A Origem das Leveduras

Escrito em: 25 de outubro de 2025

Por: Yuri Melo

Uma equipe de cientistas russos fez uma descoberta impressionante que pode mudar a forma como entendemos a origem e a evolução das leveduras na Terra, pesquisadores do Instituto de Geologia de Diamantes e Metais Preciosos da Academia Russa de Ciências, liderados por Petr Kolosov e Irina Okhlopkova, identificaram microfósseis de fungos do tipo levedura preservados em rochas com cerca de 550 milhões de anos, datadas do período Ediacariano, antes do aparecimento das plantas e animais complexos.

Esses fósseis foram encontrados na Formação Byuk, localizada na calha de Berezovsky, região leste da plataforma siberiana, uma das áreas mais antigas e bem preservadas da crosta terrestre. As rochas analisadas são estromatólitos, estruturas laminadas formadas por comunidades microbianas que funcionavam como “recifes” primitivos e dentro dessas formações, os pesquisadores descobriram as minúsculas células fossilizadas dos fungos, surpreendentemente bem preservadas.

Usando microscopia eletrônica de varredura, os cientistas observaram detalhes muito pequenos das células e puderam identificar características idênticas às das leveduras modernas, como a reprodução por brotamento, a formação de esporos e a divisão celular. Esses processos são típicos de fungos unicelulares e demonstram que, já naquela época, esses organismos possuíam modos de vida parecidos aos atuais.

Os fungos receberam o nome de Tungusia mane, em referência à região do leste da Rússia, de acordo com o estudo, essas leveduras viviam em associação com algas verdes lamelares, das quais se alimentavam por parasitismo, ou seja, extraíam nutrientes diretamente das algas. Essa relação sugere que, há centenas de milhões de anos, já existiam interações ecológicas entre microrganismos, semelhantes às que observamos nos ecossistemas modernos.

Os pesquisadores acreditam que o Tungusia mane pode representar um dos ancestrais mais antigos dos fungos de levedura modernos, grupo que inclui espécies como as do gênero Saccharomyces, amplamente utilizadas hoje em processos de fermentação de pães e cerveja na indústria biotecnológica. Essa descoberta preenche uma lacuna importante na história evolutiva dos fungos, pois até agora havia pouquíssimas evidências fósseis que comprovassem sua existência antes do período Cambriano.

Além disso, o estudo destaca o papel essencial dos fungos na formação dos primeiros ecossistemas da Terra, durante esse período, os mares rasos e ricos em nutrientes da Sibéria abrigavam uma variedade de microrganismos, e os fungos provavelmente contribuíram para o ciclo de matéria orgânica e mineralização dos sedimentos, ajudando a moldar o ambiente que, mais tarde, permitiria o surgimento dos primeiros animais multicelulares.

A descoberta reforça a importância da plataforma siberiana como um verdadeiro tesouro paleontológico, oferecendo uma janela única para o passado remoto da vida na Terra. Segundo os autores, novos estudos na região podem revelar ainda mais formas de vida microscópica do Pré-Cambriano, ajudando a compreender como os primeiros fungos se originaram e evoluíram até as espécies que conhecemos hoje.


Texto fonte: Kolosov, P., & Okhlopkova, I. (2024). Yeast fungi in the Ediacaran stromatolites of the Siberian Platform. Revista Brasileira De Paleontologia, v. 27, n. 3, p. 1-10, e20240403. Doi: https://doi.org/10.4072/rbp.2024.3.0403.

Disponível em: https://sbpbrasil.org/publications/index.php/rbp/article/view/403.

Fonte e legenda da imagem de capa: Imagem de microscopia eletrônica de varredura da levedura ancestral parasitando uma alga verde.

Disponível em: https://drive.google.com/open?id=1yUcqJCj5dI1Kny_qVjgPYuLS56b1h1tZ.

Texto revisado por: Sandro Ferreira de Oliveira e Alexandre Liparini.

Tecidos Moles: o que são e como sua preservação contribui para a paleontologia

Escrito em: 26 de outubro de 2025

Por: Paola Batista de Paula

A paleontologia é uma área que tem ganhado bastante notoriedade, visto que é alvo de interesse do público geral, não estando somente limitada à área acadêmica.

Ela é o campo do conhecimento que estuda os vestígios e restos de organismos que habitavam o planeta Terra há milhares e milhões de anos, e por meio da análise de fósseis, os restos e vestígios, ela nos permite conhecer a história da vida na Terra. Nesse sentido, novos métodos de estudos têm ganhado força para tornar essa área ainda mais robusta: este é o caso da análise de preservação de tecidos moles.

