E se a planta do passado falasse?

05 de julho de 2021

Por: Ana Kelly Oliveira

Você sabe o que é a paleobotânica? E se eu te contar que ela tem muito a dizer sobre as nossas plantas atuais e os rumos que tomaremos devido ao cenário de mudanças climáticas?

Figura 1: Imagem de um fóssil de Fagus sylvatica, por Didier Descouens

A paleobotânica é um ramo da paleontologia que estuda os fósseis dos vegetais que viveram na terra no passado distante, ela pode fornecer pistas preciosas para compreendermos a resposta vegetal às mudanças climáticas do passado e consequentemente nos auxiliar a entender situações semelhantes que possam vir a ocorrer com o clima da Terra no futuro. Afinal, como disse Heródoto: “Pensar o passado para compreender o presente e idealizar o futuro” (Fonte: https://kdfrases.com/frase/103243).

Plantas são seres autotróficos, sésseis e que fazem fotossíntese. Dentre as plantas terrestres são reconhecidos 4 grandes grupos: As Briófitas, as Pteridófitas, as Gimnosperma e as Angiospermas e estão divididas no registro fóssil dos últimos 420 milhões de anos, segundo suas fases evolutivas, em Paleofítica (plantas que possuíam esporos como as pteridófitas), Mesofítica (onde surgiu a reprodução baseada em sementes como gimnospermas) e Cenofítica (na qual aparecem as Angiospermas, que possuem flores). Vale ressaltar que as extinções de plantas em geral não coincidem com a extinção em massa da fauna que caracteriza o início e fim das eras.

Figura 2: A vegetação terrestre ao longo das eras geológicas. Imagem extraída do artigo fonte.

Mas… antes de mais nada, como o cenário de mudanças climáticas afeta o desenvolvimento vegetal?

As mudanças climáticas podem afetar os vegetais de diversas formas. Com o aumento da concentração de gás carbônico é possível que haja maior aumento da aridez de diversos biomas, aumento da quantidade de luz que chega na terra (devido aos danos à camada de ozônio) e sobretudo um aumento da temperatura, o que poderia ocasionar grandes perdas da biodiversidade segundo algumas previsões. Entretanto, de acordo com o registro fóssil pode ser que a história não seja bem assim.

Segundo o registro fóssil, a terra já experimentou diversas variações climáticas e ambientais. Hora as concentrações de gases CO2 eram exorbitantes, hora estavam em níveis bem abaixo dos atuais, hora passava por períodos de temperaturas extremamente altas e hora estava em uma era do gelo. Durante os últimos 420 milhões de anos as espécies vegetais surgiram, cresceram e se desenvolveram sob essas condições, o que levou especialistas, de acordo com o estudo fóssil, a acreditar que a vegetação da Terra é muito mais resistente às mudanças climáticas globais do que se acreditava anteriormente. Sendo assim, apesar do planeta já ter passado por essas grandes variações que em geral foram muito maiores (em termos de magnitude) do que é projetado, o grande X da questão é o tempo com o qual essas mudanças estão ocorrendo. Ao passo que, naturalmente eles ocorreram em um período de tempo longo, graças a ação antrópica as mudanças climáticas globais atuais não possuem precedentes justamente por estarem ocorrendo em um período de tempo extremamente curto.

As plantas possuem diversos mecanismos fisiológicos que as permitem se adaptar a diversas condições, como já ocorreu diversas vezes no passado. É possível que as nossas plantas atuais possam se adaptar a condições climáticas futuras desde que elas tenham tempo suficiente para isso. Entretanto, em um futuro cenário de mudanças climáticas abruptas, geologicamente falando, é esperado que os padrões de distribuição geográfica sejam drasticamente alterados e impulsionados pela migração das espécies, segundo achados dos registros fósseis, sendo possível até mesmo o estabelecimento de florestas nas regiões polares sob altas concentrações de gás carbônico, como aconteceu com o Ártico durante o Eoceno segundo evidências do registro fóssil.

Por fim, vale lembrar, que o registro fóssil é falho por existir diversas lacunas, ou seja, ele é incompleto, sendo também a variação da escala temporal uma problemática. Ressalta-se ainda a necessidade de traçarmos caminhos mais sustentáveis, a fim de possibilitar que nossos biomas naturais possuam condições e tempo hábil para a evolução e adaptação aos cenários de mudanças globais futuras.

Artigo fonte: MCELWAIN, Jennifer C. 2018. Paleobotany and global change: Important lessons for species to biomes from vegetation responses to past global change. Annual review of plant biology, v. 69, p. 761-787. DOI: 10.1146/annurev-arplant-042817-040405 <Clique aqui para acessar o artigo fonte>

Fonte e legenda da imagem de capa: Imagem de um fóssil de Fagus sylvatica, por Didier Descouens. Extraída do site biologo.com.br/paleobotanica/ <link>.

Publicado por Alexandre Liparini

Mineiro, gaúcho, sergipano, e por que não, alemão? No caminho sempre a paleontologia como paixão e agora como profissão. Adora dar aulas e pesquisar sobre origens e evolução. Se esse for o tema, podem perguntar, por que não?

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