Como uma técnica de radiologia pode ajudar na detecção de fraude de fósseis

16 de novembro de 2021

Por: Letícia Mansur Rosa

Os fósseis são achados paleontológicos que contam a história da fauna e da flora de determinada região. No mundo, cada país possui uma legislação própria em relação aos fósseis encontrados em seu território e, devido a tais divergências, essas descobertas paleontológicas são constantemente visadas pelo tráfico. Nos últimos anos, o tráfico de fósseis tem sido uma área de negócio muito rentável. Neste contexto, mercados internacionais ilegais atraem compradores e determinam valores exorbitantes para os exemplares. O preço e o interesse na compra de peças fósseis aumentam de acordo com a raridade e seu estado de preservação. Assim, a venda se torna muita atrativa e alguns indivíduos aproveitam desse fato para comercializarem materiais fósseis fraudados.

Dessa maneira, para garantir a autenticidade de achados fósseis que são devolvidos às instituições de pesquisa e museus, os autores do artigo realizaram tomografias computadorizadas nas peças. O principal material em análise foi um esqueleto de dinossauro do gênero Psittacosaurus do Cretáceo da China, proveniente da coleção do Museu Natural da Holanda, suspeito de se tratar de uma fraude. O fóssil estava em ótimo estado de conservação, com o crânio quase completo e preenchido de sedimentos. Com base no pressuposto da provável existência de componentes ósseos fossilizados no interior da massa sedimentar que preenchia o crânio do animal, o exemplar foi submetido a uma análise por tomografia computadorizada.

O exame de tomografia computadorizada produz imagens com alto nível de detalhes via radiação. Essas imagens geradas no computador pelos raios X podem focalizar especificamente no tecido ósseo. Após a tomografia, o crânio do dinossauro passou por uma análise do conteúdo intracraniano. Como resultado, o crânio de Psittacosaurus mostrou absorção não esperada aos raios X, os ossos deveriam ser facilmente visíveis nas imagens, dentro e ao redor do sedimento. Em vez disso, o material no interior do crânio era menos denso que um osso e relativamente homogêneo, sendo compatível com a densidade de terra não consolidada e cera. Portanto, os autores concluíram que o fóssil analisado tratava-se de uma fraude, com elementos não originais incorporados a ele.

A capacidade da tomografia computadoriza de diferenciar as densidades de absorção dos raios X pelos materiais permitiu que espécimes fósseis fossem analisados quanto a sua constituição. Assim, os autores do artigo demonstraram que esse tipo de exame aplicado aos fósseis pode ser uma técnica excelente para identificação de possíveis fraudes fósseis.

Artigo fonte: Rita, F.; Mateus, O. & Overbeeke, M. (2008). Tomografia Computorizada na Detecção de Fraudes em Fósseis. Acta Radiológica Portuguesa, 20 (80):83-84. <Clique aqui para acessar o artigo fonte>

Fonte e legenda da imagem de capa: (A) Crânio em vista superior e (B) Tomografia computadorizada do crânio. Imagens extraídas e modificadas do artigo fonte.

Descobertas da paleontologia no cenário brasileiro

16 de novembro de 2021

Por: Augusto Ventura da Silva

Na maioria dos campos de pesquisa é normal não pensar no Brasil como o centro das atenções, porém, o que poucos sabem é que o Brasil é muito importante quando se fala da paleontologia, grandes descobertas a respeito da história dos seres vivos, inclusive do ser humano, foram achadas em território Brasileiro. Vale ressaltar que quando o assunto é descoberta de fósseis, não se deve deixar de fora Peter Wilhelm Lund, que durante o século 19 fez grandes descobertas da história natural do nosso pais.

Nesse sentido, Peter W. Lund fez grandes descobertas, e é impossível destacar todas, por esse motivo, vai ser realçada as descobertas entre o período de 1836 a 1844. Inclusive, Charles Darwin citou o trabalho desse pesquisador várias vezes. Essas pesquisas, como a do Peter Lund, são importantes para fazerem conexões com tempos passados e descobrir o que ocorreu no passado até chegar ao presente, entender o que ocorreu naquela cidade, estado, pais, continente, ou até mesmo com o planeta.

