Importância da fotossíntese para os depósitos de ferro

Escrito em: 27 de Outubro de 2025

Por: Erik Marques Rodrigues

A fotossíntese é o processo em que seres vivos utilizam a luz solar como fonte energia para realizar suas atividades, vários organismos diferentes utilizam este mecanismo, como por exemplo, bactérias, algas e plantas. Em grande parte, a fotossíntese é vista apenas como o processo que utiliza a energia da luz solar para quebrar moléculas de água, liberando oxigênio molecular (O2) e elétrons que mantêm o fluxo de energia na célula, porém a fotossíntese é um processo que abrange vários outros mecanismos de obtenção de energia através da luz solar. O processo de fotossíntese que utiliza moléculas de água para manter o fluxo de energia na célula e libera oxigênio, é chamado de fotossíntese oxigênica e surgiu durante o início da era Paleoproterozoica, entre 2.500 e 1.600 milhões de anos.

Atualmente, a fotossíntese oxigênica é o processo dominante de produção de matéria orgânica, servindo de base para a existência de muitos seres vivos, porém nem sempre foi assim. Antes do surgimento da fotossíntese oxigênica, já existiam várias formas de fotossíntese anoxigênica, que não utiliza água como doadora de elétrons e portanto não liberando oxigênio. Em vez disso, as bactérias fotossintéticas ancestrais utilizavam outras moléculas presentes nos oceanos primitivos ao invés da água e com isso liberavam outros produtos derivados dessas moléculas. Uma forma primitiva de fotossíntese realizada pelas bactérias era um processo chamado de Fotoferrotrofia, neste processo a luz era a principal fonte de energia e as células utilizavam a forma reduzida do ferro, o íon ferroso [Fe(II)], como doador de elétrons para manter o fluxo de energia no sistema, gerando como produto o íon férrico [Fe(III)].

A água líquida na Terra surgiu há 4,3 bilhões de anos e então a vida começou a se desenvolver nos oceanos durante o tempo geológico chamado Arqueano que abrange de 4 a 2,5 bilhões de anos. Durante o Arqueano, os oceanos eram ricos em ferro reduzido, oriundo de atividades tectônicas que potencialmente era oxidado por processos que incluem a fotoferrotrofia e era convertido na sua forma insolúvel que se acumulava no fundo do oceano e deu origem às Formações Ferríferas Bandadas (BIF) que atualmente formam os maiores depósitos de ferro do mundo e foram predominantemente formados durante o Arqueano através da deposição de ferro insolúvel dos oceanos ferruginosos.

Após esse período, o oceano passou por transição para um oceano rico em compostos de enxofre, que também impactou na geração de energia pelo seres vivos, como a fotossíntese anoxigênica que utiliza compostos de enxofre ao invés de ferro. E apenas depois de todos esses processos de adaptação dos organismos fotossintéticos é que houve o surgimento da fotossíntese oxigênica como conhecemos hoje! Como a água era altamente abundante, esses organismos tiveram vantagem evolutiva e se proliferaram enormemente por volta de 2,33 bilhões de anos atrás no evento da Grande Oxidação, onde os oceanos foram totalmente tomados pelo oxigênio, que antes era inexistente ou escasso.

Texto fonte: Camacho, A., Walter, X. A., Picazo, A., & Zopfi, J. (2017). Photoferrotrophy: Remains of an Ancient Photosynthesis in Modern Environments. Frontiers in microbiology, 8, 323. doi: 10.3389/fmicb.2017.00323.

Disponível em: https://doi.org/10.3389/fmicb.2017.00323

Fonte e legenda da imagem de capa: Formações Ferríferas Bandadas (BIFs) de Kuhmo na Finlândia mostrando as alternâncias das camadas de quartzo e os óxidos de ferro. 

Disponível em: https://pt.geologyscience.com/ramos-de-geologia/geologia-mineira/bifs-com-forma%C3%A7%C3%B5es-ferr%C3%ADferas-em-faixas/.


Texto revisado por: Ana Luísa Ferreira, Alexandre Liparini e Sandro Ferreira de Oliveira.

Titanoboa: Entre os Vestígios Fósseis e as Temperaturas do Passado

Escrito em: 30 de março de 2025

Por: Matheus Magno Rosa de Assis

Em 2007, ao inspecionar algumas peças vindas da escavação na Mina de Carvão de Cerrejón, Alexandre K. Hastings que na época era um estudante de pós-graduação, encontrou, entre os fósseis coletados e inicialmente classificados como pertencentes a crocodilos, uma vértebra estranha e extremamente grande. Para ele, era evidente que essa vértebra não pertencia a um crocodilo. Ao mostrar o achado a seu colega Jason R. Bourque, Bourque concluiu que se tratava de uma vértebra de cobra.

Com a ajuda de Jason J. Head, os pesquisadores descobriram que os ossos encontrados apresentavam muitas características exclusivas das cobras da família Boidae, que inclui jiboias e sucuris. Além disso, graças a Head e P. David Polly, foi possível estimar o posicionamento das vértebras gigantes na coluna dessa cobra por meio da comparação com vértebras de cobras atuais, que recebeu o nome de Titanoboa cerrejonensis.

