Como Fósseis de Mamutes explicam a História da Vida Microscópica na Terra?

Escrito em: 27 de outubro de 2025

Por: Lorena Batista Teixeira

Quando se pensa em fósseis, é comum que venham à mente enormes dinossauros que um dia habitaram a Terra. Também é comum imaginar que seres menores não teriam a menor chance de se perpetuar ao longo do tempo. No entanto, a vida na Terra sempre foi complexa e composta por inúmeros organismos, inclusive microrganismos. Esses seres microscópicos são componentes fundamentais dos ecossistemas e essenciais para seu funcionamento desde a origem da vida. Entender suas relações e comportamentos é importante para desvendar mistérios que atravessam a história do planeta.

A questão é: de que forma esses organismos podem ser estudados após tanto tempo? Pesquisas que buscam compreender a existência desses seres analisam principalmente suas relações com o ambiente, seja por meio do hospedeiro em que viviam, seja a partir de amostras antigas de solo. Um estudo publicado em 2025 na revista Cell avaliou amostras de 483 mamutes, datadas de cerca de 1 milhão de anos até o momento de sua extinção, para entender a relação dos micróbios que coexistiam com esses animais. As amostras incluíam dentes, pele e ossos fossilizados, sendo examinada a composição microbiana de cada uma.

Alguns gêneros de bactérias identificados mostraram-se filogeneticamente próximos de espécies que ainda hoje vivem em mamíferos. Entre eles, destaca-se um dos dois clados de Pasteurella, encontrado em 11 mamutes-lanosos de diferentes regiões, com semelhança genética a uma bactéria do gênero Actinobacillus isolada de fezes de porcos. O estudo também revelou a presença de um clado de Erysipelothrix em um molar de mamute-das-estepes e em ossos de mamutes-lanosos. A linhagem relacionada ao mamute-das-estepes foi datada em aproximadamente 1,1 milhão de anos, tornando-se, segundo o artigo, o genoma microbiano mais antigo associado a um hospedeiro já identificado.

Entre as limitações apontadas, destaca-se o alto risco de contaminação que restos mortais podem sofrer após a morte ou durante o processo de fossilização, devido à colonização por microrganismos que podem interferir na análise. Ainda assim, a avaliação desses organismos é de extrema importância para compreender sua evolução e sua influência na evolução dos próprios hospedeiros, revelando como a vida, visível ou microscópica, está interligada desde os tempos mais antigos.

Texto fonte: Guinet B, Oskolkov N, Moreland K, Dehasque M, Chacón-Duque JC, Angerbjörn A, Arsuaga JL, Danilov G, Kanellidou F, Kitchener AC, Muller H, Plotnikov V, Protopopov A, Tikhonov A, Termes L, Zazula G, Mortensen P, Grigorieva L, Richards M, Shapiro B, Lister AM, Vartanyan S, Díez-Del-Molino D, Götherström A, Pečnerová P, Nikolskiy P, Dalén L, van der Valk T. (2025). Ancient host-associated microbes obtained from mammoth remains. Cell. Sep 2:S0092-8674(25)00917-1. doi: 10.1016/j.cell.2025.08.003. Epub ahead of print. PMID: 40902595.

Disponível em: https://www.cell.com/cell/fulltext/S0092-8674(25)00917-1.

Fonte e legenda da imagem de capa: A imagem mostra um resumo geral sobre todos os pontos abordados no artigo, indicando a abrangência das amostras fósseis utilizadas, quais partes foram analisadas e como as descobertas podem se relacionar filogeneticamente.

Disponível em: https://www.cell.com/cell/fulltext/S0092-8674(25)00917-1.


Texto revisado por: Sandro Ferreira de Oliveira e AlexandreLiparini.

Vírus ancestrais, placenta moderna: o que a paleovirologia nos conta sobre a origem dos mamíferos

Escrito em: 21 de abril de 2025

Por: Giovanne de Aguiar Barra

Quando ouvimos a palavra “fóssil”, normalmente pensamos em ossos ou pegadas preservadas em rochas. Mas você sabia que também carregamos fósseis dentro do nosso DNA? A paleovirologia estuda justamente isso: os restos de antigos vírus que se integraram aos genomas de diversos hospedeiros ao longo da evolução.

