Macaco que pula de ilha em ilha quer colonizar novo continente

29 de junho de 2022

Por: Wanderson Lemes

A história dos macacos no continente sul-americano começou por volta de 40 a 50 milhões de anos atrás, época em que América do Sul não possuía contato direto com a África e ainda não havia conexão com a América do Norte pelo Istmo do Panamá. Então, de onde vieram esses primatas e como chegaram à América do Sul?

Durante o século XX diversas teorias ganharam espaço, onde ideia mais aceita era que os macacos do Novo Mundo (platirrinos – focinho mais curto com as narinas voltadas para os lados) e os macacos do Velho Mundo (catarrinos – possuem um focinho longo com as narinas voltadas para baixo) desenvolveram suas características em paralelo na África e na América do Sul a partir de ancestrais comuns. Nenhum fóssil ancestral que liga os macacos do Novo Mundo com os do Velho Mundo foi encontrado na América do Sul.

Evidências fósseis e moleculares indicam que os platirrinios se diversificaram de grupos que migraram da África para a América do Sul. Se vieram da África, como os macacos do Novo Mundo conseguiram atravessar o Oceano Atlântico? Três hipóteses foram levantadas para explicar uma possível migração transatlântica dos macacos para a América do Sul: pontes terrestres, saltos de ilha em ilha e transporte em “ilhas flutuantes”.

As placas tectônicas africanas e sul-americanas estão se separando há pelo menos 100 milhões de anos devido a deriva continental, o que indica que se os animais terrestres migraram de um continente para outro após esse período, algum tipo de dispersão oceânica deve ter ocorrido. Reconstruções ambientais e evidências científicas descartam a existência de uma ponte terrestre conectando a África com a América do Sul.

Já alguns pesquisadores sugerem a existência de ilhas muito próximas umas das outras e terrenos rasos no Atlântico Sul. Essas ilhas podem ter reduzido consideravelmente a distância de uma possível migração de primatas da África para a América do Sul. Porém, devido à falta de dados, não é possível determinar se a distribuição de ilhas no tempo e no espaço teria sido suficiente para permitir que os mamíferos migrassem de ilha em ilha.

O modelo de ilha flutuante continua sendo uma teoria plausível e compatível com direções de correntes marítimas de 60 milhões de anos atrás até o presente. No entanto, uma condição para que a migração de ilhas flutuantes obtenha sucesso é que as distâncias sejam pequenas, o suficiente para permitir que os animais sobrevivam até que alcancem com sucesso uma massa de terra maior. Modelos e reconstruções indicam que uma ilha flutuante levaria de 5 a 15 dias para cruzar o Oceano Atlântico a partir da África, demonstrando um modo viável de dispersão para mamíferos de pequeno e médio porte. Então, um cenário envolvendo a presença de ilhas próximas umas das outras e a utilização de ilhas flutuantes entre essas massas de terra poderia ter facilitado uma possível travessia da África, reduzindo a distância de migração.

Outras hipóteses podem ser levantadas, como a suposição que primatas ancestrais chegaram à América do Sul vindos da América do Norte (Estreito de Bering e posteriormente pelo Mar do Caribe) ou pela Antártica, que estava ligada à América do Sul na época. Porém não há registros fósseis em nenhuma das massas continentais para reforçar essas teorias. Então, se a rota de migração envolveu a América do Norte ou a Antártica, supõe-se que os ancestrais platirrinos não deixaram nenhum fóssil nesses continentes, ou que ainda não foram encontrados. Assim, a dispersão por ilhas oceânicas de grupos de macacos africanos para a América do Sul em algum momento entre 40 e 50 milhões de anos atrás é a explicação mais provável para a distribuição de platirrinos fósseis e atuais em nosso continente.

Texto fonte: Oliveira, F.B.d., Molina, E.C., Marroig, G. (2009). Paleogeography of the South Atlantic: a Route for Primates and Rodents into the New World? In: Garber, P.A., Estrada, A., Bicca-Marques, J.C., Heymann, E.W., Strier, K.B. (eds) South American Primates. Developments in Primatology: Progress and Prospects. Springer, New York, NY. Doi: 10.1007/978-0-387-78705-3_3 Disponível em: https://link.springer.com/chapter/10.1007/978-0-387-78705-3_3 . Acessado em: 26/01/2023.

Fonte e legenda da imagem de capa: Saguis-de-tufo-branco (micos-estrela) se segurando em troncos de árvores. Imagem utilizada para ilustrar um dos platirrinos atuais. Autoria de BrasilEire. Extraída de commons.wikimedia.org. Disponível em: https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/7/71/White_flower_with_beetle.jpg/727px-White_flower_with_beetle.jpg?20070530153824. Acessada em: 26/01/2023.

