A origem da camuflagem nos insetos

22 de junho de 2021

Por: Mírian Velten Mendes

Quando falamos de paleontologia, a primeira coisa que nos vem à cabeça são fósseis, de esqueletos de grandes dinossauros, e acabamos nos esquecendo das outras maneiras de conhecer a biologia do passado. Em um estudo feito em parceria da universidade do kansas com a universidade de barcelona em 2012, foi identificado uma larva dentro de uma pedra de âmbar, da ordem Neuroptera, da família Chrysopidae. Os crisopídeos não são um inseto tão conhecido como borboletas, são pequenos insetos verdes, com asas quase transparentes, mas eles realmente são conhecidos mesmo por suas larvas, que coletam pequenos galhos e pedras para se proteger.

A larva encontrada em âmbar foi datada no início no cretáceo, e tinha já estruturas bem desenvolvidas, projetadas para coletar dejetos e se disfarçar no ambiente e se proteger de ataques de predadores. Quando reconstituída da pedra de âmbar, podemos ver as estruturas que seguram os dejetos, e alguns tricomas de uma espécie de planta, colocado sob seu corpo pelo próprio inseto.

É possível perceber que o inseto encontrado é altamente especializado, e não uma forma primitiva dos insetos atuais. E talvez essa seja a evidência mais antiga de insetos carregando dejetos, para sua proteção e camuflagem.

Artigo fonte: Perez-de la Fuente, R., Delclos, X., Penalver, E., Speranza, M., Wierzchos, J., Ascaso, C., & Engel, M. (2012). Early evolution and ecology of camouflage in insects. Proceedings Of The National Academy Of Sciences, 109(52), 21414-21419. Doi: 10.1073/pnas.1213775110 <Clique aqui para acessar o artigo fonte>

Legenda e fonte da imagem de capa: Larva de crisopídeo atual, coberto em pedras e gravetos. (Extraída da commons.wikimedia.com. Termo de busca “Chrysopidae Larva”. Autoria de Sanja565658 <link>).

Fóssil de dinossauro encontrado em Minas Gerais revela novidades acerca dos Abelisauridae

21 de junho de 2021

Por: Bruna Rodrigues

O fóssil nomeado de Spectrovenator ragei foi encontrado na região do Município de Coração de Jesus (MG) em 2020 por pesquisadores e trabalhadores locais. Pertencente à família Abelisauridae, esse dinossauro provavelmente viveu no período Cretáceo Inferior — um intervalo de mais de 40 milhões de anos, que se iniciou há 145 milhões de anos. A descoberta desse fóssil contribui para a compreensão das primeiras fases da história evolutiva dos dinossauros abelissaurídeos.

Abelisauridae é uma ampla família de dinossauros do grupo Theropoda, que inclui grandes animais carnívoros extintos. Entre as principais características morfológicas desse grupo podemos citar: um par de membros anteriores bastante reduzidos e uma das estruturas cranianas mais especializadas entre os dinossauros carnívoros. A descoberta anterior, de um Abelisauridae , batizado de Eoabelisaurus que viveu no Jurássico Médio, gerou dúvidas sobre quais animais viveram entre o Jurássico basal e o Cretáceo Superior. As características morfológicas intermediárias do Spectrovenator ragei pode ser a chave entre essas duas eras.

Esse fóssil é o primeiro abelisaurídeo basal do Cretáceo encontrado com crânio completo . Segundo o artigo “An Early Cretaceous theropod dinosaur from Brazil sheds light on the cranial evolution of the Abelisauridae” o fóssil estava em ótima conservação, com partes completas do crânio, mandíbula e esqueleto pós-craniano. A partir da análise principalmente das peças craniais, foi identificada uma longa lista de apomorfias compartilhadas por Spectrovenator ragei e outros abelisaurídeos, as quais fornecem um suporte para a posição deste táxon como um abelissaurídeo basal definitivo.

Esse fóssil também apresenta suas particularidades. O crânio possui metade do tamanho dos abelissaurídeos derivados, além de uma mandíbula alongada, possivelmente devido a tendência observada nos grupos do terópodes, de uma modificação biomecânica que proporcionou o aumento da força da mordida. Ademais, a ausência de uma articulação cinética intramandibular muito presente no grupo irmão, é ausente nos Spectoventor ragei. Isso sugere que os primeiros abelisaurídeos podem ter mantido uma estratégia de alimentação mais generalizada comparável àquela de outros terópodes.

