Arte e paleontologia: modelos didáticos de plantas extintas

21 de novembro de 2021

Por: Bruna Aquino

Sabe-se que a abordagem de conteúdos de Paleontologia é uma sugestão presente nos Parâmetros Curriculares Nacionais e que a condução deste assunto dentro de sala geralmente ocorre por visões distorcidas ou erradas que muitas vezes são difundidas pelos meios de comunicação, vê-se então a necessidade de recursos didáticos que captem o interesse de alunos para uma melhor assimilação dos conceitos apresentados em sala.

Percebendo essa dificuldade, pesquisadoras da Universidade Federal da Bahia realizaram um estudo para o desenvolvimento de modelos didáticos que poderiam auxiliar no ensino da conquista do ambiente terrestre pelas plantas. Para o desenvolvimento destes modelos, elas realizaram um procedimento dividido em cinco fases: pesquisa bibliográfica, montagem da base em arame, revestimento (modelagem com biscuit), acabamento e elaboração de um guia. Primeiramente, as autoras realizaram a coleta de dados de dois gêneros de plantas já extintas: Cooksonia e Aglaophyton, incluindo sua biologia e morfologia, suas características e do período em que viveram. Após a reunião de dados, foi montado um modelo utilizando biscuit dos dois gêneros e também um guia onde os alunos podem encontrar informações como figuras e textos sobre os gêneros Cooksonia, Aglaophyton e Zosterophyllum, além de um texto sobre a conquista do ambiente terrestre pelas plantas e imagens de registros fósseis das plantas extintas citadas.

De acordo com Ghilardi et al. (2007 apud Chaves et al. 2017) a arte ou design, aplicados à Paleontologia, é o “único conjunto de linguagens que permite a reconstituição da vida já extinta para fins visuais”. A paleontologia, como disciplina, é aplicada praticamente apenas nos cursos de graduação de Geologia e Ciências Biológicas, o que faz com que toda a informação fique restrita às universidades e não tenha tanto espaço nas escolas. Desse modo, a construção de modelos didáticos de plantas extintas, com foco nas aulas sobre a conquista do ambiente terrestre pelas plantas, é de grande ajuda para a transmissão e assimilação dos conhecimentos paleontológicos de uma forma mais atraente e menos abstrata para os alunos; além de estimularem os professores também a buscar outras formas de apresentar conteúdos para os alunos.

Artigo fonte: Rafaela Santos Chaves, Simone Souza de Moraes e Rejâne Maria Lira-da-Silva. (2017). Confecção de modelos didáticos de plantas extintas: arte aplicada à Paleontologia no ensino da conquista do ambiente terrestre pelas plantas. In: VIII Encontro Nacional de Pesquisa em Educação em Ciência. R0273-5. <Clique aqui para acessar o artigo>

Referência citada no texto: GHILARDI, R. P.; SOARES-RIBEIRO, R. N.; ELIAS, F. A. (2007). Paleodesing: Uma nova proposta metodológica e terminológica aplicada à reconstituição em vida de espécies fósseis. Paleontologia: Cenários da Vida, São Paulo, Ed. Interciências, vol. 2. p. 61-70.

Fonte e legenda da imagem de capa: Imagens do processo de construção dos modelos dos gêneros Cooksonia e Aglaophyton. Imagem extraída do artigo fonte.

A primeira paleontóloga brasileira era americana

21 de novembro de 2021

Por: Maria Bordin

A primeira paleontóloga brasileira era uma americana. Carlotta Joaquina Maury nasceu em 1874, na cidade de Hastings – on – Hudson, no Estado de Nova York. Era filha de um reverendo e em sua casa havia um grande interesse pelas ciências e pela História Natural. Carlotta, quando menina, gostava de passear às margens do Rio Hudson, em Nova York, explorando e coletando, como era próprio da atividade científica da época, espécimes da fauna e flora local. Explorava e coletava também amostras de rochas e fósseis, que levava para casa onde eram analisados e descritos. Nessa época, Carlotta Joaquina já tinha uma curiosidade pela árvores da região em que vivia e já conhecia seus nomes. O seu bisavô materno casou-se em Vila Rica, atual Ouro Preto, com uma brasileira, daí a sua relação afetiva com o Brasil e a origem do seu nome. O nome de Carlotta é uma homenagem à sua bisavó materna, Carlotta Joaquina de Paiva Pereira.

