Artrite e lesões da megafauna – o preço, e o peso, de ser mega

20 de janeiro de 2021

Por: Isabela Nunes

A artrite é um conjunto amplo de doenças inflamatórias comuns em humanos, principalmente grupos de idade avançada. As articulações são afetadas causando sintomas como dor, limitações de movimento e rigidez articular. Além da idade e do histórico familiar, a alta carga sobre as articulações podem se relacionar ao desenvolvimento desse conjunto de lesões. Assim como nós, outros mamíferos, tanto atuais como os já extintos, são suscetíveis a doenças como gota e lesões causadas por esforços repentinos, informação que causaria grande preocupação entre os mamíferos da mega fauna brasileira.

Durante o Pleistoceno parte do território nacional foi ocupado por uma rica diversidade de mamíferos, incluindo populações de preguiças gigantes – que equilibravam cerca de três toneladas em 6 metros de altura -que dividiam espaço do Toxodontes (um grande herbívoro de tamanho semelhante a um rinoceronte). Fósseis de quatro indivíduos representantes dessa fauna foram encontrados em Ourolândia, na Bahia, dois destes indivíduos pertenciam à espécie Eremotherui laurillardi já os outros dois foram classificados como Toxodon platensis.

Dois exemplares ósseos de preguiça gigante (E. laurillard) chamaram a atenção por apresentarem desgastes característicos de artrite. Uma vértebra lombar apresentava um acúmulo calcário bastante semelhante aquele provocado pela pseudogota, um tipo de artrite causada pela deposição de cristais de cálcio nas articulações. Nossa grande preguiça não é a primeira a “relatar” em seu fóssil tal problema, das nove espécies de preguiças que ocuparam o país durante o mesmo período, cinco delas já haviam sido diagnosticadas com a mesma lesão por paleopatologistas. O outro exemplar pertencente à mesma espécie, um osso navicular apresentava desgastes condizentes com espondilite periférica, outro tipo de artrite.

Um terceiro exemplar ósseo também com sinais de lesão pertencia ao Toxodonte encontrado. O fóssil indicava um rompimento do tendão do metacarpo IV, um osso homólogo ao que estrutura nosso dedo anelar. O rompimento teria sido causado por um esforço abrupto do animal durante sua vida e não é uma novidade, lesões semelhantes já haviam sido registradas entre preguiças.

O tamanho e modo de vida dos grande mamíferos não era algo banal, sustentar todo o peso corporal enquanto fugia de predadores e se esticavam para alcançar alimentos – sem fisioterapeutas e anti-inflamatórios para ajudar nas lesões – foi um desafio encarado por esses animais. Ser mega custou muito caro para as articulações – e permanência na natureza – destes animais.

Artigo fonte: Dayana Ellen Miranda Dias , Mário André Trindade Dantas & Fernando Henrique de Souza Barbosa. (2020). Diagnosis of bone diseases in two representatives of the Pleistocene megafauna of Bahia, Brazil. Historical Biology, Doi: 10.1080/08912963.2020.1860032 <Clique aqui para acessar o artigo fonte>

Fontes complementares:

  1. Sociedade Brasileira de Reumatologia. Pseudogota – Disponível em: https://www.reumatologia.org.br/doencas-reumaticas/pseudogota/. Acesso: 20 de Janeiro de 2021
  2. Sociedade Brasileira de Reumatologia. Espondiloartrites – Disponível em: https://www.reumatologia.org.br/doencas-reumaticas/espondiloartrites/. Acesso: 20 de Janeiro de 2021
  3. Biblioteca Virtual em Saúde- Atenção Primária em Saúde. Disponível em:https://aps.bvs.br/aps/o-que-e-artrite/. Acesso: 20 de Janeiro de 2021
  4. Angelo, Claudio. Preguiça gigante tinha artrite, revela exame. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/folha/ciencia/ult306u12316.shtml. Acesso: 20 de Janeiro de 2021
  5. FAPESP. A dor da preguiça. Disponível em: https://revistapesquisa.fapesp.br/dor-da-preguica/. Acesso: 20 de Janeiro de 2021

Legenda e fonte da imagem: Esqueleto de preguiça gigante (Glossotherium) exposto no Museu Nacional, Rio de Janeiro. (Autoria: Edwardliu2013, CC BY-SA 4.0, via Wikimedia Commons, disponível em https://commons.wikimedia.org/wiki/File:20130825_Brazil_Rio_de_Janeiro_0269.jpg).

