Bioestratigrafia de Nanofósseis calcários da Bacia do Baixo Tejo em Portugal*

17 de agosto de 2021

Por: Antonio Moncorvo Mascarenhas

*Texto publicado também no espaço biótico <confira aqui>

Um estudo recente publicado na Revista Brasileira de Paleontologia demonstrou a correlação histórica entre diferentes rochas sedimentares na bacia do rio Tejo em Portugal a partir da analise de nanofósseis calcários, assim como apresentou a taxonomia de distintos grupos fósseis encontrados na região.

Entendemos por nanofósseis calcários os fósseis de organismos predominantemente planctônicos menores que 30 μm (micrometros) compostos predominantemente por carbonato de cálcio que são subdivididos em nanolitos e cocólitos. Os cocólitos possuem forma discóide e formam envoltórios em algas unicelulares planctônicas marinhas. Enquanto isso os nanolitos possuem formas distintas e sua origem taxonômica ainda não é bastante exata. Isso se dá pelo fato de os nanolitos serem em sua maioria grupos extintos, o que dificulta a busca de parentesco com espécies atuais. O trabalho em questão utilizou dos nanofósseis calcários como fonte de estudo já que estes auxiliam nas interpretações bioestratigráficas referentes à bacia do rio Tejo, ou seja, atuam como bons fósseis guias (organismos abundantes com ampla distribuição, fácil identificação e grande capacidade de preservação). A bioestratigrafia, como já citado, consiste basicamente em uma área de estudo que busca analisar e medir a idade de rochas sedimentares através da analise dos fósseis encontrados em suas camadas.

Para que seja possível determinar o perfil estratigráfico a partir da analise de fósseis é importante conhecer a origem geológica do local de estudo. No caso da bacia do baixo Tejo sua origem é datada da época do Paleoceno (65M de anos atrás) quando ocorreram reativações de antigas fraturas que apenas foram preenchidas na época do Eoceno (57M de anos atrás) por uma grande quantidade de sedimentos advindos de leques aluviais. Com o inicio do mioceno (23M de anos atrás) ocorreu a invasão da bacia pelo Oceano Atlântico que também foi responsável por carregar diferentes sedimentos. Esses sedimentos que carregavam grande quantidade de macro e microfósseis, por sua vez, se juntaram com os sedimentos que lá já estavam. Os objetos de estudo desse trabalho são justamente os nanofósseis do mioceno.

A partir destes conhecimentos prévios sobre a formação geológica da região iniciou-se o trabalho dos pesquisadores João Paulo Lemos e Geize Oliveira da Universidade Federal do Oeste do Pará. Para tal, os cientistas coletaram 28 amostras espaçadas de 50cm a 80cm a procura de nanofósseis calcários, porém, infelizmente os matérias de estudo foram encontrados em apenas 4 das 28 amostras. Essas 4 amostras foram identificadas e a partir disso foi montado um perfil estratigráfico do local, como é possível observar na imagem abaixo. Na direita estão as 4 amostras com nanofósseis enquanto na esquerda está o perfil estratigráfico indicando onde cada uma das amostras se encontra em profundidade.

Identificar corretamente as espécies é uma tarefa importantíssima para a realização da datação bioestratigráfca uma vez que divisão de biozonas de intervalo depende disso. Nessas quatro amostras foram identificadas ao todo 19 espécies diferentes de nanofósseis (14 cocólitos, 4 nanolitos e 1 dinoflagelado calcário) que estão apresentados na imagem abaixo:

Espécies identificadas neste estudo: A, Helicosphaera ampliaperta; B, Helicosphaera carteri; C, Helicosphaera mediterranea; D, Pontosphaera multipora; E, Pontosphaera japonica; F, Cyclicargolithus floridanus; G, Reticulofenestra lockeri; H, Reticulofenestra minuta; I–J, Reticulofenestra haqii; K, Reticulofenestra producta; L, Reticulofenestra spp.; M–N, Coccolithus pelagicus; O,Calcidiscus spp.; P, Umbilicosphaera jafari; Q, Discoaster deflandrei; R, Discoaster druggii; S–V, Discoaster spp.; X, Sphenolithus moriformis; Y, Thoracosphaera spp.

Foi determinado o uso de biozonas já propostas em literaturas aceitas internacionalmente para a análise das espécies encontradas como é possível observar na tabela abaixo

As colunas com contorno vermelho indicam as biozonas determinadas enquanto as barras pretas contornadas de verde indicam o período que aquela espécie (cujo nome se encontra acima) viveu. Por exemplo, espécie Discoaster druggii surgiu no inicio de NN2/CN1 e se extinguiu ao final de NN3/CN2. Uma afirmação que podemos fazer é que as espécies encontradas viveram parte de sua existência no Burdigaliano Inferior/médio (região amarela circulada de azul) e essa é a grande conclusão desse trabalho. É interessante constatar que esse dado coincide com outros dados determinados por outros estudos na região.

Artigo fonte: Lemos, J. P. da S., & Oliveira, G. C. C. A. (2021). Nanofósseis calcários do Mioceno da Bacia do Baixo Tejo, Portugal. Revista Brasileira De Paleontologia, 24(1), 47-61. https://doi.org/10.4072/rbp.2021.1.04 <Clique aqui para acessar o artigo fonte>

Links para referências complementares:

https://teses.usp.br/teses/disponiveis/21/21133/tde-06112007- 112950/publico/NanofosseisCalcarios.pdf

https://www.mikrotax.org/Nannotax3/

http://www.cprm.gov.br/publique/CPRM-Divulga/Canal-Escola/Breve-Historia-da-Terra1094.html

https://www.paleontologianasaladeaula.com

Fonte das imagens: Artigo fonte.

Publicado por Alexandre Liparini

Mineiro, gaúcho, sergipano, e por que não, alemão? No caminho sempre a paleontologia como paixão e agora como profissão. Adora dar aulas e pesquisar sobre origens e evolução. Se esse for o tema, podem perguntar, por que não?

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