Cinodontes brasileiros, primos dos primeiros mamíferos

24 de setembro de 2020

Por: Victor Martins Macedo

No artigo “Cinodontes fósseis brasileiros revelam os primeiros passos da evolução dos mamíferos”, Marina Bento Soares esclarece esse fato, contando a história evolutiva desses animais, os cinodontes.

Antes de qualquer coisa, cinodontes fazem parte dos sinapsidas, animais caracterizados pela presença de uma abertura/fenestra localizada nas têmporas cranianas e destinada à fixação da musculatura mandibular. Isso os diferencia por exemplo, dos répteis (sauropsidas), que possuem duas aberturas em cada lateral craniana.

Os sinapsidas mais basais foram os pelicossauros, que surgiram há ~320 milhões de anos, no final do Carbonífero. Sua postura era muito similar a dos répteis, os membros (úmero e fêmur) eram paralelos ao solo.

No Permiano (~272 Ma), os pelicossauros foram sendo substituídos nos ecossistemas terrestres pelos terápsidos. Por sua vez, os terapsídeos compõe 6 subgrupos, dentre eles os cinodontes que incluem os mamíferos. Terapsídeos são metabolicamente mais ativos do que pelicossauros, têm postura mais verticalizada, além de passarem por alterações cranianas que lhes proporcionaram maior força de mordida.

No final do Permiano, há ~ 250 Ma , ocorreu uma grande extinção em massa, a mesma que extinguiu todo os trilobitas. Nenhum pelicossauro sobreviveu e apenas 3 dos 6 subgrupos de terapsídeos sobreviveram: anomodontes, terocefálios e cinodontes.

Após a grande extinção, no triássico (~237 Ma), houve uma irradiação dos cinodontes até que estes toranaram-se cosmopolitas.

Agora, mais um táxon que precisamos abordar são os cinodontes probainognátios. Estes são os mais próximos dos mamíferos, e os cinodontes brasileiros fazem parte desse grupo.

Dentre os probainognátios, estão os brasilodontídeos, notados como os probainognátios que compartilham o maior número de características derivadas com os mamíferos basais. Exemplos dessas características compartilhadas são: articulação entre dentário e esquamosal, presença de um promontório (porém ainda não globoso), dentes pós-caninos com raízes incipientemente bifurcadas com padrão triconodonte (dentes de três cúspides).

Em seu artigo, Marina Bento Soares esclarece a relação brasilodontídeos-mamíferos com riqueza de detalhes e devido aprofundamento. A autora conclui que é necessária a coleta e prospecção de fósseis cinodontes probainognátios, pois novos estudos podem elucidar ainda mais a transição cinodonte-mamífero.

Artigo fonte: Marina Bento Soares. (2015). Cinodontes fósseis brasileiros revelam os primeiros passos da evolução dos mamíferos. Ciência e Cultura, v. 67, n. 4., p. 39-44. <Clique aqui para acessar o artigo fonte>

Legenda e fonte da imagem: Brasilitherium riograndensis, “primo” dos mamíferos. (Arte de autoria de Smokeybjb disponível sob licença Creative Commons <Link>)

Paleontologia na escola e na memória

21 de setembro de 2020

Por: Sara Delaine

“Tecendo redes de saberes e experiências através do ensino de Paleontologia em escolas municipais e estaduais, no município de Porto Nacional, TO” é o projeto de extensão da Universidade Federal do Tocantins que funciona como objeto de estudo a fim de diagnosticar os conhecimentos bem como o ensino de paleontologia nas escolas, além de desenvolver estratégias de intervenção e solução para possíveis falhas. A localização do projeto não foi ao acaso, uma vez que o Tocantins é um estado rico paleontologicamente e conta com uma das principais bacias sedimentares brasileiras, a Bacia Sedimentar do Parnaíba. Logo, o estudo da paleontologia nessa localidade não apenas tem a ver com a ciências, mas também com a história, memória e patrimônio.

O projeto se deu eu duas escolas do ensino médio da rede pública estadual e teve como método/objetivo avaliar o conhecimento dos alunos na área e ver um diagnóstico da situação através de questionários. O que foi notado foi uma clara falha dos conhecimentos até mesmo desconhecimento sobre a própria história geológica local além de falhas nos conceitos básicos envolvendo temas como fósseis e evolução.

