Câncer em um fóssil?*

24 de junho de 2022

Por: Carla Cristina Martins Silva

*Texto publicado também no espaço biótico <confira aqui>

É isso mesmo! Um artigo publicado recentemente, em 2021, trouxe evidências de um tumor da glândula pituitária em uma preguiça terrestre, pertencente à espécie Valgipes bucklandi. Mas como seria possível encontrar registros de um tumor de tal glândula, considerando que ela é composta por um tecido mole?

Devemos considerar que quando tratamos do processo de fossilização, normalmente as partes preservadas são os ossos, pois estes têm características que facilitam tal processo. Por este motivo, doenças que acometem estruturas ósseas já foram relatadas na literatura, como por exemplo, sinais de sobrecarga nas articulações e até mesmo casos de câncer. Segundo Barbosa et al, 2020, foi encontrado também em uma preguiça do quaternário, um osteossarcoma parosteal no fêmur direito, que é um tumor ósseo maligno. Este foi relatado como o primeiro câncer encontrado em um mamífero do quaternário, desconsiderando os seres humanos.

Porém, como identificar um câncer em um tecido mole não fossilizado? Esse achado se deu devido a pesquisas paleoneurológicas, que encontraram no local em que a glândula pituitária está alojada, chamado de sela túrcica, uma anomalia. Isso foi possível devido a reconstruções tridimensionais de preguiças da Era Cenozoica, do Período Quaternário, mais especificamente da Época Pleistoceno, e também a tomografia computadorizada do crânio.

Os fósseis foram encontrados no Brasil, em um local conhecido como Serra do Ramalho, no sudoeste da Bahia. Após os procedimentos citados acima serem realizados, algumas análises foram realizadas, sugerindo que a anomalia presente no crânio está ligada a um tumor hipofisário, que levou a um aumento da glândula pituitária, o que é considerado um processo paleopatológico.

É importante ressaltar que alguns processos tafonômicos podem afetar a preservação de um organismo, levando a alterações no fóssil. Porém, no artigo em questão, de Amaral et al., 2021, alguns processos foram discutidos e analisados, sendo ao final descartados, concluindo que realmente a irregularidade advém de um processo patológico, sendo provavelmente um tumor benigno.

O fato foi confirmado pois geralmente quando há o aumento da glândula devido ao tumor hipofisário, ocorre uma erosão óssea exercida pela pressão causada pelo tumor quando ele passa de 1 cm. Devido a isso, é visto a expansão da sela túrcica, como retratado pelo estudo.

Este foi o primeiro caso relatado de um tumor da glândula pituitária em uma preguiça terrestre, mas avanços na ciência contribuem para que cada vez mais estes achados estejam presentes na literatura, abrindo espaço para a reconstrução do passado da vida na terra através da paleontologia.

Artigo fonte: Amaral, R. V., Carvalho, L. B. D., Azevedo, S. A. K. D., & Delcourt, R. (2021). The first evidence of pituitary gland tumor in ground sloth Valgipes bucklandi Lund, 1839. The Anatomical Record, v. 305, n. 2, p. 1394–1401. DOI: 10.1002/ar.24786. <Clique aqui para acessar o artigo fonte>

Fonte complementar: Barbosa, Fernando H. de S.; Porpino, Kleberson de O.; Rothschild, Bruce M.; Silva, Rafael C. & Capone, Domenico. (2020). First cancer in an extinct Quaternary non-human mammal. Historical Biology, v. 33, n. 11, p. 2878 – 2882. DOI: 10.1080/08912963.2020.1833001. <Clique aqui para acessar o artigo complementar>

Fonte e legenda da imagem de capa: Reconstrução digital e tomografia computadorizada do crânio de Valgipes bucklandi, demostrando a glândula pituitária, apontada pela seta em (d), e a sela túrcica, disposta dentro da área retangular na imagem (e). Extraída do artigo fonte.

Publicado por Alexandre Liparini

Mineiro, gaúcho, sergipano, e por que não, alemão? No caminho sempre a paleontologia como paixão e agora como profissão. Adora dar aulas e pesquisar sobre origens e evolução. Se esse for o tema, podem perguntar, por que não?

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