Bioestratigrafia de Nanofósseis calcários da Bacia do Baixo Tejo em Portugal*

17 de agosto de 2021

Por: Antonio Moncorvo Mascarenhas

*Texto publicado também no espaço biótico <confira aqui>

Um estudo recente publicado na Revista Brasileira de Paleontologia demonstrou a correlação histórica entre diferentes rochas sedimentares na bacia do rio Tejo em Portugal a partir da analise de nanofósseis calcários, assim como apresentou a taxonomia de distintos grupos fósseis encontrados na região.

Entendemos por nanofósseis calcários os fósseis de organismos predominantemente planctônicos menores que 30 μm (micrometros) compostos predominantemente por carbonato de cálcio que são subdivididos em nanolitos e cocólitos. Os cocólitos possuem forma discóide e formam envoltórios em algas unicelulares planctônicas marinhas. Enquanto isso os nanolitos possuem formas distintas e sua origem taxonômica ainda não é bastante exata. Isso se dá pelo fato de os nanolitos serem em sua maioria grupos extintos, o que dificulta a busca de parentesco com espécies atuais. O trabalho em questão utilizou dos nanofósseis calcários como fonte de estudo já que estes auxiliam nas interpretações bioestratigráficas referentes à bacia do rio Tejo, ou seja, atuam como bons fósseis guias (organismos abundantes com ampla distribuição, fácil identificação e grande capacidade de preservação). A bioestratigrafia, como já citado, consiste basicamente em uma área de estudo que busca analisar e medir a idade de rochas sedimentares através da analise dos fósseis encontrados em suas camadas.

Para que seja possível determinar o perfil estratigráfico a partir da analise de fósseis é importante conhecer a origem geológica do local de estudo. No caso da bacia do baixo Tejo sua origem é datada da época do Paleoceno (65M de anos atrás) quando ocorreram reativações de antigas fraturas que apenas foram preenchidas na época do Eoceno (57M de anos atrás) por uma grande quantidade de sedimentos advindos de leques aluviais. Com o inicio do mioceno (23M de anos atrás) ocorreu a invasão da bacia pelo Oceano Atlântico que também foi responsável por carregar diferentes sedimentos. Esses sedimentos que carregavam grande quantidade de macro e microfósseis, por sua vez, se juntaram com os sedimentos que lá já estavam. Os objetos de estudo desse trabalho são justamente os nanofósseis do mioceno.

A partir destes conhecimentos prévios sobre a formação geológica da região iniciou-se o trabalho dos pesquisadores João Paulo Lemos e Geize Oliveira da Universidade Federal do Oeste do Pará. Para tal, os cientistas coletaram 28 amostras espaçadas de 50cm a 80cm a procura de nanofósseis calcários, porém, infelizmente os matérias de estudo foram encontrados em apenas 4 das 28 amostras. Essas 4 amostras foram identificadas e a partir disso foi montado um perfil estratigráfico do local, como é possível observar na imagem abaixo. Na direita estão as 4 amostras com nanofósseis enquanto na esquerda está o perfil estratigráfico indicando onde cada uma das amostras se encontra em profundidade.

Identificar corretamente as espécies é uma tarefa importantíssima para a realização da datação bioestratigráfca uma vez que divisão de biozonas de intervalo depende disso. Nessas quatro amostras foram identificadas ao todo 19 espécies diferentes de nanofósseis (14 cocólitos, 4 nanolitos e 1 dinoflagelado calcário) que estão apresentados na imagem abaixo:

Espécies identificadas neste estudo: A, Helicosphaera ampliaperta; B, Helicosphaera carteri; C, Helicosphaera mediterranea; D, Pontosphaera multipora; E, Pontosphaera japonica; F, Cyclicargolithus floridanus; G, Reticulofenestra lockeri; H, Reticulofenestra minuta; I–J, Reticulofenestra haqii; K, Reticulofenestra producta; L, Reticulofenestra spp.; M–N, Coccolithus pelagicus; O,Calcidiscus spp.; P, Umbilicosphaera jafari; Q, Discoaster deflandrei; R, Discoaster druggii; S–V, Discoaster spp.; X, Sphenolithus moriformis; Y, Thoracosphaera spp.