Após isso foram feitas práticas de intervenção com palestras e oficias didáticas e foi notado uma melhora no aprendizado dos conhecimentos por parte dos alunos. Diante disso, nota-se uma necessidade de melhoras no ensino de paleontologia nas escolas bem como desenvolvimento de ferramentas de ensino que auxiliem os professores. Não apenas isso, é necessário refletir sobre o tema uma vez que trazer a ciência para perto da sociedade é um dos maiores desafios da atualidade, é valorizar e preservar o próprio patrimônio, a própria história. Como o próprio estudo cita sobre o estudo da paleontologia e sua importância para a sociedade: “tendo em vista que o conhecimento advindo desta ciência é de extrema importância para o correto entendimento do papel do homem na história evolutiva da vida, e, portanto, importante no desenvolvimento de uma postura preservacionista e crítica”.

Artigo fonte: MENDES, L.A.S.; NUNES, D.F.; PIRES, E.F. (2005). Avaliação do conhecimento paleontológico com intervenção em escolas de ensino médio: um estudo de caso no estado do Tocantins. Holos., vol. 8, pp. 384-396. DOI: 10.15628/holos.2015.1991 <Clique aqui para acessar o artigo fonte>

Legenda e fonte da imagem: A figura mostra um gráfico feito com as respostas dos alunos no questionário diagnóstico aplicado em duas escolas (escola 1, gráfico superior e escola 2, gráfico inferior), referente à pergunta “O que é paleontologia?”, a fim de identificar o nível de conhecimento prévio na área. (Imagem extraída do artigo fonte.)

O Nordeste brasileiro e os gigantes que ali habitavam

20 de setembro de 2020

Por: Pedro

O nordeste brasileiro é muito conhecido por paleontólogos devido à imensa riqueza de fósseis ali presentes. A região de Vitória da Conquista, localizada na Bahia, é mais um exemplo de local muito especial para encontrarmos verdadeiros gigantes que já habitaram o nosso continente, a megafauna. Esses seres viveram na época do Pleistoceno, período marcado entre 11 mil anos e 3 milhões de anos atrás.

Os fósseis foram encontrados em regiões denominadas por “tanques”, que seriam cavidades naturais, posteriormente escavadas pelos pesquisadores para a busca desses fósseis. Para melhor compreender do que tratavam aqueles fósseis coletados, foi realizado o processo de taxonomia, ou seja, a classificação dos fósseis baseado nas características das partes encontradas do fóssil. É importante salientar que são raras as vezes em que um paleontólogo consegue encontrar o fóssil completo de um ser vivo, precisando, assim, ser capaz de retirar informações com muito pouco material coletado em mãos.

Também foi realizado o processo de tafonomia, que seria buscar compreender os processos que levaram um fóssil a estar ali naquele local. Essa era uma maneira de paleontólogos se “transportarem” para aquele período, no caso, o Pleistoceno, a fim de interpretarem como era o ambiente em que aquele indivíduo vivia.

Na fazenda Suse II em Vitória da Conquista, encontraram o dente de um mamífero gigante da família Toxodontidae, conhecido por terem superficialmente semelhantes aos rinocerontes. Também foi registrado a presa de um Stegomastodon waringi, família Gomphoteriidae, um animal similar aos elefantes devido às suas enormes mandíbulas com presas, apesar de não pertencerem à mesma família. Além desses dois, partes da espécie Eremotherium laurillardi, família Megatheriidae, a conhecida “Preguiça Gigante”, foram coletadas no tanque.

O processo de fossilização se deu por mineralização, que seria o processo de preenchimento dos ossos por diferentes minerais, prevalecendo a presença de calcita. O fato de animais de diferentes períodos terem sido registrados no mesmo tanque sugere que houve o que conhecemos por mistura temporal. Talvez tenha havido, em diferentes épocas, um transporte desses fósseis para a mesma localidade.

