Fósseis de bactérias ajudam a NASA a descobrir vida extraterrestre

22 de junho de 2022

Por: Henrique da Silva Vieira

A área científica responsável por estudar os fósseis de bactérias é a paleontologia bacteriana. Nessa área, estuda-se a forma, o tamanho e as condições em que o microrganismo vivia, por meio de características das rochas em que o ele foi encontrado. Além disso, a paleontologia bacteriana é importante para um ramo da ciência chamada astrobiologia, que visa detectar vida extraterrestre.

Desde a descoberta que as bactérias podem ser preservadas como fósseis em rochas, a NASA começou a estudar os materiais vindo do espaço, como por exemplo, os meteoritos. Com isso, a NASA segue em busca de fósseis de bactéria, pois isso evidenciaria a existência de vida extraterrestre. Um exemplo é um microrganismo encontrado no meteorito de Murchison, que caiu em 1969 na Tasmânia.

Você deve estar se perguntando: — “mas isso não pode ser uma contaminação que ocorre quando o meteorito cai na terra ou quando vão analisar ele”? A resposta é não! O que acontece é que, no processo de análise, são aplicados pelos pesquisadores protocolos rigorosos para evitar contaminação durante o preparo, manuseio e análise microscópica das amostras. Lembra daquele meteorito de Marte que os pesquisadores encontraram na Antártida em 1984, chamado por eles de ALH84001? Acredite se quiser, mas quando eles foram analisar as características químicas desse meteorito, eles encontraram uma substância química incomum muito semelhante às encontradas em bactérias. Essa substância é a magnetita, um mineral magnético que pode ser produzido por um grupo específico de bactérias. Essa magnetita é um bom marcador de presença de vida, pois se apresenta com uma aparência única, formando um “colar de pérolas” desse mineral. Isso torna essas estruturas inconfundíveis, uma vez que é muito diferente de magnetitas resultantes de processos não biológicos.

Todas essas descobertas fornecem grandes evidências da presença de atividade de um ser vivo nesse meteorito de Marte. Podendo sugerir que, no passado, pode sim ter tido vida bacteriana em Marte. Além disso, a paleontologia bacteriana, poderá auxiliar futuramente a NASA a encontrar nos materiais vindo do espaço a presença de novos microrganismos que evidenciam a presença de vida extraterrestre. Podendo encontrar indícios de vida não somente nos meteoritos vindos de marte, mas também de outros planetas do sistema solar que até então imaginamos não ter tido vida em nenhum momento.

Artigo fonte: ROZANOV, Alexei Yu et al. Bacterial paleontology for astrobiology. In: Instruments, Methods, and Missions for Astrobiology IV. SPIE, Proceedings of the International Symposium on Optical Science and Technology, 2002, v. 4495, p. 283-294. Doi: 10.1117/12.454765. <Clique aqui para acessar o artigo fonte>

Fonte e legenda da imagem de capa: Logo da NASA. Autoria de NASA (Dan Gauthier). Extraída do site commons.wikimedia.org <link>.

Os primeiros ovos de dinossauro eram macios?*

22 de junho de 2022

Por: Isabela Lima de Miranda

*Texto publicado também no espaço biótico <confira aqui>

E se os ovos de dinossauros nem sempre foram rígidos como imaginávamos? Imagine se inicialmente esses ovos possuíssem casca mole, como os ovos das tartarugas, e não casca dura, como os ovos das aves? Foi no deserto de Gobi, Mongólia, e na região da Patagônia, Argentina, que o grupo de pesquisa do paleontólogo Mark A. Norell encontrou evidências fósseis que ajudaram a responder essas perguntas.

O ovo de casca calcificada é uma característica importante que define as aves modernas, tendo exercido um papel fundamental na reprodução e sobrevivência delas; tal arquitetura também é encontrada na maioria dos ovos de dinossauros encontrados e descritos. Porém, e se as hipóteses atuais, que assumem uma única origem do ovo calcificado dos dinossauros, como a das aves, estiverem equivocadas?