Após o ensino médio, Carlotta Joaquina entrou em 1892 na Harvard Annex, um programa criado com o apoio de pais e mães de famílias americanas ricas que desejavam que suas filhas tivessem a mesma instrução que os filhos. A visão conservadora predominante não permitiu o acesso delas à Universidade de Harvard, então foi criado o Anexo em 1879, com recursos das próprias famílias e o apoio de alguns poucos professores. A vida nunca foi fácil para as mulheres, mas Carlotta Joaquina tinha uma família que a incentivava e um objetivo, obter o grau universitário. Assim, com apoio do pai, foi morar em Ithaca, Nova York, ingressando, em 1894, na Cornell University. Nessa Universidade as mulheres podiam estudar junto com os homens e ingressar nos programas de sua escolha nos cursos de pós-graduação. Carlotta Joaquina, por já ter uma formação anterior em História, Fisiologia e línguas, direcionou os seus estudos em Cornell em Ciências, incluindo Entomologia, Botânica, Geologia e Paleontologia, tendo obtido em 1902 o título de PhD, ao estudar especialmente os moluscos marinhos do Oligoceno dos Estados Unidos.

A distância e o fato de ser mulher, a única exceção em um universo masculino, não impediu que Carlotta Joaquina integrasse, como consultora no Serviço Geológico e Mineralógico do Brasil, criado em 1907, que se seguiu a Comissão de Estudos das Minas de Carvão de Pedra do Brasil – iniciativa governamental que tinha como objetivo diminuir a dependência brasileira do carvão importado. Assim, em 1920, Carlotta Joaquina, que já era uma especialista em moluscos do Terciário, foi também docente atuando em universidades dos Estados Unidos e no exterior. Como especialista em microfósseis foi consultora de empresas petrolíferas. Maury era meticulosa e aplicava na descrição e análise dos fósseis que recebia os critérios e rigor científico da época. Sua primeira contribuição para geologia brasileira se deu em 1925, com a publicação de seu trabalho “Fósseis Terciários do Brasil com Descripção de Novas Formas Cretáceas”. Sua última contribuição, de 1938, foi “Argilas fossilíferas do Plioceno do Território do Acre”, encerrando à sua colaboração com o Serviço Geológico e Mineralógico do Brasil, em decorrência do seu falecimento devido à um Câncer diagnosticado no ano anterior.

Carlotta Joaquina Maury teve uma contribuição destacada e efetiva para a Paleontologia Brasileira na descoberta de espécies de invertebrados marinhos fósseis, e na compreensão da estratigrafia e do ambiente de deposição da Formação Pirabas no Estado do Pará, hoje um importante sítio Paleontológico do Brasil, cujos estudos de Maury foram pioneiros e ainda hoje são considerados únicos e destacados.

Artigos fonte:

NASCIMENTO, R.S.; SARGES, G.L.S. 2020. Carlota Joaquina Maury: Uma Vida Dedicada à Ciência. Boletim do Museu de Geociências da Amazônia. Belém – Pará. Ano 7, número 2. DOI:10.31419/ISSN.2594-942X.v72020i2a7RSN <Clique aqui para acessar o artigo>

MELO D.J. & CASSAB R.C.T. Carlotta Joaquina Maury (1874-1938) e suas Contribuições para a Paleontologia Brasileira. Paleontologia em Destaque, edição especial, II Simpósio Brasileiro de Paleontologia de Invertebrados, p. 70-77. Novembro – 2014. <Clique aqui para acessar o artigo>

Fonte e legenda da imagem de capa: Carlota no Laboratório de Paleontologia da Universidade de Cornell, 1921. Imagem extraída de squarespace-cdn.com <link>.