Artigo fonte: DANTAS, M.; TASSO, M. (2007). Megafauna do Pleistoceno final de Vitória da Conquista, Bahia: taxonomia e aspectos tafonômicos. Scientia Plena, v. 3, n. 3, p. 30-36. <Clique aqui para acessar o artigo fonte>

Legenda e fonte da imagem: Imagem de um tanque, local de coleta dos fósseis. (Imagem extraída do artigo fonte.)

Rocky Racum: O herói da Marvel que se cansou da América e saiu em busca de aventuras intergalácticas

18 de setembro de 2020

Por: Raquel Mary Ferreira

Talvez você seja uma dessas pessoas que não sabe muito bem quem é o Rocky. Se você já assistiu Guardiões da Galáxia, pode se lembrar dele como um guaxinim de pavio curto ou o grande amigo daquela árvore chamada Groot. Se você não sabe do que eu estou falando, não se preocupe! Esse texto é justamente para falar um pouco sobre quem é esse carinha e de onde ele veio.

Cientificamente falando, podemos chamar guaxinins e quatis de procionídeos. Os procionídeos são pequenos mamíferos carnívoros que estão amplamente distribuídos pelo continente americano. Mas como será que eles chegaram até aqui, no nosso quintal? Bom, alguns pesquisadores afirmam que seus ancestrais surgiram na Europa em algum momento entre 56 e 35 milhões de anos atrás. Daí pra frente seguiram se diversificando, até que ingressaram no continente americano entre 9 e 4 milhões de anos atrás, de acordo com registro fóssil (beeem antes dos Homo sapiens pensarem, literalmente).

Para explicar como esses camaradinhas se distribuíram por um continente tão grande e chegaram até a América do Sul, surgiram duas teorias principais. Mais ou menos 3 milhões de anos atrás houve o que os especialistas chamam de Grande Intercâmbio Biótico Americano, apelidado carinhosamente de GABI (por causa da sigla em inglês). Uma das teorias suporta que os procionídeos teriam sido mais velozes, e chegado na América do Sul antes que o GABI acontecesse, junto com alguns de seus ancestrais gigantes extintos hoje em dia. Em contrapartida, alguns pesquisadores apontam uma teoria diferente. A segunda teoria é de que esses animais teriam chegado aqui no Sul quase no fim do GABI, acompanhando uma corrente migratória diferente.

Foi então que alguns pesquisadores latino-americanos apareceram para nos ajudar a entender um pouco mais sobre esse mistério. Encontraram no noroeste da Venezuela, em um lugar chamado El Breal de Orocual, alguns dentes fósseis de procionídeos. Supostamente essa região surgiu há mais ou menos 5 milhões de anos atrás e atraía, de alguma forma, muitos mamíferos. Daí o amplo registro fóssil encontrado ali. Esses pesquisadores fizeram, então, uma ampla comparação entre os dentes de procionídeos atuais e dos fósseis encontrados. Perceberam que haviam encontrado dentes fósseis da espécie Nasua nasua, também conhecido como quati-de-cauda-anelada, e de alguma espécie do gênero Procyon, mesmo gênero dos guaxinins, como nosso herói Rocky.

O que esses achados nos mostraram foi que os ancestrais de Rocky não chegaram aqui no Sul no fim do GABI, pelo contrário, acompanharam uma corrente que veio para cá há menos que 5 milhões de anos. Infelizmente, os fósseis encontrados nessa região não são antigos o bastante para comprovar a teoria de que esses mamíferos chegaram aqui antes do GABI. Porém já é o suficiente para entender que a distribuição desses mamíferos pelo continente foi bem mais complexa do que pensávamos!

Atualmente na região do El Breal de Orocual, não são mais encontrados tantos guaxinins e quatis, e isso nos sugere que eles podem ter sofrido algum tipo de pressão para sair deste local para outro, sendo encontrados hoje em dia na região andina. Talvez por isso nosso amigo Rocky tenha se retirado e foi viver suas aventuras tão longe da sua terra natal.