 Esses vestígios virais, chamados de retrovírus endógenos, são como pegadas genéticas deixadas por vírus que infectaram os seres ancestrais há dezenas de milhões de anos. Ao sequenciar e comparar genomas de diferentes espécies, cientistas conseguem rastrear esses fragmentos virais e reconstituir sua história — assim como um paleontólogo reconstrói esqueletos completos com fragmentos fósseis. Essa abordagem nos ajuda a entender como certos vírus passaram de parasitas a peças essenciais da biologia daqueles a quem infectaram.

 No artigo em questão, é investigado a história de proteínas chamadas sincitinas, derivadas de vírus antigos, cruciais para a formação da placenta em mamíferos. Esses genes, originários de retrovírus que infectaram nossos ancestrais há mais de 80 milhões de anos, perderam sua capacidade infecciosa e foram “domesticados” pelo organismo para promover a fusão de células no tecido placentário. Sem eles, a gravidez em espécies como humanos e camundongos seria inviável.

 No estudo, a equipe comparou genes de diversas espécies, datando sua inserção e identificando mutações que revelam pressão seletiva (ou seja, a “necessidade” de mantê-los funcionais). Camundongos geneticamente modificados sem essa proteína, por exemplo, não formam a placenta corretamente, comprovando seu papel essencial. Isso é possível descobrir justamente porque os genomas guardam esses registros antigos, que podem ser comparados entre linhagens e datados com precisão.

 O estudo também sugere que a captura de genes virais pode ter sido um marco na transição de mamíferos ovíparos para placentários. Curiosamente, diferentes linhagens (como primatas, roedores e carnívoros) “domesticaram” sincitinas distintas, independentemente, em um exemplo notável de evolução convergente.

 A paleovirologia, portanto, nos mostra que a evolução não descarta nada: até mesmo genes de vírus extintos podem ser aproveitados para construir novidades evolutivas. No caso dos mamíferos, foi graças a um antigo invasor viral que a placenta pôde emergir.

Texto fonte: Lavialle, C.; Cornelis, G.; Dupressoir, A.; Esnault, C.; Heidmann, O.; Vernochet, C.; Heidmann, T. (2013). Paleovirology of ‘syncytins’, retroviral env genes exapted for a role in placentation. Philosophical Transactions of the Royal Society B: Biological Sciences, 2013, 368(1626), 20120507. Doi: 10.1098/rstb.2012.0507.

Disponível em: https://royalsocietypublishing.org/doi/10.1098/rstb.2012.0507.

Fonte e legenda da imagem de capa: Imagem criada por Amr Aswad. Modificado a partir de uma imagem de um peixe fóssil, obtida por meio da HAAP Media Ltd. e originalmente fotografada por Miguel Saavedra.

Disponível em: https://drive.google.com/open?id=1YkoNwVgkKjHMTVQLI1Gu6Q4sx7W88WQk.


Texto revisado por: Henrique Tosta Hernandes, Alexandre Liparini e Sandro Ferreira de Oliveira.

Cientistas estão usando tecnologia 3D para trazer fósseis de volta à vida

Escrito em: 25 de outubro de 2025

Por: Jullia Nascimento dos Santos

Você já imaginou como era a vida há milhões de anos atrás? Quem nunca teve a curiosidade de saber como os dinossauros seriam de pertinho ou qual era o tamanho dos outros animais? Se eles e as plantas se pareciam com o que vemos hoje…

Assim como muitos de vocês, os cientistas também possuem essas dúvidas e tentam respondê-las por meio dos fósseis (que são restos ou vestígios de seres que viveram há muitos anos atrás). Porém há um grande problema: os fósseis são delicados e devem ser manuseados apenas por especialistas com equipamentos específicos. Então como estudá-los e mostrar para a população sem correr o risco de quebrar? É aí que a tecnologia 3D entra na história! Veja como o avanço da tecnologia nos possibilita ter contato com coisas interessantes, educativas e acessíveis.

Para analisar vestígios sem o risco de destruí-los, os cientistas:

1°- Criam uma cópia da peça usando o escaneamento 3D ou a Tomografia Computadorizada (tipo um raio-X muito detalhado).

2°- Fabricam uma réplica a partir da cópia digital, usando a Manufatura Aditiva (MA), que é a impressão 3D.

Você se lembra do incêndio no Museu Nacional da UFRJ que ocorreu em 2019?