Com a estimativa do posicionamento pronta, foi possível calcular o tamanho e a massa corporal dessa cobra. A Titanoboa tinha um comprimento corporal estimado em aproximadamente 13 metros e peso superior a 1 tonelada, sendo a maior cobra já conhecida. Ela habitava as florestas tropicais da América do Sul, e seu registro fóssil data de 58 a 60 milhões de anos atrás, no período Paleoceno.

Mas como a Titanoboa, assim como as outras cobras que não produzem calor próprio e depende do ambiente para manter sua temperatura corporal conseguiu atingir tamanha proporção? Considerando que seu metabolismo e crescimento são diretamente influenciados pela temperatura.

A resposta para essa pergunta é relativamente simples: basta que a temperatura de seu habitat tenha sido mais alta do que a atual.

A temperatura média anual das florestas equatoriais da América do Sul durante o Paleoceno pode ser estimada comparando fósseis de animais ectotérmicos, como a Titanoboa, com animais ectotérmicos modernos. Isso pode ser feito medindo a diferença entre os tamanhos máximos dos corpos desses animais, já que essa diferença é proporcional à variação na temperatura ambiental para uma determinada taxa metabólica específica.

Para essa estimativa, foi comparado o tamanho máximo corporal da Titanoboa com o da Eunectes murinus (sucuri-verde), a maior cobra dos neotrópicos modernos. A análise indicou que a temperatura média anual mínima necessária para a sobrevivência de uma cobra boina de 13 metros de comprimento seria de 32–33 °C, variando entre 30 °C e 34 °C para tamanhos corporais entre 11 e 15 metros. Essa é uma temperatura relativamente alta em comparação com a média anual dos neotrópicos modernos, que gira em torno de 26–27 °C.

Com isso, podemos perceber como as temperaturas médias anuais variaram ao longo das eras nas florestas equatoriais da América do Sul e como a temperatura influencia diretamente o tamanho máximo corporal de animais ectotérmicos.

Ainda bem que a temperatura dos neotrópicos diminuiu um pouco! Já imaginou encontrar uma cobra desse tamanho rastejando por aí?

Texto fonte:Head, J., Bloch, J., Hastings, A. et al. (2009). Giant boid snake from the Palaeocene neotropics reveals hotter past equatorial temperatures. Nature 457, 715–717. 

Disponível em: https://www.researchgate.net/publication/23980887_Giant_boid_snake_from_the_Palaeocene_neotropics_reveals_hotter_past_equatorial_temperatures.

Fonte e legenda da imagem de capa: Vértebras pré-cloacais de Titanoboa Cerrejonensis.

Disponível em: https://www.researchgate.net/publication/23980887_Giant_boid_snake_from_the_Palaeocene_neotropics_reveals_hotter_past_equatorial_temperatures.


Texto revisado por: Ruan Honorato Marzano Cintra, Alexandre Liparini e Sandro Ferreira de Oliveira.

Pegadas do Passado: A Descoberta de um Dinossauro Ágil no Deserto Brasileiro

Escrito em: 22 de abril de 2025

Por: Maria Fernanda Felice Martinelli Silva

Um estudo publicado recentemente na revista Cretaceous Research (2024) trouxe à tona uma descoberta importante realizada no interior de São Paulo, na região da Formação Botucatu. Foram encontradas pegadas fossilizadas que pertencem a um pequeno dinossauro carnívoro, até então desconhecido pela ciência. A partir dessas evidências, os pesquisadores descreveram um novo gênero e espécie, batizado de Farlowichnus rapidus.

As pegadas indicam que o animal se deslocava com rapidez por dunas de areia, sugerindo um estilo de vida ágil e ativo em um ambiente desértico. Estima-se que o dinossauro tinha cerca de um metro de comprimento e caminhava sobre duas patas. O nome da nova espécie homenageia o paleontólogo James Farlow e destaca a principal característica observada nos rastros: a velocidade.

A análise foi baseada em icnofósseis, ou seja, fósseis de pegadas e outras marcas deixadas por seres vivos. Esse tipo de estudo permite reconstruir aspectos do comportamento, da locomoção e até mesmo do ambiente onde esses organismos viveram. No caso do Farlowichnus rapidus, as pistas apontam para um animal pequeno, carnívoro e bem adaptado às condições áridas do Cretáceo Inferior, há cerca de 120 milhões de anos.

Essa descoberta amplia o conhecimento sobre a fauna do passado que habitou a Bacia do Paraná. Embora a região não seja tradicionalmente conhecida por fósseis de dinossauros, o achado mostra que mesmo áreas menos exploradas podem revelar importantes informações sobre a pré-história brasileira. Além disso, destaca a diversidade ecológica que existia em ambientes extremos, como antigos desertos.

O estudo também chama atenção para a importância da preservação dos sítios fossilíferos no Brasil. Locais como a Formação Botucatu são fundamentais para entender a história da vida na Terra e devem ser protegidos como parte do patrimônio científico e cultural do país.

Texto fonte: LEONARDI, G.; FERNANDES, M. A.; CARVALHO, I. S.; SCHUTZER, J. B.; SILVA, R. C. (2024). Farlowichnus rapidus new ichnogen., new ichnosp.: a speedy and small theropod in the Early Cretaceous Botucatu paleodesert (Paraná Basin), Brazil. Cretaceous Research, v. 153, p. 105720. DOI: 10.1016/j.cretres.2023.105720.