Novo fóssil de invertebrado jamais visto é encontrado no Brasil

10 de janeiro de 2021

Por: Larissa do Valle

Um novo fóssil de um invertebrado foi encontrado no Brasil, mais especificamente na Formação Ponta Grossa, na Bacia do Paraná. Os invertebrados são aqueles animais que não possuem coluna vertebral e dispõem de uma enorme biodiversidade, sendo diferentes na forma, alimentação e hábitos, por exemplo as águas-vivas, esponjas, ouriços, minhocas, borboletas e baratas.  

O fóssil se refere a uma espécie que viveu no Devoniano Inferior, ou seja, durante o período da era Paleozoica que está compreendido entre há 419 milhões e 200 mil e 393 milhões e 300 mil anos, aproximadamente. O local onde foi encontrado possui um endemismo marcante de formas de água fria, apesar disso, é diferente de qualquer outro fóssil já conhecido do território.  

Foram encontrados três moldes internos e incompletos, ou seja, quando a estrutura é preenchida internamente por sedimentos e por ainda possuírem suas margens basais, laterais e terminais do animal original, sugere-se que houve um transporte mínimo seguido de soterramento.  

Apesar dos seus traços se assemelharem as esponjas Paleozoicas encontradas na América do Sul, o espécime não possuía espículas, era menor, menos alongado e mais estreito na base se diferindo das esponjas Paleozoicas. Sendo assim, as informações obtidas não são suficientes para se inferir que o fóssil é próprio a este filo. No entanto, embora haja algumas dúvidas a serem respondidas, a descoberta desse invertebrado é de extrema importância, pois através dos fósseis estudamos características que nos mostram tendências evolutivas, além disso é essencial para que possamos entender a diversidade que existe na natureza e compreender a evolução biológica, possibilitando reconstruções ambientais e o reconhecimento de espécies atualmente extintas.  

Artigo fonte: CHAHUD, Artur; FAIRCHILD, Thomas R. (2020). A new invertebrate from the Ponta Grossa Formation (Devonian), Paraná Basin, Brazil. Revista Brasileira de Paleontologia, v. 23, n. 4, p. 279-282. Doi: 10.4072/rbp.2020.4.06 <Clique aqui para acessar o artigo fonte>

Legenda e fonte da imagem: Três moldes do novo fóssil encontrado são mostrados na figura. O primeiro molde (1) tem formato de cálice e é possível observar suas margens bem delimitadas, representando a porção basal do organismo. Já o segundo e terceiro molde (2 e 3) são fragmentos incompletos da sua porção superior e também é possível, ainda que menos aparente que no primeiro molde, perceber seu padrão reticulado. (Extraída do artigo fonte).

Uma filhotinha de lobo do Pleistoceno

20 de janeiro de 2021

Por: Rafael Henrique Mateus Pereira

É fato que as mudanças climáticas tem provocado alterações na temperatura e dinâmica do clima em todo o mundo. Um dos efeitos que podem ser observados, é a elevação da temperatura em locais onde o frio é costumeiro, como nos círculos Ártico e Antártico.

No círculo Ártico, é comum a presença de um solo composto de terra, gelo e rochas permanentemente congeladas, denominado permafrost (ou pergelissolo). Como consequência do aquecimento global, tem ocorrido o derretimento do permafrost, o que é lamentável devido ao contexto climático atual. Entretanto, apesar de ser reflexo de um enorme problema ambiental, o derretimento desse tipo de solo tem revelado vários fósseis de organismos que viveram muito tempo atrás, muitas vezes bem preservados devido principalmente às baixas temperaturas.

E foi justamente nessas condições que foi encontrado, em julho de 2016, no Canadá, o fóssil de lobo cinzento (Canis lupus) mais completo da região do Ártico já descrito. No artigo “Um filhote de lobo cinzento do pleistoceno mumificado”, publicado na revista Current Biology em 21 de dezembro de 2020, os pesquisadores apresentam as condições do fóssil.

Batizado de Zhùr , que significa ‘lobo’ em um idioma local, o fóssil (tratado como múmia pelos pesquisadores) impressiona pelo nível de conservação. O filhote, que viveu cerca de 57 mil anos atrás, deve ter morrido entre a sexta e sétima semanas de vida. Devido ao nível de desenvolvimento de seu esqueleto, teve conservadas estruturas como as papilas em seus lábios, pelos, couro e até mesmo seu conteúdo estomacal do momento da morte. Além disso, a vulva (genitália externa feminina) também foi conservada, permitindo com que os pesquisadores fizessem com mais facilidade a sexagem do fóssil.

