Penas do passado: Como erupções vulcânicas podem contribuir para o processo de fossilização

Escrito em: 20 de abril de 2025

Por: Louise Lissa Denda

Quando pensamos em fósseis, a primeira coisa que pensamos são ossos ou pegadas marcadas em rochas. Agora imagine encontrar uma pena fossilizada em perfeitas condições, não apenas como uma impressão em uma rocha, mas em três dimensões, contendo uma riqueza microscópica de detalhes. Isso é exatamente o que um grupo de cientistas encontrou na Itália.

Pesquisadores encontraram os restos fósseis de um abutre-euroasiático (Gyps fulvus), dentro de um depósito vulcânico do Pleistoceno, na região de Colli Albani, perto de Roma. Mas o que de fato chamou a atenção foi a forma como ocorreu a preservação. Ao contrário do que é mais comum para tecidos moles, em que viram marcas ou filmes de carbono, essas penas mantiveram sua forma tridimensional, preservando até mesmo algumas estruturas microscópicas ligadas à coloração das penas.

Essa riqueza de detalhes só foi possível graças a um processo raro de fossilização: a mineralização em zeólita, um tipo de mineral vulcânico. Esse tipo de preservação geralmente acontece em ambientes aquáticos, como lagos e mares calmos, ou então em âmbar. Mas nesse caso, o ambiente era subaéreo e vulcânico — ou seja, em terra firme, ao ar livre, e com forte atividade vulcânica, uma condição praticamente desconhecida até então.

Mas como isso foi possível? Segundo os cientistas, logo após a morte do animal, ele foi coberto por uma camada de cinza rica em minerais, que em contato com a água forma a zeólita. Essa interação ocorreu tão rapidamente (dias ou semanas) que as estruturas da pena foram “congeladas” no tempo antes de se decompor por completo. 

Essa descoberta abre novas portas para a paleontologia pois mostra não apenas um novo tipo de preservação fossilífera, mas também apresenta um potencial grande de estudo em áreas vulcânicas, que são muitas vezes ignoradas, mas que podem ser verdadeiros tesouros para a paleontologia, preservando materiais que seriam facilmente degradados em outros ambientes.

Texto fonte: Valentina Rossi, Tiffany Slater, Richard Unitt, Beatriz Carazo del Hoyo, Edoardo Terranova, Mario Gaeta, Maria E. McNamara, Raffaele Sardella, Dawid A. Iurino; Fossil feathers from the Colli Albani volcanic complex (Late Pleistocene, Central Italy) preserved in zeolites. Geology 2025.

Disponível em: https://pubs.geoscienceworld.org/gsa/geology/article-standard/doi/10.1130/G52971.1/653118/Fossil-feathers-from-the-Colli-Albani-volcanic

DOI: https://doi.org/10.1130/G52971.1

Legenda da imagem de capa: Representação artística de um abutre-euroasiático, durante uma erupção vulcânica. 

Disponível em: https://www.instagram.com/p/DITuAawM6uU/


Texto revisado por: Tiago Lopes Siqueira.

Fósseis revelam segredos de comunidades marinhas antigas no Paraná

Escrito em: 20 de Abril de 2025

Por: Bianca Ramos Cortezi 

Você já parou pra pensar como viviam os animais marinhos há centenas de milhões de anos? Um grupo de pesquisadores da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG) mergulhou nessa investigação e trouxe à tona novos olhares sobre fósseis encontrados na Bacia do Paraná. O foco do estudo são os invertebrados marinhos bentônicos (animais como moluscos e trilobitas que viviam no fundo dos oceanos) e a forma como eles se organizavam. Ao contrário dos vertebrados, esses fósseis costumam ser encontrados quase completos e agrupados, permitindo entender melhor como viviam em comunidade.

Os autores do artigo analisaram conceitos antigos e novos usados para descrever essas comunidades fósseis. Com base no artigo de Kurovski et al. (2022), termos como “paleocomunidade”, “guilda” e “grupo funcional” ajudam a classificar esses organismos não apenas pela aparência, mas também pelos hábitos e comportamentos: o que comiam, onde viviam e como se relacionavam com o ambiente ao redor.

A pesquisa também destacou a chamada biorregião Malvinoxhosan, onde, atualmente, está localizado o sul do Brasil. Essa era uma área coberta por um mar frio e raso, habitado por criaturas estranhas aos nossos olhos, durante o período Devoniano, há mais de 400 milhões de anos. A localidade era lar de espécies únicas, mas extremamente sensíveis às mudanças do ambiente, como variações no nível do mar ou na temperatura, que levaram à extinção de várias dessas criaturas, deixando os fósseis como registros de sua existência (KUROVSKI ET AL., 2022).
Por fim, os autores reforçam que revisar estudos antigos com essas novas classificações pode trazer respostas para perguntas que antes pareciam sem solução e pode revelar detalhes incríveis sobre o passado da vida marinha. Mais do que falar sobre fósseis, o artigo mostra como a ciência está sempre se atualizando, e como até os registros mais antigos podem nos ajudar a entender melhor a história da vida no planeta.

