Ovos de vermes Pré-Históricos encontrados na Espanha, o que isso nos diz?

Escrito em: 10 de outubro de 2025

Por: Diego de Souza Fagundes

Atualmente, diversos vermes afligem as populações humanas, causando diversas doenças intestinais, como a ascaridíase (lombriga), a teníase (solitária) e a esquistossomose (barriga d’água). Essas patologias estão fortemente associadas ao estilo de vida e hábitos alimentares que potencializam as chances de manutenção dessas parasitoses nos seres humanos.

No entanto, levantamentos feitos em pesquisas paleontológicas mostram que animais que viveram há milhões de anos também eram acometidos por esses vermes. Tais evidências já foram observadas em diversos fósseis, como nos localizados em Las Hoyas, perto de Cuenca, Espanha, cujos coprólitos encontrados neste local são vestígios de grande importância para as análises de paleoecologia e paleoparasitologia. Os coprólitos são icnofósseis (registros indiretos de atividade biológica) formados a partir do processo de fossilização das fezes de animais que viveram em nosso planeta.

Las Hoyas compreendiam regiões lacustres no período Cretáceo, e por essa e outras características – como a composição de microrganismos presentes nestes locais -, diversos fósseis foram formados e preservados na região, tornando-a especialmente rica em registros fósseis.

Os coprólitos investigados no artigo “Helminth eggs from early cretaceous faeces” (Ovos de helmintos de fezes do início do Cretáceo), possivelmente pertencem a dois grupos distintos – peixes e répteis – devido aos diferentes formatos. Nessas fezes fossilizadas, foram encontrados ovos de vermes muito semelhantes aos que infectam os humanos atualmente.

A diversidade de ovos de helmintos encontrados nas fezes pré-históricas em La Hoyas revela muito sobre os hábitos alimentares dos animais que os produziram. Isso é possível pois, atualmente, sabe-se que essas parasitoses são transmitidas principalmente por via fecal-oral, ou seja, o animal adquire o parasita e posteriormente o elimina nas fezes, finalizando o seu ciclo em um de seus hospedeiros. Mas outro fator muito importante é a plasticidade dos hospedeiros que esses vermes apresentam. Normalmente tais vermes possuem pelo menos dois hospedeiros, como ocorre com o causador da esquistossomose, que tem o ser humano como hospedeiro definitivo (onde o verme se reproduz) e o caramujo como hospedeiro intermediário (onde o verme se desenvolve). E esse mesmo perfil de parasitismo múltiplo também é identificado em alguns dos ovos encontrados nos coprólitos.

Os pesquisadores dividiram os ovos em 3 grupos distintos, baseados na morfologia dos ovos, comparando-os com vermes morfologicamente aparentados ainda existentes, bem como nos perfis reprodutivos desses supostos parasitos, tomando como referência os grupos mais próximos que vivem atualmente. Os ovos identificados no Grupo A possivelmente pertencem a vermes platelmintos, ou seja, vermes planos e achatados, enquanto os ovos dos Grupos B e C possivelmente correspondem a vermes nematoides, isto é, vermes de corpo cilíndrico. A partir dessas observações, foi possível inferir o ciclo de vida desses parasitos: onde os ovos do Grupo A (platelmintos) possivelmente possuem um ciclo de vida mais complexo, passando por pelo menos três hospedeiros; os do Grupo B possuem um ciclo que contempla pelo menos dois hospedeiros, e os do Grupo C que, possuem um ciclo que envolve no mínimo, um hospedeiro. 

Essas evidências permitem inferir aspectos importantes sobre a biodiversidade e as interações ecológicas que existiam dos ambientes lacustres de Las Hoyas durante o Cretáceo Inferior, contribuindo para a compreensão da complexidade ecológica dos ecossistemas do Cretáceo. 

Texto fonte: Sandra Barrios-de Pedro, Antonio Osuna & Ángela D. Buscalioni (2020). Helminth eggs from early cretaceous faeces. Nature, v.1, p8. DOI:10.1038/s41598-020-75757-4.

Disponível em: https://www.nature.com/articles/s41598-020-75757-4.

Fonte e legenda da imagem de capa: Vermes nematódeos responsáveis por diversas doenças intestinais de importância parasitológica.

Disponível em: commons.wikimedia.org Autor : Heiti Paves.


Texto revisado por: Eric Issao Inamura e Alexandre Liparini.

Gondwanax paraisensis: O réptil brasileiro que ajuda a contar a história dos dinossauros

Escrito em: 22 de outubro de 2025

Por: Ana Júlia Marinho

Pesquisadores brasileiros revelam um fóssil que está mudando o que sabemos sobre a origem dos dinossauros: o Gondwanax paraisensis, um réptil encontrado no Sul do Brasil que viveu há 237 milhões de anos, no Período Triássico. O fóssil encontrado é um dos “silesaurídeos” mais antigos do mundo e um dos precursores de dinossauros mais antigos da América do Sul. Os silesaurídeos são como “primos” dos dinossauros, sendo fundamentais para entendermos a evolução da linhagem que daria origem a eles. 

 O nome Gondwanax significa “senhor do Gondwana”, em referência ao supercontinente que existia na época e ao domínio que a linhagem dos dinossauros alcançaria milhões de anos depois. Mas o que torna este “senhor” tão especial?

