Uma nova velha formiga. Primeira Formicinae do Cretáceo encontrada em âmbar

21 de março de 2020

Por: Túlio Cotta Cardoso Gomes

Os pesquisadores, David Grimaldi e Donat Agosti, que trabalham na divisão de invertebrados do Museu Americano de História Natural, em Nova York descreveram uma nova espécie de formiga fóssil, da subfamília Formicinae. A peça de âmbar, em que a formiga foi fossilizada, foi coletada em Sayreville, Condado de Middlesex em Nova Jersey, em um afloramento de Lignito e Argila. A peça possuía uma tonalidade amarelo claro e, também apresentava pedaços de madeira, o que levou os pesquisadores a sugerirem que esta formiga foi fossilizada em um tronco de uma árvore.

Este é o primeiro achado de um espécime da Subfamília Formicinae no Cretáceo e a terceira espécie de Formicidae a ser encontrada neste mesmo período. A descoberta dessa formiga operária, indica que “As formicinaes proliferaram muito antes do Eoceno e permaneceram em grande parte desconhecidas no registro fóssil do Paleoceno e Cretáceo ou inexplicavelmente permaneceram componentes menores da fauna de insetos nos primeiros 40 – 50 milhões de anos de sua existência” como explicam os pesquisadores David Grimaldi e Donat Agosti.

Essa nova espécie encontrada foi descrita como Kyromyrma neffi. O gênero vem da palavra “kyero” que significa esclarecer, dando a ideia de que essa formiga ajuda a esclarecer a evolução dos Formicidaes. Enquanto o nome da espécie é uma homenagem a um parente do coletor da amostra, o Sr. Todd Neff, como contam os pesquisadores.

Para mais informações sobre esse novo espécime encontrado, leiam o artigo completo: A formicine in New Jersey Cretaceous amber (Hymenoptera: Formicidae) and early evolution of the ants de David Grimaldi e Donat Agosti, na revista Proceedings of the National Academy of Sciences de dezembro de 2000.

Artigo fonte: Grimaldi, D.; Agosti, D. (2000). A formicine in New Jersey Cretaceous amber (Hymenoptera: Formicidae) and early evolution of the ants. Proceedings of the National Academy of Sciences, v. 97, n. (2), p. 13678-13683. Doi: 10.1073/pnas.240452097 <Clique aqui para acessar o artigo fonte>

Fonte da imagem: Figura 1 do artigo fonte.

Fósseis de mamíferos encontrados em Alagoas – Indícios de análises químicas apontam períodos mais secos durante o Pleistoceno Final

Belo Horizonte, MG — 21 de março de 2020

Por: Samuel Rodrigues

Cientistas encontram fósseis de nove grupos diferentes de mamíferos pleistocênicos no Sítio Paleontológico Lagoa de Inhapi, localizado no município de Inhapi, Alagoas. A descrição desse material contribuiu para o maior levantamento de dados sobre a riqueza da região, assim como a sua distribuição geográfica. Além disso, as análises dos fragmentos ósseos possibilitaram afirmar que a região apresentava baixos índices pluviométricos.

Inhapi é um município do sertão alagoano, localizado a 263 Km de Maceió, e representa cerca de 1,35 % da área do estado. De acordo com os pesquisadores, o sítio paleontológico apresenta feição sedimentológica de um paleocanal fluvial, do qual foram coletados os espécimes. Esse material foi preparado e armazenado na Coleção de Paleovertebrados da Universidade Federal de Alagoas. A partir de fragmentos ósseos, esses cientistas fizeram a identificação de quantidade mineral relativa nas peças, a fim de qualificar as substituições dos fósseis.

A descrição do material permitiu a inferência de uma região aberta com aporte de água e alimentos abundantes, semelhante à savana atual. Mas a pequena substituição de hidroxiapatita no processo de fossilização indica o clima seco. Dessa forma, o resultado das análises, tanto químicas quanto morfológicas, demonstraram que o sertão possuía bioma do tipo savânico, visto que a paleofauna encontrada era, em sua maioria, herbívora.

