Aplicando a prática em Paleontologia na Educação Básica

22 de novembro de 2021

Por: Thaywane Soares

A Paleontologia é uma ciência que aborda conceitos básicos sobre o aparecimento e desenvolvimento de vida no planeta Terra. A prática da mesma pode ser considerada de grande importância para pequenos estudantes, visto que o conhecimento prévio, bem como o estudo da evolução, agrega bastante na educação e conhecimento dos alunos. Todavia, tal estudo é precário no Ensino Básico Escolar.

A partir disso, Willian Lando Czeikoski, Aline de Godoy e Kétini Mafalda Sacon Baccin, todos graduandos em Ciências Biológicas – Licenciatura, pela Universidade Federal de Caxias do Sul, bolsistas de Pibid/Capes, fizeram uma pesquisa através da Escola Estadual de Ensino Médio Mestre Santa Bárbara, com o objetivo de criar uma estratégia de ensino prático em Paleontologia. O objetivo da pesquisa é dar maior relevância ao estudo da paleontologia, bem como atribuir atividades didáticas que atraem os alunos, para um melhor ensinamento da Paleontologia.

Primeiramente, é discutido a importância do ensino da Paleontologia no Ensino Básico Escolar e se está de acordo com os parâmetros curriculares nacionais (PNC). A relevância de seus conteúdos é apresentada através de uma oficina de réplica de fósseis, o que deve atrair atenção de estudantes. Aula prática, com o ensino daquilo que é desconhecido, pode ser um método muito interessante e que desperta a curiosidade e imaginação dos alunos.

Posteriormente, através da pesquisa com a prática, é sugerido se abordar o ensino dos conceitos da Paleontologia, pois, é uma interface entre as Ciências Biológicas e as Geociências, que estuda os animais e vegetais que viveram no passado, através da análise de fósseis. Assim, o estudo prático prévio, favorece a aprendizagem de forma leve, didática e facilita a comunicação entre alunos e professores acerca do assunto.

Portanto, essa pesquisa se mostrou de suma importância para abordagem de um conteúdo tão complexo no ensino básico escolar. A forma fácil, prática e didática de como foi abordada a Paleontologia, poderá abrir ideias e estratégias aos docentes para abordar de uma melhor maneira o assunto em questão. Assim, o aluno se interessando sobre o tema, tornando a aula mais interessante, consequentemente, os professores terão mais prazer em lecionar sobre a Paleontologia.

Artigo fonte: Czeikoski, W. L.; Godoy, A.; Baccin, K. M. S. (2015). Estratégia prática para ensino de paleontologia. Retratos de uma trajetória: Pibid/UCS – 2014 a 2018, v. 02, p. 75-82. <Clique aqui para acessar o artigo fonte>

Fonte e legenda da imagem de capa: Atividade prática de paleontologia realizada pelos alunos. Imagem extraída do artigo fonte.

Aranha fóssil repatriada é nomeada em homenagem à Pabllo Vittar

23 de novembro de 2021

Por: Samuel Assad Castro Coury

Palpimanidae é uma família de aranhas terrestres e noturnas comumente encontradas em regiões tropicais e subtropicais. São poucas as espécies descritas, principalmente por serem pouco estudadas, entretanto recentemente foi encontrado o fóssil do membro mais antigo dessa família nas américas: Cretapalpus vittar.

Primeiramente vamos falar sobre essa família de aranhas: são conhecidas por ter hábitos noturnos, possuindo uma cutícula muito espessa por todo o corpo, exceto no opistossoma (“bundinha” da aranha). Elas também possuem as pernas da frente maiores, característica que favorece com que elas predem outras aranhas e ainda assim consigam evitar mordidas de sua presa.

Agora sobre a aranha recentemente descoberta, sabe-se que ela é da era Mesozoico (250~65 milhões de anos), mais especificamente do Cretáceo (145~100 milhões de anos). O espécime é um macho e o que diferencia o Cretapalpus vittar das outras espécies já conhecidas, é que algumas partes de suas pernas são diferentes, especialmente a patela que possui uma projeção que se assemelha a um espinho. O fóssil é originário do Ceará e foi traficado ilegalmente para os EUA. Com auxilio do Ministério Público Federal, foi possível repatriar esse item fundamental para a ciência e história natural das américas. Seu nome é uma homenagem ao cantor e drag queen Pabllo Vittar, que possui presença internacional e leva para o exterior um pouco da cultura brasileira.

Essa aranha é uma peça importante na nossa história, pois muitos fósseis são traficados para o exterior e instituições internacionais se recusam a repatriar. Um caso recente é o Ubirajara jubatus, que foi enviado ilegalmente para a Alemanha e o museu que está com a peça se recusa a devolver.

Que a Cretapalpus vittar seja um exemplo internacional para repatriação de peças e que a história natural do Brasil e de outros países sejam respeitadas! #UbirajaraBelongsToBr

Artigo fonte: Matthew R. Downen and Paul A. Selden. (2021). The earliest palpimanid spider (Araneae: Palpimanidae), from the Crato Fossil-Lagerstätte (Cretaceous, Brazil). Journal of Arachnology, v. 49, p. 91-97. DOI: 10.1636/JoA-S-19-059 <Clique aqui para acessar o artigo>

Material complementar consultado: Matéria “Fóssil de aranha com nome que homenageia Pabllo Vittar é devolvido ao Ceará após ser traficado para fora do Brasil”, publicado no g1 CE, por Cadu Freitas, em 21/10/2021 <link para a matéria>.