Lagarto ou Ave? – Paleontologia contribui para a Classificação Biológica

19 de novembro de 2021

Por: Gustavo Caldeira Cotta

De acordo com os estudos evolutivos mais recentes, os Répteis e as Aves são mais próximos do que se imaginava. Não obstante, popularizou-se o dizer de que “galinhas são dinossauros reduzidos”. Isso não pode ser considerado como uma verdade, mas, reflete bem a proximidade entre esses grupos – o grupo das aves se originou de um ancestral que era dinossauro e tanto Dinossauros, quanto Aves, são componentes do grupo Archosauria, grande grupo que inclui também, por exemplo, os crocodilos atuais. Nesse contexto, pesquisadores notaram que um fóssil que havia sido associado às aves representa, na prática, um animal de um outro grupo relacionado aos répteis, os Lepidosauria.

A espécie em questão corresponde ao Oculudentavis khaunggraae, fóssil preservado em âmbar encontrado em Myanmar, país asiático que possui um amplo registro fóssil de diversos períodos. A princípio, as características cranianas e de algumas vértebras do fóssil apontavam para a inclusão desta espécie no grupo das aves: seus olhos eram grandes, o seu rostro era longo e delgado e o seu crânio possuía formato de cúpula. Mas ainda haviam dúvidas em pontos muito importantes para concluir a classificação deste espécime. A forma com que os dentes de Oculudentavis khaunggraae se dispõem no crânio também pouco remete ao padrão encontrado nos Archosauria, logo, haviam muitas incoerências morfológicas em sua classificação.

Após estudos mais aprofundados que envolveram o escaneamento e digitalização 3D deste fóssil e a posterior avaliação de suas características morfológicas, os pesquisadores notaram que algumas características eram muito incomuns para o padrão encontrado normalmente em aves, destacando que a forma dos ossículos que formam a cavidade que abriga os olhos, a órbita, era muito similar à forma encontrada em lagartos, répteis representantes do grupo Lepidosauria. Além disso, outras características dos ossos do crânio deste fóssil possibilitavam um movimento semelhante ao de outros lagartos, chamado de estreptostilia, e que consiste basicamente na articulação entre diversos pontos nos ossos do crânio, permitindo a redução do estresse físico no crânio, e melhorando a capacidade de manipulação do alimento, com o custo de limitar a força de mordida desses animais. Aves, por sua vez, também apresentam estreptostilia, mas com configurações morfológicas diferentes da encontrada nos lagartos.

Assim, após as análises de diferentes pesquisadores, a espécie Oculudentavis khaunggraae se mostrou mais relacionada ao grupo dos Squamata, que representa sobretudo os lagartos e as serpentes, que são considerados como componentes de Lepidosauria. Segundo os dados reconstruídos pelos pesquisadores, Oculudentavis khaunggraae era, portanto, um lagarto diurno com excelente acuidade visual e movimentos mandibulares rápidos que eram muito eficientes para capturar insetos! Bem diferente de um dinossauro ou uma ave, não é?

Artigo fonte: Krister T. Smith. 2021. Paleontology: It’s a bird, it’s a plane, it’s Oculudentavis! Cell Press Current Biology, v. 31, n. 15, R948–R971. DOI: 10.1016/j.cub.2021.06.017 <Clique aqui para acessar o artigo fonte>

Fonte e legenda da imagem de capa: Essa figura aponta os elementos cranianos de uma espécie do gênero Oculudentavis, revelando a sua semelhança com as estruturas cranianas de lagartos. O crânio tem aproximadamente 1,5 cm de comprimento. Imagem extraída do artigo fonte.