Uma das grandes descobertas de Lund, foi o “homem de lagoa santa”, que incorporou ao conhecimento científico que haviam comunidades humanas há mais de 11 mil anos atrás no continente sul-americano, além de colocar o Brasil a frente em divulgação científica e cultural, mostrou que havia vida de seres humanos no continente muito antes de que os Portugueses acreditavam.

Artigo fonte: Paulo Henrique Martinez (2012) A nação pela pedra: coleções de paleontologia no Brasil, 1836-1844, HistóriaCiênciasSaúdeManguinhos, 19 (4). DOI: 10.1590/S0104-59702012000400004 <Clique aqui para acessar o artigo fonte>

Fonte e legenda da imagem de capa: Fóssil de mais de 11 mil anos encontrado por Peter Lund. Imagem extraída da Wikimedia Commons utilizado o termo de pesquisa: Homem de Lagoa Santa <link>.

E se em uma excursão escolar você descobrisse um fóssil de pinguim gigante? Veja o que aconteceu com crianças na Nova Zelândia

15 de novembro de 2021

Por: Victória Pereira

No verão de 2006, o Clube Naturalista Júnior de Hamilton reunia alunos e líderes em uma excursão para caçar fósseis no porto de Kawhia, na Nova Zelândia. Após andarem um pouco, os alunos avistaram o que parecia ser uma hélice enferrujada, mas após a análise dos especialistas, perceberam que haviam descoberto uma nova espécie de pinguim gigante, o qual viveu há cerca de 30 milhões de anos.

“É meio surreal saber que uma descoberta que fizemos quando crianças há tantos anos está contribuindo para a academia hoje”, disse Steffan Safey, que tinha 13 anos quando ele e seus amigos encontraram o fóssil, em um comunicado à imprenssa local.

A equipe de especialistas paleontólogos da Massey University e do Bruce Museum usaram técnicas de digitalização 3D para criar um modelo digital do pinguim gigante encontrado. Eles compararam seu modelo com espécies existentes em todo o mundo e descobriram que era uma nova espécie que existiu entre 27,3 e 34,6 milhões de anos atrás, quando a região estava ainda submersa. O fóssil de pinguim gigante, um dos espécimes mais completos até hoje, teria aproximadamente o tamanho de uma criança de 10 anos.

Embora o fóssil compartilhasse uma semelhança com outros encontrados na região, ele tinha pernas muito mais longas. A equipe decidiu nomear a nova espécie de Kairuku waewaeroa, que significa “pernas longas” na língua regional Maori.

“Essas pernas mais longas teriam tornado o pinguim muito mais alto do que outros Kairuku enquanto caminhava na terra, talvez cerca de 1,4 metros de altura, e podem ter influenciado a velocidade com que ele poderia nadar ou mergulhar mais fundo”, disse em um comunicado o autor do estudo Daniel Thomas, Paleontólogo da Massey University. “Foi um verdadeiro privilégio contribuir com a história deste incrível pinguim. Sabemos o quão importante este fóssil é para tantas pessoas.”

Em comparação, os pinguins-imperadores, que são os maiores pinguins vivos hoje, têm cerca de um metro de altura. Os pinguins gigantes que viveram há milhões de anos também eram consideravelmente mais magros do que os pinguins modernos.

Artigo fonte: Simone Giovanardi, Daniel T. Ksepka & Daniel B. Thomas (2021) A giant Oligocene fossil penguin from the North Island of New Zealand, Journal of Vertebrate Paleontology, DOI: 10.1080/02724634.2021.1953047 <Clique aqui para acessar o artigo fonte>

Fonte e legenda da imagem de capa: A. Desenho de linha do novo espécime; B. A foto do fóssil; C. Uma comparação esquelética e de tamanho da nova espécie de pinguim gigante, Kairuku waewaeroa, com um pinguim imperador, Aptenodytes forsteri. Imagem extraída do artigo fonte.

A geologia e paleontologia do Membro Taquaral no afloramento do Rio da Cabeça

24 de agosto de 2021

Por: Sofia Lara Afonso

A pesquisa realizada por Artur Chahud em 2020, publicada no volume 30 do periódico Estudos Geológicos, promovido pela Universidade Federal de Pernambuco, teve o objetivo de caracterizar de maneira tafonômica e paleontológica a base arenosa do Membro Taquaral, no afloramento do Rio da Cabeça. Esse afloramento é localizado na divisa entre os municípios de Rio Claro (SP) e Ipeúna (SP), tendo 4 metros de comprimento e pelo menos 2 metros de altura, situando-se na margem sul de um córrego afluente do Rio da Cabeça, em que se observam três camadas de estruturas e rochas diferenciadas.

