Fake Fossil – Como saber a veracidade de um fóssil?

15 de maio de 2022

Por: Shooting Star

A falsificação de objetos fossilizados sempre foi um problema, que atrasa os estudos científicos. Isso se explica pelos inúmeros casos de objetos fossilizados falsificados, como por exemplo o ‘’ suposto’’ crânio encontrado do Homem de Piltdown, em 1912, na Inglaterra; as edições distorcidas de imagens que demonstram o falso descobrimento de ossos de dinossauro; ou, em tempos mais distantes, a falsificação egípcia de um dedão do pé, feita com linho, cola e gesso, em 1295, o que prova que esse problema não é de agora. Nesse sentido, para tentar amenizar esse quadro, os cientistas O. Mateus, M. Overbeeke e F. Rita, publicaram no periódico “Journal of Paleontological Techniques“, um artigo científico sobre métodos para identificar a falsificação de fósseis.

A explicação iniciou-se com a dedução dos 3 tipos de fósseis falsificados existentes: Os que apresentam partes reais, porém foram moldados para realçar sua atratividade; os que foram gerados totalmente pelas técnicas científicas humanas e os que são integralmente genuínos, porém estão mesclados com algumas partes de outros seres fósseis, sobretudo da mesma linhagem.

Mas, sem mais delongas, como saber se um fóssil é verídico ou adulterado?

O estudo começou abordando a comparação por meio da observação. Isso porque, várias partes de um fóssil podem se encontrar diferenciadas ente si, como por exemplo na textura, tamanho, densidades, fraturas, ou até mesmo cores discrepantes ao longo de suas estruturas. Mas, segundo o artigo, só a utilização desse método, para iniciantes, não é o suficiente, pois para tal precisa-se ter uma visão bem treinada.

Para encobrir ou completar espaços vazios no fóssil, o artigo apontou o uso indevido de substâncias como cola, argila e geopolímeros — esse para a recriar uma imitação da rochas matriz. A publicação científica apresentou formas de detectar a presença dessas substâncias: o uso de aparelhos específicos, como microscópios estereoscópicos, pois ampliam a visão, fazendo com que a imagem superficial que abrange essas substâncias fiquem claras e mais detalhadas. Também complementou o estudo dizendo que a realização de pequenos arranhões no local que se suspeita ter a presença dessas substância é útil, para reforçar o diagnóstico se o fóssil é falso ou verdadeiro.

O estudo abordou a utilização de alguns ácidos para identificar as falsas fusões de crânio verdadeiro com pedaços de crânios ilegítimo ou outro material parecido, que para parecer ainda mais reais, são recobertos por grãos de areia e agregados de minerais. Alguns exemplos desses ácidos são o clorídrico e o acético, que ao reagir com esses minerais, formam bolhas.

Outro método abordado é a utilização do fogo, que em contato com a argila, cola e outras substâncias usadas para o preenchimento, entram em fusão.

Por último, foi demonstrada uma técnica altamente eficaz na distinção de um fóssil que é por meio do raio x. Essa técnica consiste em visualizar partes internas dos fósseis. Por meio dela, é possível saber se a estrutura interior de um fóssil é inteiramente verdadeira, ou se foi preenchida.

Artigo fonte: Mateus, O. ; Overbeeke, M. and Rita, F. (2008). Dinosaur frauds, hoaxes and “frankensteins”: how to distinguish fake and genuine vertebrate fossils. Journal of Paleontological Techniques, v.2 . n. 22 . p.1-5 <Clique aqui para acessar o artigo fonte>

Fonte e legenda da imagem de capa: Escultura de um fóssil que poderia retratar um fake fóssIl moldado na superfície da rocha. Autoria de Guy Courtois, extraída do site commons.wikimedia.org <link>

A importância dos Coprólitos nas interações ecológicas

09 de maio de 2022

Por: Vitória Gomes Macêdo

O registro fóssil é dominado por tecidos biomineralizados, resistentes, por exemplo, conchas e ossos que são compostos por carbonato de cálcio e outros elementos. Por outro aldo, os tecidos moles são decompostos rapidamente e são raras as vezes que se preservam. Porém, a fossilização desses tecidos é possível, e uma vez preservados, são ricos em informações fundamentais e raras que tem impacto nas análises biológicas de organismos extintos há muito tempo.

