O sumiço do Ubirajara

02 de dezembro de 2021

Por: Victor Lopes Chamone Jorge

E o sumiço do Ubirajara, hein?

Não sabe quem é o Ubirajara? Vem entender essa história!

Ubirajara, ou melhor, Ubirajara jubatus é um dinossauro genuinamente brasileiro e com características únicas! Acredita-se que o “Bira” vivia no interior do Ceará, na região da Bacia do Araripe, há cerca de 110 milhões de anos atrás. Já pensou que interessante seria visitar um museu no Brasil e visitar um dinossauro 100% brasileiro? Contudo, isso infelizmente não é possível. Ubirajara não está aqui no Brasil para que os cientistas contem a sua história, sua casa é o Museu de História Natural de Karlsruhe, na Alemanha. Como ele foi parar lá? Aí é onde mora o problema…

Toda confusão começou em dezembro de 2020, quando a espécie foi descrita na revista Cretaceous Research. Na ocasião, muitos paleontólogos brasileiros questionaram o fóssil estar em mãos alemãs, devido a vários imbróglios relacionados com a legislação e trâmite dos fósseis brasileiros no exterior. Seria um caso de tráfico de fósseis?

O paleontólogo responsável pelo artigo original que descreveu Ubirajara afirmou que o fóssil havia sido levado para a Alemanha de forma legal em 1995, mas isso não é tão simples assim. O brasileiro responsável por “assinar a papelada” já foi condenado por falsificar documentos no tráfico de esmeraldas. Conversas entre representantes brasileiros e o museu alemão começaram a ser feitas para uma possível devolução do fóssil, mas estas não caminharam bem. Devido a toda repercussão negativa, o artigo original foi retirado da revista e não está mais disponível.

A confusão serve como um alerta para os amantes da paleontologia, ainda mais depois de alguns apontamentos feitos pela comunidade científica brasileira. Acredita-se que grande parte dos artigos publicados nos grandes centros de pesquisa, que possuem maior financiamento, são referentes à registros fósseis de países fora deste eixo econômico. Situação essa que, além de preocupante do ponto de vista do desenvolvimento da ciência nacional, demonstra o quão invasivo pode ser o tráfico de fósseis dentro de uma perspectiva global.

Embora a situação do Ubirajara seja extremamente delicada, o contexto faz emergir uma discussão ainda maior: a desigualdade econômico-científica. Como alguns países publicam registros de outros países? Para além da paleontologia, é possível que um país se desenvolva cientificamente a partir de recursos de outro? No caso do dinossauro brasileiro, chegou-se até discutir a capacidade dos museus e cientistas brasileiros em cuidar de um fóssil tão especial.

Nas redes sociais é muito fácil você entender mais sobre o assunto, principalmente acompanhando a paleontóloga Aline Ghilardi, professora da UFRN, que encabeçou o movimento para maiores esclarecimentos e retorno do Ubirajara ao Brasil.

Artigo fonte: Cisneros, J.C., Ghilardi, A.M., Raja, N.B., Stewens, P.P. (2022). The moral and legal imperative to return illegally exported fossils. Nature Ecology & Evolution, v. 6, p. 2-3. Doi: 10.1038/s41559-021-01588-9 <Clique aqui para acessar o artigo fonte>

Fonte e legenda da imagem de capa: Representação artística do dinossauro Ubirajara jubatus. Autoria de Masato Hattori, extraída do site atlasvirtual.com.br <link>.

Como os fósseis nos ajudaram a entender melhor o comportamento social dos dinossauros

23 de novembro de 2021

Por: Matheus Rodrigues Gonçalves

Extintos há 65 milhões de anos, os dinossauros sempre fascinaram os seres humanos. Apesar de parecer estranho que os dinossauros tenham tido alguma vida em sociedade, um artigo publicado na revista científica Scientific Reports revela isso e muito mais sobre a vida destes animais.

