Fósseis encontrados na Austrália do período Mioceno são indicativos de uma extensa floresta tropical que dominava a região

12 de maio de 2022

Por: Larissa Cândida da Silva

A paisagem da Austrália se modificou muito ao longo do tempo geológico. Durante o período de tempo geológico chamado de Mioceno (compreendido entre 23,03 a 5,33 milhões de anos atrás) aconteceu um aumento na temperatura do planeta Terra e logo após uma baixa relativa. Acredita-se que essa variação climática tenha causado uma extinção global, no Mioceno médio. Uma grande consequência, foi a alta taxa de perda de ecossistema de florestas tropicais, que se estendiam pelo planeta. Uma das áreas afetadas foi a região australiana, que hoje apresenta um ecossistema mais seco.

Os registros que se tinha sobre a floresta australiana pré -histórica, ao qual foi substituída por uma região aridificada, eram bastantes escassas, de modo que faltava informações para se compreender a antiga natureza desse ambiente. Porém, graças à descoberta de N. McGrath, que encontrou vários fósseis de diferentes grupos biológicos, no centro de Nova Gales do sul, e devido ao ótimo estado de preservação do “McGraths Flat” (nome dado ao sítio dos fósseis, em homenagem ao seu descobridor ) é possível entender a natureza da Austrália antes de ser substituída por desertos e arbustos.

O depósito sedimentar encontrado, apresenta uma ampla diversidade de microfósseis, insetos, plantas, aranhas e restos de vertebrados, além disso têm a preservação de tecidos moles de diferentes plantas e animais. Através deles é possível observar como as espécies encontradas na região da Austrália moderna sofreram uma grande alteração, ou seja, mais adaptadas ao ambiente atual.

O depósito de preservação desse sítio fóssil traz informações bastante precisas da história de formação desse ambiente passado. A presença de arenito que juntamente com sedimentos de diferentes tamanhos, dá indício de um certo corpo d’água que tinha uma intensidade de fluxo mais lenta, e que pode ter sido substituído por um canal que possuía afluente de água com maior intensidade. Com a ajuda dos fósseis encontrados a conclusão é que o local se refere a uma pequena região de um lago marginal. O que explica essa afirmação é o fato de ter fósseis de peixes de tamanho médio. Outro fator curioso é em relação ao número de insetos, ao qual sugere que esse ambiente de lago estava isolado, ou seja, os predadores aquático ficavam retidos em alguma outra área, pois temos uma alta taxa de mosquitos fantasmas imaturos (do gênero Chaoborus, pertncente à família Chaoboridae, do grupo dos Diptera), que na maioria das vezes são encontrados apenas quando as populações de predadores estão nulas ou pequenas.

Os pesquisadores verificaram ainda, que o elemento químico Ferro teve um papel importante na preservação dos fósseis, ligadas a finas camadas do mineral Goethita. Os elementos da fossilização, que envolveram os fósseis aparentemente já se iniciavam com os organismos ainda em vida!

Apesar do Mcgraths flast preservar uma flora que também trazem associações a ambientes mais seco, a maioria das folhas preservadas tem diversos fatores que fazem ligações diretas com o ambiente de florestas tropicais, desde o tamanho ao formato das folhas. Assim pode se dizer que essa floresta se encontrava próxima a outros habitats.

As mudanças climáticas é um pilar que afeta relativamente um ecossistema inteiro, capaz de transformar ambientes tropicais em lugares secos. Graças à descoberta desse sítio, evidencia-se essas mudanças do tempo geológico e entende-se como esses ambientes se alteravam no passado.

Artigo fonte: Matthew R. McCurry, David J. Cantrill, Patrick M. Smith, Robert Beattie Mary Dettmann, Victor Baranov, Charles Magee, Jacqueline MT Nguyen, Marnie A. Forster, Jack Hinde, Ross Pogson, Helen Wang, Christopher E. Marjo, Paulo Vasconcelos & Michael Frese. (2022). A Lagerstätte from Australia provides insight into the nature of Miocene mesic ecosystems. Science Advances, v. 8, n. 10. Doi: 10.1126/sciadv.abm1406 <Clique aqui para acessar o artigo fonte>

Fonte e legenda da imagem de capa: Na figura encontrada no artigo, a imagem mostra a importância de se ter a preservação de tecidos moles da flora, pois devido à sua fragilidade a sua preservação em ótimo estado tende a ser comprometida. Quando essa preservação excepcional acontece, se tem um grande embasamento de informações, sendo assim possível comparar cenários de diferentes tempos geológicos, de uma determinada região. As amostras de fósseis são relativamente similares com a de uma floresta tropical. Figura extraída do artigo fonte.