 A grande surpresa está na anatomia do animal. O fóssil, estudado pelo paleontólogo Rodrigo Temp Müller da UFSM, revelou que este réptil já possuía três vértebras sacrais, que são os ossos que ligam a coluna vertebral à bacia. Embora pareça um detalhe técnico, essa característica é crucial: essa característica, que garante mais suporte e estabilidade, era considerada uma ‘inovação’ dos dinossauros mais desenvolvidos. Encontrar essa estrutura em um ancestral tão antigo sugere que a evolução da locomoção na linhagem dos dinossauros foi mais complexa e aconteceu mais cedo do que se imaginava.

 Outra novidade é que o Gondwanax é a evidência mais antiga de que dois tipos diferentes desses “primos dos dinossauros” conviviam no mesmo local na América do Sul. Essa descoberta pôde ser feita a partir da análise da combinação de características nos ossos da perna. O fêmur do Gondwanax tem particularidades que o distinguem de outros silesaurídeos conhecidos, indicando um modo de andar e correr único. Essa coexistência em Paraíso do Sul (RS) mostra que, mesmo em seus estágios iniciais, os ancestrais dos dinossauros já haviam se dividido em nichos ecológicos distintos, ou seja, eles viviam lado a lado, mas com hábitos diferentes. 

 Em resumo, o Gondwanax não é apenas um novo fóssil descoberto, mas também um projeto que desafia a ciência a questionar os modelos evolutivos já estabelecidos. A descoberta consolida a pesquisa brasileira como referência mundial e reforça a Formação Santa Maria como um dos locais mais importantes para decifrar as complexas origens da vida pré-histórica.

Texto fonte: Müller, R.T. (2025). A new “silesaurid” from the oldest dinosauromorph-bearing beds of South America provides insights into the early evolution of bird-line archosaurs. Gondwana Research, v. 137, p. 13-28. DOI: 10.1016/j.gr.2024.09.006

Disponível em: https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S1342937X24002764

Fonte e legenda da imagem de capa: Representação da fauna Triássica no Sul do Brasil: Representação artística de como seria a paisagem do Sul do Brasil há aproximadamente 237 milhões de anos. A ilustração mostra a convivência de três espécies cruciais para entender a origem dos dinossauros: O recém-descoberto Gondwanax paraisensis (o novo “primo do dinossauro” em estudo), o Gamatavus antiquus (outro “silesaurídeo” da mesma região) e O Parvosuchus aurelioi (um réptil ancestral da linhagem dos crocodilos).

Disponível em: Artigo fonte. Matheus Fernandes Gadelha.


Texto revisado por: Fernanda Moreira Batitucci e Alexandre Liparini.

Cromossomo milenar

Escrito em: 16 de abril de 2025

Por: Júlia Aguilar Maximiano

Imagine encontrar um pedaço de pele de um animal extinto há mais de 50 mil anos, mais ainda, contendo cromossomos fósseis! parece mentira né? Mas foi exatamente o que ocorreu em 2018, nos quais foram desenterrados restos mortais de uma mamute de 52 mil anos em uma escavação no permafrost da Sibéria. Mas o que é permafrost? Estamos falando de todo terreno que, por no mínimo dois anos, permaneceu congelado, mas nesse caso, foi por milhares! Essas regiões ajudam na conservação de restos mortais por ser um ambiente extremo para a ação de microrganismos decompositores.

Foi assim que os pesquisadores encontraram parte da morfologia (estrutura) da pele preservada, que continham inclusive os folículos capilares intactos, ou seja, encontraram pelos ainda presos a pele junto com estruturas que os envolve e protege. Por mais que essa descoberta por si só já se faz interessante, é inédita, pois um pedaço de pele de mamute foi encontrado contendo cromossomos fósseis. E, nesse caso, estamos falando especificamente de uma fêmea de mamute-lanoso ou mamute-lanudo, cujo nome científico é Mammuthus primigenius, que é a espécie de mamute mais famosa.

Mas, como sabiam que era fêmea? Ao analisarem as células dessa amostra encontram preservado corpúsculos de barr ou cromatina sexual, uma estrutura que só aparece em células de fêmeas de mamíferos. Isso acontece porque nas células da fêmea há 2 cromossomos X, um deles, ao acaso, encontra-se inativo e condensado, sendo possível de ser visualizado através de observação microscópica. Mas não para por aí… por falar em cromatina, eles conseguiram notar que a cromatina ativa e inativa do mamute ainda estava separada corretamente, o que indica que a organização do DNA desse animal estava praticamente intacta. Isso é surpreendente, sabe por quê? Normalmente em amostras biológicas antigas acontece a degradação da estrutura que mantém o DNA unido, e mesmo quando encontrados, os pequenos pedaços de DNA restantes poderiam se espalhar livremente o que não ocorreu nesse caso.

Mas como o DNA sobreviveu por tanto tempo? Os pesquisadores acreditam que logo após a morte desse mamute, a amostra sofreu uma liofilização espontânea, que graças ao frio siberiano, preservou o material biológico. Esse é um processo físico, em que fatores como resfriamento e desidratação — perda rápida de água — deixam esse material em um estado parecido com vidro, interrompendo movimento molecular, ou seja, não apaga a posição e nem a organização original dos cromossomos. Para compreender essa disposição tridimensional, foi utilizado uma técnica interessante chamada PaleoHi-C. Ela foi aplicada à pele do mamute-lanoso e ajudou a entender como as sequências do DNA estão próximas. Além disso, essa técnica revela informações sobre a biologia desse animal.