Os pesquisadores coletaram escamas, dentes completos com poucas quebras e partes ósseas de peixes, além de aproximadamente vinte amostras de mão para o estudo de assinaturas tafonômicas. Foram encontrados no afloramento duas ordens de Chondrichthyes: Xenacanthiformes e Petalodontiformes, e uma de Actinopterygii: Palaeonisciformes (parafilético). Os Chondrichthyes são muito raros e pode-se concluir que o afloramento é composto principalmente de dentes e escamas de Palaeonisciformes.

Por mais que seja rara a presença de fósseis de Chondrichthyes, sua diversidade é grande de acordo com o número de espécies e grupos observados nos afloramentos da região e, aparentemente, pode ser maior que a de Palaeonisciformes. Isso acontece por que apesar da abundância de Palaeonisciformes, a identificação de espécies somente é possível em exemplares completos ou semi-completos, dada a baixa variação morfológica externa entre os diversos gêneros.

Os fósseis da base da Formação Irati sofreram desgaste superficial e quebras, o que dificulta a diferenciação, especialmente, entre dentes sigmoides e curvos e também a constatação de microtubérculos no fuste devido ao polimento causado pela abrasão, limitando a comparação.

Por fim, o estudo mostrou que provavelmente esse é um ambiente diferenciado de outras localidades próximas, uma vez que não foi visto, até o momento, a presença de Taquaralodus, fóssil mais abundante de Xenacanthiformes, encontrado em outros sítios fossilíferos da região.

Artigo fonte: CHAHUD, Artur. Geologia e Paleontologia do Membro Taquaral (Eopermiano) no afloramento do Rio da Cabeça, estado de São Paulo. Estudos Geológicos, [s. l.], v. 30, n. 1, p. 19-30, 2020. DOI: 10.18190/1980-8208/ <Clique aqui para acessar o artigo fonte>

Fonte e legenda da imagem de capa: Dentes de paleoniscideos em diferentes posições. Imagem extraída do artigo fonte. Escala igual a 1 mm.

Peixe ou tetrápode?

23 de agosto de 2021

Por: Luana Lara da Silva Xavier

Tetrápodes são vertebrados com origem evolutiva diretamente relacionada a diversas transformações ocorridas em peixes sarcopterígios (com nadadeiras lobadas). Um fóssil bem preservado de um animal com características intermediárias entre esses dois grupos foi encontrado no Território de Nunavut, no Canadá, ao sul da Ilha Ellesmere, por pesquisadores americanos. Esse material pode ajudar muito a aprofundar nos estudos acerca de como ocorreu essa transição peixe-tetrápode.

Atualmente, os Panderichthys são os ancestrais dos tetrápodes mais conhecidos e utilizados para aprofundar nos estudos sobre a origem desse grupo. Porém, essa espécie apresenta poucas sinapomorfias de tetrápodes, limitando as descobertas acerca das principais transformações que levaram a sua evolução, o que agora se torna possível com o novo fóssil encontrado, que foi denominado Tiktaalik (tic täl’ ik) – “grande peixe de água doce visto em águas rasas”- no idioma local.

Algumas características encontradas no Tiktaalik se diferenciam das encontradas em sarcopterígios primitivos, como mudanças na formação óssea e no modo de respiração, mas também de outros tetrápodes; como por exemplo dos Elpistostege, pela presença de escamas dorsais estreitamente sobrepostas; dos próprios Panderichthys, pela perda de algum ossos e por possuir um focinho mais longo; e de outros tetrápodes, como os Acanthostega, pela presença de lepidotriquia (escama modificada) nas nadadeiras peitorais e pélvicas. Por outro lado, Tiktaalik também apresenta características semelhantes a um ou dois desses grupos, além de narinas marginais e grandes pré-frontais, comuns aos três dos grupos mencionados. Essas características, além de várias outras descritas no artigo, interferem, inclusive, no modo de alimentação e locomoção desses animais.