Uma equipe de cientistas liderada por pesquisadores do Museu Paleontológico Egídio Fergulio, localizado na Argentina, identificou mais de 180 fósseis de diversas idades de uma única espécie de dinossauro na Formação Laguna Colorada na patagônia argentina. A espécie Mussaurus patagonicus, popularmente chamada de mussauro, é um dinossauro herbívoro de grande porte que viveu há aproximadamente 193 milhões de anos. Os fósseis encontrados são de 80 indivíduos de diversa idades, além de mais de 100 ovos fossilizados com embriões em diversos estágio de desenvolvimento.

A presença de espécimes em diferentes idades, em uma mesma região indica que os animais mantinham uma interação social complexa. Os fósseis estavam distribuídos em uma área de 1 km2, agrupados de acordo com suas idades. Enquanto os mais jovens estavam mais próximos dos ovos, os mais velhos estavam mais distantes, mas ainda assim, perto dos filhotes. Essa coexistência de indivíduos adultos e jovens aponta que os animais andavam em bando, provavelmente como uma estratégia para proteger os mais novos. Enquanto os indivíduos adultos podiam chegar a pesar mais de 1.500 kg, os filhotes pesavam pouco mais de 100 g. As evidências apontam ainda que os adultos procuravam alimentos para si e para os mais jovens, que não possuíam essa capacidade devido ao seu tamanho e estrutura corporal.

Estudos anteriores indicam que outras espécies de sauropodomorfos, grupo da qual o mussauro faz parte, também possuíam um comportamento parecido com o dinossauro descoberto na Argentina. Entretanto, os fósseis descobertos recentemente são as evidencias mais antigas do comportamento em grupo entre os dinossauros anteriores a 40 milhões de anos.

Esse comportamento em manada pode ter sido o ponto chave para o grande sucesso evolutivo dos sauropodomorfos, e principalmente dos saurópodes, descendentes dos sauropodomorfos e maiores animais que já habitaram o planeta.

Artigo fonte: Pol, D., Mancuso, A.C., Smith, R.M.H. et al. (2021). Earliest evidence of herd-living and age segregation amongst dinosaurs. Scientific reports, v. 11, n. 20023. DOI: 10.1038/s41598-021-99176-1 <Clique aqui para acessar o artigo fonte>

Fonte e legenda da imagem de capa: Reconstrução artística de um grupo de mussauros, hábito este que poderia aumentar a sua sobrevivência. Autoria de Jorge Gonzalez, extraída da matéria “Patagonian fossils show Jurassic dinosaur had the herd mentality” no site reuters.com <link>

INÉDITO: CIENTISTAS BRASILEIROS DESCOBREM PARASITAS PRESERVADOS EM TECIDO ÓSSEO DE SAURÓPODE

23 de novembro de 2021

Por: Taciane Fernanda Valadares Reis

Sabe-se que a preservação de parasitas em materiais fósseis é rara, principalmente, durante a Era Mesozoica. Os registros paleontológicos de microrganismos já descritos resumem-se em ovos de helmintos e estágios desenvolvimentais de protozoários, encontrados em coprólitos (fezes conservadas) ou âmbar. Contudo, esses registros tal como sua relação à patologias são capazes de fornecer importantes informações fisiológicas e ecológicas de organismos e comunidades passadas, além de oferecer noções evolutivas da associação de parasitas e hospedeiros ao longo dos anos.

Pela primeira vez, cientistas brasileiros descobriram parasitas fossilizados em tecidos de um hospedeiro vertebrado. Os paleoparasitas foram identificados no osso de um saurópode do Cretáceo Superior. Foi constatado que o dinossauro da família dos titanossaurídeos, encontrado no interior de São Paulo e depositado no Laboratório de Paleoecologia e Paleoicnologia (LPP) da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), tinha osteomielite aguda, doença que consiste na inflamação óssea, comum em espécies atuais.