Na pesquisa liderada pelo paleontólogo Mark A. Norell, essas hipóteses são desafiadas. A partir da descoberta e análise dos ovos de casca mole, encontrados em ninhos de espécies fósseis muito distintas e muito distantes em relação à sua idade geológica e localização geográfica, o grupo pontuou que muitas linhagens podem sim ter botado ovo macio, e que o ovo rígido pode ter evoluído independentemente várias vezes dentro dos dinossauros.

No trabalho foi analisada uma ninhada com embriões excepcionalmente preservados, atribuída ao herbívoro da ordem Ornithischia Protoceratops, da região de Ukhaa Tolgod, localizado na Mongólia. Essa ninhada aparenta natureza maleável mesmo quando fossilizada, sugerindo uma composição orgânica não biomineralizada dos ovos.

Ovos com casca mole de Protoceratos. Imagem modificada do artigo fonte. Barra de escala igual a 5 cm.

A amostra do trabalho também incluiu ovos atribuídos ao saurópode basal Mussaurus da Formação Laguna Colorada, pertencente à ordem Saurischia e um dos primeiros dinossauros herbívoros de pescoço longo. A avaliação histológica desses ovos revelou semelhanças comparáveis às encontradas na ninhada de Protoceratops, sugerindo a presença da casca mole em ambos os casos analisados.

Ovo com casca mole de Mussaurus. Modificado do artigo fonte. Escala igual a 1 cm.

Usando os dados de biomineralização e propriedades mecânicas encontrados a partir das análises, o grupo executou uma reconstrução da filogenia e do estado ancestral dos ovos nos dinossauros. Dessa forma, foi descoberto que o primeiro ovo de dinossauro possuía casca mole; sendo que a casca de ovo calcificada (dura) evoluiu independentemente nas três principais linhagens de dinossauros. Essa ideia é validada também pelo registro fóssil irregular dos ovos calcificados, em termos de diversidade e idade, que só apareceram muito depois da origem do grupo.

Para concluir, a natureza mole e não biomineralizada de ambos os ovos analisados nas amostras fornece evidência direta para a teoria da evolução independente dos ovos calcificados em dinossauros. Portanto, essa descoberta dá uma nova visão sobre a biologia reprodutiva dos dinossauros, que aparenta ser mais primitiva do que pensávamos na sua origem.

Artigo fonte: Norell, M.A., Wiemann, J., Fabbri, M. et al. (2020). The first dinosaur egg was soft. Nature, v. 583, p. 406–410. Doi: 10.1038/s41586-020-2412-8. <Clique aqui para acessar o artigo fonte>

Fonte e legenda da imagem de capa: Ovo de dinossauro. Autoria de Gary Todd. Extraída do site commons.wikimedia.org <link>.

Câncer em um fóssil?*

24 de junho de 2022

Por: Carla Cristina Martins Silva

*Texto publicado também no espaço biótico <confira aqui>

É isso mesmo! Um artigo publicado recentemente, em 2021, trouxe evidências de um tumor da glândula pituitária em uma preguiça terrestre, pertencente à espécie Valgipes bucklandi. Mas como seria possível encontrar registros de um tumor de tal glândula, considerando que ela é composta por um tecido mole?

Devemos considerar que quando tratamos do processo de fossilização, normalmente as partes preservadas são os ossos, pois estes têm características que facilitam tal processo. Por este motivo, doenças que acometem estruturas ósseas já foram relatadas na literatura, como por exemplo, sinais de sobrecarga nas articulações e até mesmo casos de câncer. Segundo Barbosa et al, 2020, foi encontrado também em uma preguiça do quaternário, um osteossarcoma parosteal no fêmur direito, que é um tumor ósseo maligno. Este foi relatado como o primeiro câncer encontrado em um mamífero do quaternário, desconsiderando os seres humanos.

Porém, como identificar um câncer em um tecido mole não fossilizado? Esse achado se deu devido a pesquisas paleoneurológicas, que encontraram no local em que a glândula pituitária está alojada, chamado de sela túrcica, uma anomalia. Isso foi possível devido a reconstruções tridimensionais de preguiças da Era Cenozoica, do Período Quaternário, mais especificamente da Época Pleistoceno, e também a tomografia computadorizada do crânio.