Fonte e legenda da imagem de capa: Nessa imagem pode-se observar uma foto do fóssil da Cretapalpus vittar, ao lado um desenho interpretativo da região ventral. Imagem extraída do artigo fonte.

Bicho-de-pé na carapaça de Tatus-gigantes

20 de novembro de 2021

Por: Marcos Vinícius Borges Santos

Dois paleontólogos brasileiros, Fábio Lima e Kleberson Porpino, encontraram possíveis registros de interação de parasitas com exemplares fósseis da megafauna brasileira. Este achado é de grande relevância para a biologia e para o país, uma vez que até o momento não há registros documentados de interação ecológica entre os parasitas e as espécies descritas neste trabalho.

Os fósseis encontrados pertencem a um importante grupo que constituía a megafauna brasileira, chamados de Gliptodontes, na qual habitavam o continente americano há mais de 37 milhões de anos. Estes grandes animais, na classificação biológica, são denominados como Glyptodontidae e possuem como grupo irmão os Dasypodidae, na qual contém o tatu como o principal representante da família. Por isso, os Glyptodontidae são facilmente conhecidos como tatus-gigantes, já que podem chegar até 4 metros de comprimento e 1,5 de tonelada. O interessante é que estes fósseis não são apenas encontrados debaixo da terra, mas também nas telinhas do cinema, como é retratado pelos filmes da Era do Gelo, produzida pela Fox.

Á esquerda, ilustração científica de Gliptodontes da América do Sul (fonte: BBC Brasil) e à direita, Gliptodonte da animação do filme a Era do Gelo (fonte: R7).

Os tatus-gigantes surgiram na América do Sul, mas se distribuíram por todo o continente, alcançando até a América do Norte. Como a maioria da megafauna, estes animais foram extintos no final do último período glacial, há aproximadamente 10 mil anos. Além disso, possuíam uma forte armadura que cobria toda parte dorsal do seu corpo, ou seja, a cabeça, as costas e a cauda. Esta armadura era formada pela fusão de ossificações dérmicas, chamadas de osteodermas, cuja ornamentação varia consideravelmente entre as espécies. Dessa forma, devido a composição química e estrutural desta carapaça, há um maior sucesso de fossilização.

Segundo o estudo de 2018, foram encontrados fósseis de 3 representantes pertencentes a três grupos diferentes dentro de Glyptodontidae: Panochthus, Glyptotherium e Pachyarmatherium, todos extintos. Sendo que todos foram encontrados em uma importante área para a paleontologia, chamada de Região Intertropical Brasileira (RIB), especificamente em três estados da região nordeste: Rio Grande do Norte (RN), Paraíba (PB) e Pernambuco (PE), como descrito na Figura 1.

Figura 1: Pontos indicativos da procedência dos fósseis estudados, com destaque, em alaranjado, para a Região Intertropical Brasileira (RIB)

Além disso, as coletas foram realizadas em aterros sedimentares de cavernas de calcário, depósitos aluviais e tanques naturais. Sendo que o último são importantes depósitos fossilíferos comuns da Região Intertropical Brasileira e que fornece um favorável ambiente para a preservação dos fósseis devido a facilidade de acúmulo de matéria orgânica e uma baixa oxigenação local.

Uma das descobertas foi a presença de alterações nas carapaças dos fósseis de Pachyarmatherium brasiliense, sugerindo uma erosão biológica ativa. A maioria das alterações corresponderam à cavidades circulares bem limitadas na superfície da carapaça, representando ampliações das fossetas do folículo piloso, figura 2, estrutura esta, que também é responsável pela produção de pelos. Esta observação só foi possível porque os pesquisadores compararam os fósseis achados com outros sem patologias que estavam presentes em repositórios. Além disso, os mesmos basearam suas investigações por metodologias utilizadas em outros estudos para outros grupos de animais, mas que partiam das mesmas perguntas iniciais.

Figura 2: Superfícies externas de osteodermos do tatu extinto Pachyarmatherium brasiliense. As setas indicam perfurações de pulgas encontradas em três fósseis desta espécie. A linha tracejada delimita o desgaste na figura principal causado por corrosão. hf: folículo piloso. Barra de escala = 1cm.

Após a análise macroscópica, houve um estudo a posteriori na literatura científica buscando o mesmo fenômeno patológico em tatus viventes. Dessa forma, comparando as perfurações entre os fósseis e os espécimes viventes, perceberam que haviam algumas semelhanças que eram caracterizadas por: i) serem estritamente circulares, ii) possuírem diâmetro na abertura mais externa mais larga que o interior e iii) estarem isolados entre si. Entretanto, ao comparar a profundidade das perfurações, perceberam que para os tatus atuais, as perfurações alcançavam maiores profundidades, atravessando a osteoderma. Porém, esta diferença na profundidade da lesão se deve à maior espessura das carapaças dos fósseis.