Dessa forma, a descoberta do fóssil de Tiktaalik e de seus diversos caracteres intermediários nos sugere que a transição evolutiva estudada se deu em grande parte em águas rasas, com inúmeras morfologias se desenvolvendo paralelamente entre os tetrápodes e os sarcopterígios, se mostrando cada vez maior a proximidade evolutiva entre esses dois clados. O artigo demonstra, então, como a descoberta de novos fósseis pode nos ajudar a entender um pouco mais sobre espécies extintas e como elas influenciaram na origem das espécies viventes.

Artigo fonte: E. Daeschler, N. Shubin & F. Jenkins. (2006). A Devonian tetrapod-like fish and the evolution of the tetrapod body plan. Nature, v. 440, p. 757–763. Doi: 10.1038/nature04639 <Clique aqui para acessar o artigo fonte>

Fonte e legenda da imagem de capa: Imagem ilustrativa de Tiktaalik, apresentando seu rostro alongado, suas narinas marginais e escamas dorsais sobrepostas. Imagem extraída do Wiki Commons: Tiktaalik_NT_small. Autor: Nobu Tamura <Link>

Material didático em forma de kit voltado para a Paleontologia

22 de agosto de 2021

Por: Aline Couto Miranda

Um grupo de pesquisadores do Programa de Pós-Graduação em Educação para a Ciência da Universidade Estadual Paulista (UNESP), na Faculdade de Ciências, com o apoio do Instituto de Geociências da Universidade Federal do Pará propôs um kit de paleontologia para aulas práticas de Ciências voltadas para estudantes do Ensino Fundamental como material didático-instrucional. Este kit tem como objetivo ampliar o conhecimento dos alunos sobre a Paleontologia, bem como levá-los a compreender a relevância dos fósseis para a o esclarecimento da vida e do ambiente existentes no passado, interpretando e estudando os fósseis.

Dentro das ciências, o estudo da Paleontologia é mais bem desenvolvido do que em outras disciplinas como história e geografia dentro das escolas, uma vez que está ligado a temas como evolução, surgimento da Terra e tecnologias. Nota-se que o estudo dessa área permite que o tempo geológico, o clima, a fauna e a flora de tempos passados sejam investigados, contribuindo para os estudos e pesquisas dos dias atuais. Além disso, temas como consciência ambiental e desenvolvimento sustentável também podem ser trabalhados.

O material é composto por um kit de réplicas de fósseis e uma cartilha. Esta, possui 18 páginas contendo uma introdução com conceitos iniciais ao tema, desafios com textos e ilustrações, bem como informações gerais, além da resolução dos desafios no final.

O kit e a cartilha foram avaliados em atividades realizadas no laboratório de Ciências por estudantes do Ensino Fundamental do 6º ano da Escola Estadual Visconde de Mauá. Observou-se uma ótima aceitação por parte dos estudantes daquilo que foi proposto, houve colaboração entre eles para resolver os desafios, bem como muita curiosidade acerca do tema.

A mediação do professor durante a realização dos exercícios foi de suma importância para concretizar o aprendizado acerca do tema, de forma que a prática fluiu muito bem durante a aula. Concluiu-se diante dos resultados observados que o kit e a cartilha cumpriram os objetivos propostos e apresentam um grande potencial de aplicabilidade nas escolas.

Artigo fonte: Bergqvist, Lílian Paglarelli e Prestes, Stella Barbara Serodio. Kit paleontológico: um material didático com abordagem investigativa. Ciência & Educação (Bauru) [online]. 2014, v. 20, n. 2 [Acessado 23 Agosto 2021] , pp. 345-357. DOI: 10.1590/1516-73132014000200006. ISSN 1980-850X. <Clique aqui para acessar o artigo fonte>

Fonte e legenda da imagem de capa: Cartilha associada o kit paleontológico. Imagem extraída do artigo fonte. Foto: Lílian P. Bergqvist.

Maior espécie de tartaruga registrada habitava o Brasil

22 de agosto de 2021

Por: Lidiane Nishimoto

Os quelônios formam a ordem de répteis representados pelas tartarugas. De tamanhos variados, o grupo abrange animais que vão desde os 8 cm da tartaruga-salpicada (Chersobius signatus) aos mais de 2 m da tartaruga-de-couro (Dermochelys coriacea). A subordem Pleurodira é representada por tartarugas de água doce, conhecidas por esconder sua cabeça no casco dobrando o seu pescoço horizontalmente. No Brasil, a maior representante dessa subordem é a tartaruga-da-Amazônia (Podocnemis expansa), que pode alcançar os 90 cm.