Para melhor estudar as lesões presentes no dinossauro, os cientistas, primeiramente, realizaram uma tomografia computadorizada reconstruindo um modelo tridimensional da amostra da fíbula do animal, que possibilitou a análise interna do osso afetado. Além disso, os pesquisadores resolveram descrever histologicamente o desenvolvimento da osteomielite. Para isso, fizeram cortes de lâminas do periósteo, os quais foram analisados microscopicamente a fim de se obter dados da morfologia e progressão da doença. Nestes, foram observados a presença de bolsas externas e zonas com padrões radiais e reticulares da reação periosteal, além de alta vascularização local. Foi a partir dessa análise que a equipe científica pode identificar os tripanossomatídeos preservados nas regiões vasculares do membro examinado. Acredita-se que a mineralização autigênica tenha possibilitado a extraordinária conservação destes microfósseis.

Não foi possível descobrir se os parasitas encontrados foram os responsáveis pela causa da doença ou se a própria infecção facilitou sua infestação, visto que foi localizada também uma colonização bacteriana na amostra. No entanto, esse estudo contribuiu consideravelmente para a compreensão do histórico evolutivo e ecológico das doenças parasitárias. Ademais, foi um trabalho inovador, uma vez que uniu de forma inédita os campos da histologia, patologia e parasitologia, possibilitando o avanço da paleontologia.

Artigo fonte: Aureliano, T., Nascimento, C. S. I., Fernandes, M. A., Ricardi-Branco, F., & Ghilardi, A. M. (2021). Blood parasites and acute osteomyelitis in a non-avian dinosaur (Sauropoda, Titanosauria) from the Upper Cretaceous Adamantina Formation, Bauru Basin, Southeast Brazil. Cretaceous Research, v. 118, n. 104672. DOI: 10.1016/j.cretres.2020.104672 <Clique aqui para acessar o artigo fonte>

Fonte e legenda da imagem de capa: Parasitas conservados nas regiões vasculares do periósteo indicados pelas setas vermelhas. Imagem extraída do artigo fonte.

Uma Preguiça Gigante é encontrada no Espírito Santo e isso é fantástico!

23 de novembro de 2021

Por: Pedro Giordani

No município de Cachoeiro de Itapemirim viveu um monstro. Com cerca de 4 metros de altura e com massa corporal estimada em quase cinco toneladas, foi encontrada em uma pedreira da cidade em um conglomerado composto por seixos de mármore em uma matriz de argila. Esse monstro se trata de partes de fósseis de uma preguiça gigante, cientificamente conhecida como Eremotherium laurillardi, foi encontrado fragmentos do crânio, dos dentes, vértebras e ossos da tíbia, a partir dos quais foi possível diagnosticar que se trata de uma preguiça gigante.

O fato fantástico é que esse evento é extremamente raro de acontecer no Espírito Santo, isso se dá porque o Espírito Santo se encontra envolta de rochas metamórficas (rochas formadas através de outras rochas) e que tem poucos espaços com rochas sedimentares, onde se encontra os fósseis. O mármore, extraído pela pedreira, é um tipo de rocha metamórfica, derivado de alta pressão e temperatura do calcário. O que deixa tudo surpreendente é que mesmo com esse tipo de terreno não apropriado para fósseis, foi possível encontrá-lo, por causa de uma fenda com uma incomum presença de sedimentos contendo fósseis.

Nossa preguiça foi encontrada em um fenda (com altura de 2,5 metros) formada entre rochas, onde foi relatado que a ossada estava desarticulada. Foi observado marcas na superfície da tíbia, isso mostra que a morte da nossa preguiça aconteceu em um ambiente aberto já que caso tivesse morrido na fenda teria maior integridade dos ossos. Então como esse bicho de cinco toneladas foi encontrado na fenda? Bem, a hipótese tem alguns passos:

1 – Momento da morte. A nossa preguiça vivia perto da fenda onde foi encontrada, logo é esperado que ela morresse perto da fenda
2 – Após a morte da preguiça gigante aparecem alguns canídeos que comem a carne da preguiça, algo bem parecido com os urubus hoje em dia. Com isso, esses canídeos provocam a desarticulação da carcaça e separam alguns ossos, isso provoca com que a preservação total da carcaça da preguiça não ocorra.
3 – Fluxos leves de água levam essas ossadas para a fenda que estava ali perto, sendo de curta distância.
4 – Nessa fenda o animal foi soterrado e isso é muito importante para proteger o que restou da carcaça!