Foi determinado o uso de biozonas já propostas em literaturas aceitas internacionalmente para a análise das espécies encontradas como é possível observar na tabela abaixo

As colunas com contorno vermelho indicam as biozonas determinadas enquanto as barras pretas contornadas de verde indicam o período que aquela espécie (cujo nome se encontra acima) viveu. Por exemplo, espécie Discoaster druggii surgiu no inicio de NN2/CN1 e se extinguiu ao final de NN3/CN2. Uma afirmação que podemos fazer é que as espécies encontradas viveram parte de sua existência no Burdigaliano Inferior/médio (região amarela circulada de azul) e essa é a grande conclusão desse trabalho. É interessante constatar que esse dado coincide com outros dados determinados por outros estudos na região.

Artigo fonte: Lemos, J. P. da S., & Oliveira, G. C. C. A. (2021). Nanofósseis calcários do Mioceno da Bacia do Baixo Tejo, Portugal. Revista Brasileira De Paleontologia, 24(1), 47-61. https://doi.org/10.4072/rbp.2021.1.04 <Clique aqui para acessar o artigo fonte>

Links para referências complementares:

https://teses.usp.br/teses/disponiveis/21/21133/tde-06112007- 112950/publico/NanofosseisCalcarios.pdf

https://www.mikrotax.org/Nannotax3/

http://www.cprm.gov.br/publique/CPRM-Divulga/Canal-Escola/Breve-Historia-da-Terra1094.html

https://www.paleontologianasaladeaula.com

Fonte das imagens: Artigo fonte.

Paleontologia em investigações criminais

10 de agosto de 2021

Por: Thana Lanna

Você sabia que a paleontologia pode ser aplicada em investigações criminais? A bioestratigrafia, análise de sedimentos e fácies, tafonomia, icnologia e prática de escavação são ferramentas básicas na educação e no treinamento de paleontólogos e podem ter aplicações na área forense. Relatarei aqui alguns casos nos quais foram utilizadas essas ferramentas que ajudaram a investigação.

Durante a Segunda Guerra Mundial o Japão enviou bombas de papel contendo areia para os Estados Unidos. Alguns destes sacos de areia foram encontrados e analisados para saberem ao certo de onde tinham sido enviadas as bombas. O sedimento era rico em diatomáceas, foraminíferos e moluscos e as analises revelaram que aquelas amostras não poderiam ser da América do Norte. A presença das diatomáceas indicaram que o local de origem deveria se tratar de uma praia, porém não haviam corais, o que restringiu a busca a uma latitude de 35° norte do Japão. Foram analisados então os foraminíferos que eram equivalentes aqueles presentes em Ichinomiya. Foi revelado depois que as bombas foram lançadas de 3 locais diferentes, inclusive Ichinomiya, como o material analisado foi de apenas um local não foi possível identificar os outros locais de origem das bombas através das analises do material.

Na investigação criminal sobre um garoto de 10 anos da Califórnia que foi sequestrado e depois foi solto em troca de resgate, o carro do sequestrador foi encontrado e analisado, encontraram uma pegada em um dos tapetes que revelou uma mistura de diatomáceas e fósseis marinhos e de água doce. A pesquisa mostrou que essa mistura era resultante de uma empresa que coletou as diatomáceas de água marinha em uma pedreira na Califórnia, depois a pedreira foi abandonada e por causa de inundações houve a formação de um lago que resultou em diatomáceas de água doce, por isso a mistura. Graças a esses microorganismos foi possível identificar o local onde o garoto foi mantido refém, e tudo isso graças ao trabalho de um paleontólogo que conseguiu fazer a identificação taxonômica correta das diatomáceas, o sequestrador foi condenado a prisão perpétua.

Em uma outra investigação criminal, no caso de estupro e assassinato de duas garotas na Inglaterra, foram utilizadas analises de um fragmento de uma formação geológica bem conhecida na região, que foi encontrada no carro do suspeito. As evidências de campo foram combinadas com bioestratigrafia para caracterizar os depósitos encontrados embaixo do carro do suspeito, e compará-los com a faixa de idade da formação geológica encontrada no local de depósito dos corpos. O carro foi associado com o local onde encontraram os cadáveres. Neste caso, assim como acontece em alguns outros, o paleontologista responsável pela análise disse que é difícil dizer com certeza que este material é único daquela região, e que o material encontrado no carro do suspeito só poderia ter vindo do local do depósito dos corpos e de nenhum outro lugar, apesar dele acreditar ter sido esse o caso. Este é o problema com a perícia paleontológica, normalmente é difícil dar certeza das suas respostas.

A paleontologia forense é muito utilizada em casos de crimes contra patrimonio cultural que estão cada vez mais frequentes já que o numero de colecionadores e pessoas inteeressadas em fósseis vem crescendo cada vez mais.