Isso permitiu aos cientistas estudarem não apenas a genética desse mamífero, mas também como seu DNA estava organizado dentro das células quando ele era vivo. Mas, o que mais essa descoberta revelou? Os cientistas compararam seu DNA com o de seus parentes vivos, os elefantes modernos. Assim, com relação ao seu parente mais próximo, o elefante-asiático, foi possível identificar reguladores-chave de crescimento dos pelos — já que aqui falamos de uma amostra de pele — desse animal, bem como o gene relacionado ao desenvolvimento de folículos pilosos e glândulas sudoríparas. Dessa forma, foi possível observar diferenças quanto à atividade gênica, podendo ter implicações evolutivas de adaptação ao frio extremo, os quais os mamutes eram submetidos em comparação aos elefantes-asiáticos.

Além de comparações com estrutura do DNA, ativação dos genes e organização nuclear, os cientistas conseguiram reconstruir também grande parte do genoma do mamute, identificando mais de 90% dos genes esperados e essa montagem foi feita a partir do genoma do elefante-africano. Além de preservar a memória genética de um animal extinto, essa pesquisa contribuiu para entender como o DNA pode se manter estável por milhares de anos e como poderíamos aplicar isso a outros fósseis no futuro. Será que conseguiremos encontrar mais cromossomos de animais extintos por aí, ou até trazer a espécie de volta à vida?

Texto fonte: Sandoval-Velasco M, Dudchenko O, Rodríguez JA, Pérez Estrada C, Dehasque M, Fontsere C, Mak SST, Khan R, Contessoto VG, Oliveira Junior AB, Kalluchi A, Zubillaga Herrera BJ, Jeong J, Roy RP, Christopher I, Weisz D, Omer AD, Batra SS, Shamim MS, Durand NC, O’Connell B, Roca AL, Plikus MV, Kusliy MA, Romanenko SA, Lemskaya NA, Serdyukova NA, Modina SA, Perelman PL, Kizilova EA, Baiborodin SI, Rubtsov NB, Machol G, Rath K, Mahajan R, Kaur P, Gnirke A, Garcia-Treviño I, Coke R, Flanagan JP, Pletch K, Ruiz-Herrera A, Plotnikov V, Pavlov IS, Pavlova NI, Protopopov AV, Di Pierro M, Graphodatsky AS, Lander ES, Rowley MJ, Wolynes PG, Onuchic JN, Dalén L, Marti-Renom MA, Gilbert MTP, Aiden EL. (2024). Three-dimensional genome architecture persists in a 52,000-year-old woolly mammoth skin sample. Cell. 2024 Jul 11;187(14):3541-3562.e51. doi: 10.1016/j.cell.2024.06.002. PMID: 38996487.

Disponível em: https://www.cell.com/cell/fulltext/S0092-8674(24)00642-1.

Fonte e legenda da imagem de capa: Representação ilustrativa da análise de uma amostra de mamute-lanoso encontrada há 52.000 anos, incluindo investigações em escala biomolecular.

Disponível em: https://www.cell.com/cell/fulltext/S0092-8674(24)00642-1.


Texto revisado por: Sandro Ferreira de Oliveira e Alexandre Liparini.

Seis novas espécies de besouro-soldado: fósseis do Eoceno em âmbar

Escrito em: 26 de outubro de 2025

Por: Letícia Bossi Lima Ferreira

Na Península Sambian, na Rússia, cientistas descobriram seis novas espécies de besouro-soldado, insetos pertencentes à família Cantharidae. Esses besouros são popularmente chamados de soldados por terem as laterais do corpo retas, lembrando armaduras. Eles estão espalhados por todo o mundo nos dias de hoje, mas ao contrário dos besouros que vemos atualmente, os novos achados têm milhares de anos! Os fósseis foram encontrados recobertos por uma resina vegetal fóssil chamada âmbar, de aspecto rígido, transparente e cor amarelada. Esse material foi formado há entre 47,8 a 33,9 milhões de anos atrás, intervalo de tempo que é chamado de época Eoceno. Apesar do tempo que se passou, o âmbar é capaz de preservar detalhes de forma impressionante.

As seis espécies encontradas se agrupam em quatro diferentes gêneros: Podistra, Malthinus, Malthodes e Sucinorhagonycha. Somente esse último gênero citado não tem indivíduos que vivem atualmente, apenas fósseis.

A identificação dessas espécies se deu por características físicas. Assim, foi possível distinguir o que encaixava cada besouro dentro de determinado gênero, além de ver o que os diferenciava dos outros integrantes, tornando-as espécies novas dentro do gênero. Por exemplo, um dos besouros (espécie Sucinorhagonycha maryae sp. nov.), entrou no gênero Sucinorhagonycha por ter um élitro longo e fino, além de 12 segmentos de antena. O élitro nada mais é que aquele par de asas rígidas que todo besouro tem e que recobre suas costas. Mas o que diferenciou esse besouro das outras espécies de Sucinorhagonycha já conhecidas? O quinto segmento de antena é distinto de todas as outras e o tamanho acima da média: 7 mm de comprimento, em contraste à média de 4,5 mm dos outros integrantes do gênero.