Ashfall Fossil Beds: um sítio fossilífero criado por uma erupção vulcânica

03 de julho de 2022

Por: Lucas Ferreira Goularte

O sítio fossilífero Ashfall Fossil Beds, antigamente um lago, localizado no estado de Nebraska, Estados Unidos, é um registro do impacto catastrófico de uma erupção super vulcânica que ocorreu a 1600 km dessa comunidade biótica. Por volta de 12 milhões de anos atrás um supervulcão em Idaho, nos Estados Unidos, entrou em erupção repentinamente e enviou cinzas durante um longo período de tempo, por toda a extensão da América do Norte, criando um ambiente quase sem oxigênio — característica que contribui para a preservação de fósseis.

Essa erupção vulcânica, foi responsável por promover um surpreendente poder de preservação de fósseis, além de todo o seu poder destrutivo, óbvio. Esse evento conseguiu manter preservado por milhões de anos no futuro, um ecossistema inteiro nas emergentes Grandes Planícies do final do Mioceno, fazendo com que essa região de Ashfall Fossil Beds, tenha um valor altamente significativo em vários aspectos de estudos científicos.

A região em Ashfall Fossil Beds é conhecida por ser um Lagerstätte — termo da Paleontologia que se refere a depósitos sedimentares que apresentam um conjunto de fósseis incrivelmente preservados — de classe mundial de esqueletos de mamíferos predominantemente articulados, além disso, preserva um conjunto de esqueletos articulados de répteis, pássaros, entre outros.

É possível achar mais de 20 táxons enterrados nesta localidade das cinzas que se encontra dividida em diferentes camadas. Táxons de animais menores, como por exemplo, pássaros, tartarugas e mosquitos, se encontram em uma camada mais profunda desse sítio fossilífero, indicando uma morte rápida, ou seja, logo após o evento da erupção vulcânica. Infelizmente os animais maiores não tiveram a mesma “sorte”.

As camadas intermediárias são compostas basicamente por equídeos e camelídeos, estando separados dos esqueletos menores por vários centímetros de cinzas, indicando uma morte mais tardia, além disso, evidências encontradas nos ossos dos cavalos e camelos também sugerem essa morte mais tardia, podendo chegar a várias semanas ou meses após o evento. Por fim, mais de 100 esqueletos intactos, em sua maioria de rinocerontes, cobrem os restos das camadas superiores.

Além disso, apesar desse evento ter sido devastador, ele é um dos raros casos na paleontologia que ocorrem uma preservação excepcional em um contexto com tantas informações e devido a isso, permitiu que a comunidade científica conhecesse aspectos do comportamento, estrutura social, patologia de espécies, entre outras tantas informações, de 12 milhões de anos atrás. É válido relembrar que eventos de tamanha grandeza igual a essa erupção vista, são fenômenos extremamente raros, não devendo ocorrer nos próximos milhares de anos, felizmente.

Texto fonte: Tucker, S.T., Otto, R.E., Joeckel, R.M., and Voorhies, M.R., 2014, The geology and paleontology of Ashfall Fossil Beds, a late Miocene (Clarendonian) massdeath assemblage, Antelope County and adjacent Knox County, Nebraska, USA, in: Korus, J.T., [ed.], Geologic Field Trips along the Boundary between the Central Lowlands and Great Plains: 2014 Meeting of the GSA North-Central Section: Geological Society of America Field Guide 36, p. 1–22, doi:10.1130/2014.0036(01). Disponível em: https://pubs.geoscienceworld.org/books/book/889/chapter-abstract/4643607/The-geology-and-paleontology-of-Ashfall-Fossil?redirectedFrom=fulltext Acessado em: 20/01/2023.

Fonte e legenda da imagem de capa: Fósseis do sítio fossilífero Ashfall Fossil Beds. Autoria de Greg Goebel. Extraída de commons.wikimedia.org. Disponível em: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Ybash_7b_(7701114644).jpg . Acessada em: 20/01/2023.

Quem veio primeiro, a flor ou a abelha?

02 de julho de 2022

Por: Victor Gomes

As abelhas são animais que vemos comumente visitando as flores dos nossos jardins. Elas são ótimos exemplos de animais polinizadores. Cerca de 87,5% das angiospermas — plantas que produzem flores e frutos — tem como mediador dos seus gametas animais, sendo eles 70% insetos. Esta é uma interação muito importante, pois enquanto a planta se beneficia do transporte de pólen para a reprodução, os insetos se beneficiam com o néctar ou pólen, que servem de alimento. É uma relação muito íntima e algumas flores podem ser polinizadas por apenas um tipo específico de insetos. Por muito tempo se acreditava que os insetos polinizadores evoluíram e se diversificaram junto com as angiospermas, em um processo chamado coevolução, no entanto, para Yasmim Asar e seu grupo de pesquisa o processo pode ter ocorrido de maneira diferente.