Fóssil de Pterossauro Brasileiro Indica Origem das Penas

17 de maio de 2022

Por: Lincoln Heringer

Animais gigantescos semelhantes a lagartos são as grandes estrelas do parque temático do clássico filme de Steven Spielberg, Jurassic Park, de 1993. As imagens do longa-metragem continuam a alimentar o imaginário popular de como seriam os dinossauros, animais que habitaram a terra durante a era mesozoica.

Descobertas feitas a partir da década de 90 revelam que muitos desses animais eram, na verdade, recobertos por penas, assim como seus parentes evolucionários, as aves. A presença de penas em pterossauros, porém, permanecia incerta. Algumas estruturas tegumentares encontradas em seus fósseis, chamadas de picnofibras, foram recentemente interpretadas como penas, mas sua homologia (origem à partir de um único ancestral, comum) com as penas modernas é controversa.

Em recente artigo publicado na revista Nature, foi reportado um fóssil de Tupandactylus imperator, pterossauro que habitou as terras do atual nordeste brasileiro há cerca de 115 milhões de anos, no Cretáceo Inicial, em que o tecido mole e as estruturas semelhantes a penas estavam muito bem preservadas. No estudo, foram analisadas por microscopia eletrônica estruturas elípticas chamadas melanossomas, organelas responsáveis pela síntese de melanina.

Até pouco tempo, tinham sido encontradas apenas penas de pterossauros com geometrias pouco diversas de melanossomas, indicando pouca variação de cor, sugerindo função única de termorregulação. O indivíduo do estudo, porém, apresentava melanossomas com grande variedade de geometrias em sua pele e penas. Essa característica só tinha sido observada em dinossauros do grupo Theropoda, o que inclui aves. A diversidade de cores podia ter a função de sinalização (rituais de acasalamento, por exemplo) como em pássaros modernos.

Os autores do estudo acreditam que essas características complexas muito semelhantes às dos terópodas pode refletir um provável cenário evolutivo profundo das penas que remonta a um antepassado avemetatarsaliano comum do Triássico Inicial a Médio. Entretanto, os autores não descartam a possibilidade de desenvolvimento independente dessas características em ambos os grupos.

Artigo fonte: Cincotta, A., Nicolaï, M., Campos, H.B.N. et al (2022). Pterosaur melanosomes support signalling functions for early feathers. Nature, vol. 604, p. 684-702. Doi: 10.1038/s41586-022-04622-3 <Clique aqui para acessar o artigo fonte>

Fonte e legenda da imagem de capa: Representação gráfica do pterossauro Tupandactylus cf. imperator. Figura extraída do artigo fonte. Ilustração de Julio Lacerda.

Ictiossauro: o réptil que se parece com o golfinho

17 de maio de 2022

Por: Izamara Martins Verteiro

Os ictiossauros eram répteis marinhos que se pareciam com os golfinhos atuais, em algumas características. Esses animais aquáticos viveram na Era Mesozoica, também conhecida como a Era dos Répteis. Entretanto, para os paleontólogos, a origem desse grupo ainda é ligeiramente enigmática. O que já se sabe é que esses répteis não podem ser considerados como dinossauros.

Eles tinham muitas características de sua forma em comum com os golfinhos. Tinham nadadeiras dorsais, seu corpo permitia uma maior hidrodinâmica devido sua forma em fuso. Também, eles precisavam vir regularmente à superfície para respirar.

Além disso, similarmente aos golfinhos, eles eram vivíparos, ou seja, o embrião desses animais se desenvolvia dentro do útero materno. Portanto, eles davam à luz a filhotes completamente formados, em vez de botar ovos como os demais répteis.

O tamanho dos ictiossauros podia variar de cerca de 1 a 15 metros de comprimento, tendo um globo ocular grande, até então considerado um dos maiores dentre os animais. Eles tinham pulmões, ou seja, respiravam o ar atmosférico. Acredita-se que esses predadores aquáticos tenham evoluído de uma população de répteis terrestres ancestrais, que se adaptaram à vida no ambiente aquático.