Texto fonte: KUROVSKI PEREIRA, I.; BOSETTI, E.; GOLTZ, G. (2022). Paleocomunidades e guildas: conceitos chave para a compreensão da fauna de invertebrados marinhos bentônicos fósseis. Terr@ Plural, [S. l.], v. 16, p. 1–23. DOI: 10.5212/TerraPlural.v.16.2221067.043.

Disponível em: https://revistas.uepg.br/index.php/tp/article/view/21067

DOI: 10.5212/TerraPlural.v.16.2221067.043.

Fonte e legenda da imagem de capa:  DUGORNAY, Olivier. Praires communes (Venus verrucosa) dans leur environnement (Ifremer 00543-65507 – 11352). 28 jan. 2009.

Moluscos bilvalves (Venus verrucosa) no fundo do mar.

Disponível em: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Praires_communes_(Venus_verrucosa)_dans_leur_environnement_(Ifremer_00543-65507_-_11352).jpg.


Texto revisado por: Ana Luísa Ferreira, Sandro Ferreira de Oliveira e Alexandre Liparini.

O fóssil “Hannah” e sua assimetria reveladora.

Escrito em: 08 de maio de 2025

Por: Maria Fernanda Felice Martinelli Silva

O fóssil da espécie Styracosaurus, com código UALV 55900 – nomeado como “Hannah” – foi encontrado na formação “Dinosaur Park”, na província de Alberta no Canadá pelo paleontólogo Scott Persons.

Este crânio era diferente de outros já encontrados, sendo, além de excepcionalmente completo, assimétrico: Sua metade direita exibia sete “chifres”, enquanto sua metade esquerda exibia oito, e todos eles variavam em tamanho e ângulo de crescimento. Entretanto, previamente ao desenterro de Hannah, ao observar as amostras dos fósseis disponíveis, majoritariamente incompletas, os cientistas presumiram que as metades perdidas dos fósseis seriam perfeitamente espelhadas àquelas que tinham em mãos.

Até então, como não era considerada a possibilidade do desenvolvimento assimétrico das estruturas cranianas, a categorização das espécies havia sido estabelecida dentro da noção de que os diferentes padrões destas estruturas indicavam grupos de animais completamente diferentes.

Hannah teria, então, tornado plausível a hipótese de que a anatomia desses animais era variável dentro da própria espécie, podendo ser influenciada pela própria genética dos indivíduos ou até mesmo vivências, como ferimentos que causaram deformações enquanto regeneravam.

Estando contestada a validade da categorização existente naquele momento, houve um esforço para atualizá-la de acordo com a nova convenção aceita, resultando, por exemplo, na incorporação da espécie Rubeosaurus ovatus ao Styracosaurus, os tornando sinônimos.

Conclusivamente, a descoberta de Hannah contribuiu para a Paleontologia não só com mais conhecimento morfológico sobre sua espécie, ao mostrar a existência de variações anatômicas desde muito cedo, como também remodelou todo o método utilizado pelos especialistas para interpretar os restos deixados a milhares de anos pelos seres que compunham sua família, em prol de conduzir seus estudos a mais descobertas.

Texto fonte: Robert B. Holmes, Walter Scott Persons, Baltej Singh Rupal, Ahmed Jawad Qureshi, Philip J. Currie, 2020, “Morphological variation and asymmetrical development in the skull of Styracosaurus albertensis“, Revista Science Direct, volume 107, DOI:https://doi.org/10.1016/j.cretres.2019.104308.

Disponível em: https://www.sciencedirect.com/science/article/abs/pii/S0195667119301946.

DOI: https://doi.org/10.1016/j.cretres.2019.104308.

Fonte e legenda da imagem de capa: Imagem em preto e branco, exibindo um desenho de linhas preto do crânio assimétrico do fóssil UALV 55900 visto de cima, sobreposto sobre o mesmo desenho, espelhado e na cor branca. O fundo é composto por dois tons de cinza diferentes dividindo metades iguais da imagem no sentido vertical, “dividindo” o desenho do crânio. Acima, há o texto “Styracosaurus HANNAH”, dentro de um retângulo claro.

Disponível em: https://www.sciencedirect.com/science/article/abs/pii/S0195667119301946.


Texto revisado por: Ítalo Augusto de Oliveira Barboza, Sandro Ferreira de Oliveira e Alexandre Liparini.