Em 2008 houve um caso de uma coleção ilegal de fósseis para o qual juiz nomeou consultores (paleontólogos) para responderem perguntas sobre o crime. As perguntas eram sobre se eram fósseis reais, qual o local de origem e qual o valor, isso para cada espécime. Claro que é extremamente difícil dizer com certeza de onde origina cada espécime. Outro problema era sobre a idade dos fósseis já que os paleontólogos utilizam períodos e épocas para medir a idade de um fóssil com nomes que não são comuns para os leigos neste assunto. E ainda tinha o valor dos fósseis que dependem de vários fatores como estado de conservação, raridade e demanda de mercado, um fóssil pode ser valioso para cientistas e não para colecionadores, e também ao contrário. As respostas foram então respondidas com base na experiência dos peritos.

Com base na experiência, treinamento, conhecimento e ferramentas úteis, a paleontologia pode ser utilizada para ajudar em investigações, mas ainda enfrenta diversas dificuldades para isso, como a dificuldade de comunicação, ter que usar linguagem adequada para o entendimento de todos, ter de simplificar suas explicações e são muitas vezes subestimados já que não podem dar certeza de muitas coisas, e sim basear na experiência.

Artigo fonte: E. Sacchi ;U. Nicosia (2013).Forensic Paleontology: A Tool for “Intelligence”and Investigation. J Forensic Sci, May 2013, Vol. 58, No. 3. DOI: 10.1111/1556-4029.12084 <Clique aqui para acessar o artigo fonte>

Fonte e legenda da imagem de capa: Faixa de cena de crime para ilustrar que estamos falando de investigações criminais. Extraída do WikiMedia. Autoria de Kat Wilcox <link>.

Fósseis de marsupiais encontrados no planalto brasileiro dão pistas sobre a última era glacial

12 de julho de 2021

Por: Guilherme Passos Avelar

Pesquisadores da UFRJ e UFPE encontraram 57 fragmentos ósseos em gruta calcária no estado do Tocantins.

Os restos fósseis do gênero Didelphidae foram coletados de um bloco de rocha calcária com idade estimada de 25 mil anos em um depósito na parede da sala principal da caverna de calcário, Gruta dos Moura, em Aurora de Tocantins (12 ° 42 ’47 “S e 46 ° 24′ 28” W), estado do Tocantins, norte do Brasil. Além dos fragmentos de ossos de didelfídeos, foi encontrado também um fragmento ósseo de uma espécie extinta de porco-do-mato (Catagonus stenocephalus). A Gruta tem grande desenvolvimento vertical e horizontal, os níveis superiores apresentam galerias com numerosos espeleotemas, mais conhecidos como estalactites e estalagmites. Os fósseis foram encontrados nos níveis inferiores que consistem em passagens estreitas que levam a água para o lençol freático e salas com poucos espeleotemas.

Outros estudos realizados na região que incluem incursões realizadas à Gruta do Urso, localizada nas proximidades, apresentam fauna fóssil da mesma idade (25 a 22 mil anos), e que sugerem assim como na Gruta dos Moura uma íntima associação com ambientes abertos e secos com alta abundância de fontes de água. Dentre a fauna, destacam-se mamíferos de regiões de pampa, capivaras, crocodilos e sucuris, além disso os porcos-do-mato do gênero Catagonus apresentavam características como rostro alongado, posição das orbitas oculares e redução dos dedos laterais que inferem que o animal caminhava por grandes áreas. Além disso, um dos espécimes encontrados pertence a um didelfídeo já extinto, do gênero Sairadelphys. Os estudos corroboram com a teoria da ultima do Último Máximo Glacial que se refere ao período de maior extensão dos mantos de gelo da última era glacial tendo em vista as condições climáticas e ambientais atuais da região, que são muito diferentes daquelas encontradas a 25 mil anos.

Artigo fonte: Vila Nova P, Avilla LS, Oliveira EV, 2015. Didelphidae marsupials (Mammalia, Didelphimorphia) from the Late Pleistocene deposit of the Gruta dos Moura Cave, northern Brazil. Anais da Academia Brasileira de Ciências v. 87 (01), p. 193-208. Doi: 10.1590/0001-3765201520140229 <Clique aqui para acessar o artigo fonte>

Fonte e legenda da imagem de capa: Ilustração da Era Glacial. Extraída do blog Iseu2021 <link>.