A Preguiça Gigante e outros fósseis achados como esse são importantes pois sua raridade proporcionada pelo local achado mostra que possamos ter potencial de novas descobertas de fósseis em regiões similares, podendo mapear futuramente outras espécies extintas que viveram nestas regiões.

Artigo fonte: Germano, R. V., Buchmann, R. & Rodrigues, T. (2019). Fósseis em uma frente de extração de mármore? Análises tafonômica e paleoicnológica de mamíferos de grande porte do Quaternário do Espírito Santo, Brasil. Revista Brasileira de Paleontologia, v. 22, p. 240-252. DOI: 10.4072/rbp.2019.3.06 <Clique aqui para acessar o artigo fonte>

Fonte e legenda da imagem de capa: Exemplar fóssil de um Eremotherium laurillardi. Autoria de Wikipedia Loves Art participant “Kamraman”, extraída do site commons.wikimedia.org utilizando o termo de busca Eremotherium.

Encontrado no Brasil um fóssil de uma nova espécie de primata extinto durante o Pleistoceno, que se assemelha a macacos-aranhas atuais

22 de novembro de 2021

Por: Nicolas Arthur Assis Leal

O esqueleto quase completo de um primata foi descoberto em um depósito de fósseis referente ao Pleistoceno no estado da Bahia, Brasil. O fóssil se assemelha muito a macacos-aranhas atuais, possuindo semelhanças craniais com estes primatas. Além disso, ele indica que os macacos do novo mundo poderiam ter quase o dobro do tamanho dos atuais e pertenciam à fauna de mamíferos da América Latina no Pleistoceno, período que compreende entre 2,5 milhões e 11,7 mil anos atrás.

Este fóssil foi encontrado em 1992, em uma caverna brasileira chamada Toca da Boa Vista, a maior caverna brasileira, localizada em Campo Formoso, BA. A caverna é bastante extensa, possuindo várias galerias, e o fóssil em questão foi encontrado em uma câmara distante, a algumas centenas de metros da entrada principal. Junto a ele haviam outros fósseis de platirrinos (um clado de macacos do novo mundo), evidenciando uma pequena amostra de algumas espécies extintas do Pleistoceno.

Quanto ao esqueleto do primata de interesse deste artigo, essa espécie recebeu o nome de Caipora bambuiorum, este nome foi escolhido devido à Caipora, uma criatura mitológica do folclore brasileiro que já fora uma vez mencionada por Peter Lund, pai da paleontologia, ao se referir a um macaco gigante que era conhecido pelos índios nativos como Caipora, que significa “morador da floresta”. A palavra bambuiorium faz referência ao Grupo Bambuí de Pesquisas Espeleológicas de Belo Horizonte, que foi responsável pela descoberta. O esqueleto do neurocrânio deste animal é largo e globoso, além de possuir uma maior largura nos ossos parietais, o que acaba conferindo um contorno de crânio mais arredondado. Em uma comparação das dimensões cranianas de Caipora bambuiorum com outros crânios de primatas do novo mundo, foi possível perceber que essa espécie possui uma cabeça mais esférica. Estas características dos ossos neurocranianos e suas dimensões são típicas de macacos do novo mundo.

Nos dentes, o fóssil apresenta dentição bunodonte, apresentando os pré-molares e molares muito parecidos a de macacos-aranha do gênero Ateles. Esse tipo de dentição encontrada nesta espécie foi a semelhança mais marcante aos primatas da Família Atelidae, a qual estão inclusos os macacos-aranha.

Quanto ao resto do esqueleto, referente ao corpo do primata, os pesquisadores perceberam que não estava totalmente desenvolvido, sendo então Caipora bambuiorum um indivíduo mais jovem, mas mesmo assim já possuía ossos robustos, outra característica dos macacos do novo mundo. As proporções e articulações dos ossos mostraram adaptações de uma postura suspensiva e locomoção de braquiação, que é também encontrada em macacos-aranha. O fóssil possui membros superiores longos, comprimento dos dedos dos pés e mãos parecidos e vértebras caudais robustas, características encontradas em macacos do novo mundo que possuem locomoção de braquiação. Por fim, para descobrir o peso deste indivíduo, foi utilizada uma fórmula de cálculo de massa corporal em primatas, chegando no resultado de que este primata pesava em torno de 20,5 kg, um peso que é 75% maior do que os maiores Atelines vivos, segundo o artigo.

