveis por essa extinção foi o impacto de um asteroide na região do atual México, formando a Cratera de Chicxulub. No entanto, as espécies não desapareceram apenas pelo impacto em si, mas principalmente pelas suas consequências, como a formação de uma nuvem de poeira que bloqueou a luz solar e alterou drasticamente o ambiente planetário.

Mas será que outros fatores já estavam afetando a vida dos dinossauros antes mesmo desse evento?

Um estudo recente realizado na China traz novas pistas sobre essa questão. Os cientistas analisaram fósseis de dinossauros e rochas sedimentares, utilizando técnicas de magnetismo, método que permite reconstruir condições climáticas do passado a partir das propriedades magnéticas das rochas. Os resultados mostraram que, entre aproximadamente 68 e 66 milhões de anos atrás, houve um aumento gradual de chuvas, que atingiu seu pico pouco antes da extinção. Esse padrão acompanha tendências globais de aquecimento climático registradas no final do Cretáceo.

Além disso, os pesquisadores observaram uma relação direta entre essas mudanças climáticas e a presença de dinossauros na região. Nos períodos em que o clima era mais estável, havia maior abundância de fósseis, especialmente ovos preservados em antigas planícies de inundação — áreas ideais para construção de ninhos. Mas com o aumento das chuvas os rios se tornaram mais instáveis, transformando essas áreas em ambientes menos favoráveis para a construção de ninhos. Como consequência, a quantidade de fósseis de dinossauros diminuiu gradualmente.

O dado mais impressionante é que, nos últimos 400 mil anos do Cretáceo nessa região, nenhum fóssil de dinossauro foi encontrado. Segundo os cientistas, isso pode indicar que os dinossauros migraram para áreas mais favoráveis ou simplesmente desapareceram localmente devido às condições ambientais adversas. Esse achado indica que, mesmo antes do impacto do asteroide, os dinossauros já estavam enfrentando pressões ambientais significativas. Mudanças no clima, como aumento da temperatura e da precipitação, podem ter afetado não apenas sua sobrevivência, mas também seu comportamento reprodutivo e sua distribuição geográfica.

Ao olhar para o passado, surge uma reflexão inevitável sobre o presente. Hoje, o planeta também enfrenta mudanças climáticas aceleradas, com aumento das temperaturas globais e instabilidades climáticas cada vez mais extremas. Assim como no passado, essas mudanças já estão modificando habitats e influenciando a distribuição de diversas espécies. A história dos dinossauros, portanto, não é apenas sobre um evento catastrófico, mas também sobre como mudanças ambientais graduais podem enfraquecer ecossistemas ao longo do tempo. Diante disso, fica a pergunta: quais serão as consequências das transformações climáticas atuais para a vida na Terra, em um futuro não muito distante?


Texto fonte: Fei Han, Yuqi Han, Xinying Zhou, Huapei Wang, Huafeng Qin, Qiang Wang, Chenglong Deng. Climate change contributed to the disappearance of the latest Cretaceous dinosaurs in the Shanyang Basin, Central China. (2024). Palaeogeography, Palaeoclimatology, Palaeoecology, Volume 653, 112421, ISSN 0031-0182, https://doi.org/10.1016/j.palaeo.2024.112421.

Disponível em: https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0031018224004103?via%3Dihub.

Fonte e legenda da imagem de capa: Representação de um ambiente do final do Cretáceo, com dinossauros em uma planície fluvial sob condições climáticas instáveis. A cena destaca chuvas intensas, solos encharcados e áreas de nidificação (ninhos com ovos) potencialmente afetadas por mudanças ambientais, como o aumento da temperatura e da precipitação.

Disponível em: Imagem de capa gerada por inteligência artificial com o auxílio do ChatGPT (OpenAI), a partir de descrição baseada no conteúdo do artigo científico sobre mudanças climáticas no final do Cretáceo. A ilustração tem caráter meramente representativo e foi criada para fins didáticos e de divulgação científica.

Texto revisado por: Sandro Ferreira de Oliveira e Alexandre Liparini.

Variação entre dinossauros: nem tudo é uma nova espécie

Escrito em: 28 de Abril de 2026

Por: Beatriz Lacerda Miranda

Um estudo recente trouxe uma nova forma de enxergar os dinossauros e pode mudar o que sabemos sobre esses animais pré-históricos. Pesquisadores analisaram fósseis  e perceberam que muitas diferenças entre eles não indicam necessariamente espécies distintas. Em vez disso, essas variações podem ocorrer dentro de uma mesma espécie, em um fenômeno conhecido como variação intraespecífica.