De acordo com pesquisadores, a maioria dos fósseis dos ictiossauros fósseis encontrados hoje foram preservados em calcários laminados. Grande parte desse grupo é encontrada no período geológico do Jurássico, com idade aproximada de 200 a 145 milhões de anos.

Artigo fonte: SGARBI, G. N. C.; BITTENCOURT, J.; MARINHO, T. da S. Répteis que um dia dominaram os mares. Terrae Didatica, Campinas, SP, v. 12, n. 1, p. 69–77, 2016. DOI: 10.20396/td.v12i1.8645966. <Clique aqui para acessar o artigo fonte>

Fonte e legenda da imagem de capa: Ilustração de um ictiossauro do gênero Platypterygius. Figura extraída do artigo fonte.

Tafonomia de Fósseis de Vertebrados da Megafauna Extinta

17 de maio de 2022

Por: Letícia Oliveira Diniz

O artigo sobre o qual escrevo hoje, busca demonstrar e descrever a tafonomia de fósseis de vertebrados extintos da Megafauna no Pleistoceno (uma época do período Quaternário), encontrados nas barrancas do arroio Chuí e compará-los aos fósseis achados ao longo da faixa litorânea do Rio Grande do Sul. Assim, os autores objetivaram produzir uma nova interpretação da sua posição estratigráfica, conforme estabelecido pelo modelo de deposição laguna-barreira de Villwock.

Nessa região específica, a planície costeira foi formada pela subida e descida do mar, as chamadas transgreções-regreções marinhas. Ao longo do Pleistoceno ocorreram alguns eventos glaciais e, a cada glaciação, o nível do mar regredia, deixando a planície costeira exposta. Por consequência, animais que habitavam regiões vizinhas passaram a ocupar essa área. Posteriormente, ocorreram subidas e descidas do nível do mar que, intercaladas, formaram barreiras de areias aprisionando corpos lagunares adjacentes, localizados em uma região mais baixa, entre a barreira e os terrenos interiorizados. Tornando, assim, esses depósitos lagunares um local propício para preservação dos fósseis.

Nas barrancas do arrio Chuí foram encontrados e descritos alguns fósseis levando em consideração se estavam articulados ou desarticulados, sua taxonomia, grau de preservação e qual camada estratigráfica estariam associados. Após levantamentos estratigráficos feitos nas barrancas, quatro camadas mostraram-se bem visíveis: na primeira, entre 3,5 e 4,5 metros de profundidade, foram encontrados moldes de moluscos, o que sugere origem em zona de praia intermaré; na segunda, entre 3,5 e 2,5 metros da superfície, tem o aumento na relação lama-areia e apresenta fósseis de mamíferos da Megafauna, cuja a idade é estimada em 120 mil anos; na terceira e quarta camadas não são encontrados fósseis, apenas marcas de raízes e acumulo de matéria orgânica.

Na atualidade, o nível do arroio Chuí apresenta algumas variações durante o ano, principalmente em abril e agosto, quando o nível da água sobe, erodindo as margens e deixando os fósseis à mostra. Por via de regra, são encontrados desarticulados, pela decomposição das partes moles, ação de necrófagos, perturbação dos solos ou agentes físicos, apresentando traços evidentes de transporte. Porém, no arroio Chuí os fósseis foram depositados em sistemas lagunares durante o Pleistoceno superior e as características apresentadas nos sedimentos, demostram um ambiente deposicional com baixa dinâmica, insuficiente para transportá-los a longas distâncias. Assim, quando depositados ao longo dos cursos d’água e cobertos por sedimentos, tornaram-se grandes candidatos a preservação. E a partir dessas características, esses locais poderiam ser meandros de rios, deltas intra-lagunares, onde a água deixa de ser o agente transportador.

Finalmente, os fósseis que apareceram na praia foram originalmente depositados no sistema lagunar continental, com um grau de retrabalhamento muito maior que do arroio, sendo transportados por correntes marítimas e ondas, depositados em ambiente marinho raso, com alta dinâmica. Hoje, encontrados nas praias juntamente com fósseis de origem marinha.