Com isso, devido a suas características, proporções e dimensões ósseas do crânio e do corpo, Caipora bambuiorum é um fóssil que está fortemente relacionado aos macacos do novo mundo do gênero Ateles. Sua proximidade em tamanho corporal e, provavelmente, filogenia com macacos-aranha evidenciam uma nova informação sobre a diversidade adaptativa de macacos neotropicais, além de demonstrar que platirrinos compunham parte da fauna de mamíferos do final da época Pleistoceno na América Latina.

Artigo fonte: Cartelle, C.; Hartwig, W.C. (1996). A new extinct primate among the Pleitoscene megafauna of Bahia, Brazil. Proceedings of the National Academy of Sciences, v. 93, n. 13, p. 6405-6409. DOI: 10.1073/pnas.93.13.6405 <Clique aqui para acessar o artigo fonte>

Fonte e legenda da imagem de capa: Crânio e ossos do corpo de Caipora bambuiorum. Imagem extraída e modificada do artigo fonte.

Novo estudo sobre a evolução da complexidade dentária em Squamata

23 de novembro de 2021

Por: Pedro Henrique Santiago Godinho

No que diz respeito as adaptações dentárias e seu papel na evolução, foi examinado a complexidade dentária em Squamata, uma ordem pertencente à classe dos répteis, ao qual integram, por exemplo, as cobras, lagartos e anfisbenas. Neste estudo foram utilizados métodos morfológicos e filogenéticos entre fósseis e Squamata atuais para analisar a complexidade dos dentes ao longo da evolução deste grupo.

Os dentes são muito importantes para o processo de alimentação, determinando a faixa alimentar incluída pelo organismo, logo suas formas estão sujeitas a pressão seletiva do ambiente. Os Squamata podem ter dentes simples, com apenas um tipo de dente, ou dentes complexos, com mais de uma morfologia de dente. Dentes simples cônicos a laminados comumente são encontrados em carnívoros, enquanto a maior complexidade dentária com cúspides mais numerosas, permitem a trituração do tecido vegetal fibroso, decisivo para muitos herbívoros.

O estudo analisou os números de cúspides – que são as pontas formadas na extremidade dos dentes – e as dietas alimentares para 545 espécies de Squamatas incluindo toda a diversidade viva e extinta, desde a sua origem, no Permiano. Foi investigado a diversidade da extensão dentária e seu arranjo em todo o grupo, testando como a forma do dente e o número de cúspides estão relacionadas com as dietas das espécies. Em seguida, foi comparado as relações evolutivas para examinar os parâmetros da complexidade dentária e do consumo de alimentos ao longo da história evolutiva. No final foi analisado se a complexidade dentária e a evolução da alimentação impulsionaram a diversidade de Squamata.

Foi possível inferir então, que o ancestral comum dos Squamata foi unicúspide e pelo menos 24 aparecimentos independentes de multicúspide surgiram ao longo da evolução do grupo. Mas a evolução dos dentes de Squamata não foi apenas para maior complexidade: podem desenvolver morfologias múltiplas com várias cúspides ou perder as cúspides, incluindo reversões para a condição ancestral de unicúspide, porem nunca obtendo a perda completa dos dentes.

Esses resultados mostraram também que a complexidade dos dentes evoluiu e foi perdida inúmeras vezes dependendo da evolução das dietas alimentares de cada espécie, contribuindo para a diversidade dos Squamata. Logo os padrões odontológicos derivam da evolução correlacionada entre a complexidade dentária e a dieta, mostrando por exemplo, um forte indicio para um modelo ligando a “multicuspidez” e o consumo de plantas, sendo possível observar também reversões para números menores de cúspides se há diminuição no consumo de plantas.