O Sítio Paleontológico Lagoa do Inhapi é um grande abrigo fóssil com grande diversidade de paleofauna, a qual, a partir de estudos, corroborou com outras pesquisas que também indicaram uma região aberta semelhante à Savana, ou ao Cerrado brasileiro.

Artigo fonte: Nascimento, J.S.O.; Silva, J.L.L.; Asakura, Y. (2018). Fósseis de Mamíferos Pleistocênicos em Paleocanal Fluvial, Município de Inhapi, Alagoas. Estudos Geológicos, vol. 28, n. 1, p. 20-34. Doi: 10.18190/1980-8208 <Clique aqui para acessar o artigo fonte>

Fonte da imagem: Extraída da Figura 1 do artigo fonte.

Os gigantes dinossauros predadores com penas!

21 de março de 2020

Por: Gabriela de Araújo Pires Moreira

O tiranosaurídeo basal gigante Yutyrannus huali foi descrito em 2012 pelo paleontólogo chinês Xu Xing e seus colaboradores através de três espécimes encontrados na posse de um comerciante de fósseis, que alega terem sido encontrados na formação Yixian na província de Liaoning, na China. No entanto, o mais curioso nesse animal são as suas penas, que confirmaram a existência de espécies de tiranosaurídeos gigantes emplumados no Cretáceo Inferior, que está compreendido aproximadamente entre 145 milhões e 100 milhões e 500 mil anos atrás!

Os Y. huali foram caracterizados como tiranosaurídeos basais, por apresentarem três dedos nas patas dianteiras e serem bípedes, o que os caracteriza como terópodes, embora muitas das suas características cranianas sejam semelhantes às dos tiranosaurídeos derivados. Apesar de tiranosaurídeos basais serem relativamente pequenos, e a imensa maioria dos seus gigantes serem do Cretáceo Superior, a descoberta do Y. huali demonstra que esses dinossauros com penas eram grandes predadores dominantes no Cretáceo Inferior, com peso adulto estimando cerca de 1.414 kg. Isso sugere que, em determinadas regiões como no nordeste da China, eles já haviam surgido e estabelecido o seu papel ecológico.

A descoberta desses animais dá provas sólidas da presença de tiranosaurídeos gigantes e também emplumados e traz implicações a respeito da evolução das penas, pois, mesmo tendo sido animais gigantes, com uma relação superfície-volume que descartaria a necessidade das penas como isolantes térmicas, os Y. huali ainda assim as possuíam. Como não há evidências fósseis diretas de tiranosaurídeos com penas no Cretáceo Superior, acredita-se, portanto, que os Y. huali as teriam como uma adaptação para o clima em que viviam, que teria sido consideravelmente mais frio em comparação com o resto do período. Apesar dessa interessante possibilidade, não se rejeita a ideia de que esses animais teriam usado suas penas como estruturas localizadas de exibição, visto que nenhum dos três espécimes encontrados é inteiramente coberto por penas.

Artigo fonte: Xu, X.; Wang, K.; Zhang, K.; MA, Q.; Xing, L.; Sullivan, C.; Hu, D.; Cheng, S.; Wang, S. (2012). A gigantic feathered dinosaur from the Lower Cretaceous of China. Nature, v. 484, p. 92-95. Doi: 10.1038/nature10906 <Clique aqui para acessar o artigo fonte>

Fonte da imagem: Extraída da Wikipedia inglesa “Yutyrannus” <link>

A comida preferida das lhamas do Pleistoceno

20 de março de 2020

Por: Letícia A. Barbosa

Um assunto que gera bastante curiosidade no meio científico é a descoberta dos tipos de alimentação dos grandes mamíferos extintos do continente americano. Embora conclusões e informações concretas sobre esse tópico sejam difíceis de ser alcançadas, pode-se ter uma luz quando existem coprólitos encontrados na mesma região onde viviam os animais, e datados da mesma época.