Zhùr havia se alimentado de peixes, possivelmente de uma espécie de salmão proveniente da fauna marinha da região, onde há conexão entre rios com o Oceano Pacífico. A presença de alimento no estômago de Zhùr permitiu aos pesquisadores inferir que a causa de morte provavelmente não foi fome. Com base nisso e em outras condições do fóssil, a causa da morte pode ter sido o soterramento da toca de Zhùr pelo sedimento, fechando a entrada da toca, sepultando-a.

Análises genéticas permitiram concluir que Zhùr pertenceu a um grupo de lobos basal para todos os lobos existentes, exceto os lobos de altitude, como o lobo-do-himalaia. Segundo os pesquisadores, esse clado basal, do qual Zhùr faz parte, inclui indivíduos da Eurásia e América do Norte, o que evidencia a conexão existente entre as duas regiões pelo Estreito de Bering.

Apesar disso, por mais que a princípio possa parecer lógico, o clado a que Zhùr pertence não é ancestral direto dos lobos cinzentos daquela região, o que evidencia a possível ocorrência de substituição das populações viventes na América do Norte. O número de fósseis de lobo cinzento encontrado na região sugere que esses animais desenvolviam um importante papel ecológico, já que são carnívoros notáveis.

As condições de preservação de Zhùr, bem como de fósseis de alguns outros mamíferos, sugerem que aqueles que utilizam tocas em locais frios possuem maiores chances de serem mumificados.

Artigo fonte: Meachen, J., Wooller, M. J., Barst, B. D., Funck, J., Crann, C., Heath, J., et al. (2020). A mummified Pleistocene gray wolf pup. Current Biology, v. 30, n. 24, R1467–R1468. Doi: 10.1016/j.cub.2020.11.011 <Clique aqui para acessar o artigo fonte>

Legenda e fonte da imagem: Zhùr, o fóssil de lobo cinzento mais bem preservado do Ártico. Vista dorsal (superior) e vista dosal (inferior). (Extraída do artigo fonte).

Fósseis encontrados no Equador alimentam debates sobre o comportamento e o crescimento de uma espécie de gatos dente-de-sabre*

20 de janeiro de 2021

Por: Bruna Lopes Resende

*Texto publicado também no espaço biótico <confira aqui>

Em 2020, pesquisadores canadenses levantaram evidências sobre o comportamento dos populares gatos dente-de-sabre, componentes do gênero Smilodon que ocupavam as Américas do Sul e do Norte durante o Pleistoceno. O estudo de seus hábitos é motivo de desacordo entre pesquisadores, devido à dificuldade em encontrar amostras isoladas e bem preservadas. Mas, a partir de fósseis encontrados em Coralito, no Equador, foi possível inferir sobre a história e o comportamento da espécie mais conhecida dentre os gatos dente-de-sabre, os Smilodon fatalis.

Em família

Após análise de peças ósseas de S. fatalis, os pesquisadores chegaram à conclusão de que existiam dois indivíduos subadultos e um adulto naquela amostragem. Nesta, se encontravam dois ossos dentários (osso da mandíbula) esquerdos que pertenciam aos subadultos, e uma ulna (osso presente nos membros superiores) pertencente ao adulto.

Se isso já era interessante, o encontrado no dentário dos indivíduos subadultos tornou os fósseis de Coralito ainda mais atrativos. Ambas as peças possuíam o pré-molar P3, o que é raro em S. fatalis, aparecendo em aproximadamente 2-6% de indivíduos da espécie. Com essas taxas, a hipótese de que estes indivíduos eram geneticamente relacionados é a mais provável.

E sobre o indivíduo adulto? Foram formuladas duas hipóteses sobre sua presença. A primeira é de que os S. fatalis formam grupos sociais e o adulto apenas fazia parte do mesmo grupo, e a segunda é de que o indivíduo adulto era a mãe dos subadultos encontrados. Essa última é a mais provável, dado que as marcas encontradas nos fósseis eram consistentes, o que implica em um longo período de cuidado parental na espécie.

Crescimento único

Usando os ossos de S. fatalis encontrados em Coralito, os cientistas descobriram que as marcas de seu crescimento combinavam características encontradas em tigres e leões. Os pesquisadores perceberam que, apesar da erupção dentária indicar um maior amadurecimento, os ossos dos membros ainda estavam em crescimento. Os indivíduos subadultos possivelmente possuíam um tamanho corporal de 131,8kg e 140,6kg, o que, combinado aos estimados 2 anos de vida, levavam à conclusão de que a espécie crescia rapidamente, em taxas parecidas às dos tigres, e possuíam um longo período de desenvolvimento, similar aos leões.