Mas ela não foi a maior representante a andar por nossas terras. Recentemente um grupo de paleontólogos descreveu o maior indivíduo de Stupendemys geographicus já registrado, um outro espécime da subordem Pleurodira. Encontrado na Venezuela, sua carapaça é a mais completa registrada da espécie, medindo 2,86 m de comprimento. Um recorde não só na espécie mas na ordem de quelônios como um todo.

Reconstrução de S. geographicus comparado ao tamanho de um homem adulto. Crédito: Edwin-Alberto Cadena, Universidad del Rosario. Figura extraída do artigo fonte.

Até então, a maior carapaça encontrada era a da tartaruga marinha Archelon ischyros com 2,2 m de comprimento. E sua massa corporal não fica pra trás, estima-se que o indivíduo de S. geographicus contava com uma massa de 1145 kg quando vivo, mais que o dobro da maior tartaruga viva atualmente, a tartaruga-de-couro.

Segundo os fósseis já encontrados da espécie, acredita-se que ela se distribuía pela região da Amazônia, em países como o Brasil, Venezuela e Colômbia, há mais de 10 milhões de anos. Os pesquisadores estimam que seu tamanho grandioso se deve ao ambiente onde vivia, o famoso Sistema Pebas. Com abundância de ambientes aquáticos interligados, onde os animais podiam migrar facilmente, o Pebas era lar de muitos representantes da megafauna. A disponibilidade de recursos, combinada à facilidade de migração pode explicar seu porte avantajado.

Outra suposição é a da pressão adaptativa. Dividindo o ambiente com crocodilianos gigantescos, como o Gryposuchus spp., conhecidos pelo porte de até 10 m, existem evidências da interação direta entre essas feras e o S. geographicus. Foram encontradas marcas de mordidas de crocodilianos em fósseis desta tartaruga e, inclusive na maior carapaça encontrada, havia um dente encrustado em sua superfície ventral.

Essa pressão adaptativa, combinada à elevação dos Andes, podem ter sido as causas da extinção da espécie. A elevação dos Andes interrompeu o fluxo de água recebido pelo Sistema Pebas, mudando sua configuração e impactando suas populações. Mas, apesar disso, ainda existem parentes desses gigantes na Amazônia. Os tracajás ainda habitam o ambiente uma vez conquistado por gigantescos quelônios.

Artigo fonte: Cadena, E. A.; Scheyer, T. M.; Carrillo-Briceño, J. D.; Sánchez, R.; Aguilera-Socorro, O. A.; Vanegas, A.; Pardo, M.; Hansen D. M.; Sánchez-Villagra, M. R. (2020). The anatomy, paleobiology, and evolutionary relationships of the largest extinct side-necked turtle. Science Advances, v. 6, n. 7., eaay4593 DOI: 10.1126/sciadv.aay4593 <Clique aqui para acessar o artigo fonte>

Fonte e legenda da imagem de capa: Reconstrução de S. geographicus no Sistema Pebas. Crédito: Jaime Chirinos.

Bioestratigrafia de Nanofósseis calcários da Bacia do Baixo Tejo em Portugal*

17 de agosto de 2021

Por: Antonio Moncorvo Mascarenhas

*Texto publicado também no espaço biótico <confira aqui>

Um estudo recente publicado na Revista Brasileira de Paleontologia demonstrou a correlação histórica entre diferentes rochas sedimentares na bacia do rio Tejo em Portugal a partir da analise de nanofósseis calcários, assim como apresentou a taxonomia de distintos grupos fósseis encontrados na região.

Entendemos por nanofósseis calcários os fósseis de organismos predominantemente planctônicos menores que 30 μm (micrometros) compostos predominantemente por carbonato de cálcio que são subdivididos em nanolitos e cocólitos. Os cocólitos possuem forma discóide e formam envoltórios em algas unicelulares planctônicas marinhas. Enquanto isso os nanolitos possuem formas distintas e sua origem taxonômica ainda não é bastante exata. Isso se dá pelo fato de os nanolitos serem em sua maioria grupos extintos, o que dificulta a busca de parentesco com espécies atuais. O trabalho em questão utilizou dos nanofósseis calcários como fonte de estudo já que estes auxiliam nas interpretações bioestratigráficas referentes à bacia do rio Tejo, ou seja, atuam como bons fósseis guias (organismos abundantes com ampla distribuição, fácil identificação e grande capacidade de preservação). A bioestratigrafia, como já citado, consiste basicamente em uma área de estudo que busca analisar e medir a idade de rochas sedimentares através da analise dos fósseis encontrados em suas camadas.