Como uma técnica de radiologia pode ajudar na detecção de fraude de fósseis

16 de novembro de 2021

Por: Letícia Mansur Rosa

Os fósseis são achados paleontológicos que contam a história da fauna e da flora de determinada região. No mundo, cada país possui uma legislação própria em relação aos fósseis encontrados em seu território e, devido a tais divergências, essas descobertas paleontológicas são constantemente visadas pelo tráfico. Nos últimos anos, o tráfico de fósseis tem sido uma área de negócio muito rentável. Neste contexto, mercados internacionais ilegais atraem compradores e determinam valores exorbitantes para os exemplares. O preço e o interesse na compra de peças fósseis aumentam de acordo com a raridade e seu estado de preservação. Assim, a venda se torna muita atrativa e alguns indivíduos aproveitam desse fato para comercializarem materiais fósseis fraudados.

Dessa maneira, para garantir a autenticidade de achados fósseis que são devolvidos às instituições de pesquisa e museus, os autores do artigo realizaram tomografias computadorizadas nas peças. O principal material em análise foi um esqueleto de dinossauro do gênero Psittacosaurus do Cretáceo da China, proveniente da coleção do Museu Natural da Holanda, suspeito de se tratar de uma fraude. O fóssil estava em ótimo estado de conservação, com o crânio quase completo e preenchido de sedimentos. Com base no pressuposto da provável existência de componentes ósseos fossilizados no interior da massa sedimentar que preenchia o crânio do animal, o exemplar foi submetido a uma análise por tomografia computadorizada.

O exame de tomografia computadorizada produz imagens com alto nível de detalhes via radiação. Essas imagens geradas no computador pelos raios X podem focalizar especificamente no tecido ósseo. Após a tomografia, o crânio do dinossauro passou por uma análise do conteúdo intracraniano. Como resultado, o crânio de Psittacosaurus mostrou absorção não esperada aos raios X, os ossos deveriam ser facilmente visíveis nas imagens, dentro e ao redor do sedimento. Em vez disso, o material no interior do crânio era menos denso que um osso e relativamente homogêneo, sendo compatível com a densidade de terra não consolidada e cera. Portanto, os autores concluíram que o fóssil analisado tratava-se de uma fraude, com elementos não originais incorporados a ele.

A capacidade da tomografia computadoriza de diferenciar as densidades de absorção dos raios X pelos materiais permitiu que espécimes fósseis fossem analisados quanto a sua constituição. Assim, os autores do artigo demonstraram que esse tipo de exame aplicado aos fósseis pode ser uma técnica excelente para identificação de possíveis fraudes fósseis.

Artigo fonte: Rita, F.; Mateus, O. & Overbeeke, M. (2008). Tomografia Computorizada na Detecção de Fraudes em Fósseis. Acta Radiológica Portuguesa, 20 (80):83-84. <Clique aqui para acessar o artigo fonte>

Fonte e legenda da imagem de capa: (A) Crânio em vista superior e (B) Tomografia computadorizada do crânio. Imagens extraídas e modificadas do artigo fonte.

Descobertas da paleontologia no cenário brasileiro

16 de novembro de 2021

Por: Augusto Ventura da Silva

Na maioria dos campos de pesquisa é normal não pensar no Brasil como o centro das atenções, porém, o que poucos sabem é que o Brasil é muito importante quando se fala da paleontologia, grandes descobertas a respeito da história dos seres vivos, inclusive do ser humano, foram achadas em território Brasileiro. Vale ressaltar que quando o assunto é descoberta de fósseis, não se deve deixar de fora Peter Wilhelm Lund, que durante o século 19 fez grandes descobertas da história natural do nosso pais.

Nesse sentido, Peter W. Lund fez grandes descobertas, e é impossível destacar todas, por esse motivo, vai ser realçada as descobertas entre o período de 1836 a 1844. Inclusive, Charles Darwin citou o trabalho desse pesquisador várias vezes. Essas pesquisas, como a do Peter Lund, são importantes para fazerem conexões com tempos passados e descobrir o que ocorreu no passado até chegar ao presente, entender o que ocorreu naquela cidade, estado, pais, continente, ou até mesmo com o planeta.

Uma das grandes descobertas de Lund, foi o “homem de lagoa santa”, que incorporou ao conhecimento científico que haviam comunidades humanas há mais de 11 mil anos atrás no continente sul-americano, além de colocar o Brasil a frente em divulgação científica e cultural, mostrou que havia vida de seres humanos no continente muito antes de que os Portugueses acreditavam.

