Uma filhotinha de lobo do Pleistoceno

20 de janeiro de 2021

Por: Rafael Henrique Mateus Pereira

É fato que as mudanças climáticas tem provocado alterações na temperatura e dinâmica do clima em todo o mundo. Um dos efeitos que podem ser observados, é a elevação da temperatura em locais onde o frio é costumeiro, como nos círculos Ártico e Antártico.

No círculo Ártico, é comum a presença de um solo composto de terra, gelo e rochas permanentemente congeladas, denominado permafrost (ou pergelissolo). Como consequência do aquecimento global, tem ocorrido o derretimento do permafrost, o que é lamentável devido ao contexto climático atual. Entretanto, apesar de ser reflexo de um enorme problema ambiental, o derretimento desse tipo de solo tem revelado vários fósseis de organismos que viveram muito tempo atrás, muitas vezes bem preservados devido principalmente às baixas temperaturas.

E foi justamente nessas condições que foi encontrado, em julho de 2016, no Canadá, o fóssil de lobo cinzento (Canis lupus) mais completo da região do Ártico já descrito. No artigo “Um filhote de lobo cinzento do pleistoceno mumificado”, publicado na revista Current Biology em 21 de dezembro de 2020, os pesquisadores apresentam as condições do fóssil.

Batizado de Zhùr , que significa ‘lobo’ em um idioma local, o fóssil (tratado como múmia pelos pesquisadores) impressiona pelo nível de conservação. O filhote, que viveu cerca de 57 mil anos atrás, deve ter morrido entre a sexta e sétima semanas de vida. Devido ao nível de desenvolvimento de seu esqueleto, teve conservadas estruturas como as papilas em seus lábios, pelos, couro e até mesmo seu conteúdo estomacal do momento da morte. Além disso, a vulva (genitália externa feminina) também foi conservada, permitindo com que os pesquisadores fizessem com mais facilidade a sexagem do fóssil.

Zhùr havia se alimentado de peixes, possivelmente de uma espécie de salmão proveniente da fauna marinha da região, onde há conexão entre rios com o Oceano Pacífico. A presença de alimento no estômago de Zhùr permitiu aos pesquisadores inferir que a causa de morte provavelmente não foi fome. Com base nisso e em outras condições do fóssil, a causa da morte pode ter sido o soterramento da toca de Zhùr pelo sedimento, fechando a entrada da toca, sepultando-a.

Análises genéticas permitiram concluir que Zhùr pertenceu a um grupo de lobos basal para todos os lobos existentes, exceto os lobos de altitude, como o lobo-do-himalaia. Segundo os pesquisadores, esse clado basal, do qual Zhùr faz parte, inclui indivíduos da Eurásia e América do Norte, o que evidencia a conexão existente entre as duas regiões pelo Estreito de Bering.

Apesar disso, por mais que a princípio possa parecer lógico, o clado a que Zhùr pertence não é ancestral direto dos lobos cinzentos daquela região, o que evidencia a possível ocorrência de substituição das populações viventes na América do Norte. O número de fósseis de lobo cinzento encontrado na região sugere que esses animais desenvolviam um importante papel ecológico, já que são carnívoros notáveis.

As condições de preservação de Zhùr, bem como de fósseis de alguns outros mamíferos, sugerem que aqueles que utilizam tocas em locais frios possuem maiores chances de serem mumificados.

Artigo fonte: Meachen, J., Wooller, M. J., Barst, B. D., Funck, J., Crann, C., Heath, J., et al. (2020). A mummified Pleistocene gray wolf pup. Current Biology, v. 30, n. 24, R1467–R1468. Doi: 10.1016/j.cub.2020.11.011 <Clique aqui para acessar o artigo fonte>

Legenda e fonte da imagem: Zhùr, o fóssil de lobo cinzento mais bem preservado do Ártico. Vista dorsal (superior) e vista dosal (inferior). (Extraída do artigo fonte).

Publicado por Alexandre Liparini

Mineiro, gaúcho, sergipano, e por que não, alemão? No caminho sempre a paleontologia como paixão e agora como profissão. Adora dar aulas e pesquisar sobre origens e evolução. Se esse for o tema, podem perguntar, por que não?

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