Escrito em: 10 de outubro de 2025
Por: Diego de Souza Fagundes
Atualmente, diversos vermes afligem as populações humanas, causando diversas doenças intestinais, como a ascaridíase (lombriga), a teníase (solitária) e a esquistossomose (barriga d’água). Essas patologias estão fortemente associadas ao estilo de vida e hábitos alimentares que potencializam as chances de manutenção dessas parasitoses nos seres humanos.
No entanto, levantamentos feitos em pesquisas paleontológicas mostram que animais que viveram há milhões de anos também eram acometidos por esses vermes. Tais evidências já foram observadas em diversos fósseis, como nos localizados em Las Hoyas, perto de Cuenca, Espanha, cujos coprólitos encontrados neste local são vestígios de grande importância para as análises de paleoecologia e paleoparasitologia. Os coprólitos são icnofósseis (registros indiretos de atividade biológica) formados a partir do processo de fossilização das fezes de animais que viveram em nosso planeta.
Las Hoyas compreendiam regiões lacustres no período Cretáceo, e por essa e outras características – como a composição de microrganismos presentes nestes locais -, diversos fósseis foram formados e preservados na região, tornando-a especialmente rica em registros fósseis.
Os coprólitos investigados no artigo “Helminth eggs from early cretaceous faeces” (Ovos de helmintos de fezes do início do Cretáceo), possivelmente pertencem a dois grupos distintos – peixes e répteis – devido aos diferentes formatos. Nessas fezes fossilizadas, foram encontrados ovos de vermes muito semelhantes aos que infectam os humanos atualmente.
A diversidade de ovos de helmintos encontrados nas fezes pré-históricas em La Hoyas revela muito sobre os hábitos alimentares dos animais que os produziram. Isso é possível pois, atualmente, sabe-se que essas parasitoses são transmitidas principalmente por via fecal-oral, ou seja, o animal adquire o parasita e posteriormente o elimina nas fezes, finalizando o seu ciclo em um de seus hospedeiros. Mas outro fator muito importante é a plasticidade dos hospedeiros que esses vermes apresentam. Normalmente tais vermes possuem pelo menos dois hospedeiros, como ocorre com o causador da esquistossomose, que tem o ser humano como hospedeiro definitivo (onde o verme se reproduz) e o caramujo como hospedeiro intermediário (onde o verme se desenvolve). E esse mesmo perfil de parasitismo múltiplo também é identificado em alguns dos ovos encontrados nos coprólitos.
Os pesquisadores dividiram os ovos em 3 grupos distintos, baseados na morfologia dos ovos, comparando-os com vermes morfologicamente aparentados ainda existentes, bem como nos perfis reprodutivos desses supostos parasitos, tomando como referência os grupos mais próximos que vivem atualmente. Os ovos identificados no Grupo A possivelmente pertencem a vermes platelmintos, ou seja, vermes planos e achatados, enquanto os ovos dos Grupos B e C possivelmente correspondem a vermes nematoides, isto é, vermes de corpo cilíndrico. A partir dessas observações, foi possível inferir o ciclo de vida desses parasitos: onde os ovos do Grupo A (platelmintos) possivelmente possuem um ciclo de vida mais complexo, passando por pelo menos três hospedeiros; os do Grupo B possuem um ciclo que contempla pelo menos dois hospedeiros, e os do Grupo C que, possuem um ciclo que envolve no mínimo, um hospedeiro.
Essas evidências permitem inferir aspectos importantes sobre a biodiversidade e as interações ecológicas que existiam dos ambientes lacustres de Las Hoyas durante o Cretáceo Inferior, contribuindo para a compreensão da complexidade ecológica dos ecossistemas do Cretáceo.
Texto fonte: Sandra Barrios-de Pedro, Antonio Osuna & Ángela D. Buscalioni (2020). Helminth eggs from early cretaceous faeces. Nature, v.1, p8. DOI:10.1038/s41598-020-75757-4.
Disponível em: https://www.nature.com/articles/s41598-020-75757-4.
Fonte e legenda da imagem de capa: Vermes nematódeos responsáveis por diversas doenças intestinais de importância parasitológica.
Disponível em: commons.wikimedia.org Autor : Heiti Paves.
Texto revisado por: Eric Issao Inamura e Alexandre Liparini.