Divulgação Científica de Paleontologia no mundo Pokémon

Escrito em: 17 de abril de 2026

Por: Sandro Ferreira de Oliveira

A paleontologia é uma área que desperta bastante interesse nas pessoas, sejam crianças ou adultos, independente da faixa etária, todos ficam fascinados pelas características únicas dos seres pré-históricos. Por meio da indústria cinematográfica essa área começou a ganhar mais destaque a partir do final do século XX. Com o lançamento do filme “Jurassic Park — Parque dos dinossauros” em 1993, a popularidade da paleontologia tomou proporções jamais vistas e essa popularidade persistente até os dias atuais, com filmes que marcam gerações, tais como “Dinossauro (2000)”, a franquia Jurassic World com o último lançamento em 2025 e o filme animado “O Bom Dinossauro” da Disney. Também podem se destacar séries e documentários como a série de animação “Em Busca do Vale Encantado”, a série britânico-americana de documentário “Prehistoric Planet” (a primeira a apresentar um dinossauro brasileiro) e uma recente série que destaca os fósseis brasileiros “Dinos do Brasil”, que destaca a grande relevância da área em nosso país. Quando a série animada “Pokémon” foi lançada, o seu design carismático e a representação de animais, plantas e objetos animados cativou tanto os espectadores que praticamente todas as pessoas de hoje em dia conhecem esse desenho animado. Dentre todos os monstrinhos, alguns deles são considerados fósseis, que morreram há muito tempo e seus restos foram conservados em rochas, que podem ser reanimados com tecnologias, ideia parecida com a de Jurassic Park, que impacta diretamente no imaginário das pessoas. Baseado nessas informações, um trabalho feito por pesquisadores da UFRJ estabeleceu comparações morfológicas entre os Pokémons fósseis e seus respectivos organismos reais, abrangendo todas as gerações até a VI.Os Pokémons omanyte e sua evolução omastar são inspirados em amonoides, grupo extinto de moluscos cefalópodes. O Pokémon omanyte possui pouca quantidade de caracteres, o que dificulta a identificação completa, enquanto que sua evolução foi inspirada em Spinikosmoceras aculeatum. Os Pokémons kabuto e sua evolução kabutops são inspirados no grupo extinto dos trilobitas, baseados nas espécies Phacops sp. e Panduralimulus babcocki respectivamente. As espécies Anomalocaris canadenses e Anomalocaris saron foram as inspirações para se criar o anorith e sua evolução armaldo. Já os Pokémons lileep e cradily foram inspirados no gênero Eretmocrinus sp. uma espécie da classe Crinoidea. Passando agora para os vertebrados, nós iniciamos apresentando tirtouga e sua evolução carracosta, que representam o gênero Protostega, que por sua vez, possui apenas uma única espécie descrita de tartaruga marinha pré-histórica, a Protostega gigas. O aerodactyl deve ser um dos mais chamativos e embora se pareça muito com um pterossauro, suas características quiméricas dificultam sua precisão, podendo ser um pterossauro basal ou um grupo irmão do clado, mas pode-se ressaltar algumas características de Rhamphorhynchidae que são semelhantes ao aerodactyl, como o quarto dígito alongado com uma membrana ligada ao corpo. Cranidos é inspirado em Pachycephalosaurus wyomingensis e a principal característica da espécie é a cabeça dura, tendo como principal hipótese de função a luta para dominar território e conseguir parceiros sexuais, sua evolução rampardos é inspirada em Stygimoloch spinifer. Os Pokémons shieldon e a evolução bastiodon foram criados baseados em ceratopsídeos, Protoceratops andrewsi e Chasmosaurus russelli respectivamente. Os Pokémons tyrunt e tyrantrum são representados pelo famoso Tyrannosaurus rex e sem deixar de fora os saurópodes temos amaura e aurorus, baseados na curiosa espécie Amargasaurus cazaui que chama muita atenção pelo estrutura em forma de leque sobre o pescoço e dorso. Por fim, archen e a evolução dele, arqueops, são baseados na espécie de dinossauro aviano mais antiga e popular do mundo, o Archaeopteryx lithographica. A sistemática de Pokémon é bastante empregada como ferramenta de divulgação científica, pois os táxons analisados no trabalho possuem uma grande variedade de caracteres anatômicos, isso fez com que todos os grupos apresentados se enquadrem no reino Animalia, mesmo com alguns sendo considerados pela franquia como pertencentes ao reino Plantae, pode-se perceber essa evidência devido a possibilidade de associação de características seguindo o sistema de classificação zoológica utilizada pelos sistematas. Vale ressaltar que o grande sucesso de bilheteria produzido pelo conteúdo de paleontologia na indústria cinematográfica proporcionou indiretamente um maior financiamento na área científica, com mais fósseis sendo descobertos. Além disso, o número de estudantes apaixonados pela área cresceu a partir de então, dessa forma podemos ver diretamente a importância do papel da divulgação científica como interface entre ciência e cultura. Novos Pokémons fósseis foram criados ao longo da franquia, e com eles foram apresentadas teorias de sua evolução e adaptação, além disso, existem pokémons que não se enquadram como fósseis que foram inspirados em seres pré-históricos da vida real que podem ser discutidos em um outro trabalho futuro.

Texto fonte: HÖRMANSEDER, Beatriz Marinho; REZENDE, João; AGUIAR, Marina; SOUZA, Lucy. (2019). A paleontologia de Pokémon como ferramenta para a divulgação científica. A Bruxa. 3(2): 1-20.

Disponível em: https://www.researchgate.net/publication/338607542_A_paleontologia_de_Pokemon_como_ferramenta_para_a_divulgacao_cientifica.

Fonte e legenda da imagem de capa: Imagem ilustrativa criada por Inteligência Artificial com edições e adaptações para mostrar um ambiente com pokémons fósseis realizando interações.

Disponível em: Imagem gerada por Gemini.