O mais recente fóssil de Leão das Cavernas (Panthera spelaea intermedia) encontrado na Itália

06 de julho de 2021

Por: Amanda Lorena Marques Rosa

Um grupo de pesquisadores da Universidade de Parma descobriu, em 2017, um fóssil de um Felídeo pertencente ao grupo Panthera (Leo) spp. em uma planície aluvial perto de Cremona, na Itália. O felídeo em questão é mais conhecido como “Leão das cavernas”, que chegava a pesar cerca de 400kg, sendo o macho consideravelmente maior do que a fêmea. Estes leões viviam em ambientes de clima frio e possuíam, supostamente, pelos espessos para fornecer o isolamento térmico.

O sítio arqueológico/ paleontológico da Itália onde este fóssil foi encontrado é famoso por importantes achados, em particular uma tíbia de leopardo, que foi descrita por pesquisadores também em 2017. O felídeo fóssil encontrado desta vez foi identificado como uma fêmea subadulta, com cerca de 130 quilos, de acordo com os dados morfométricos estudados pelos pesquisadores.

O fóssil de Panthera spelaea intermedia foi um importante achado paleontológico que atestou a presença deste predador de topo, o qual, segundo os cientistas, viveu no mesmo período que outros importantes mamíferos extintos do Pleistoceno, como Stephanorhinus kirchbergensis (rinoceronte), Elephas antiquus (elefante) e outros.

Artigo fonte: Persico, D.(2021) First fossil record of cave lion (Panthera (Leo) spelaea intermedia) from alluvial deposits of the Po River in northern Italy. Quaternary International. V. 586, p. 14-23 Doi: 10.1016/j.quaint.2021.02.029 <Clique aqui para acessar o artigo fonte>

Fonte e legenda da imagem de capa: Imagem artística de reconstrução do Leão das Cavernas encontrado na planície aluvial perto de Cremona. Por: Emilliano Troco. Extraída do artigo fonte.

Como você aprendeu ou ensina Paleontologia na escola?

08 de julho de 2021

Por: Maryana Batista

Pesquisadoras de universidades públicas do Rio de Janeiro analisaram 16 artigos científicos que abordavam o ensino prático da Paleontologia a fim de compilar métodos didáticos ministrados na área de Paleontologia na Educação Básica brasileira.

Você, professor, utiliza quais estratégias de ensino-aprendizagem para promover aos seus estudantes um maior interesse pela Paleontologia? Já se perguntou se existem estratégias mais ou menos eficientes? Considerando que a Paleontologia é uma ciência que possui grande importância para a compreensão sobre a origem e a evolução do nosso Planeta e também do tempo geológico, pensar nas boas práticas para a sua compreensão no contexto de sala de aula torna-se, por consequência, um fator essencial. O ensino desta área nas escolas é, na maioria das vezes, reduzido a assuntos pontuais, tais como a extinção dos dinossauros, sendo pouco relacionado com outras disciplinas e temáticas. Como formas de mostrar a aprendizagem da Paleontologia mais atrativa e estimulante aos estudantes, o uso de atividades diversificadas e diferenciadas torna-se um instrumento eficiente.

Por conta dessa demanda do ensino deficitário na área Paleontológica as autoras do artigo o qual inspirou a produção do presente texto analisaram artigos publicados em revistas científicas que apresentavam em seu conteúdo alguma aplicação de métodos didáticos para a aprendizagem desta ciência na Educação Básica. Dentre as atividades lúdicas encontradas na literatura, pode-se citar a aplicação de jogos de tabuleiro, tais como os que utilizam perguntas no que diz respeito ao tempo geológico ou, ainda, jogos mais estratégicos e competitivos; visitação a museus e parques fossilíferos, o que por sua vez é importante para revelar aos estudantes as diferenças e variações consequentes dos períodos históricos. Além disso, a contação de histórias, interatividade digital e oficinas de réplicas de fósseis foram outros métodos didáticos que merecem destaque.

De maneira geral, a análise de todos os trabalhos revisados mostrou que as atividades desempenhadas no ensino de Paleontologia na Educação Básica buscam promover a interação, espírito de equipe e curiosidade nos estudantes, em diferentes faixas de ensino. Por outro lado, métodos didáticos pouco investigativos e apenas informativos devem ser modificados por parte dos professores, tendo estes o papel de provocar em seus alunos o pensamento crítico, não somente a memorização de conceitos e acontecimentos no contexto escolar.