Artigo fonte: ZAHER H., POL D., NAVARRO B.A, DELCOURT R. ,CARVALHO A.C , (2020) An Early Cretaceous theropod dinosaur from Brazil sheds light on the cranial evolution of the Abelisauridae. COMPTES RENDUS PALEVOL v. 19 n.6 ,p. 101-115. DOI: 10.5852/cr-palevol2020v19a6 <Clique aqui para acessar o artigo fonte>

Legenda e fonte da imagem de capa: Anatomia do Spectrovenator ragei. (Extraída do artigo fonte).

Fóssil de rinoceronte gigante do Oligoceno encontrado na China

22 de junho de 2021

Por: Nathália Cruz

Paraceratherium refere-se a um gênero de rinocerontes gigantes extintos, um dos maiores mamíferos que já habitaram a terra e que viveram durante o período do Oligoceno, entre 34 e 23 milhões de anos atrás.

Conhecido popularmente como rinoceronte girafa, esse animal, apesar de não possuir cornos, faz parte do mesmo grupo que os rinocerontes atuais (mas de famílias distintas). Grupo esse que considera não os cornos, mas sim os dentes desses animais, para sua caracterização e identificação.

Seus fósseis foram encontrados primeiramente no Paquistão e depois em outros lugares da Ásia e Europa. Recentemente foi descoberto um fóssil de uma nova espécie na China, descoberta essa que foi publicada na Nature Communications Biology no dia 17 de junho de 2021, em artigo intitulado “An Oligocene giant rhino provides insights into Paraceratherium evolution”.

No artigo é reportado um crânio bem preservado, com mandíbula articulada e atlas, bem como o áxis e duas vértebras torácicas de um outro indivíduo (figs 1 e 2), de uma nova espécie de Paraceratherium do Oligoceno superior encontrado na província de Gansu, na China, e nomeada Paraceratherium linxiaense devido a localidade em que foi encontrado (fig.3).

Fig.1. Crânio (a-e) e mandíbula (f-h) do Paraceratherium linxiaense vistos de diferentes ângulos. (Figura extraída do artigo fonte.)
Fig.2. Atlas (a), áxis (b) e vértebras torácicas (c) dos Paraceratherium linxiaense encontrados. (Figura extraída do artigo fonte.)
Fig.3. Local onde o fóssil foi encontrado na província de Gansu, China. (Figura extraída do artigo fonte.)

O Paraceratherium linxiaense possui várias características que caracterizam o gênero, como tamanho corporal gigantesco, pré-maxila longa com extremidades anteriores estendendo-se para baixo, cristas parietais separadas, côndilo alto em comparação com a altura da superfície nucal, dentre outras. E foi apontado como a espécie mais derivada desse gênero dentre as já descobertas. Tal posicionamento é mostrado na análise filogenética realizada pelos pesquisadores envolvidos no artigo, que considerou 155 caracteres (fig.4).

Fig.4. Relação filogenética dos rinocerontes gigantes. (Figura extraída do artigo fonte.)

Ao final do artigo discute-se também, com base em informações paleogeográficas, a distribuição das diferentes espécies de Paraceratherium durante o Oligoceno (fig.5).

Fig.5. Distribuição e dispersão das espécies do Paraceratherium durante o Oligoceno (cedo em amarelo e tardio em vermelho). (Figura extraída do artigo fonte.)

Para saber mais: assista <esse vídeo> do canal zoomundo, sobre o Paraceratherium

Artigo fonte: DENG, Tao et al. An Oligocene giant rhino provides insights into Paraceratherium evolution. Communications Biology, v. 4, n. 1, p. 1-10, 2021.Doi: 10.1038/s42003-021-02170-6 <Clique aqui para acessar o artigo fonte>

Legenda e fonte da imagem de capa: Reconstrução artística de Paraceratherium. (Imagem extraída da reportagem de Carolina Fioratti (2021). Fóssil desenterrado na China pertence ao maior rinoceronte-girafa já registrado. Super Interessante. Disponível <aqui>. Crédito da imagem: Yu Chen/ Reprodução.)

As Angiospermas realmente surgiram no Cretáceo? O que os fósseis nos contam?

18 de junho de 2021

Por: Débora Gonzaga Martins

*Texto publicado também no espaço biótico <confira aqui>

As angiospermas (plantas com flores) constituem o grupo mais diverso e complexo de plantas nos sistemas terrestres e aquáticos, sendo consideradas um importante recurso para muitos animais, inclusive para os seres humanos, o que torna interessante a busca pelo conhecimento sobre sua origem e evolução.

