Escrito em: 25 de outubro de 2025
Por: Yuri Melo
Uma equipe de cientistas russos fez uma descoberta impressionante que pode mudar a forma como entendemos a origem e a evolução das leveduras na Terra, pesquisadores do Instituto de Geologia de Diamantes e Metais Preciosos da Academia Russa de Ciências, liderados por Petr Kolosov e Irina Okhlopkova, identificaram microfósseis de fungos do tipo levedura preservados em rochas com cerca de 550 milhões de anos, datadas do período Ediacariano, antes do aparecimento das plantas e animais complexos.
Esses fósseis foram encontrados na Formação Byuk, localizada na calha de Berezovsky, região leste da plataforma siberiana, uma das áreas mais antigas e bem preservadas da crosta terrestre. As rochas analisadas são estromatólitos, estruturas laminadas formadas por comunidades microbianas que funcionavam como “recifes” primitivos e dentro dessas formações, os pesquisadores descobriram as minúsculas células fossilizadas dos fungos, surpreendentemente bem preservadas.
Usando microscopia eletrônica de varredura, os cientistas observaram detalhes muito pequenos das células e puderam identificar características idênticas às das leveduras modernas, como a reprodução por brotamento, a formação de esporos e a divisão celular. Esses processos são típicos de fungos unicelulares e demonstram que, já naquela época, esses organismos possuíam modos de vida parecidos aos atuais.
Os fungos receberam o nome de Tungusia mane, em referência à região do leste da Rússia, de acordo com o estudo, essas leveduras viviam em associação com algas verdes lamelares, das quais se alimentavam por parasitismo, ou seja, extraíam nutrientes diretamente das algas. Essa relação sugere que, há centenas de milhões de anos, já existiam interações ecológicas entre microrganismos, semelhantes às que observamos nos ecossistemas modernos.
Os pesquisadores acreditam que o Tungusia mane pode representar um dos ancestrais mais antigos dos fungos de levedura modernos, grupo que inclui espécies como as do gênero Saccharomyces, amplamente utilizadas hoje em processos de fermentação de pães e cerveja na indústria biotecnológica. Essa descoberta preenche uma lacuna importante na história evolutiva dos fungos, pois até agora havia pouquíssimas evidências fósseis que comprovassem sua existência antes do período Cambriano.
Além disso, o estudo destaca o papel essencial dos fungos na formação dos primeiros ecossistemas da Terra, durante esse período, os mares rasos e ricos em nutrientes da Sibéria abrigavam uma variedade de microrganismos, e os fungos provavelmente contribuíram para o ciclo de matéria orgânica e mineralização dos sedimentos, ajudando a moldar o ambiente que, mais tarde, permitiria o surgimento dos primeiros animais multicelulares.
A descoberta reforça a importância da plataforma siberiana como um verdadeiro tesouro paleontológico, oferecendo uma janela única para o passado remoto da vida na Terra. Segundo os autores, novos estudos na região podem revelar ainda mais formas de vida microscópica do Pré-Cambriano, ajudando a compreender como os primeiros fungos se originaram e evoluíram até as espécies que conhecemos hoje.
Texto fonte: Kolosov, P., & Okhlopkova, I. (2024). Yeast fungi in the Ediacaran stromatolites of the Siberian Platform. Revista Brasileira De Paleontologia, v. 27, n. 3, p. 1-10, e20240403. Doi: https://doi.org/10.4072/rbp.2024.3.0403.
Disponível em: https://sbpbrasil.org/publications/index.php/rbp/article/view/403.
Fonte e legenda da imagem de capa: Imagem de microscopia eletrônica de varredura da levedura ancestral parasitando uma alga verde.
Disponível em: https://drive.google.com/open?id=1yUcqJCj5dI1Kny_qVjgPYuLS56b1h1tZ.
Texto revisado por: Sandro Ferreira de Oliveira e Alexandre Liparini.