Artigo fonte: Ruiz-Ramoni, D., Rincón, A., Montellano-Ballesteros, M. (2018). Evidencia del origen de Nasua y Procyon (Procyonidae: Carnivora) en América del Sur. Revista Brasileira de Paleontologia, v. 21, n. 1, p. 87-94, DOI: 10.4072/rbp.2018.1.07. <Clique aqui para acessar o artigo fonte>

Legenda e fonte da imagem: Um procionídeo geneticamente modificado que saiu da América em busca de aventura. (Imagem extraída da Wikipedia <Link>.)

Coprólitos: a história contada a partir das fezes

17 de setembro de 2020

Por: Karine Moreira Maciel dos Santos

Um estudo paleoparasitológico das comunidades de micromamíferos da Patagônia, Argentina

Um grupo de pesquisadores argentinos encontraram diversas espécies de parasitas em pelotas fecais de micromamíferos com idade de 1.200 anos aproximadamente, no sítio paleontológico “Cueva Peligro”, na Argentina. O estudo publicado na revista Parasitology International, em maio de 2020 chama a atenção pelo número de espécies que foram encontradas, 11 espécies diferentes de parasitos, enquanto em estudos anteriores realizados na América do Sul foram encontrados um número bem menor de espécies.

Micromamíferos são mamíferos de porte muito pequeno como ratos e ouriços-cacheiro, que podem ser roedores ou insetívoros. Esses animais tem grande importância ecológica e por muito tempo as comunidades de micromamíferos na Patagônia permaneceram estáveis. No entanto, nos últimos séculos, mudanças dramáticas foram registradas na composição destas comunidades.

Existem muitos fatores que podem influenciar as dinâmicas populacionais dos micromamíferos, sendo os parasitas um fator muito importante nesta dinâmica. Sendo assim, o objetivo do estudo foi justamente analisar as assembleias de parasitas de micromamíferos da Patagônia e, a partir dessas informações, conhecer a história da relação entre parasitas e micromamíferos do sítio “Cueva Peligro” da Patagônia, nos últimos 1.200 anos.

O sítio paleontológico “Cueva Peligro” está localizado próximo à margem do rio Chubut, na Província de Chubut, Argentina e trata-se de uma caverna de aproximadamente 35 m de altura, com uma única entrada e uma única galeria. Para o estudo, o material coletado no local foi peneirado e as amostras de fezes foram processadas e datadas no Laboratorio de Tritio y Radiocarbono (LATYR), Facultad de Ciencias Naturales y Museo, Universidad Nacional de La Plata (LP), Argentina.

As pelotas fecais foram então analisadas e características como cor, textura, inclusões e medidas foram observadas. Posteriormente, os coprólitos foram reidratados, homogeneizados e deixados para sedimentar. Esse sedimento foi então observado para procura de ovos de parasitos e também para observar variações na dieta.

A partir do estudo microscópico do material, revelou-se uma dieta onívora, porém a composição variou entre as amostras, possivelmente por se tratar de fezes de animais de diferentes espécies. Foram encontrados também ovos característicos de 11 espécies de parasitos, pertencentes a diferentes grupos como helmintos, nematódeos dentre outros.

A análise das amostras sugeriu uma dieta onívora à insetívora, associando esta informação às análises morfológicas dos coprólitos e ao estudo das espécies de micromamíferos que vivem no local atualmente foi possível presumir que as pelotas pertencem a quatro espécies da família Cricetidae, subfamília Sigmodontinae. As espécies desta subfamília são pequenos mamíferos roedores.

Foram encontradas 11 espécies diferentes de parasitos, sendo que alguns deles completam todo seu ciclo de vida em um único hospedeiro, são chamados monoxênicos. Já outras espécies encontradas são de parasitos heteroxênicos, ou seja, que completam seu ciclo de vida em mais de um hospedeiro. O estudo descreveu ainda parasitos com possível caráter zoonótico, ou seja, que podem ser transmitidos dos animais para os seres humanos. Algumas espécies encontradas nesse estudo ainda não tinham sido descritas em amostras holocênicas da Patagônia.

O estudo fez descobertas importantes sobre a relação micromamíferos-parasitos em “Cueva Peligro”, porém mais estudos são ainda necessários para conhecer a história da relação parasito-hospedeiro e a epidemiologia das doenças parasitárias na região.