A origem das angiospermas no tempo ainda é vaga e muito questionada. Algumas evidências fósseis sugerem que uma linhagem diferente das gimnospermas já havia se divergido no final do Carbonífero (306,2 milhões de anos atrás), porém o registro de angiosperma mais antigo aceito até então é datado do Cretáceo inferior, há 120 milhões de anos. No entanto, não se tem um histórico de evidências da “montagem” gradual de seu plano corporal. Essa questão intrigou muita gente, incluindo o próprio Darwin. Como podia um grupo aparecer repentinamente no registro fóssil e dominar a vegetação? Sem contar que o primeiro fóssil encontrado já pertencia a uma linhagem rica em espécies morfologicamente diversas, essa conta não fazia sentido.

Tendo em vista essa questão, surgiu a hipótese de que o ancestral de todas as angiospermas deveria ser consideravelmente mais antigo. Mas como comprovar isso considerando a falta de fósseis de angiospermas pré-cretáceas? Enquanto nenhuma evidência fóssil era capaz de comprovar tal questão, grandes estudos filogenômicos foram então realizados, os resultados apontaram para uma origem mais antiga do clado, como suspeitado. Essa discrepância entre dados moleculares e paleontológicos foi atribuída à raridade ou ao pequeno tamanho das primeiras angiospermas, as menores taxas de preservação fóssil e a heterogeneidade no registro de rocha.

Apesar do grande avanço nas informações sobre esse clado até os dias de hoje, ainda não é totalmente claro quando foi a real origem das angiospermas. Foi pensando nisso que um grupo de pesquisadores da Suíça refez a análise de um extenso conjunto de dados, cerca de 15.000 meso e macrofósseis de angiospermas abrangendo o Cretáceo e o Cenozoico. Para resolver a discrepância nas estimativas anteriores, foi desenvolvido um novo modelo Bayesiano (análise estatística) para inferir a idade de origem dos clados com base na diversidade atual e no registro fóssil conhecido. Esse modelo estima a idade do ancestral comum mais recente de todas as espécies incluídas no conjunto de dados (moderno e fóssil) estimando o tempo em que a diversidade do clado era uma única espécie.

Os resultados desse trabalho indicaram que várias famílias com descendentes vivos se originaram no Jurássico, colocando um forte suporte estatístico em uma origem precoce das angiospermas. Além disso, a gama de tempos estimados de origem em 198 famílias amostradas abrange o Triássico e o Jurássico. Provavelmente essa fase pré-cretácea teve uma diversificação lenta das plantas, que logo depois foi seguida por uma rápida irradiação de linhagens entre 125 Ma e 72 Ma, evidenciada por um forte aumento nas taxas de diversificação, o que explica os altos níveis de diversidade taxonômica observados durante o Cretáceo.

Portanto ao que tudo indica existe uma origem precoce/pré-cretácea de angiospermas, e as evidências são apoiadas não apenas por hipóteses filogenéticas moleculares, mas também por uma análise do registro fóssil. Desse modo conseguimos uma reconciliação das estimativas paleontológicas e do relógio molecular da evolução sobre o assunto.

Artigo fonte: Silvestro, D., Bacon, C.D., Ding, W. et al (2021). Fossil data support a pre-Cretaceous origin of flowering plants. Nat Ecol Evol 5, 449–457. DOI: 10.1038/s41559-020-01387-8 <Clique aqui para acessar o artigo fonte>

Legenda e fonte da imagem: Reconstrução da diversidade da flora de Angiospermas durante o período Cretáceo. (Imagem extraída de Ibrahim Sawal (2021). Flowering plants may be 100 million years older than we thought. Newscientist 2266189. Disponível <aqui>. Crédito da imagem: Mark P. Witton/ Science Photo Library.)

O Leão de Natodomeri: crânio de um dos maiores felinos que já existiu é encontrado no Quênia

17 de junho de 2021

Por: Ana Paula Gomes

Pesquisadores encontraram um crânio de um leão, conhecido como Leão de Natodomeri, na região da África oriental, datado do final do Pleistoceno Médio e Tardio, no qual se destaca seu grande tamanho em relação aos leões fósseis e vivos.

Em 2014, Fredrick Manthi foi apresentado à região de Natodomeri por Francis H. Brown. Em 2015, uma equipe de pesquisadores do Projeto West Turkanako (WTPP), liderada por Manthi, permaneceu na região por quatro dias e encontrou 156 fósseis, dentre eles um crânio de leão (Panthera leo).