Por fim, os pesquisadores buscaram evidências para a confirmação do agente responsável pelas perfurações. Eles então encontraram um tipo de pulga do gênero Tunga como o agente mais provável, possuindo apenas uma espécie vivente capaz de causar tais perfurações nos tatus atuais – Tunga perforans. As pulgas são parasitas obrigatórios de muitos grupos de mamíferos e pássaros, inclusive o ser humano, na qual a Tunga penetrans, popularmente conhecida como bicho-de-pé, é a responsável pela tungíase. Estes parasitas têm alta capacidade de penetrância e uma vez parasitando o hospedeiro, criam cavidades para a postura dos ovos. Ainda não se sabe dos mecanismos químicos e físicos pela qual a pulga perfura a estrutura óssea. O estudo contém uma vasta investigação e eliminação de possibilidades para outros possíveis agentes causadores das perfurações, mas que não serão retratadas neste texto.

Em suma, os pesquisadores concluíram que há registros suficientes para a confirmação do parasitismo de pulga com as espécies de Gliptodontes. Além disso, esta interação ecológica é vista até os dias atuais com as espécies viventes mais fortemente relacionadas com o grupo extinto. Dessa forma, representando um interessante modelo de coevolução que é fortemente conservado desde tempos passados da era Cenozoica até os dias atuais.

Artigo fonte: Lima, F.G; Porpino K.O. (2018). Ectoparasitism and infections in the exoskeletons of large fossil cingulates. Plos one, v. 13, n. 10, p. e0205656. Doi: 10.1371/journal. pone.0205656 <Clique aqui para acessar o artigo>

Fonte e legenda da imagem de capa: Superfícies externas de osteodermos do tatu extinto Pachyarmatherium brasiliense. As setas indicam perfurações de pulgas encontradas em três fósseis desta espécie. A linha tracejada delimita o desgaste na figura principal causado por corrosão. hf: folículo piloso. Barra de escala = 1cm. Imagem extraída do artigo fonte.

Paleontologia no século 21, o futuro dos fósseis

21 de novembro de 2021

Por: Sarah Morais de Souza

Nas ultimas décadas, houveram grandes avanços nas ciências biológicas. Isso se deve a um melhor entendimento de áreas do conhecimento relacionadas à origem e à evolução da vida. A primeira delas é a biologia molecular, que estuda as coisas em escala de moléculas, com foco celular; A segunda é a paleontologia, que estuda os seres que viveram no passado da Terra e suas relações com os atuais existentes, por meio de fósseis, e de suas relações. Hoje, com os novos recursos existente, ambas as disciplinas se complementam e auxiliam uma no entendimento da outra.

A paleontologia é um ramo que fornece informações sobre caracteres de organismos (fenótipos) no espaço e no tempo, essas informações de registros fósseis (vida, comportamento e a forma que morreram) são organizadas para poder analisar as relações entre esses indivíduos em grupos.

Na atualidade os seres vivos existentes, são uma parcela reduzida do que já existiu, e somente considerar eles na hora de estudar as relações filogenéticas pode nos conduzir a errar, como por exemplo, não considerar as extinções. Por isso os fósseis são importantes, eles ajudam a entender, ampliando as relações que conduziram as espécies às mudanças para que se tornassem como vemos hoje, pois, eles informam sobre a sequência, formas intermediárias de seres vivos que evoluíram até a atual forma.

TEMPO

Taxas de variações taxonômicas, podem ser analisados apenas com organismos vivos, mas para uma real compreensão dos fatos e das variações é fundamental estudar os organismos que existiram também. Importante também para entender toda a história evolutiva é unir áreas de conhecimento, como a filogenia, a paleontologia e dados moleculares.

Figura 1: Imagem ilustrativa sobre o tempo geológico

Durante a história da terra existiram também extinções, que nos leva a compreender o impacto do desaparecimento de espécies no planeta, e que, mudanças no meio ambiente, como por exemplo, temperatura e umidade, podem trazer uma série de consequências aos organismos vivos. Um exemplo disso foi o resfriamento polar cenozoico, que extinguiram muitas espécies marinhas. O registro fóssil pode então nos auxiliar na compreensão de mudanças climáticas e na administração dos recursos que temos, para a preservação.

ESPAÇO

O registro fóssil nos ajuda a entender a história biogeográfica e ambiental dos grupos de organismos que existiram e que ainda existem, que seria impossível entender, com clareza, sem esse registro. Um exemplo disso é que, novidades evolutivas e clados principais (grupo de organismos originados de um único ancestral comum) se formaram em baixas latitudes.

FUTURO DO REGISTRO FÓSSIL

Existe uma ampla gama de possibilidades sobre as informações que podemos obter do registro fóssil, especialmente quando posto ao uso de novas tecnologias. Ele ainda pode ajudar a desvendar muito sobre a história da vida na terra.

Glossário:

Fóssil: são restos ou vestígios de animais e vegetais preservados em rochas. Restos são partes de animal (ex.: ossos, dentes, escamas) ou planta (ex.: troncos) e vestígios são evidências de sua existência ou de suas atividades;
Taxonomia: Está relacionada com a classificação dos seres vivos. Classifica e ordena os objetos em categorias.
Cenozoico: Tempo geológico que se iniciou a aproximadamente 65,5 milhões de anos até o presente.

Artigo fonte: David Jablonskia, and Neil H. Shubinb. (2015). The future of the fossil record: Paleontology in the 21st century. PNAS – Proceedings of the National Academy of Sciences of the Unitated States of America, v. 112, n. 16, pp. 4852-4858. DOI: 10.1073/pnas.1505146112 <Clique aqui para acessar o artigo>

Fonte e legenda da imagem de capa: Imagem ilustrativa sobre o tempo geológico. Imagem extraída do site universidadedocoração.org > grande sintese > editora ecos > ecos da ciencia criancas > Tempo Geológico <link>.