Os coprólitos também são fósseis, mas não como os que vêm primeiro à nossa mente quando pensamos nisso. Não são nenhum dinossauro. Na verdade, são vestígios da atividade dos animais em um determinado ambiente, que podem conter informações muito úteis sobre sua alimentação e até mesmo sobre a cadeia alimentar. Em resumo, coprólitos são fezes de animais, que sofreram algum processo de fossilização e ficaram preservadas. Os coprólitos analisados neste estudo foram encontrados em 1976, juntamente com partes do esqueleto de um indivíduo da espécie Palaeolama major, por um dos autores, Cástor Cartelle, em Morro do Chapéu, na Bahia. Acredita-se que os coprólitos são do animal encontrado junto deles, e hoje as peças preservadas pertencem à coleção paleontológica do “Museu de Ciências Naturais da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais”. Os coprólitos e os restos do animal foram datados da época do Pleistoceno, há aproximadamente 2 milhões de anos.

Como muitos coprólitos, estes também carregavam informações muito importantes sobre a dieta dos animais da espécie P. major, que viviam na região. Essa espécie já extinta, parente próxima das lhamas atuais, é representante do gênero Palaeolama e está dentro do grupo dos Camelídeos, que inclui também camelos e alpacas. Para que essas informações fossem identificadas, foram feitas análises bem detalhadas da anatomia dos fragmentos vegetais encontrados nos coprólitos. As análises da anatomia vegetal nesses casos podem levar à classificação desses vestígios encontrados, dando uma ideia relativamente precisa do tipo de dieta que esses animais tinham, ou pelo menos tiveram, logo antes de deixarem suas fezes no ambiente.

Assim, a partir das análises, o estudo concluiu que esses animais se alimentavam principalmente de plantas arbustivas de pequeno e médio porte e de algumas ervas. Os fragmentos eram de plantas angiospermas (com flores e frutos), e de um grupo específico dentro das angiospermas, chamado Eudicotiledôneas, ou simplesmente eudicots, que é caracterizado pela presença de dois cotilédones (folhas modificadas presentes nas sementes).

A partir disso, o estudo pôde contestar a informação que se tinha anteriormente de que esses animais consumiam basicamente gramíneas, já que era um tipo de vegetal presente na região e é mais frequente na dieta das lhamas atuais. Ao contrário, não foi encontrado qualquer vestígio de gramíneas nos coprólitos analisados. Além disso, também se esperava que esses animais vivessem em regiões de campo aberto, mas evidências nos coprólitos indicaram que esses animais viviam próximos da borda de uma floresta, que concluiu-se ser do tipo Cerrado, já incidente naquela época.

Este estudo é muito importante pois, dentro de um assunto muito procurado na área da pesquisa científica, traz novas evidências sobre a vida de um animal já extinto, mas que esteve na região onde hoje é o Brasil, e propõe novas conclusões para enriquecer a nossa história e a história da nossa biodiversidade, além de também apresentar informações que contestam evidências anteriores e mostrar como a pesquisa e a ciência podem também questionar e discutir conclusões já existentes.

Artigo fonte: Marcolino, C. P., Isaias, R. M. S., Cozzuol, M. A., Cartelle, C., Dantas, M. A. T. (2012). Diet of Palaeolama major (Camelidae) of Bahia, Brazil, inferred from coprolites, Quaternary International, v. 278, p. 81-86, doi:10.1016/j.quaint.2012.04.002 <Clique aqui para acessar o artigo fonte>

Fonte da imagem: Ilustração de Felipe Alves Elias. Extraída de seu blog por esse <link>

As pegadas de Cal Orcko e a criação do Parque Cretácico

Pegadas de dinossauros, presentes em um local conhecido como Cal Orcko, onde hoje foi criado o Parque Cretácico, fornecem grandes informações para a paleontologia.

Belo Horizonte, Minas Gerais; 21 de março de 2020

Por: Laís Almeida Martins Izidoro

Segundo o artigo “As pegadas de Cal Orcko: o maior legado da paleontologia da América do Sul” publicado em 2018, na Revista Transformar, o pesquisador e paleontólogo Christian Meyer, nos anos 90, revelou dados sobre pegadas fossilizadas encontradas perto da cidade do Sucre, capital da Bolívia. Tal estudo possibilitou o reconhecimento dos animais a qual cada pegada pertence, a datação geológica e a identificação da flora local no período, além da conservação do local e criação de um parque temático.