A origem das angiospermas atuais é incerta. Fósseis de pólens com estruturas típicas destas plantas datam do Cretáceo inferior, há cerca de 125 milhões de anos atrás, porém estudos moleculares sugerem que estes organismos já estavam presentes na Terra desde o Jurássico, há cerca de 160 milhões de anos atrás, ou no Triássico, um período ainda mais antigo. O cenário antes do aparecimento destas plantas era dominado por gimnospermas (plantas que produzem sementes, porém não produzem flores nem frutos, como os pinheiros) e samambaias. Com o surgimento e diversificação das angiospermas, o cenário mudou e elas passaram a ocupar a maior parte dos ambientes terrestres.

Contudo os insetos que atualmente desempenham o papel crucial da polinização, como vespas, mariposas, moscas e besouros apareceram durante o Carbonífero e Permiano, bem antes das Angiospermas, há cerca de 260 milhões de anos atrás. Assim, sugeriu-se que o aparecimento e diversificação destes animais não estão ligados às angiospermas e já interagiam polinizando as gimnospermas. Essas plantas, que hoje em sua maioria são polinizadas pelo vento, eram polinizadas por insetos durante o Triássico até o meio do Cretáceo, ponto que marca o aparecimento da primeira angiosperma indiscutivelmente. No registro fóssil é possível ver insetos fossilizados junto com pólen de gimnospermas, além disso possuíam estruturas parecidas com o dos insetos polinizadores atuais para a otimização do transporte de pólen e coleta de néctar.

Ademais, segundo dados moleculares e fósseis, não ocorreu aumento da diversidade de insetos durante o Cretáceo, propondo que ocorreu uma substituição, os insetos que polinizavam as gimnospermas passaram gradativamente a polinizar as angiospermas a medida que se diversificavam. Os mais especializados acabaram sendo extintos, enquanto os mais generalistas possivelmente eram capazes de interagir com as novas plantas que passavam a ocupar cada vez mais o cenário terrestre. Com o passar do tempo, em um período pós-Cretáceo as angiospermas se diversificaram junto com os insetos, formando a grande e complexa rede de polinização que conhecemos hoje. As gimnospermas perderam o espaço que antes ocupavam e passaram a se situar principalmente nas zonas temperadas, onde o clima frio e seco impossibilita a polinização pela maioria do insetos, assim passaram a utilizar do vento como principal polinizador.

Artigo fonte: Yasmin Asar, Simon Y.W. Ho, Hervé Sauquet, 2022, Early diversifications of angiosperms and their insect pollinators: were they unlinked?, Trends in Plant Science, 1360-1385. Doi.: 10.1016/j.tplants.2022.04.004 Disponível em: https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S136013852200108X?via%3Dihub . Acessado em: 20/01/2023.

Fonte e legenda da imagem de capa: Imagem ilustra um inseto polinizador visitando uma flor. Autoria de Alvesgaspar. Extraída de commons.wikimedia.org. Disponível em: https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/7/71/White_flower_with_beetle.jpg/727px-White_flower_with_beetle.jpg?20070530153824. Acessada em: 20/01/2023.

Primeiro registro de um ovo amniótico da Bacia do Araripe*

03 de julho de 2022

Por: Emanuele Tadeu Pozzolini

*Texto publicado também no espaço biótico <confira aqui>

Um grupo de pesquisadores brasileiros encontraram o primeiro registro fóssil de um ovo amniótico na Bacia do Araripe, importante sítio paleontológico do Brasil que está localizado na divisa dos estados do Ceará, Pernambuco e Piauí. O grupo coordenado pela pesquisadora Dayanne Abreu, do departamento de Geologia da Universidade Federal do Ceará, publicou seu achado no segundo semestre de 2020, na Revista Brasileira de Paleontologia.

Como foi ressaltado pelos pesquisadores, esse tipo de registro encontrado, um ovo amniótico, é potencialmente importante e carrega muitas informações sobre a evolução da reprodução dos vertebrados. Isso porque os ovos amnióticos são estruturas complexas e revolucionárias em termos evolutivos, já que apresentam uma vesícula com líquido que é responsável pela proteção do embrião contra eventuais lesões que ele pode sofrer quando exposto no meio ambiente. Esse também é um tipo raro de icnofóssil — que é o registro de atividade biológica — e a maioria que se tem catalogado no Brasil pertence aos dinossauros e foram encontrados na Bacia Bauru, outro ponto geológico importante, que abarca, entre outros, os estados de Minas Gerais e São Paulo.