Esse estudo traz luz sobre o comportamento social e o crescimento dos S. fatalis, indicando um prolongado período de cuidado parental e níveis de socialização na espécie, além de uma forma de crescimento única, combinando características de dois grupos atuais.

Artigo fonte: Reynolds, A. R., Seymour, K. L., & Evans, D. C. (2021). Smilodon fatalis siblings reveal life history in a saber-toothed cat. iScience, 1–30. Doi: 10.1016/j.isci.2020.101916 <Clique aqui para acessar o artigo fonte>

Legenda e fonte da imagem: Ossos de S. fatalis encontrados em Coralita, no Equador. (Extraída e modificada do artigo fonte).

Seria este o primeiro registro fóssil de ovo amniótico contendo restos embrionários pertencente aos Crocodylomorpha?

19 de janeiro de 2021

Por: Amanda Cristina Pereira Antônio

Pesquisadores brasileiros descobriram o primeiro registro fóssil de um ovo amniótico na formação Romualdo, possivelmente pertencente ao grupo Crocodylomorpha (crocodilos e seus parentes extintos). A formação Romualdo é um dos mais importantes sítios paleontológicos do Brasil e está situada na Bacia do Araripe no estado do Piauí.

O registro fóssil encontrado se enquadra no grupo dos icnofósseis, que são os vestígios de atividade biológica de um organismo, incluindo pegadas, escavações, coprólitos (fezes fossilizadas), ovos e ninhos. O estudo dos icnofósseis é muito relevante para auxiliar nas interpretações das atividades orgânicas, no entendimento do comportamento dos organismos e das condições de sedimentação do passado em um tempo geológico específico.

Por serem fósseis muito frágeis, os registros de ovos amnióticos são raros, sendo grande parte dos registros existentes pertencente ao grupo dos dinossauros. No Brasil, já foram encontrados registros de ovos inteiros e fragmentados de alguns grupos em outras regiões, mas esse é o primeiro registro de ovo amniótico encontrado na formação Romualdo.

O icnofóssil do ovo amniótico encontrado e descrito no artigo publicado em 2020, foi preservado em uma concreção calcária e o estudo realizado apresenta a descrição detalhada das características morfológicas do ovo e da casca, além da comparação do ovo fóssil encontrado com outros ovos de crocordilomorfos extintos e viventes.

Através da análise das características estruturais morfológicas da casca, os pesquisadores observaram que o ovo amniótico fossilizado encontrado difere dos ovos fósseis de outros organismos de Crocodylomorpha quanto ao seu menor tamanho e casca mais espessa. Além disso, foi possível reconhecer possíveis estruturas anatômicas de um embrião, através de imagens de tomografia e estudos de correlação entre estruturas anatômicas encontradas em outra espécie do grupo. Apesar da limitação das amostras analisadas ter dificultado uma conclusão mais precisa, os autores sugerem que esse poderia ser o primeiro ovo fóssil contendo restos embrionários atribuídos ao grupo dos crocordilomorfos encontrado no mundo. O estudo dos ovos amnióticos fossilizados são muito importantes, já que contribuem para o entendimento dos aspectos reprodutivos e evolutivos dos vertebrados. O material fóssil encontrado foi depositado no acervo fóssil do Museu Dom José, localizado no município de Sobral, no estado do Ceará.

Artigo fonte: Abreu, Dayanne; Viana, Maria Somália S.; Oliveira, Paulo Victor de; Viana, Gustavo Fernandes; Borges-Nojosa, Diva Maria. (2020). First record of an amniotic egg from the romualdo formation (Lower cretaceous, Araripe Basin, Brazil). Revista Brasileira de Paleontologia, v. 23, n. 3, p. 185–193. Doi: 10.4072/rbp.2020.3.03 <Clique aqui para acessar o artigo fonte>

Legenda e fonte da imagem: Correlação das principais características entre um embrião de um crocodiliano vivente (Caiman latirostris), e dos possíveis restos embrionários presente no ovo fóssil encontrado. A: seção sagital do embrião de Caiman latirostris. B: imagem de tomografia de Caiman latirostris dentro do ovo. C: imagem de tomografia do ovo fóssil (1- casca do ovo, 2- crânio, 3- coluna vertebral, 4- região abdominal). (Extraída e modificada do artigo fonte).