Os chamados “tecidos moles” são as partes do corpo dos organismos que não são tão sólidas quanto os ossos, podendo incluir então os vasos sanguíneos, músculos, tendões, gordura, proteínas e etc. Assim, dentro do registro fóssil, esses tecidos são bem difíceis de serem encontrados por serem mais “frágeis”, podendo se desconstruir mais facilmente. Dentro deste contexto, muita informação importante é perdida. Os ossos, por outro lado, são mais robustos e mais fortes, perseveram na natureza por muito mais tempo.

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Anfíbios mineiros contam história sobre o clima e o ambiente no passado

Escrito em: 20 de outubro de 2025

Por: Ana Clara Caovilla Fernandes

A Gruta Cuvieri, localizada em Lagoa Santa – MG, é uma região muito importante para a ciência. Diversos estudos já foram feitos na localidade desde quando Peter Lund (1801-1880) estudou os fósseis do “Homem de Lagoa Santa”, das preguiças gigantes e de tigres-dentes-de-sabre. No entanto, em um artigo sobre a Gruta Cuvieri, de Arthur Chahud, outro grupo de animais roubou a cena. Com ossos muito menores: os anuros, clado que abriga sapos, rãs e pererecas, tiveram seus fósseis analisados por pesquisadores.

O intuito da pesquisa foi aplicar a “Tafonomia” a esses anfíbios. A tafonomia é a área da paleontologia que investiga a transformação dos organismos em fósseis após a morte, em que ajuda a compreender os processos pelos quais os ossos passaram para estar naquela caverna daquela forma.

Os cientistas encontraram uma grande diversidade de fragmentos ósseos: tinham ossos da coluna, dos membros dianteiros e traseiros… todos eles correspondendo a uma época próxima ao Holoceno, um período geológico recente, correspondente ao que estamos agora!

Os ossos coletados apresentaram tamanhos e proporções bem diferentes! Isso sugere que havia muitas espécies desses anfíbios vivendo nessa região ao longo do tempo, diversificadas em idade, populações e grupos.

Mas o que é mais intrigante nessa pesquisa é: como esses restos se distribuíram ao longo do tempo? Os primeiros vestígios encontrados correspondem ao limite entre o Pleistoceno (época da última Era do Gelo) e o Holoceno (atual), enquanto os outros (a grande maioria) são mais recentes, correspondendo a menos de 6.000 anos atrás.

Entre essas duas épocas com fósseis coletados, os pesquisadores perceberam uma ausência, um “buraco” no tempo em que não foram encontradas amostras do grupo na caverna. Esse fenômeno não ocorre por acaso, ele pode coincidir com uma fração conhecida como “Archaic Gap”, que basicamente seria uma uma fase na história da região em que há pouco ou nenhum registro de ocupação, por razões que provavelmente estão ligadas a mudanças climáticas e/ou ambientais.

O achado dos pesquisadores traz à tona importantes informações sobre a herpetofauna da região, sugerindo que até mesmo pequenos vertebrados sofrem influência de mudanças climáticas, ambientais ou comportamentais.

Então, o que podemos concluir com isso? O estudo demonstra que, ao avaliarmos os fósseis e subfósseis de microvertebrados de forma aprofundada, é possível compreender parte da história da Gruta Cuvieri e entender melhor as correlações entre clima, fauna e paleontologia em Minas Gerais! Evidenciando como é importante estudarmos o nosso passado para assimilarmos as perspectivas futuras, sejam elas climáticas, ambientais ou da fauna.

Texto fonte: Artur Chahud, 2022, Tafonomia de restos de Anura (Amphibia) do Holoceno da Gruta Cuvieri, estado de Minas Gerais, Brasil, Rev. Biol. Neotrop. / J. Neotrop. Biol., Goiânia, v. 19, n. esp. p. 92­98, https://doi.org/10.5216/rbn.v19iesp.73433

Disponível em:  https://revistas.ufg.br/RBN/article/view/73433.

Fonte e legenda da imagem de capa: Na famosa Gruta Cuvieri, em Lagoa Santa (MG), onde Peter Lund já encontrou fósseis humanos e de preguiças gigantes, cientistas descobriram algo diferente: ossos de anuros! 

Disponível em:  ilustrações do Canva e Google Imagens por Ana Clara Caovilla Fernandes.


Texto revisado por: Eric Issao Inamura e Alexandre Liparini.