As pegadas foram descobertas, em 1985, depois de algumas demolições realizadas no local, encontrando, assim, uma parede vertical com pegadas de dinossauros, sendo a maior parte deles do grupo dos saurópodes, terápodes e cerápodes. A parede, que possui 1.200 metros de comprimento e 110 metros de altura, conta com mais de 5.000 pegadas desses répteis do Cretáceo Superior.

Com a elevação da cordilheira dos andes, devido ao movimento de placas tectônicas que se encontram perto dele, ocorreu a mudança das correntes marítimas e, consequentemente, a formação de mares dentro do continente. Assim, as pegadas foram deixadas por dinossauros que passavam pela praia, e, com o tempo, elas foram litificadas, ou seja, se solidificaram formando vestígios fósseis.

As pegadas foram identificadas por meio de vários dados como tamanho, passada do animal e morfologia. Além disso, a datação geológica possibilitou a descoberta do período em que esses animais viviam e os grupos aos quais pertenciam. Por fim, foi possível também estudar a flora local do período em questão, revelando que existiam árvores altas e densas.

Após a revelação de todos esses dados, inicia-se um projeto de elaboração de um parque temático no local, sendo o início do processo de construção realizado em 2005. Com a direção de um paleontólogo e 5 paleoescultores, procederam com a construção de réplicas dos dinossauros que ali viviam, em escala real. Dessa forma, os visitantes podem ver as pegadas dos dinossauros, além de suas réplicas em seu hábitat natural, sendo esse parque de grande relevância para a divulgação de conhecimentos da paleontologia para a população.

Artigo fonte: Schmidt, G.A.; Costa, T.A. (2018). As pegadas de Cal Orcko: o maior legado da paleontologia da América do Sul. Transformar, v.12, n. 1, p. 134-143. E-ISSN:2175-8255 <Clique aqui para acessar o artigo fonte>

Fonte da imagem: Montagem das Figuras 6 e 7 do artigo fonte.

Monstros que dominavam os oceanos

Em 21 de março de 2020

Por: Gabriel Rodrigues de Assis

Nos dias de hoje, muitas pessoas têm medo dos mares devido aos seus mistérios e aos animais que neles vivem, sendo os tubarões os maiores representantes desses seres. Porém, o que muitos não sabem é que os mares antigos eram muito mais assustadores. Entre 200 e 100 milhões de anos atrás o oceano era habitado por répteis que podiam alcançar mais de 20 metros de comprimento, com dentes enormes e alguns formas muito estranhas. Hoje em dia esses animais já não existem mais, porém os vestígios deixados por eles podem nos explicar muito sobre sua anatomia e modos de vida.

Um desses animais eram os Ictiossauros, répteis semelhantes a golfinhos, porém com um tamanho que podia chegar até 15 metros de comprimento. Além disso, a sua nadadeira caudal era semelhante a dos tubarões, possuía nadadeira pélvicas e as narinas no topo da cabeça para respirar na superfície. Acredita-se que os Ictiossauro possuíssem os maiores olhos do reino animal, chegando a até 23cm em alguns fósseis.

Outro réptil muito interessante é o Mosassauro, um réptil com cerca de 14 metros que competia com os tubarões por alimento. Esses répteis foram muito importantes na história humana, pois foram os primeiros répteis a serem reconhecidos como extintos, ajudando muito no crescimento da ciência. Acredita-se que o Mosassauro evoluiu a partir de répteis terrestres, algo semelhante ao que ocorreu com os Cetáceos.

Por último temos um animal bem diferente: O Plesiossauro. Esse animal possuía um longo pescoço e quatro nadadeiras, dando a ele uma forma um tanto quanto estranha. Por possuir uma cauda relativamente curta, o paleontólogo Edward Cope, durante o estudo de um fóssil de Plesiossauro, posicionou a cabeça do animal na cauda. O erro foi percebido anos depois. Nos registros fósseis, foram encontrados seixos em seu estômago, o que ajudava na digestão e supõe-se que essas rochas serviam como um lastro. O Plesiossauro é muito lembrado atualmente devido a lenda do Monstro do Lago Ness, que afirma que um monstro com um longo pescoço habita o lago escocês.