Artigo fonte: Tietze, E.; Tommaso, D. & Beltrame, M.O.(2020) Parasites in micromammal fecal pellets throughout the Late Holocene (“Cueva Peligro” paleontological site, Patagonia, Argentina). Parasitology International, v.78, e. 102147. DOI: 10.1016/j.parint.2020.102147. <Clique aqui para acessar o artigo fonte>

Legenda e fonte da imagem: Acima: B. Entrada da Caverna. C. Locais de escavação. D. Coprólitos de Micromamífero. Abaixo: Alguns parasitas encontrados em “Cueva Peligro”. A. Syphacia sp. B. Heteroxynema sp. C. Gongylonema sp. D. Trichuris sp. (Figuras extraídas e adaptadas do artigo fonte.)

Bulldog pré-histórico é encontrado pela primeira vez na Argentina

16 de setembro de 2020

Por: Luiz Alves

Pela primeira vez foi encontrado na Argentina um peixe fóssil, também conhecido conhecido como bulldog. O achado tem grande importância, pois permite que pesquisadores compreendam mais sobre a dispersão e modo de vida desses animais pré-históricos. O vestígio desse peixe apresentou características do maxilar do indivíduo e parte de sua dentição.

O fóssil encontrado foi identificado como um peixe do gênero Xiphatinus, na província Chubut, Patagônia Argentina. Outros peixes fósseis relacionado a esse gênero já foram encontrados em outras regiões, do globo, incluindo a Venezuela. Mas, a partir dessa descoberta amplia-se as regiões que esses animais alçaram entre os períodos Cretáceo e o Paleógeno.

O Bulldog Argentino não foi totalmente preservado, mas, ainda assim, foi possível observar seu maxilar marcante e a presença de dentes. Outras porções do animal também foram identificadas, mas não tão marcantes quanto seu maxilar, que constitui a sua face. Esse conjunto de características, envolvendo o maxilar do peixe Bulldog, é o que desperta uma semelhança ao cachorro de mesmo nome.

Achados como esse ajudam a pesquisadores da área da Paleontologia e da Evolução a compreenderem melhor os processos pelos quais esses grupos de animais foram submetidos ao longo do tempo. E com o entendimento dessas formações, elucida-se um pouco mais sobre as lacunas de conhecimentos evolutivas, ecológicas e biológicas que existem.

Artigo fonte: De Pasqua, J. J., Agnolin, F. L., & Bogan, S. (2020). First record of the ichthyodectiform fish Xiphactinus (Teleostei) from Patagonia, Argentina. Alcheringa: An Australasian Journal of Palaeontology, v. 44, n. 2, p. 327-331. DOI: 10.1080/03115518.2019.1702221. <Clique aqui para acessar o artigo fonte>

Legenda e fonte da imagem: Porções da maxila do fóssil encontrado, que ajudaram na produção de um reconstrução do animal. Essa reconstrução serve para tentar entender como esse peixe era fisicamente. (Figura extraído do artigo fonte.)

Paleontologia e educação, como combinar?

16 de setembro de 2020

Por: Thalita O. Carneiro

O ensino de paleontologia está presente nos documentos oficiais, mas as escolas carecem de ferramentas para trabalhar esse tema tão instigante e curioso. Par além disso, como desmistificar o uso de exemplos de fósseis apenas de dinossauros? Uma boa estratégia metodológica alinhada ao kit paleontológico pode estimular o interesse dos estudantes e promover melhores oportunidades de aprendizagem.

As pesquisadoras Lílian Paglarelli Bergqvist Stella Barbara Serodio Prestes, do laboratório de macrofósseis, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), desenvolveram um material didático interessante. O kit paleontológico é composto por moldes de fósseis procedentes da Bacia de Itaboraí, no estado do Rio de Janeiro, de idade paleocênica, e um bloco de rochas da Formação Pirabas, nos estados do Maranhão, Piauí e Pará, de idade miocênica e uma cartilha que auxiliaria no uso do material.

Este material é destinado a estudantes do terceiro ciclo, contemplando objetivos conceituais previstos nos documentos oficiais à disciplina de ciências. Além disso, o ensino da paleontologia perpassa pela integração de diferentes assuntos em ciências, como a história evolutiva, processos, ciclos geológicos e educação ambiental. Dessa forma, além dos objetivos conceituais, possibilita um ensino contextualizado e aplicado.