Essa variação é algo comum na natureza. Assim como acontece com outros animais, indivíduos da mesma espécie podem apresentar diferenças de tamanho, forma e estrutura corporal. No caso dos dinossauros, isso pode estar relacionado a fatores como idade, já que filhotes, juvenis e adultos possuem características diferentes ao longo do crescimento. Além disso, diferenças entre machos e fêmeas, chamadas de dimorfismo sexual, também podem explicar parte dessa diversidade. Outros fatores, como condições ambientais, disponibilidade de alimento e até doenças ou lesões, podem influenciar o desenvolvimento dos indivíduos, tornando-os ainda mais distintos entre si.

O problema é que, ao longo da história da paleontologia, nem sempre essas variações foram levadas em consideração. Isso fez com que alguns fósseis fossem classificados como pertencentes a espécies diferentes, quando na verdade poderiam ser apenas variações de uma mesma espécie. Esse tipo de erro pode afetar diretamente a forma como os cientistas constroem as árvores evolutivas dos dinossauros.

Nesse estudo, os pesquisadores também destacam que, em alguns casos, as diferenças entre indivíduos jovens e adultos podem ser tão grandes que chegam a confundir até especialistas. Um dinossauro jovem pode parecer mais diferente de um adulto da mesma espécie do que de um adulto de outra espécie, o que torna o estudo ainda mais desafiador. Para evitar esses equívocos, os cientistas utilizam diferentes métodos de análise, como a comparação da forma dos ossos, medições detalhadas e até o estudo microscópico dos tecidos ósseos. Essas técnicas ajudam a entender melhor o crescimento e as transformações que ocorrem ao longo da vida dos dinossauros.

No fim das contas, esse novo olhar mostra que os dinossauros eram ainda mais complexos e variados do que imaginávamos. Compreender essas variações é essencial para tornar os estudos mais precisos e revelar, com mais clareza, a história evolutiva desses fascinantes animais que habitaram a Terra há milhões de anos.


Texto fonte: Borsekowsky, A., Damke, L. V. S., Garcia, M., & Da-Rosa, Á. (2025). Dinossaurinho ou Dinossaurão? Investigação da variação intraespecífica nos primeiros dinossauros não-avianos conhecidos. Terræ Didatica, 21(Publ. Contínua), e025007. doi: 10.20396/td.v21i00.8678935.

Disponível em: https://periodicos.sbu.unicamp.br/ojs/index.php/td/article/view/8678935 Acesso em: 25/04/2026

Fonte e legenda da imagem de capa: Exemplos de séries ontogenéticas de dinossauros saurísquios do Triássico. A – Coelophysis bauri B – “Nhandumirim waldsangae” e Saturnalia tupiniquim. C – Mussaurus patagonicus.

Disponível em: https://drive.google.com/open?id=1yUcqJCj5dI1Kny_qVjgPYuLS56b1h1tZ.

Texto revisado por: Cíntia Silva

Deserto do Botucatu: Uma história sobre a Paleontologia do Brasil.

Escrito em: 28 de maio de 2026

Por: Henrique Ferreira Lacerda.

O artigo “Paleodeserto Botucatu: inferências ambientais e climáticas com base na ocorrência de icnofósseis”, discute a importância dos icnofósseis para a reconstrução do ecossistema e o ambiente pré-histórico da Formação Botucatu. O trabalho parte da premissa de que vestígios de atividade biológica preservados nas rochas, como pegadas, pistas e escavações, funcionam como indicadores diretos das condições físicas e químicas do passado e também características dos sedimentos e rochas sedimentares. 

Neste contexto, a espécie brasileira descrita como “Brasilichium elusivum” tomou um papel importantíssimo no desenvolvimento da reconstrução deste deserto bem como marcas de chuva e icnofósseis de vários vertebrados e invertebrados preservados em rocha. 

As pegadas atribuídas a vertebrados, incluindo dinossauros terópodes e pequenos mamíferos, demonstram que o deserto pré-histórico era percorrido por diferentes grupos animais. Ao mesmo tempo, pistas de invertebrados, como aquelas associadas a artrópodes, indicam que organismos pequenos também ocupavam ou transitavam por esse sistema.

O tema do deserto pré-histórico Botucatu possui grande potencial para a divulgação científica porque conecta conceitos de geologia, paleontologia, clima, evolução da vida e história natural do Brasil. Dessa maneira, é possível gerar uma aproximação entre ciência e público de modo que o patrimônio fóssil seja reconhecido.


Texto fonte: FERNANDES, Marcelo Adorna; GHILARDI, Aline Marcelle; CARVALHO, Ismar de Souza. (2007). Paleodeserto Botucatu: inferências ambientais e climáticas com base na ocorrência de icnofósseis. In: Paleontologia: Cenários de Vida – Paleoclimas. Rio de Janeiro: Interciência,  p. 71-81. 