Artigo fonte: Paulo Henrique Martinez (2012) A nação pela pedra: coleções de paleontologia no Brasil, 1836-1844, HistóriaCiênciasSaúdeManguinhos, 19 (4). DOI: 10.1590/S0104-59702012000400004 <Clique aqui para acessar o artigo fonte>

Fonte e legenda da imagem de capa: Fóssil de mais de 11 mil anos encontrado por Peter Lund. Imagem extraída da Wikimedia Commons utilizado o termo de pesquisa: Homem de Lagoa Santa <link>.

E se em uma excursão escolar você descobrisse um fóssil de pinguim gigante? Veja o que aconteceu com crianças na Nova Zelândia

15 de novembro de 2021

Por: Victória Pereira

No verão de 2006, o Clube Naturalista Júnior de Hamilton reunia alunos e líderes em uma excursão para caçar fósseis no porto de Kawhia, na Nova Zelândia. Após andarem um pouco, os alunos avistaram o que parecia ser uma hélice enferrujada, mas após a análise dos especialistas, perceberam que haviam descoberto uma nova espécie de pinguim gigante, o qual viveu há cerca de 30 milhões de anos.

“É meio surreal saber que uma descoberta que fizemos quando crianças há tantos anos está contribuindo para a academia hoje”, disse Steffan Safey, que tinha 13 anos quando ele e seus amigos encontraram o fóssil, em um comunicado à imprenssa local.

A equipe de especialistas paleontólogos da Massey University e do Bruce Museum usaram técnicas de digitalização 3D para criar um modelo digital do pinguim gigante encontrado. Eles compararam seu modelo com espécies existentes em todo o mundo e descobriram que era uma nova espécie que existiu entre 27,3 e 34,6 milhões de anos atrás, quando a região estava ainda submersa. O fóssil de pinguim gigante, um dos espécimes mais completos até hoje, teria aproximadamente o tamanho de uma criança de 10 anos.

Embora o fóssil compartilhasse uma semelhança com outros encontrados na região, ele tinha pernas muito mais longas. A equipe decidiu nomear a nova espécie de Kairuku waewaeroa, que significa “pernas longas” na língua regional Maori.

“Essas pernas mais longas teriam tornado o pinguim muito mais alto do que outros Kairuku enquanto caminhava na terra, talvez cerca de 1,4 metros de altura, e podem ter influenciado a velocidade com que ele poderia nadar ou mergulhar mais fundo”, disse em um comunicado o autor do estudo Daniel Thomas, Paleontólogo da Massey University. “Foi um verdadeiro privilégio contribuir com a história deste incrível pinguim. Sabemos o quão importante este fóssil é para tantas pessoas.”

Em comparação, os pinguins-imperadores, que são os maiores pinguins vivos hoje, têm cerca de um metro de altura. Os pinguins gigantes que viveram há milhões de anos também eram consideravelmente mais magros do que os pinguins modernos.

Artigo fonte: Simone Giovanardi, Daniel T. Ksepka & Daniel B. Thomas (2021) A giant Oligocene fossil penguin from the North Island of New Zealand, Journal of Vertebrate Paleontology, DOI: 10.1080/02724634.2021.1953047 <Clique aqui para acessar o artigo fonte>

Fonte e legenda da imagem de capa: A. Desenho de linha do novo espécime; B. A foto do fóssil; C. Uma comparação esquelética e de tamanho da nova espécie de pinguim gigante, Kairuku waewaeroa, com um pinguim imperador, Aptenodytes forsteri. Imagem extraída do artigo fonte.