Disponível em: https://www.sciencedirect.com/science/article/abs/pii/S0195667123002483.

DOI: https://doi.org/10.1016/j.cretres.2023.105720.

Fonte e legenda da imagem de capa: A imagem foi retirada do próprio artigo científico e a ilustração foi elaborada por G. Gehr. Contém uma reconstrução artística do dinossauro Farlowichnus rapidus caminhando pelo antigo deserto da Formação Botucatu, durante o Cretáceo Inferior. As pegadas na areia representam os icnofósseis analisados no estudo, que revelam um animal pequeno, ágil e veloz, adaptado a ambientes áridos.

Disponível em: https://www.sciencedirect.com/science/article/abs/pii/S0195667123002483.


Texto revisado por: Ítalo Augusto de Oliveira Barboza, Sandro Ferreira de Oliveira e Alexandre Liparini.

O que vestígios paleoarqueológicos podem nos revelar sobre as mudanças ambientais da transição do Paleoceno para Holoceno?

Escrito em: 22 de abril de 2025

Por: Daniel Fernandes

Dolores Piperno é uma arqueobotânica norte‑americana. Desde 2003 atua como cientista sênior no Smithsonian Tropical Research Institute, em Balboa, Panamá. Piperno é pioneira no uso de fitólitos (grãos de amido e pólen) para reconstruções paleoecológicas e arqueobotânicas, tendo escrito um dos maiores livros da área sobre métodos de uso de fitólitos na ciência. Ela é a autora do artigo discutido a seguir, que revela um pouco sobre essa área tão interessante situada entre a Botânica, a Paleontologia e a Arqueologia. 

Primeiramente, o que é a arqueobotânica? Arqueobotânica é o estudo das interações entre seres humanos e plantas no passado, por meio da recuperação e análise de restos vegetais antigos. Quando essas interações estão num marco temporal mais distante do que o Holoceno, esses vestígios arqueobotânicos passam a ser paleontológicos, ou seja, são fósseis. 

Para compreender melhor sobre essa área de pesquisa, vamos fazer uma viagem ao Panamá. 

Imagine um lago que guarda camadas e mais camadas de fragmentos minerais, cinzas e carvão, como se cada milímetro de seu fundo fosse uma página de um livro. O antigo Monte Oscuro, na costa pacífica do Panamá, é um monumento de água, areia e lama que registrou a dinâmica dos climas e ecossistemas do Paleoceno. A paleoarqueobotânica (sim, um nome enorme) é uma forma de ler esse livro. Piperno e Jones coletaram, usando uma broca enorme montada em um caminhão, vestígios de diversas profundidades do sedimento desse lago. Coletaram grãos de pólen, e pequenas estruturas microscópicas de sílica (um mineral) que se formam em plantas, chamados fitólitos. Analisando-os, é possível saber sua idade e a qual planta pertencem. 

No perfil de Monte Oscuro, entre 8 e 7,1 m de profundidade, os fitólitos de gramíneas C₄ e ervas de clima árido dominam mais de 60% do registro. Arbustos como Curatella americana aparecem mais esparsos, palmeiras adaptadas a pouca chuva pontuam a paisagem (de forma similar ao nosso Cerrado), tudo indicando que chuvas entre 30% e 40% abaixo dos níveis atuais transformaram uma floresta em estepes abertas. Muito similar com o fenômeno de savanização que está ocorrendo hoje em dia na floresta amazônica.  

Por volta de 10.500 anos atrás o lago voltou a se encher de água. Agora com sedimentos bem cimentados em sílica e carbono, fitólitos arbóreos de Chrysobalanaceae e Annonaceae começam a superar os de capins, enquanto o pólen de espécies arbóreas e decíduas demonstraram a reconquista da floresta tropical. Isso são sinais de um Holoceno mais úmido e morno. O ecossistema respondeu a essa alteração no clima mudando sua composição florística.

E se plantas falassem, talvez relatariam uma nova reviravolta: entre 7.500 e 7.000 anos atrás, o sedimento escureceu de carvão, e fitólitos de capins e Heliconia queimados, apareceram de forma completamente inesperada apontando para queimadas controladas na região. Qual foi o autor dessas queimadas? As evidências apontam para populações humanas que, ao entrar na mata, faziam queimadas e experimentos agrícolas, os primeiros traços de manejo antrópico na bacia de Monte Oscuro. Assim como nós encontramos na Amazônia os sítios de Terra Preta de Índio, solos com muito carvão e restos vegetais “compostados”, no fundo do Monte Oscuro, haviam vestígios de agricultura pelos primeiros habitantes da região. Hoje em dia, o Monte Oscuro está situado fora de qualquer Comarca (o sinônimo panamenho de Terra Indígena). Mas os sete povos que habitam hoje o país (Ngäbe, Buglé, Guna, Emberá, Wounaan, Bribri e Naso Tjër Di), já habitavam há centenas de anos e todos eles faziam manejo de suas terras.