Artigo fonte: Dias, B.B.; Martins, R.M. (2018). Métodos Didáticos no Ensino da Paleontologia na Educação Básica do Brasil. Anuário do Instituto de Geociências – UFRJ, v. 41, p. 22-30. Doi: 10.11137/2018_2_22_30 <Clique aqui para acessar o artigo fonte>

Fonte e legenda da imagem de capa: Ensino-aprendizagem na educação básica. Extraída do site fundacred.org <link>

Nova espécie fóssil de peixe-boi encontrada no sudoeste amazonense

08 de julho de 2021

Por: Marina Foscolo

Os peixe-boi-marinhos (Trichechus Linnaeus) possuíam três espécies viventes reconhecidas, mas nenhuma espécie fóssil descrita. Entretanto, no artigo publicado por Perini, Nascimento e Cozzuol, foi reportada uma nova espécie fóssil de peixe-boi, datada do Pleistoceno Superior.

Este animal viveu na Bacia Amazônica, na região do Rio Madeira em Rondônia. Seu fóssil foi encontrado em 1990 em uma região de garimpo, sendo os achados um palato parcial com ambas as séries de molares e dois dentários direitos parciais.

Apenas em 2020 este mamífero foi reconhecido como uma nova espécie de peixe boi: Trichechus hesperamazonicus. Quando analisamos a etimologia do nome conseguimos entender o porquê dele ser assim: “hesper” significa “do oeste” e “amazonicus” significa “da amazônia“, enquanto Trichechus faz referência ao gênero do mamífero (peixe-boi).

Quando comparado as outras três espécies de peixe-boi (T. manatus ; T. inunguis e T. senegalensis), é especulado que o peixe-boi do oeste amazônico possua tamanho superior às demais espécies de peixe-boi, sendo seu porte comparado ao T. senegalensis.

As relações evolutivas (filogenéticas) entre as espécies não é conclusiva atualmente e é preciso que seja feito um estudo mais aprofundado sobre as estruturas (morfologia) e história evolutiva (filogenia) do grupo de peixe-boi. Quando foram analisados outros fósseis encontrados, algumas características que podiam ser comparadas aos do fóssil de T. hesperamazonicus estavam muito desgastadas ou não estavam presentes nos fósseis. Entretanto, o peixe-boi do oeste amazônico se difere das demais espécies por possuir características dentárias únicas, como uma fileira de dentes inclinada.

O T. hesperhamazonicus possuía grande distribuição no oeste amazônico, e é especulada que T. inunguis e T. hesperamazonicus tenham coexistido nos sistemas fluviais amazônicos por possuírem datação fóssil parecida.

Artigo fonte: Fernando A. Perini, Ednair Rodrigues Nascimento & Mario Alberto Cozzuol (2020): A new species of Trichechus Linnaeus, 1758 (Sirenia, Trichechidae), from the upper Pleistocene of southwestern Amazonia, and the evolution of Amazonian manatees, Journal of Vertebrate Paleontology, DOI: 10.1080/02724634.2019.1697882 <Clique aqui para acessar o artigo fonte>

Fonte e legenda da imagem de capa: Na figura disponibilizada no artigo, podemos comparar as características dentárias ente as espécies de Trichechus, evidenciando as características únicas de T. hesperamazonicus (A) e sua similaridade com as demais espécies: T. manatus (B); T. senegalensis (C) e T. inunguis (D).

Cobras morando em mamute contam como era o clima na Era do Gelo

06 de julho de 2021

Por: Victor Leone de Alcântara

Fósseis de cobras encontradas dentro de fósseis de mamutes são usados por cientistas do México para estimar as condições climáticas em região do centro do México durante o Pleistoceno, época que abrangeu o período conhecido como Era do Gelo.

Ao todo foram identificados 106 restos fósseis no sítio arqueológico de San José Buenavista, entre eles uma mandíbula de mamute (Mammut americanum), alguns poucos de outros répteis e a maioria de cobras que pertencem ao grupo da cascavel escura (Crotalus triseriatus), sendo que muitos destes foram encontrados dentro da mandíbula de mamute. Isso levanta a hipótese das cobras terem utilizado os restos do mamute como abrigo, sendo este o primeiro registro desta espécie de cobra e também deste tipo de comportamento que datam do Pleistoceno, demonstrando um novo tipo de influência da megafauna no ecossistema.

As cobras poderiam ter sido carregadas por algo até a mandíbula, mas a proposta das cobras terem usado a mandíbula como abrigo é embasada por investigações tafonômicas, sendo a Tafonomia a área da paleontologia que investiga os processos que ocorreram com um fóssil desde sua morte até sua descoberta.

Os fósseis das cobras também foram utilizados para inferir o paleoclima da região durante o Pleistoceno, sendo paleoclima o conjunto das condições climáticas em alguma era geológica. Fósseis de répteis são úteis para tal inferência pela maneira que este grupo responde a mudanças de temperatura e precipitação. Nesse processo utilizou-se a metodologia de MER (Mutual Ecogeographic Range), que consiste em estimar as condições ambientais nas quais um fóssil habitava com base em seus parentes viventes. Chegou-se a conclusão que o clima em que os fósseis viviam era mais frio (viviam no período glacial) e mais úmido.