No estudo divulgado, foram usadas diversas técnicas para identificação do ovo, que o grupo considerou como sendo de crocodilomorfa, superordem que engloba os atuais crocodilianos e outros parentes já extintos. A partir de outras análises, como a tomografia computadorizada, foi possível detectar algumas estruturas basais de embrião, indicando que esse deve ser o primeiro ovo fóssil com conteúdo embrionário de crocodilomorfa do mundo.

Esse tipo de achado é muito importante para elucidar a história evolutiva dos diversos seres vivos, animais e plantas, que temos hoje e seus antepassados. Encontrar esse tipo de informação no Brasil também é relevante, pois ajuda a contar a história paleontológica do país, esclarecendo que tipo de animais viviam por aqui há milhares de anos e como eles se comportavam.

Artigo fonte: ABREU, D.; VIANA, M. S. S.; OLIVEIRA, P. V. de; VIANA, G. F.; NOJOSA, D. M. B. First record of an amniotic egg from the Romualdo Formation (Lower Cretaceous, Araripe Basin, Brazil). Revista Brasileira de Paleontologia, v. 23, n. 3, p. 185-193, 2020. DOI: 10.4072/rbp.2020.3.03. Disponível em: https://sbpbrasil.org/publications/index.php/rbp/article/view/166. Acessado em: 20/01/2023.

Fonte e legenda da imagem de capa: Ovo amniótico fossilizado encontrado na Bacia do Araripe, Brasil. Barra de escala igual a 2 cm. Extraída do artigo fonte.

Dentes encontrados no Maranhão podem nos revelar mais do que pensamos!

03 de julho de 2022

Por: Filipe Aguiar Resende

Durante a escavação da borda leste da Bacia de São Luís-Grajaú, foram encontrados 72 dentes orais de raias do gênero Iscyrhiza, um feito inédito e extremamente interessante, sabe por quê? Essa descoberta, além de possibilitar o estabelecimento de dois subtipos do gênero, também ampliou a diversidade de espécies de raias ligadas a essa região, além de estender a distribuição deste gênero até o Cretáceo Inferior, o que antes era impossível!!

Você sabe o que estava acontecendo no mundo durante o período do Cretáceo? Bem, os continentes tinham “acabado” de serem divididos novamente, os dinossauros viviam sob a Terra e foi nessa época que ocorreu a tão famosa queda do meteoro que extinguiu os dinossauros, que todos conhecemos. E no Brasil, temos grandes amostras do Cretáceo em seu registro fóssil, este período durou de 145 a 66 milhões de anos e seus fósseis são encontrados principalmente em bacias equatoriais, como a bacia de São Luiz do Grajaú. O local preserva indícios da separação do continente Africano do Americano, e lá já foram documentadas rochas de todo o período.

Para essa escavação, os pesquisadores utilizaram um método que envolveu a coleta de rochas, a triagem, a desagregação química, e posterior lavagem, chamado de Screenwashing. O material estudado se trata de uma amostra de idade Mesoalbiano (cerca de 110 milhões de anos), que pesava cerca de 500 gramas, coletada em 2001 pela equipe de Paleontologia do Museu Paraense Emílio Goeldi. Amostra que, por sua vez, foi encontrada à margem do rio Itapecuru.

O gênero de Raias Ischyrhiza possuía doze espécies descritas até então, distribuídas na América do Sul, do Norte, na Europa e em poucos locais da África. Sua distribuição temporal se dava desde o início até o final do Cretáceo Superior, ou seja, durante o intervalo de 93,5 – 66 Ma. Portanto, o registro de Ischyrhiza para o Grupo Itapecuru, datado no cretáceo inferior (112 – 103 Ma), torna-se o registro mais antigo do gênero descrito até o momento!!!

Além dessa novidade temporal, os dentes encontrados não coincidem com o de nenhuma espécie descrita até então, ampliando assim a diversidade desses peixes, descritos para a unidade em questão.