Já a espécie Podistra madelineae sp. nov. se encaixa em Podistra por ter um élitro longo e fino, somado ao pronoto (primeira parte do dorso, após o fim da cabeça) retangular. Trata-se de uma espécie nova por ser cerca de 2 mm maior e ter antenas diferentes das espécies registradas anteriormente.

A espécie Malthinus karenpankowskiae sp. nov. é um Malthinus por apresentar um élitro curto e pontilhado, além da cabeça totalmente posicionada atrás dos olhos: nenhuma parte da cabeça se projeta à frente deles. Seu pronoto é tão diferente que foi o que tornou essa uma espécie nova, facilmente diferenciável dos outros Malthinus.

Por fim, um exemplo do último gênero que teve espécie registrada: Malthodes. Esse gênero tem um élitro muito curto e de aspecto liso, cabeça totalmente atrás dos olhos e últimos esternitos (placas abdominais) altamente modificadas em formato. Porém, apesar de ter essas características, Malthodes greenwalti sp. nov. se diferencia pela aparência do último esternito (placa que forma a parte ventral dos insetos), que nele é alongado e largo.

Portanto, aqui foram mostrados aspectos físicos de quatro dos seis fósseis de besouro-soldado encontrados, contemplando uma espécie de cada gênero. Essas descobertas ampliam o conhecimento sobre a história dos membros da família Cantharidae e sobre a biodiversidade de milhares de anos atrás.

Texto fonte: Pankowski, M. G; Fanti, F. (2023). Six new species of fossil soldier beetles (Coleoptera: Cantharidae) from Eocene Baltic amber. Palaeoentomology, v. 6, n. 3, p. 300–312.

Disponível em: https://www.mapress.com/pe/article/view/palaeoentomology.6.3.13

DOI: 10.11646/palaeoentomology.6.3.13.

Legenda da imagem de capa: Uma nova espécie fóssil de besouro do gênero Malthodes inserida em âmbar.

Disponível em: https://www.mapress.com/pe/article/view/palaeoentomology.6.3.13.


Texto revisado por: Tiago Lopes Siqueira e Alexandre Liparini.

A pequena mãe do Cretáceo

Escrito em: 22 de abril de 2025

Por: Fernanda Tupini

Em 2023, cientistas da Universidade de Lanzhou, na China, descobriram um fóssil raro e muito interessante que conta a história de uma mãe sapo pré-histórica. O exemplar foi encontrado na Formação de Zonggo, província de Gansu – uma região rica em depósitos lacustres do período Cretáceo.Trata-se de um fêmea de Gansubatrachus qilianensis, com ovos e tecidos moles preservados na rocha, o que é muito raro no mundo da paleontologia, já que essas estruturas tendem a se degradar com mais facilidade.

A jovem mamãe que teria vivido a cerca de 100 milhões de anos atrás, tinha cerca de 3,5 cm de comprimento e possuía ovos empilhados na parte direita de seu abdômen, onde provavelmente se encontrava seu oviduto, muito semelhantes aos anuros (sapos, pererecas, rãs e pipas) de hoje em dia.

Por meio da técnica de Tomografia computadorizada micrométrica (micro-CT), os cientistas identificaram a presença de cartilagem em áreas que ainda estavam em processo de ossificação, o que indica que o animal ainda estava em desenvolvimento. A combinação desses dados com a presença dos ovos sugere que essa rã atingiu a maturidade sexual antes mesmo de completar a maturação do esqueleto — um fenômeno que, embora comum em algumas espécies atuais, é raramente observado com tanta clareza em fósseis.

Além disso, como o fóssil não apresenta sinais de predação nem de idade avançada, os tafonômicos (pesquisadores que estudam o processo de fossilização, desde a morte do organismo, a forma de preservação dos restos orgânicos, até ser encontrado nos dias atuais) sugerem que a morte da fêmea pode ter ocorrido por afogamento ou em decorrência de comportamento reprodutivo. Após a morte, seu corpo teria sido depositado em um lago profundo, de águas frias e calmas, com um substrato rico em alumínio e silício e essas foram as condições ideais para a preservação excepcional do esqueleto, de seus tecidos moles e dos ovos carbonizados.

Esse fóssil raro tem grande importância científica, pois nos permite vislumbrar um pequeno fragmento de um passado distante. É como uma janela para observarmos como era a vida na Terra há milhões de anos e compreendermos melhor o caminho trilhado pela evolução até chegar aos animais que conhecemos hoje.

Texto fonte: Du, Baoxia et al. (2024). A cretaceous frog with eggs from northwestern China provides fossil evidence for sexual maturity preceding skeletal maturity in anurans. Proceedings of the Royal Society B: Biological Sciences, v. 291, n. 20232320, 2024. DOI: 10.1098/rspb.2023.2320.

Disponível em: https://royalsocietypublishing.org/doi/10.1098/rspb.2023.2320.

Fonte e legenda da imagem de capa: Dois sapos da espécie Gansubatrachus qilianensis em seu habitat natural no período Cretáceo.

Disponível em: https://royalsocietypublishing.org/doi/10.1098/rspb.2023.2320.


Texto revisado por: Sandro Ferreira de Oliveira e Alexandre Liparini.