Lá estava o fóssil da Luzia, o fóssil humano mais antigo que temos na América. Por sorte, os estudantes da UFRJ já haviam escaneado a peça, e após o incêndio conseguiram fabricar uma réplica até ele ser reconstituído. A tecnologia 3D foi fundamental na reconstrução do nosso patrimônio, que infelizmente não recebe o devido valor.

Dessa forma, os fósseis estão ganhando vida nos museus! O 3D nos permite mostrar por exemplo como era a anatomia dos dinossauros, como eles se moviam e respiravam e até como eram suas estruturas internas. Além disso, facilita o trabalho dos cientistas e ajuda a sanar as dúvidas dos estudantes e curiosos do mundo todo!

E aí? Você achou interessante esse novo método?

Responda ao nosso teste e descubra que tipo de paleontólogo você é, se é do tipo conservador, que gosta dos métodos tradicionais de trabalho, ou se é um paleontólogo mais ligado às mudanças tecnológicas e gosta de inovar os métodos. Escolha entre A ou B e ao final some quantos pontos A e B você marcou:

1. Ao lidar com um fóssil original e extremamente raro, qual seria sua prioridade?

(A) Garantir a máxima segurança e preservação do fóssil, para evitar qualquer risco de dano por manuseio.

(B) Ter a oportunidade de manusear o original, pois é a documentação mais precisa.

2. Como você escolheria compartilhar suas descobertas?

(A) Compartilharia o arquivo digital 3D do fóssil, para que todos acessem os dados e imprimam réplicas.

(B) Faria um molde de silicone do fóssil, tiraria fotos, seguindo o processo tradicional.

3. O que você acha mais interessante?

(A) A reconstituição digital para simular um organismo em vida, observando sua postura, por exemplo.

(B) Estudar por meio de livros, fotos, ou ver as peças de longe no museu.

4. Se você precisasse recuperar um fóssil, o que você faria?

(A) Faria uma impressão 3D.

(B) Faria uma reconstituição manual.

Resultado:

Se você marcou 3 ou 4 opções A:

Você é um(a) pesquisador(a) digital e você ama tudo que é novo!

Se você marcou 2 opções A:

Você é um(a) pesquisador(a) híbrido(a). Você reconhece o valor do clássico, mas abraça as novas tecnologias! 

Se você marcou 3 ou 4 opções B:

Você é um(a) pesquisador(a) clássico(a) que ama o método tradicional.

O uso dessas novas tecnologias está revolucionando diversas áreas do conhecimento científico, destacando-se aqui a paleontologia e a museologia. A utilização das tecnologias tridimensionais na paleontologia, pode proporcionar uma nova concepção sobre o processo de fabricação do acervo, em comparação com os antigos fabricados em resina, além de agilizar o processo, a tecnologia 3D promove um acesso maior a pessoas de outras localidades quando os modelos são expostos na internet, aumenta a possibilidade de realização de atividades educativas, pois facilita o manuseio por parte do público sem expor o acervo fóssil original aos riscos de danos, e  pode ser utilizada para replicar os fósseis em outros locais que não sejam necessariamente um espaço museal.

Texto fonte: Ramos, M. G. O., Rodrigues, J. K. G., Santos, J. S., & Martins, K. Y. N. (2024). IMPORTÂNCIA DAS TECNOLOGIAS 3D PARA USO EM MUSEUS DE PALEONTOLOGIA. REVISTA TARAIRIÚ, 1(24), 134-150. DOI: [10.18391/revelap.v1i25.4155].

Disponível em: https://revista.uepb.edu.br/REVELAP/article/view/4155.

Fonte e legenda da imagem de capa: Fonte e legenda da imagem de capa: A imagem está dividida em 4 partes na horizontal, simulando camadas diferentes até debaixo da terra, com a frase: Cientistas estão usando tecnologia 3D para trazer fósseis de volta à vida. A primeira mostra o céu azul com nuvens, a segunda mostra um paleontólogo escavando a terra com pedras em volta dele. A terceira mostra um solo mais profundo, mostrando um fóssil de planta, osso, e uma pedra preciosa. Por fim, a última parte da imagem mostra a terra mais profunda ainda com um fóssil de dinossauro e um de planta.

Disponível em: Canva.


Texto revisado por: Sandro Ferreira de Oliveira e Alexandre Liparini.

