Artrite e lesões da megafauna – o preço, e o peso, de ser mega

20 de janeiro de 2021

Por: Isabela Nunes

A artrite é um conjunto amplo de doenças inflamatórias comuns em humanos, principalmente grupos de idade avançada. As articulações são afetadas causando sintomas como dor, limitações de movimento e rigidez articular. Além da idade e do histórico familiar, a alta carga sobre as articulações podem se relacionar ao desenvolvimento desse conjunto de lesões. Assim como nós, outros mamíferos, tanto atuais como os já extintos, são suscetíveis a doenças como gota e lesões causadas por esforços repentinos, informação que causaria grande preocupação entre os mamíferos da mega fauna brasileira.

Durante o Pleistoceno parte do território nacional foi ocupado por uma rica diversidade de mamíferos, incluindo populações de preguiças gigantes – que equilibravam cerca de três toneladas em 6 metros de altura -que dividiam espaço do Toxodontes (um grande herbívoro de tamanho semelhante a um rinoceronte). Fósseis de quatro indivíduos representantes dessa fauna foram encontrados em Ourolândia, na Bahia, dois destes indivíduos pertenciam à espécie Eremotherui laurillardi já os outros dois foram classificados como Toxodon platensis.

Dois exemplares ósseos de preguiça gigante (E. laurillard) chamaram a atenção por apresentarem desgastes característicos de artrite. Uma vértebra lombar apresentava um acúmulo calcário bastante semelhante aquele provocado pela pseudogota, um tipo de artrite causada pela deposição de cristais de cálcio nas articulações. Nossa grande preguiça não é a primeira a “relatar” em seu fóssil tal problema, das nove espécies de preguiças que ocuparam o país durante o mesmo período, cinco delas já haviam sido diagnosticadas com a mesma lesão por paleopatologistas. O outro exemplar pertencente à mesma espécie, um osso navicular apresentava desgastes condizentes com espondilite periférica, outro tipo de artrite.

Um terceiro exemplar ósseo também com sinais de lesão pertencia ao Toxodonte encontrado. O fóssil indicava um rompimento do tendão do metacarpo IV, um osso homólogo ao que estrutura nosso dedo anelar. O rompimento teria sido causado por um esforço abrupto do animal durante sua vida e não é uma novidade, lesões semelhantes já haviam sido registradas entre preguiças.

O tamanho e modo de vida dos grande mamíferos não era algo banal, sustentar todo o peso corporal enquanto fugia de predadores e se esticavam para alcançar alimentos – sem fisioterapeutas e anti-inflamatórios para ajudar nas lesões – foi um desafio encarado por esses animais. Ser mega custou muito caro para as articulações – e permanência na natureza – destes animais.

Artigo fonte: Dayana Ellen Miranda Dias , Mário André Trindade Dantas & Fernando Henrique de Souza Barbosa. (2020). Diagnosis of bone diseases in two representatives of the Pleistocene megafauna of Bahia, Brazil. Historical Biology, Doi: 10.1080/08912963.2020.1860032 <Clique aqui para acessar o artigo fonte>

Fontes complementares:

  1. Sociedade Brasileira de Reumatologia. Pseudogota – Disponível em: https://www.reumatologia.org.br/doencas-reumaticas/pseudogota/. Acesso: 20 de Janeiro de 2021
  2. Sociedade Brasileira de Reumatologia. Espondiloartrites – Disponível em: https://www.reumatologia.org.br/doencas-reumaticas/espondiloartrites/. Acesso: 20 de Janeiro de 2021
  3. Biblioteca Virtual em Saúde- Atenção Primária em Saúde. Disponível em:https://aps.bvs.br/aps/o-que-e-artrite/. Acesso: 20 de Janeiro de 2021
  4. Angelo, Claudio. Preguiça gigante tinha artrite, revela exame. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/folha/ciencia/ult306u12316.shtml. Acesso: 20 de Janeiro de 2021
  5. FAPESP. A dor da preguiça. Disponível em: https://revistapesquisa.fapesp.br/dor-da-preguica/. Acesso: 20 de Janeiro de 2021

Legenda e fonte da imagem: Esqueleto de preguiça gigante (Glossotherium) exposto no Museu Nacional, Rio de Janeiro. (Autoria: Edwardliu2013, CC BY-SA 4.0, via Wikimedia Commons, disponível em https://commons.wikimedia.org/wiki/File:20130825_Brazil_Rio_de_Janeiro_0269.jpg).

Publicado por Alexandre Liparini

Mineiro, gaúcho, sergipano, e por que não, alemão? No caminho sempre a paleontologia como paixão e agora como profissão. Adora dar aulas e pesquisar sobre origens e evolução. Se esse for o tema, podem perguntar, por que não?

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