Todos esses povos indígenas mantêm sistemas agrícolas tradicionais (milho, mandioca, banana, feijão, cacau, entre outros), na qual a prática da coivara (queima controlada) é ainda hoje muito utilizada e provavelmente tem origens muito mais antigas. Esses fragmentos de sílica e pólen não são apenas curiosidades paleobotânicas: eles nos lembram que mudanças climáticas e movimentos humanos sempre estiveram entrelaçados. O ser humano, ao mesmo tempo, tem sua cultura definida pelo ambiente, mas também define o ambiente com a sua cultura. Nós, ao chegarmos na América, já no Holoceno, criamos métodos para nos adequar à transição de savana para floresta no Monte Oscuro, e desenvolvemos um início de agricultura, e assim criamos um substrato fértil que alterou a ecologia do ambiente por centenas ou até milhares de anos depois.

Ao reinterpretar o fundo de um lago como um arquivo vivo, descobrimos não só como o clima do fim do Pleistoceno confirmou savanas efêmeras e, depois, se voltou a florestas, mas também como nossos ancestrais reagiram, adaptaram-se e, cultivaram as primeiras plantas. Tudo isso observando pequenos vestígios vegetais. Que lição nos resta hoje, quando enfrentamos rápidas alterações ambientais? Se soubéssemos ler com a mesma sensibilidade dos arqueobotânicos os sedimentos sob nossos pés, talvez aprendessemos a proteger melhor os ecossistemas de que dependemos. Afinal, como Monte Oscuro demonstra, cada grão de pólen, cada fragmento de carvão, é uma imagem de resiliência, tradição e continuidade.

Texto fonte: PIPERNO, Dolores R. e JONES, John G. (2003). Paleoecological and archaeological implications of a late Pleistocene/Early holocene record of vegetation and climate from the pacific coastal plain of panama. Quaternary Research, Volume 59, Issue 1, January 2003, Pages 79-87.

Disponível em: https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0033589402000212.

DOI: https://doi.org/10.1016/S0033-5894(02)00021-2.

Fonte e legenda da imagem de capa: A carbonização é um dos principais modos de preservação de espécimes de macrofósseis de plantas, de vestígios paleoetnobotânicos.

Disponível em: Wikipedia Commons, Cmhenkel.


Texto revisado por: Sandro Ferreira de Oliveira e Alexandre Liparini.

Você sabia que dinossauros tinham câncer?

Escrito em: 22 de abril de 2025

Por: Giovanna Melo Bruzzi Corrêa

Você sabia que dinossauros tinham câncer? É isso que revela a revisão bibliográfica publicada por Garcês et. al. em 2024. No imaginário popular, é muito comum associarem o câncer aos tempos modernos. No entanto, esse estudo indica que os tumores, que são crescimentos anormais de células, existem em vertebrados há pelo menos 350 milhões de anos! Esse dado vem de um achado fóssil de um peixe do Devoniano (Phanerosteon mirabile) (Phanerosteon mirabile) que continha indícios de osteoma, um tumor ósseo benigno, situação na qual geralmente não é grave. Pra você ter ideia, esse período está entre 0,4 a 3,2 milhões de anos atrás. Também nesse artigo, há evidências de tumores benignos e malignos (câncer) em mamutes e até em dinossauros, com a família Hadrosauridae contendo a maior incidência de registros tumorais. Além disso, outra revisão, desta vez publicada por Galassi et. al., também em 2024, sugere que os tumores podem estar correlacionados com fatores da antiguidade  o gás radônio que é  que é uma fonte natural de radiação, infecções virais causadoras de câncer como o HPV, toxinas liberadas por plantas e microrganismos e outros elementos. 

Com a ajuda de estratégias como tomografia computadorizada e análises histológicas, pesquisadores dos artigos originais conseguiram mapear os fósseis e encontrar sinais de tumores, principalmente em ossos. Isso ocorre porque as partes moles se decompõem muito mais rapidamente e raramente são preservadas com o passar do tempo, o que inviabiliza uma análise robusta do histórico de tumores na Terra através desses tecidos. 

No entanto, ainda sim é possível realizar um estudo sobre ocorrências tumorais ao longo dos anos: em 2024, Garcês et. al. e Galassi et. al. reuniram diversos artigos de registros fósseis com evidências de tumores e analisaram esses achados, trazendo a informação que tumores não são exclusivos da modernidade. Mas porque é importante pesquisar o passado, se esses seres já não estão entre nós e não estão mais sofrendo com essas doenças terríveis?

A paleontologia também dialoga com a área da saúde, e pesquisas como essas são extremamente importantes para o estudo de doenças do passado, que também estão presentes atualmente, e para o entendimento do comportamento destas no futuro. Tudo isso reforça a importância da preservação de sítios fossilíferos e de seus registros e principalmente da valorização da profissão do paleontólogo. Sem um bom estudo do passado, é muito mais difícil compreender o presente e “especular sobre o futuro”.

Texto fonte: GARCÊS, Andreia; PIRES, Isabel; GARCÊS, Sara. (2024). Ancient Diseases in Vertebrates: Tumours through the Ages. Animals, Basel, v. 14, n. 10, p. 1474. DOI: https://doi.org/10.3390/ani14101474.