Mesmo extintos, esses animais continuam despertando a curiosidade de muitas pessoas ao redor do mundo, gerando novos estudos que nos ajudam a entender melhor como era o mundo a milhões de anos, descobrir novos animais que habitam os mares e mostrar como a vida no oceano é diversificada e curiosa.

Artigo fonte: Sgarbi G.N.C., Bittencourt J., Marinho T.S. (2016). Répteis que um dia dominaram os mares. Terræ Didatica, v. 12, n. 1, p. 69-77. ISSN 1679-2300 <Clique aqui para acessar o artigo fonte>

Fonte da imagem: Wikipedia “Plesiosaur on land

Paleontologia, Divulgação Científica e as Melhorias Sociais

Em 21 de março de 2020

Por: Caio Hander Obolari Lana

Em 1 de julho de 1989 foi criada a associação dos amigos do sítio paleontológico de Peirópolis, após aproximadamente um século de exploração pela mineração manual, trazida por imigrantes europeus e italianos (1890 a 1960) e com máquinas e explosivos, comandada pela mineradora Calcário Solofértil S.A (1987 a 1992), após 5 anos de conseqüente destruição dos fósseis e intensa degradação ambiental.

Por colocar em risco o vasto registro fossilífero da Serra do Veadinho, em 9 de maio de 1989 a comarca de Uberaba embargou a mineração por uso de dinamite. Posição essa desrespeitada pela mineradora que continuou escavações até que em 15 de setembro do mesmo ano quando a associação denunciou ao fórum que a área do sítio não estava sendo respeitada. Em uma perícia realizada em 6 de outubro foi constatado que a área do sítio parte de Uberaba-MG até Presidente Prudente-SP, englobando parte do Mato Grosso do Sul. A área de interesse paleontológico datada com 70 milhões de anos abriga sob as rochas calcárias fósseis de inúmeros dinossauros.

Com a população conscientizada a respeito do valor científico imensurável dos registros fossilíferos e da necessidade de se preservar a Serra do Veadinho e o Museu dos Dinossauros, ficou bem mais complicado para a mineradora conseguir outra licença, sabendo-se que apenas isso já seria suficiente para trazer melhorias nos aspectos sociais e econômicos da comunidade, através do turismo.

Tomando Peirópolis como exemplo de compatibilização entre mineração e os estudos científicos, pode-se entender que se houver um prévio estudo dos impactos ambientais, projetos de reabilitação da área com o termino da reserva mineral, incentivos financeiros aos trabalhadores das pedreiras para que possam encontrar fósseis, entre outras normas especificas para cada região o impacto ambiental pode ser amenizado e o patrimônio científico pode ser resgatado e destinado ao local apropriado.

Artigo fonte: Wellington Francisco Sá dos Santos, Ismar de Souza Carvalho & Antonio Carlos Sequeira Fernandes. (2010). Mineração versus Paleontologia: Uso e Ocupação da Serra do Veadinho em Peirópolis – Uberaba, Estado de Minas Gerais (Brasil). Anuário do Instituto de Geociências da UFRJ, v. 33, n. 2, p. 74-86. <Clique aqui para acessar o artigo fonte>

Fonte da imagem: Figura 6 extraída do artigo fonte.

Como protozoários da família Trypanosomatidae se tornaram parasitas de mosquito palha?

Em 20 de março de 2020

Por: Sarah Cristina Pereira do Nascimento

Atualmente, existem vários parasitas causadores de patologia que possuem em seu ciclo biológico vetores invertebrados. Protozoários da família Trypanosomatidae, como os do gênero Leishmania (responsável pela leishmaniose) e Trypanosoma (responsável pela doença de chagas) são parasitoses de alta importância médica. A necessidade de estudar mais afundo sobre o tema levou paleontólogos a buscarem nos registros fósseis quaisquer sinais de presença de interações parasitárias, a fim de conhecer a origem de algumas relações parasito-hospedeiro.