Texto revisado por: Sandro Ferreira de Oliveira.

Plantas Fósseis: O Que a Paleobotânica nos Ensina Sobre o Amanhã

Escrito em: 08 de dezembro de 2024

Por: Eduarda Fantini

*Texto publicado também no espaço biótico <confira aqui

Você já pensou que as plantas fósseis podem ser como máquinas do tempo? Elas guardam informações valiosas sobre como o clima da Terra mudou ao longo de milhões de anos e como a vegetação respondeu a essas transformações. Cientistas que estudam paleobotânica — ramo da ciência dedicado ao estudo de plantas fósseis — estão descobrindo lições surpreendentes para entender o futuro do nosso planeta. Afinal, será que os eventos climáticos extremos do passado podem nos ajudar a prever o que está por vir em tempos de mudanças climáticas aceleradas?

A história climática da Terra está profundamente conectada às mudanças atmosféricas e aos eventos geológicos de sua escala de tempo. Durante o Carbonífero (há cerca de 360 a 300 milhões de anos), o planeta experimentou níveis excepcionalmente baixos de dióxido de carbono (CO2), enquanto vastas florestas tropicais dominavam áreas equatoriais. Essas florestas formaram os grandes depósitos de carvão que conhecemos hoje. A capacidade das plantas de sobreviver a esse período de “icehouse”, com baixas temperaturas globais e extensas geleiras, destaca sua notável resiliência.

No entanto, a história da Terra não foi apenas de frio. Durante o Máximo Térmico do Paleoceno-Eoceno (PETM), cerca de 56 milhões de anos atrás, as temperaturas médias subiram até 5°C em poucas dezenas de milhares de anos. Esse aquecimento foi causado pelo aumento abrupto de CO2 na atmosfera, resultado de atividade vulcânica e a liberação de metano dos fundos oceânicos. Surpreendentemente, florestas tropicais, em vez de colapsarem, prosperaram e expandiram sua diversidade, mostrando uma resiliência notável em face de condições extremas das altas temperaturas.

Por outro lado, o bioma tundra, predominante nas regiões polares atualmente, é um dos mais ameaçados tendo em conta o aumento de CO2 atmosférico. Durante o Eoceno (entre 56 e 34 milhões de anos atrás), os pólos eram cobertos por densas florestas, e o gelo era praticamente inexistente. Isso reflete o impacto da amplificação polar. Outro ponto crítico é a velocidade das mudanças climáticas. No Triássico (há cerca de 200 milhões de anos), durante a extinção em massa no final do período, a liberação massiva de CO2 devido à atividade vulcânica levou a aquecimentos graduais que permitiram às plantas migrarem para regiões mais favoráveis. No entanto, a velocidade desse evento é insignificante se comparada ao ritmo das mudanças climáticas do “Antropoceno” (Holoceno), o que pode dificultar a adaptação das plantas no futuro.

Além disso, períodos como o Mesozoico (entre 252 e 66 milhões de anos atrás) testemunharam a evolução de adaptações importantes nas plantas, incluindo a proliferação das angiospermas (plantas com flores), que eventualmente dominaram os ecossistemas terrestres. Essas mudanças mostram a incrível capacidade das plantas de se diversificarem e responderem às condições climáticas em constante transformação.

O que o registro fóssil nos ensina é que, embora as plantas tenham sobrevivido a períodos de intensa mudança, o ritmo atual das alterações climáticas apresenta um desafio sem precedentes. As evidências destacam a necessidade de um futuro mais sustentável, em que a resiliência das plantas seja respeitada e as condições para sua adaptação sejam preservadas e, para isso, aprender com o passado é crucial para garantir um futuro em que a vegetação e os ecossistemas possam continuar desempenhando seu papel vital no planeta. As decisões que tomarmos hoje podem determinar se os biomas do futuro serão mais como as florestas tropicais resilientes ou as tundras desaparecidas do passado. 

Texto fonte: McElwain, J.C. (2018). Paleobotany and Global Change: Important Lessons for Species to Biomes from Vegetation Responses to Past Global Change. Annual Review of Plant Biology, v. 69, n. 1, p. 761-787. DOI: 10.1146/annurev-arplant-042817-040405.

Disponível em: https://www.annualreviews.org/doi/full/10.1146/annurev-arplant-042817-040405.

DOI: https://doi.org/10.1146/annurev-arplant-042817-040405.

Fonte e legenda da imagem de capa: Imagem ilustrativa demonstrando as mudanças de bioma do Eoceno à modernidade. À esquerda temos uma representação de como seriam as florestas tropicais do Eoceno em seu volume e vegetação. À direita uma representação de como seria o bioma tundra atualmente.

Disponível em: Imagem gerada por DALL·E, ferramenta de inteligência artificial da OpenAI, sem restrições de direitos autorais. Criada para fins educativos e de divulgação científica.


Texto revisado por: Sandro Ferreira de Oliveira e Alexandre Liparini.