Microrganismos e Fossilização: como biofilmes ajudaram a preservar insetos do Cretáceo

Escrito em: 27 de outubro de 2025

Por: Thamires Nunes

A Formação Geológica La Cantera, localizada na província de San Luis, na Argentina, data do Cretáceo Inferior (145 a 100 milhões de anos atrás). Esse ambiente de transição, onde um rio desaguava em um lago, apresentava condições físicas e químicas singulares que possibilitaram a preservação de organismos delicados, como insetos.

Nas rochas da formação, foram observadas estruturas rugosas formadas por comunidades de microrganismos, além de fendas subaquáticas e estruturas reniformes (em forma de rim). Esses indícios sugerem a antiga presença de tapetes microbianos, compostos por bactérias, fungos e algas. Apesar de não existirem evidências diretas dessas estruturas sobre os fósseis, pesquisadores propuseram que a boa preservação dos insetos poderia estar relacionada à ação de biofilmes microbianos, finas camadas de microrganismos que se aderem a superfícies e produzem uma película protetora formada por açúcares e proteínas, retardando a decomposição e favorecendo a mineralização dos tecidos moles. Segundo o estudo, a formação de um “sarcófago microbiano” ao redor do corpo do inseto poderia preservar com alta fidelidade sua morfologia original.

Datadas do Cretáceo, várias espécies de insetos já foram registradas em locais como Las Hoyas (Espanha) e a Formação Crato (Brasil), sendo relativamente escassos os fósseis de insetos preservados dessa maneira, em outras partes do mundo. Na Formação La Cantera, destacam-se fósseis de besouros, vespas, formigas e percevejos, sendo estes últimos os mais abundantes. A excelente preservação desses insetos motivou experimentos para compreender o papel dos biofilmes nesse processo que resultou na conservação desses ricos vestígios paleoentomológicos.

Nesses experimentos utilizaram percevejos aquáticos coletados nas margens do rio El Volcán (Argentina), escolhidos por sua proximidade evolutiva com os fósseis de La Cantera. Foram testados cinco tratamentos, variando o uso de algicidas, antibióticos e fungicidas, com o objetivo de avaliar quais condições favoreciam a formação dos biofilmes e retardavam a decomposição.

Os resultados mostraram que os biofilmes se formaram em todos os tratamentos, envolvendo diferentes microrganismos: fungos (Aspergillus niger e Zygomycota), algas (diatomáceas e Zygnematales) e bactérias (Enterobacteriaceae e Staphylococcaceae). As condições físicas e químicas não influenciaram diretamente o desenvolvimento microbiano durante o experimento. Os tratamentos com maior crescimento de fungos e algas mostraram melhor preservação dos corpos, atuando como barreiras protetoras que impediram a desarticulação dos insetos. Outra hipótese é que a inibição das bactérias tenha ajudado a manter a integridade morfológica dos espécimes.

Esse estudo reforça a importância das comunidades microbianas na preservação de organismos aquáticos, indicando que tapetes formados por algas e fungos podem ter desempenhado um papel essencial na fossilização dos insetos da Formação La Cantera. A comparação com a Formação Crato, no Brasil, onde biofilmes bacterianos contribuíram para a mineralização de tecidos moles, mostra que diferentes grupos de microrganismos podem atuar de formas complementares na conservação dos fósseis. O estudo evidencia, assim, como a interação entre microrganismos e ambiente é fundamental para compreender os processos que permitiram a preservação da vida no passado.

Texto fonte: Mancuso, A. C.; Sierra, M.; Escalona, E. L. B.; Arcucci, A. (2024). Revealing microbial components in biofilm on aquatic insect cadavers: an experimental taphonomic study. Revista Brasileira de Paleontologia, v. 27, n. 1.

Disponível em:  https://sbpbrasil.org/publications/index.php/rbp/article/view/351.

Fonte e legenda da imagem de capa: A imagem mostra um percevejo, organismo-modelo do estudo ao qual se refere o artigo, em uma formação rochosa envolto por microrganismos formadores de biofilme que atuam na proteção contra a degradação rápida do organismo e favorece seu processo de fossilização.

Disponível em:  Imagem gerada por inteligência artificial.


Texto revisado por: Daniel dos Santos Araújo e AlexandreLiparini.

Fósseis: Para quê?

Escrito em: 26 de outubro de 2025

Por: Lavínia Dutra

Para que servem os fósseis? Com certeza, ao ouvir esta pergunta, a resposta que vem na ponta da língua é: para conhecer os animais que viveram no passado, estabelecer ligações entre eles e os animais atuais e saber das extinções ocorridas. Porém, na Paleontologia, os estudos vão muito além disso.