Artigo fonte: Renato Pereira Lopes, Francisco Sekiguchi Buchmann, Felipe Caron, Maria Elizabeth Itusarry, 2002. Tafonomia de Fósseis de Vertebrados (Megafauna Extinta) Encontrados nas Barrancas do Arroio Chuí e Linha de Costa, Rio Grande do Sul, Brasil. Pesquisas em Geociências, 28 (2): 67-73. Doi: 10.22456/1807-9806.20269 <Clique aqui para acessar o artigo fonte>

Fonte e legenda da imagem de capa: Mandíbula achada in situ nas barrancas do arroio Chuí, onde a parte exposta do fóssil é a parte inferior da mandíbula. Figura extraída do artigo fonte.

Tafonomia em cavernas brasileiras, com destaque em Minas Gerais

16 de maio de 2022

Por: Thaís B C

Minas Geais é o estado brasileiro que mais se destaca quando o assunto é tafonomia em cavidades naturais, um grande exemplo é o carste, em Lagoa Santa. Outros estados, como: Bahia, Piauí, Tocantins e São Paulo também possuem destaque. Durante muito tempo houve uma predominância do estudo tafonômico visando megamamíferos e restos fósseis de grandes animais. Porém, a partir de 2001, houve um aumento do estudo que envolve pequenos vertebrados, répteis e marsupiais. E o que se destaca nesse estudo são: o modo de entrada do fóssil na caverna, a ação das águas nesse transporte, o estado de fossilização e o grau de fragmentação dos ossos.

Figura 1: Estudo tafonômico em cavernas nos estados brasileiros, ao longo dos anos. (Extraída do artigo fonte.)

As cavernas brasileiras sofrem diferentes processos de deposição sedimentar, para isso é importante estudar a morfologia da caverna e a disposição dos fósseis. Caso um fragmento fossilizado seja encontrado, deve-se levar em conta todas essas características, para que ocorra o mínimo de erro possível na hora da identificação.

Grande parte dos fósseis da caverna do carste, em Lagoa Santa (MG), estão preservados em solos carbonatados. É necessária uma extração correta do material para que haja o mínimo de danificação possível, visto que, os solos carbonatados possuem alto grau de dureza, tornando-se os mais difíceis jazigos cavernícolas. Para a retirada do material em campo: demarca-se pontos físicos nas paredes, para então fazer a retirada com a caneta pneumática, martelo e pincéis. Já em laboratório é necessário apontar o azimute e a profundidade onde cada elemento ocorre, no bloco carbonático extraído, para isso utiliza-se uma trena e um transferidor. O trabalho é lento, para que nenhuma parte importante seja perdida.

Um dos pioneiros no estudo de tafonomia em cavernas brasileiras foi Peter Lund (1801-1880). Esse naturalista dinamarquês trabalhou em grutas calcárias mineiras, como no cartes de Lagoa Santa – MG. Seu objetivo era estudar a taxonomia, porém após várias observações notou-se que agentes biológicos, físicos e químicos são capazes de causar modificações impressas nos ossos. Percebeu também que enxurradas contribuem para retrabalhamento e fragmentação dos fósseis preservados.

Em 1842, Lund encontrou, na gruta de Sumidouro (Lagoa Santa – MG) restos de fósseis humanos associados a mega fauna extinta. Foram encontrados restos de 30 indivíduos, em bom estado de preservação, porém sem conseguir apresentar resultados conclusivos sobre a ocorrência simultânia dos restos humanos e da megafauna extinta.

Na década de 1930 a 1960 foram realizadas novas escavações na região, e em Lagoa Funda (Pedro Leopoldo – MG) foram encontrados anta, tatu gigante, lhama, tartarugas e 2 ursos, em diferentes níveis estratigráficos. Já na região de Lapa de Confins (Confins – MG) foram descobertos restos humanos junto com restos da megafauna. Porém, percebendo diferentes entradas na gruta, uma hipótese foi formulada: os restos humanos foram carregados pela água através de uma das entradas e misturou-se com a da megafauna, que já se encontrava no interior da caverna, comprovando que foram depositados em eventos distintos. Sendo assim, para a região, a dúvida ainda permanece, se os humanos mais antigos teriam ou não convivido com essa fauna, hoje extinta.