A geologia e paleontologia do Membro Taquaral no afloramento do Rio da Cabeça

24 de agosto de 2021

Por: Sofia Lara Afonso

A pesquisa realizada por Artur Chahud em 2020, publicada no volume 30 do periódico Estudos Geológicos, promovido pela Universidade Federal de Pernambuco, teve o objetivo de caracterizar de maneira tafonômica e paleontológica a base arenosa do Membro Taquaral, no afloramento do Rio da Cabeça. Esse afloramento é localizado na divisa entre os municípios de Rio Claro (SP) e Ipeúna (SP), tendo 4 metros de comprimento e pelo menos 2 metros de altura, situando-se na margem sul de um córrego afluente do Rio da Cabeça, em que se observam três camadas de estruturas e rochas diferenciadas.

Os pesquisadores coletaram escamas, dentes completos com poucas quebras e partes ósseas de peixes, além de aproximadamente vinte amostras de mão para o estudo de assinaturas tafonômicas. Foram encontrados no afloramento duas ordens de Chondrichthyes: Xenacanthiformes e Petalodontiformes, e uma de Actinopterygii: Palaeonisciformes (parafilético). Os Chondrichthyes são muito raros e pode-se concluir que o afloramento é composto principalmente de dentes e escamas de Palaeonisciformes.

Por mais que seja rara a presença de fósseis de Chondrichthyes, sua diversidade é grande de acordo com o número de espécies e grupos observados nos afloramentos da região e, aparentemente, pode ser maior que a de Palaeonisciformes. Isso acontece por que apesar da abundância de Palaeonisciformes, a identificação de espécies somente é possível em exemplares completos ou semi-completos, dada a baixa variação morfológica externa entre os diversos gêneros.

Os fósseis da base da Formação Irati sofreram desgaste superficial e quebras, o que dificulta a diferenciação, especialmente, entre dentes sigmoides e curvos e também a constatação de microtubérculos no fuste devido ao polimento causado pela abrasão, limitando a comparação.

Por fim, o estudo mostrou que provavelmente esse é um ambiente diferenciado de outras localidades próximas, uma vez que não foi visto, até o momento, a presença de Taquaralodus, fóssil mais abundante de Xenacanthiformes, encontrado em outros sítios fossilíferos da região.

Artigo fonte: CHAHUD, Artur. Geologia e Paleontologia do Membro Taquaral (Eopermiano) no afloramento do Rio da Cabeça, estado de São Paulo. Estudos Geológicos, [s. l.], v. 30, n. 1, p. 19-30, 2020. DOI: 10.18190/1980-8208/ <Clique aqui para acessar o artigo fonte>

Fonte e legenda da imagem de capa: Dentes de paleoniscideos em diferentes posições. Imagem extraída do artigo fonte. Escala igual a 1 mm.

Peixe ou tetrápode?

23 de agosto de 2021

Por: Luana Lara da Silva Xavier

Tetrápodes são vertebrados com origem evolutiva diretamente relacionada a diversas transformações ocorridas em peixes sarcopterígios (com nadadeiras lobadas). Um fóssil bem preservado de um animal com características intermediárias entre esses dois grupos foi encontrado no Território de Nunavut, no Canadá, ao sul da Ilha Ellesmere, por pesquisadores americanos. Esse material pode ajudar muito a aprofundar nos estudos acerca de como ocorreu essa transição peixe-tetrápode.

Atualmente, os Panderichthys são os ancestrais dos tetrápodes mais conhecidos e utilizados para aprofundar nos estudos sobre a origem desse grupo. Porém, essa espécie apresenta poucas sinapomorfias de tetrápodes, limitando as descobertas acerca das principais transformações que levaram a sua evolução, o que agora se torna possível com o novo fóssil encontrado, que foi denominado Tiktaalik (tic täl’ ik) – “grande peixe de água doce visto em águas rasas”- no idioma local.

Algumas características encontradas no Tiktaalik se diferenciam das encontradas em sarcopterígios primitivos, como mudanças na formação óssea e no modo de respiração, mas também de outros tetrápodes; como por exemplo dos Elpistostege, pela presença de escamas dorsais estreitamente sobrepostas; dos próprios Panderichthys, pela perda de algum ossos e por possuir um focinho mais longo; e de outros tetrápodes, como os Acanthostega, pela presença de lepidotriquia (escama modificada) nas nadadeiras peitorais e pélvicas. Por outro lado, Tiktaalik também apresenta características semelhantes a um ou dois desses grupos, além de narinas marginais e grandes pré-frontais, comuns aos três dos grupos mencionados. Essas características, além de várias outras descritas no artigo, interferem, inclusive, no modo de alimentação e locomoção desses animais.