O artigo a respeito de mamíferos fósseis do sítio Lajedo de Soledade, do quaternário do Rio Grande do Norte, desenvolvido por pesquisadores de universidades brasileiras, revela a descoberta de fósseis de diferentes mamíferos em ravinas formadas pela ocorrência de erosão e lixiviação (retirada dos nutrientes de solos expostos, pela ação da água da chuva), em uma plataforma cárstica constituída por rochas carbonáticas, contendo restos de vertebrados. Seu conteúdo traz uma resposta diferente para a pergunta que foi feita inicialmente.

É sabido que, através do estudo da camada onde os fósseis foram encontrados, é possível fazer inferências sobre o achado fóssil, como o modo de fossilização e sua constituição original, porém neste artigo vemos o contrário, a descoberta da espécie ao qual originaram os fósseis sendo utilizada para inferir sobre a constituição original do ambiente que eles ocupavam. Afinal, os fósseis além de carregar informações sobre os organismos vivos que deram origem a eles, podem ainda mostrar características do ambiente e condições climáticas e ambientais às quais os organismos foram submetidos, possibilitando a reconstrução de ambientes.

Chega a ser surpreendente quando descobrimos, ao ler este artigo, que a região estudada, no Rio Grande do Norte, de atual cobertura pelo bioma Caatinga, foi, no início do período Quaternário (há cerca de 1,8 milhões de anos), de aparência diferente da que vemos hoje. A região contava com ambientes de pequenas florestas com corpos d’água, características do bioma Cerrado, alternados com ambientes abertos e secos, como do bioma atual. Mas quais animais permitiram que essas descobertas fossem feitas? Para aqueles que se sentem mais animados com o assunto, uma leitura neste interessante artigo esclarecerá todas as dúvidas.

Texto fonte: Costa, J. P. da, Ade, M. V. de B., Bergqvist, L. P., Barbosa, F. H. de S., Dantas, M. A. T., Porpino, K. de O., Araújo-Júnior, H. I. de. (2024). Fossil mammals from Lajedo de Soledade, Quaternary of Rio Grande do Norte, Brazil. Revista Brasileira De Paleontologia, 27(2), e20240438.

DOI: https://doi.org/10.4072/rbp.2024.2.0438.

Disponível em: https://sbpbrasil.org/publications/index.php/rbp/article/view/438.

Fonte e legenda da imagem de capa: A imagem mostra vestígios de animais da ordem Carnivora, encontradas nas expedições dos profissionais que escreveram este artigo.

Disponível em: https://sbpbrasil.org/publications/index.php/rbp/article/view/438. Figura 3.


Texto revisado por: André Reis Lage, Sandro Ferreira de Oliveira e Alexandre Liparini.

Pequenos fósseis, grandes descobertas!

Escrito em: 27 de outubro de 2025

Por: Isabela Novais Miranda de Almeida

Muitas vezes, quando pensamos em paleontologia, lembramos apenas dos museus e de seus grandes fósseis de dinossauros, mamíferos e até mesmo de plantas. Entretanto, essa é uma área que não se limita aos organismos macroscópicos. Os microfósseis existem e são objeto de estudo da micropaleontologia. Eles podem ser organismos inteiros ou partes deles que foram fossilizados e possuem tamanho microscópico, sendo invisíveis a olho nu.

O trabalho do pesquisador brasileiro Matheus Denezine e colaboradores, publicado em 2024 no “Journal of Paleontology”, investigou microfósseis orgânicos encontrados na Formação Sete Lagoas, no norte de Minas Gerais, revelando detalhes sobre a vida microscópica que existia há milhões de anos.

Esses fósseis foram identificados em rochas formadas em antigos mares rasos que cobriam a região durante o período geológico Ediacarano, há cerca de 550 milhões de anos. Uma equipe internacional de pesquisadores analisou amostras dessas rochas sob o microscópio e realizou testes químicos para entender sua composição e idade. O resultado foi a descoberta de sete espécies diferentes de microorganismos, entre eles cianobactérias e acritarcas (um grupo taxonômico informal de microrganismos com organização celular eucariótica) incluindo Siphonophycus robustum, Leiosphaeridia crassa e Germinosphaera bispinosa. A maior novidade do estudo foi a descrição de uma nova espécie, batizada de Ghoshia januariensis, em homenagem à cidade de Januária (MG).