Importância da fotossíntese para os depósitos de ferro

Escrito em: 27 de Outubro de 2025

Por: Erik Marques Rodrigues

A fotossíntese é o processo em que seres vivos utilizam a luz solar como fonte energia para realizar suas atividades, vários organismos diferentes utilizam este mecanismo, como por exemplo, bactérias, algas e plantas. Em grande parte, a fotossíntese é vista apenas como o processo que utiliza a energia da luz solar para quebrar moléculas de água, liberando oxigênio molecular (O2) e elétrons que mantêm o fluxo de energia na célula, porém a fotossíntese é um processo que abrange vários outros mecanismos de obtenção de energia através da luz solar. O processo de fotossíntese que utiliza moléculas de água para manter o fluxo de energia na célula e libera oxigênio, é chamado de fotossíntese oxigênica e surgiu durante o início da era Paleoproterozoica, entre 2.500 e 1.600 milhões de anos.

Atualmente, a fotossíntese oxigênica é o processo dominante de produção de matéria orgânica, servindo de base para a existência de muitos seres vivos, porém nem sempre foi assim. Antes do surgimento da fotossíntese oxigênica, já existiam várias formas de fotossíntese anoxigênica, que não utiliza água como doadora de elétrons e portanto não liberando oxigênio. Em vez disso, as bactérias fotossintéticas ancestrais utilizavam outras moléculas presentes nos oceanos primitivos ao invés da água e com isso liberavam outros produtos derivados dessas moléculas. Uma forma primitiva de fotossíntese realizada pelas bactérias era um processo chamado de Fotoferrotrofia, neste processo a luz era a principal fonte de energia e as células utilizavam a forma reduzida do ferro, o íon ferroso [Fe(II)], como doador de elétrons para manter o fluxo de energia no sistema, gerando como produto o íon férrico [Fe(III)].

A água líquida na Terra surgiu há 4,3 bilhões de anos e então a vida começou a se desenvolver nos oceanos durante o tempo geológico chamado Arqueano que abrange de 4 a 2,5 bilhões de anos. Durante o Arqueano, os oceanos eram ricos em ferro reduzido, oriundo de atividades tectônicas que potencialmente era oxidado por processos que incluem a fotoferrotrofia e era convertido na sua forma insolúvel que se acumulava no fundo do oceano e deu origem às Formações Ferríferas Bandadas (BIF) que atualmente formam os maiores depósitos de ferro do mundo e foram predominantemente formados durante o Arqueano através da deposição de ferro insolúvel dos oceanos ferruginosos.

Após esse período, o oceano passou por transição para um oceano rico em compostos de enxofre, que também impactou na geração de energia pelo seres vivos, como a fotossíntese anoxigênica que utiliza compostos de enxofre ao invés de ferro. E apenas depois de todos esses processos de adaptação dos organismos fotossintéticos é que houve o surgimento da fotossíntese oxigênica como conhecemos hoje! Como a água era altamente abundante, esses organismos tiveram vantagem evolutiva e se proliferaram enormemente por volta de 2,33 bilhões de anos atrás no evento da Grande Oxidação, onde os oceanos foram totalmente tomados pelo oxigênio, que antes era inexistente ou escasso.

Texto fonte: Camacho, A., Walter, X. A., Picazo, A., & Zopfi, J. (2017). Photoferrotrophy: Remains of an Ancient Photosynthesis in Modern Environments. Frontiers in microbiology, 8, 323. doi: 10.3389/fmicb.2017.00323.

Disponível em: https://doi.org/10.3389/fmicb.2017.00323

Fonte e legenda da imagem de capa: Formações Ferríferas Bandadas (BIFs) de Kuhmo na Finlândia mostrando as alternâncias das camadas de quartzo e os óxidos de ferro. 

Disponível em: https://pt.geologyscience.com/ramos-de-geologia/geologia-mineira/bifs-com-forma%C3%A7%C3%B5es-ferr%C3%ADferas-em-faixas/.


Texto revisado por: Ana Luísa Ferreira, Alexandre Liparini e Sandro Ferreira de Oliveira.

Titanoboa: Entre os Vestígios Fósseis e as Temperaturas do Passado

Escrito em: 30 de março de 2025

Por: Matheus Magno Rosa de Assis

Em 2007, ao inspecionar algumas peças vindas da escavação na Mina de Carvão de Cerrejón, Alexandre K. Hastings que na época era um estudante de pós-graduação, encontrou, entre os fósseis coletados e inicialmente classificados como pertencentes a crocodilos, uma vértebra estranha e extremamente grande. Para ele, era evidente que essa vértebra não pertencia a um crocodilo. Ao mostrar o achado a seu colega Jason R. Bourque, Bourque concluiu que se tratava de uma vértebra de cobra.

Com a ajuda de Jason J. Head, os pesquisadores descobriram que os ossos encontrados apresentavam muitas características exclusivas das cobras da família Boidae, que inclui jiboias e sucuris. Além disso, graças a Head e P. David Polly, foi possível estimar o posicionamento das vértebras gigantes na coluna dessa cobra por meio da comparação com vértebras de cobras atuais, que recebeu o nome de Titanoboa cerrejonensis.

Com a estimativa do posicionamento pronta, foi possível calcular o tamanho e a massa corporal dessa cobra. A Titanoboa tinha um comprimento corporal estimado em aproximadamente 13 metros e peso superior a 1 tonelada, sendo a maior cobra já conhecida. Ela habitava as florestas tropicais da América do Sul, e seu registro fóssil data de 58 a 60 milhões de anos atrás, no período Paleoceno.