Disponível em: https://www.researchgate.net/publication/260883586_PALEODESERTO_BOTUCATU_INFERENCIAS_AMBIENTAIS_E_CLIMATICAS_COM_BASE_NA_OCORRENCIA_DE_ICNOFOSSEIS 

Fonte e legenda da imagem de capa: Brasilihium elusivum, Icnofósseis e rastros de chuva: Os icnofósseis Brasileiros que ajudaram a reconstruir o passado do Brasil.

Disponível em:https://agencia.fapesp.br/mamifero-saltava-ha-mais-de-140-milhoes-de-anos/25652.

Texto revisado por: Ruan Honorato Marzano Cintra, Sandro Ferreira de Oliveira e Alexandre Liparini.

A Origem das Leveduras

Escrito em: 25 de outubro de 2025

Por: Yuri Melo

Uma equipe de cientistas russos fez uma descoberta impressionante que pode mudar a forma como entendemos a origem e a evolução das leveduras na Terra, pesquisadores do Instituto de Geologia de Diamantes e Metais Preciosos da Academia Russa de Ciências, liderados por Petr Kolosov e Irina Okhlopkova, identificaram microfósseis de fungos do tipo levedura preservados em rochas com cerca de 550 milhões de anos, datadas do período Ediacariano, antes do aparecimento das plantas e animais complexos.

Esses fósseis foram encontrados na Formação Byuk, localizada na calha de Berezovsky, região leste da plataforma siberiana, uma das áreas mais antigas e bem preservadas da crosta terrestre. As rochas analisadas são estromatólitos, estruturas laminadas formadas por comunidades microbianas que funcionavam como “recifes” primitivos e dentro dessas formações, os pesquisadores descobriram as minúsculas células fossilizadas dos fungos, surpreendentemente bem preservadas.

Usando microscopia eletrônica de varredura, os cientistas observaram detalhes muito pequenos das células e puderam identificar características idênticas às das leveduras modernas, como a reprodução por brotamento, a formação de esporos e a divisão celular. Esses processos são típicos de fungos unicelulares e demonstram que, já naquela época, esses organismos possuíam modos de vida parecidos aos atuais.

Os fungos receberam o nome de Tungusia mane, em referência à região do leste da Rússia, de acordo com o estudo, essas leveduras viviam em associação com algas verdes lamelares, das quais se alimentavam por parasitismo, ou seja, extraíam nutrientes diretamente das algas. Essa relação sugere que, há centenas de milhões de anos, já existiam interações ecológicas entre microrganismos, semelhantes às que observamos nos ecossistemas modernos.

Os pesquisadores acreditam que o Tungusia mane pode representar um dos ancestrais mais antigos dos fungos de levedura modernos, grupo que inclui espécies como as do gênero Saccharomyces, amplamente utilizadas hoje em processos de fermentação de pães e cerveja na indústria biotecnológica. Essa descoberta preenche uma lacuna importante na história evolutiva dos fungos, pois até agora havia pouquíssimas evidências fósseis que comprovassem sua existência antes do período Cambriano.

Além disso, o estudo destaca o papel essencial dos fungos na formação dos primeiros ecossistemas da Terra, durante esse período, os mares rasos e ricos em nutrientes da Sibéria abrigavam uma variedade de microrganismos, e os fungos provavelmente contribuíram para o ciclo de matéria orgânica e mineralização dos sedimentos, ajudando a moldar o ambiente que, mais tarde, permitiria o surgimento dos primeiros animais multicelulares.

A descoberta reforça a importância da plataforma siberiana como um verdadeiro tesouro paleontológico, oferecendo uma janela única para o passado remoto da vida na Terra. Segundo os autores, novos estudos na região podem revelar ainda mais formas de vida microscópica do Pré-Cambriano, ajudando a compreender como os primeiros fungos se originaram e evoluíram até as espécies que conhecemos hoje.


Texto fonte: Kolosov, P., & Okhlopkova, I. (2024). Yeast fungi in the Ediacaran stromatolites of the Siberian Platform. Revista Brasileira De Paleontologia, v. 27, n. 3, p. 1-10, e20240403. Doi: https://doi.org/10.4072/rbp.2024.3.0403.

Disponível em: https://sbpbrasil.org/publications/index.php/rbp/article/view/403.

Fonte e legenda da imagem de capa: Imagem de microscopia eletrônica de varredura da levedura ancestral parasitando uma alga verde.

Disponível em: https://drive.google.com/open?id=1yUcqJCj5dI1Kny_qVjgPYuLS56b1h1tZ.

Texto revisado por: Sandro Ferreira de Oliveira e Alexandre Liparini.