Esse estudo demonstra a eficácia do MER e também a utilidade de fósseis de répteis para inferir as condições climáticas de uma região em um determinado período.

Artigo fonte: Cruz, José.Alberto., Alarcón-D, Ivá., Figueroa-Castro, Dulce.Marí. (2020). Fossil pigmy rattlesnake inside the mandible of an American mastodon and use of fossil reptiles for the paleoclimatic reconstruction of a Pleistocene locality in Puebla, Mexico, Quaternary International, v. 574, p. 116-126. Doi: 10.1016/j.quaint.2020.10.058 <Clique aqui para acessar o artigo fonte>

Fonte e legenda da imagem de capa: Representação de cobras usando restos de mamute como abrigo. Arte de Gerardo García Demeneghi. Extraída do artigo fonte.

Nova espécie de dinossauro que “causa medo” é descoberta na Argentina

06 de julho de 2021

Por: Taynara Aquino

Para os apaixonados por dinossauros, tem bicho novo na área! Pesquisadores argentinos publicaram na revista científica Journal of Vertebrate Paleontology, a descoberta de uma nova espécie de dinossauro. O fóssil de cerca de 80 milhões de anos foi desenterrado a aproximadamente 700 metros da Formação Bajo de la Carpa, na área fóssil La Invernada, região noroeste da Patagônia, na Argentina, perto do mesmo local onde foram encontrados os restos de Viavenator exxomi.

A espécie recém-descoberta recebeu o nome científico de Llukalkan aliocranianus, que significa respectivamente, “aquele que assusta ou causa medo” no idioma indígena mapuche, e “crânio diferente” em latim. Esse réptil vagava pelo nosso planeta durante o período do Cretáceo Superior, por volta de 80 milhões de anos atrás, época conhecida pela grande diversidade de dinossauros.

Figura 1: Local da descoberta do fóssil de Llukalkan aliocranianus. A, mapa da localização da área fóssil; B, materiais de campo; C, afloramentos da Formação Bajo de la Carpa. (Extraída do artigo fonte.)

O Llukalkan aliocranianus compreende os abelisaurídeos, uma família de ceratossauros terópodes de hábitos carnívoros e bípedes. Este espécime se assemelha a outro abeliasaurídeo furileusauriano, o Viavenator exxomi, em particular a anatomia endocranial, além de terem vivido na mesma localidade e período geológico. Apesar das semelhanças, o L. aliocranianus apresenta características suficientes para ser considerado um novo táxon. A provável coexistência destes dois táxons de abelisaurídeos, mostra que eles provavelmente estariam entre os principais predadores da Patagônia durante o Cretáceo Superior.

Os paleontólogos encontraram um crânio incompleto, levemente articulado com uma caixa craniana completa de L. aliocranianus. O crânio era curto, profundo e com ossos ásperos, envolto por cristas, protuberâncias e chifres. O olfato era apurado, os braços eram minúsculos, as garras eram imensas, os dentes eram extremamente afiados e tinham uma mordida potente. Acredita-se que essa criatura se locomovia verticalmente sobre os seus membros posteriores. E estima-se que esse animal podia chegar a pelo menos 5 metros de comprimento.

Figura 2: Reconstrução do crânio e mandíbula de Llukalkan aliocranianus. (Extraída do artigo fonte.)

A capacidade auditiva desta espécie é uma de suas características mais marcantes. Sua audição aguçada se deve a uma pequena concavidade cheia de ar na zona do ouvido médio, que representa um carácter exclusivo dos L. aliocranianus entre os abelisaurídeos. Esse animal possuía uma sensibilidade auditiva maior e melhor, que pode ser comprado à de um crocodilo moderno.

Os achados fósseis podem apoiar a possível diversificação desses dinossauros poucos milhões de anos antes do evento de extinção em massa do Cretáceo-Paleógeno (cerca de 65 milhões de anos atrás), que extinguiu grande parte dos seres vivos daquele período. A nova espécie sugere que a diversidade morfológica juntamente com a história evolutiva dos abelisaurídeos, encontra-se distante de ser bem interpretada.