Retrato cristalizado do passado: remontando histórias a partir de fósseis

Escrito em: 01 de outubro de 2025

Por: Ruth Helena

O mundo conhecido hoje é composto por seis continentes, separados por grandes oceanos, com diversas projeções vastamente conhecidas. Porém, há cerca de 145 milhões de anos atrás, haviam somente dois grandes continentes chamando a atenção para Gondwana, que começou a se fragmentar,  dando origem a massas continentais como a América do Sul. Para compreender melhor esse passado, estudos paleontológicos utilizam evidências fósseis, como os depósitos de âmbar encontrados no Equador.

O âmbar é uma resina fossilizada, capaz de preservar restos orgânicos e seus tecidos com detalhes excepcionais, este processo é  chamado de “bioinclusão”. Devido a essa característica, esses fósseis se tornam arquivos que informam o passado da vida terrestre. Esse material é uma substância líquida e viscosa, expelida pelas coníferas, que capturam os organismos que andam sobre ela. Houve um “pico” em sua produção no chamado “Intervalo resinoso do Cretáceo”, entre 125 a 72 milhões de anos atrás.

Os registros encontrados desse intervalo concentram-se no hemisfério norte, portanto, foi uma grande surpresa quando houve a recente descoberta de um rico depósito de âmbar na pedreira Genoveva, localizada na província de Napo, no Equador. Os fósseis encontrados estão associados a pólen, macrofósseis vegetais e diversas bioinclusões. As análises identificaram a presença de samambaias, angiospermas, gnetófitas e coníferas, além de indicarem que a resina foi produzida por araucárias. Com o estudo desse material, foi possível fazer uma reunião dos grupos vegetais que um dia existiam naquele local. Já os fósseis com bioinclusões contém majoritariamente representações de insetos como mosquitos, moscas, vespas e besouros, que descrevem uma parte da fauna local.

Essas evidências permitiram reconstruir parte da paisagem da antiga floresta gondwânica, visto que cada vestígio encontrado carrega indicativos de fauna, flora e clima. As plantas indicam um ambiente úmido e com certa diversidade, porém dominado pelas araucárias. Ainda, a presença de insetos que precisam da água para se desenvolver, como larvas de mosquitos e de alguns besouros, corroboram essa afirmação, além de indicarem a presença de corpos de água doce. Ainda há muito o que se desvendar sobre Gondwana, porém a investigação do âmbar, retrato cristalizado de um tempo, pode nos ajudar a remontar histórias e entender os mistérios desse passado.

Texto fonte: Delclòs, X., Peñalver, E., Jaramillo, C. et al. (2025). Cretaceous amber of Ecuador unveils new insights into South America’s Gondwanan forests. Commun Earth Environ 6, 745.

Disponível em: https://www.nature.com/articles/s43247-025-02625-2.

DOI: 10.1038/s43247-025-02625-2.

Fonte e legenda da imagem de capa: Fotografia retirada do artigo original, expondo os dois tipos de âmbar encontrados na Pedreira de Genoveva. De a-c, grandes pedaços de âmbar(com formato de rins), formados a partir de resinas expelidas de raízes em condições de confinamentos, pedaços frequentes no afloramento mas com ausências de bioinclusões. De d-h, são menores a médios pedaços de âmbar(com formatos semelhantes a estalactites), formados a partir da resina expelida de troncos ou galhos em condições aéreas, alguns contendo bioinclusões.

Disponível em: https://www.nature.com/articles/s43247-025-02625-2.


Texto revisado por: Manuela dos Santos Rojas, Sandro Ferreira de Oliveira e Alexandre Liparini.

Trilobitas eram habitantes de cavernas? e como se comportavam?

Escrito em: 25 de outubro de 2025

Por: Luka Rodrigues Alves

Os achados de Zdzislaw Belka, Raimund Feist, Jolanta Dopieralska e Stanisław Skompski podem ajudar a compreender o comportamento complexo dos trilobitas e responder por que seus fósseis são tão abundantes em uma área montanhosa. Os novos achados foram feitos em Hamar Laghdad, no leste do Anti-Atlas, em Marrocos, principalmente nos montes Kess-Kess. Esses montes foram formados no Devoniano, um período geológico que ocorreu entre 419 e 393 milhões de anos atrás. Sua formação se deu a partir de erupções submarinas, que serviram de base para o crescimento dos montes. Após a ação vulcânica, surgiram fraturas que permitiram a saída de fluidos hidrotermais do subsolo para a superfície, formando fontes hidrotermais submarinas. Essas fontes termais liberavam compostos que facilitaram a fossilização de diversas espécies de animais ao longo dos anos, sendo uma delas os trilobitas da família Scutelluidae.