Dessa forma, a descoberta do fóssil de Tiktaalik e de seus diversos caracteres intermediários nos sugere que a transição evolutiva estudada se deu em grande parte em águas rasas, com inúmeras morfologias se desenvolvendo paralelamente entre os tetrápodes e os sarcopterígios, se mostrando cada vez maior a proximidade evolutiva entre esses dois clados. O artigo demonstra, então, como a descoberta de novos fósseis pode nos ajudar a entender um pouco mais sobre espécies extintas e como elas influenciaram na origem das espécies viventes.

Artigo fonte: E. Daeschler, N. Shubin & F. Jenkins. (2006). A Devonian tetrapod-like fish and the evolution of the tetrapod body plan. Nature, v. 440, p. 757–763. Doi: 10.1038/nature04639 <Clique aqui para acessar o artigo fonte>

Fonte e legenda da imagem de capa: Imagem ilustrativa de Tiktaalik, apresentando seu rostro alongado, suas narinas marginais e escamas dorsais sobrepostas. Imagem extraída do Wiki Commons: Tiktaalik_NT_small. Autor: Nobu Tamura <Link>

Material didático em forma de kit voltado para a Paleontologia

22 de agosto de 2021

Por: Aline Couto Miranda

Um grupo de pesquisadores do Programa de Pós-Graduação em Educação para a Ciência da Universidade Estadual Paulista (UNESP), na Faculdade de Ciências, com o apoio do Instituto de Geociências da Universidade Federal do Pará propôs um kit de paleontologia para aulas práticas de Ciências voltadas para estudantes do Ensino Fundamental como material didático-instrucional. Este kit tem como objetivo ampliar o conhecimento dos alunos sobre a Paleontologia, bem como levá-los a compreender a relevância dos fósseis para a o esclarecimento da vida e do ambiente existentes no passado, interpretando e estudando os fósseis.

Dentro das ciências, o estudo da Paleontologia é mais bem desenvolvido do que em outras disciplinas como história e geografia dentro das escolas, uma vez que está ligado a temas como evolução, surgimento da Terra e tecnologias. Nota-se que o estudo dessa área permite que o tempo geológico, o clima, a fauna e a flora de tempos passados sejam investigados, contribuindo para os estudos e pesquisas dos dias atuais. Além disso, temas como consciência ambiental e desenvolvimento sustentável também podem ser trabalhados.

O material é composto por um kit de réplicas de fósseis e uma cartilha. Esta, possui 18 páginas contendo uma introdução com conceitos iniciais ao tema, desafios com textos e ilustrações, bem como informações gerais, além da resolução dos desafios no final.

O kit e a cartilha foram avaliados em atividades realizadas no laboratório de Ciências por estudantes do Ensino Fundamental do 6º ano da Escola Estadual Visconde de Mauá. Observou-se uma ótima aceitação por parte dos estudantes daquilo que foi proposto, houve colaboração entre eles para resolver os desafios, bem como muita curiosidade acerca do tema.

A mediação do professor durante a realização dos exercícios foi de suma importância para concretizar o aprendizado acerca do tema, de forma que a prática fluiu muito bem durante a aula. Concluiu-se diante dos resultados observados que o kit e a cartilha cumpriram os objetivos propostos e apresentam um grande potencial de aplicabilidade nas escolas.