Para a preservação do tecido mole, a inibição completa ou parcial dos processos de decomposição precisa acontecer. Essa inibição pode ser causada por fatores ambientais ou pela atividade de microrganismos específicos. Deve ainda acontecer de maneira rápida, após os vestígios serem enterrados. Essa preservação é frequentemente ligada a uma mineralização precoce dos tecidos, induzida por bactérias. Passando, portanto, por essas condições favoráveis de preservação, tais registros trazem depósitos com altas quantidades e qualidade de informações paleontológicas, como exemplo, os coprólitos.

Nesses coprólitos são encontrados restos importantes, como penas, pelos e bactérias. Os pelos e penas são relativamente resistentes, pois são compostos de queratina, proteína fibrosa e estruturalmente robusta, e algumas análises filogenéticas revelaram que a queratina já estava presente nos primeiros tetrápodes. Hoje, existem poucos casos de preservação de pelos conhecidos no registro fóssil, mas um exemplo é um provável cabelo humano, recuperado de coprólitos produzidos por hienas, encontrado na África do Sul — ele foi substituído por carbonato de cálcio durante a fossilização, e não há vestígio de queratina ou aminoácido, de sua composição original.

Por fim, depois de estudos e a verificação de outros produtos fossilizados no coprólito, chegaram à conclusão de que as hienas viviam próximas com hominídeos, javalis, zebras, e outros animais no Vale Sterkfontein na África do Sul, durante o Pleistoceno médio. A descoberta mais antiga de cabelo fossilizado, até agora, em conjunto com um corpo articulado, é um mamífero eutério do Cretáceo inferior, com aproximadamente 125 Ma.

Infelizmente, a maioria das fezes produzidas nunca entraram no registro fóssil, pois não é preservada por muito tempo após sua produção. O excremento não enterrado inicia um rápido processo de desintegração e decomposição, sendo dependente de fatores bióticos e abióticos.

Os estudos sobre os coprólitos tiveram grandes avanços, no lugar de serem apenas vistos como um derivado do registro fóssil de certos organismos, uma nova abordagem de estudos usa os coprólitos para desvendar ecossistemas antigos, como um todo. A atenção na preservação de tecidos moles nos coprólitos é necessária, pois constantemente preservam tecidos moles fossilizados de invertebrados e vertebrados.

Os coprólitos são importantes para examinar de forma minuciosa as interações ecológicas que de outra forma seria impossível de estudar, além de preservar estruturas biológicas que raramente ou nunca são preservadas em outros lugares. Teias alimentares, aspectos de ecossistemas inteiros, são desvendados através das excretas fósseis.

Artigo fonte: Qvarnström, M.; Niediedźwiedzki, G.; Žigaitė, Ž. (2016). Vertebrate coprolites (fossil faeces): An underexplored Konservat-Lagerstätte. Earth-Science Reviews, v. 162, p. 44–57. DOI: 10.1016/j.earscirev.2016.08.014 <Clique aqui para acessar o artigo fonte>

Fonte e legenda da imagem de capa: Imagem de fezes fossilizadas, coprólito. Figura extraída do artigo fonte.

Pesquisadores descobrem restos de peixe gigante que viveu no período Cretáceo, no Norte do Maranhão

11 de maio de 2022

Por: Sillas Modesto

Pesquisas recentes descobriram fragmentos de um peixe gigante, que viveu no final da era Mesozoica, no final do período Cretáceo, entre 100,5 milhões e 93,3 milhões de anos, aproximadamente. A descoberta foi feita no Norte do Maranhão, na baía de São Marcos, em um sítio fossilífero pertencente à Formação Alcântara. Os fósseis encontrados estavam depositados em um local que hoje é de estuário, ambiente aquático de transição entre um rio e o mar. Grande quantidade de outros tipos de fósseis também foram encontrados na região, dentre eles espécies da flora como coníferas, pteridófitas arborecentes e equisetos. Já entre as espécies da fauna, foram encontrados dinossauros, crocodilos, répteis e peixes.

Os fragmentos fósseis da espécie encontrada, permitiu sua classificação como Mawsonia, um peixe sarcoripterígio. Os sarcopterígios tiveram ampla distribuição geográfica e grande diversidade desde o período Devoniano, da era Paleozoica. Dentro de Sarcopterygii, o gênero Mawsonia pertence ao grupo Actinistia e seus representantes atualmente são os chamados celacantos. A espécie foi batizada como Mawsonia gigas, considerada uma espécie de grandes proporções para o ambiente aquático de água doce.