Na África, os registros de fósseis de leões incluem alguns registros do Pleistoceno Superior na África Oriental, bem como um pequeno número de locais do Pleistoceno Médio e Final na África do Norte e África do Sul. Pouco se sabe sobre a evolução dos leões da África Oriental durante o Pleistoceno Médio e o Pleistoceno Superior, ou seja, o crânio foi o primeiro fóssil de leão queniano descoberto do Pleistoceno Médio e Superior.

Este crânio está entre os maiores crânios de leão já encontrados, sendo maior, inclusive, que os crânios de leões fósseis (como, por exemplo, os da América do Norte e da Eurásia) e viventes. O crânio representa o primeiro sinal da existência de uma população de leões na África Oriental, além de serem equivalentes aos leões que viviam em cavernas no Pleistoceno. Acredita-se também que o grande felino tenha vivido há cerca de 200.000 anos atrás e que o tamanho do crânio pode estar relacionado com a ocorrência da megafauna na região.

Curiosidade: O espécime é rotulado como KNM-ND 59673 e está localizado na seção de Paleontologia do Museu Nacional do Quênia em Nairóbi, Quênia.

Artigo fonte: Manthi, F., Brown, F., Plavcan, M., & Werdelin, L. (2018). Gigantic lion, Panthera leo, from the Pleistocene of Natodomeri, eastern Africa. Journal of Paleontology, 92(2), 305-312. doi:10.1017/jpa.2017.68 <Clique aqui para acessar o artigo fonte>

Legenda e fonte da imagem: Reconstrução artística do leão de Notodomeri. Arte de HodariNundu, extraída de sua página pessoal, em devianart.com/hodarinundu.

A análise fossilífera como rastreadora da dor em dinossauros

18 de junho de 2021

Por: Lis Marques de Carvalho e Vieira

Uma revisão publicada em setembro de 2019 na revista Philosophical Transactions of the Royal Society B: Biological Sciences mostrou como, a partir de uma série de análises do registro fóssil de dinossauros, é possível evidenciar que esses animais pré-históricos sentiam dor e manifestavam-a em seu comportamento. A revisão também perpassa aspectos sociais e mecanismos fisiológicos que provavelmente permitiram a sobrevivência de alguns animais seriamente machucados.

How far back can we trace behaviour associated with pain? Behaviour is not preserved in the palaeontological record, so, for dinosaurs, we are restricted to what we can deduce from fossilized bones and tracks.”. É assim que se inicia o parágrafo introdutório da publicação “Pain in dinosaurs: what is the evidence?”. Buscar e analisar uma série de artigos já publicados sobre registros de dinossauros com indícios de lesões, bem como informações sobre seus parentes atuais filogeneticamente mais próximos, como aves e crocodilianos, foi o que os pesquisadores Les Hearn e Amanda Williams fizeram. Suas principais conclusões foram: dinossauros apresentam sistemas nociceptor e imunológico altamente conservado, como os dos vertebrados atuais; a cicatrização de ferimentos ocorre de maneira mais efetiva em comparação com vertebrados ectotérmicos; a demanda por água durante a situação de vulnerabilidade pode ter sido amenizada pela excreção de ácido úrico, e a de comida pelo fato da conservação dos recursos; grupos sociais podem ter contribuído para evitar eventos de predação e prestar apoio a animais jovens e machucados.

Sistemas nociceptor e imunológico

A nocicepção e comportamentos desencadeados pela dor estão presentes desde os seres mais basais, como os protozoários, até os cordados. Isso porque o mecanismo por trás dessa sensação é altamente conservado, envolvendo canais iônicos voltagem-dependentes que podem ser encontrados a partir de procariotos. Além de um sistema nociceptor presente e certamente muito semelhante ao dos vertebrados atuais, os pesquisadores citam em seu estudo que os dinossauros possuíam muito mais neurônios do que se imaginava anteriormente, bem como uma diversidade de comportamentos complexos que pôde ser evidenciada anatomicamente em um exemplar de iguanodonte que mostrava um prosencéfalo bastante desenvolvido.

A sensação de dor limita nossos comportamentos: ficamos prostrados, recolhidos e impossibilitados de realizar atividades do dia a dia. Extrapolando isso para o mundo dos dinossauros, podemos imaginar que um dinossauro machucado teria redução do forrageamento e de atividades exploratórias, e portanto, dificuldades para obter alimentos e água. O animal também adotaria o comportamento de poupar a área machucada, o que modificaria seu padrão de movimentação e o tornaria mais vulnerável à predação. É verdade que a dor não pode ser diretamente registrada pelos fósseis, contudo os comportamentos desencadeados pela dor são um prato cheio para a investigação dos paleontólogos e podem estar muito bem “impressos” no registro fóssil, como deixaram claro Les Hearn e Amanda Williams.