Você já imaginou primatas vivendo na Era dos Dinossauros? Fósseis de primatas primitivos paleocênicos sugerem ancestral no Cretáceo

23 de novembro de 2021

Por: Maria Alves

Quando falamos no Cretáceo, a era geológica que teve fim há cerca de 66 milhões de anos atrás, há sempre um destaque para a grande diversificação nos mais variados grupos de seres vivos. As radiações evolutivas levaram a um crescimento da biodiversidade em vegetais, insetos, anfíbios, répteis, contando ainda com o surgimento de diversos mamíferos placentários, marsupiais e monotremados. Em especial, o período representa o auge da vida do dinossauros na Terra e, essencialmente, o fim do Cretáceo é marcado pela mais conhecida extinção em massa do planeta.

A Extinção K-T, essa extinção em massa que marca a transição do Cretáceo para o Paleoceno (o primeiro período da era Cenozoica, a “Era dos Mamíferos”), data em cerca de 66 milhões de anos. Esse evento geológico foi responsável pela alteração das condições climáticas de todo o planeta, impactando na biodiversidade da Terra ao declinar e extinguir diversos grupos de espécies, dentre os quais se destacam os dinossauros.

Por um lado, o grande evento levou à extinção inúmeros grupos vegetais e animais, entretanto, esses grandes desaparecimentos possibilitaram a radiação adaptativa de vários outros grupos. Ou seja: os grupos sobreviventes ficaram livres para se adaptarem e formarem novas espécies nos mais diversos nichos ecológicos. E é aí que entram os primatas!

Os Purgatoriidae compõe a família (já extinta) de primatas primitivos, considerados tão antigos geologicamente que seria o suficiente para terem originado os primatas posteriores (RADHAKRISHNA, 2006), por vezes sendo conhecidos como “proto-primatas”. Recentemente, foram descritos peças dentárias fósseis que indicam a existência de duas espécies deste grupo há 65,9 milhões de anos – uma data muito próxima à época da extinção dos dinossauros (MANTILLA, 2021).

A descoberta de indivíduos primatas vivendo nesse período tão inicial do Paleoceno sugere fortemente que os Purgatoriidae – e consequentemente os primatas – tenham um ancestral originado ainda no Cretáceo, tendo este ancestral primata existido em um mundo habitado e dominado pelos grandes dinossauros, e sendo um sobrevivente do evento de extinção em massa.

A diversificação desse grupo foi continuada ao longo do Paleoceno, seguindo uma tendência à onivoria e herbivoria, originando um grupo de mamíferos de hábito arborícola que passou por um processo de evolução explosivo que – muitos e muitos milhões de anos depois – deram origem aos primatas viventes da era atual (Figura 1).

Figura 1: Purgatorídeos possuíam vantagem evolutiva em seu habitat arborícola e herbivoria, com dieta baseada em frutas inalcançáveis pelos demais animais, que possuíam majoritariamente hábitos terrícolas. Ilustração de Andrey Atuchin. Fonte: National Geographic Brasil

O próximo passo, segundo os pesquisadores, é encontrar o “elo perdido”, o indivíduo que seria uma espécime em transição do primata primitivo ao primata atual.

Artigo fonte: MANTILLA, Gregory P. Wilson; CHESTER, Stephen G. B.; CLEMENS, William A.; MOORE, Jason R.; SPRAIN, Courtney J.; HOVATTER, Brody T.; MITCHELL, William S.; MANS, Wade W.; MUNDIL, Roland; RENNE, Paul R.. Earliest Palaeocene purgatoriids and the initial radiation of stem primates. Royal Society Open Science, [S.L.], v. 8, n. 2, 24 fev. 2021. The Royal Society. DOI: 10.1098/rsos.210050 <Clique aqui para acessar o artigo>

Material bibliográfico complementar consultado:

RADHAKRISHNA, Sindhu. From Purgatorius ceratops to Homo sapiens. Resonance, [S.L.], v. 11, n. 7, p. 51-60, jul. 2006. Springer Science and Business Media LLC. http://dx.doi.org/10.1007/bf02835993.

CANALES, Gustavo Montiel. Eras Geológicas. MX: Universidad Autónoma del Estado de Hidalgo, 2019. Disponível em: https://www.uaeh.edu.mx/docencia/P_Presentaciones/prepa2/2019/MontielCanales-Gustavo-ErasGeologicas.pdf.

Fonte e legenda da imagem de capa: Ilustração representa indivíduo do gênero Purgatorius, descrita como primata primitivo, considerado primeiro primata ancestral. Autoria de Nobu Tamura. Imagem extraída do site commons.wikimedia.org utilizando o termo de busca Purgatorius <link>.

Passo a passo de como trazer espécies extintas de volta a vida*

23 de novembro de 2021

Por: Douglas Henrique

*Texto publicado também no espaço biótico <confira aqui>

Já pensou na possibilidade de um “Jurassic Park” atualmente? Os avanços tecnológicos de sequenciamento de DNA tornou essa uma discussão calorosa na comunidade científica.