Os trilobitas são um grupo de artrópodes, assim como insetos, crustáceos e aranhas, porém esse grupo está extinto. Seus corpos são divididos em cabeça, tórax e cauda, e possuem exoesqueleto quitinoso e corpo segmentado. Por sua vez, a família Scutelluidae era composta por indivíduos de corpo achatado e olhos bem desenvolvidos. Sua acumulação nos montes Kess-Kess ocorreu abaixo do nível marinho, não sendo encontrados fósseis nos topos dos montes. Essa deposição aconteceu por meio do acúmulo nas partes desarticuladas, e não de seus corpos inteiros, ou seja, provavelmente tiveram origem de suas mudas (troca de seu exoesqueleto). Isso ocorreu em períodos de inatividade hidrotermal, quando o ambiente se tornava propício para que esses animais entrassem nas cavidades para realizar a muda. Durante esse processo, o exoesqueleto se fragmentava em partes que, com o tempo, se depositaram no fundo por gravidade e foram cobertas pelos minerais das atividades hidrotermais. 

Com base em outros achados, como o padrão de tamanho de suas parte e a composição de seus olhos, os pesquisadores puderam concluir que as trilobitas não eram habitantes permanentes do local, mas se reuniam ali para realizar mudas em massa, talvez como parte de seu ciclo reprodutivo, assim como ocorre com caranguejos modernos, ou até mesmo como uma forma de proteção contra predadores em um momento de maior vulnerabilidade.

Texto fonte: Zdzislaw Belka, Raimund Feist.; Jolanta Dopieralska.; Stanisław Skompski. A meeting in the cave: Taphonomy and ecology of scutelluid trilobites in the Devonian Hamar Laghdad elevation, eastern Anti-Atlas, Morocco. Palaeogeography, Palaeoclimatology, Palaeoecology,Volume 679, 2025, 113289, ISSN 0031-0182.

Disponível em: https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0031018225005747.

Fonte e legenda da imagem de capa: Partes desarticuladas e fossilizadas de trilobita, sendo observado principalmente pigídios e cranídeos.

Disponível em: https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0031018225005747.


Texto revisado por: Ruan Honorato Marzano Cintra, Alexandre Liparini e Sandro Ferreira de Oliveira.

Cingulados quaternários da Bahia: novos dados sobre distribuição e saúde paleobiológica

Escrito em: 23 de outubro de 2025

Por: Daniela Reis Passos Sana Morais

Foram descritos e analisados novos materiais encontrados no estado da Bahia que pertencem a vários cingulados quaternários. Esses materiais correspondem a uma carapaça parcial e 211 osteodermos, placas ósseas que compõem a carapaça desses animais, sendo descritos por um estudo publicado em 2023 que revelou novos fósseis de cingulados quaternários na Bahia, incluindo o primeiro registro do gênero Neuryurus no estado. Em especial, foi descrito um relevante material exoesquelético e o primeiro registro  do gênero Neuryurus sp. para o estado da Bahia.

E o que são os cingulados? Eles são uma ordem de mamíferos placentários encontrados exclusivamente nas Américas que, no presente, são representados pelos tatus modernos. Entretanto, no passado, sua diversidade era bem maior, incluindo espécies de diversas famílias que hoje se encontram extintas. Esses animais são caracterizados por sua carapaça dorsal usada principalmente para defesa. Essas placas constituem o registro paleontológico mais comum desses animais e sua morfologia é de extrema importância para identificação de espécies.

Já a paleopatologia é o estudo das doenças que afetam os fósseis. Por meio dela foi possível obter informações valiosas sobre como era a vida desses animais fossilizados através do estudo e da interpretação das lesões e de seus possíveis causadores, as causas paleopatológicas podem ser feitas por diversos organismos, como pulgas, fungos, bactérias e outros animais da mesma espécie em brigas e disputas.