O clima do passado nos afeta até hoje? – Paleontologia Hoje

Escrito em: 06 de dezembro de 2024

Por: Lívia Seixas Botelho

Muito se ouve sobre as mudanças climáticas causadas pelo ser humano e suas consequências para a diversidade de espécies do planeta. Mas você já parou para pensar por quanto tempo essas mudanças podem afetar os seres? E se mudanças climáticas do passado nos afetam até hoje?  Há estudos sobre o paleoclima (clima de milhares de anos atrás) que tentam entender os efeitos de eventos passados na distribuição atual das espécies. 

Os seres vivos evoluem em determinadas circunstâncias, então podemos inferir que os padrões de biodiversidade dependem destas circunstâncias, e o clima é uma delas.  

A distribuição das espécies é limitada pelo clima ou por barreiras geográficas, porém, não apenas as condições atuais determinam esses fatores. Ou seja, as condições atuais de um local podem ser favoráveis para a ocupação de uma determinada espécie, entretanto, as condições desfavoráveis do passado podem justificar a não presença dela ali, hoje. 

O clima pode gerar legados históricos, sendo dois tipos de legados históricos reconhecidos: efeitos duradouros de eventos passados transientes (como as glaciações); e efeitos cumulativos de processos contínuos dependentes do tempo (como a diversificação de grupos biológicos). Exemplos desses processos seriam a perda de diversidade causada por algum desastre natural, que após o acontecimento, voltaria a aumentar; ou, por exemplo, um processo de aquecimento pós glaciação, que elevaria o número de espécies. Para ambos os processos é importante o conceito de “time lag” (atraso temporal), que seria o tempo até alcançar um número alto de espécies após uma perturbação. Esse termo “time lag” está relacionado também com a ideia de “legado climático”.  

Estudos mostram que a riqueza de espécies em escala de biomas possui maior relação com o clima do Paleógeno e Neógeno, do que com o clima atual. Uma pesquisa realizada mostrou que a diversidade de palmeiras florestais na África, era maior em áreas com maiores níveis de precipitação no Plioceno; enquanto palmeiras de locais abertos possuem maior riqueza de espécies em locais que eram mais secos durante o Mioceno (Blach-Overgaard et al., 2013). 

Estudos sobre a influência do paleoclima em padrões de diversidade atuais são importantes pois, além de ajudarem a compreender melhor o passado, mostram que as mudanças climáticas atuais, causadas em parte pelo ser humano, podem ter efeitos por longos períodos. Ainda mais, com esse conhecimento, é possível traçar melhores estratégias de conservação, por saber quais espécies possuem maior chance de adaptação favorável ou dispersão, e locais climaticamente mais estáveis que funcionariam como refúgios no futuro.

Fonte original: SVENNING, Jens-Christian et al. (2015). The influence of paleoclimate on present-day patterns in biodiversity and ecosystems. Annual Review of Ecology, Evolution, and Systematics, v. 46, n. 1, p. 551-572. doi: 10.1146/annurev-ecolsys-112414-054314. Fonte complementar: BLACH-OVERGAARD, Anne et al. Multimillion‐year climatic effects on palm species diversity in Africa. Ecology, v. 94, n. 11, p. 2426-2435, 2013.

Disponível em: https://doi.org/10.1146/annurev-ecolsys-112414-054314.

DOI: 10.1146/annurev-ecolsys-112414-054314.

Fonte e legenda da imagem de capa: Foto tirada do espaço da atmosfera da Terra.

Disponível em: commons.wikimedia.org.


Texto revisado por: Cíntia Silva, Alexandre Liparini e Sandro Ferreira de Oliveira.

Lianas da América do Sul – uma nova descoberta paleontológica em Bignoniaceae

Escrito em: 08 de dezembro de 2024

Por: Vanclever Machado Vila Nova dos Santos

Um grupo de pesquisadores descreveram dois fósseis de caule de possíveis lianas encontradas na Formação Mariño, na localidade de Potrerillos, região Centro-Oeste da Argentina. Os fósseis foram descritos como pertencente à Família Bignoniaceae e foram datados como pertencente ao Mioceno (Época cronoestratigráfica que perdurou entre 23.03 e 5.33 milhões de anos), o que condiz com a formação onde eles foram encontrados. 

Bignoniaceae é uma família pertencente à ordem Lamiales e conta com plantas arbóreas, arbustivas, lianoides e raramente herbáceas. Tem cerca de 100 gêneros e 800 espécies, sendo encontrados principalmente nas florestas próximas aos trópicos na América do Sul e com menor intensidade em florestas próximas aos trópicos na África, Malgaxes e sudeste asiático. 

Com base em diversos critérios anatômicos e morfológicos do caule, tais como: xilema sulcado, floema com muitas dissecções e numerosos elementos vasculares os pesquisadores conseguiram se aprofundar além da Família para classificação, chegando na seguinte classificação sistemática:

Ordem

Lamiales, Bromheand

Família

Bignoniaceae, Jussieu

Tribo

Bignonieae, Dumort

Gênero

Dolichandra, Cham.

Espécie-tipo

Dolichandra cynanchoides, Cham.

Espécie

Dolichandra pacei sp. nov.

Com esses dados foram feitas diversas interpretações acerca da evolução do grupo, da paleogeografia da terra e do paleoambiente onde essas plantas poderiam ter vivido.