Fósseis de plantas permitem a reconstrução do clima da Amazônia Oriental durante o Oligoceno/Mioceno

17 de janeiro de 2021

Por: Karolina Dias

Cientistas da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP) realizaram interpretações do clima da Amazônia Oriental durante as épocas do Oligocendo/Mioceno a partir de fósseis de plantas encontrados na localidade de Caieira – Pará, região Norte do país.

Fósseis bem preservados de 19 espécies de plantas das épocas do Oligoceno e do Mioceno foram utilizados para interpretar o paleoclima – o paleoclima nada mais é do o clima de uma antiga era geológica – da Amazônia Oriental. O estudo foi feito com o objetivo de investigar a temperatura média anual (TMA) e a precipitação média anual (PMA) no momento em que as folhas dessas plantas foram depositadas. Os fósseis das plantas usados no estudo estão associados a Formação Pirabas, um dos eventos paleontológicos mais importantes que ocorreram na Amazônia oriental.

As plantas, principalmente as suas folhas, são importantes indicadores climáticos, uma vez que elas são capazes de responder, de forma rápida, às condições climáticas a que são expostas. Sendo assim, com base em análises da margem foliar e da área foliar, foi possível reconstruir a temperatura e a precipitação média das épocas do Oligoceno e Mioceno da Amazônia oriental.

Atualmente, a temperatura média anual da região é de 26,1°C e a precipitação média anual varia entre 2000 a 3000 mm. Os resultados da pesquisa mostram que no momento de deposição das folhas utilizadas no estudo, a temperatura era de 25°C, mais fria em 1,1 a 1,5 oC, e a região era menos úmida, com a precipitação variando entre 1849 a 2423 mm. Essas diferenças nas condições climáticas são, possivelmente, resultado de um evento de glaciação conhecido como Mi-1. Conjuntamente, notaram que a vegetação no Oligoceno/Mioceno é semelhante a vegetação encontrada atualmente na região, que de acordo com o IBGE (2008) é composta por floresta de planície inundável, restinga, manguezal e campos salinos.

Artigo fonte: SANTIAGO, Francisco; RICARDI-BRANCO, Fresia. (2018). Interpretações paleoclimáticas a partir da tafoflora de Caieira, Formação Pirabas, Oligoceno/Mioceno da Amazônia Oriental, Pará, Brasil. Revista Brasileira de Paleontologia, v. 21, n. 3, p. 265-271. Doi: 10.4072/rbp.2018.3.07. <Clique aqui para acessar o artigo fonte>

Legenda e fonte da imagem: Regiões no estado do Pará onde estão localizadas a Formação Pirabas. Dentre elas, podemos observar a localidade de Caieira de onde foram coletados os fósseis utilizados na pesquisa. (Extraída do artigo fonte).

Descoberta de tecidos moles e elásticos em fóssil de um Tyrannosaurus rex

18 de janeiro de 2021

Por: Ana Cláudia Martins

Quando pensamos em dinossauros logo pensamos em fósseis, o que nos leva a pensar em ossos. Pois bem, depois da pesquisa da doutora Mary Schweitzer, podemos associar dinossauros também com achados de tecidos moles e elásticos.

No ano 2000 a doutora Mary H. Schweitzer e seus colaboradores encontraram uma espécime de Tyrannosaurus rex no Hell Creek Formation, um dos mais famosos e intensamente estudados sítios de fósseis de dinossauros. O que parecia ser apenas restos de ossos desarticulados de um tiranossauro com aproximadamente 18 anos de idade, revelou mais tarde, após uma desmineralização por ácido, um grande avanço para a paleontologia molecular.

A descoberta foi no ano 2000, mas foi somente em 2005 que o artigo foi publicado confirmando a descoberta. Isto ocorreu porque o trabalho de escavação dos paleontólogos é feito com muita cautela para nenhum registro fóssil ser danificado de alguma maneira. A equipe da Montana State University passou três verões escavando e desenterrando os ossos, que se encontravam fraturados e comprimidos, porém em excelente estado de preservação.

Durante a escavação e a preparação dos ossos, não foram colocados produtos químicos para a preservação nos fragmentos internos do fêmur. Por meio de um processo de desmineralização por ácido, conseguiu-se remover a fase mineral. Na primeira instância os resultados foram interpretados como provenientes de origem estuária (tipo de formação em que um rio mistura-se com o mar). Porém, a pesquisa da doutora Mary revelou que as estruturas parecem realmente de origem biológica do próprio dinossauro. Os resultados da pesquisa revelaram um tecido que se encontrava vascularizado, possuía elasticidade e resiliência. Os dados da pesquisa parecem indicar que realmente não só foram encontrados vasos sanguíneos e vários tipos de microestruturas que tem morfologia celular, mas, além disso, possuem características que mostram que alguns tecidos moles de dinossauros conservaram também algo da sua flexibilidade e elasticidade originais.

