A primeira paleontóloga brasileira era americana

21 de novembro de 2021

Por: Maria Bordin

A primeira paleontóloga brasileira era uma americana. Carlotta Joaquina Maury nasceu em 1874, na cidade de Hastings – on – Hudson, no Estado de Nova York. Era filha de um reverendo e em sua casa havia um grande interesse pelas ciências e pela História Natural. Carlotta, quando menina, gostava de passear às margens do Rio Hudson, em Nova York, explorando e coletando, como era próprio da atividade científica da época, espécimes da fauna e flora local. Explorava e coletava também amostras de rochas e fósseis, que levava para casa onde eram analisados e descritos. Nessa época, Carlotta Joaquina já tinha uma curiosidade pela árvores da região em que vivia e já conhecia seus nomes. O seu bisavô materno casou-se em Vila Rica, atual Ouro Preto, com uma brasileira, daí a sua relação afetiva com o Brasil e a origem do seu nome. O nome de Carlotta é uma homenagem à sua bisavó materna, Carlotta Joaquina de Paiva Pereira.

Após o ensino médio, Carlotta Joaquina entrou em 1892 na Harvard Annex, um programa criado com o apoio de pais e mães de famílias americanas ricas que desejavam que suas filhas tivessem a mesma instrução que os filhos. A visão conservadora predominante não permitiu o acesso delas à Universidade de Harvard, então foi criado o Anexo em 1879, com recursos das próprias famílias e o apoio de alguns poucos professores. A vida nunca foi fácil para as mulheres, mas Carlotta Joaquina tinha uma família que a incentivava e um objetivo, obter o grau universitário. Assim, com apoio do pai, foi morar em Ithaca, Nova York, ingressando, em 1894, na Cornell University. Nessa Universidade as mulheres podiam estudar junto com os homens e ingressar nos programas de sua escolha nos cursos de pós-graduação. Carlotta Joaquina, por já ter uma formação anterior em História, Fisiologia e línguas, direcionou os seus estudos em Cornell em Ciências, incluindo Entomologia, Botânica, Geologia e Paleontologia, tendo obtido em 1902 o título de PhD, ao estudar especialmente os moluscos marinhos do Oligoceno dos Estados Unidos.

A distância e o fato de ser mulher, a única exceção em um universo masculino, não impediu que Carlotta Joaquina integrasse, como consultora no Serviço Geológico e Mineralógico do Brasil, criado em 1907, que se seguiu a Comissão de Estudos das Minas de Carvão de Pedra do Brasil – iniciativa governamental que tinha como objetivo diminuir a dependência brasileira do carvão importado. Assim, em 1920, Carlotta Joaquina, que já era uma especialista em moluscos do Terciário, foi também docente atuando em universidades dos Estados Unidos e no exterior. Como especialista em microfósseis foi consultora de empresas petrolíferas. Maury era meticulosa e aplicava na descrição e análise dos fósseis que recebia os critérios e rigor científico da época. Sua primeira contribuição para geologia brasileira se deu em 1925, com a publicação de seu trabalho “Fósseis Terciários do Brasil com Descripção de Novas Formas Cretáceas”. Sua última contribuição, de 1938, foi “Argilas fossilíferas do Plioceno do Território do Acre”, encerrando à sua colaboração com o Serviço Geológico e Mineralógico do Brasil, em decorrência do seu falecimento devido à um Câncer diagnosticado no ano anterior.

Carlotta Joaquina Maury teve uma contribuição destacada e efetiva para a Paleontologia Brasileira na descoberta de espécies de invertebrados marinhos fósseis, e na compreensão da estratigrafia e do ambiente de deposição da Formação Pirabas no Estado do Pará, hoje um importante sítio Paleontológico do Brasil, cujos estudos de Maury foram pioneiros e ainda hoje são considerados únicos e destacados.

Artigos fonte:

NASCIMENTO, R.S.; SARGES, G.L.S. 2020. Carlota Joaquina Maury: Uma Vida Dedicada à Ciência. Boletim do Museu de Geociências da Amazônia. Belém – Pará. Ano 7, número 2. DOI:10.31419/ISSN.2594-942X.v72020i2a7RSN <Clique aqui para acessar o artigo>

MELO D.J. & CASSAB R.C.T. Carlotta Joaquina Maury (1874-1938) e suas Contribuições para a Paleontologia Brasileira. Paleontologia em Destaque, edição especial, II Simpósio Brasileiro de Paleontologia de Invertebrados, p. 70-77. Novembro – 2014. <Clique aqui para acessar o artigo>

Fonte e legenda da imagem de capa: Carlota no Laboratório de Paleontologia da Universidade de Cornell, 1921. Imagem extraída de squarespace-cdn.com <link>.

Publicado por Alexandre Liparini

Mineiro, gaúcho, sergipano, e por que não, alemão? No caminho sempre a paleontologia como paixão e agora como profissão. Adora dar aulas e pesquisar sobre origens e evolução. Se esse for o tema, podem perguntar, por que não?

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