O material encontrado do espécime representa fragmentos de ossos do crânio, face, máxima, palato, cintura escapular e arco branquial, além de outras partes. Nesse achado, tem se a título de exemplo um fragmento do osso mandibular dentário do lado direito, com 105 mm de comprimento e um fragmento do osso mandibular angular, com 213 mm de comprimento, mostrando o quão grande era a espécie.

Assim, os pesquisadores concluíram que de fato se trata do gênero Mawsonia, de acordo com os registros fossilíferos encontrados. A espécie foi a única do Brasil a ser reconhecida. Para tal, comparam o modelo de crânio de Mawsonia apresentado nos estudos de Maisey (1986) com os fragmentos encontrados e utilizando-se de técnicas de computação gráfica com o uso do software gráfico específico chegaram aos ajustes de dimensões. Analisando as proporções entre as espécies de Mawsonia e Axelrodichthys — outro gênero do mesmo grupo de Mawsonia — chegou-se ao tamanho estimado fóssil encontrada no Maranhão, de aproximadamente 4,57 metros, com medidas superiores as dimensões encontradas da mesma espécie por outros autores, ao redor do mundo.

A título de curiosidade, o desenho abaixo representa o tamanho de Mawsonia gigas, comparado com uma pessoa, mostrando assim quão grande era esse peixe.

Artigo fonte: Medeiros, Manuel Alfred et al. (2011). O Senhor dos Rios: Mawsonia gigas (Mawsonidae) do Cenomaniano do Maranhão, Brasil. Paleontologia: Cenários da Vida. XXII Congresso Brasileiro de Paleontologia, Natal – RN. v. 4, p. 575-583. <Clique aqui para acessar o artigo fonte>

Fonte e legenda da imagem de capa: Comparação entre o tamanho do Mawsonia gigas, espécie encontrada, com uma pessoa. Figura extraída do artigo fonte.

A importância da Paleontologia

16 de abril de 2022

Por: Roxane Matheus

Vocês, seres pensantes, já se interessou em conhecer a vida no passado??? Já lhe passou pela cabeça ao olhar para uma determinada área, o que acontecia ali milhares de anos antes??? E se eu te contar que existem pessoas que sabem nos dizer exatamente isso!!!

Sabia que esta área especifica de estudo se chama Paleontologia? A maioria das pessoas não conhecem esta palavra, mas imagino que vocês conheçam os dinossauros! Quem nunca ouviu falar neles? Desde pequenos somos ensinados que eles eram animais gigantes e terríveis que viveram há milhares de anos antes de nós e aí veio um grande meteoro e: Puff, acabou com eles! Desde filmes até às pequenas visitas a museus , tudo gira em torno deste grandes animais que viveram há milhares de anos atrás. Mas será que é só isso que a Paleontologia estuda???

Talvez seja por isso, que nos os públicos mais leigos, não sabemos mais sobre o nosso passado, além dos dinossauros. São mais raros os filmes sobre os homens das cavernas ou sobre um garoto que decidiu ir atrás de um fóssil — restos de organismos preservados nas rochas —, a mídia em si prefere os grandes e terríveis animais antigos, que podem devorar uma pessoa. Mas isso não deixa de ser um grande avanço em si, para a Paleontologia, pois estes filmes vêm popularizando-a, e levando mais conhecimentos a público.

Mas a Paleontologia vai muito além destes grandiosos animais. Ela está ligada à ciência que vai estudar a vida pré-histórica, que são achadas em rochas, tendo como objeto, conhecer a vida no passado. A paleontologia tem ainda uma importante atuação nos tempos atuais, não sendo algo apenas vistos em universidades ou filmes, pois a cada ano se torna mais importante conhecer o passado geológico do nosso planeta para conhecer melhor a nossa origem e o próprio planeta onde vivemos.

Através da Paleontologia podemos comprovar a existência de uma determinada forma de vida em um certo período do tempo e até saber por onde andava, ao decorrer de sua vida, servindo como uma declaração sobre aquele ser em especifico, sobre vários aspectos. Com o passar do tempo novas tecnologias tem possibilitado os avanços destes estudos fazendo com que a compreensão sobre a origem do planeta seja mais ampla, trazendo percepção a outras áreas de estudo e complementando outras teorias. A partir dos estudos paleontológicos, que conseguimos identificar as mudanças ocorridas na superfície do planeta através do tempo geológico e entender como as nossas próprias ações o modificam.