Figura 1 — Extinto há milénios, o Mamute (Mammuthus primigenius) é uma das opções à desextinção.

A ideia de ‘ressuscitar’ animais extintos divide opiniões entre a comunidade científica. Enquanto alguns pesquisadores acreditam que trazer espécies extintas de volta será benéfico tanto para a ciência quanto para a manutenção e recuperação do ecossistema, outros cientistas, ao mesmo tempo que temem o desequilíbrio ecológico ao trazer espécies pré-históricas de volta, afirmam que não existem informações genéticas suficientes para tal feito, sendo a hibridização com descendentes vivos a única forma de tornar real a desextinção de espécies — embora nesse caso ‘desextinção’ não seria o termo correto a ser utilizado.

Figura 2 — Tigre-dentes-de-sabre, um dos mais famosos predadores pré-histórico

Longa é a lista de animais extintos tanto por causas naturais quanto por interferência humana. O Mamute (Mammuthus primigenius), o tigre-dentes-de-sabre (Smilodon fatalis) e o tigre-da-tasmânia (Thylacinus cynocephalus) são alguns animais candidatos na lista de desextinção de espécies.

Com o avanço da tecnologia em biologia molecular e sequenciamento genético, o termo desextinção de espécies é bastante discutido entre a comunidade científica. Embora o sequenciamento genético de espécies antigas já venha sendo explorado há anos, a possibilidade de trazer esses animais de volta a vida não é fácil e exige um passo a passo para que, quem sabe um dia, a desextinçao de espécies se torne uma realidade.

Figura 3 — De volta para o presente, Revista VEJA.

Segundo cientistas, o primeiro passo é o animal a ser trazido de volta ter, necessariamente, um parente vivo, com característica genética e fisiologia reprodutiva semelhantes. Com isso, o Mamute é um dos principais candidatos a desextinção de espécies, uma vez que são o antepassado próximo dos elefantes asiáticos. Em paralelo, para LOI (2011) um método interessante para ressuscitar o mamute seria tentar recuperar os espermatozoides do testículo de machos da espécie, pois o genoma dos espermatozoides é uma longa sequência de DNA transcricionalmente inativo, e a decodificação do material genético é um passo importante quando se trata de trazer espécies de volta a vida. Entretanto, para esse processo os cientistas teriam que contar com a sorte de encontrar uma espécie bem preservada e que o espermatozoide não estivesse danificado.

Não se tratando apenas dos espermatozoides, mas com a dificuldade em encontrar materiais genéticos de animais extintos bem preservados, o mais viável seria coletar códigos de um ser vivo geneticamente parecido com o animal que se pretende ressuscitar, recortar alguns genes e inserir no lugar os genes do animal a ser recriado (BRITO 2021). Nessa perspectiva, embora a utilização de cromossomos de origem materna como os oócitos (gâmeta feminino – óvulo) seria uma ótima opção para ressuscitar animais extintos, por enquanto, teremos que nos contentar com o uso de células somáticas diploides como a única opção disponível. Nesse caso, ocorreria a clonagem, uma vez que as células somáticas seriam programadas para uma condição de totipotência e potencialmente capazes de produzir descendentes após a transferência do embrião clonado em uma mãe adotiva adequada (LOI, 2011).

Para finalizar o processo, os embriões híbridos teriam que ser transferidos para uma fêmea de espécie semelhante ao animal que se quer recriar e, embora a incompatibilidade imunológica entre o embrião e o útero da mãe elefante não seja esperado, a possibilidade não é descartada. Caso isso ocorra, uma outra opção poderia ser a inserção de células de massa celular interna do embrião em vesículas de trofoblasto de mães de espécies parentes isoladas (LOI, 2011).

Figura 4 — Cientistas recebem US$ 15 milhões para ressuscitar mamute extinto

Apesar de a ideia de um ‘Jurassic Park’ nos dias atuais pareça irreal, a empresa americana Colossal recebeu um aporte de US$ 15 milhões (cerca de 83 milhões de reais na cotação atual) para recriar — criar um híbrido por meio da engenharia genética — o mamute, um animal extinto há milênios. Entretanto, várias são as dificuldades e críticas na comunidade científica a respeito da desextinção, clonagem e hibridização de espécies.

Afinal, a desextinção de espécies pré-históricas realmente seria para reestabelecer o ecossistema e combater a crise climática — como alguns estudos apontam — ou esses animais serviriam como um espetáculo para os seres humanos realmente fazendo jus ao nome “Jurassic park”?

Referências utilizadas:

LOI, Pasqualino. at al. 2011, Biological time machines: a realistic approach for cloning an extinct mammal. ENDANGERED SPECIES RESEARCH, Vol. 14: 227–233, doi: 10.3354/esr00366.

BRITO, Sabrina, 2021. O DNA de mamutes com 1 milhão de anos aguça a clonagem de animais extintos. VEJA. Disponível em > https://veja.abril.com.br/ciencia/o-dna-de-mamutes-com-1-milhao-de-anos-aguca-a-clonagem-de-animais-extintos/ <. Acesso em: 22 de novembro de 2021.

Cientistas recebem US$ 15 milhões para ressuscitar mamute extinto há 4 mil anos. CNN, Disponível em > https://www.cnnbrasil.com.br/tecnologia/mamutes-e-grandes-animais-da-era-do-gelo-viveram-por-mais-tempo-do-que-se-pensava/ <. Acesso em: 22 de novembro de 2021.