Artigo fonte: FONTES, Neuza Araujo; SANTOS, Heloísa Maria Moraes; COSTA, Sue Anne Ferreira. (2012). Ocorrência de Ischyrhiza (Batoide: Sclerorhynchidae) para o grupo Itapecuru, Cretáceo (Albiano) do estado do Maranhão, BrasilBrazilian Geographical Journal: Geosciences and Humanities research medium, v. 3, n. 1, p. 2. Disponível em: https://seer.ufu.br/index.php/braziliangeojournal/article/view/14173. Acessado em: 14/12/2022

Fonte e legenda da imagem de capa: Exemplo de fóssil de raia da família Sclerorhynchidae, com dentes rostrais. Autoria de Hectonichus. Extraída de commons.wikimedia.org. Disponível em: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Sclerorhynchidae_-_Libanopristis_hiram.JPG. Acessada em: 14/12/2022.

Mecanismos de fertilização? Cocólitos podem ser a solução!

30 de junho de 2022

Por: Vitor Santos

A produtividade primária é um termo da ecologia que define a transformação da energia presente no meio em compostos orgânicos, por meio da atividade dos organismos autotróficos. Também é sabido que, durante um determinado período de tempo, é natural que a quantificação dessa produtividade varie, pois depende da energia e fertilidade do ambiente, os quais, por sua vez, estão ligados a diversos fatores. Sendo assim, para elucidá-los, por que não utilizar organismos cuja presença e quantidade estariam intrinsecamente correlacionados a esses fatores?

No trabalho de Juliana de Freitas Gonçalves e Adriana Leonhardt, foram utilizados cocolitoforídeos (ou cocólitos) – algas unicelulares microscópicas – para descobrir os mecanismos de fertilização das águas do cabo de Santa Marta, no sul da margem continental brasileira. No local, foi coletada uma amostra de solo de 365 centímetros (testemunho SIS188), a qual foi segmentada em tamanhos menores que foram submetidos individualmente aos testes. Dentre as amostras, há desde espécies que são consideradas oportunistas – isto é, que proliferam em áreas com nutriente e luminosidade abundantes – a espécies como a Florisphaera profunda, que está localizada em zonas de menor incidência luminosa e foi utilizada neste trabalho para monitorar a dinâmica da camada de maior concentração dos nutrientes.

Nesse sentido, por meio de datação a partir de isótopos de oxigênio contido nas testas (estruturas de revestimento dos cocólitos), foi definido que o testemunho compreende de 7.200 a 47.700 anos. Além disso, a partir da datação, foi possibilitado o estabelecimento de três estágios isotópicos marinhos (EIM) distintos para o período da datação. Também foram realizados testes com objetivo de quantificar o conteúdo de Carbonato de Cálcio (CaCO3) e o carbono orgânico total nos sedimentos, que são indicadores diretos da produção primária.

Dessa forma, durante os três EIMs descritos, foi o EIM1 que apresentou maior produção e maior taxa de sedimentação. Esse resultado está ligado ao Último Máximo Glacial e ao Heinrich Stadial 1, ocorridos no fim do EIM2. Neste cenário, massas de gelo se desprendem das geleiras e atravessam oceano atlântico norte, tendo efeitos secundários como perturbações na dinâmica atmosférica, redistribuição de fósforo e aumentando do aporte de poeira para os oceanos. Em adição a isto, outro fator importante é a insolação, capaz de influenciar a dinâmica atmosférica e também a ressurgência oceânica, que foi atenuada no período, corroborando a maior produção apresentada no período.

Artigo fonte: Gonçalves, J. de F.; Leonhardt, A. (2022). Mecanismos de fertilização inferidos através do registro de cocolitoforídeos durante o Quaternário Tardio na Margem Continental Sul-Brasileira. Revista Brasileira De Paleontologia, v. 25, n. 1, p. 76-89. Doi:10.4072/rbp.2022.1.06. Disponível em: https://sbpbrasil.org/publications/index.php/rbp/article/view/228. Acessado em: 14/12/2022

Fonte e legenda da imagem de capa: Cocolitoforídeos envoltos em sua testa composta por estruturas de carbonato de cálcio (CaCO3). Autoria de Robin Mejia, cortesia de Dr. Alison Taylor. Extraída de commons.wikimedia.org. Disponível em: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Coccolithophores.png. Acessada em: 14/12/2022.

O embrião de 120 milhões de anos*

01 de julho de 2022

Por: Aryel Paz

*Texto publicado também no espaço biótico <confira aqui>

Um fóssil encontrado em 2015, no Piauí, na Formação Romualdo da Bacia do Araripe, foi identificado como um ovo do grupo Crocodylomorpha do período Cretáceo Inferior. Nele foi possível identificar a estrutura de um embrião mineralizado!