Os espécimes descritos neste estudo vieram de sete depósitos de tanque e cavernas da Bahia, localizados nos municípios de Guanambi, Ourolândia, Santaluz e entre a Serra do Ramalho e Carinhanha. Para estudá-los, foram feitas análises macro e microscópicas, sendo realizadas interpretações e diagnósticos paleopatológicos por meio de comparações com casos documentados na literatura existente. Para isso, foram utilizados um microscópio digital para analisar as lesões e um software específico para fornecer informações adicionais mais detalhadas sobre as alterações observadas. 

Por meio da análise dessas amostras foi possível não só encontrar o primeiro registro de animal do gênero Neuryurus no estado da Bahia, mas também ampliar os registros de distribuição geográfica de diversas espécies de cingulados e obter novas evidências de parasitismo e outras lesões nos osteodermos destes animais. Entre as espécies descritas e analisadas estão: Pachyarmatherium brasiliense; Propraopus sulcatus; Tolypeutes cf. tricinctus; Glyptotherium sp.; Neuryurus sp.; Panochthus sp.; Hoplophorus cf. euphractus; Pampatherium humboldti e Holmesina paulacoutoi. Dentre essas espécies, algumas necessitam de estudos mais detalhados de comparação com as respectivas espécies-tipo para confirmar a hipótese de novos registros de distribuição geográfica.

Ademais, as alterações paleopatológicas encontradas nesses osteodermos apresentam evidências de terem sido produzidas durante a vida desses animais e indicam ser lesões causadas por pulgas, tendo em vista que a morfologia dessas lesões é semelhante ao que é observado no parasitismo de pulgas. Além disso, outras lesões encontradas possivelmente estão associadas a infecções causadas por microrganismos oportunistas, indicando que as pulgas não eram o único problema dos cingulados. 

Sendo assim, esse estudo foi de extrema relevância tendo em vista que, além de ampliar o conhecimento existente sobre a distribuição de diversas espécies de cingulados no estado da Bahia, ele também permitiu ressaltar as relações desarmônicas que existiam entre estes animais e seus parasitas, o que nos fornece mais informações sobre como era a vida deste importante grupo pré-histórico.

Texto fonte: PALES, Letícia Francielle Moreira; PORPINO, Kleberson de Oliveira; SCHERER, Carolina Saldanha (2023). New exoskeletal material from Bahia provides new evidence of geographic distribution and paleopathology for Quaternary cingulates. Revista Brasileira de Paleontologia, v. 26, n. 4, p. 315–329. Doi: 10.4072/rbp.2023.4.05.

Disponível em: https://sbpbrasil.org/publications/index.php/rbp/article/view/389/198.

Fonte e legenda da imagem de capa: 1- Fragmentos de osteodermos analisados no estudo 2- Carapaça parcial de Panochthus sp. analisada no estudo 3- Pachyarmatherium brasiliense, exemplo de cingulado.

Disponível em: https://felipe-elias-portfolio.blogspot.com/2010/11/pachyarmatherium-brasiliense-2009.html.


Texto revisado por: Luís Filipe Cardoso Queiroz, Sandro Ferreira de Oliveira e Alexandre Liparini.

Osteologia craniana de Pampaphoneus biccai (Anteosauridae: Syodontinae)

Escrito em: 27 de outubro de 2025

Por: Isaac Rafael Freitas Borges

O Pampaphoneus biccai foi um predador terrestre da América do Sul que viveu no período Permiano, há cerca de 265 milhões de anos atrás, quando a terra era dominada por Sinapsídeos, parentes distantes dos mamíferos atuais. Seus fósseis foram encontrados no Rio Grande do Sul, na Formação Rio do Rasto, uma região que já revelou diversos vestígios importantes da vida pré-histórica.

Até pouco tempo atrás, essa espécie era conhecida somente por um crânio incompleto, porém, um achado de um novo exemplar de Pampaphoneus biccai com um crânio bem preservado e ossos isolados de outras partes do corpo nos revelam novas informações sobre este animal. Este novo fóssil, identificado como UNIPAMPA 759, é maior e mais detalhado que o primeiro indivíduo encontrado, permitindo estudar a anatomia do animal com muito mais precisão.

O crânio de P. biccai chama atenção por seu tamanho e por sua estrutura robusta, possuindo uma dentição muito desenvolvida e fortes músculos mandibulares. Comparações com espécies semelhantes da Rússia demonstraram que muitas das diferenças antes utilizadas para separá-las podem, na verdade, estar ligadas ao crescimento e à idade dos indivíduos, e não à diferença entre espécies. Ainda assim, o novo estudo identificou traços exclusivos, como certas cristas e depressões cranianas, que confirmam que o P. biccai era de fato uma espécie distinta das demais.