A partir das análises, os cientistas concluíram que a presença e a distribuição desses microfósseis estão relacionadas a um ambiente marinho calmo e bem iluminado, ideal para a proliferação de organismos fotossintetizantes. No entanto, as camadas superiores da formação mostram sinais de mudança: apenas a nova espécie foi encontrada, indicando possíveis variações na salinidade e na oxigenação dos oceanos. Esses dados ajudam os pesquisadores a reconstruir o clima e as condições ambientais de um tempo em que os primeiros seres multicelulares estavam surgindo.

Esse trabalho é de extrema importância por dar maior visibilidade ao patrimônio fossilífero brasileiro, evidenciando a necessidade de se preservar e conservar os sítios geológicos, sobretudo das grandes bacias do território nacional. Além disso, o estudo de fósseis microscópicos como esses contribui para compreender como o planeta reagiu às mudanças ambientais do passado, tema cada vez mais relevante diante das transformações climáticas atuais.

Texto fonte: Denezine, M.; Carmo, D. A.; Xiao, S.; Tang, Q.; Sergeev, V.; Mazoni, A. F.; Zabini, C. (2024). Organic-walled microfossils from the Ediacaran Sete Lagoas Formation, Bambuí Group, Southeast Brazil: taxonomic and biostratigraphic analyses. Journal of Paleontology, v. 98, n. 2, p. 287–306. DOI: 10.1017/jpa.2023.78.

Disponível em: https://doi.org/10.1017/jpa.2023.78.

Fonte e legenda da imagem de capa: Microfotografias ópticas mostrando filamentos do microfóssil Ghoshia januariensis. As imagens exibem estruturas alongadas e segmentadas em diferentes condições de luz e aumento. As células aparecem organizadas em série, o que é característica típica de cianobactérias filamentosas.

Disponível em: https://doi.org/10.1017/jpa.2023.78.


Texto revisado por: Sandro Ferreira de Oliveira e AlexandreLiparini.

Como Fósseis de Mamutes explicam a História da Vida Microscópica na Terra?

Escrito em: 27 de outubro de 2025

Por: Lorena Batista Teixeira

Quando se pensa em fósseis, é comum que venham à mente enormes dinossauros que um dia habitaram a Terra. Também é comum imaginar que seres menores não teriam a menor chance de se perpetuar ao longo do tempo. No entanto, a vida na Terra sempre foi complexa e composta por inúmeros organismos, inclusive microrganismos. Esses seres microscópicos são componentes fundamentais dos ecossistemas e essenciais para seu funcionamento desde a origem da vida. Entender suas relações e comportamentos é importante para desvendar mistérios que atravessam a história do planeta.

A questão é: de que forma esses organismos podem ser estudados após tanto tempo? Pesquisas que buscam compreender a existência desses seres analisam principalmente suas relações com o ambiente, seja por meio do hospedeiro em que viviam, seja a partir de amostras antigas de solo. Um estudo publicado em 2025 na revista Cell avaliou amostras de 483 mamutes, datadas de cerca de 1 milhão de anos até o momento de sua extinção, para entender a relação dos micróbios que coexistiam com esses animais. As amostras incluíam dentes, pele e ossos fossilizados, sendo examinada a composição microbiana de cada uma.

Alguns gêneros de bactérias identificados mostraram-se filogeneticamente próximos de espécies que ainda hoje vivem em mamíferos. Entre eles, destaca-se um dos dois clados de Pasteurella, encontrado em 11 mamutes-lanosos de diferentes regiões, com semelhança genética a uma bactéria do gênero Actinobacillus isolada de fezes de porcos. O estudo também revelou a presença de um clado de Erysipelothrix em um molar de mamute-das-estepes e em ossos de mamutes-lanosos. A linhagem relacionada ao mamute-das-estepes foi datada em aproximadamente 1,1 milhão de anos, tornando-se, segundo o artigo, o genoma microbiano mais antigo associado a um hospedeiro já identificado.

Entre as limitações apontadas, destaca-se o alto risco de contaminação que restos mortais podem sofrer após a morte ou durante o processo de fossilização, devido à colonização por microrganismos que podem interferir na análise. Ainda assim, a avaliação desses organismos é de extrema importância para compreender sua evolução e sua influência na evolução dos próprios hospedeiros, revelando como a vida, visível ou microscópica, está interligada desde os tempos mais antigos.

Texto fonte: Guinet B, Oskolkov N, Moreland K, Dehasque M, Chacón-Duque JC, Angerbjörn A, Arsuaga JL, Danilov G, Kanellidou F, Kitchener AC, Muller H, Plotnikov V, Protopopov A, Tikhonov A, Termes L, Zazula G, Mortensen P, Grigorieva L, Richards M, Shapiro B, Lister AM, Vartanyan S, Díez-Del-Molino D, Götherström A, Pečnerová P, Nikolskiy P, Dalén L, van der Valk T. (2025). Ancient host-associated microbes obtained from mammoth remains. Cell. Sep 2:S0092-8674(25)00917-1. doi: 10.1016/j.cell.2025.08.003. Epub ahead of print. PMID: 40902595.