Há milhões de anos, o surgimento do ovo amniótico foi um acontecimento ímpar na história evolutiva. Esse tipo de ovo protege o embrião do ressecamento fora da água, e foi, portanto, um dos fatores determinantes para a conquista do ambiente terrestre pelos animais. Por esse motivo, caracterizar e identificar fósseis como o fóssil encontrado no Piauí é indispensável para que possamos contar a história da vida.

Esse ovo é datado do Aptiano (entre 113 e 125 milhões de anos atrás) e pertence ao grupo Crocodylomorpha, que inclui os crocodilos que conhecemos hoje e seus parentes extintos. Além de ter sobrevivido a milhões de anos (o que já é um feito grandioso) ele pode ainda conter um embrião fossilizado, o que é bastante raro. Isso porque ovos são frágeis e é muito difícil que passem intactos pelo processo de fossilização. Na verdade, no caso desse fóssil da Formação Romualdo, isso foi possível porque o embrião encontra-se mineralizado. Isso quer dizer que, apesar de manter sua forma original, a composição química dos tecidos foi transformada, tornando-se mais resistente e durável.

Felizmente, apesar de o material ter sido modificado, ainda é possível extrair informações sobre esse fóssil incomum, como o grupo a que pertence. Para isso, o ovo foi comparado a ovos de espécies de animais recentes e passou por uma série de análises incluindo uma tomografia computadorizada, que possibilitou a identificação de estruturas anatômicas de um embrião. Comparando esses dados com embriões e ovos de animais que conhecemos hoje, é bastante seguro afirmar que se trata de uma espécie de Crocodylomorpha, o que pode tornar esse fóssil o primeiro ovo com resquícios embrionários encontrado desse grupo.

Artigo fonte: Abreu, D.; Viana, M. S. S.; Oliveira, P. V. de; Viana, G. F.; Nojosa, D. M. B. (2020). First record of an amniotic egg from the Romualdo Formation (Lower Cretaceous, Araripe Basin, Brazil). Revista Brasileira de Paleontologia, v.2 3, n. 3, p. 185–193. Doi: 10.4072/rbp.2020.3.03. Disponível em: https://sbpbrasil.org/publications/index.php/rbp/article/view/166. Acessado em: 29/11/2022

Fonte e legenda da imagem de capa: Ovo fóssil de Crocodylomorpha extinto envolto por sedimento calcário (concreção calcária). Barra de escala = 20 mm. Modificada do artigo fonte.

É possível que seu parente mais antigo era um organismo de tamanho milimétrico e sem ânus*

28 de junho de 2022

Por: Barbara Mota

*Texto publicado também no espaço biótico <confira aqui>

Conhecer a nossa ancestralidade é uma curiosidade de muitos, porém não é uma tarefa fácil, pois precisamos de encontrar fósseis com preservação e em quantidade suficiente para fazer inferências estatísticas com maior grau de confiabilidade, e quanto maior o intervalo de tempo, considerando uma escala de milhões de anos, maior a chance de perder informações de determinados fósseis. É aí que os microfósseis entram como protagonistas dessa história. Microfósseis constituem um grupo de organismos com tamanhos que variam de acordo com o grupo estudado, mas no geral são muito pequenos. Costumam ser encontrados em grandes quantidades, gerando um maior índice de confiabilidade estatística para os paleontólogos durante a reconstrução de informações sobre o passado. Entre os participantes desse curioso grupo, pode-se citar: dinoflagelados, foraminíferos, ostracodes e até mesmo grãos de pólen.

O grande grupo dos deuterostômios inclui diversos outros grupos, os quais possuem em comum características embrionárias peculiares: forma da larva, desenvolvimento do celoma e a boca do adulto não é originada pelo blastóporo, um aspecto muito importante que os diferencia do grupo dos protostomados. Entre os deuterostomados, está o grupo dos vertebrados, o qual inclui os Homo sapiens. Estudos indicam que esse superfilo (deuterostomados) se diversificaram por volta de 510-520 milhões de anos atrás e o conhecimento acerca do deuterostomado mais antigo ainda segue incerta.

Estudos liderados por Simon Conway (2017) trouxeram novas informações sobre um possível parente mais antigo dos vertebrados encontrado no Sul da China nas formações de Kuanchuanpu, do período Cambriano. Se trata de um microfóssil de tamanho milimétrico, chamado Saccorhytus coronarius. Sua aparência é bem diferente do que estamos acostumados a ver: tem um formato de sacola, uma boca muito proeminente, aberturas cônicas no corpo e nenhum indício de que possuía ânus. O estudo descreve minuciosamente sobre o deuterostômio original e apresenta um passo chave da evolução desse grupo, que seria o desenvolvimento de aberturas laterais.