Artigo fonte: Filipe, C. H. de O. (2008). Paleontologia: definição, fundamentação e objetivos. Webartigos. <Clique aqui para acessar o artigo fonte>

Fonte e legenda da imagem de capa: Pegadas fósseis representando a localização e trajeto de uma espécie ao decorrer de sua vida. Autoria de Chris Light, extraída do site commons.wikimedia.org <link>.

O sumiço do Ubirajara

02 de dezembro de 2021

Por: Victor Lopes Chamone Jorge

E o sumiço do Ubirajara, hein?

Não sabe quem é o Ubirajara? Vem entender essa história!

Ubirajara, ou melhor, Ubirajara jubatus é um dinossauro genuinamente brasileiro e com características únicas! Acredita-se que o “Bira” vivia no interior do Ceará, na região da Bacia do Araripe, há cerca de 110 milhões de anos atrás. Já pensou que interessante seria visitar um museu no Brasil e visitar um dinossauro 100% brasileiro? Contudo, isso infelizmente não é possível. Ubirajara não está aqui no Brasil para que os cientistas contem a sua história, sua casa é o Museu de História Natural de Karlsruhe, na Alemanha. Como ele foi parar lá? Aí é onde mora o problema…

Toda confusão começou em dezembro de 2020, quando a espécie foi descrita na revista Cretaceous Research. Na ocasião, muitos paleontólogos brasileiros questionaram o fóssil estar em mãos alemãs, devido a vários imbróglios relacionados com a legislação e trâmite dos fósseis brasileiros no exterior. Seria um caso de tráfico de fósseis?

O paleontólogo responsável pelo artigo original que descreveu Ubirajara afirmou que o fóssil havia sido levado para a Alemanha de forma legal em 1995, mas isso não é tão simples assim. O brasileiro responsável por “assinar a papelada” já foi condenado por falsificar documentos no tráfico de esmeraldas. Conversas entre representantes brasileiros e o museu alemão começaram a ser feitas para uma possível devolução do fóssil, mas estas não caminharam bem. Devido a toda repercussão negativa, o artigo original foi retirado da revista e não está mais disponível.

A confusão serve como um alerta para os amantes da paleontologia, ainda mais depois de alguns apontamentos feitos pela comunidade científica brasileira. Acredita-se que grande parte dos artigos publicados nos grandes centros de pesquisa, que possuem maior financiamento, são referentes à registros fósseis de países fora deste eixo econômico. Situação essa que, além de preocupante do ponto de vista do desenvolvimento da ciência nacional, demonstra o quão invasivo pode ser o tráfico de fósseis dentro de uma perspectiva global.

Embora a situação do Ubirajara seja extremamente delicada, o contexto faz emergir uma discussão ainda maior: a desigualdade econômico-científica. Como alguns países publicam registros de outros países? Para além da paleontologia, é possível que um país se desenvolva cientificamente a partir de recursos de outro? No caso do dinossauro brasileiro, chegou-se até discutir a capacidade dos museus e cientistas brasileiros em cuidar de um fóssil tão especial.

Nas redes sociais é muito fácil você entender mais sobre o assunto, principalmente acompanhando a paleontóloga Aline Ghilardi, professora da UFRN, que encabeçou o movimento para maiores esclarecimentos e retorno do Ubirajara ao Brasil.

Artigo fonte: Cisneros, J.C., Ghilardi, A.M., Raja, N.B., Stewens, P.P. (2022). The moral and legal imperative to return illegally exported fossils. Nature Ecology & Evolution, v. 6, p. 2-3. Doi: 10.1038/s41559-021-01588-9 <Clique aqui para acessar o artigo fonte>

Fonte e legenda da imagem de capa: Representação artística do dinossauro Ubirajara jubatus. Autoria de Masato Hattori, extraída do site atlasvirtual.com.br <link>.

Como os fósseis nos ajudaram a entender melhor o comportamento social dos dinossauros

23 de novembro de 2021

Por: Matheus Rodrigues Gonçalves

Extintos há 65 milhões de anos, os dinossauros sempre fascinaram os seres humanos. Apesar de parecer estranho que os dinossauros tenham tido alguma vida em sociedade, um artigo publicado na revista científica Scientific Reports revela isso e muito mais sobre a vida destes animais.