Conforme os dados morfológicos, os caules estudados parecem ter um dos primeiros hábitos de escalada documentados da Família Bignoniaceae. Além disso, os dados anatômicos suportam essa ideia, pelo fato dessa planta ter variante cambial onde tecidos moles se misturam com xilema secundário aumentando a rigidez e mobilidade, além de mostrarem que provavelmente essas plantas se desenvolveram em ambientes secos, concordando com a reconstrução do paleoambiente feito através dos dados do solo (cuja formação onde os fósseis foram encontrados foi depositada em ambientes áridos ou semiáridos).

Esse trabalho fornece apenas uma pequena peça do quebra-cabeça, que ainda precisa de mais dados e pesquisas para ser solucionado. Na conclusão deste trabalho é dito que a diversificação dessa espécie pode estar relacionada ao clima do ambiente e ao surgimento dos Andes, além de evidenciar a importância do Mioceno na diversificação das plantas tropicais da América do Sul. Sem contar que foi uma nova espécie descrita, relacionando o conhecimento da anatomia vegetal com o conhecimento paleontológico. 

Texto fonte: FRANCO, M. Jimena; BREA, Mariana; CERDEÑO, Esperanza. (2021). First Bignoniaceae liana from the Miocene of South America and its evolutionary significance. American journal of botany, v. 108, n. 9, p. 1761-1774. Doi: 10.1002/ajb2.1736.

Disponível em: https://bsapubs.onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1002/ajb2.1736.

DOI: https://doi.org/10.1002/ajb2.1736.

Fonte e legenda da imagem de capa: Imagem tirada do próprio artigo. Imagem de um corte em seção transversal mostrando um fóssil de  Dolichandra unguis‐cati, evidenciando o xilema e as cunhas de floema.

Disponível em: https://bsapubs.onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1002/ajb2.1736.


Texto revisado por: Sandro Ferreira de Oliveira e Alexandre Liparini.

Céu pré-histórico: A pequena ave com grandes revelações

Escrito em: 20 de abril de 2025

Por: Paloma Teixeira

Você sabia que as aves atuais são dinossauros? Ao longo das últimas décadas, descobertas fósseis vêm revelando, com cada vez mais detalhes, como ocorreu essa extraordinária transição evolutiva. Um achado recente na China trouxe novas peças para esse quebra-cabeça: cientistas identificaram o fóssil da mais antiga ave conhecida com cauda curta — uma característica marcante das aves modernas.

A espécie, denominada Baminornis zhenghensis, viveu há cerca de 150 milhões de anos, durante o período Jurássico Superior. Esse animal já apresentava um elemento anatômico fundamental: o pigóstilo, uma estrutura óssea formada pelo fusionamento das vértebras da cauda. Até então, essa característica era conhecida apenas em aves do período Cretáceo, o que indica que a redução da cauda surgiu muito antes do que se supunha.

O fóssil foi encontrado na região de Zhenghe, no sudeste da China, e pertence a uma ave de pequeno porte, com massa estimada entre 140 e 300 gramas. A anatomia de Baminornis revela uma interessante combinação de traços primitivos e derivados: enquanto a cintura escapular e pélvica já se assemelhavam às das aves modernas, os membros anteriores ainda possuíam garras bem desenvolvidas — uma herança clara de seus ancestrais terópodes.

Além desse exemplar, os pesquisadores descreveram uma fúrcula isolada (o osso do “peito”), que possivelmente pertence a uma ave ainda mais derivada. Esse material sugere que já existia uma diversidade significativa de aves na região durante o Jurássico, indicando uma radiação evolutiva mais precoce do que se imaginava.

Essa descoberta redefine nossa compreensão sobre a origem das aves modernas, sugerindo que sua evolução foi mais antiga e complexa do que as evidências anteriores indicavam. Ao preencher uma importante lacuna no registro fóssil, Baminornis zhenghensis oferece novas pistas sobre como os primeiros vertebrados voadores se diversificaram e passaram a ocupar os céus ainda na era dos dinossauros.

Texto fonte: Chen, R.; Wang, M.; Dong, L.; Zhou, G.; Xu, X.; Deng, K.; Xu, L.; Zhang, C.; Wang, L.; Du, H.; Lin, G.; Lin, M.; Zhou, Z. (2025). Earliest short-tailed bird from the Late Jurassic of China. Nature, v. 638, n. 8050, p. 441–448. 

Disponível em: https://www.nature.com/articles/s41586-024-08410-z. https://doi.org/10.1038/s41586-024-08410-z

Fonte e legenda da imagem de capa: Essa imagem mostra uma reconstrução da Baminornis zhenghensis, uma pequena ave que viveu há cerca de 150 milhões de anos, no período Jurássico. Ela é a ave mais antiga já encontrada com cauda curta, uma característica típica dos pássaros modernos. Baminornis tinha um corpo que misturava traços antigos e modernos: suas asas ainda tinham garras, como as dos dinossauros, mas o formato da pelve e dos ombros já se parecia com o das aves atuais. Isso mostra que ela estava em um estágio intermediário entre os dinossauros e os pássaros de hoje. Ao fundo da imagem, vemos um ambiente jurássico com floresta e vulcões, representando o local onde essa ave viveu. Essa descoberta ajuda os cientistas a entender melhor como as aves surgiram e mostra que elas já eram diversas e evoluídas muito antes do que se pensava.