Os fósseis foram encontrados no Brasil, em um local conhecido como Serra do Ramalho, no sudoeste da Bahia. Após os procedimentos citados acima serem realizados, algumas análises foram realizadas, sugerindo que a anomalia presente no crânio está ligada a um tumor hipofisário, que levou a um aumento da glândula pituitária, o que é considerado um processo paleopatológico.

É importante ressaltar que alguns processos tafonômicos podem afetar a preservação de um organismo, levando a alterações no fóssil. Porém, no artigo em questão, de Amaral et al., 2021, alguns processos foram discutidos e analisados, sendo ao final descartados, concluindo que realmente a irregularidade advém de um processo patológico, sendo provavelmente um tumor benigno.

O fato foi confirmado pois geralmente quando há o aumento da glândula devido ao tumor hipofisário, ocorre uma erosão óssea exercida pela pressão causada pelo tumor quando ele passa de 1 cm. Devido a isso, é visto a expansão da sela túrcica, como retratado pelo estudo.

Este foi o primeiro caso relatado de um tumor da glândula pituitária em uma preguiça terrestre, mas avanços na ciência contribuem para que cada vez mais estes achados estejam presentes na literatura, abrindo espaço para a reconstrução do passado da vida na terra através da paleontologia.

Artigo fonte: Amaral, R. V., Carvalho, L. B. D., Azevedo, S. A. K. D., & Delcourt, R. (2021). The first evidence of pituitary gland tumor in ground sloth Valgipes bucklandi Lund, 1839. The Anatomical Record, v. 305, n. 2, p. 1394–1401. DOI: 10.1002/ar.24786. <Clique aqui para acessar o artigo fonte>

Fonte complementar: Barbosa, Fernando H. de S.; Porpino, Kleberson de O.; Rothschild, Bruce M.; Silva, Rafael C. & Capone, Domenico. (2020). First cancer in an extinct Quaternary non-human mammal. Historical Biology, v. 33, n. 11, p. 2878 – 2882. DOI: 10.1080/08912963.2020.1833001. <Clique aqui para acessar o artigo complementar>

Fonte e legenda da imagem de capa: Reconstrução digital e tomografia computadorizada do crânio de Valgipes bucklandi, demostrando a glândula pituitária, apontada pela seta em (d), e a sela túrcica, disposta dentro da área retangular na imagem (e). Extraída do artigo fonte.

Como eram os répteis marinhos da era mesozoica e o mito do monstro do lago Ness

27 de junho de 2022

Por: Lowrany Alayde Ferreira Abrantes

A fauna mudou consideravelmente com os milhares de anos passados desde o início da vida na terra (há cerca de 3,8 bilhões de anos). De modo geral, os animais mais estudados já extintos são os dinossauros terrestres. Apesar disso, existiam muitos outros grupos de organismos como microrganismos (microfósseis), mamíferos e répteis marinhos (que serão o foco dessa divulgação). Vale notar que os constituintes desses grupos, nem sempre possuem representações de organismos similares a eles viventes atualmente.

O grupo dos ictiossauros pode ser “comparado” com golfinhos na aparência, possivelmente viveram entre o Triássico e o Cretáceo e são considerados animais marinhos gigantes, por poderem chegar até a 20 metros de comprimento. Possuem “sangue quente” e por isso são considerados homeotermos. São animais hidrodinâmicos, e segundo os registros fósseis possuem 6 nadadeiras. A respiração nesse caso é feita por pulmões com o uso de ar atmosférico e sabe-se que a alimentação desses animais era baseada principalmente em moluscos e peixes. Os fósseis encontrados indicam que eram animais vivíparos (nasciam como indivíduos jovens e já desenvolvidos). É um grupo com regisros fósseis encontrados em diversas partes do mundo.

Muito possivelmente você já ouviu falar da história do monstro do lago Ness, isso começou na Escócia retratando um monstro gigante que viveria nas profundezas de um enorme lago e já foi retratado em diversos meios. A história do monstro em si é muito antiga com relatos de aparições já no século VI. Seguindo a descrição do que seria esse enorme monstro, as características o aproximam bastante dos achados fósseis do que são os plesiossauros.

