O que vestígios paleoarqueológicos podem nos revelar sobre as mudanças ambientais da transição do Paleoceno para Holoceno?

Escrito em: 22 de abril de 2025

Por: Daniel Fernandes

Dolores Piperno é uma arqueobotânica norte‑americana. Desde 2003 atua como cientista sênior no Smithsonian Tropical Research Institute, em Balboa, Panamá. Piperno é pioneira no uso de fitólitos (grãos de amido e pólen) para reconstruções paleoecológicas e arqueobotânicas, tendo escrito um dos maiores livros da área sobre métodos de uso de fitólitos na ciência. Ela é a autora do artigo discutido a seguir, que revela um pouco sobre essa área tão interessante situada entre a Botânica, a Paleontologia e a Arqueologia. 

Primeiramente, o que é a arqueobotânica? Arqueobotânica é o estudo das interações entre seres humanos e plantas no passado, por meio da recuperação e análise de restos vegetais antigos. Quando essas interações estão num marco temporal mais distante do que o Holoceno, esses vestígios arqueobotânicos passam a ser paleontológicos, ou seja, são fósseis. 

Para compreender melhor sobre essa área de pesquisa, vamos fazer uma viagem ao Panamá. 

Imagine um lago que guarda camadas e mais camadas de fragmentos minerais, cinzas e carvão, como se cada milímetro de seu fundo fosse uma página de um livro. O antigo Monte Oscuro, na costa pacífica do Panamá, é um monumento de água, areia e lama que registrou a dinâmica dos climas e ecossistemas do Paleoceno. A paleoarqueobotânica (sim, um nome enorme) é uma forma de ler esse livro. Piperno e Jones coletaram, usando uma broca enorme montada em um caminhão, vestígios de diversas profundidades do sedimento desse lago. Coletaram grãos de pólen, e pequenas estruturas microscópicas de sílica (um mineral) que se formam em plantas, chamados fitólitos. Analisando-os, é possível saber sua idade e a qual planta pertencem. 

No perfil de Monte Oscuro, entre 8 e 7,1 m de profundidade, os fitólitos de gramíneas C₄ e ervas de clima árido dominam mais de 60% do registro. Arbustos como Curatella americana aparecem mais esparsos, palmeiras adaptadas a pouca chuva pontuam a paisagem (de forma similar ao nosso Cerrado), tudo indicando que chuvas entre 30% e 40% abaixo dos níveis atuais transformaram uma floresta em estepes abertas. Muito similar com o fenômeno de savanização que está ocorrendo hoje em dia na floresta amazônica.  

Por volta de 10.500 anos atrás o lago voltou a se encher de água. Agora com sedimentos bem cimentados em sílica e carbono, fitólitos arbóreos de Chrysobalanaceae e Annonaceae começam a superar os de capins, enquanto o pólen de espécies arbóreas e decíduas demonstraram a reconquista da floresta tropical. Isso são sinais de um Holoceno mais úmido e morno. O ecossistema respondeu a essa alteração no clima mudando sua composição florística.

E se plantas falassem, talvez relatariam uma nova reviravolta: entre 7.500 e 7.000 anos atrás, o sedimento escureceu de carvão, e fitólitos de capins e Heliconia queimados, apareceram de forma completamente inesperada apontando para queimadas controladas na região. Qual foi o autor dessas queimadas? As evidências apontam para populações humanas que, ao entrar na mata, faziam queimadas e experimentos agrícolas, os primeiros traços de manejo antrópico na bacia de Monte Oscuro. Assim como nós encontramos na Amazônia os sítios de Terra Preta de Índio, solos com muito carvão e restos vegetais “compostados”, no fundo do Monte Oscuro, haviam vestígios de agricultura pelos primeiros habitantes da região. Hoje em dia, o Monte Oscuro está situado fora de qualquer Comarca (o sinônimo panamenho de Terra Indígena). Mas os sete povos que habitam hoje o país (Ngäbe, Buglé, Guna, Emberá, Wounaan, Bribri e Naso Tjër Di), já habitavam há centenas de anos e todos eles faziam manejo de suas terras.

Todos esses povos indígenas mantêm sistemas agrícolas tradicionais (milho, mandioca, banana, feijão, cacau, entre outros), na qual a prática da coivara (queima controlada) é ainda hoje muito utilizada e provavelmente tem origens muito mais antigas. Esses fragmentos de sílica e pólen não são apenas curiosidades paleobotânicas: eles nos lembram que mudanças climáticas e movimentos humanos sempre estiveram entrelaçados. O ser humano, ao mesmo tempo, tem sua cultura definida pelo ambiente, mas também define o ambiente com a sua cultura. Nós, ao chegarmos na América, já no Holoceno, criamos métodos para nos adequar à transição de savana para floresta no Monte Oscuro, e desenvolvemos um início de agricultura, e assim criamos um substrato fértil que alterou a ecologia do ambiente por centenas ou até milhares de anos depois.

Ao reinterpretar o fundo de um lago como um arquivo vivo, descobrimos não só como o clima do fim do Pleistoceno confirmou savanas efêmeras e, depois, se voltou a florestas, mas também como nossos ancestrais reagiram, adaptaram-se e, cultivaram as primeiras plantas. Tudo isso observando pequenos vestígios vegetais. Que lição nos resta hoje, quando enfrentamos rápidas alterações ambientais? Se soubéssemos ler com a mesma sensibilidade dos arqueobotânicos os sedimentos sob nossos pés, talvez aprendessemos a proteger melhor os ecossistemas de que dependemos. Afinal, como Monte Oscuro demonstra, cada grão de pólen, cada fragmento de carvão, é uma imagem de resiliência, tradição e continuidade.

Texto fonte: PIPERNO, Dolores R. e JONES, John G. (2003). Paleoecological and archaeological implications of a late Pleistocene/Early holocene record of vegetation and climate from the pacific coastal plain of panama. Quaternary Research, Volume 59, Issue 1, January 2003, Pages 79-87.

Disponível em: https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0033589402000212.

DOI: https://doi.org/10.1016/S0033-5894(02)00021-2.

Fonte e legenda da imagem de capa: A carbonização é um dos principais modos de preservação de espécimes de macrofósseis de plantas, de vestígios paleoetnobotânicos.

Disponível em: Wikipedia Commons, Cmhenkel.


Texto revisado por: Sandro Ferreira de Oliveira e Alexandre Liparini.

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