Analisando os remanescentes atuais do clado Archosauria (crocodilianos e aves), os cientistas observaram um sistema imunológico efetivo, então puderam supor que dinossauros repetiam esse padrão. De fato, fósseis de diversos dinossauros possuem marcas indicativas de infecções curadas, e um dos exemplos dados pelos pesquisadores foi o do T. rex “Sue”, em cuja fíbula encontraram evidências de uma infecção local em decorrência de um ferimento. Além do sistema imunológico funcional, há outros mecanismos por trás da boa recuperação de ferimentos e fraturas em dinossauros.

Que história os fósseis analisados pelo estudo contam?

Uma análise das proporções de isótopos de oxigênio encontrados em íons fosfato, no calo inicial de uma fratura na coluna neural, proporcionou a dedução do grau de aquecimento do local (2,6 ° C) lesionado. A partir dessa informação, Straight et al. descreveram o processo de substituição de calos nos dinossauros, e viram que ele ocorria de maneira intermediária entre répteis (ectotérmicos) e aves (endotérmicas), ressaltando seu metabolismo mais potente do que seres ectotérmicos, favorecendo a cicatrização de fraturas.

Lesões em membros responsáveis pela locomoção geram um padrão de pegadas bem estabelecido. Assim que a lesão ocorre, os animais tendem a não colocar o membro sobre o solo, mas, posteriormente, quando estão no processo de cicatrização, já começam a utilizar o membro, porém poupando-o. Ambos esses padrões são identificados nas pistas, com proporções modificadas do tamanho entre os passos dados por membros direito e esquerdo, e também através de deformidades nas pegadas.

Existem registros fósseis de dinossauros encontrados em tocas, que poderiam abrigar os animais de pequeno porte em situação de vulnerabilidade. É possível, segundo os pesquisadores, que animais maiores se escondessem em cavernas. Assim, o abrigo durante a recuperação era uma das estratégias dos dinossauros em lidar com a dor. Também existem evidências fósseis e evolutivas que indicam comportamentos sociais e parentais entre arcossauros extintos, como exemplos, temos dinossauros fossilizados em ninhos e indícios de cuidados pós-incubação em pterossauros. A partir desses fatos, os pesquisadores indicam que é possível que adultos cuidassem de jovens e filhotes feridos, favorecendo a cura e sobrevivência. De fato, há registros de pistas indicando rebanhos contendo indivíduos jovens viajando ao lado de um adulto maior, como também existem evidências de que adultos machucados eram protegidos por um grupo de outros indivíduos, caçando e realizando atividades vitais em creche. Dessa forma, os debilitados obtinham alimento sem esforço, e o grupo não saía prejudicado.

Artigo fonte: Hearn, L.; William, A. (2019). Pain in dinosaurs: what is the evidence?, Philos Trans R Soc Lond B Biol Sci., 11;374(1785):20190370. DOI: 10.1098/rstb.2019.0370 <Clique aqui para acessar o artigo fonte>

Legenda e fonte da imagem: Figura 1: Pegadas que evidenciam o andar mancando, com evidências claras de alternância entre passos mais longos e mais curtos. A “trackway C” mostra a deformidade do pé direito. Figura 2: fóssil de Oviraptor no ninho, com fratura ulnar cicatrizada. (Extraídas do artigo fonte).

A paleoclimatologia e os registros fósseis

16 de junho de 2021

Por: Júlia Vitória Gualtieri

Os registros fósseis são importantes ferramentas de estudo de seres extintos, pois carregam marcas e estruturas que podem nos ajudar a inferir sobre a morfologia e os hábitos de vida dessas espécies. Entretanto, não é somente nas deduções sobre espécies que a Paleontologia nos guia, mas também na compreensão do cenário climático e ambiental que ocorria na época dos fósseis. Essa ciência é chamada de Paleoclimatologia e tem como finalidade a reconstrução de climas do passado para identificar mudanças climáticas naturais.