Disponível em: https://www.cell.com/cell/fulltext/S0092-8674(25)00917-1.

Fonte e legenda da imagem de capa: A imagem mostra um resumo geral sobre todos os pontos abordados no artigo, indicando a abrangência das amostras fósseis utilizadas, quais partes foram analisadas e como as descobertas podem se relacionar filogeneticamente.

Disponível em: https://www.cell.com/cell/fulltext/S0092-8674(25)00917-1.


Texto revisado por: Sandro Ferreira de Oliveira e AlexandreLiparini.

Vírus ancestrais, placenta moderna: o que a paleovirologia nos conta sobre a origem dos mamíferos

Escrito em: 21 de abril de 2025

Por: Giovanne de Aguiar Barra

Quando ouvimos a palavra “fóssil”, normalmente pensamos em ossos ou pegadas preservadas em rochas. Mas você sabia que também carregamos fósseis dentro do nosso DNA? A paleovirologia estuda justamente isso: os restos de antigos vírus que se integraram aos genomas de diversos hospedeiros ao longo da evolução.

 Esses vestígios virais, chamados de retrovírus endógenos, são como pegadas genéticas deixadas por vírus que infectaram os seres ancestrais há dezenas de milhões de anos. Ao sequenciar e comparar genomas de diferentes espécies, cientistas conseguem rastrear esses fragmentos virais e reconstituir sua história — assim como um paleontólogo reconstrói esqueletos completos com fragmentos fósseis. Essa abordagem nos ajuda a entender como certos vírus passaram de parasitas a peças essenciais da biologia daqueles a quem infectaram.

 No artigo em questão, é investigado a história de proteínas chamadas sincitinas, derivadas de vírus antigos, cruciais para a formação da placenta em mamíferos. Esses genes, originários de retrovírus que infectaram nossos ancestrais há mais de 80 milhões de anos, perderam sua capacidade infecciosa e foram “domesticados” pelo organismo para promover a fusão de células no tecido placentário. Sem eles, a gravidez em espécies como humanos e camundongos seria inviável.

 No estudo, a equipe comparou genes de diversas espécies, datando sua inserção e identificando mutações que revelam pressão seletiva (ou seja, a “necessidade” de mantê-los funcionais). Camundongos geneticamente modificados sem essa proteína, por exemplo, não formam a placenta corretamente, comprovando seu papel essencial. Isso é possível descobrir justamente porque os genomas guardam esses registros antigos, que podem ser comparados entre linhagens e datados com precisão.

 O estudo também sugere que a captura de genes virais pode ter sido um marco na transição de mamíferos ovíparos para placentários. Curiosamente, diferentes linhagens (como primatas, roedores e carnívoros) “domesticaram” sincitinas distintas, independentemente, em um exemplo notável de evolução convergente.

 A paleovirologia, portanto, nos mostra que a evolução não descarta nada: até mesmo genes de vírus extintos podem ser aproveitados para construir novidades evolutivas. No caso dos mamíferos, foi graças a um antigo invasor viral que a placenta pôde emergir.

Texto fonte: Lavialle, C.; Cornelis, G.; Dupressoir, A.; Esnault, C.; Heidmann, O.; Vernochet, C.; Heidmann, T. (2013). Paleovirology of ‘syncytins’, retroviral env genes exapted for a role in placentation. Philosophical Transactions of the Royal Society B: Biological Sciences, 2013, 368(1626), 20120507. Doi: 10.1098/rstb.2012.0507.

Disponível em: https://royalsocietypublishing.org/doi/10.1098/rstb.2012.0507.

Fonte e legenda da imagem de capa: Imagem criada por Amr Aswad. Modificado a partir de uma imagem de um peixe fóssil, obtida por meio da HAAP Media Ltd. e originalmente fotografada por Miguel Saavedra.

Disponível em: https://drive.google.com/open?id=1YkoNwVgkKjHMTVQLI1Gu6Q4sx7W88WQk.


Texto revisado por: Henrique Tosta Hernandes, Alexandre Liparini e Sandro Ferreira de Oliveira.