Mas como a Titanoboa, assim como as outras cobras que não produzem calor próprio e depende do ambiente para manter sua temperatura corporal conseguiu atingir tamanha proporção? Considerando que seu metabolismo e crescimento são diretamente influenciados pela temperatura.

A resposta para essa pergunta é relativamente simples: basta que a temperatura de seu habitat tenha sido mais alta do que a atual.

A temperatura média anual das florestas equatoriais da América do Sul durante o Paleoceno pode ser estimada comparando fósseis de animais ectotérmicos, como a Titanoboa, com animais ectotérmicos modernos. Isso pode ser feito medindo a diferença entre os tamanhos máximos dos corpos desses animais, já que essa diferença é proporcional à variação na temperatura ambiental para uma determinada taxa metabólica específica.

Para essa estimativa, foi comparado o tamanho máximo corporal da Titanoboa com o da Eunectes murinus (sucuri-verde), a maior cobra dos neotrópicos modernos. A análise indicou que a temperatura média anual mínima necessária para a sobrevivência de uma cobra boina de 13 metros de comprimento seria de 32–33 °C, variando entre 30 °C e 34 °C para tamanhos corporais entre 11 e 15 metros. Essa é uma temperatura relativamente alta em comparação com a média anual dos neotrópicos modernos, que gira em torno de 26–27 °C.

Com isso, podemos perceber como as temperaturas médias anuais variaram ao longo das eras nas florestas equatoriais da América do Sul e como a temperatura influencia diretamente o tamanho máximo corporal de animais ectotérmicos.

Ainda bem que a temperatura dos neotrópicos diminuiu um pouco! Já imaginou encontrar uma cobra desse tamanho rastejando por aí?

Texto fonte:Head, J., Bloch, J., Hastings, A. et al. (2009). Giant boid snake from the Palaeocene neotropics reveals hotter past equatorial temperatures. Nature 457, 715–717. 

Disponível em: https://www.researchgate.net/publication/23980887_Giant_boid_snake_from_the_Palaeocene_neotropics_reveals_hotter_past_equatorial_temperatures.

Fonte e legenda da imagem de capa: Vértebras pré-cloacais de Titanoboa Cerrejonensis.

Disponível em: https://www.researchgate.net/publication/23980887_Giant_boid_snake_from_the_Palaeocene_neotropics_reveals_hotter_past_equatorial_temperatures.


Texto revisado por: Ruan Honorato Marzano Cintra, Alexandre Liparini e Sandro Ferreira de Oliveira.

Pegadas do Passado: A Descoberta de um Dinossauro Ágil no Deserto Brasileiro

Escrito em: 22 de abril de 2025

Por: Maria Fernanda Felice Martinelli Silva

Um estudo publicado recentemente na revista Cretaceous Research (2024) trouxe à tona uma descoberta importante realizada no interior de São Paulo, na região da Formação Botucatu. Foram encontradas pegadas fossilizadas que pertencem a um pequeno dinossauro carnívoro, até então desconhecido pela ciência. A partir dessas evidências, os pesquisadores descreveram um novo gênero e espécie, batizado de Farlowichnus rapidus.

As pegadas indicam que o animal se deslocava com rapidez por dunas de areia, sugerindo um estilo de vida ágil e ativo em um ambiente desértico. Estima-se que o dinossauro tinha cerca de um metro de comprimento e caminhava sobre duas patas. O nome da nova espécie homenageia o paleontólogo James Farlow e destaca a principal característica observada nos rastros: a velocidade.

A análise foi baseada em icnofósseis, ou seja, fósseis de pegadas e outras marcas deixadas por seres vivos. Esse tipo de estudo permite reconstruir aspectos do comportamento, da locomoção e até mesmo do ambiente onde esses organismos viveram. No caso do Farlowichnus rapidus, as pistas apontam para um animal pequeno, carnívoro e bem adaptado às condições áridas do Cretáceo Inferior, há cerca de 120 milhões de anos.

Essa descoberta amplia o conhecimento sobre a fauna do passado que habitou a Bacia do Paraná. Embora a região não seja tradicionalmente conhecida por fósseis de dinossauros, o achado mostra que mesmo áreas menos exploradas podem revelar importantes informações sobre a pré-história brasileira. Além disso, destaca a diversidade ecológica que existia em ambientes extremos, como antigos desertos.

O estudo também chama atenção para a importância da preservação dos sítios fossilíferos no Brasil. Locais como a Formação Botucatu são fundamentais para entender a história da vida na Terra e devem ser protegidos como parte do patrimônio científico e cultural do país.

Texto fonte: LEONARDI, G.; FERNANDES, M. A.; CARVALHO, I. S.; SCHUTZER, J. B.; SILVA, R. C. (2024). Farlowichnus rapidus new ichnogen., new ichnosp.: a speedy and small theropod in the Early Cretaceous Botucatu paleodesert (Paraná Basin), Brazil. Cretaceous Research, v. 153, p. 105720. DOI: 10.1016/j.cretres.2023.105720.

Disponível em: https://www.sciencedirect.com/science/article/abs/pii/S0195667123002483.

DOI: https://doi.org/10.1016/j.cretres.2023.105720.