A estratégia mais comum ao se trabalhar paleontologia ao longo do ensino fundamental é a ida ao museu. Essa prática tem sua importância, e tem sido aperfeiçoada, se tornando mais interativa e menos expositiva. No entanto, ainda assim, depende de recursos específicos como transporte, tempo e a existência de um museu paleontológico acessível. A proposta do material didático desenvolvido pelas autoras é que funcione como uma ferramenta na qual o estudante terá além de uma participação ativa, contato com exemplares de fósseis a partir dos moldes.

Este material propõe a compreensão dos fósseis como objetos fundamentais para se investigar a história evolutiva da terra, assim como a dissociação da ideia que o registro fóssil é composto apenas por dinossauros e fomentar a identificação com a paleontologia desenvolvida no Brasil.

O kit paleontológico é composto por moldes de fósseis esculpidos em uma mistura de gesso, cimento branco e cola Cascorez e uma cartilha, materiais de fácil acesso. Os fósseis replicados referentes a Formação Pirabas são fósseis de bivalves, gastrópodes, corais e equinoides. Já os fósseis moldados a partir da Bacia de Itaboraí, um representante das ordens de mamíferos Condylarthra, Notoungulata, Xenungulata e Marsupialia, um gastrópode e uma semente da ordem Rosales. A cartilha apresenta definições de termos chaves como o que são fósseis, tempo geológico e traz informações sobre os exemplares disponibilizados no kit.

Os desafios propostos pela cartilha são orientados através do ensino por investigação, uma metodologia que tem se mostrado relevante no ensino de ciências. Os desafios instigam os estudantes a pensarem sobre como era o ambiente a partir das características dos fósseis e a idade geológica da Bacia.

Os resultados da aplicação dessa ferramenta didática apontam que estimula a cooperação, instiga o interesse e a curiosidade. Essa ferramenta posiciona o professor como mediador da atividade, aumentando a autonomia dos estudantes. Além disso os objetivos conceituais do uso do kit foram completamente atingidos. Apesar do trabalho ter sido produzido a alguns anos, mostra-se como uma ferramenta ainda promissora.

Artigo fonte: Bergqvist, L. P.; Prestes, S. B. S. (2014). Kit paleontológico: um material didático com abordagem investigativa, Ciência & Educação, vol. 20 no. 2, p. 345-357, DOI: 10.1590/1516-73132014000200006. <Clique aqui para acessar o artigo fonte>

Legenda e fonte da imagem: Exemplares dos moldes de fósseis proposto pelas autoras. (Figura extraído do artigo fonte.)

Os cavalos podem ter revolucionado a forma de entender a evolução?

16 de setembro de 2020

Por: Marcela Cristina Raso Mattos

A síntese evolutiva moderna proposta por Darwin não deixou muito espaço para a existência de outras hipóteses que explicam os fenômenos e os processos que envolvem a história da vida na Terra. Após a revolução Darwiniana diversas áreas do conhecimento foram afetadas, principalmente a ciência. Pensando que a paleontologia recria a história da vida na terra através de registros fossilíferos, pode-se imaginar como a evolução proposta por Darwin, deixou todos os paleontólogos do mundo loucos para provar ou contradizer essa teoria. Os pesquisadores então começaram uma nova jornada em busca de evidências que pudessem dar verificabilidade para essa nova suposição.

Felizmente essa jornada não foi muito longa, em meio a muita insegurança em aceitar a nova teoria de Darwin, sendo questionados cada detalhe de seu livro (A origem das espécies), um grupo taxonômico abasteceu os paleontólogos com uma abundância de fósseis. Os equídeos, agora podiam ter uma sequência evolutiva elaborada de forma completa. Para compor essa história os protagonistas foram os biólogos Huxley e Kovalevski, que defendiam a teoria da evolução, e o geólogo Gaudry que acreditava que “a natureza era operada pelo Criador de acordo com um plano capaz de refletir a harmonia da criação” (Felipe Faria, 2012). Huxley elaborou uma filogenia inicial para os cavalos utilizou ela como um argumento em defesa do evolucionismo. Gaudry escavou estratos do Mioceno e descobriu vários fósseis de equídeos, denominado Hipparion. Ele era um animal muito parecido com os cavalos atuais e possuía dedos laterais, uma característica vista em outros registros fosseis dos ungulados Anchitherium e o Palaeotherium. Kovalevsky então fez diversas comparações entre diversos equídeos (fósseis e viventes) e criou uma sequência evolutiva. Segundo Huxley essa era uma “evidência demonstrativa da evolução”.