Cientistas estão usando tecnologia 3D para trazer fósseis de volta à vida

Escrito em: 25 de outubro de 2025

Por: Jullia Nascimento dos Santos

Você já imaginou como era a vida há milhões de anos atrás? Quem nunca teve a curiosidade de saber como os dinossauros seriam de pertinho ou qual era o tamanho dos outros animais? Se eles e as plantas se pareciam com o que vemos hoje…

Assim como muitos de vocês, os cientistas também possuem essas dúvidas e tentam respondê-las por meio dos fósseis (que são restos ou vestígios de seres que viveram há muitos anos atrás). Porém há um grande problema: os fósseis são delicados e devem ser manuseados apenas por especialistas com equipamentos específicos. Então como estudá-los e mostrar para a população sem correr o risco de quebrar? É aí que a tecnologia 3D entra na história! Veja como o avanço da tecnologia nos possibilita ter contato com coisas interessantes, educativas e acessíveis.

Para analisar vestígios sem o risco de destruí-los, os cientistas:

1°- Criam uma cópia da peça usando o escaneamento 3D ou a Tomografia Computadorizada (tipo um raio-X muito detalhado).

2°- Fabricam uma réplica a partir da cópia digital, usando a Manufatura Aditiva (MA), que é a impressão 3D.

Você se lembra do incêndio no Museu Nacional da UFRJ que ocorreu em 2019?

Lá estava o fóssil da Luzia, o fóssil humano mais antigo que temos na América. Por sorte, os estudantes da UFRJ já haviam escaneado a peça, e após o incêndio conseguiram fabricar uma réplica até ele ser reconstituído. A tecnologia 3D foi fundamental na reconstrução do nosso patrimônio, que infelizmente não recebe o devido valor.

Dessa forma, os fósseis estão ganhando vida nos museus! O 3D nos permite mostrar por exemplo como era a anatomia dos dinossauros, como eles se moviam e respiravam e até como eram suas estruturas internas. Além disso, facilita o trabalho dos cientistas e ajuda a sanar as dúvidas dos estudantes e curiosos do mundo todo!

E aí? Você achou interessante esse novo método?

Responda ao nosso teste e descubra que tipo de paleontólogo você é, se é do tipo conservador, que gosta dos métodos tradicionais de trabalho, ou se é um paleontólogo mais ligado às mudanças tecnológicas e gosta de inovar os métodos. Escolha entre A ou B e ao final some quantos pontos A e B você marcou:

1. Ao lidar com um fóssil original e extremamente raro, qual seria sua prioridade?

(A) Garantir a máxima segurança e preservação do fóssil, para evitar qualquer risco de dano por manuseio.

(B) Ter a oportunidade de manusear o original, pois é a documentação mais precisa.

2. Como você escolheria compartilhar suas descobertas?

(A) Compartilharia o arquivo digital 3D do fóssil, para que todos acessem os dados e imprimam réplicas.

(B) Faria um molde de silicone do fóssil, tiraria fotos, seguindo o processo tradicional.

3. O que você acha mais interessante?

(A) A reconstituição digital para simular um organismo em vida, observando sua postura, por exemplo.

(B) Estudar por meio de livros, fotos, ou ver as peças de longe no museu.

4. Se você precisasse recuperar um fóssil, o que você faria?

(A) Faria uma impressão 3D.

(B) Faria uma reconstituição manual.

Resultado:

Se você marcou 3 ou 4 opções A:

Você é um(a) pesquisador(a) digital e você ama tudo que é novo!

Se você marcou 2 opções A:

Você é um(a) pesquisador(a) híbrido(a). Você reconhece o valor do clássico, mas abraça as novas tecnologias! 

Se você marcou 3 ou 4 opções B:

Você é um(a) pesquisador(a) clássico(a) que ama o método tradicional.

O uso dessas novas tecnologias está revolucionando diversas áreas do conhecimento científico, destacando-se aqui a paleontologia e a museologia. A utilização das tecnologias tridimensionais na paleontologia, pode proporcionar uma nova concepção sobre o processo de fabricação do acervo, em comparação com os antigos fabricados em resina, além de agilizar o processo, a tecnologia 3D promove um acesso maior a pessoas de outras localidades quando os modelos são expostos na internet, aumenta a possibilidade de realização de atividades educativas, pois facilita o manuseio por parte do público sem expor o acervo fóssil original aos riscos de danos, e  pode ser utilizada para replicar os fósseis em outros locais que não sejam necessariamente um espaço museal.

Texto fonte: Ramos, M. G. O., Rodrigues, J. K. G., Santos, J. S., & Martins, K. Y. N. (2024). IMPORTÂNCIA DAS TECNOLOGIAS 3D PARA USO EM MUSEUS DE PALEONTOLOGIA. REVISTA TARAIRIÚ, 1(24), 134-150. DOI: [10.18391/revelap.v1i25.4155].