Disponível em: https://www.mdpi.com/2076-2615/14/10/1474

Texto fonte: GALASSI, Francesco M. et al. (2024). A historical and palaeopathological perspective on cancer. Journal of Preventive Medicine and Hygiene, [S.l.], v. 65, n. 1, p. E93–E97.

Disponível em: https://www.jpmh.org/index.php/jpmh/article/view/3221.

DOI: https://doi.org/10.15167/2421-4248/jpmh2024.65.1.3221.

Fonte e legenda da imagem de capa: Tumores ósseos de vertebrados da antiguidade.

Disponível em: https://www.jpmh.org/index.php/jpmh/article/view/3221.


Texto revisado por: Sandro Ferreira de Oliveira e Alexandre Liparini.

Restos de baleia-azul com 1,9 ka encontrado no Brasil

Escrito em: 18 de outubro de 2025

Por: Bianca Ribeiro Cunha

Fragmentos de ossos de baleia-azul (Balaenoptera musculus) de 1,9 ka (1,9 mil anos) foi encontrado no litoral brasileiro. Essa descoberta foi marcante, visto que o estudo sobre a fossilização de cetáceos ainda é escasso por conta dos desafios envolvidos em encontrar fósseis desses animais devido à sua comum morte em ambiente costeiro. Além disso, a preservação de uma carcaça por tanto tempo em ambiente praiano depende do contexto envolvido no soterramento e de diversos fatores climáticos, como temperatura, ondas, correntes e sedimentação, dificultando a fossilização nessas localidades.

Os restos foram encontrados na Praia do Leste, no litoral de São Paulo, e foram analisados por pesquisadores do Laboratório de Estratigrafia e Paleontologia da Universidade Estadual Paulista (UNESP), com o objetivo de realizar o estudo das características tafonômicas. A tafonomia (ramo da paleontologia que estuda o que ocorre após a morte de um organismo) buscou identificar e descrever as alterações físico-químicas macroscópicas presentes no esqueleto, bem como realizar um estudo por sensoriamento remoto, através de drones, a fim de compreender a dinâmica climática da região.

Para a realização dos estudos em laboratório, foram retirados apenas nove elementos ósseos devido ao grande tamanho das peças, o restante do material foi mantido no local por questões logísticas. Após diversas análises eles foram caracterizados como nível 1 de conservação (partes duras, como ossos e dentes, bem preservadas) contendo apenas marcas superficiais, o que é um ótimo facilitador para pesquisas paleontológicas.Os resultados da pesquisa mostraram que a morte da baleia ocorreu em ambiente raso e que ela foi rapidamente transportada do mar aberto para a praia, o que impediu a desarticulação dos ossos antes do encalhe. Além disso, o encalhe provavelmente ocorreu durante o outono ou inverno, por apresentarem os padrões climáticos mais favoráveis para que as baleias realizem a migração em regiões tropicais e subtropicais, com ocorrência de ondas e tempestades.

Através das análises de geoprocessamento, também foram possíveis inferências sobre a história evolutiva do ambiente em que o fóssil foi encontrado, indicando um evento erosivo há 0,7 ka que expôs o esqueleto. Posteriormente, ocorreu uma nova progradação (avanço de sedimentos da costa em direção ao mar) em um ambiente saturado de água doce, cobrindo o material novamente. Logo, o afloramento da ossada foi resultado de outra erosão recente, que vem ocorrendo até hoje.

Tendo em vista todos os resultados obtidos a partir deste achado, fica claro como a pesquisa e a preservação de restos orgânicos são fundamentais para compreender a história evolutiva e os processos ambientais que moldaram os ecossistemas atuais. Além de ampliar o conhecimento científico sobre a biodiversidade pretérita e as mudanças climáticas ao longo do tempo geológico, esses estudos fornecem subsídios importantes para estratégias de conservação e educação ambiental. Assim, a tafonomia assume um papel essencial não apenas para a ciência, mas também para a sociedade, ao promover a valorização do patrimônio natural e o entendimento das interações entre o passado e o presente da vida na Terra.

Texto fonte: Spanghero, N.F. (2021). Tafonomia do fóssil de baleia-azul (Balaenoptera musculus) do Holoceno (Iguape, São Paulo, Brasil). Dissertação de Mestrado – Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (UNESP), Instituto de Biociências, Câmpus do Litoral Paulista, São Vicente – SP, 82 p.

Disponível em: https://repositorio.unesp.br/entities/publication/1eb8e7e1-20b6-4aa8-b2da-405a405b04db.

Fonte e legenda da imagem de capa: Evolução do vestígio de baleia-azul ao longo do tempo. A imagem mostra como o animal morreu e encalhou há cerca de 1,9 mil anos, foi soterrado rapidamente (progradação) e depois exposto por erosões e novos soterramentos ao longo dos séculos. Hoje, o fóssil voltou a aparecer na praia devido à erosão recente da costa.

Disponível em: https://repositorio.unesp.br/entities/publication/1eb8e7e1-20b6-4aa8-b2da-405a405b04db.


Texto revisado por: Sandro Ferreira de Oliveira, Luís Filipe Cardoso Queiroz e Alexandre Liparini.