Artigo fonte: Vasconcelos A.G., Kraemer B.M., Meyer K.E.B. 2018. Tafonomia em cavernas brasileiras: histórico e método de coleta de fósseis preservados em solo carbonatado. Terræ Didatica, 14(1):49-68. DOI: 10.20396/td.v14i1.8652042 <Clique aqui para acessar o artigo fonte>

Fonte e legenda da imagem de capa: Diferentes tipos de preservação dos fósseis, que podem ser encontrados no interior de cavernas. (A) restos de preguiça extinta soltas sobre o piso da caverna, (B) restos fossilizados de morcego aderido à calcita, e (C) sequência parcialmente articulada de pequenas vértebras em paleopiso da caverna. Figura extraída do artigo fonte.

Estudo propõe a associação entre traços fossilíferos e fácies metamórficas do norte de Minas Gerais

16 de maio de 2022

Por: Gabriela de Oliveira Borges

Uma análise recente de um mapeamento feito pela CPRM – Serviços Geológicos do Brasil sugere a existência de traços de fósseis de organismos complexos no município de Ibiracatu, no norte de Minas Gerais. Esses fósseis são, provavelmente, de organismos como artrópodes e poliquetas e foram encontrados em depósitos de turbiditos (depósitos formados por fluxos de água carregados de sedimentos), pertencentes a Formação Serra da Saudade, que é composta majoritariamente por rochas pelíticas (rochas clásticas de grãos finos), de idade Neoproterozoica ou Cambriana.

A área compreendida neste estudo inclui as rochas sedimentares pelítico-carbonáticas pertencentes principalmente aos grupos Bambuí e Santa Fé, que estão localizados na Bacia do São Francisco, composta por diversas outras supersequências cuja estratigrafia encontra-se especialmente no Neoproterozoico.

O trabalho foi realizado com base em três etapas: a primeira consistiu em uma campanha de mapeamento feita pela empresa de Serviços Geológicos do Brasil – CPRM, em que foram coletadas sete amostras com registros fósseis bem preservados. A segunda etapa foi uma revisão bibliográfica dos aspectos geológicos da região investigada, no intuito de compreender os métodos a serem utilizados na pesquisa. A terceira e última etapa consistiu em uma sessão de fotos das amostras e tratamento das imagens, de modo a destacar as estruturas sedimentares e traços fósseis identificadas.

Através da morfologia, ou seja, a aparência externa dos traços encontrados nas amostras analisadas, foi possível estabelecer uma classificação taxonômica (baseada nos grupos de organismos) e compará-los com análises de icnofósseis, e, dessa maneira, identificá-los oito agrupamentos icnofossilíferos, que incluem Aulichnites, Diplichnites, Dirmorphicnus, Quadrifidus, Sagittichnus, Gordia, Rusophycos, além de três icnofósseis que não puderam ser identificados e um molde externo de trilobita.

Além desses icnofósseis, também foram identificados determinados níveis de bioturbação (processo de alteração fisico-química do solo a partir da ação biológica) no topo dos arenitos e em alguns siltitos, além de uma assembleia icnofossilífera proveniente da Icnofácies Cruziana – região que representa a combinação de uma fácie sedimentar com traços de fósseis, que está relacionada a uma zona oceânica mais rasa. As fácies sedimentares, ou seja, o conjunto de características das rochas sedimentares da área analisada se agrupam, o que significa que essa seção é um registro de depósitos marinhos associados a fluxos de água, como os turbiditos.

Este estudo associa os icnofósseis e as fácies sedimentares, a fim de tentar estabelecer uma possível correlação dos traços fossíliferos com três formações pertencentes aos grupos Bambuí e Santa Fé, sendo elas: formações Serra da Saudades, Três Marias e Floresta. No entanto, é importante lembrar que o trabalho possui limitações e, nesse sentido, torna-se difícil identificar a qual unidade litoestratigráfica pertencem os traços fósseis identificados.

Artigo fonte: COSTA, Maria Laura Couto. Traços fósseis da sucessão turbidítica da região de Ibiracatu, Minas Gerais. 2021. 79 f. Monografia (Graduação em Engenharia Geológica) – Escola de Minas, Universidade Federal de Ouro Preto, Ouro Preto, 2021. <Clique aqui para acessar a monografia>

Fonte e legenda da imagem de capa: Amostras retiradas do estudo com vestígios biológicos (traços de artrópodes). Figura extraída do texto fonte.