Artigo fonte: Federico A. Gianechini, Ariel H. Méndez, Leonardo S. Filippi, Ariana Paulina-Carabajal, Rubén D. Juárez-Valieri & Alberto C. Garrido. (2021). A new furileusaurian abelisaurid from La Invernada (Upper Cretaceous, Santonian, Bajo de la Carpa Formation), northern Patagonia, Argentina. Journal of Vertebrate Paleontology, 40:6. DOI: 10.1080/02724634.2020.1877151 <Clique aqui para acessar o artigo fonte>

Fonte e legenda da imagem de capa: Representação artística do dinossauro da espécie Llukalkan aliocranianus. Arte de Jorge Blanco. Extraída do site EurekaAlert.org <link>.

E se a planta do passado falasse?

05 de julho de 2021

Por: Ana Kelly Oliveira

Você sabe o que é a paleobotânica? E se eu te contar que ela tem muito a dizer sobre as nossas plantas atuais e os rumos que tomaremos devido ao cenário de mudanças climáticas?

Figura 1: Imagem de um fóssil de Fagus sylvatica, por Didier Descouens

A paleobotânica é um ramo da paleontologia que estuda os fósseis dos vegetais que viveram na terra no passado distante, ela pode fornecer pistas preciosas para compreendermos a resposta vegetal às mudanças climáticas do passado e consequentemente nos auxiliar a entender situações semelhantes que possam vir a ocorrer com o clima da Terra no futuro. Afinal, como disse Heródoto: “Pensar o passado para compreender o presente e idealizar o futuro” (Fonte: https://kdfrases.com/frase/103243).

Plantas são seres autotróficos, sésseis e que fazem fotossíntese. Dentre as plantas terrestres são reconhecidos 4 grandes grupos: As Briófitas, as Pteridófitas, as Gimnosperma e as Angiospermas e estão divididas no registro fóssil dos últimos 420 milhões de anos, segundo suas fases evolutivas, em Paleofítica (plantas que possuíam esporos como as pteridófitas), Mesofítica (onde surgiu a reprodução baseada em sementes como gimnospermas) e Cenofítica (na qual aparecem as Angiospermas, que possuem flores). Vale ressaltar que as extinções de plantas em geral não coincidem com a extinção em massa da fauna que caracteriza o início e fim das eras.

Figura 2: A vegetação terrestre ao longo das eras geológicas. Imagem extraída do artigo fonte.

Mas… antes de mais nada, como o cenário de mudanças climáticas afeta o desenvolvimento vegetal?

As mudanças climáticas podem afetar os vegetais de diversas formas. Com o aumento da concentração de gás carbônico é possível que haja maior aumento da aridez de diversos biomas, aumento da quantidade de luz que chega na terra (devido aos danos à camada de ozônio) e sobretudo um aumento da temperatura, o que poderia ocasionar grandes perdas da biodiversidade segundo algumas previsões. Entretanto, de acordo com o registro fóssil pode ser que a história não seja bem assim.

Segundo o registro fóssil, a terra já experimentou diversas variações climáticas e ambientais. Hora as concentrações de gases CO2 eram exorbitantes, hora estavam em níveis bem abaixo dos atuais, hora passava por períodos de temperaturas extremamente altas e hora estava em uma era do gelo. Durante os últimos 420 milhões de anos as espécies vegetais surgiram, cresceram e se desenvolveram sob essas condições, o que levou especialistas, de acordo com o estudo fóssil, a acreditar que a vegetação da Terra é muito mais resistente às mudanças climáticas globais do que se acreditava anteriormente. Sendo assim, apesar do planeta já ter passado por essas grandes variações que em geral foram muito maiores (em termos de magnitude) do que é projetado, o grande X da questão é o tempo com o qual essas mudanças estão ocorrendo. Ao passo que, naturalmente eles ocorreram em um período de tempo longo, graças a ação antrópica as mudanças climáticas globais atuais não possuem precedentes justamente por estarem ocorrendo em um período de tempo extremamente curto.

As plantas possuem diversos mecanismos fisiológicos que as permitem se adaptar a diversas condições, como já ocorreu diversas vezes no passado. É possível que as nossas plantas atuais possam se adaptar a condições climáticas futuras desde que elas tenham tempo suficiente para isso. Entretanto, em um futuro cenário de mudanças climáticas abruptas, geologicamente falando, é esperado que os padrões de distribuição geográfica sejam drasticamente alterados e impulsionados pela migração das espécies, segundo achados dos registros fósseis, sendo possível até mesmo o estabelecimento de florestas nas regiões polares sob altas concentrações de gás carbônico, como aconteceu com o Ártico durante o Eoceno segundo evidências do registro fóssil.