Esporulei a 1 bilhão de anos atrás

Escrito em: 13 de abril de 2025

Por: Rafaella Corrêa

Estrelas de séries de TV, ícones da culinária, exímios decompositores e até mesmo os progenitores da penicilina. O papel dos fungos nos ciclos biológicos revolucionou diversos aspectos da vida dos seres humanos e um estudo publicado em 2019 por cientistas da Universidade de Liège, na Bélgica, recontou os primórdios da história evolutiva do Reino Fungi.

O trabalho intitulado “Early fungi from the Proterozoic era in Arctic Canada” fez uma descoberta impressionante: uma nova espécie fúngica preservada em xisto da Formação Grassy Bay, no Canadá, datada da era Proterozoica, cerca de 1.010 – 890 milhões de anos atrás. O xisto corresponde a uma rocha metamórfica formada a partir da sedimentação, caracterizada por apresentar grãos finos. A formação em questão está localizada na região ao sul da Ilha Victória, no litoral do Oceano Ártico, e a idade da rocha torna a nova espécie descrita mais antiga em aproximadamente meio bilhão de anos do que os fungos fósseis relatados até aquele momento, que datavam de 450 Ma.

Para uma identificação conclusiva de fósseis fúngicos, a análise morfológica deve ocorrer em paralelo com as análises da ultraestrutura e da composição química. Os microfósseis encontrados apresentam filamentos septados com ramificações e esferas no ápice. Dessa forma, essas estruturas podem ser interpretadas como hifas com esporos terminais, semelhantes aos esporângios fúngicos presentes no estágio reprodutivo de muitos fungos presentes no Antropoceno. As paredes celulares apresentavam bicamada composta de quitina e uma matriz externa rica em quitina, glucana e proteínas. Assim, as espécies preservadas em xisto foram descritas como Ourasphaira giraldae.

Como a amostra de O. giraldae foi encontrada preservada em xisto estuarino de águas rasas, esse fungo pode ter habitado ambientes de transição entre o rio e o mar, onde a água doce se mistura com a água salgada. Logo, o acúmulo de detritos orgânicos pode ter influenciado positivamente o crescimento e a heterotrofia dos fungos. Portanto, a conquista do ambiente terrestre pelo Reino Fungi ocorreu posteriormente e pode ter precedido a colonização da terra pelas plantas. Entretanto, novos estudos multidisciplinares ainda são necessários para elucidar a evolução da biosfera primitiva.

Texto fonte: Loron, C.C., François, C., Rainbird, R.H. et al. (2019). Early fungi from the Proterozoic era in Arctic Canada. Nature 570, 232–235. Doi: 10.1038/s41586-019-1217-0.

Disponível em: https://www.nature.com/articles/s41586-019-1217-0.

Fonte e legenda da imagem de capa: Fungos primitivos da era Proterozoica no Canadá Ártico.

Disponível em: https://www.nature.com/articles/s41586-019-1217-0.


Texto revisado por: Lucélio Batista e Alexandre Liparini.

Ichthyotitan severnensis: o colosso de 25 metros que nadou até a beira da extinção Triássico‑Jurássica

Escrito em: 25 de abril de 2025

Por: Victor Abdallah Rogana

Os ictiossauros gigantes — répteis marinhos que podiam rivalizar com as baleias‑azuis em comprimento — sobreviveram até o fim do Triássico, aproximadamente 201 milhões de anos atrás. Em 2024, Lomax e colaboradores descreveram um enorme surangular (osso da mandíbula encontrado em alguns vertebrados) direito encontrado em Blue Anchor, Somerset na Inglaterra, e demonstraram que ele corresponde a um surangular esquerdo divulgado em 2018 em Lilstock, a cerca de 10 km dali. Juntos, esses dois ossos de mandíbula sustentam a criação do novo gênero e espécie Ichthyotitan severnensis, o primeiro ictiossauro gigante nomeado para a Idade Rhaetiano e, com cerca de 25 m de corpo, potencialmente o maior réptil marinho já registrado.

Ambos os espécimes provêm do topo da Formação Westbury Mudstone, depositada há cerca de 202 Ma (202 milhões de anos atrás) e posicionada apenas alguns metros abaixo das camadas que marcam a extinção Triássico‑Jurássica. Essa proximidade estratigráfica, somada à morfologia idêntica dos ossos, elimina a hipótese de deformação tafonômica. O exemplar de Blue Anchor tem mais de 2 m de comprimento, preservado em três dimensões, e exibe características diagnósticas como a curvatura posterior de quase 90 graus, um processo coronoide bulboso deslocado lateralmente e uma crista muscular extremamente robusta — traços que distinguem I. severnensis de animais shastasaurídeos como Shonisaurus sp.

A histologia reforça essas conclusões: o córtex ósseo apresenta tecido PIFT (periosteal intrinsic‑fiber tissue) com canais vasculares estritamente longitudinais e remodelação “em molde”, padrão conhecido apenas em outros ictiossauros gigantes. Marcas de crescimento abundantes, mas sem um sistema fundamental externo, indicam que o animal ainda crescia; canais periosteais abertos na superfície confirmam um estágio sub‑adulto ou adulto inicial.