Se pesquisarmos veremos que anteriormente outros pesquisadores já haviam descrito estruturas citológicas com informação molecular preservadas em dinossauros, entretanto a pesquisa da Mary é o primeiro a mostrar que as estruturas conservadas ainda tem flexibilidade, ductilidade, suas cavidades internas e seu caráter tridimensional, características originais do material orgânico. O que caracteriza um marco significante, especialmente se pensarmos que, de acordo com os métodos de datação atuais, esses fósseis teriam uma idade de aproximadamente 68 milhões de anos.

Essa descoberta foi considerada pela revista Discovery a sexta notícia científica mais importante do ano de 2005. Realmente, é um grande avanço para a paleontologia molecular e seus desafios.

Artigo fonte: Schweitzer, M. H., J. L. Witmeyer, J. R. Horner e K. K. Toporski. (2005). Soft-tissue vessels and cellular preservation in Tyrannosaurus rex. Science, v. 307, n. 5717, p. 1952-1955. DOI: 10.1126/science.1108397 <Clique aqui para acessar o artigo fonte>

Fontes complementares:

  1. Discover, Janeiro 2006, Vol. 27 No. 1.
  2. Júnior, Arnaldo de Souza Vasconcellos. 2011. Uma análise Lakatosiana da pesquisa de Mary Schweitzer em biologia evolutiva. Monografia.
  3. Ciências das origens, Segundo semestre 2006, No 12.

Legenda e fonte da imagem: Imagem ilustrativa do Tyrannosaurus rex. (Imagem da Science Photo Library, extraída da BBC News website <link aqui>).

Qual a importância da abordagem investigativa para o ensino de paleontologia? Conheça o kit paleontológico*

19 de janeiro de 2021

Por: Júlia Quintaneiro

*Texto publicado também no espaço biótico <confira aqui>

Cientistas do Departamento de Geologia, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), propõem kit para aulas práticas com réplicas de fósseis brasileiros e uma cartilha com objetivo de auxiliar os alunos do Ensino Fundamental a entenderem como os fósseis são ferramentas fundamentais para se desvendar a história evolutiva da Terra.

O que é Paleontologia?

Dinossauro. Fonte: Pixabay

Segundo o Livro Paleontologia em Sala de Aula, a Paleontologia é a ciência que estuda os fósseis, ou seja, o vasto documentário de vida pré-histórica. Tal definição nos leva a refletir sobre a relevância do tema para sala de aula. Assunto que Lílian Paglarelli e Stella Barbara abordam no artigo feito por elas.

A importância do ensino de Paleontologia nas escolas

Além de apresentar o kit paleontológico, que possui uma boa forma de divulgar sobre o uso de fósseis, as autoras se debruçam a discutir a importância do ensino de Paleontologia nas escolas. Afinal, o tema aparece no 6º e 7º ano no Ensino Fundamental.

É ainda mais importante, pois a Paleontologia é interdisciplinar (relações entre duas ou mais disciplinas ou ramos de conhecimento), envolvendo Ciência, Geografia e até mesmo História.

Por que é importante o estudo de paleontologia? As autoras citam, por exemplo:

  • Papel na alteração da consciência do aluno: por abordar o desaparecimento das espécies, a preservação do meio ambiente pode ser abordada.
  • Entendimento da biodiversidade
  • Interpretação de tempo geológico
  • Evolução das espécies
  • Características climáticas
  • Novas leituras do ambiente, integrando a temporalidade, a ciclicidade e a duração dos processos terrestres.

Porém, apesar de extremamente relevante, a Paleontologia encontra algumas dificuldades dentro da escola. Tópico também abordado pelas autoras.

Algumas dificuldades encontradas no ensino de Paleontologia

Alguns dos problemas enfrentados no ensino de Paleontologia envolvem a falta de material para as práticas, de modo que, muitas vezes, o aluno só pode visualizar ou demonstrar os materiais através de fotos.

Outro fator citado pelas autoras envolve o currículo escolar não considerar a experiência dos alunos.

Por conta dessas problemáticas, as autoras citam visitas a museus como alternativa para que os alunos possam interagir com alguns materiais. Em um contexto da pandemia, alternativas como museus online oferecem uma opção viável.

Clique aqui para acessar mais de 500 museus na ferramenta do Google Arts & Culture que tem outras opções de museus ao redor do mundo!