Os achados fósseis indicam que o grupo é considerado um réptil com características homeotérmicas, de pescoço muito longo (podendo ter até 71 vértebras cervicais) e que podem chegar a 15 metros de comprimento total. As nadadeiras eram semelhantes a remos, ajudando na locomoção do animal. Analisando aspectos dos dentes, mandíbula e maxilar pode-se inferir que esses animais históricos se alimentavam de peixes e moluscos. Achados fósseis de fêmeas grávidas sugerem que esses também eram animais vivíparos. O grupo viveu do período Triássico ao Cretáceo e também possui registros em diversas localidades do mundo.

Algumas evidências tornam complicada a existência do monstro citado. Entre elas, a enorme distância temporal do período que são encontrados os fósseis de plesiossauros com os tempos mais recentes, além de uma busca feita pela BBC e a Google no ano de 2003 nas águas do lago, que não encontraram nada parecido com a espécie.

O último grupo que será comentado aqui é o dos Mosassauros que também são répteis grandes (1 a 15 metros) que viviam no período do Cretáceo Superior. Possuem todas as adaptações necessárias à vida aquática como os outros répteis citados aqui (como nadadeiras e viviparidade). A pele desses animais possivelmente era recoberta por escamas e ossos dérmicos que favoreciam a hidrodinâmica e a capacidade de nadar. Como já foi mencionado nesse texto, há exemplos ainda de outros répteis da época, que fogem a “regra” dos dinossauros, como as tartarugas encontradas na bacia do Araripe, no Brasil, por exemplo. Mas isso será assunto para um próximo texto.

Artigo fonte: Sgarbi, G. N. C.; Bittencourt, J.; Marinho, T. S. Répteis que um dia dominaram os mares. Terrae Didatica, v. 12, n. 1, p. 69–77, 2016. DOI: 10.20396/td.v12i1.8645966 <Clique aqui para acessar o artigo fonte>

Fonte e legenda da imagem de capa: Ilustração morfológica de um ictiossauro. Autoria de Heinrich Harder, extraída do site commons.wikimedia.org <link>.

O Embate de Big John*

24 de junho de 2022

Por: Israel Munck

*Texto publicado também no espaço biótico <confira aqui>

Triceratops eram dinossauros “não-avianos” do final do Cretáceo, que se distinguiam pela presença de um grande folho — uma hiperexpansão de ossos, formando um longo escudo na testa destes animais. Além disso, também possuem dois chifres acima dos olhos e outro na ponta do nariz. A provável função inicial do folho, era de exibição visual e de reconhecimento de espécies. Com a evolução, esses elementos passaram a ter função de proteção e utilização em combates durante disputas entre indivíduos da mesma espécie.

Big John é o nome dado a um exemplar fóssil de um espécime de Triceratops horridu. Nele é possível encontrar uma fenestra que perfura completamente o osso na parte direita do folho. Fenestras semelhantes tem sido encontradas em diversos Triceratops relacionados. Com isso, duas hipóteses têm sido levantadas para explicar a presença desse “buraco”. A primeira hipótese, propõe que a fenestra está relacionada com a ocorrência de traumas, ou seja, lesões que podem ter sido causadas por predadores, ou mesmo por disputas entre esses animais. A segunda, prevê que a fenestra é o resultado de reabsorção ou remoção de uma parte que não seria utilizada pelo animal, ou um sinal de envelhecimento.

Foram realizadas análises de fragmentos retirados da fenestra através de microscópios e observações para realização de um diagnóstico . O formato da fenestra é de um buraco de fechadura, onde na parte interior foi encontrado osso reativo, característico de inflamação. Foram observadas também estruturas de reabsorção óssea e alta vascularização. Na região próxima à lesão foi encontrada abundância de enxofre, diferente do resto do folho, que é característica de um tecido ósseo que está em processo de mineralização.

Como resultado dessas análises, é possível deduzir que a fenestra era constituída de tecido ativo remodelador, que indica uma origem traumática, e na morte de Big John este tecido estaria em cicatrização. A lesão foi possivelmente causada por outro Triceratops, o formato de fechadura indica que o golpe que feriu Big John tenha sido infligido por trás, sendo penetrado no folho e deslizando em direção ao rosto.