Tendo isso em vista, a flora fóssil de Nova Iorque, no Nordeste Brasileiro, foi utilizada para estimar o clima do local e compará-la com a flora atual. Os autores avaliaram tanto as feições geomórfológicas do relevo, quanto o conteúdo de pólens fósseis contidos nas diferentes camadas sedimentares, a fim de conseguirem datar a flora macrofóssil estudada. Com base nessas informações, foi atribuída a idade do Plioceno (entre 5 e 2 milhões de anos) à flora fóssil da Nova Iorque, nordestino. Desse modo, foi feita uma investigação das folhas da flora fóssil, para traçar uma estimativa da temperatura média anual e da precipitação média anual da região nesse período.

Existe uma ligação entre a proporção de espécies foliares com margens sem dentes e a temperatura média anual e outra entre o tamanho da folha e a precipitação média anual, que podem ser obtidas através de equações matemáticas. Um grupo de pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas realizou esses testes a partir da análise dos aspectos foliares de 26 angiospermas da flora fóssil e os resultados encontrados se assemelham muito às condições que atualmente representam a área de estudo.

O atual Bioma de Nova Iorque, Maranhão, é a Caatinga, caracterizada por apresentar um clima quente e semiárido. Segundo os dados coletados, essas mesmas condições estavam presentes durante o Plioceno, quando foi fossilizada a flora estudada. Uma das hipóteses formuladas é a de que houveram poucas mudanças climáticas na região nos últimos 5 a 2 milhões de anos e que o cenário ambiental não era muito diferente do atual, naquela época.

A Caatinga é um bioma afetado por secas extremas e, por isso, sua vegetação é bastante adaptada a pouca disponibilidade de água e aridez do solo. Quando em áreas mais secas, costuma apresentar galhos retorcidos, raízes profundas, perda das folhas e arbustos mais baixos, como mecanismos para sobreviver em condições estressantes. Entretanto, quando as condições ambientais estão mais favoráveis e o solo mais úmido, a caatinga se assemelha à mata. Portanto, comparando as características encontradas na flora fóssil de Nova Iorque com a atual Caatinga, é possível concluir que a flora fóssil é uma precursora do aspecto da vegetação atual.

Artigo fonte: Santiago, F.; Ricardi-Branco, F. (2018). INTERPRETAÇÕES PALEOCLIMÁTICAS A PARTIR DA FLORA PLIOCÊNICA DE NOVA IORQUE, MARANHÃO, BRASIL. Revista Brasileira de Paleontologia 21(1):71–78, Janeiro/Abril 2018. doi:10.4072/rbp.2018.1.05 <Clique aqui para acessar o artigo fonte>

Legenda e fonte da imagem: Bioma Caatinga. Foto: Eraldo Peres.

Alguns ovos de dinossauro tinham a casca mole? Descoberta revela um pouco sobre a estrutura dos ovos de dinossauros!

08 de março de 2021

Por: Henrique Morais Retes

Ovos de dinossauro possuíam a casa mole ou dura? Fósseis sempre apontaram que a casca de ovos de dinossauros era parecida com aquela de aves modernas, revestidas por cálcio. No entanto, novas descobertas apontam que os ovos de dinossauro eram mais diversos do que pensávamos.

Os ovos de galinha, codorna e outras aves que fazem parte da nossa dieta possuem uma casca dura repleta de cálcio protegendo o seu conteúdo. A casca dura não só protege o embrião de impactos, como também impede que ele perca a água e resseque. Ela é composta principalmente por carbonato de cálcio e proteínas, tornando a casca rígida e porosa. Alguns registros fósseis, descobertos na Mongólia e na China, sugerem que dinossauros possuíam uma estrutura semelhante aos ovos modernos, com camadas mineralizadas. No entanto, nem todos os ovos de répteis são assim! Ovos de algumas tartarugas possuem membranas flexíveis, sem aquela camada rígida. Pesquisadores estudaram registros fósseis de ovos de dois gêneros de dinossauros: Protoceratops e Mussaurus.

Protoceratops é um gênero de dinossauros próximos de demais ceratopsídeos, dinossauros parecidos com Triceratops e outros herbívoros grandes e chifrudos. Os Protoceratops, no entanto, eram bem menores e do tamanho aproximado de ovelhas, além de não possuírem chifres tão desenvolvidos assim. O gênero Mussaurus é parte dos saurópodes, com adultos que podiam chegar a seis metros de comprimento e pesar até uma tonelada. Os grandes mussaurídeos fazem parte do grupo Sauropodiformes, composto por grupos de grandes saurópodes, como o Brachiosaurus e Diplodocus.