Uma importante descoberta da paleoparasitologia foi mostrada no trabalho publicado por George Poinar Jr em 2007, no qual o autor registrou a presença de flagelados da família Trypanosomatidae no intestino médio de larvas de mosquito palha fossilizados em âmbar datados do cretáceo inferior. A descoberta ajudou o autor a elaborar uma hipótese para explicar como esses protozoários adentraram mosquitos palhas e como estabeleceram essa interação em seu ciclo biológico. Para o paleoparasitólogo, as larvas dos insetos se alimentavam dos flagelados livres (presentes nos substratos) e os mantinham até o seu desenvolvimento em mosquito adulto, podendo ser passado para hospedeiros vertebrados.

Apesar do trabalho apresentar um grande passo para a elucidação da origem do ciclo biológico de protozoários da família Trypanosomatidae, muitas questões ainda estão em aberto. A passagem do flagelado do mosquito palha para o hospedeiro e sua volta para o inseto ainda é um mistério para a comunidade científica. Ainda não existem boas explicações para definir como protozoários sobreviveriam ao sistema imune do hospedeiro vertebrado sendo capaz de replicar e ser passado novamente para o hospedeiro invertebrado. Por isso, deve-se investir cada vez mais em trabalhos de paleoparasitologia, pois estes contribuem com a elucidação de várias doenças que assombram a humanidade desde o início de nossa história como espécie.

Artigo fonte: Poinar Jr, G. (2007). Early Cretaceous trypanosomatids associated with fossil sand fly larvae in Burmese amber. Memórias do Instituto Oswaldo Cruz, v. 102, n. 5, p. 635-637. Doi: 10.1590/S0074-02762007005000070 <Clique aqui para acessar o artigo fonte>

Fonte da imagem: Combinação das Figuras 1 e 5 do artigo fonte.

Primeiro fóssil de macaco da América do Norte: O intercâmbio das espécies entre as Américas

Em 20 de março de 2020

Por: Gabriella Parreiras Torres

Os Platyrrhini são um grupo de primatas que possuem as narinas distantes entre si e voltadas para o lado, diferentemente dos Catarrhini que possuem as narinas voltadas para baixo. O clado Platyrrhini inclui os macacos do novo mundo, ou seja, do continente americano, sendo desconhecida a história evolutiva destes animais nos trópicos. Os macacos chegaram até a América do Norte há aproximadamente 4 milhões de anos, vindos da América do Sul através de uma estreita faixa de terra que liga os dois continentes. Para a melhor compreensão das informações que seguirão, é importante entender que a América Central pode ser considerada parte da América do Norte, como será tratado nesse texto.

Em 2016, cientistas apresentaram a primeira descrição de um fóssil de macaco do novo mundo recuperado na América do Norte, em Las Cascadas na bacia do canal do Panamá. Dessa forma, este fóssil é a mais antiga evidência da migração de mamíferos entre a América do Sul e a América do Norte.

A descoberta de primatas do Mioceno (entre 23 e 5 milhões de anos atrás) no Panamá, junto a ausência de barreiras oceânicas que restringiriam os seus movimentos rumo ao norte, deixa a dúvida: Por que estes animais não chegaram a mais altas latitudes, ou seja, mais ao norte?

Para explicar esse questionamento, é necessário um complexo conjunto de fatores ecológicos, como a extensão limitada de habitat de florestas tropicais, ou a existência de maiores barreiras geográficas. Ainda, segundo os autores é muito difícil encontrar fósseis em planícies tropicais na América Central, sendo o canal do panamá uma exceção, auxiliada pelo aumento da exposição deste canal, que evidenciou rochas do Mioceno.

Os pesquisadores descobriram fósseis de dentição de macacos do novo mundo do gênero Panamacebus (extinto), e elucidaram questões sobre o tempo e a dinâmica dos estágios iniciais do grande intercâmbio biótico americano entre a América do Sul e do Norte. A dentição encontrada aponta para os Platyrrhini da família Cebidae que pesavam aproximadamente 2,7 kg e se diferenciavam dos demais Cebidae por ter incisivos inferiores com características singulares e primeiros molares superiores consideravelmente maiores que os segundos molares superiores.