Para que seja possível determinar o perfil estratigráfico a partir da analise de fósseis é importante conhecer a origem geológica do local de estudo. No caso da bacia do baixo Tejo sua origem é datada da época do Paleoceno (65M de anos atrás) quando ocorreram reativações de antigas fraturas que apenas foram preenchidas na época do Eoceno (57M de anos atrás) por uma grande quantidade de sedimentos advindos de leques aluviais. Com o inicio do mioceno (23M de anos atrás) ocorreu a invasão da bacia pelo Oceano Atlântico que também foi responsável por carregar diferentes sedimentos. Esses sedimentos que carregavam grande quantidade de macro e microfósseis, por sua vez, se juntaram com os sedimentos que lá já estavam. Os objetos de estudo desse trabalho são justamente os nanofósseis do mioceno.

A partir destes conhecimentos prévios sobre a formação geológica da região iniciou-se o trabalho dos pesquisadores João Paulo Lemos e Geize Oliveira da Universidade Federal do Oeste do Pará. Para tal, os cientistas coletaram 28 amostras espaçadas de 50cm a 80cm a procura de nanofósseis calcários, porém, infelizmente os matérias de estudo foram encontrados em apenas 4 das 28 amostras. Essas 4 amostras foram identificadas e a partir disso foi montado um perfil estratigráfico do local, como é possível observar na imagem abaixo. Na direita estão as 4 amostras com nanofósseis enquanto na esquerda está o perfil estratigráfico indicando onde cada uma das amostras se encontra em profundidade.

Identificar corretamente as espécies é uma tarefa importantíssima para a realização da datação bioestratigráfca uma vez que divisão de biozonas de intervalo depende disso. Nessas quatro amostras foram identificadas ao todo 19 espécies diferentes de nanofósseis (14 cocólitos, 4 nanolitos e 1 dinoflagelado calcário) que estão apresentados na imagem abaixo:

Espécies identificadas neste estudo: A, Helicosphaera ampliaperta; B, Helicosphaera carteri; C, Helicosphaera mediterranea; D, Pontosphaera multipora; E, Pontosphaera japonica; F, Cyclicargolithus floridanus; G, Reticulofenestra lockeri; H, Reticulofenestra minuta; I–J, Reticulofenestra haqii; K, Reticulofenestra producta; L, Reticulofenestra spp.; M–N, Coccolithus pelagicus; O,Calcidiscus spp.; P, Umbilicosphaera jafari; Q, Discoaster deflandrei; R, Discoaster druggii; S–V, Discoaster spp.; X, Sphenolithus moriformis; Y, Thoracosphaera spp.

Foi determinado o uso de biozonas já propostas em literaturas aceitas internacionalmente para a análise das espécies encontradas como é possível observar na tabela abaixo

As colunas com contorno vermelho indicam as biozonas determinadas enquanto as barras pretas contornadas de verde indicam o período que aquela espécie (cujo nome se encontra acima) viveu. Por exemplo, espécie Discoaster druggii surgiu no inicio de NN2/CN1 e se extinguiu ao final de NN3/CN2. Uma afirmação que podemos fazer é que as espécies encontradas viveram parte de sua existência no Burdigaliano Inferior/médio (região amarela circulada de azul) e essa é a grande conclusão desse trabalho. É interessante constatar que esse dado coincide com outros dados determinados por outros estudos na região.

Artigo fonte: Lemos, J. P. da S., & Oliveira, G. C. C. A. (2021). Nanofósseis calcários do Mioceno da Bacia do Baixo Tejo, Portugal. Revista Brasileira De Paleontologia, 24(1), 47-61. https://doi.org/10.4072/rbp.2021.1.04 <Clique aqui para acessar o artigo fonte>

Links para referências complementares:

https://teses.usp.br/teses/disponiveis/21/21133/tde-06112007- 112950/publico/NanofosseisCalcarios.pdf

https://www.mikrotax.org/Nannotax3/

http://www.cprm.gov.br/publique/CPRM-Divulga/Canal-Escola/Breve-Historia-da-Terra1094.html

https://www.paleontologianasaladeaula.com

Fonte das imagens: Artigo fonte.

