Maior espécie de tartaruga registrada habitava o Brasil

22 de agosto de 2021

Por: Lidiane Nishimoto

Os quelônios formam a ordem de répteis representados pelas tartarugas. De tamanhos variados, o grupo abrange animais que vão desde os 8 cm da tartaruga-salpicada (Chersobius signatus) aos mais de 2 m da tartaruga-de-couro (Dermochelys coriacea). A subordem Pleurodira é representada por tartarugas de água doce, conhecidas por esconder sua cabeça no casco dobrando o seu pescoço horizontalmente. No Brasil, a maior representante dessa subordem é a tartaruga-da-Amazônia (Podocnemis expansa), que pode alcançar os 90 cm.

Mas ela não foi a maior representante a andar por nossas terras. Recentemente um grupo de paleontólogos descreveu o maior indivíduo de Stupendemys geographicus já registrado, um outro espécime da subordem Pleurodira. Encontrado na Venezuela, sua carapaça é a mais completa registrada da espécie, medindo 2,86 m de comprimento. Um recorde não só na espécie mas na ordem de quelônios como um todo.

Reconstrução de S. geographicus comparado ao tamanho de um homem adulto. Crédito: Edwin-Alberto Cadena, Universidad del Rosario. Figura extraída do artigo fonte.

Até então, a maior carapaça encontrada era a da tartaruga marinha Archelon ischyros com 2,2 m de comprimento. E sua massa corporal não fica pra trás, estima-se que o indivíduo de S. geographicus contava com uma massa de 1145 kg quando vivo, mais que o dobro da maior tartaruga viva atualmente, a tartaruga-de-couro.

Segundo os fósseis já encontrados da espécie, acredita-se que ela se distribuía pela região da Amazônia, em países como o Brasil, Venezuela e Colômbia, há mais de 10 milhões de anos. Os pesquisadores estimam que seu tamanho grandioso se deve ao ambiente onde vivia, o famoso Sistema Pebas. Com abundância de ambientes aquáticos interligados, onde os animais podiam migrar facilmente, o Pebas era lar de muitos representantes da megafauna. A disponibilidade de recursos, combinada à facilidade de migração pode explicar seu porte avantajado.

Outra suposição é a da pressão adaptativa. Dividindo o ambiente com crocodilianos gigantescos, como o Gryposuchus spp., conhecidos pelo porte de até 10 m, existem evidências da interação direta entre essas feras e o S. geographicus. Foram encontradas marcas de mordidas de crocodilianos em fósseis desta tartaruga e, inclusive na maior carapaça encontrada, havia um dente encrustado em sua superfície ventral.

Essa pressão adaptativa, combinada à elevação dos Andes, podem ter sido as causas da extinção da espécie. A elevação dos Andes interrompeu o fluxo de água recebido pelo Sistema Pebas, mudando sua configuração e impactando suas populações. Mas, apesar disso, ainda existem parentes desses gigantes na Amazônia. Os tracajás ainda habitam o ambiente uma vez conquistado por gigantescos quelônios.

Artigo fonte: Cadena, E. A.; Scheyer, T. M.; Carrillo-Briceño, J. D.; Sánchez, R.; Aguilera-Socorro, O. A.; Vanegas, A.; Pardo, M.; Hansen D. M.; Sánchez-Villagra, M. R. (2020). The anatomy, paleobiology, and evolutionary relationships of the largest extinct side-necked turtle. Science Advances, v. 6, n. 7., eaay4593 DOI: 10.1126/sciadv.aay4593 <Clique aqui para acessar o artigo fonte>

Fonte e legenda da imagem de capa: Reconstrução de S. geographicus no Sistema Pebas. Crédito: Jaime Chirinos.

Publicado por Alexandre Liparini

Mineiro, gaúcho, sergipano, e por que não, alemão? No caminho sempre a paleontologia como paixão e agora como profissão. Adora dar aulas e pesquisar sobre origens e evolução. Se esse for o tema, podem perguntar, por que não?

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