Cientistas recebem quase R$ 80 milhões para ‘ressuscitar mamutes. EXAME, Disponível em > https://exame.com/pop/cientistas-recebem-quase-r-80-milhoes-para-ressuscitar-mamutes/ <. Acesso em: 22 de novembro de 2021.

Será possível reviver animais extintos?. NATIONAL GEOGRAPHIC, Disponível em > https://www.nationalgeographicbrasil.com/ciencia/2021/04/posso-explicar-reviver-especies-extintas-dna-germoplasma <. Acesso em: 23 de novembro de 2021.

Fonte e legenda da imagem de capa: Extinto há milênios, o Mamute (Mammuthus primigenius) é uma das opções à desextinção. Imagem extraída do site brasilescola.com <link>.

Fonte das imagens no corpo do texto:

Figura 1: https://s5.static.brasilescola.uol.com.br/be/2021/09/mamutes.jpg

Figura 2: https://t5z6q4c2.rocketcdn.me/wp-content/uploads/2020/10/tigre-dente-de-sabre-quando-viveram-quais-suas-caracteristicas-960×576.jpg.webp

Figura 3: https://veja.abril.com.br/wp-content/uploads/2021/02/arte-mamute-iPhone.jpg

Figura 4: https://s2.glbimg.com/TEfqi1-40IvUO40mHnvblk3XHYQ=/e.glbimg.com/og/ed/f/original/2021/08/13/mammoth_painting_havens-768×649.jpg

Cortando o mal pela raiz: integração da Paleontologia no ensino desde cedo propõe mudar o desinteresse enraizado na sociedade por tal conteúdo

22 de novembro de 2021

Por: Júlia Olbrisch Ferraz

O ensino de Paleontologia nas escolas brasileiras, não só as particulares como também as públicas, é precário, pois os professores, muitas vezes, não são interessados pela área e não têm muito domínio sobre ela. Além do mais, os materiais, incluindo apostilas e livros, não tratam muito ou muito bem o assunto que pouco se fala em sala de aula, onde, do pouco que se trata, é sobre os dinossauros.

A integração do ensino da Paleontologia desde cedo na educação das crianças, segundo estudos, é algo fundamental para a construção do seu conhecimento e para a popularização deste na sociedade, tendo tais crianças como principais disseminadoras. Além disso, é muito importante a segurança e entusiasmo do professor ao ministrar esse conteúdo, pois é isso o que irá cativar e garantir o ensino desse assunto ao aluno, algo que pode chegar a marcá-lo por toda a sua vida.

Outro ponto importante para um bom ensino de Paleontologia nas escolas é a didática usada pelo professor. O professor precisa ser criativo e inovar, respeitando o perfil de seus alunos, incluindo a sua faixa etária. Dando atenção a esses dois parâmetros, o aluno acaba sendo instigado a aprender e buscar por mais conhecimento, sendo então cativado pelo assunto e tendo de forma efetiva atingido o objetivo do professor, que é ensinar.

Estudos como as experiências citadas no artigo “A PALEONTOLOGIA NA EDUCAÇÃO INFANTIL: ALFABETIZANDO E CONSTRUINDO O CONHECIMENTO” corroboram o quanto a criatividade e a imaginação das crianças são importantes para aprender e incentivar o gosto pela Paleontologia. Em tal artigo é apresentado atividades lúdicas, excursões e até mesmo o contato das crianças com especialistas, o que fez toda diferença para a sua educação e trouxe uma popularidade dessa disciplina ainda maior do que esperavam.

Diante do que podemos observar, a Paleontologia não é um conteúdo tão apreciado nas escolas nem fora delas. Entretanto, com força de vontade, didática e imaginação, escola, professores e alunos, juntos, podem mudar essa perspectiva que está enraizada em nossa sociedade e que acaba sendo passada de professor a aluno.

Artigo fonte: MELLO, F.T.; MELLO, L.H.C.; TORELLO, M.B.F. (2005). A paleontologia na educação infantil: alfabetizando e construindo o conhecimento. Ciência e Educação, v. 11, n. 3, p. 395 – 410. DOI: 10.1590/S1516-73132005000300005 <Clique aqui para acessar o artigo>

Fonte e legenda da imagem de capa: Criatividade e imaginação instigam crianças a aprender Paleontologia. Imagem extraída do artigo fonte.

Arte e paleontologia: modelos didáticos de plantas extintas

21 de novembro de 2021

Por: Bruna Aquino

Sabe-se que a abordagem de conteúdos de Paleontologia é uma sugestão presente nos Parâmetros Curriculares Nacionais e que a condução deste assunto dentro de sala geralmente ocorre por visões distorcidas ou erradas que muitas vezes são difundidas pelos meios de comunicação, vê-se então a necessidade de recursos didáticos que captem o interesse de alunos para uma melhor assimilação dos conceitos apresentados em sala.