De acordo com Kovalevsky a mudança da anatomia basal dos membros ocorreu devido a seleção de animais mais adaptados ao ambiente vegetal que foi modificado durante os anos. Antes do Neógeno — período da era Cenozoica que se iniciou há 23 milhões de anos a 2,6 milhões de anos — esses animais viviam em florestas e após as transformações ambientais se tornaram grandes pradarias. A resposta adaptativa vista foi a evolução do sistema motor que precisaria alcançar grandes velocidades para escapar dos predadores. Não apenas as patas e pernas sofreram adaptações ao longo da evolução como seus dentes. Sua alimentação também foi alterada e ao invés de folhas do ambiente florestal eles passaram a se alimentar de gramíneas. Essa resposta gerou uma dentição mais resistente ao desgaste e mais propicia a mastigação do novo alimento. “A evolução dos equídeos então foi uma inovação na representação visual do processo evolutivo, uma vez que o próprio Darwin havia utilizado esse recurso somente de forma esquemática” (Felipe Faria, 2012).

Artigo fonte: Felipe Faria. (2012). A revolução darwiniana na paleontologia e a ideia de progresso no processo evolutivo. Scientiae Studia, São Paulo, v. 10, n. 2, p. 297-326. <Clique aqui para acessar o artigo fonte>

Legenda e fonte da imagem: Imagem ilustrativa da árvore evolutiva geral dos Equídeos e as mudanças na anatomia esquelética distal do membro anterior. (Extraído do artigo de Nikos Solounias (2018). The evolution and anatomy of the horse manus with an emphasis on digit reduction. https://doi.org/10.1098/rsos.171782)

Paleontólogo desde pequeno

16 de setembro de 2020

Por: Carlos Giovanni C G Chitão

Todos nós quando mais novos já ouvimos a frase “O que você quer ser quando crescer?” as respostas são bem variadas, de astronauta, médico policial até taxista pintor e escalador de montanhas. Talvez você nunca tenha ouvido uma criança responder Paleontólogo, mas isso está prestes a mudar.

O trabalho publicado “A PALEONTOLOGIA NA EDUCAÇÃO INFANTIL: ALFABETIZANDO E CONSTRUINDO O CONHECIMENTO” mostra como as escolas estão se adaptando para tornar a Paleontologia mais acessível e prazerosa para o estudante da educação infantil.

O estudo relembra que os estudantes da Educação Infantil tem maior facilidade em se interessar por novas metodologias e novos temas dentro do ensino, porém aponta também uma negligência por parte dos docentes em relação ao tema ‘ Paleontologia’, o estudo propôs então uma nova forma de associar o tema paleontologia ao ensino de crianças do primeiro ao sexto ano.

Com a fabricação de uma linha do tempo que foi instalada no pátio da escola, gincanas e brincadeiras envolvendo o trabalho de um paleontólogo, como identificação de fósseis, foram propostas e muito bem aceitas pelos alunos, criação de réplicas em miniatura de dinossauros utilizando material reciclável foi o ponto alto de um ano com várias novas experiências para essa turma e para os professores.

Então depois desse aprendizado dos professores com os universitários, dos alunos com os professores, e da sociedade com os alunos, vemos que será bem mais comum uma criança sonhar em estudar e partilhar da vida pretérita, veremos muitas delas agora respondendo a pergunta que todos já ouviram, “o que quer ser quando crescer? – Paleontologo!”