Com essa pesquisa e entre tantas outras, conseguimos ver a importância dos microfósseis que muitas vezes passam despercebidos entre tantas curiosidades da paleontologia. É com os microfósseis que os pesquisadores conseguem fazer reconstruções paleobiológicas e ambientais, e aos poucos, vão também reconstruindo a história evolutiva do mundo antigo.

Artigo fonte: Han, J., Morris, S., Ou, Q. et al. (2017). Meiofaunal deuterostomes from the basal Cambrian of Shaanxi (China). Nature 542, 228–23. Doi: 10.1038/nature21072. Disponível em: https://www.nature.com/articles/nature21072. Acessado em: 29/11/2022

Fonte e legenda da imagem de capa: (A) Reconstrução digital do Saccorhytus coronarius. (B) Árvore filogenética mais parcimoniosa indicando a posição do Saccorhytus coronarius (indicado em vermelho), em relação aos outros grupos. Extraída do artigo fonte.

Novos achados para a megafauna da Amazônia

23 de junho de 2022

Por: Leonardo Marujo

Apesar das dificuldades da realização de pesquisas paleontológicas na região amazônica, fósseis têm sido encontrados em depósitos do período Quaternário ao longo de bancos e leitos de importantes rios da bacia amazônica. Estes fósseis foram encontrados em alguns países como Peru, Equador, Bolívia e Brasil.

Na região amazônica brasileira, consideráveis achados fósseis foram realizados nos rios Juruá e Madeira, que abrangem os estados do Acre, Amazonas e Rondônia. Entretanto, no Mato Grosso, são conhecidos poucos registros da megafauna do Quaternário, sendo estes provenientes do sítio arqueológico de Santa Elina e da caverna do Curupira. Em 2021, pesquisadores contribuíram para a mudança desse cenário e descreveram novos achados inéditos provenientes do rio Teles Pires e seus tributários. Estes fósseis foram recuperados de áreas de mineração de ouro, portanto, pela atividade das máquinas eles estavam bastante fragmentados. Apesar disso, foi possível determinar a que grupo de organismos eles pertenciam.

Foram encontrados fósseis de dentes, assim como fragmentos do osso dentário, ulna, úmero e fêmur, pertencentes a indivíduos de Notiomastodon platensis, um proboscídeo extinto parente dos elefantes atuais. Também foram encontrados fósseis de Eremotherium, um gênero de preguiças terrestres gigantes extintas e Toxodon platensis, membro de uma ordem extinta, os notoungulados.

Estudos de paleoecologia apontam que esses animais de grande porte possivelmente andavam em grupos e podiam ocupar uma variedade de biomas e consumir recursos alimentares variados. Animais da megafauna possuíam um importante papel no ecossistema, dispersando sementes, participando na disponibilidade de nutrientes e em ciclos bioquímicos. O Notiomastodon platensis, além de ser o único proboscídeo conhecido para o Brasil, também era um dos maiores animais terrestres da américa do sul, juntamente com a preguiça gigante Eremotherium laurillardi.

A presença de proboscídeos e de toxodontes ainda não era conhecida na literatura científica para a região. Assim, estes achados expandiram o conhecimento paleontológico da região amazônica, mostrando que ainda há muito a ser descoberto sobre o passado da região. Além de encontrar novos fósseis, é necessário que os já conhecidos sejam devidamente mantidos em instituições de pesquisa brasileiras para serem melhor estudados, para compor um importante acervo paleontológico do que hoje é o Brasil.

Artigo fonte: Lidiane Asevedo, Thaís Rabito Pansani, Victor Menezes Cordeiro, Silane Aparecida Ferreira Silva-Caminha, Jesus da S. Paixão, Mário Alberto Cozzuol, Mário André Trindade Dantas. (2021). Diversity of Pleistocene megamammals from southern Amazon, Mato Grosso state, Brazil. Journal of South American Earth Sciences, Volume 112, Part 1, 103552, ISSN 0895-9811. Doi: 10.1016/j.jsames.2021.103552. Disponível em: https://doi.org/10.1016/j.jsames.2021.103552. Acessado em: 21/11/2022

Fonte e legenda da imagem de capa: Reconstrução do esqueleto de Notiomastodon platensis. Autoria de Asier Larramendi. Extraída e modificada de commons.wikimedia.org. Disponível em: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Stegomastodon_and_Notiomastodon_skeletals.png. Acessada em: 21/11/2022.