Descoberta de pesquisadores pode indicar que a origem da vida na Terra aconteceu milhões de anos antes do que previamente pensado

15 de maio de 2022

Por: Lucas Vieira Carvalho Souza

Uma das grandes questões que circundam a mente humana e provavelmente circundou durante grande parte de nossa existência é relativo à origem da vida em nosso planeta: Quando tivemos a primeira indicação de que a matéria não viva se transformou em um organismo vivo em um passado distante? Essa dúvida é sanada com base na procura e registro de fósseis, os quais devem estar contidos em rochas muito, mas muito antigas.

Convencionalmente, o registro mais antigo é de mais ou menos de 3,5 bilhões de anos atrás, no éon Arqueano, e consiste em fósseis sedimentares encontrados na Austrália de organismos unicelulares organizados em colônias com formas de linhas.

Contudo, uma descoberta recente no Canadá feita por pesquisadores pode indicar que a origem da vida em si aconteceu antes do que achávamos, podendo ter acontecido há 3,75 e 4,28 bilhões de anos atrás, já no éon Hadeano, que é o éon (intervalo de tempo geológico) mais antigo da escala de tempo geológico. Essa nova data estipulada consiste em apenas 300 milhões após a formação do planeta Terra, sugerindo o desenvolvimento biológico bem rápido, em conjunto com a paisagem geológica primordial.

Os resultados desse trabalho científico iniciaram quando esses pesquisadores coletaram algumas amostras de rochas das mais antigas da Terra e descobriram nessas amostras esferas, filamentos, ramificações e outras estruturas microscópicas que se assemelham muito àquelas deixadas por alguma atividade microbiana.

Ainda assim, não se pode descartar a possibilidade de que essas estruturas sejam resultado de algum metamorfismo da rocha ou alguma intrusão de algum líquido, mesmo que menos provável. Nesse caso, essa descoberta ainda fornece características que podem ser interpretadas como de “quase vida” ou prébiotica, indicando um marco importante da origem biológica dos fósseis.

Artigo fonte: Dominic Papineau, Zhenbing She, Matthew S. Dodd, Francesco Iacoviello, John F. Slack, Erik Hauri, Paul Shearing e Crispin T. S. Little. (2022). Metabolically diverse primordial microbial communities in Earth’s oldest seafloor-hydrothermal jasper. Science Advances, v. 8, n. 15. DOI: 10.1126/sciadv.abm2296 <Clique aqui para acessar o artigo fonte>

Fonte e legenda da imagem de capa: (A – F) Imagens de microscópio e ilustração microscópica de amostras de rocha com estruturas que se assemelham à atividade microbiana ancestral. (G) Pequeno gráfico o qual consiste de uma análise do tamanho das estruturas observadas. Figura extraída do artigo fonte.

Ovo fóssil de crocodilo é encontrado no Piauí

14 de maio de 2022

Por: Isabela Magalhães

No artigo é reportado que um ovo fóssil de crocodilo, coletado em 2015, no Sítio Pé da Serra do Félix, no município de Simões, Sudeste do Piauí. Porém os resultados do estudo só foram divulgados em 2020 e finalmente publicados em um artigo científico em 2022. Atualmente, esse ovo fóssil se encontra depositado na coleção paleontológica do Museu Dom José (Sobral, Ceará).

Este é primeiro ovo amniótico (ovos dotados de quatro membranas extraembrionárias) para os sedimentos da Formação Romualdo, localizada na Chapada do Araripe. O material estudado corresponde a um único ovo preservado no interior de uma concreção carbonática (massa dura e compacta de matéria formada pela precipitação de cimento mineral), referente a um crocodilo, pertencente ao grupo Crocodylomorpha.

De acordo com os autores o diâmetro desse ovo fóssil é menor quando comparado entre outros ovos já encontrados. Além disso, sua casca possui uma espessura considerada grossa, especialmente quando comparada a outros ovos fósseis relatados para o Brasil. Estudos feitos por tomografia, revelaram estruturas básicas de um embrião dentro do ovo, podendo se tratar do primeiro ovo fóssil no mundo com vestígios embrionários de Crocodylomorpha.