Uma equipe de cientistas liderada por pesquisadores do Museu Paleontológico Egídio Fergulio, localizado na Argentina, identificou mais de 180 fósseis de diversas idades de uma única espécie de dinossauro na Formação Laguna Colorada na patagônia argentina. A espécie Mussaurus patagonicus, popularmente chamada de mussauro, é um dinossauro herbívoro de grande porte que viveu há aproximadamente 193 milhões de anos. Os fósseis encontrados são de 80 indivíduos de diversa idades, além de mais de 100 ovos fossilizados com embriões em diversos estágio de desenvolvimento.

A presença de espécimes em diferentes idades, em uma mesma região indica que os animais mantinham uma interação social complexa. Os fósseis estavam distribuídos em uma área de 1 km2, agrupados de acordo com suas idades. Enquanto os mais jovens estavam mais próximos dos ovos, os mais velhos estavam mais distantes, mas ainda assim, perto dos filhotes. Essa coexistência de indivíduos adultos e jovens aponta que os animais andavam em bando, provavelmente como uma estratégia para proteger os mais novos. Enquanto os indivíduos adultos podiam chegar a pesar mais de 1.500 kg, os filhotes pesavam pouco mais de 100 g. As evidências apontam ainda que os adultos procuravam alimentos para si e para os mais jovens, que não possuíam essa capacidade devido ao seu tamanho e estrutura corporal.

Estudos anteriores indicam que outras espécies de sauropodomorfos, grupo da qual o mussauro faz parte, também possuíam um comportamento parecido com o dinossauro descoberto na Argentina. Entretanto, os fósseis descobertos recentemente são as evidencias mais antigas do comportamento em grupo entre os dinossauros anteriores a 40 milhões de anos.

Esse comportamento em manada pode ter sido o ponto chave para o grande sucesso evolutivo dos sauropodomorfos, e principalmente dos saurópodes, descendentes dos sauropodomorfos e maiores animais que já habitaram o planeta.

Artigo fonte: Pol, D., Mancuso, A.C., Smith, R.M.H. et al. (2021). Earliest evidence of herd-living and age segregation amongst dinosaurs. Scientific reports, v. 11, n. 20023. DOI: 10.1038/s41598-021-99176-1 <Clique aqui para acessar o artigo fonte>

Fonte e legenda da imagem de capa: Reconstrução artística de um grupo de mussauros, hábito este que poderia aumentar a sua sobrevivência. Autoria de Jorge Gonzalez, extraída da matéria “Patagonian fossils show Jurassic dinosaur had the herd mentality” no site reuters.com <link>

INÉDITO: CIENTISTAS BRASILEIROS DESCOBREM PARASITAS PRESERVADOS EM TECIDO ÓSSEO DE SAURÓPODE

23 de novembro de 2021

Por: Taciane Fernanda Valadares Reis

Sabe-se que a preservação de parasitas em materiais fósseis é rara, principalmente, durante a Era Mesozoica. Os registros paleontológicos de microrganismos já descritos resumem-se em ovos de helmintos e estágios desenvolvimentais de protozoários, encontrados em coprólitos (fezes conservadas) ou âmbar. Contudo, esses registros tal como sua relação à patologias são capazes de fornecer importantes informações fisiológicas e ecológicas de organismos e comunidades passadas, além de oferecer noções evolutivas da associação de parasitas e hospedeiros ao longo dos anos.

Pela primeira vez, cientistas brasileiros descobriram parasitas fossilizados em tecidos de um hospedeiro vertebrado. Os paleoparasitas foram identificados no osso de um saurópode do Cretáceo Superior. Foi constatado que o dinossauro da família dos titanossaurídeos, encontrado no interior de São Paulo e depositado no Laboratório de Paleoecologia e Paleoicnologia (LPP) da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), tinha osteomielite aguda, doença que consiste na inflamação óssea, comum em espécies atuais.

