A análise fossilífera como rastreadora da dor em dinossauros

18 de junho de 2021

Por: Lis Marques de Carvalho e Vieira

Uma revisão publicada em setembro de 2019 na revista Philosophical Transactions of the Royal Society B: Biological Sciences mostrou como, a partir de uma série de análises do registro fóssil de dinossauros, é possível evidenciar que esses animais pré-históricos sentiam dor e manifestavam-a em seu comportamento. A revisão também perpassa aspectos sociais e mecanismos fisiológicos que provavelmente permitiram a sobrevivência de alguns animais seriamente machucados.

How far back can we trace behaviour associated with pain? Behaviour is not preserved in the palaeontological record, so, for dinosaurs, we are restricted to what we can deduce from fossilized bones and tracks.”. É assim que se inicia o parágrafo introdutório da publicação “Pain in dinosaurs: what is the evidence?”. Buscar e analisar uma série de artigos já publicados sobre registros de dinossauros com indícios de lesões, bem como informações sobre seus parentes atuais filogeneticamente mais próximos, como aves e crocodilianos, foi o que os pesquisadores Les Hearn e Amanda Williams fizeram. Suas principais conclusões foram: dinossauros apresentam sistemas nociceptor e imunológico altamente conservado, como os dos vertebrados atuais; a cicatrização de ferimentos ocorre de maneira mais efetiva em comparação com vertebrados ectotérmicos; a demanda por água durante a situação de vulnerabilidade pode ter sido amenizada pela excreção de ácido úrico, e a de comida pelo fato da conservação dos recursos; grupos sociais podem ter contribuído para evitar eventos de predação e prestar apoio a animais jovens e machucados.

Sistemas nociceptor e imunológico

A nocicepção e comportamentos desencadeados pela dor estão presentes desde os seres mais basais, como os protozoários, até os cordados. Isso porque o mecanismo por trás dessa sensação é altamente conservado, envolvendo canais iônicos voltagem-dependentes que podem ser encontrados a partir de procariotos. Além de um sistema nociceptor presente e certamente muito semelhante ao dos vertebrados atuais, os pesquisadores citam em seu estudo que os dinossauros possuíam muito mais neurônios do que se imaginava anteriormente, bem como uma diversidade de comportamentos complexos que pôde ser evidenciada anatomicamente em um exemplar de iguanodonte que mostrava um prosencéfalo bastante desenvolvido.

A sensação de dor limita nossos comportamentos: ficamos prostrados, recolhidos e impossibilitados de realizar atividades do dia a dia. Extrapolando isso para o mundo dos dinossauros, podemos imaginar que um dinossauro machucado teria redução do forrageamento e de atividades exploratórias, e portanto, dificuldades para obter alimentos e água. O animal também adotaria o comportamento de poupar a área machucada, o que modificaria seu padrão de movimentação e o tornaria mais vulnerável à predação. É verdade que a dor não pode ser diretamente registrada pelos fósseis, contudo os comportamentos desencadeados pela dor são um prato cheio para a investigação dos paleontólogos e podem estar muito bem “impressos” no registro fóssil, como deixaram claro Les Hearn e Amanda Williams.

Analisando os remanescentes atuais do clado Archosauria (crocodilianos e aves), os cientistas observaram um sistema imunológico efetivo, então puderam supor que dinossauros repetiam esse padrão. De fato, fósseis de diversos dinossauros possuem marcas indicativas de infecções curadas, e um dos exemplos dados pelos pesquisadores foi o do T. rex “Sue”, em cuja fíbula encontraram evidências de uma infecção local em decorrência de um ferimento. Além do sistema imunológico funcional, há outros mecanismos por trás da boa recuperação de ferimentos e fraturas em dinossauros.

Que história os fósseis analisados pelo estudo contam?

Uma análise das proporções de isótopos de oxigênio encontrados em íons fosfato, no calo inicial de uma fratura na coluna neural, proporcionou a dedução do grau de aquecimento do local (2,6 ° C) lesionado. A partir dessa informação, Straight et al. descreveram o processo de substituição de calos nos dinossauros, e viram que ele ocorria de maneira intermediária entre répteis (ectotérmicos) e aves (endotérmicas), ressaltando seu metabolismo mais potente do que seres ectotérmicos, favorecendo a cicatrização de fraturas.

Lesões em membros responsáveis pela locomoção geram um padrão de pegadas bem estabelecido. Assim que a lesão ocorre, os animais tendem a não colocar o membro sobre o solo, mas, posteriormente, quando estão no processo de cicatrização, já começam a utilizar o membro, porém poupando-o. Ambos esses padrões são identificados nas pistas, com proporções modificadas do tamanho entre os passos dados por membros direito e esquerdo, e também através de deformidades nas pegadas.

Existem registros fósseis de dinossauros encontrados em tocas, que poderiam abrigar os animais de pequeno porte em situação de vulnerabilidade. É possível, segundo os pesquisadores, que animais maiores se escondessem em cavernas. Assim, o abrigo durante a recuperação era uma das estratégias dos dinossauros em lidar com a dor. Também existem evidências fósseis e evolutivas que indicam comportamentos sociais e parentais entre arcossauros extintos, como exemplos, temos dinossauros fossilizados em ninhos e indícios de cuidados pós-incubação em pterossauros. A partir desses fatos, os pesquisadores indicam que é possível que adultos cuidassem de jovens e filhotes feridos, favorecendo a cura e sobrevivência. De fato, há registros de pistas indicando rebanhos contendo indivíduos jovens viajando ao lado de um adulto maior, como também existem evidências de que adultos machucados eram protegidos por um grupo de outros indivíduos, caçando e realizando atividades vitais em creche. Dessa forma, os debilitados obtinham alimento sem esforço, e o grupo não saía prejudicado.

Artigo fonte: Hearn, L.; William, A. (2019). Pain in dinosaurs: what is the evidence?, Philos Trans R Soc Lond B Biol Sci., 11;374(1785):20190370. DOI: 10.1098/rstb.2019.0370 <Clique aqui para acessar o artigo fonte>

Legenda e fonte da imagem: Figura 1: Pegadas que evidenciam o andar mancando, com evidências claras de alternância entre passos mais longos e mais curtos. A “trackway C” mostra a deformidade do pé direito. Figura 2: fóssil de Oviraptor no ninho, com fratura ulnar cicatrizada. (Extraídas do artigo fonte).

Publicado por Alexandre Liparini

Mineiro, gaúcho, sergipano, e por que não, alemão? No caminho sempre a paleontologia como paixão e agora como profissão. Adora dar aulas e pesquisar sobre origens e evolução. Se esse for o tema, podem perguntar, por que não?

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