Encontrar espécimes de ovos fósseis é muito raro e quando encontrados são apenas fragmentos de cascas ou espécimes bastante danificados, pois são provenientes de materiais muito frágeis. Este tipo de espécime traz um potencial informativo muito grande. Os ovos, cascas, ninhos e restos embrionários fossilizados, trazem algumas questões relativas à reprodução de espécies já extintas, assim como os aspectos evolutivos, tafonômicos, composicionais, paleoambientais, paleoclimáticos, paleobiológicos e paleogeográficos.

Artigo fonte: Abreu, D., Oliveira, P. V., Viana, M. S. S. (2022). Um ovo fóssil no Piauí. Revista da Academia de Ciências do Piauí, v. 3, n. 3, p.320 – 335. <Clique aqui para acessar o artigo fonte>

Fonte e legenda da imagem de capa: A imagem disponibilizada no artigo, é dos dois lados da concreção com o ovo fossilizado, encontrada no Piauí. Figura extraída do artigo fonte.

O estudo paleontológico dos Ostracodes ao longo do tempo

13 de maio de 2022

Por: Maria Fernanda Magalhães

A Micropaleontologia é a ciência responsável pelo estudo de fósseis muito pequenos, ou seja, de restos ou vestígios de organismos de dimensões relativamente pequenas, que foram preservados em rochas com o passar dos anos.

Com o avanço das tecnologias, diversas metodologias de estudo foram sendo desenvolvidas e aperfeiçoadas, principalmente com o uso de microscópios mais eficientes, ampliando a rede de pesquisa no ramo de microfósseis. Dentre as diversas áreas de pesquisa, tem-se uma direcionada ao estudo do grupo dos Crustáceos Maxilópodes, mais conhecidos como Ostracodes, que é o que vamos falar mais sobre nesse texto.

Os Ostracodes são artrópodes bivalves, envolvidos por uma carapaça que não apresentam linhas de crescimento. Por mais que sejam pequenos, com cerca de 0,4 a 1,0 milímetros, as espécies deste grupo podem ser encontradas em diversos habitats, tanto de água doce, quanto de água salgada. A Ostracodologia foi apenas inserida no contexto de pesquisa paleontológica em 1830 pelo paleontólogo alemão Georg Graf von Münster, que começou a descrever as formas fósseis deste grupo.

O paleontólogo teve como foco a análise das carapaças desses animais uma vez que, por serem constituídas por quitina e carbonato de cálcio, são partes geralmente fossilizadas e preservadas.
Com o passar do tempo, mais estudos foram direcionados a essa área. Após a Primeira Guerra Mundial, o aumento da demanda de Petróleo fez com que as buscas por novas reservas fossem descobertas. Dessa forma, era fundamental a realização de um mapeamento geológico detalhado em diferentes locais, fazendo com que pesquisas micropaleontológicas se ampliassem, principalmente em relação aos Ostracodes.

Contudo, as diferenças de nomenclatura e a falta de padronização entre os estudos paleontológicos publicados acerca dos Ostracodes ainda era um empecilho para uniformização de informações. Essa problemática só foi alterada quando, em 1951, O.F. Müller direcionou suas pesquisas à descrição completa de um tipo de Ostracode atual, dos pontos de vista morfológicos, ontogenéticos, fisiológicos e da composição da carapaça desses organismos.

A partir disso, foi possível estabelecer um sólido patamar na Ostracodologia, uma vez que aumentaram as proposições acerca das regiões biostratigráficas em que foram localizados fósseis de Ostracodes. Dentre esses locais, têm-se rochas desprovidas de foraminíferos (um grupo de Protistas) e em seções paleogênicas (há 65 ou 53 milhões de anos) e neogênicas (há 23 milhões até o Pleistoceno).

Em 1958, com o objetivo de integrar mais ainda os conhecimentos, foi elaborado um manual técnico de Micropaleontologia, que incluía diversas informações sobre Ostrocodes e em relação ao uso combinado da morfologia externa e interna que permitiam melhor sua identificação e estudo do ponto de vista fóssil.
Por fim, atualmente, com o desenvolvimento de recursos tecnológicos que permitem uma melhor visualização desses microrganismos, bem como de seus microfósseis, há uma maior precisão de informações sobre o grupo dos Ostracodes e seus estudos podem ser realizados de maneira mais objetiva, padronizada e precisa.