As novas descobertas também ajudaram a entender melhor a posição evolutiva do Pampaphoneus biccai. Ele pertence ao grupo dos Anteossaurídeos, que inclui alguns dos primeiros grandes carnívoros da Terra. A análise demonstrou que essa espécie brasileira é um dos membros mais antigos do grupo, indicando que havia uma conexão entre as faunas do Brasil, da Rússia e da África do Sul durante o Permiano.

Texto fonte: Mateus A Costa Santos, Voltaire D Paes Neto, Cesar L Schultz, Juan Cisneros, Stephanie E Pierce, Felipe L Pinheiro, Cranial osteology of the Brazilian dinocephalian Pampaphoneus biccai (Anteosauridae: Syodontinae), Zoological Journal of the Linnean Society, Volume 199, Issue 4, December 2023, Pages 1034–1058.

Disponível em: https://www.pnas.org/doi/full/10.1073/pnas.1115975109

DOI: https://doi.org/10.1073/pnas.1115975109 

Fonte e legenda da imagem de capa: Reconstrução artística do primeiro crânio completo encontrado de Pampaphoneus biccai

Disponível em: https://www.pnas.org/doi/full/10.1073/pnas.1115975109


Texto revisado por: Lucas Ferreira Bispo da Silva e Alexandre Liparini.

A história do pequeno Parvosuchus aurelioi

Escrito em: Outubro de 2025

Por: Gabriela

Para iniciar essa história, vamos imaginar o lugar onde atualmente se localiza o Rio Grande do Sul. Porém, não como ele é hoje, mas como ele era há 237 milhões de anos. Difícil, certo? Então, vamos pensar num lugar onde os dinossauros ainda não existiam, muito menos os gaúchos. As florestas eram úmidas, haviam muitos rios, e uma pequena criatura vagava pelo ambiente: o Parvosuchus aurelioi. Esse ser era um réptil pré-dinossauriano, veloz e caçador.

Mas como se sabe da existência dessa criatura atualmente? Essa espécie ainda existe? Um médico apaixonado por paleontologia chamado Pedro Lucas Porcela Aurélio fez uma grande descoberta, descoberta essa que mudou informações da paleontologia brasileira. O médico encontrou fósseis nas rochas de Paraíso do Sul. Esses fósseis eram fragmentos de ossos que demonstraram o primeiro representante brasileiro do grupo de répteis Gracilisuchidae. Esse grupo é uma família extinta de arcossauros suchianos. 

Esse e outros grupos de arcossauros dominavam os ecossistemas terrestres antes da existência dos dinossauros. Alguns indivíduos eram imensos, mas o protagonista dessa história, o Parvosuchus aurelioi tinha aproximadamente um metro de comprimento. Ele tinha dentes afiados em um crânio de apenas 14 centímetros.
Como a união faz a força, o paleontólogo Rodrigo T. Muller, autor do artigo A new small-sized predatory pseudosuchian archosaur from the Middle-Late Triassic of Southern Brazil (Um novo arcossauro pseudosúquio predador de pequeno porte do Triássico Médio-Superior do sul do Brasil), publicado em 2024 na revista Scientific Reports, foi quem analisou o fóssil entregue pelo Pedro ao Centro de apoio à Pesquisa Paleontológica da Quarta Colônia (CAPPA/UFSM) e fez as comparações necessárias. É raro ter esqueletos quase completos de espécies desse porte, mas esse possuía crânio, patas traseiras, bacia e as vértebras. 

Mas com o que ele comparou? Esse pesquisador comparou esse fóssil brasileiro com fósseis da China e Argentina concluindo que ele era então do grupo Gracilisuchidae, que até então não tinha sido documentado no Brasil. O nome Parvosuchus aurelioi vem do latim parvus (pequeno), suchus (crocodilo), com uma homenagem ao Pedro Aurélio, que descobriu o material. 