Artigo fonte: Lafuma, F., Corfe, I.J., Clavel, J. et al. (2021). Multiple evolutionary origins and losses of tooth complexity in squamates. Nature Communications, v. 12, n. 6001. DOI: 10.1038/s41467-021-26285-w <Clique aqui para acessar o artigo fonte>

Fonte e legenda da imagem de capa: A correlação entre a complexidade do dente e o consumo de plantas. (B) Relação de dados entre a diminuição e o aumento do número de cúspides ao longo do tempo. (D) Relação de dados entre a diminuição e o aumento do consumo de plantas ao longo do tempo. Imagem extraída do artigo fonte.

Fósseis indicam a antiga união entre a América do Sul e o continente africano

23 de novembro de 2021

Por: Raí Leonardo

No nordeste brasileiro se encontra a formação mais diversa em fósseis do período Cretáceo no norte da América do Sul, a Formação Alcântara, de idade Albiano-Cenomaniao (entre 113 e 94 milhões de anos). Um dos fatos que chama a atenção desse local, além da sua diversidade de fósseis, é a amostra de espécimes que se assemelham muito aos encontrados no norte da África, mostrando uma comunicação entre a fauna destes dois continentes.

Em um primeiro momento, é difícil chegar à conclusão de que a América do Sul e a África já foram conectados, já que hoje encontram-se tão distantes e com o Oceano Atlântico entre eles. Porém, uma forma interessante de ver essa conexão é com o registro fóssil destes locais, que vem nos mostrando as semelhanças de animais que só se justificam pela união terrestre, permitindo a circulação dos indivíduos.

Alguns desses fósseis são de peixes, uma tartaruga, crocodilianos, pterossauros e dinossauros, como os saurópodes – dinossauros quadrúpedes de pescoço longo – como por exemplo, Astrodon, rebbachisaurídeos e titanossauros. Há também fósseis de dinossauros terópodes – dinossauros bípedes carnívoros ou onívoros – como Elaphrosaurus, espinossauros e carcardontossauros. Nesse caso temos oito grupos de peixes e sete grupos dos demais animais citados, número esse que pode aumentar, dependendo da identificação de mais fósseis e de suas devidas classificações.

Todos esses grupos que foram encontrados no Brasil são encontrados em países africanos como Egito, Tunísia, Sudão e Marrocos, mas que não são encontrados em países próximos ao Brasil, como a Argentina. Situação que nos leva a reforçar o fato da união desses continentes devido ao compartilhamento desses animais em locais hoje separados por uma distância de mais ou menos 5.140 km.

Artigo fonte: Candeiro, C.R.A.; Fanti, F.; Therrien, F; Lamanna, M.C. (2011). Continental fossil vertebrates from the mid-Cretaceous (Albian–Cenomanian) Alcântara Formation, Brazil, and their relationship with contemporaneous faunas from North Africa. Journal of African Earth Sciences, v. 60, n. 3, p. 79-92. DOI: 10.1016/j.jafrearsci.2011.02.004 <Clique aqui para acessar o artigo fonte>

Fonte e legenda da imagem de capa: Encaixe da América do Sul com a África, com indicação dos grupos fósseis equivalentes encontrados em ambos os continentes. Imagem extraída do artigo fonte.

Espécie extinta de ave do Cretáceo Inferior é descoberta na cidade cearense de Nova Olinda

22 de novembro de 2021

Por: Otávio Alves

O fóssil de uma espécie de ave até então desconhecida foi descoberto na cidade de Nova Olinda, no Ceará, na Mina da Pedra Branca, que faz parte da formação geológica de Crato. A nova espécie, que foi batizada Kaririavis mater, viveu no Cretáceo Inferior, cerca de 120 milhões de anos atrás, e era uma habitante da atual região da bacia do Araripe.

