Paleontologia em investigações criminais

10 de agosto de 2021

Por: Thana Lanna

Você sabia que a paleontologia pode ser aplicada em investigações criminais? A bioestratigrafia, análise de sedimentos e fácies, tafonomia, icnologia e prática de escavação são ferramentas básicas na educação e no treinamento de paleontólogos e podem ter aplicações na área forense. Relatarei aqui alguns casos nos quais foram utilizadas essas ferramentas que ajudaram a investigação.

Durante a Segunda Guerra Mundial o Japão enviou bombas de papel contendo areia para os Estados Unidos. Alguns destes sacos de areia foram encontrados e analisados para saberem ao certo de onde tinham sido enviadas as bombas. O sedimento era rico em diatomáceas, foraminíferos e moluscos e as analises revelaram que aquelas amostras não poderiam ser da América do Norte. A presença das diatomáceas indicaram que o local de origem deveria se tratar de uma praia, porém não haviam corais, o que restringiu a busca a uma latitude de 35° norte do Japão. Foram analisados então os foraminíferos que eram equivalentes aqueles presentes em Ichinomiya. Foi revelado depois que as bombas foram lançadas de 3 locais diferentes, inclusive Ichinomiya, como o material analisado foi de apenas um local não foi possível identificar os outros locais de origem das bombas através das analises do material.

Na investigação criminal sobre um garoto de 10 anos da Califórnia que foi sequestrado e depois foi solto em troca de resgate, o carro do sequestrador foi encontrado e analisado, encontraram uma pegada em um dos tapetes que revelou uma mistura de diatomáceas e fósseis marinhos e de água doce. A pesquisa mostrou que essa mistura era resultante de uma empresa que coletou as diatomáceas de água marinha em uma pedreira na Califórnia, depois a pedreira foi abandonada e por causa de inundações houve a formação de um lago que resultou em diatomáceas de água doce, por isso a mistura. Graças a esses microorganismos foi possível identificar o local onde o garoto foi mantido refém, e tudo isso graças ao trabalho de um paleontólogo que conseguiu fazer a identificação taxonômica correta das diatomáceas, o sequestrador foi condenado a prisão perpétua.

Em uma outra investigação criminal, no caso de estupro e assassinato de duas garotas na Inglaterra, foram utilizadas analises de um fragmento de uma formação geológica bem conhecida na região, que foi encontrada no carro do suspeito. As evidências de campo foram combinadas com bioestratigrafia para caracterizar os depósitos encontrados embaixo do carro do suspeito, e compará-los com a faixa de idade da formação geológica encontrada no local de depósito dos corpos. O carro foi associado com o local onde encontraram os cadáveres. Neste caso, assim como acontece em alguns outros, o paleontologista responsável pela análise disse que é difícil dizer com certeza que este material é único daquela região, e que o material encontrado no carro do suspeito só poderia ter vindo do local do depósito dos corpos e de nenhum outro lugar, apesar dele acreditar ter sido esse o caso. Este é o problema com a perícia paleontológica, normalmente é difícil dar certeza das suas respostas.

A paleontologia forense é muito utilizada em casos de crimes contra patrimonio cultural que estão cada vez mais frequentes já que o numero de colecionadores e pessoas inteeressadas em fósseis vem crescendo cada vez mais.

Em 2008 houve um caso de uma coleção ilegal de fósseis para o qual juiz nomeou consultores (paleontólogos) para responderem perguntas sobre o crime. As perguntas eram sobre se eram fósseis reais, qual o local de origem e qual o valor, isso para cada espécime. Claro que é extremamente difícil dizer com certeza de onde origina cada espécime. Outro problema era sobre a idade dos fósseis já que os paleontólogos utilizam períodos e épocas para medir a idade de um fóssil com nomes que não são comuns para os leigos neste assunto. E ainda tinha o valor dos fósseis que dependem de vários fatores como estado de conservação, raridade e demanda de mercado, um fóssil pode ser valioso para cientistas e não para colecionadores, e também ao contrário. As respostas foram então respondidas com base na experiência dos peritos.

Com base na experiência, treinamento, conhecimento e ferramentas úteis, a paleontologia pode ser utilizada para ajudar em investigações, mas ainda enfrenta diversas dificuldades para isso, como a dificuldade de comunicação, ter que usar linguagem adequada para o entendimento de todos, ter de simplificar suas explicações e são muitas vezes subestimados já que não podem dar certeza de muitas coisas, e sim basear na experiência.

Artigo fonte: E. Sacchi ;U. Nicosia (2013).Forensic Paleontology: A Tool for “Intelligence”and Investigation. J Forensic Sci, May 2013, Vol. 58, No. 3. DOI: 10.1111/1556-4029.12084 <Clique aqui para acessar o artigo fonte>

Fonte e legenda da imagem de capa: Faixa de cena de crime para ilustrar que estamos falando de investigações criminais. Extraída do WikiMedia. Autoria de Kat Wilcox <link>.

Publicado por Alexandre Liparini

Mineiro, gaúcho, sergipano, e por que não, alemão? No caminho sempre a paleontologia como paixão e agora como profissão. Adora dar aulas e pesquisar sobre origens e evolução. Se esse for o tema, podem perguntar, por que não?

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