Percebendo essa dificuldade, pesquisadoras da Universidade Federal da Bahia realizaram um estudo para o desenvolvimento de modelos didáticos que poderiam auxiliar no ensino da conquista do ambiente terrestre pelas plantas. Para o desenvolvimento destes modelos, elas realizaram um procedimento dividido em cinco fases: pesquisa bibliográfica, montagem da base em arame, revestimento (modelagem com biscuit), acabamento e elaboração de um guia. Primeiramente, as autoras realizaram a coleta de dados de dois gêneros de plantas já extintas: Cooksonia e Aglaophyton, incluindo sua biologia e morfologia, suas características e do período em que viveram. Após a reunião de dados, foi montado um modelo utilizando biscuit dos dois gêneros e também um guia onde os alunos podem encontrar informações como figuras e textos sobre os gêneros Cooksonia, Aglaophyton e Zosterophyllum, além de um texto sobre a conquista do ambiente terrestre pelas plantas e imagens de registros fósseis das plantas extintas citadas.

De acordo com Ghilardi et al. (2007 apud Chaves et al. 2017) a arte ou design, aplicados à Paleontologia, é o “único conjunto de linguagens que permite a reconstituição da vida já extinta para fins visuais”. A paleontologia, como disciplina, é aplicada praticamente apenas nos cursos de graduação de Geologia e Ciências Biológicas, o que faz com que toda a informação fique restrita às universidades e não tenha tanto espaço nas escolas. Desse modo, a construção de modelos didáticos de plantas extintas, com foco nas aulas sobre a conquista do ambiente terrestre pelas plantas, é de grande ajuda para a transmissão e assimilação dos conhecimentos paleontológicos de uma forma mais atraente e menos abstrata para os alunos; além de estimularem os professores também a buscar outras formas de apresentar conteúdos para os alunos.

Artigo fonte: Rafaela Santos Chaves, Simone Souza de Moraes e Rejâne Maria Lira-da-Silva. (2017). Confecção de modelos didáticos de plantas extintas: arte aplicada à Paleontologia no ensino da conquista do ambiente terrestre pelas plantas. In: VIII Encontro Nacional de Pesquisa em Educação em Ciência. R0273-5. <Clique aqui para acessar o artigo>

Referência citada no texto: GHILARDI, R. P.; SOARES-RIBEIRO, R. N.; ELIAS, F. A. (2007). Paleodesing: Uma nova proposta metodológica e terminológica aplicada à reconstituição em vida de espécies fósseis. Paleontologia: Cenários da Vida, São Paulo, Ed. Interciências, vol. 2. p. 61-70.

Fonte e legenda da imagem de capa: Imagens do processo de construção dos modelos dos gêneros Cooksonia e Aglaophyton. Imagem extraída do artigo fonte.

A primeira paleontóloga brasileira era americana

21 de novembro de 2021

Por: Maria Bordin

A primeira paleontóloga brasileira era uma americana. Carlotta Joaquina Maury nasceu em 1874, na cidade de Hastings – on – Hudson, no Estado de Nova York. Era filha de um reverendo e em sua casa havia um grande interesse pelas ciências e pela História Natural. Carlotta, quando menina, gostava de passear às margens do Rio Hudson, em Nova York, explorando e coletando, como era próprio da atividade científica da época, espécimes da fauna e flora local. Explorava e coletava também amostras de rochas e fósseis, que levava para casa onde eram analisados e descritos. Nessa época, Carlotta Joaquina já tinha uma curiosidade pela árvores da região em que vivia e já conhecia seus nomes. O seu bisavô materno casou-se em Vila Rica, atual Ouro Preto, com uma brasileira, daí a sua relação afetiva com o Brasil e a origem do seu nome. O nome de Carlotta é uma homenagem à sua bisavó materna, Carlotta Joaquina de Paiva Pereira.

Após o ensino médio, Carlotta Joaquina entrou em 1892 na Harvard Annex, um programa criado com o apoio de pais e mães de famílias americanas ricas que desejavam que suas filhas tivessem a mesma instrução que os filhos. A visão conservadora predominante não permitiu o acesso delas à Universidade de Harvard, então foi criado o Anexo em 1879, com recursos das próprias famílias e o apoio de alguns poucos professores. A vida nunca foi fácil para as mulheres, mas Carlotta Joaquina tinha uma família que a incentivava e um objetivo, obter o grau universitário. Assim, com apoio do pai, foi morar em Ithaca, Nova York, ingressando, em 1894, na Cornell University. Nessa Universidade as mulheres podiam estudar junto com os homens e ingressar nos programas de sua escolha nos cursos de pós-graduação. Carlotta Joaquina, por já ter uma formação anterior em História, Fisiologia e línguas, direcionou os seus estudos em Cornell em Ciências, incluindo Entomologia, Botânica, Geologia e Paleontologia, tendo obtido em 1902 o título de PhD, ao estudar especialmente os moluscos marinhos do Oligoceno dos Estados Unidos.

A distância e o fato de ser mulher, a única exceção em um universo masculino, não impediu que Carlotta Joaquina integrasse, como consultora no Serviço Geológico e Mineralógico do Brasil, criado em 1907, que se seguiu a Comissão de Estudos das Minas de Carvão de Pedra do Brasil – iniciativa governamental que tinha como objetivo diminuir a dependência brasileira do carvão importado. Assim, em 1920, Carlotta Joaquina, que já era uma especialista em moluscos do Terciário, foi também docente atuando em universidades dos Estados Unidos e no exterior. Como especialista em microfósseis foi consultora de empresas petrolíferas. Maury era meticulosa e aplicava na descrição e análise dos fósseis que recebia os critérios e rigor científico da época. Sua primeira contribuição para geologia brasileira se deu em 1925, com a publicação de seu trabalho “Fósseis Terciários do Brasil com Descripção de Novas Formas Cretáceas”. Sua última contribuição, de 1938, foi “Argilas fossilíferas do Plioceno do Território do Acre”, encerrando à sua colaboração com o Serviço Geológico e Mineralógico do Brasil, em decorrência do seu falecimento devido à um Câncer diagnosticado no ano anterior.