Para melhor estudar as lesões presentes no dinossauro, os cientistas, primeiramente, realizaram uma tomografia computadorizada reconstruindo um modelo tridimensional da amostra da fíbula do animal, que possibilitou a análise interna do osso afetado. Além disso, os pesquisadores resolveram descrever histologicamente o desenvolvimento da osteomielite. Para isso, fizeram cortes de lâminas do periósteo, os quais foram analisados microscopicamente a fim de se obter dados da morfologia e progressão da doença. Nestes, foram observados a presença de bolsas externas e zonas com padrões radiais e reticulares da reação periosteal, além de alta vascularização local. Foi a partir dessa análise que a equipe científica pode identificar os tripanossomatídeos preservados nas regiões vasculares do membro examinado. Acredita-se que a mineralização autigênica tenha possibilitado a extraordinária conservação destes microfósseis.

Não foi possível descobrir se os parasitas encontrados foram os responsáveis pela causa da doença ou se a própria infecção facilitou sua infestação, visto que foi localizada também uma colonização bacteriana na amostra. No entanto, esse estudo contribuiu consideravelmente para a compreensão do histórico evolutivo e ecológico das doenças parasitárias. Ademais, foi um trabalho inovador, uma vez que uniu de forma inédita os campos da histologia, patologia e parasitologia, possibilitando o avanço da paleontologia.

Artigo fonte: Aureliano, T., Nascimento, C. S. I., Fernandes, M. A., Ricardi-Branco, F., & Ghilardi, A. M. (2021). Blood parasites and acute osteomyelitis in a non-avian dinosaur (Sauropoda, Titanosauria) from the Upper Cretaceous Adamantina Formation, Bauru Basin, Southeast Brazil. Cretaceous Research, v. 118, n. 104672. DOI: 10.1016/j.cretres.2020.104672 <Clique aqui para acessar o artigo fonte>

Fonte e legenda da imagem de capa: Parasitas conservados nas regiões vasculares do periósteo indicados pelas setas vermelhas. Imagem extraída do artigo fonte.

Uma Preguiça Gigante é encontrada no Espírito Santo e isso é fantástico!

23 de novembro de 2021

Por: Pedro Giordani

No município de Cachoeiro de Itapemirim viveu um monstro. Com cerca de 4 metros de altura e com massa corporal estimada em quase cinco toneladas, foi encontrada em uma pedreira da cidade em um conglomerado composto por seixos de mármore em uma matriz de argila. Esse monstro se trata de partes de fósseis de uma preguiça gigante, cientificamente conhecida como Eremotherium laurillardi, foi encontrado fragmentos do crânio, dos dentes, vértebras e ossos da tíbia, a partir dos quais foi possível diagnosticar que se trata de uma preguiça gigante.

O fato fantástico é que esse evento é extremamente raro de acontecer no Espírito Santo, isso se dá porque o Espírito Santo se encontra envolta de rochas metamórficas (rochas formadas através de outras rochas) e que tem poucos espaços com rochas sedimentares, onde se encontra os fósseis. O mármore, extraído pela pedreira, é um tipo de rocha metamórfica, derivado de alta pressão e temperatura do calcário. O que deixa tudo surpreendente é que mesmo com esse tipo de terreno não apropriado para fósseis, foi possível encontrá-lo, por causa de uma fenda com uma incomum presença de sedimentos contendo fósseis.

Nossa preguiça foi encontrada em um fenda (com altura de 2,5 metros) formada entre rochas, onde foi relatado que a ossada estava desarticulada. Foi observado marcas na superfície da tíbia, isso mostra que a morte da nossa preguiça aconteceu em um ambiente aberto já que caso tivesse morrido na fenda teria maior integridade dos ossos. Então como esse bicho de cinco toneladas foi encontrado na fenda? Bem, a hipótese tem alguns passos:

1 – Momento da morte. A nossa preguiça vivia perto da fenda onde foi encontrada, logo é esperado que ela morresse perto da fenda
2 – Após a morte da preguiça gigante aparecem alguns canídeos que comem a carne da preguiça, algo bem parecido com os urubus hoje em dia. Com isso, esses canídeos provocam a desarticulação da carcaça e separam alguns ossos, isso provoca com que a preservação total da carcaça da preguiça não ocorra.
3 – Fluxos leves de água levam essas ossadas para a fenda que estava ali perto, sendo de curta distância.
4 – Nessa fenda o animal foi soterrado e isso é muito importante para proteger o que restou da carcaça!