Big John aparentemente sobreviveu após o embate por algum tempo, comparando o tempo de cicatrização de répteis modernos, tendo em consciência o tamanho do ferimento e o estado de cicatrização, é possível inferir que Big John sobreviveu ao menos 6 meses após seu confronto.

Com isso, analisando as informações do artigo é possível concluir que, Triceratops realmente não tinham uma vida fácil durante o final do Cretáceo, uma vez que além de interagir com grandes predadores como o Tyrannosaurus, esses animais ainda tinham que lidar com embates violentos, com espécimes semelhantes.

Artigo fonte: D’ANASTASIO, Ruggero; CILLI, Jacopo; BACCHIA, Flavio; FANTI, Federico; GOBBO, Giacomo; CAPASSO, Luigi. (2022). Histological and chemical diagnosis of a combat lesion in Triceratops. Scientific Reports, v. 12, n. 3941. http://dx.doi.org/10.1038/s41598-022-08033-2. <Clique aqui para acessar o artigo fonte>

Fonte e legenda da imagem de capa: Triceratops horridus (esquerda), Torosaurus latus (direita). Autoria de Nobu Tamura, extraída do site fr.vikidia.org <link>.

Fóssil de inseto voador raro é achado no Ceara*

17 de junho de 2022

Por: Graziele Estefânia Zeferino Freitas

*Texto publicado também no espaço biótico <confira aqui>

Um fóssil de um inseto do grupos dos efêmeros foi encontrado por pesquisadores, na Formação geológica Crato, na Bacia do Araripe, no Ceará. Entre as efêmeras fósseis, existe um grupo chamado de Oligoneurídeos, que são considerados raros. O indivíduo encontrado e apresentado pela pesquisadora Arianny Storari e colaboradores foi descrito como um novo gênero e espécie. As efêmeras são insetos de vida curta, podendo viver por minutos apenas, durante sua fase adulta.

O artigo com a descoberta foi publicado na revista científica Plos One, e foi realizado por pesquisadores da Universidade Federal do Espírito Santo, em parceria com a Universidade Regional do Cariri (Urca).

O inseto em questão é da família Oligoneuriidae e o fóssil descoberto se trata do segundo adulto fossilizado encontrado para essa família. O espécime foi coletado em um afloramento da Formação Crato na Mina Antônio Finelon, no município de Nova Olinda, Estado do Ceará.

A nova espécie foi nomeada de Incogemina nubila e se trata do primeiro espécime a ser descrito detalhadamente, o que ajudou no conhecimento atual de efêmeros do Cretáceo Inferior, além de ser importante para preencher buracos na história evolutiva entre o Oligoneuriinae e o Chromarcys existente.

O Incogemina nubila possui veias nas asas que combina estados de caráter plesiomórfico (mais antigos) e apomórfico (mais recentes). Na perspectiva biogeográfica, eles demonstram que a divergência entre Oligoneuriinae e Incogemininae provavelmente ocorreu no que hoje é a América do Sul.

Esse achado representa um passo grande para novos estudos e descobertas sobre os efêmeros e provavelmente novos artigos serão publicados futuramente, trazendo mais conhecimento sobre o registro fóssil e a história evolutiva desse grupo de insetos.

Artigo fonte: Storari AP, Rodrigues T, Saraiva AAF, Salles FF. (2020). Unmasking a gap: A new oligoneuriid fossil (Ephemeroptera: Insecta) from the Crato Formation (upper Aptian), Araripe Basin, NE Brazil, with comments on Colocrus McCafferty. PLoS ONE, v. 15, n.10, pp. e0240365. Doi: 10.1371/journal.pone.0240365 <Clique aqui para acessar o artigo fonte>

Fonte e legenda da imagem de capa: A nova espécime Incogemina nubila. Extraída do artigo fonte.

Quando surgiram as Angiospermas? Pergunte aos insetos polinizadores!