Carlotta Joaquina Maury teve uma contribuição destacada e efetiva para a Paleontologia Brasileira na descoberta de espécies de invertebrados marinhos fósseis, e na compreensão da estratigrafia e do ambiente de deposição da Formação Pirabas no Estado do Pará, hoje um importante sítio Paleontológico do Brasil, cujos estudos de Maury foram pioneiros e ainda hoje são considerados únicos e destacados.

Artigos fonte:

NASCIMENTO, R.S.; SARGES, G.L.S. 2020. Carlota Joaquina Maury: Uma Vida Dedicada à Ciência. Boletim do Museu de Geociências da Amazônia. Belém – Pará. Ano 7, número 2. DOI:10.31419/ISSN.2594-942X.v72020i2a7RSN <Clique aqui para acessar o artigo>

MELO D.J. & CASSAB R.C.T. Carlotta Joaquina Maury (1874-1938) e suas Contribuições para a Paleontologia Brasileira. Paleontologia em Destaque, edição especial, II Simpósio Brasileiro de Paleontologia de Invertebrados, p. 70-77. Novembro – 2014. <Clique aqui para acessar o artigo>

Fonte e legenda da imagem de capa: Carlota no Laboratório de Paleontologia da Universidade de Cornell, 1921. Imagem extraída de squarespace-cdn.com <link>.

Lagarto ou Ave? – Paleontologia contribui para a Classificação Biológica

19 de novembro de 2021

Por: Gustavo Caldeira Cotta

De acordo com os estudos evolutivos mais recentes, os Répteis e as Aves são mais próximos do que se imaginava. Não obstante, popularizou-se o dizer de que “galinhas são dinossauros reduzidos”. Isso não pode ser considerado como uma verdade, mas, reflete bem a proximidade entre esses grupos – o grupo das aves se originou de um ancestral que era dinossauro e tanto Dinossauros, quanto Aves, são componentes do grupo Archosauria, grande grupo que inclui também, por exemplo, os crocodilos atuais. Nesse contexto, pesquisadores notaram que um fóssil que havia sido associado às aves representa, na prática, um animal de um outro grupo relacionado aos répteis, os Lepidosauria.

A espécie em questão corresponde ao Oculudentavis khaunggraae, fóssil preservado em âmbar encontrado em Myanmar, país asiático que possui um amplo registro fóssil de diversos períodos. A princípio, as características cranianas e de algumas vértebras do fóssil apontavam para a inclusão desta espécie no grupo das aves: seus olhos eram grandes, o seu rostro era longo e delgado e o seu crânio possuía formato de cúpula. Mas ainda haviam dúvidas em pontos muito importantes para concluir a classificação deste espécime. A forma com que os dentes de Oculudentavis khaunggraae se dispõem no crânio também pouco remete ao padrão encontrado nos Archosauria, logo, haviam muitas incoerências morfológicas em sua classificação.

Após estudos mais aprofundados que envolveram o escaneamento e digitalização 3D deste fóssil e a posterior avaliação de suas características morfológicas, os pesquisadores notaram que algumas características eram muito incomuns para o padrão encontrado normalmente em aves, destacando que a forma dos ossículos que formam a cavidade que abriga os olhos, a órbita, era muito similar à forma encontrada em lagartos, répteis representantes do grupo Lepidosauria. Além disso, outras características dos ossos do crânio deste fóssil possibilitavam um movimento semelhante ao de outros lagartos, chamado de estreptostilia, e que consiste basicamente na articulação entre diversos pontos nos ossos do crânio, permitindo a redução do estresse físico no crânio, e melhorando a capacidade de manipulação do alimento, com o custo de limitar a força de mordida desses animais. Aves, por sua vez, também apresentam estreptostilia, mas com configurações morfológicas diferentes da encontrada nos lagartos.

Assim, após as análises de diferentes pesquisadores, a espécie Oculudentavis khaunggraae se mostrou mais relacionada ao grupo dos Squamata, que representa sobretudo os lagartos e as serpentes, que são considerados como componentes de Lepidosauria. Segundo os dados reconstruídos pelos pesquisadores, Oculudentavis khaunggraae era, portanto, um lagarto diurno com excelente acuidade visual e movimentos mandibulares rápidos que eram muito eficientes para capturar insetos! Bem diferente de um dinossauro ou uma ave, não é?

Artigo fonte: Krister T. Smith. 2021. Paleontology: It’s a bird, it’s a plane, it’s Oculudentavis! Cell Press Current Biology, v. 31, n. 15, R948–R971. DOI: 10.1016/j.cub.2021.06.017 <Clique aqui para acessar o artigo fonte>

Fonte e legenda da imagem de capa: Essa figura aponta os elementos cranianos de uma espécie do gênero Oculudentavis, revelando a sua semelhança com as estruturas cranianas de lagartos. O crânio tem aproximadamente 1,5 cm de comprimento. Imagem extraída do artigo fonte.