A paleoclimatologia e os registros fósseis

16 de junho de 2021

Por: Júlia Vitória Gualtieri

Os registros fósseis são importantes ferramentas de estudo de seres extintos, pois carregam marcas e estruturas que podem nos ajudar a inferir sobre a morfologia e os hábitos de vida dessas espécies. Entretanto, não é somente nas deduções sobre espécies que a Paleontologia nos guia, mas também na compreensão do cenário climático e ambiental que ocorria na época dos fósseis. Essa ciência é chamada de Paleoclimatologia e tem como finalidade a reconstrução de climas do passado para identificar mudanças climáticas naturais.

Tendo isso em vista, a flora fóssil de Nova Iorque, no Nordeste Brasileiro, foi utilizada para estimar o clima do local e compará-la com a flora atual. Os autores avaliaram tanto as feições geomórfológicas do relevo, quanto o conteúdo de pólens fósseis contidos nas diferentes camadas sedimentares, a fim de conseguirem datar a flora macrofóssil estudada. Com base nessas informações, foi atribuída a idade do Plioceno (entre 5 e 2 milhões de anos) à flora fóssil da Nova Iorque, nordestino. Desse modo, foi feita uma investigação das folhas da flora fóssil, para traçar uma estimativa da temperatura média anual e da precipitação média anual da região nesse período.

Existe uma ligação entre a proporção de espécies foliares com margens sem dentes e a temperatura média anual e outra entre o tamanho da folha e a precipitação média anual, que podem ser obtidas através de equações matemáticas. Um grupo de pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas realizou esses testes a partir da análise dos aspectos foliares de 26 angiospermas da flora fóssil e os resultados encontrados se assemelham muito às condições que atualmente representam a área de estudo.

O atual Bioma de Nova Iorque, Maranhão, é a Caatinga, caracterizada por apresentar um clima quente e semiárido. Segundo os dados coletados, essas mesmas condições estavam presentes durante o Plioceno, quando foi fossilizada a flora estudada. Uma das hipóteses formuladas é a de que houveram poucas mudanças climáticas na região nos últimos 5 a 2 milhões de anos e que o cenário ambiental não era muito diferente do atual, naquela época.

A Caatinga é um bioma afetado por secas extremas e, por isso, sua vegetação é bastante adaptada a pouca disponibilidade de água e aridez do solo. Quando em áreas mais secas, costuma apresentar galhos retorcidos, raízes profundas, perda das folhas e arbustos mais baixos, como mecanismos para sobreviver em condições estressantes. Entretanto, quando as condições ambientais estão mais favoráveis e o solo mais úmido, a caatinga se assemelha à mata. Portanto, comparando as características encontradas na flora fóssil de Nova Iorque com a atual Caatinga, é possível concluir que a flora fóssil é uma precursora do aspecto da vegetação atual.

Artigo fonte: Santiago, F.; Ricardi-Branco, F. (2018). INTERPRETAÇÕES PALEOCLIMÁTICAS A PARTIR DA FLORA PLIOCÊNICA DE NOVA IORQUE, MARANHÃO, BRASIL. Revista Brasileira de Paleontologia 21(1):71–78, Janeiro/Abril 2018. doi:10.4072/rbp.2018.1.05 <Clique aqui para acessar o artigo fonte>

Legenda e fonte da imagem: Bioma Caatinga. Foto: Eraldo Peres.

Publicado por Alexandre Liparini

Mineiro, gaúcho, sergipano, e por que não, alemão? No caminho sempre a paleontologia como paixão e agora como profissão. Adora dar aulas e pesquisar sobre origens e evolução. Se esse for o tema, podem perguntar, por que não?

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