24 de junho de 2022

Por: Clara Queiroz Rosa

A origem das Angiospermas, isto é, plantas com flores, ainda é relativamente obscura. Não se sabe ao certo quando ocorreu nem quais foram seus ancestrais diretos. No entanto, sua evolução pode estrar relacionada com o surgimento de insetos polinizadores, sendo estes pequenos animais fundamentais para o ciclo de vida destas plantas. Logo, o aparecimento de fósseis desses insetos pode nos dar uma pista da idade desse grupo de plantas que é o mais abundante na biosfera terrestre, atualmente.

A maioria dos insetos polinizadores extintos possuem registros fósseis que datam a partir do Cretáceo, período do qual também se iniciam os registros de angiospermas. Entre eles estão incluídos vários tipos de artrópodes conhecidos atualmente como besouros, mariposas, moscas, vespas e abelhas. Porém são poucos os registros com origem anterior ao Cretáceo, sendo conhecidos apenas algumas moscas e vespas parasitoides.

Dentre as moscas pré-Cretáceas, as da subordem Brachycera se incluíam no grupo dos visitantes de flores. Foram encontrados vários fósseis desse grupo em rochas sedimentares na China que datam do período Jurássico, ou seja, rochas que são alguns milhões de anos mais velhas que o início do Cretáceo. Tais fósseis compreendem espécies dos grupos Pangoniinae, Apioceridae e Nemestrinida (imagem de capa), organismos que podem ser importantes para entender quando surgiu a polinização.

Fósseis desses animais mostram que eles possuíam peças bucais com morfologia mais adaptada para alimentação em flores, ou pelo menos em estruturas similares a flores. Esses primeiros insetos polinizadores possuíam aparelhos bucais longos e tubulares, o que os ajudava a alcançar e sugar o néctar em flores longas e tubulares. Além disso, também foi notada a presença de algumas espécies de moscas com uma camada densa de pelos, similar ao que possuem as abelhas atuais para carregamento de pólen. Isso tudo os relaciona com a polinização e indica que algumas plantas da época já teriam desenvolvido tanto estruturas florais, quanto nectários.

As moscas Brachycera possuem seus representantes mais antigos datando do Jurássico Médio, sendo que final do Jurássico Superior ocorreu uma irradiação de espécies dessa subordem. Juntamente com essa irradiação, pode ser que a variedade de espécies de angiospermas presentes no ambiente também aumentou a partir do Jurássico Superior, podendo inferir que elas tenham sua origem ainda mais cedo, provavelmente no Jurássico Médio.

Em conclusão, somente porque há uma falta de registros fósseis de angiospermas que sejam mais antigos que o período Cretáceo não significa que elas não existissem até então. Isso pode ser argumentado estudando as relações ecológicas dos ambientes pré-históricos, como a relação planta-polinizador. Sendo assim, a existência das moscas citadas no Jurássico Superior é uma evidência direta da ocorrência de angiospermas com nectários no mesmo período, seguindo para o refinamento das relações mutualísticas com o passar do tempo.

Artigo fonte: Ren D. (1998). Flower-associated brachycera flies as fossil evidence for jurassic angiosperm origins. Science, v. 280, n. 5360, p. 85-88. Doi: 10.1126/science.280.5360.85 <Clique aqui para acessar o artigo fonte>

Fonte e legenda da imagem de capa: Protonemestrius jurassicus, um tipo de inseto polinizador do grupo Nemestrinida (A: desenho esquemático; B: foto do fóssil; C: aparelho bucal). Modificada do artigo fonte.

Você sabia que é possível descobrir qual cor tinham os dinossauros?

21 de junho de 2022

Por: Catarina N. Morais

*Texto publicado também no espaço biótico <confira aqui>

Claro, muito do que se vê por aí é feito por especulação, mas é possível sim descobrir a cor de um dinossauro!

Como já se sabe, alguns dinossauros tinham penas. E, ao estudar uma dessas espécies, o terópode Anchiornis huxleyi, encontrado em depósitos fossilíferos da província de Liaoning, na China, uma equipe de paleontólogos, liderada pelo pesquisador Jakob Vinther, encontrou uma maneira de inferir o padrão completo de coloração da plumagem desse indivíduo.