Disponível em: https://revista.uepb.edu.br/REVELAP/article/view/4155.

Fonte e legenda da imagem de capa: Fonte e legenda da imagem de capa: A imagem está dividida em 4 partes na horizontal, simulando camadas diferentes até debaixo da terra, com a frase: Cientistas estão usando tecnologia 3D para trazer fósseis de volta à vida. A primeira mostra o céu azul com nuvens, a segunda mostra um paleontólogo escavando a terra com pedras em volta dele. A terceira mostra um solo mais profundo, mostrando um fóssil de planta, osso, e uma pedra preciosa. Por fim, a última parte da imagem mostra a terra mais profunda ainda com um fóssil de dinossauro e um de planta.

Disponível em: Canva.


Texto revisado por: Sandro Ferreira de Oliveira e Alexandre Liparini.

Retrato cristalizado do passado: remontando histórias a partir de fósseis

Escrito em: 01 de outubro de 2025

Por: Ruth Helena

O mundo conhecido hoje é composto por seis continentes, separados por grandes oceanos, com diversas projeções vastamente conhecidas. Porém, há cerca de 145 milhões de anos atrás, haviam somente dois grandes continentes chamando a atenção para Gondwana, que começou a se fragmentar,  dando origem a massas continentais como a América do Sul. Para compreender melhor esse passado, estudos paleontológicos utilizam evidências fósseis, como os depósitos de âmbar encontrados no Equador.

O âmbar é uma resina fossilizada, capaz de preservar restos orgânicos e seus tecidos com detalhes excepcionais, este processo é  chamado de “bioinclusão”. Devido a essa característica, esses fósseis se tornam arquivos que informam o passado da vida terrestre. Esse material é uma substância líquida e viscosa, expelida pelas coníferas, que capturam os organismos que andam sobre ela. Houve um “pico” em sua produção no chamado “Intervalo resinoso do Cretáceo”, entre 125 a 72 milhões de anos atrás.

Os registros encontrados desse intervalo concentram-se no hemisfério norte, portanto, foi uma grande surpresa quando houve a recente descoberta de um rico depósito de âmbar na pedreira Genoveva, localizada na província de Napo, no Equador. Os fósseis encontrados estão associados a pólen, macrofósseis vegetais e diversas bioinclusões. As análises identificaram a presença de samambaias, angiospermas, gnetófitas e coníferas, além de indicarem que a resina foi produzida por araucárias. Com o estudo desse material, foi possível fazer uma reunião dos grupos vegetais que um dia existiam naquele local. Já os fósseis com bioinclusões contém majoritariamente representações de insetos como mosquitos, moscas, vespas e besouros, que descrevem uma parte da fauna local.

Essas evidências permitiram reconstruir parte da paisagem da antiga floresta gondwânica, visto que cada vestígio encontrado carrega indicativos de fauna, flora e clima. As plantas indicam um ambiente úmido e com certa diversidade, porém dominado pelas araucárias. Ainda, a presença de insetos que precisam da água para se desenvolver, como larvas de mosquitos e de alguns besouros, corroboram essa afirmação, além de indicarem a presença de corpos de água doce. Ainda há muito o que se desvendar sobre Gondwana, porém a investigação do âmbar, retrato cristalizado de um tempo, pode nos ajudar a remontar histórias e entender os mistérios desse passado.

Texto fonte: Delclòs, X., Peñalver, E., Jaramillo, C. et al. (2025). Cretaceous amber of Ecuador unveils new insights into South America’s Gondwanan forests. Commun Earth Environ 6, 745.

Disponível em: https://www.nature.com/articles/s43247-025-02625-2.

DOI: 10.1038/s43247-025-02625-2.

Fonte e legenda da imagem de capa: Fotografia retirada do artigo original, expondo os dois tipos de âmbar encontrados na Pedreira de Genoveva. De a-c, grandes pedaços de âmbar(com formato de rins), formados a partir de resinas expelidas de raízes em condições de confinamentos, pedaços frequentes no afloramento mas com ausências de bioinclusões. De d-h, são menores a médios pedaços de âmbar(com formatos semelhantes a estalactites), formados a partir da resina expelida de troncos ou galhos em condições aéreas, alguns contendo bioinclusões.

Disponível em: https://www.nature.com/articles/s43247-025-02625-2.


Texto revisado por: Manuela dos Santos Rojas, Sandro Ferreira de Oliveira e Alexandre Liparini.