Disponível em: Imagem criada pela autora do texto utilizando inteligência artificial (ChatGpt).


Texto revisado por: Luís Filipe Cardoso, Sandro Ferreira de Oliveira e Alexandre Liparini.

Paleontologia Molecular: O Que Resta Após Milhares de Anos?

Escrito em: 19 de abril de 2025

Por: Juan Zegarra

O que é a paleontologia molecular, área que vem sendo tópico de discussão mundial nos últimos anos? Para responder essa pergunta temos que voltar um pouco no tempo. Com avanços de várias outras áreas da ciência, a paleontologia se viu abarcando cada vez mais com novos métodos e buscando novos objetivos além da mera descrição física dos fósseis.

Sob esse novo cenário, novas tecnologias surgidas no século XX logo seriam absorvidas pela paleontologia para responder perguntas nunca antes feitas. Em especial, a Paleontologia Molecular, ou “uso de técnicas de análise de moléculas biológicas em fósseis”, só foi possível com o avanço da biologia molecular, tanto a um nível de equipamentos e técnicas, quanto a um nível teórico. Por isso, é preciso falar sobre o químico estadunidense Linus Pauling, que foi vanguardista na área da evolução molecular, pois demonstrou que moléculas biológicas, como proteínas e sequências de DNA e RNA, também evoluem ao decorrer do tempo, e apesar de serem específicas de cada espécie, também possuem origens em ancestrais comuns. Por exemplo, a hemoglobina de cavalos possui uma sequência própria, entretanto também tem regiões similares à hemoglobina humana, revelando que ambas proteínas têm origem em uma hemoglobina ancestral presente no ancestral comum de cavalos e humanos. 

Os grandes grupos de moléculas usadas são as peças que compõem qualquer organismo: proteínas, carboidratos, lipídeos e ácidos nucleicos (DNA e RNA). Sendo que os ácidos nucleicos são o de mais fácil degradação (causando grande tristeza aos fãs de Jurassic Park), mas ainda assim, já foram encontrados preservados após 1 milhão de anos. As demais macromoléculas apresentam maior possibilidade para preservação. Por isso, P. H. Abelson, em 1954, foi capaz de extrair proteínas de conchas com 360 milhões de anos de idade, e postular a possibilidade de comparar as proteínas de diferentes fósseis para elucidar relações entre eles e observar a evolução molecular. O campo da Paleoproteômica (estudo de proteínas de fósseis) não acabou por aí, e em 1991, L. R. Gurley e colaboradores conseguiram extrair proteínas de um osso de seismossauro, um dinossauro do Jurássico Tardio, aproximadamente 150 milhões de anos atrás! De outra forma, carboidratos são amplamente utilizados na Paleobotânica, ou o estudo de fósseis de plantas, por comporem as paredes das células vegetais. Enquanto lipídios específicos podem ser usados tanto para identificação de tipos de microrganismos, como os isoprenoides que possibilitaram identificar mudanças drásticas na atmosfera por estarem associados a alterações na presença de microrganismos fotossintetizantes. 

Entretanto, a área de maior reboliço do campo da paleontologia molecular é a paleogenômica, graças às aplicações dessas técnicas no estudo da evolução humana e sua relação com as outras espécies de hominíneos (espécies do gênero Homo). Apesar da instabilidade dos ácidos nucleicos, em condições específicas de conservação e com abundância de material orgânico, é possível extrair porções relativamente preservadas de DNA, que com os avanços nas tecnologias de sequenciamento de DNA e de análise de dados (bioinformática) conseguem ser montados em genomas completos (ou quase completos). Por isso, o trabalho que conseguiu construir os genomas do Homoneanderthalensis e dos hominínios da caverna de Denisova rendeu um prêmio Nobel ao geneticista sueco Svante Pääbo.

Texto fonte: Ahmed Awad Abdelhady, Barbara Seuss, Sreepat Jain, Douaa Fathy, Mabrouk Sami, Ahmed Ali, Ahmed Elsheikh, Mohamed S. Ahmed, Ashraf M.T. Elewa, Ali M. Hussain. (2024). Molecular technology in paleontology and paleobiology: Applications and limitations. Quaternary International, Volume 685, Pages 24-38, ISSN 1040-6182, https://doi.org/10.1016/j.quaint.2024.01.006.

Disponível em: https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S1040618224000065.

Fonte e legenda da imagem de capa: Moléculas presentes em fósseis podem ter milhões de anos, ainda assim, têm muitas informações sobre como o organismo era em vida.

Disponível em: Vladimir Bobroff, Hsiang-Hsin Chen, Sophie Javerzat, Cyril Petibois. (2016). What can infrared spectroscopy do for characterizing organic remnant in fossils?, TrAC Trends in Analytical Chemistry, Volume 82, Pages 443-456, ISSN 0165-9936, https://doi.org/10.1016/j.trac.2016.07.005.