A casca dos ovos dessas espécies são bem mais próximas dos ovos de tartarugas, sugerindo que apresentaram uma casca bem mais flexível que outros ovos. Estudos dos resíduos fósseis e sedimento revelaram que a camada preservada dos ovos não possuía os distintos depósitos mineralizados de cálcio da casca. Porém, encontraram camadas de produtos proteicos de fossilização, provenientes de uma casca mole. Os ovos de Protoceratops e Mussaurus possuíam diferenças entre si, com os ovos do protocerátopo apresentando camadas adicionadas de fosfato. Foram observadas películas carbonáceas finas nos ovos de Mussaurus. Estima-se que para a proteção contra dessecamento e impactos, espécimes desses gêneros enterravam seus ovos no chão para protegê-los, comportamento observado em outros grupos viventes, como tartarugas. O que mais você quer descobrir sobre paleontologia e dinossauros? Confira as outras matérias da página!

Artigo fonte: Norell, M.A.; Wiemann, J.; Fabbri, M.; Yu, C.; Marsicano, C.A.; Moore-Nall, A.; Varrichio, D.J.; Pol, D.; Zelenitsky, D. K. (2020). The first dinosaur egg was soft. Nature, v. 583, p. 406-410. Doi: 10.1038/s41586-020-2412-8 <Clique aqui para acessar o artigo fonte>

Legenda e fonte da imagem: Registro fóssil de um ovo de Mussaurus. (Extraída do artigo fonte).

Cientistas utilizam de técnicas incomuns para estudar fósseis encontrados na Bacia do Araripe

19 de janeiro de 2021

Por: Daniel Jaques Rosário

Pesquisadores utilizaram de técnicas não são usuais ao estudar fósseis de peixes que viveram há aproximadamente 100 milhões de anos atrás para analisar os materiais encontrados na Bacia do Araripe. As técnicas de raios X e a espectroscopia foram utilizadas para caracterizar os materiais presentes nas escamas dos peixes encontrados, com objetivo de descobrir informações sobre a salinidade e temperatura das águas onde viviam os organismos dessa época.

A Bacia Sedimentar do Araripe, localizada no sul do Ceará, é um dos principais depósitos fossilíferos do Brasil. Isso se dá devido às condições ambientais do local àquela época serem favoráveis ao processo de fossilização, como a ausência ou escassez de fungos e bactérias aeróbias decompositoras. Há rochas sedimentares nessa bacia pertencentes ao Membro Romualdo, localizado na parte superior da formação geológica Santana. Formadas durante o período Cretáceo, essas rochas possuem nódulos onde alojam-se diversos fósseis de diferentes grupos animais, comumente muito bem preservados. A maioria das pesquisas envolvendo os fósseis desse período restringem-se à prospecção e identificação dentro de procedimentos clássicos na Paleontologia. Ainda há poucos trabalhos que envolvem a análise dos materiais desses fósseis através das técnicas de raio-X e de espectroscopia. No estudo em questão foram combinados tanto os procedimentos clássicos quanto as técnicas descritas para caracterização dos materiais.

O nódulo rochoso encontrado foi extraído por escavação controlada e aberto com a utilização de um martelo geológico. A medida da difração dos raios-x foi feita na Universidade Federal do Ceará (UFC), do departamento de física. Já as medidas de espectroscopia foram realizadas na UNESP, no Departamento de Física, Química e Biologia, localizado na Faculdade de Ciências e Tecnologia.

O exemplar encontrado cujo material foi utilizado nesse estudo é um indivíduo da espécie Rhacolepis bucalis, comumente encontrada na Formação Santana. A partir da análise dos materiais feita com espectros infravermelhos e com difração de raios-X foi possível dizer que a composição das escamas do fóssil é predominantemente de Carbonato de Cálcio (CaCO³) e uma pequena quantidade de fosfato de cálcio Hidróxido (Ca5(PO4)3(OH)). Essa descoberta indica que houve substituição dos materiais originais, como proteínas e gorduras, pelo material mineral. O mesmo processo também poderia levar à deposição de sílica, pirita ou limonita.

Artigo fonte: Lima, R.J; Saraiva, A.A; Lanfredi, S; Nobre, M.A; Freire, P.T; Sasaki, J.M. (2007). Caracterização espectroscópica de peixe do período cretáceo (Bacia do Araripe). Química Nova, São Paulo , v. 30, n. 1, p. 22-24. Doi: 10.1590/S0100-40422007000100005 <Clique aqui para acessar o artigo fonte>

Legenda e fonte da imagem: A – Nódulo de onde foi extraído o fóssil utilizado nesse estudo. B – Imagem de parte do peixe estudado. (Extraída e modificada do artigo fonte).