Mas primeiro, como saber a cor das penas? Em animais, a pigmentação se dá por células secretoras de pigmento, chamadas melanóforos, esses pigmentos são encapsulados numa organela chamada melanossoma. Então, caso esses melanossomas estejam bem preservados no fóssil, essas estruturas podem ser analisadas.

Elas são comparadas com melanossomas de outras espécies para que sejam descobertas as cores do pigmento correspondente àquele melanossoma. Diferentes cores pertencem a melanossomas com propriedades diferentes, características como densidade e proporção entre suas dimensões distinguem as pigmentações umas das outras. Por exemplo, no geral, os melanossomas que produzem pigmentos pretos ou cinzas são longos e estreitos, enquanto os que produzem pigmentos marrons ou vermelhos são curtos e largos.

Nesse caso, o espécime coletado estava bem completo e muito bem preservado. Todas as suas estruturas plumadas, desde o crânio aos membros anteriores e posteriores, possuíam melanossomas preservados. Dessa forma, foi possível traçar todo seu padrão de coloração de suas penas. Após comparar todas as amostras coletadas do fóssil com amostras de pássaros existentes foi possível chegar à coloração observada na paleoarte da imagem de capa, acima. A maior parte do corpo era coberta por melanossomas de coloração cinza e preta, na cabeça foram observadas manchas avermelhadas, penas acinzentadas alongadas na frente e nas laterais da crista parecem enquadrar uma coroa traseira mais longa e ruiva. Por fim, algumas áreas com pouca densidade de melanossomas foram consideradas despigmentadas.

O padrão de coloração do nosso terópode do final do cretáceo é muito similar ao de alguns pássaros atuais, como as galinhas hamburguesas. Já havia sido observado anteriormente diferenças entre regiões claras e escuras em plumagem de dinossauros, e agora foi possível observar um padrão bem mais complexo. Além disso, o formato das penas do Anchiornis huxleyi são todas relativamente similares, o que pode significar que a variação na coloração das penas precedeu a variação de formas delas.

Artigo fonte: Li, Quanguo, et al. Plumage Color Patterns of an Extinct Dinosaur. (2010). Science, vol. 327, n. 5971, pp. 1369–1372. Doi: 10.1126/science.1186290 <Clique aqui para acessar o artigo fonte>

Fonte e legenda da imagem de capa: Cor da plumagem do terópode jurássico Anchiornis huxleyi. Arte, por M. A. DiGiorgio. Extraída do artigo fonte.

Os Novos Dinossauros de São Paulo*

18 de junho de 2022

Por: Bruna Luiza Campos Jorge

*Texto publicado também no espaço biótico <confira aqui>

Os abelissaurídeos foram um grupo de dinossauros que viveu durante o período Cretáceo e estão entre os maiores predadores da América do Sul. Eram dinossauros carnívoros, bípedes, que provavelmente atingiam cerca de 7,4 metros de comprimento.

No estado de São Paulo, na Formação geológica Marília, no município de Monte Alto, e na Formação São José do Rio Preto, no município de Ibirá, foram encontrados fósseis de três dinossauros abelissaurídeos. Essa descoberta ampliou a lista de registros de dinossauros desenterrados das rochas do Grupo Bauru, bacia sedimentar que cobre uma grande área no Brasil, com afloramentos que se estendem até o Nordeste do Paraguai. Essa bacia de rochas é uma sucessão sedimentar do período Cretáceo que reflete ambientes não marinhos em mudança, como leques eólicos, lacustres, fluviais e aluviais.

Essa foi a primeira vez em que restos de ossos de abelissaurídeos foram encontrados na região. Foi possível identificar os ossos como sendo destes dinossauros a partir da análise de várias características específicas de estruturas do corpo como a fíbula e várias outras estruturas da pelve, como o , acetábulo, bota distal do púbis, trocânter, antitrocânter e quilha do ísquio, entre outros.

As descobertas feitas em Monte Alto e Ibirá mostram que durante o período Cretáceo Superior (entre 100,5 e 66 milhões de anos atrás, aproximadamente) os abelissaurídeos habitavam junto com outros dinossauros, como os maniraptores, megaraptores e possivelmente carcarodontossaurídeos. Além disso, podemos dizer também que os abelissaurídeos foram provavelmente os terópodes (grupo de dinossauros bípedes, geralmente carnívoros ou omnívoros) mais numerosos na Bacia de Bauru.