Estudos sugerem que as migrações dos animais do velho mundo até a América do Sul podem ter ocorrido da África e Ásia através da Antártida, porém navegar em ilhas flutuantes é considerado o mecanismo mais provável para a chegada na América do Sul. Ainda, evidências evolutivas apontam que o gênero Panamacebus está dentro de Platyrrhini, especificamente dentro de Cebidae, sugerindo a dispersão para o norte pela América Central por via marítima.

Anteriormente, já haviam evidências fósseis da migração de mamíferos da América do Sul para a do Norte, da família Mylodontidae e Megalonychidae (preguiças). Mas enquanto elas se dispersaram para altas latitudes, os macacos do novo mundo atravessaram a América Central, mas não chegaram a altas latitudes na América do Norte.

Artigo fonte: Bloch, J., Woodruff, E., Wood, A. et al. (2016). First North American fossil monkey and early Miocene tropical biotic interchange. Nature, v. 533, p. 243–246. doi:10.1038/nature17415 <Clique aqui para acessar o artigo fonte>

Fonte da imagem: Recortada da Figura 4 do artigo fonte.

Ave conservada de 46 mil anos encontrada na Sibéria!

Em 18 de março de 2020

Por: Zandora Hastenreiter

Quantos anos você daria para a ave desta imagem? Independente da idade que você atribua, provavelmente vai ser longe da idade real deste pássaro. Prontos pra saber a verdade? Este indivíduo tem aproximadamente 46 mil anos. Incrível, né? Daí você se pergunta: como?

Exemplares de animais conservados assim geralmente são encontrados em Permafrost (um tipo de solo permanentemente congelado) e pesquisadores já encontraram carcaças conservadas de mamutes, lobos e cavalos. Segundo os autores do trabalho, esse pássaro foi a primeira ave a ser encontrada em Permafrost! Diferentemente da maioria dos tipos de fossilização, a criopreservação permite que tecido mole e DNA sejam conservados ao longo dos anos. Análises do genoma de espécies já extintas podem nos trazer conhecimento que não conseguiríamos de outra maneira.

O pássaro do estudo foi encontrado na Sibéria, próximo ao vilarejo Belaya Gora, em uma região tomada por túneis cavados por caçadores de marfim fóssil. O espécime foi datado com 42 600 +/- 1100 anos BP (Before Present, antes do tempo atual) por meio de datação com Carbono-14 sendo que sua idade calibrada estimada é de 44 163 – 48 752 anos BP. Pelo fato de que havia tecido mole preservado, os pesquisadores conseguiram obter DNA, que foi sequenciado para estudos filogenéticos e identificação da espécie.

Usando um gene mitocondrial, os pesquisadores identificaram o pássaro como pertencente a espécie Eremophila alpestris, popularmente conhecida como calhandra-cornuda. Essa espécie possui diversas subespécies e o indivíduo congelado tem maior semelhança com duas delas: E. a. flava e E. a. brandti. Este resultado fez com que os autores do estudo hipotetizassem que o pássaro pertencia a uma população ancestral de E. a. flava e E. a. brandti, que posteriormente se dividiu devido às mudanças climáticas que caracterizam a transição entre Pleistoceno e Holoceno.

A área próxima de Belaya Gora é promissora para estudos evolutivos devido ao alto grau de conservação dos animais encontrados na região. As análises genéticas, possíveis graças à preservação de tecido mole, são importantes por trazerem novas informações que não são passíveis de serem recuperadas somente a partir da análise da morfologia dos fósseis.

Artigo fonte: Dussex, N., Stanton, D.W.G., Sigeman, H. et al. (2020). Biomolecular analyses reveal the age, sex and species identity of a near-intact Pleistocene bird carcass. Communications Biology, v. 3, p. 84. Doi:10.1038/s42003-020-0806-7 <Clique para acessar o artigo fonte>

Fonte da imagem: Extraída da Figura 1 do artigo fonte. Foto de Love Dalén.