Texto revisado por: Henrique Tosta Hernandez, Sandro Ferreira de Oliveira e Alexandre Liparini.

O Tesouro abaixo do gelo: o que o solo diz sobre o passado da Groenlândia — e o nosso futuro?

Escrito em: 22 de abril de 2025

Por: Isadora Rodrigues de Carvalho

Um lugar inóspito, imutável, coberto por uma espessa camada de gelo, onde parece impossível imaginar vida abundante. Essa é a imagem que muitos de nós temos da Groenlândia. Mas estudos recentes revelaram um segredo surpreendente: sob a imensidão congelada, a Terra esconde um verdadeiro tesouro — um registro de vida passada que nos conecta ao presente e até antecipa nosso futuro.

Durante expedições realizadas em 1966 e 1993, cientistas perfuraram a camada de gelo da Groenlândia e coletaram amostras de solo, pedras e gelo profundo. Por muitos anos, esse material ficou armazenado. Entretanto, com o avanço das tecnologias, pesquisadores decidiram reexaminar essas amostras. O que encontraram foi extraordinário: fósseis de plantas, fragmentos de insetos e até fungos, tudo perfeitamente preservado debaixo de quilômetros de gelo.

Entre os achados estavam pedaços de madeira, sementes de papoula do Ártico, esporos de musgos e fragmentos de briófitas. Também foram encontrados fungos do solo, lipídios e ceras compatíveis com vegetação de tundra. E, como se não bastasse, parte de uma perna de inseto e até um olho, provavelmente de uma mosca.

Essa diversidade impressionante de fósseis revela que, há milhões de anos, a Groenlândia era verde e cheia de vida. Ela era coberta por tundra, um tipo de vegetação típica de regiões frias, com plantas rasteiras, musgos e pequenos animais que sobrevivem mesmo com neve no inverno e degelo no verão. O ambiente era frio e seco, mas com solo exposto e vegetação ativa, sugerindo um clima mais quente e com altitudes mais baixas do que as atuais no local.

Mas há quanto tempo era essa a realidade do país?

Para responder a essa pergunta, os cientistas fizeram a análise de dois elementos: Berílio-10 e Alumínio-26. Eles se formam quando rochas estão expostas na superfície da Terra e são bombardeadas por raios cósmicos. Se a rocha for enterrada, a produção desses elementos para, e eles começam a se degradar com o tempo. Assim, é possível saber há quanto tempo a rocha ficou exposta e quando foi coberta novamente.

Com base na quantidade desses elementos nas amostras, os pesquisadores descobriram que a Groenlândia esteve sem gelo em pelo menos dois momentos distintos: o primeiro entre aproximadamente 3,2 e 1,4 milhões de anos atrás, e o segundo há menos de 1,1 milhão de anos, durante um período interglacial mais quente.

Essas descobertas incríveis quebram a ideia de que a camada de gelo da Groenlândia sempre esteve ali desde o início da era do gelo. Na verdade, ela já derreteu e voltou a se formar diversas vezes, acompanhando as mudanças climáticas naturais do planeta.

Mudanças no clima… isso te lembra alguma coisa?

Hoje, com o aquecimento global causado por atividades humanas, a Groenlândia está derretendo novamente e de forma muito mais rápida que nos ciclos naturais do passado. Se todo esse gelo desaparecer, o nível dos oceanos pode subir até 7 metros. Isso impactaria milhões de pessoas, especialmente em cidades costeiras ao redor do mundo.

Por outro lado, esses achados também nos oferecem esperança. Eles nos ajudam a entender como o planeta e seus ecossistemas responderam a mudanças climáticas extremas no passado. E assim, num vislumbre ao passado, podem também ser a chave para perceber como a vida pode reagir e se adaptar ao descongelamento, nos dando ferramentas para lidar com o presente e planejar o futuro.

Fonte original:  CHRIST, A. J. et al. (2024). A multimillion-year-old record of Greenland vegetation and glacial history preserved in sediment beneath 1.4 km of ice at Camp Century. Proceedings of the National Academy of Sciences of the United States of America, v. 118, n. 13, p. e2021442118, 2021. ///// BIERMAN, P. R. et al. Plant, insect, and fungi fossils under the center of Greenland’s ice sheet are evidence of ice-free times. Proceedings of the National Academy of Sciences of the United States of America, v. 121, n. 33, p. e2407465121.

Disponível em: https://www.pnas.org/doi/full/10.1073/pnas.2021442118

DOI: https://doi.org/10.1073/pnas.2021442118

Legenda da imagem de capa: Na imagem, é possível observar uma amostra de sedimento retirada a quilômetros abaixo da crosta de gelo da Groenlândia, deixando aparente a abundância de vida animal e vegetal fossilizada — além de minerais importantíssimos para a datação desse fenômeno — escondidas pela camada gélida (em sua maioria, estão evidentes quartzo [formas claras e angulosas] e fósseis [formas arredondadas de coloração escura]).


Texto revisado por: Daniel dos Santos Araújo, Alexandre Liparini, Sandro Ferreira de Oliveira.