Artigo fonte: Bergqvist, Lílian Paglarelli e Prestes, Stella Barbara Serodio. Kit paleontológico: um material didático com abordagem investigativa. Ciência & Educação (Bauru) [online]. 2014, v. 20, n. 2 [Acessado 23 Agosto 2021] , pp. 345-357. DOI: 10.1590/1516-73132014000200006. ISSN 1980-850X. <Clique aqui para acessar o artigo fonte>

Fonte e legenda da imagem de capa: Cartilha associada o kit paleontológico. Imagem extraída do artigo fonte. Foto: Lílian P. Bergqvist.

Maior espécie de tartaruga registrada habitava o Brasil

22 de agosto de 2021

Por: Lidiane Nishimoto

Os quelônios formam a ordem de répteis representados pelas tartarugas. De tamanhos variados, o grupo abrange animais que vão desde os 8 cm da tartaruga-salpicada (Chersobius signatus) aos mais de 2 m da tartaruga-de-couro (Dermochelys coriacea). A subordem Pleurodira é representada por tartarugas de água doce, conhecidas por esconder sua cabeça no casco dobrando o seu pescoço horizontalmente. No Brasil, a maior representante dessa subordem é a tartaruga-da-Amazônia (Podocnemis expansa), que pode alcançar os 90 cm.

Mas ela não foi a maior representante a andar por nossas terras. Recentemente um grupo de paleontólogos descreveu o maior indivíduo de Stupendemys geographicus já registrado, um outro espécime da subordem Pleurodira. Encontrado na Venezuela, sua carapaça é a mais completa registrada da espécie, medindo 2,86 m de comprimento. Um recorde não só na espécie mas na ordem de quelônios como um todo.

Reconstrução de S. geographicus comparado ao tamanho de um homem adulto. Crédito: Edwin-Alberto Cadena, Universidad del Rosario. Figura extraída do artigo fonte.

Até então, a maior carapaça encontrada era a da tartaruga marinha Archelon ischyros com 2,2 m de comprimento. E sua massa corporal não fica pra trás, estima-se que o indivíduo de S. geographicus contava com uma massa de 1145 kg quando vivo, mais que o dobro da maior tartaruga viva atualmente, a tartaruga-de-couro.

Segundo os fósseis já encontrados da espécie, acredita-se que ela se distribuía pela região da Amazônia, em países como o Brasil, Venezuela e Colômbia, há mais de 10 milhões de anos. Os pesquisadores estimam que seu tamanho grandioso se deve ao ambiente onde vivia, o famoso Sistema Pebas. Com abundância de ambientes aquáticos interligados, onde os animais podiam migrar facilmente, o Pebas era lar de muitos representantes da megafauna. A disponibilidade de recursos, combinada à facilidade de migração pode explicar seu porte avantajado.

Outra suposição é a da pressão adaptativa. Dividindo o ambiente com crocodilianos gigantescos, como o Gryposuchus spp., conhecidos pelo porte de até 10 m, existem evidências da interação direta entre essas feras e o S. geographicus. Foram encontradas marcas de mordidas de crocodilianos em fósseis desta tartaruga e, inclusive na maior carapaça encontrada, havia um dente encrustado em sua superfície ventral.

Essa pressão adaptativa, combinada à elevação dos Andes, podem ter sido as causas da extinção da espécie. A elevação dos Andes interrompeu o fluxo de água recebido pelo Sistema Pebas, mudando sua configuração e impactando suas populações. Mas, apesar disso, ainda existem parentes desses gigantes na Amazônia. Os tracajás ainda habitam o ambiente uma vez conquistado por gigantescos quelônios.

Artigo fonte: Cadena, E. A.; Scheyer, T. M.; Carrillo-Briceño, J. D.; Sánchez, R.; Aguilera-Socorro, O. A.; Vanegas, A.; Pardo, M.; Hansen D. M.; Sánchez-Villagra, M. R. (2020). The anatomy, paleobiology, and evolutionary relationships of the largest extinct side-necked turtle. Science Advances, v. 6, n. 7., eaay4593 DOI: 10.1126/sciadv.aay4593 <Clique aqui para acessar o artigo fonte>

Fonte e legenda da imagem de capa: Reconstrução de S. geographicus no Sistema Pebas. Crédito: Jaime Chirinos.