Fonte e legenda da imagem de capa: A imagem foi retirada do próprio artigo científico e a ilustração foi elaborada por G. Gehr. Contém uma reconstrução artística do dinossauro Farlowichnus rapidus caminhando pelo antigo deserto da Formação Botucatu, durante o Cretáceo Inferior. As pegadas na areia representam os icnofósseis analisados no estudo, que revelam um animal pequeno, ágil e veloz, adaptado a ambientes áridos.

Disponível em: https://www.sciencedirect.com/science/article/abs/pii/S0195667123002483.


Texto revisado por: Ítalo Augusto de Oliveira Barboza, Sandro Ferreira de Oliveira e Alexandre Liparini.

O que vestígios paleoarqueológicos podem nos revelar sobre as mudanças ambientais da transição do Paleoceno para Holoceno?

Escrito em: 22 de abril de 2025

Por: Daniel Fernandes

Dolores Piperno é uma arqueobotânica norte‑americana. Desde 2003 atua como cientista sênior no Smithsonian Tropical Research Institute, em Balboa, Panamá. Piperno é pioneira no uso de fitólitos (grãos de amido e pólen) para reconstruções paleoecológicas e arqueobotânicas, tendo escrito um dos maiores livros da área sobre métodos de uso de fitólitos na ciência. Ela é a autora do artigo discutido a seguir, que revela um pouco sobre essa área tão interessante situada entre a Botânica, a Paleontologia e a Arqueologia. 

Primeiramente, o que é a arqueobotânica? Arqueobotânica é o estudo das interações entre seres humanos e plantas no passado, por meio da recuperação e análise de restos vegetais antigos. Quando essas interações estão num marco temporal mais distante do que o Holoceno, esses vestígios arqueobotânicos passam a ser paleontológicos, ou seja, são fósseis. 

Para compreender melhor sobre essa área de pesquisa, vamos fazer uma viagem ao Panamá. 

Imagine um lago que guarda camadas e mais camadas de fragmentos minerais, cinzas e carvão, como se cada milímetro de seu fundo fosse uma página de um livro. O antigo Monte Oscuro, na costa pacífica do Panamá, é um monumento de água, areia e lama que registrou a dinâmica dos climas e ecossistemas do Paleoceno. A paleoarqueobotânica (sim, um nome enorme) é uma forma de ler esse livro. Piperno e Jones coletaram, usando uma broca enorme montada em um caminhão, vestígios de diversas profundidades do sedimento desse lago. Coletaram grãos de pólen, e pequenas estruturas microscópicas de sílica (um mineral) que se formam em plantas, chamados fitólitos. Analisando-os, é possível saber sua idade e a qual planta pertencem. 

No perfil de Monte Oscuro, entre 8 e 7,1 m de profundidade, os fitólitos de gramíneas C₄ e ervas de clima árido dominam mais de 60% do registro. Arbustos como Curatella americana aparecem mais esparsos, palmeiras adaptadas a pouca chuva pontuam a paisagem (de forma similar ao nosso Cerrado), tudo indicando que chuvas entre 30% e 40% abaixo dos níveis atuais transformaram uma floresta em estepes abertas. Muito similar com o fenômeno de savanização que está ocorrendo hoje em dia na floresta amazônica.  

Por volta de 10.500 anos atrás o lago voltou a se encher de água. Agora com sedimentos bem cimentados em sílica e carbono, fitólitos arbóreos de Chrysobalanaceae e Annonaceae começam a superar os de capins, enquanto o pólen de espécies arbóreas e decíduas demonstraram a reconquista da floresta tropical. Isso são sinais de um Holoceno mais úmido e morno. O ecossistema respondeu a essa alteração no clima mudando sua composição florística.

E se plantas falassem, talvez relatariam uma nova reviravolta: entre 7.500 e 7.000 anos atrás, o sedimento escureceu de carvão, e fitólitos de capins e Heliconia queimados, apareceram de forma completamente inesperada apontando para queimadas controladas na região. Qual foi o autor dessas queimadas? As evidências apontam para populações humanas que, ao entrar na mata, faziam queimadas e experimentos agrícolas, os primeiros traços de manejo antrópico na bacia de Monte Oscuro. Assim como nós encontramos na Amazônia os sítios de Terra Preta de Índio, solos com muito carvão e restos vegetais “compostados”, no fundo do Monte Oscuro, haviam vestígios de agricultura pelos primeiros habitantes da região. Hoje em dia, o Monte Oscuro está situado fora de qualquer Comarca (o sinônimo panamenho de Terra Indígena). Mas os sete povos que habitam hoje o país (Ngäbe, Buglé, Guna, Emberá, Wounaan, Bribri e Naso Tjër Di), já habitavam há centenas de anos e todos eles faziam manejo de suas terras.

Todos esses povos indígenas mantêm sistemas agrícolas tradicionais (milho, mandioca, banana, feijão, cacau, entre outros), na qual a prática da coivara (queima controlada) é ainda hoje muito utilizada e provavelmente tem origens muito mais antigas. Esses fragmentos de sílica e pólen não são apenas curiosidades paleobotânicas: eles nos lembram que mudanças climáticas e movimentos humanos sempre estiveram entrelaçados. O ser humano, ao mesmo tempo, tem sua cultura definida pelo ambiente, mas também define o ambiente com a sua cultura. Nós, ao chegarmos na América, já no Holoceno, criamos métodos para nos adequar à transição de savana para floresta no Monte Oscuro, e desenvolvemos um início de agricultura, e assim criamos um substrato fértil que alterou a ecologia do ambiente por centenas ou até milhares de anos depois.