Juntamente com a descoberta da espécie, foi descoberto também o gênero ao qual ela pertence, o qual foi batizado Kaririavis em homenagem ao povo indígena Kariri do nordeste brasileiro. A palavra “mater” vem do Latim e significa “mãe”, em referência ao fato de essa ser a espécie de ave mais antiga já descoberta na América do Sul. Achava-se que o já extinto grupo dos Ornituromorfos, ao qual a ave pertence, havia vivido apenas na Ásia, sendo que quase todos os fósseis do grupo descobertos até então haviam sido encontrados na China. A Kaririavis mater é o primeiro ornituromorfo descoberto em um dos territórios que milhões de anos atrás formavam o supercontinente chamado Gondwana, que era composto pelo que hoje são os continentes e subcontinentes da África, América do Sul, Antártida, Índia e Austrália.

A formação geológica Crato é considerada uma “lagerstätte”, que é uma palavra em alemão que designa depósitos sedimentares onde são encontrados fósseis extraordinários e muito bem preservados. Infelizmente não é o caso da Kaririavis. O fóssil encontrado trata-se de apenas uma pata isolada e de algumas penas que acredita-se pertencerem à mesma ave. Mesmo sem o fóssil inteiro, foi possível diferenciar a espécie de todos os gêneros já catalogados, e algumas inferências sobre seu hábito de vida também puderam ser feitas. O pé da Kaririavis mater tem características semelhantes aos de aves terrestres atuais pertencentes aos grupo dos Ratites, que inclui os avestruzes e as emas. Essa característica pode implicar que a espécie tinha um nicho distinto da maioria das aves de seu grupo que foram suas contemporâneas e que majoritariamente são consideradas aves semi-aquáticas. Apesar disso, outras características mais semelhantes aos pés das atuais aves de rapina indicam que a Kaririavis mater pode ter tido um hábito de vida totalmente diferente dos que conhecemos hoje.

A descoberta foi publicada em um artigo científica na revista internacional “Journal of Vertebrate Paleontology”. Os autores afirmam no artigo que o descobrimento desse fóssil indica que ainda sabemos muito pouco sobre a história inicial do grupo Ornithuromorpha.

Artigo fonte: Ismar de Souza Carvalho, Federico L. Agnolin, Sebastián Rozadilla, Fernando E. Novas, José A. Ferreira Gomes Andrade & José Xavier-Neto. (2021). A new ornithuromorph bird from the Lower Cretaceous of South America. Journal of Vertebrate Paleontology, p. e1988623. DOI: 10.1080/02724634.2021.1988623 <Clique aqui para acessar o artigo fonte>

Fonte e legenda da imagem de capa: O fóssil da pata da Kaririavis mater, com algumas penas preservadas. Imagem extraída do artigo fonte.

Jogo de tabuleiro e Paleontologia: Você já pensou em um jogo de tabuleiro humano como ferramenta para ensinar Paleontologia?

22 de novembro de 2021

Por: Ana Carolina da Costa Gontijo

Sair do tradicional nem sempre é muito fácil, por isso podemos colaborar com novas ideias para revolucionar o ensino, tornando ele mais lúdico e acessível aos alunos. Sendo assim, através de observações feitas em aulas de biologia pelo estágio curricular obrigatório foi pensado como romper com o tradicional, no ensino e avaliação de Geologia e Paleontologia, indo para outras vias além de exercícios de livro e apostila.

Dessa problematização, veio a ideia de aplicar um jogo de tabuleiro como forma de avaliar o que foi ensinado. Este trabalho foi apresentado pelo artigo “ Um jogo de tabuleiro humano para auxiliar a aprendizagem de Geologia e Paleontologia na educação básica” de Priscilla Dália S. Alves .

O jogo envolve perguntas e respostas, que teve como base uma aula previamente dada pelos professores. As perguntas variaram de acordo com a proposta curricular de cada etapa da educação básica relacionadas ao tema de Paleontologia e Geologia . O jogo foi nomeado como “Origem da Terra e suas características”, que possui como base o tabuleiro feito no chão da escola com a utilização de papel ofício e canetas coloridas e o tradicional pino do tabuleiro foi representado por um integrante escolhido pelo grupo, além da câmera fotográfica para registrar a atividade e do celular para o professor realizar a leitura das perguntas de acordo com a casa que caísse. Para avançar as casas era necessário que o grupo acertasse a pergunta com base no que já havia sido aprendido.