Artigo fonte: Fernanda Torello de Mello, Luiz Henrique Cruz de Mello, Maria Beatriz de Freitas Torello. (2005). A paleotologia na educação infantil: alfabetizando e construindo conhecimento. Ciência & Educação, v. 11, n. 3, p. 395-410. <Clique aqui para acessar o artigo fonte>

Legenda e fonte da imagem: Linha do Tempo. (Imagem extraída do artigo fonte.)

Os dentes podem dizer a preferência alimentar

15 de setembro de 2020

Por: Rodrigo Dores

Cientistas analisaram a morfologia dentária de vertebrados, como peixes e répteis, do Cretáceo Superior e Paleoceno. Seres que pertenciam a Bacia da Paraíba e que por meio do estudo conseguiram apresentar possíveis hábitos alimentares para esses animais.

A pesquisa tem ponto central nas regiões entre Recife e Paraíba, onde se localiza a bacia sedimentar. Local de corriqueiros estudos paleontológicos devido a rica quantidade de fósseis já encontradas e estudadas por lá, que vão desde plantas fossilizadas a conteúdos ósseos e dentários de peixes e répteis. E através dessa dentição encontrada facilitou-se um maior estudo sobre possíveis dietas desses fósseis da região da bacia da Paraíba.

Para iniciar essa análise das placas e dentes coletados, os cientistas em parceria com UFPE e UFRPE, precisaram ser mais minuciosos e verificar características como a presença ou ausência de coroa e raiz dos dentes, a forma do esmalte e outras características diferentes. E assim, propuseram definições a respeito dos tipos de dentes (agarrador, esmagador, cortador perfurador e arrancador) isso tudo foi definido relacionando peixes, répteis e mamíferos marinhos viventes como tentativa para inferir os prováveis hábitos dos vertebrados da bacia.

Classificações científicas

Os cientistas conseguiram através de análises feitas dos dentes e estudos prévios elencar diferentes classificações e dietas alimentares para os vertebrados da bacia do paraíba, envolvendo classes de peixes e Reptilia. Por meio disso e do estudo morfológico da dentição, foram relacionados aos vertebrados, que provavelmente viviam nessa região. Como tubarões (Ginglymostoma e Odontaspis Tipo 1, na figura acima) classificados com dentição para esmagar e/ou perfurar as presas, as raias (Apocopodon, Myliobatis Tipo 2) com dentes usados para fragmentar, peixes ósseos e Reptilias (Enchodus, mosasaurus, crocodiloformes. Tipos 3, 4 e 5) com dentição para dominar e quebrar os ossos da presa.

Assim propuseram os hábitos alimentares desses vertebrados da bacia, em que tubarões poderiam se alimentar desde moluscos e crustáceos até peixes maiores e outros tubarões. Já as raias se alimentavam mais de invertebrados como os moluscos, e os peixes ósseos com os seus dentes trituradores tinham uma dieta que variava entre animais que possuem conchas como os bivalves, outros peixes menores e as lulas. Enquanto os répteis e os mosassauros, que eram considerados uns dos maiores predadores dos mares no Cretáceo, podiam ter uma alimentação incluindo peixes e outros répteis marinhos.

Cretáceo e Paleoceno

Os pesquisadores puderam concluir, por meio de relações das diversidades estudadas, em que os tubarões (agarrador, cortador e arrancador) predominaram no Cretáceo superior com representantes no Paleoceno. Enquanto raias e mosassauros (esmagador, triturador, agarrador e cortador) predominaram no Cretáceo e no Paleoceno.

Artigo fonte: Márcia Cristina da Silca, Alcina Magnólia Barreto, Ismar de Souza Carvalho e Marise Sardenberg Salgado de Carvalho. (2007) . Relação entre a Morfologia da Dentição e os Hábitos Alimentares dos Vertebrados da Bacia da Paraíba, Nordeste do Brasil. Editora Interciência. Paleontologia: Cenários de vida, v.1, p. 441-448. <Clique aqui para acessar o artigo fonte>

Legenda e fonte da imagem: Dentes encontrados na Bacia do paraíba. Tipo 1 – Tubarões Tipo 2 – Raias, peixes ósseos e mosassauros. Tipo 3 – Répteis Tipo 4 e 5 – Tubarões. (Imagem adaptada do artigo fonte.)