E como são feitas essas comparações? Foram feitas análises filogenéticas (métodos para inferir relações evolutivas), com uso de programas computacionais. Com isso, nosso pequeno protagonista ganhou um destaque: uma nova espécie! Esse carnívoro viveu num supercontinente da Terra que nomeamos como Pangeia, durante o período do Triássico, onde todos os continentes estavam unidos. Assim, o pequeno Parvosuchus aurelioi era um viajante que não conhecia fronteiras. 

Essa descoberta mostra o poder da ciência e da colaboração entre pesquisadores e a comunidade local. Juntos, eles mudaram o que se sabia sobre os répteis pré-dinossaurianos no Brasil. Essa história mostra como a paleontologia no Brasil pode revelar cada vez mais sobre a vida que foi escondida entre as rochas e sedimentos, reconstruindo a realidade antes dos dinossauros, dando relevância às pequenas criaturas carnívoras que também moldaram o mundo que conhecemos hoje. 

Então, o Parvosuchus aurelioi pode ajudar a paleontologia a compreender melhor a transição entre os répteis primitivos e os grandes predadores que estavam pelos ecossistemas terrestres antes dos famosos dinossauros surgirem.

Texto fonte: Müller, R. T. (2024). A new small-sized predatory pseudosuchian archosaur from the Middle-Late Triassic of Southern Brazil. Scientific Reports, . 14, n. 1, p. 12706, Doi:10.1038/s41598-024-63313-3.

Disponível em: https://www.nature.com/articles/s41598-024-63313-3.

DOI: 10.1038/s41598-024-63313-3.

Fonte e legenda da imagem de capa: Representação artística de uma paisagem do Triássico Médio-Superior do sul do Brasil. (a) Um grande Prestosuchus chiniquensis se alimenta da carcaça de um dicinodonte enquanto indivíduos de Parvosuchus aurelioi gen. et sp. nov. competem por restos. (b) e (c) mostram detalhes de indivíduos de Parvosuchus aurelioi gen. et sp. nov. Ilustração de Matheus Fernandes.

Disponível em: https://www.nature.com/articles/s41598-024-63313-3.


Texto revisado por: Natália Ferreira de Freitas Medeiros e Alexandre Liparini.

Biofilme fóssil: será uma possível sobrevivência de biomoléculas em fósseis do Pleistoceno?

Escrito em: 27 de outubro de 2025

Por: Daniela Luciana Pereira Antônio

Pesquisadores brasileiros podem ter encontrado biofilme fóssil (estruturas formadas pela secreção de substâncias gelatinosas por colônias de bactérias e algas) em dentes bem preservados de Tayassu (Porco-do-mato) e Smilodon populator (Tigre-dentes-de-sabre) do Pleistoceno. Os achados são de uma caverna do semiárido brasileiro, próximo ao Parque Nacional da Serra da Capivara, no estado do Piauí.

O biofilme se trata de uma comunidade complexa de microrganismos que ficam aderidos em superfícies e envolvidos por uma rede de biomoléculas, como carboidratos, lipídios e proteínas. Devido a isso, o biofilme confere resistência e proteção a esses microrganismos quando estão em condições extremas de temperatura, pH, salinidade, pressão, radiação e escassez de nutrientes. No contexto dos fósseis, essas características são muito importantes na preservação de plantas, tecidos moles e até embriões fósseis.

O grande questionamento do estudo é entender se essa composição orgânica preservada vem dos organismos fósseis ou se está relacionada ao processo de soterramento e fossilização dos restos orgânicos, se caracterizando como biomoléculas de um biofilme degradado aderido ao fóssil.

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Caminhando entre continentes

Escrito em: 16 de abril de 2025

Por: Maria Eduarda Damasceno Santos

Que tal uma caminhada do Brasil até… Camarões?

Mas isso é possível? Camarões não fica no continente africano, separado do Brasil por um enorme oceano?

Tudo é possível, desde que tenhamos uma máquina do tempo! Vamos voltar atrás, há mais ou menos 100 milhões de anos. Agora estamos no período Cretáceo, em um planeta bem diferente do atual, habitado pelos celebres dinossauros! Nesse momento, um em particular nos chama atenção: vemos andando por uma estrada enlameada, um bicho engraçado, meio dinossauro meio pássaro, coberto de penas, com os braços em forma de asa, uma longa cauda, bico e pés de galinha. Engraçado como um dinossauro pode parecer uma ave atual… Além de sua aparência incomum, nada muito diferente do esperado, né? Um dinossauro andando.

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