Passos da Morte: uma associação inesperada entre pegadas e ossos de dinossauros*

29 de junho de 2022

Por: Henrique Paes Godinho

*Texto publicado também no espaço biótico <confira aqui>

O estudo da distribuição, arranjo espacial e estado de preservação dos fósseis é uma importante ferramenta para aprendermos sobre como os organismos do passado viviam, se comportavam, como morriam e se fossilizavam. Por isso, a descoberta de estranhas ‘’armadilhas’’ em forma de poço na região de Xinjiang, na China, com os restos fossilizados de dezenas de animais empilhados em seu interior, intrigou paleontólogos. Por que tantas espécies diferentes seriam encontradas juntas em espaços tão estreitos?

As estruturas, datadas do Jurássico Superior, são todas arredondadas, com 1 a 2 metros de diâmetro. A maioria dos ossos encontrados nelas pertence ao Limusaurus inextricabilis, um dinossauro bípede desdentado, que provavelmente era abundante no local. Os poços também prenderam outras três espécies de pequenos dinossauros, mamíferos, répteis aparentados aos crocodilos e uma tartaruga. Em geral, os restos estavam bem preservados e articulados, sem evidência de transporte ou retrabalhamento, mostrando que haviam morrido no interior das ‘’armadilhas’’.

As rochas nessa localidade, denominada de Wucaiwan, foram depositadas em um ambiente pantanoso. O solo era composto de uma crosta de sedimento rígido, talvez de origem vulcânica, recobrindo um lamaçal aquoso com cerca de 2 metros de profundidade. Analisando a composição dos poços, os autores concluíram que cada um tinha sido formado subitamente quando uma pressão vertical rompeu essa crosta superior, afundando na lama abaixo. Processos geológicos como as dolinas ou sumidouros podem formar estruturas semelhantes, mas as características do preenchimento e deformação do solo observadas no local descartam essas possibilidades.

Estruturas muito parecidas com as assembleias de Wucaiwan são comuns em outras localidades pela região; dispostas em séries organizadas, as marcas circulares lembram pegadas na trilha de um animal gigantesco. Embora não seja possível saber que espécie teria deixado essas trilhas, a região noroeste da China durante o Jurássico era rica em dinossauros saurópodes, como o Mamenchisaurus sinocanadorum, que ultrapassava os 26 metros de comprimento. Esses gigantes de pescoço longo tinham patas colunares cujo tamanho e forma combinam com os dos poços de Xinjiang, o que nos ajuda a esclarecer o que pode ter acontecido nesse local.

Conforme os saurópodes andavam sobre os solos de Wucaiwan, suas patas rompiam as camadas superficiais, formando profundas aberturas que a lama rapidamente preenchia. Devido a seu tamanho, um saurópode era facilmente capaz de alcançar o fundo do lamaçal, retirar seus pés e seguir viagem. Mas esses poços de lama, talvez ocultos pelas águas rasas do pântano, seriam difíceis de distinguir do sedimento ao redor — se um animal menor andasse sobre a lama instável recém-exposta, rapidamente afundaria e teria dificuldade de se impulsionar para fora. Provavelmente foi o que aconteceu com os pequenos vertebrados encontrados, que eventualmente morreram por afogamento ou inanição e se depositaram no fundo.

Com o passar do tempo, outros animais eram atraídos pelas carcaças em decomposição ou caíam acidentalmente nas mesmas aberturas, e novas camadas de esqueletos foram adicionadas sucessivamente, formando séries verticalizadas. Essas associações entre pegadas e esqueletos são as primeiras de seu tipo no registro fóssil e testemunham a influência dos maiores dinossauros sobre seus ecossistemas; é difícil imaginar outros organismos capazes de criar armadilhas naturais mortíferas apenas com sua movimentação habitual.

Artigo fonte: David A. Eberth, Xu Xing, & James M. Clark (2010). Dinosaur death pits from the Jurassic of China. PALAIOS, v. 25, p. 112-125. Doi: 10.2110/palo.2009.p09-028r. Disponível em: https://bioone.org/journals/palaios/volume-25/issue-2/palo.2009.p09-028r/DINOSAUR-DEATH-PITS-FROM-THE-JURASSIC-OF-CHINA/10.2110/palo.2009.p09-028r.short. Acessado em: 21/11/2022

Fonte e legenda da imagem de capa: As armadilhas naturais de Wucaiwan. (A) Saurópode gigante deformando o solo ao caminhar, formando poços que prendem animais menores. (B) Reconstrução do paleoambiente local, incluindo o terópode Guanlong wucaii, o maior animal encontrado nos poços. (C) Foto de uma das pegadas retirada do solo, com linhas pontilhadas mostrando a estratificação dos esqueletos encontrados em seu interior. Modificada do artigo fonte.