Após a tarefa foi feio um questionário para os alunos na qual foi respondido questões como: se gostaram do jogo, sobre o nível das perguntas e qual o nível de aprendizado com a dinâmica . E você, o que achou dessa forma de avaliar o conhecimento de maneira diferente? Aplicaria em sua turma ou gostaria que fosse aplicado em sua aula? O mais legal é que quando aplicado, todos ganharam o prêmio que foi um bolo, que no final da dinâmica foi dividido para todos. Também foi possível avaliar a dificuldade dos alunos para poder auxiliá-los, dessa forma, ter os conhecimentos avaliados nunca foi tão divertido. 🙂

Artigo fonte: Dália, Priscilla Santiago Alves. (2018). Um Jogo De Tabuleiro Humano Para Auxiliar a Aprendizagem De Geo- Paleontologia Na Educação Básica. Terrae Didatica, v. 14, n. 2, p. 185-92. DOI: 10.20396/td.v14i2.8651582 <Clique aqui para acessar o artigo fonte>

Fonte e legenda da imagem de capa: Exemplo de tabuleiro que foi realizado no pátio do colégio (Instituto Padre Leonardo Carrescia). Imagem extraída do artigo fonte.

Aplicando a prática em Paleontologia na Educação Básica

22 de novembro de 2021

Por: Thaywane Soares

A Paleontologia é uma ciência que aborda conceitos básicos sobre o aparecimento e desenvolvimento de vida no planeta Terra. A prática da mesma pode ser considerada de grande importância para pequenos estudantes, visto que o conhecimento prévio, bem como o estudo da evolução, agrega bastante na educação e conhecimento dos alunos. Todavia, tal estudo é precário no Ensino Básico Escolar.

A partir disso, Willian Lando Czeikoski, Aline de Godoy e Kétini Mafalda Sacon Baccin, todos graduandos em Ciências Biológicas – Licenciatura, pela Universidade Federal de Caxias do Sul, bolsistas de Pibid/Capes, fizeram uma pesquisa através da Escola Estadual de Ensino Médio Mestre Santa Bárbara, com o objetivo de criar uma estratégia de ensino prático em Paleontologia. O objetivo da pesquisa é dar maior relevância ao estudo da paleontologia, bem como atribuir atividades didáticas que atraem os alunos, para um melhor ensinamento da Paleontologia.

Primeiramente, é discutido a importância do ensino da Paleontologia no Ensino Básico Escolar e se está de acordo com os parâmetros curriculares nacionais (PNC). A relevância de seus conteúdos é apresentada através de uma oficina de réplica de fósseis, o que deve atrair atenção de estudantes. Aula prática, com o ensino daquilo que é desconhecido, pode ser um método muito interessante e que desperta a curiosidade e imaginação dos alunos.

Posteriormente, através da pesquisa com a prática, é sugerido se abordar o ensino dos conceitos da Paleontologia, pois, é uma interface entre as Ciências Biológicas e as Geociências, que estuda os animais e vegetais que viveram no passado, através da análise de fósseis. Assim, o estudo prático prévio, favorece a aprendizagem de forma leve, didática e facilita a comunicação entre alunos e professores acerca do assunto.

Portanto, essa pesquisa se mostrou de suma importância para abordagem de um conteúdo tão complexo no ensino básico escolar. A forma fácil, prática e didática de como foi abordada a Paleontologia, poderá abrir ideias e estratégias aos docentes para abordar de uma melhor maneira o assunto em questão. Assim, o aluno se interessando sobre o tema, tornando a aula mais interessante, consequentemente, os professores terão mais prazer em lecionar sobre a Paleontologia.

Artigo fonte: Czeikoski, W. L.; Godoy, A.; Baccin, K. M. S. (2015). Estratégia prática para ensino de paleontologia. Retratos de uma trajetória: Pibid/UCS – 2014 a 2018, v. 02, p. 75-82. <Clique aqui para acessar o artigo fonte>

Fonte e legenda da imagem de capa: Atividade prática de paleontologia realizada pelos alunos. Imagem extraída do artigo fonte.