Ao reinterpretar o fundo de um lago como um arquivo vivo, descobrimos não só como o clima do fim do Pleistoceno confirmou savanas efêmeras e, depois, se voltou a florestas, mas também como nossos ancestrais reagiram, adaptaram-se e, cultivaram as primeiras plantas. Tudo isso observando pequenos vestígios vegetais. Que lição nos resta hoje, quando enfrentamos rápidas alterações ambientais? Se soubéssemos ler com a mesma sensibilidade dos arqueobotânicos os sedimentos sob nossos pés, talvez aprendessemos a proteger melhor os ecossistemas de que dependemos. Afinal, como Monte Oscuro demonstra, cada grão de pólen, cada fragmento de carvão, é uma imagem de resiliência, tradição e continuidade.

Texto fonte: PIPERNO, Dolores R. e JONES, John G. (2003). Paleoecological and archaeological implications of a late Pleistocene/Early holocene record of vegetation and climate from the pacific coastal plain of panama. Quaternary Research, Volume 59, Issue 1, January 2003, Pages 79-87.

Disponível em: https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0033589402000212.

DOI: https://doi.org/10.1016/S0033-5894(02)00021-2.

Fonte e legenda da imagem de capa: A carbonização é um dos principais modos de preservação de espécimes de macrofósseis de plantas, de vestígios paleoetnobotânicos.

Disponível em: Wikipedia Commons, Cmhenkel.


Texto revisado por: Sandro Ferreira de Oliveira e Alexandre Liparini.

Você sabia que dinossauros tinham câncer?

Escrito em: 22 de abril de 2025

Por: Giovanna Melo Bruzzi Corrêa

Você sabia que dinossauros tinham câncer? É isso que revela a revisão bibliográfica publicada por Garcês et. al. em 2024. No imaginário popular, é muito comum associarem o câncer aos tempos modernos. No entanto, esse estudo indica que os tumores, que são crescimentos anormais de células, existem em vertebrados há pelo menos 350 milhões de anos! Esse dado vem de um achado fóssil de um peixe do Devoniano (Phanerosteon mirabile) (Phanerosteon mirabile) que continha indícios de osteoma, um tumor ósseo benigno, situação na qual geralmente não é grave. Pra você ter ideia, esse período está entre 0,4 a 3,2 milhões de anos atrás. Também nesse artigo, há evidências de tumores benignos e malignos (câncer) em mamutes e até em dinossauros, com a família Hadrosauridae contendo a maior incidência de registros tumorais. Além disso, outra revisão, desta vez publicada por Galassi et. al., também em 2024, sugere que os tumores podem estar correlacionados com fatores da antiguidade  o gás radônio que é  que é uma fonte natural de radiação, infecções virais causadoras de câncer como o HPV, toxinas liberadas por plantas e microrganismos e outros elementos. 

Com a ajuda de estratégias como tomografia computadorizada e análises histológicas, pesquisadores dos artigos originais conseguiram mapear os fósseis e encontrar sinais de tumores, principalmente em ossos. Isso ocorre porque as partes moles se decompõem muito mais rapidamente e raramente são preservadas com o passar do tempo, o que inviabiliza uma análise robusta do histórico de tumores na Terra através desses tecidos. 

No entanto, ainda sim é possível realizar um estudo sobre ocorrências tumorais ao longo dos anos: em 2024, Garcês et. al. e Galassi et. al. reuniram diversos artigos de registros fósseis com evidências de tumores e analisaram esses achados, trazendo a informação que tumores não são exclusivos da modernidade. Mas porque é importante pesquisar o passado, se esses seres já não estão entre nós e não estão mais sofrendo com essas doenças terríveis?

A paleontologia também dialoga com a área da saúde, e pesquisas como essas são extremamente importantes para o estudo de doenças do passado, que também estão presentes atualmente, e para o entendimento do comportamento destas no futuro. Tudo isso reforça a importância da preservação de sítios fossilíferos e de seus registros e principalmente da valorização da profissão do paleontólogo. Sem um bom estudo do passado, é muito mais difícil compreender o presente e “especular sobre o futuro”.

Texto fonte: GARCÊS, Andreia; PIRES, Isabel; GARCÊS, Sara. (2024). Ancient Diseases in Vertebrates: Tumours through the Ages. Animals, Basel, v. 14, n. 10, p. 1474. DOI: https://doi.org/10.3390/ani14101474.

Disponível em: https://www.mdpi.com/2076-2615/14/10/1474

Texto fonte: GALASSI, Francesco M. et al. (2024). A historical and palaeopathological perspective on cancer. Journal of Preventive Medicine and Hygiene, [S.l.], v. 65, n. 1, p. E93–E97.

Disponível em: https://www.jpmh.org/index.php/jpmh/article/view/3221.

DOI: https://doi.org/10.15167/2421-4248/jpmh2024.65.1.3221.

Fonte e legenda da imagem de capa: Tumores ósseos de vertebrados da antiguidade.

Disponível em: https://www.jpmh.org/index.php/jpmh/article/view/3221.


Texto revisado por: Sandro Ferreira de Oliveira e Alexandre Liparini.