Fósseis de insetos como bioindicadores no estudo de alterações ambientais

20 de janeiro de 2021

Por: Clara Ferreira Nogueira

O artigo publicado na Revista Brasileira de Zoociências, em dezembro de 2006, trata do estudo de insetos fósseis da Formação de Santana como bioindicadores de mudanças ambientais no Cretáceo Inferior. Esse estudo foi produzido por Rafael Gioia Martins-Neto e sua importância está no uso de fósseis para evidenciar estresse ambiental e crises bióticas do período.

Os insetos são invertebrados que habitam os mais variados lugares do planeta. Contudo, sua sensibilidade a alterações do ambiente, juntamente com seu curto ciclo de vida, os tornam propensos a mudanças morfológicas que podem ser usadas como bioindicadores de seus hábitats. Isso também vale para sua forma fóssil que pode ser utilizada em estudos paleoambientais. Na América do Sul, a Formação Santana (Bacia do Araripe) segue como um dos afloramentos mais pesquisados por conter insetos fósseis em excelente estado de preservação. Nesse estudo, o período geológico escolhido foi o Cretáceo Inferior, que apresentou importante alterações como a abertura definitiva do Oceano Atlântico no Gondwana. Para análise, foram selecionados os seguintes grupos: Ephemeroptera (Hexagenitidae e Siphlonuridae), Caelifera (Locustopsoidae e Elcanidae) e Neuroptera ( Nemopteridae e Crocidae).

Os gafanhotos (Locustopsidae e Elcanidae) aparecem em abundância na Formação Santana, com a peculiaridade de serem encontrados preservados em posição post-mortem natural, com asas em posição de descanso. Isso sugere que a causa da morte não tem relação com afogamento, já que o animal abriria as asas para se debater, nem com a ocorrência de eventos catastróficos, já que vários grupos também sofreriam morte em massa no mesmo período. A possível solução para esse mistério vem com a observação de um fenômeno comum em grupos de gafanhotos atuais, no qual, sob gradiente de comida e temperatura elevados, a população se multiplica em escala geométrica devido a um feromônio que estimula o acasalamento. Com a população grande demais, a escassez de comida estimula outro feromônio que “desativa” o gafanhoto, em um evento parecido com um “suicídio em massa”. Nesse caso, foi possível inferir a existência de um habitat quente com ampla disponibilidade de vegetação.

O caso da mortalidade em massa das Ephemeroptera já sugere uma causa da morte diferente, que estabelece um paralelo com as condições do lago em que suas ninfas viviam. Horizontes com deposição de calcário com alta concentração de algas precedem uma deposição de calcário amarelado rico em fósseis de Dastilbe (peixe ósseo), sugerindo que a presença de algas e a morte dos peixes está relacionada. Logo após, são encontradas lâminas de calcário laminado e oxidado (cor avermelhada), que são evidências de água muito rasa e exposição ao sol. E foi nessa camada que pesquisadores encontraram ninfas fossilizadas de Ephemeroptera, que passam esse estágio de vida na água. Por isso, a mortalidade desses insetos estaria ligada a alterações climáticas que eventualmente resultaram na evaporação da lâmina d’agua.

As extinções em massa de grupos de insetos no Cretáceo são evidências para a ocorrência de mudanças ambientais e climáticas da época. Outros fatores, como o surgimento das aves, que são predadores naturais dos insetos, também foi a razão de mudanças dos habitats desses animais. Por outro lado, o surgimento das angiospermas levou a novos tipos de interação entre inseto e plantas. A análise dos fósseis da Formação Santana, em conjunto com o estudo das formações rochosas locais, esclarece alguns dos acontecimentos ecológicos interessantes que ocasionaram mudanças significativas na fauna. Com isso, a importância do uso de fósseis como bioindicadores fica em grande evidência.

Artigo fonte: Rafael Gioia Martins-Neto. (2006). Insetos fósseis como bioindicadores em depósitos sedimentares: um estudo de caso para o Cretáceo da Bacia do Araripe. Revista Brasileira de Zoociências, v.8, n. 2, p. 155-183. ISSN 1517-6770. <Clique aqui para acessar o artigo fonte>

Legenda e fonte da imagem: Exemplo de insetos fossilizados. (Imagem extraída de http://wwwbiodersongrapiuna.blogspot.com/2014/05/expedicao-araripe.html).