Estimativas de tamanho foram refinadas por escalonamento das distâncias entre a crista muscular e o coronoide em comparação com Besanosaurus leptorhynchus e Ophthalmosaurus icenicus do jurássico; ambas convergem para ~25 m. Fragmentos adicionais de Aust podem sugerir indivíduos de até 30 m, mas requerem mais material para confirmação.
Assim, Ichthyotitan severnensis estende o intervalo temporal dos ictiossauros colossais até a beira do Jurássico e sublinha o quanto ainda ignoramos sobre os ecossistemas marinhos que antecederam uma grande extinção. A descoberta também lembra colecionadores de que ossos gigantes expostos na orla do estuário do rio Severn provavelmente pertencem a “lagartos‑peixe” e não a dinossauros — e que achados futuros talvez revelem, enfim, o esqueleto completo do último verdadeiro titã dos oceanos.

Texto fonte: Lomax, D.R.; de la Salle, P.; Perillo, M.; Reynolds, J.; Reynolds, R.; Waldron, J.F. (2024). The last giants: New evidence for giant Late Triassic (Rhaetian) ichthyosaurs from the UK. PLOS ONE, v. 19, n. 4, p. e0300289. DOI: 10.1371/journal.pone.0300289.

DOI: https://doi.org/10.1371/journal.pone.0300289.

Fonte e legenda da imagem de capa: Reconstrução artística de Ichthyotitan severnensis em vida, demonstrando um porte robusto e um corpo comprido e hidrodinâmico, evidenciando as adaptações deste grupo de répteis para a vida aquática. 

Disponível em: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Ichthyotitan_severnensis.png

Texto revisado por: Lucas Ferreira Bispo da Silva e Alexandre Liparini.

Antes dos pássaros, vieram os pterossauros

Escrito em: 19 de abril de 2025

Por: Letícia Almeida

Você já ouviu falar dos pterossauros? Eles foram os primeiros vertebrados a voar de verdade, muito antes dos pássaros. Mas por muito tempo os cientistas não sabiam ao certo de onde eles vieram. Afinal, não existiam fósseis que mostrassem como esses répteis desenvolveram asas e começaram a voar. Isso mudou nos últimos anos, com o estudo de um grupo de animais chamados “lagerpetídeos”.

Os lagerpetídeos eram pequenos répteis que viveram há mais de 200 milhões de anos, no período Triássico. Eles tinham corpo leve, andavam em duas patas e, provavelmente, comiam insetos. Seus fósseis foram encontrados em lugares como o Brasil, Argentina, Estados Unidos e Madagascar. No início, os cientistas achavam que esses animais eram mais próximos dos dinossauros, mas novas descobertas sugerem que eles estavam mais próximos dos pterossauros.

Usando tecnologias modernas, como tomografias de fósseis, os cientistas conseguiram ver detalhes dos cérebros e ouvidos desses animais. As estruturas encontradas são muito parecidas com as dos pterossauros. Isso indica que eles podiam ter um bom senso de equilíbrio e coordenação, algo importante para animais que saltavam ou planavam entre galhos — e talvez até para o voo.

Outra pista está na alimentação. Tanto os pterossauros mais antigos quanto os lagerpetídeos parecem ter sido insetívoros. Isso pode ter influenciado o comportamento e a evolução desses bichos, pois caçar insetos exige movimentos rápidos, boa visão e agilidade. Tudo isso pode ter ajudado os ancestrais dos pterossauros a dar os primeiros passos — ou saltos — rumo ao céu.

A pesquisa mostra que os lagerpetídeos talvez não voassem, mas já tinham características que mais tarde apareceriam nos pterossauros. Por isso, eles são considerados um elo importante para entender como o voo surgiu entre os répteis. A evolução, afinal, não acontece de uma hora para a outra. É feita de pequenos passos — ou pulos de galho em galho.

Estudar esses fósseis ajuda a contar uma parte esquecida da história da vida na Terra. E também mostra como a ciência está sempre mudando. Às vezes, basta olhar com outros olhos para descobrir algo novo no que já se conhecia.

Texto fonte: SILVA, João Lucas da; PINHEIRO, Felipe Lima; SANTOS, Mateus Anilson Costa; GARCIA, Maurício. De galho em galho — Lagerpetidae & a origem dos pterossauros. Paleontologia em Destaque, v. 37, n. 77, p. 34–41, 2022. DOI: 10.4072/paleodest.2022.37.77.04.

Disponível em: https://revistaig.emnuvens.com.br/derbyana/article/view/778.

DOI: 10.4072/paleodest.2022.37.77.04.

Fonte e legenda da imagem de capa: Reconstrução artística do lagerpetídeo Ixalerpeton polesinensis, um pequeno réptil do Triássico Superior. A ilustração destaca estruturas filamentosas na pele, sugerindo a presença de tegumento semelhante a penas primitivas. Essa representação visualiza hipóteses recentes sobre a aparência e a ecologia desses animais, que são considerados parentes próximos dos pterossauros e fornecem pistas sobre a evolução do voo nos vertebrados.

Disponível em: https://www.researchgate.net/publication/372264521_DE_GALHO_EM_GALHO_-_LAGERPETIDAE_A_ORIGEM_DOS_PTEROSSAUROS.


Texto revisado por: Natália Ferreira de Freitas Medeiros e Alexandre Liparini.