Um exemplo de museu que aborda a Paleontologia é o National Museum of Natural History que oferece visita virtual.

Visita virtual ao National Museum of Natural History

Então, como forma de propor a participação dos estudantes em investigações reais, este artigo propõe o kit paleontológico.

Kit paleontológico: um material didático com abordagem investigativa

O Kit, segundo as autoras, tem como objetivo:

“Compreender a função dos fósseis para a interpretação dos ambientes pretéritos e para a datação das camadas sedimentares.”

O que tem no kit?

1) Réplicas de fósseis brasileiros para que os estudantes pudessem chegar às suas próprias conclusões através de análise e solução de problemas.

Locais onde os materiais foram retirados:

Bacia de Itaboraí (Rio de Janeiro):

  • Idade paleocênica
  • Representante das ordens de mamíferos Condylarthra, Notoungulata, Xenungulata e Marsupialia

Rochas da Formação Pirabas (Maranhão, Piauí e Pará):

  • Idade miocênica
  • Rico em invertebrados marinhos como fósseis de bivalves, gastrópodes, corais e equinóides.

Assim, os materiais servem de forma complementar de forma que os fósseis são fundamentais na determinação da idade de rochas sedimentares.

2) Cartilha para orientar as atividades práticas

Nela contém informações como:

  • Idade das unidades geológicas relacionadas com a atividade
  • Imagens dos fósseis ou formas afins
  • Representantes recentes do grupo
  • Distribuição cronológica destes
  • Informações taxonômicas e ecológicas

Assim, os alunos são desafiados a descobrir como era o ambiente na época em que aqueles animais.

As autoras colocam um grande objetivo dos alunos de popularizar o conhecimento paleontológico, tendo o estudante como disseminador do conhecimento adquirido na escola.

Pensar, visualizar, discutir, comparar os achados com suas hipóteses são algumas das atividades exercidas pelos alunos. Além disso, a realização da atividade pelos estudantes é um dos momentos de investigação envolvendo um conceito científico.

E como foi medido a eficiência do kit? A partir do acompanhamento, da mediação e na conclusão dos desafios propostos.

Gostou da ideia?

Nosso aprendizado sobre o tema não para por aqui!

Para saber mais:

Confira o artigo original.

Que tal entender mais sobre Paleontologia e Ensino? Confira o livro Paleontologia em Sala de Aula.

O artigo abordado no texto é sobre uma abordagem no ensino formal, que tal conferir um sobre o Ensino não formal de Paleontologia no Ensino Fundamental? Clique aqui.

Notícia quentinha! Confira: MHNJB planeja criar plataforma na web com informações sobre acervos atingidos por incêndio.

Palavras-chave: Ensino de Paleontologia. Ensino Fundamental. Material didático-instrucional. Paleontologia. Divulgação científica.

Referências bibliográficas:

BERGQVIST, Lílian Paglarelli; PRESTES, Stella Barbara Serodio. Kit paleontológico: um material didático com abordagem investigativa. Ciênc. educ. (Bauru), Bauru , v. 20, n. 2, p. 345-357, 2014 . Disponível em <a href=”http://<http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1516-73132014000200345&lng=en&nrm=iso&gt;. Acesso em 17 Jan. 2021. https://doi.org/10.1590/1516-73132014000200006.

National Museum of Natural History. Disponível em: <https://naturalhistory.si.edu/visit/virtual-tour> Acesso em 18 Jan. 2021.

SOARES, M.B.(Org.). A paleontologia na sala de aula. Ribeirão Preto:Sociedade Brasileira de Paleontologia, 2015, 714p.

Fóssil encontrado no Brasil difere de todas as espécies já conhecidas*

19 de janeiro de 2021

Por: Igor Mateus Sousa Santana

*Texto publicado também no espaço biótico <confira aqui>

A Formação Ponta Grossa da Bacia do Paraná, no estado do Paraná, Brasil, é conhecida por preservar diversas espécies de animais invertebrados, como trilobitas, moluscos, equinodermos, dentre outros. No entanto, o fóssil encontrado difere de todos esses animais e consiste em três pequenos fragmentos que indicam ser de uma espécie bentônica séssil, ou seja, uma espécie que vivia fixa a um substrato.

O fóssil data do período entre 407 e 393 milhões de anos atrás, no Devoniano Inferior e se refere a uma espécie até então desconhecida, que foi nomeada Pontagrossia reticulata. O nome do gênero “Pontagrossia” se refere ao local em que o fóssil foi encontrado, a Formação Ponta Grossa. Já o epíteto específico “reticulata” se refere à forma reticulada da estrutura encontrada, que é cheia de estrias longitudinais e transversais.