Artigo fonte: Méndez, A. H.; Novas, F. E. & Iori, F. V. (2014). New records of abelisauroid theropods from the Bauru Basin (Upper Cretaceous), São Paulo State, Brazil. Revista Brasileira de Paleontologia, vol. 17, n. 1, p. 23 – 32. DOI: 10.4072/rbp.2014.1.03. <Clique aqui para acessar o artigo fonte>

Fonte e legenda da imagem de capa: Modelo de abelissaurídeo, localizado no Museo Paleontológico de Castilla em La Mancha, na Espanha. Autoria de PePeEfe, extraída do site commons.wikemedia.org <link>

Um geoparque de dinossauros, em Minas Gerais

Paleontologia: geoturismo, educação ambiental e a popularização da ciência dos fósseis

17 de maio de 2022

Por: Tales de Castilho Lemos

Os dinossauros sempre foram motivo de fascinação e curiosidade. Quando ouvimos falar de Paleontologia quase sempre remetemos aos estudos de seus fósseis. No entanto, a Paleontologia abrange não apenas os dinossauros, mas todo estudo relacionado ao passado dos seres vivos e seu desenvolvimento no tempo geológico, possibilitando um maior conhecimento sobre a vida em nosso planeta.

A cidade de Uberaba, localizada no triângulo mineiro, compõe um dos maiores e mais importantes sítios paleontológicos do período Cretáceo no Brasil — período este o de maior ascensão dos dinossauros, mas também o que ocorreu sua extinção. No bairro de Peirópolis, em Uberaba, está localizado o Centro de Pesquisas Paleontológicas Llewellyn Ivor Price e Museu dos Dinossauros, referência no desenvolvimento de pesquisa, ensino, proteção e promoção do geoturismo da região.

Estima-se que as formações geológicas encontradas no município de Uberaba possuem idades entre 88 a 65 Milhões de anos. Seu conteúdo paleontológico é diverso, onde já foram encontrados ovos fossilizados e elementos ósseos de diversas espécies. A coleção do Centro de Pesquisas Paleontológicas L.I. Price e Museu dos Dinossauros conta com mais de 4.000 exemplares, dentre eles dinossauros, crocodilos, peixes, mamíferos e moluscos.

Um dos fósseis de maior relevância encontrado na região é do dinossauro saurópode, do grupo dos titanossauros, denominado Uberabatitan ribeiroi (imagem da capa). Identificado como um dos maiores dinossauros brasileiros e um dos últimos a serem extinguidos. Os sítios de Uberaba são responsáveis por 5 dos 21 tipos de dinossauros encontrados no país, concedendo à cidade o título de Terra dos Dinossauros.

Para incentivar o turismo, fortalecer a preservação e a disseminação dos conhecimentos paleontológicos, foi proposta a criação do Geoparque Uberaba, possibilitando uma melhor infraestrutura para pesquisas, proteção, desenvolvimento cultural e econômico da região.

Com isso, além dos programas e projetos educacionais que já se encontrão em desenvolvimento entre universidades parceiras e escolas do município, é de extrema importância a integração de toda população da região, que será diretamente afetada com a criação do Geoparque Uberaba. Sua aprovação possibilitará a geração de novos postos de trabalho, mas que dependem direta e indiretamente de um básico conhecimentos relacionados a Paleontologia da região.

Artigo fonte: Ribeiro, L.C.B.; Trevisol, A.; Carvalho, I.S.; Macedo Neto, F.M.; Martins, L.A.; Teixeira, V.P.A. (2012). Geoparque Uberaba – terra dos dinossauros do Brasil (MG). In: Geoparques do Brasil / Propostas, CPRM, volume I, p. 583 – 616. <Clique aqui para acessar o artigo fonte>

Fonte e legenda da imagem de capa: Fotointerpretação do ambiente de Uberaba no período Cretáceo e os dinossauros Uberabatitan ribeiroi. Figura extraída do artigo fonte. Arte de Rodolfo Nogueira.