As Angiospermas realmente surgiram no Cretáceo? O que os fósseis nos contam?

18 de junho de 2021

Por: Débora Gonzaga Martins

*Texto publicado também no espaço biótico <confira aqui>

As angiospermas (plantas com flores) constituem o grupo mais diverso e complexo de plantas nos sistemas terrestres e aquáticos, sendo consideradas um importante recurso para muitos animais, inclusive para os seres humanos, o que torna interessante a busca pelo conhecimento sobre sua origem e evolução.

A origem das angiospermas no tempo ainda é vaga e muito questionada. Algumas evidências fósseis sugerem que uma linhagem diferente das gimnospermas já havia se divergido no final do Carbonífero (306,2 milhões de anos atrás), porém o registro de angiosperma mais antigo aceito até então é datado do Cretáceo inferior, há 120 milhões de anos. No entanto, não se tem um histórico de evidências da “montagem” gradual de seu plano corporal. Essa questão intrigou muita gente, incluindo o próprio Darwin. Como podia um grupo aparecer repentinamente no registro fóssil e dominar a vegetação? Sem contar que o primeiro fóssil encontrado já pertencia a uma linhagem rica em espécies morfologicamente diversas, essa conta não fazia sentido.

Tendo em vista essa questão, surgiu a hipótese de que o ancestral de todas as angiospermas deveria ser consideravelmente mais antigo. Mas como comprovar isso considerando a falta de fósseis de angiospermas pré-cretáceas? Enquanto nenhuma evidência fóssil era capaz de comprovar tal questão, grandes estudos filogenômicos foram então realizados, os resultados apontaram para uma origem mais antiga do clado, como suspeitado. Essa discrepância entre dados moleculares e paleontológicos foi atribuída à raridade ou ao pequeno tamanho das primeiras angiospermas, as menores taxas de preservação fóssil e a heterogeneidade no registro de rocha.

Apesar do grande avanço nas informações sobre esse clado até os dias de hoje, ainda não é totalmente claro quando foi a real origem das angiospermas. Foi pensando nisso que um grupo de pesquisadores da Suíça refez a análise de um extenso conjunto de dados, cerca de 15.000 meso e macrofósseis de angiospermas abrangendo o Cretáceo e o Cenozoico. Para resolver a discrepância nas estimativas anteriores, foi desenvolvido um novo modelo Bayesiano (análise estatística) para inferir a idade de origem dos clados com base na diversidade atual e no registro fóssil conhecido. Esse modelo estima a idade do ancestral comum mais recente de todas as espécies incluídas no conjunto de dados (moderno e fóssil) estimando o tempo em que a diversidade do clado era uma única espécie.

Os resultados desse trabalho indicaram que várias famílias com descendentes vivos se originaram no Jurássico, colocando um forte suporte estatístico em uma origem precoce das angiospermas. Além disso, a gama de tempos estimados de origem em 198 famílias amostradas abrange o Triássico e o Jurássico. Provavelmente essa fase pré-cretácea teve uma diversificação lenta das plantas, que logo depois foi seguida por uma rápida irradiação de linhagens entre 125 Ma e 72 Ma, evidenciada por um forte aumento nas taxas de diversificação, o que explica os altos níveis de diversidade taxonômica observados durante o Cretáceo.

Portanto ao que tudo indica existe uma origem precoce/pré-cretácea de angiospermas, e as evidências são apoiadas não apenas por hipóteses filogenéticas moleculares, mas também por uma análise do registro fóssil. Desse modo conseguimos uma reconciliação das estimativas paleontológicas e do relógio molecular da evolução sobre o assunto.

Artigo fonte: Silvestro, D., Bacon, C.D., Ding, W. et al (2021). Fossil data support a pre-Cretaceous origin of flowering plants. Nat Ecol Evol 5, 449–457. DOI: 10.1038/s41559-020-01387-8 <Clique aqui para acessar o artigo fonte>

Legenda e fonte da imagem: Reconstrução da diversidade da flora de Angiospermas durante o período Cretáceo. (Imagem extraída de Ibrahim Sawal (2021). Flowering plants may be 100 million years older than we thought. Newscientist 2266189. Disponível <aqui>. Crédito da imagem: Mark P. Witton/ Science Photo Library.)

Publicado por Alexandre Liparini

Mineiro, gaúcho, sergipano, e por que não, alemão? No caminho sempre a paleontologia como paixão e agora como profissão. Adora dar aulas e pesquisar sobre origens e evolução. Se esse for o tema, podem perguntar, por que não?

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