Ainda não se sabe se os três fragmentos encontrados se referem a um único indivíduo ou a três indivíduos diferentes. O que se sabe, com certeza, é que o fóssil representa um animal minúsculo, de poucos milímetros, que difere de todos os outros já encontrados no local. Acredita-se que a espécie descoberta seja um Porifera, ou seja, uma esponja. O corpo em forma de vaso e o padrão reticulado são características que sustentam essa especulação. No entanto, a classificação da espécie descoberta neste filo ainda é incerta.

A revelação de uma nova espécie geralmente desperta enorme curiosidade. Tomar conhecimento de um organismo que antes era desconhecido trata de desvendar parte dos grandes mistérios da natureza, ainda mais quando se trata de uma espécie já extinta. No entanto, com os avanços da ciência, espera-se que muitas outras espécies sejam descobertas, mesmo quando todas já parecem ser conhecidas. A descoberta desse fóssil na Formação Ponta Grossa é apenas um exemplo das grandes novidades da ciência.

Artigo fonte: Chahud, A., & Fairchild, T. R. (2020). A new invertebrate from the Ponta Grossa Formation (Devonian), Paraná Basin, Brazil. Revista Brasileira De Paleontologia, v. 23, n. 4, p. 279-282. Doi: 10.4072/rbp.2020.4.06 <Clique aqui para acessar o artigo fonte>

Fonte complementar: Tabela cronoestratigráfica internacional. Disponível em: https://stratigraphy.org/ICSchart/ChronostratChart2017-02BRPortuguese.pdf. Acesso em: 19 jan. 2021.

Legenda e fonte da imagem: Imagem de microscopia eletrônica de varredura do holótipo de Pontagrossia reticulata da Formação Ponta Grossa. Fragmento interno incompleto do espécime GP/1E-11425. Escala = 5 mm. (Extraída do artigo fonte).

Como os Sheaths nos ajudam a contar a história das bactérias

19 de janeiro de 2021

Por: Clara Carvalho

Os cientistas Alexander R. Schmidt e Ursula Schäfer do Instituto de Ecologia e Evolução da Universidade Friedrich Schiller Jena na Alemanha encontraram um novo gênero de bactéria fossilizado na encosta oeste de uma colina próxima à aldeia de Schliersee, na região dos Alpes da Baviera, no sul da Alemanha. O chamado “âmbar cretáceo” dessa região se tornou famoso pela riqueza de fósseis de microrganismos descritos, como fungos, algas e protozoários.

Esses pesquisadores encontraram em uma resina fóssil em que investigavam diversas estruturas filiformes ramificadas de cerca de 10 nm de diâmetro e 2 μm de comprimento. Após a realização de análises microscópicas e moleculares, eles constataram que essas estruturas, também conhecidas como sheaths, são bem parecidas com bioassinaturas de um gênero bacteriano que vive atualmente, o gênero Leptothrix. Entretanto, apesar de ser bem parecido, esses sheaths fósseis possuem uma composição diferente dos atuais, que são extremamente ricos em ferro. E assim foi descrito um novo gênero bacteriano fóssil que muito se assemelha ao atual, denominado Leptotrichites resinatus. Essas bactérias, segundo discutido por esses cientistas, provavelmente residiam em habitats limnéticos em lagoas no solo das florestas do Cretáceo.

Essa pesquisa foi publicada no Journal of Paleontology no ano de 2005, e continua sendo um marco no meio científico por descrever pela primeira vez bactérias fósseis produtoras de sheaths fora do meio marinho (visto que essas já foram observadas desde o Pré-Cambriano) e que provavelmente colonizaram habitats de água doce no final do Mesozoico, ajudando assim a reconstruir um pedacinho da história evolutiva desses microorganismos.

Artigo fonte: SCHMIDT, A. R.; SCHÄFER, U. (2005). Leptotrichites resinatus new genus and species: a fossil sheathed bacterium in alpine cretaceous amber. Journal of Paleontology, v. 79, n. 1, p. 175-184. Doi: 10.1666/0022-3360(2005)079<0175:LRNGAS>2.0.CO;2 <Clique aqui para acessar o artigo fonte>

Legenda e fonte da imagem: Na figura podemos ver um esquema desses denominados Sheaths, que se parecem com canudinhos ramificados que abrigam bactérias em seu interior. (Extraída do artigo fonte).