Grande intercambio americano, por que a América do Sul perdeu?

04 de junho de 2021

Por: Gabriel Luiz

O grande intercambio americano foi um dos maiores eventos de invasão biológica natural, onde inúmeros grupos de animais nativos de ambas as Américas migraram de norte a sul e vice-versa, originando a fauna hoje observada nesses locais. O evento provavelmente teve início há aproximadamente 10 milhões de anos, quando a região da atual América Central ainda era apenas um conjunto de ilhas, mas se intensificou há 3 milhões de anos, quando erupções vulcânicas deram origem ao atual Istmo do Panamá. Uma característica marcante nesse evento é uma clara predominância de grupos animais norte-americanos em detrimento dos grupos sul-americanos, mas a razão disso ainda hoje é desconhecida.

Para elucidar tal mistério, um artigo publicado em 2020 pela Universidade de Gotemburgo, Suécia, apresenta 4 mecanismos não excludentes que tentam explicar a predominância dos grupos norte-americanos, sendo eles: 1) maior taxa de dispersão (definida como o número esperado de eventos de dispersão por gênero por milhão de ano) da América do Norte para a América do Sul (Fig 1A); 2) maior origem de mamíferos de origem norte-americana na América do Sul (Fig 1B); 3) maior extinção de mamíferos com origem na América do Sul (Fig 1C); e 4) taxa de dispersão semelhante, mas um pool maior de taxa de dispersão da América do Norte para a América do Sul do que vice-versa (Fig. 1D).

Figura 1: Os 4 mecanismos propostos para se estudar as possibilidades resultantes do grande intercâmbio faunístico, nas américas.

Por meio da análise do registro fóssil em ambas as regiões e utilizando os gêneros como medida avaliativa, os autores descartaram os mecanismos 1 e 2, já que foi observada que as faunas de ambos os continentes tinham níveis de diversificação muito parecidos antes e durante o intercambio. Para os mecanismos 3 e 4, foram encontradas mais evidências que as suportem, principalmente devido a dois grupos originários da América do Norte, os Artiodactyla (Camelos e vacas) e Carnivora (Ursos e gatos). Foi observado no registro fóssil que os principais predadores da América do Sul no período, os marsupiais Sparassodonta, estavam em processo de extinção durante o Evento, sendo substituídos pelos placentários Carnivora vindos do Norte, que levou a uma pressão muito grande nos grupos de herbívoros nativos, que tinham de lidar tanto com predadores novos quanto novos competidores dos mesmos nichos, os Artiodactyla. Toda essa competição, levou a uma maior extinção de gêneros do Sul, diminuindo a capacidade de esses dispersarem para o Norte, levando a diferença observada nas faunas nos períodos subsequentes.

Tabela 1: Diversidade de mamíferos nativos na América do Norte e a diversidade de mamíferos migrantes na América do Sul.

Estudos como esse são de extrema importância para os dias de hoje, onde eventos de invasões biológicas estão se tornando cada vez mais comuns, devido à expansão humana por todos os ambientes do planeta, e com ela, inúmeras espécies vem de carona. Entender como o grande intercambio americano ocorreu e como ele afetou o ambiente de ambas as Américas podem nos ajudar e prever como as espécies que introduzimos nos mais diversos ambientes vão influenciar a fauna local e como podemos impedir que grandes extinções ocorram, mitigando mesmo que um pouco, seu impacto.

Artigo fonte: CARRILLO, Juan D. et al. Disproportionate extinction of South American mammals drove the asymmetry of the Great American Biotic Interchange. Proceedings of the National Academy of Sciences, v. 117, n. 42, p. 26281-26287, 2020. DOI: 10.1073/pnas.2009397117 <Clique aqui para acessar o artigo fonte>

Fonte da imagem e tabela: Extraídas do artigo fonte.

Publicado por Alexandre Liparini

Mineiro, gaúcho, sergipano, e por que não, alemão? No caminho sempre a paleontologia como paixão e agora como profissão. Adora dar aulas e pesquisar sobre origens e evolução. Se esse for o tema, podem perguntar, por que não?

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