Por fim, vale lembrar, que o registro fóssil é falho por existir diversas lacunas, ou seja, ele é incompleto, sendo também a variação da escala temporal uma problemática. Ressalta-se ainda a necessidade de traçarmos caminhos mais sustentáveis, a fim de possibilitar que nossos biomas naturais possuam condições e tempo hábil para a evolução e adaptação aos cenários de mudanças globais futuras.

Artigo fonte: MCELWAIN, Jennifer C. 2018. Paleobotany and global change: Important lessons for species to biomes from vegetation responses to past global change. Annual review of plant biology, v. 69, p. 761-787. DOI: 10.1146/annurev-arplant-042817-040405 <Clique aqui para acessar o artigo fonte>

Fonte e legenda da imagem de capa: Imagem de um fóssil de Fagus sylvatica, por Didier Descouens. Extraída do site biologo.com.br/paleobotanica/ <link>.

Grande intercambio americano, por que a América do Sul perdeu?

04 de junho de 2021

Por: Gabriel Luiz

O grande intercambio americano foi um dos maiores eventos de invasão biológica natural, onde inúmeros grupos de animais nativos de ambas as Américas migraram de norte a sul e vice-versa, originando a fauna hoje observada nesses locais. O evento provavelmente teve início há aproximadamente 10 milhões de anos, quando a região da atual América Central ainda era apenas um conjunto de ilhas, mas se intensificou há 3 milhões de anos, quando erupções vulcânicas deram origem ao atual Istmo do Panamá. Uma característica marcante nesse evento é uma clara predominância de grupos animais norte-americanos em detrimento dos grupos sul-americanos, mas a razão disso ainda hoje é desconhecida.

Para elucidar tal mistério, um artigo publicado em 2020 pela Universidade de Gotemburgo, Suécia, apresenta 4 mecanismos não excludentes que tentam explicar a predominância dos grupos norte-americanos, sendo eles: 1) maior taxa de dispersão (definida como o número esperado de eventos de dispersão por gênero por milhão de ano) da América do Norte para a América do Sul (Fig 1A); 2) maior origem de mamíferos de origem norte-americana na América do Sul (Fig 1B); 3) maior extinção de mamíferos com origem na América do Sul (Fig 1C); e 4) taxa de dispersão semelhante, mas um pool maior de taxa de dispersão da América do Norte para a América do Sul do que vice-versa (Fig. 1D).

Figura 1: Os 4 mecanismos propostos para se estudar as possibilidades resultantes do grande intercâmbio faunístico, nas américas.

Por meio da análise do registro fóssil em ambas as regiões e utilizando os gêneros como medida avaliativa, os autores descartaram os mecanismos 1 e 2, já que foi observada que as faunas de ambos os continentes tinham níveis de diversificação muito parecidos antes e durante o intercambio. Para os mecanismos 3 e 4, foram encontradas mais evidências que as suportem, principalmente devido a dois grupos originários da América do Norte, os Artiodactyla (Camelos e vacas) e Carnivora (Ursos e gatos). Foi observado no registro fóssil que os principais predadores da América do Sul no período, os marsupiais Sparassodonta, estavam em processo de extinção durante o Evento, sendo substituídos pelos placentários Carnivora vindos do Norte, que levou a uma pressão muito grande nos grupos de herbívoros nativos, que tinham de lidar tanto com predadores novos quanto novos competidores dos mesmos nichos, os Artiodactyla. Toda essa competição, levou a uma maior extinção de gêneros do Sul, diminuindo a capacidade de esses dispersarem para o Norte, levando a diferença observada nas faunas nos períodos subsequentes.

Tabela 1: Diversidade de mamíferos nativos na América do Norte e a diversidade de mamíferos migrantes na América do Sul.

Estudos como esse são de extrema importância para os dias de hoje, onde eventos de invasões biológicas estão se tornando cada vez mais comuns, devido à expansão humana por todos os ambientes do planeta, e com ela, inúmeras espécies vem de carona. Entender como o grande intercambio americano ocorreu e como ele afetou o ambiente de ambas as Américas podem nos ajudar e prever como as espécies que introduzimos nos mais diversos ambientes vão influenciar a fauna local e como podemos impedir que grandes extinções ocorram, mitigando mesmo que um pouco, seu impacto.

Artigo fonte: CARRILLO, Juan D. et al. Disproportionate extinction of South American mammals drove the asymmetry of the Great American Biotic Interchange. Proceedings of the National Academy of Sciences, v. 117, n. 42, p. 26281-26287, 2020. DOI: 10.1073/pnas.2009397117 <Clique aqui para acessar o artigo fonte>

Fonte da imagem e tabela: Extraídas do artigo fonte.