Artigo fonte: Bergue C. T. 2010. Agulhas e pincéis: as relações entre a paleontologia e a neontologia no estudo dos ostracodes (Crustacea: Ostracoda). Terræ Didatica, n. 6, v. 1, pp. 9-24. <Clique aqui para acessar o artigo fonte>

Fonte e legenda da imagem de capa: Ostracode com comprimento que varia de 0,1mm a 32mm. Autoria de Anna33, extraída do site commons.wikimedia.org <link>

A lei, os fósseis e a necessidade de uma mudança!

15 de maio de 2022

Por: João Lucas Melo Carneiro

Tem-se como definição de fóssil todo registro orgânico registrado desde o surgimento da vida há 3,8 bilhões de anos atrás e preservados de alguma forma há até 11 mil anos atrás — ou sem limite de idade no caso de organismos extintos. Os fósseis brasileiros são dados como muito importantes em um contexto mundial, principalmente no que se trata dos fósseis da Bacia sedimentar do Araripe. Dito isso, é de muita importância que hajam mecanismos legais de proteção a este patrimônio cultural, buscando ao máximo sua preservação enquanto ainda estão acessíveis à sociedade e à comunidade científica.

Através do artigo 216 da Constituição Federal de 1988, há a previsão no inciso V de que os fósseis de fato são um patrimônio cultural brasileiro. Isso significa de maneira sucinta que há uma valorização jurídica no que diz respeito aos fósseis. Porém, ao contrário do que se espera dada essa consideração, não há regulamentação adequada que de fato proteja e preserve os fósseis.

De forma legal, os fósseis, em teoria, só poderiam ser retirados por uma gama restrita de pessoas diretamente relacionadas à ciência ou autorizados previamente por órgãos governamentais da área da mineração. Vale ressaltar que não é permitido de forma alguma a extração fossilífera para fins econômicos, apenas para fins científicos ou didáticos e, portanto, devem ser entregues a instituições científicas. Apesar dessas restrições, não há previsão de nenhuma punição a quem infringir essas determinações, o que é uma falha enorme na regulamentação. Além disso, o próprio setor minerário que tem gerência sobre os fósseis são um dos maiores propulsores da destruição de bens paleontológicos.

Fatos que comprovam a ineficiência do estado em proteger o patrimônio fossilífero são dados alarmantes que indicam que cerca de 57% dos holótipos (material importante para definição de novas espécies) estão fora do país e que há dezenas de fósseis brasileiros ilegalmente comercializados, que vão parar em coleções particulares ou museus de países europeus, asiáticos ou nos EUA. Essa “paleopirataria” dos fósseis brasileiros estende ao universo virtual e é comumente observada em plataformas de vendas online internacionais.

O Brasil, infelizmente, não apresenta estrutura para fiscalizar e monitorar essas infrações claras ou abusos cometidos especialmente pelo setor minerário. Dito isso, além da necessidade de uma regulamentação jurídica acerca do assunto há outras iniciativas como a criação de Geoparques, a Comissão Brasileira dos Sítios Geológicos e Paleobiológicos e a Declaração de Aracaju que tem como essência a preservação dessas áreas, colaborando com a preservação dos bens fósseis.

Essas iniciativas, apesar de terem seu valor, nem de longe são suficientes para protegerem o nosso patrimônio, por isso é importante trazer esse tema ao palco e dar conhecimento acerca da urgência desse problema aos nossos legisladores e principalmente a nossa sociedade que é a mais prejudicada, no final das contas. Assim, conhecida essa situação trágica e deplorável, há um apelo para que haja mudanças na legislação, para ontem!!! E que finalmente tenhamos o nosso patrimônio bem preservado e acessível à nossa população.

Artigo fonte: Paulo Victor de Oliveira, Maria Somália Sales Viana, Yana de Moura Gonçalves. (2022). Os fósseis além da paleontologia – uma questão jurídica. Revista da Academia de Ciências do Piauí, v.3, n.3, p.197–210. <Clique aqui para acessar o artigo fonte>

Fonte e legenda da imagem de capa: Um exemplo recente e que comprova a necessidade de uma legislação melhor é o caso do Ubirajara jubatus, um fóssil de dinossauro brasileiro que foi levado ilegalmente para a Alemanha e que promoveu uma campanha intensa para que ele fosse devolvido ao Brasil. Autoria de Luxquine, extraída do site commons.wikimedia.org <link>