Fitólitos: As Impressões Digitais da Vegetação Antiga

Escrito em: 21 de abril de 2025

Por: Lara Amaral Garcia

Você já parou para pensar como os cientistas conseguem sugerir como eram os diferentes ambientes do planeta Terra há milhares, ou milhões, de anos? Existem muitos vestígios naturais que indicam as prováveis condições ambientais de outras épocas. Esses vestígios, chamados de proxie ambientais, são ferramentas valiosas para a ciência. Entre eles estão sedimentos, anéis de árvores, pólen, isótopos, fósseis e, mais recentemente, os fitólitos, que têm ganhado destaque.

Fitólitos — nome que vem do grego e significa “pedra produzida por plantas” — são corpos microscópicos formados a partir de minerais absorvidos pelas plantas. O principal composto responsável é a sílica, que se deposita entre e dentro das células em diversos órgãos vegetais, principalmente folhas e raízes de plantas herbáceas e na madeira de árvores. Quando a planta morre, esses cristais permanecem no solo e, por serem altamente duráveis e resistentes a diferentes condições ambientais, se tornam importantes marcadores da história dos ambientes

A grande questão é que, analisando a forma e a quantidade dos fitólitos, os cientistas conseguem identificar e classificar as plantas produtoras em níveis como família, subfamília e, às vezes, até espécie. Isso torna os fitólitos ferramentas valiosas para reconhecer a estrutura e o tipo de vegetação do passado. Diversas plantas produzem formas variadas (morfotipos) de fitólitos, mas apenas alguns, chamados morfotipos diagnósticos, são úteis para a reconstituição ambiental. Para garantir uma análise confiável, é necessário identificar pelo menos 200 morfotipos diagnósticos em um estudo.

É importante lembrar que nem toda planta produz fitólitos. Além disso, uma mesma planta pode gerar diferentes morfotipos (produção múltipla) e diferentes plantas podem produzir fitólitos semelhantes (produção redundante), o que pode dificultar a identificação dos grupos produtores. Atualmente, estudos indicam que a produção de fitólitos é restrita às plantas vasculares, com destaque para as monocotiledôneas, especialmente as gramíneas, conhecidas por sua forte afinidade com a sílica. Por isso, conhecer tanto os formatos dos fitólitos quanto as partes da planta onde eles se formam é essencial para uma identificação precisa.

Além disso, o solo funciona como um grande reservatório desses cristais, que tendem a permanecer nas camadas superficiais. Eles podem ser transportados por ação da água, do vento, de organismos como minhocas e formigas, ou até por atividades humanas. No entanto, nem todos os tipos de solo favorecem a conservação dos fitólitos, e fatores como o material de origem do solo, relevo e processos erosivos podem alterar sua distribuição. Esses desafios exigem atenção redobrada dos pesquisadores para evitar interpretações erradas dos ambientes antigos. Ainda assim, essas características tornam os fitólitos ferramentas valiosas, inclusive para estudos quantitativos de erosão e mudanças na paisagem.

Mesmo com esses desafios, o estudo dos fitólitos abriu portas para entender não só a vegetação antiga, mas também processos como a erosão, a dinâmica da paisagem e as mudanças climáticas ao longo do tempo. Para isso, cientistas criam coleções de referência: verdadeiros catálogos que reúnem diferentes formas de fitólitos associados a plantas atuais. Com essas coleções, fica possível comparar os registros fósseis com o que existe hoje e fazer inferências mais seguras sobre o passado.

No Brasil, os estudos com fitólitos ainda são relativamente recentes, mas vêm crescendo rapidamente. Esse avanço é fundamental e faz todo sentido, afinal, somos o país que abriga a maior biodiversidade do planeta. Temos um imenso potencial para formar grandes coleções de referência fitolítica e para promover a reconstrução dos ambientes passados, ampliando o conhecimento sobre nossos biomas e oferecendo bases sólidas para projetos de conservação e restauração ecológica. Cada cristal de sílica guardado no solo carrega um fragmento da nossa história natural. E aprender a decifrá-los é, sem dúvida, uma das chaves para proteger o futuro dos nossos ecossistemas.

Texto fonte: Calegari, M. R., Souza, E., Mozer, J. H., Marcolin, L., Fonseca, C. F. (2022). FITÓLITOS – UMA FERRAMENTA PARA ESTUDOS DE RECONSTITUIÇÃO PALEOAMBIENTAL – CONCEITOS E REVISÃO SOBRE APLICAÇÕES NO BRASIL. Derbyana, São Paulo, 43: e778.

Disponível em: https://revistaig.emnuvens.com.br/derbyana/article/view/778.

DOI: https://doi.org/10.1038/s41598-020-72547-w.

Fonte e legenda da imagem de capa: Registro de diferentes morfotipos de fitólitos coletados de diferentes órgãos de árvores da China, em microscópio de luz. Foi usado um método de oxidação úmida modificado para tratar as amostras, retirando partículas aderidas e impurezas, a fim de deixá-las o mais limpas possível, permitindo o escaneamento 3D e a identificação mais precisa do morfotipo.

Disponível em: https://doi.org/10.1038/s41598-020-72547-w.


Texto revisado por: Daniel dos Santos Araújo, Alexandre Liparini, Sandro Ferreira de Oliveira.