A Preguiça Gigante e outros fósseis achados como esse são importantes pois sua raridade proporcionada pelo local achado mostra que possamos ter potencial de novas descobertas de fósseis em regiões similares, podendo mapear futuramente outras espécies extintas que viveram nestas regiões.

Artigo fonte: Germano, R. V., Buchmann, R. & Rodrigues, T. (2019). Fósseis em uma frente de extração de mármore? Análises tafonômica e paleoicnológica de mamíferos de grande porte do Quaternário do Espírito Santo, Brasil. Revista Brasileira de Paleontologia, v. 22, p. 240-252. DOI: 10.4072/rbp.2019.3.06 <Clique aqui para acessar o artigo fonte>

Fonte e legenda da imagem de capa: Exemplar fóssil de um Eremotherium laurillardi. Autoria de Wikipedia Loves Art participant “Kamraman”, extraída do site commons.wikimedia.org utilizando o termo de busca Eremotherium.

Encontrado no Brasil um fóssil de uma nova espécie de primata extinto durante o Pleistoceno, que se assemelha a macacos-aranhas atuais

22 de novembro de 2021

Por: Nicolas Arthur Assis Leal

O esqueleto quase completo de um primata foi descoberto em um depósito de fósseis referente ao Pleistoceno no estado da Bahia, Brasil. O fóssil se assemelha muito a macacos-aranhas atuais, possuindo semelhanças craniais com estes primatas. Além disso, ele indica que os macacos do novo mundo poderiam ter quase o dobro do tamanho dos atuais e pertenciam à fauna de mamíferos da América Latina no Pleistoceno, período que compreende entre 2,5 milhões e 11,7 mil anos atrás.

Este fóssil foi encontrado em 1992, em uma caverna brasileira chamada Toca da Boa Vista, a maior caverna brasileira, localizada em Campo Formoso, BA. A caverna é bastante extensa, possuindo várias galerias, e o fóssil em questão foi encontrado em uma câmara distante, a algumas centenas de metros da entrada principal. Junto a ele haviam outros fósseis de platirrinos (um clado de macacos do novo mundo), evidenciando uma pequena amostra de algumas espécies extintas do Pleistoceno.

Quanto ao esqueleto do primata de interesse deste artigo, essa espécie recebeu o nome de Caipora bambuiorum, este nome foi escolhido devido à Caipora, uma criatura mitológica do folclore brasileiro que já fora uma vez mencionada por Peter Lund, pai da paleontologia, ao se referir a um macaco gigante que era conhecido pelos índios nativos como Caipora, que significa “morador da floresta”. A palavra bambuiorium faz referência ao Grupo Bambuí de Pesquisas Espeleológicas de Belo Horizonte, que foi responsável pela descoberta. O esqueleto do neurocrânio deste animal é largo e globoso, além de possuir uma maior largura nos ossos parietais, o que acaba conferindo um contorno de crânio mais arredondado. Em uma comparação das dimensões cranianas de Caipora bambuiorum com outros crânios de primatas do novo mundo, foi possível perceber que essa espécie possui uma cabeça mais esférica. Estas características dos ossos neurocranianos e suas dimensões são típicas de macacos do novo mundo.

Nos dentes, o fóssil apresenta dentição bunodonte, apresentando os pré-molares e molares muito parecidos a de macacos-aranha do gênero Ateles. Esse tipo de dentição encontrada nesta espécie foi a semelhança mais marcante aos primatas da Família Atelidae, a qual estão inclusos os macacos-aranha.

Quanto ao resto do esqueleto, referente ao corpo do primata, os pesquisadores perceberam que não estava totalmente desenvolvido, sendo então Caipora bambuiorum um indivíduo mais jovem, mas mesmo assim já possuía ossos robustos, outra característica dos macacos do novo mundo. As proporções e articulações dos ossos mostraram adaptações de uma postura suspensiva e locomoção de braquiação, que é também encontrada em macacos-aranha. O fóssil possui membros superiores longos, comprimento dos dedos dos pés e mãos parecidos e vértebras caudais robustas, características encontradas em macacos do novo mundo que possuem locomoção de braquiação. Por fim, para descobrir o peso deste indivíduo, foi utilizada uma fórmula de cálculo de massa corporal em primatas, chegando no resultado de que este primata pesava em torno de 20,5 kg, um peso que é 75% maior do que os maiores Atelines vivos, segundo o artigo.

Com isso, devido a suas características, proporções e dimensões ósseas do crânio e do corpo, Caipora bambuiorum é um fóssil que está fortemente relacionado aos macacos do novo mundo do gênero Ateles. Sua proximidade em tamanho corporal e, provavelmente, filogenia com macacos-aranha evidenciam uma nova informação sobre a diversidade adaptativa de macacos neotropicais, além de demonstrar que platirrinos compunham parte da fauna de mamíferos do final da época Pleistoceno na América Latina.

Artigo fonte: Cartelle, C.; Hartwig, W.C. (1996). A new extinct primate among the Pleitoscene megafauna of Bahia, Brazil. Proceedings of the National Academy of Sciences, v. 93, n. 13, p. 6405-6409. DOI: 10.1073/pnas.93.13.6405 <Clique aqui para acessar o artigo fonte>

Fonte e legenda da imagem de capa: Crânio e ossos do corpo de Caipora bambuiorum. Imagem extraída e modificada do artigo fonte.

Novo estudo sobre a evolução da complexidade dentária em Squamata

23 de novembro de 2021

Por: Pedro Henrique Santiago Godinho

No que diz respeito as adaptações dentárias e seu papel na evolução, foi examinado a complexidade dentária em Squamata, uma ordem pertencente à classe dos répteis, ao qual integram, por exemplo, as cobras, lagartos e anfisbenas. Neste estudo foram utilizados métodos morfológicos e filogenéticos entre fósseis e Squamata atuais para analisar a complexidade dos dentes ao longo da evolução deste grupo.

Os dentes são muito importantes para o processo de alimentação, determinando a faixa alimentar incluída pelo organismo, logo suas formas estão sujeitas a pressão seletiva do ambiente. Os Squamata podem ter dentes simples, com apenas um tipo de dente, ou dentes complexos, com mais de uma morfologia de dente. Dentes simples cônicos a laminados comumente são encontrados em carnívoros, enquanto a maior complexidade dentária com cúspides mais numerosas, permitem a trituração do tecido vegetal fibroso, decisivo para muitos herbívoros.

O estudo analisou os números de cúspides – que são as pontas formadas na extremidade dos dentes – e as dietas alimentares para 545 espécies de Squamatas incluindo toda a diversidade viva e extinta, desde a sua origem, no Permiano. Foi investigado a diversidade da extensão dentária e seu arranjo em todo o grupo, testando como a forma do dente e o número de cúspides estão relacionadas com as dietas das espécies. Em seguida, foi comparado as relações evolutivas para examinar os parâmetros da complexidade dentária e do consumo de alimentos ao longo da história evolutiva. No final foi analisado se a complexidade dentária e a evolução da alimentação impulsionaram a diversidade de Squamata.

Foi possível inferir então, que o ancestral comum dos Squamata foi unicúspide e pelo menos 24 aparecimentos independentes de multicúspide surgiram ao longo da evolução do grupo. Mas a evolução dos dentes de Squamata não foi apenas para maior complexidade: podem desenvolver morfologias múltiplas com várias cúspides ou perder as cúspides, incluindo reversões para a condição ancestral de unicúspide, porem nunca obtendo a perda completa dos dentes.

Esses resultados mostraram também que a complexidade dos dentes evoluiu e foi perdida inúmeras vezes dependendo da evolução das dietas alimentares de cada espécie, contribuindo para a diversidade dos Squamata. Logo os padrões odontológicos derivam da evolução correlacionada entre a complexidade dentária e a dieta, mostrando por exemplo, um forte indicio para um modelo ligando a “multicuspidez” e o consumo de plantas, sendo possível observar também reversões para números menores de cúspides se há diminuição no consumo de plantas.

Artigo fonte: Lafuma, F., Corfe, I.J., Clavel, J. et al. (2021). Multiple evolutionary origins and losses of tooth complexity in squamates. Nature Communications, v. 12, n. 6001. DOI: 10.1038/s41467-021-26285-w <Clique aqui para acessar o artigo fonte>

Fonte e legenda da imagem de capa: A correlação entre a complexidade do dente e o consumo de plantas. (B) Relação de dados entre a diminuição e o aumento do número de cúspides ao longo do tempo. (D) Relação de dados entre a diminuição e o aumento do consumo de plantas ao longo do tempo. Imagem extraída do artigo fonte.