Paleontologia em investigações criminais

10 de agosto de 2021

Por: Thana Lanna

Você sabia que a paleontologia pode ser aplicada em investigações criminais? A bioestratigrafia, análise de sedimentos e fácies, tafonomia, icnologia e prática de escavação são ferramentas básicas na educação e no treinamento de paleontólogos e podem ter aplicações na área forense. Relatarei aqui alguns casos nos quais foram utilizadas essas ferramentas que ajudaram a investigação.

Durante a Segunda Guerra Mundial o Japão enviou bombas de papel contendo areia para os Estados Unidos. Alguns destes sacos de areia foram encontrados e analisados para saberem ao certo de onde tinham sido enviadas as bombas. O sedimento era rico em diatomáceas, foraminíferos e moluscos e as analises revelaram que aquelas amostras não poderiam ser da América do Norte. A presença das diatomáceas indicaram que o local de origem deveria se tratar de uma praia, porém não haviam corais, o que restringiu a busca a uma latitude de 35° norte do Japão. Foram analisados então os foraminíferos que eram equivalentes aqueles presentes em Ichinomiya. Foi revelado depois que as bombas foram lançadas de 3 locais diferentes, inclusive Ichinomiya, como o material analisado foi de apenas um local não foi possível identificar os outros locais de origem das bombas através das analises do material.

Na investigação criminal sobre um garoto de 10 anos da Califórnia que foi sequestrado e depois foi solto em troca de resgate, o carro do sequestrador foi encontrado e analisado, encontraram uma pegada em um dos tapetes que revelou uma mistura de diatomáceas e fósseis marinhos e de água doce. A pesquisa mostrou que essa mistura era resultante de uma empresa que coletou as diatomáceas de água marinha em uma pedreira na Califórnia, depois a pedreira foi abandonada e por causa de inundações houve a formação de um lago que resultou em diatomáceas de água doce, por isso a mistura. Graças a esses microorganismos foi possível identificar o local onde o garoto foi mantido refém, e tudo isso graças ao trabalho de um paleontólogo que conseguiu fazer a identificação taxonômica correta das diatomáceas, o sequestrador foi condenado a prisão perpétua.

Em uma outra investigação criminal, no caso de estupro e assassinato de duas garotas na Inglaterra, foram utilizadas analises de um fragmento de uma formação geológica bem conhecida na região, que foi encontrada no carro do suspeito. As evidências de campo foram combinadas com bioestratigrafia para caracterizar os depósitos encontrados embaixo do carro do suspeito, e compará-los com a faixa de idade da formação geológica encontrada no local de depósito dos corpos. O carro foi associado com o local onde encontraram os cadáveres. Neste caso, assim como acontece em alguns outros, o paleontologista responsável pela análise disse que é difícil dizer com certeza que este material é único daquela região, e que o material encontrado no carro do suspeito só poderia ter vindo do local do depósito dos corpos e de nenhum outro lugar, apesar dele acreditar ter sido esse o caso. Este é o problema com a perícia paleontológica, normalmente é difícil dar certeza das suas respostas.

A paleontologia forense é muito utilizada em casos de crimes contra patrimonio cultural que estão cada vez mais frequentes já que o numero de colecionadores e pessoas inteeressadas em fósseis vem crescendo cada vez mais.

Em 2008 houve um caso de uma coleção ilegal de fósseis para o qual juiz nomeou consultores (paleontólogos) para responderem perguntas sobre o crime. As perguntas eram sobre se eram fósseis reais, qual o local de origem e qual o valor, isso para cada espécime. Claro que é extremamente difícil dizer com certeza de onde origina cada espécime. Outro problema era sobre a idade dos fósseis já que os paleontólogos utilizam períodos e épocas para medir a idade de um fóssil com nomes que não são comuns para os leigos neste assunto. E ainda tinha o valor dos fósseis que dependem de vários fatores como estado de conservação, raridade e demanda de mercado, um fóssil pode ser valioso para cientistas e não para colecionadores, e também ao contrário. As respostas foram então respondidas com base na experiência dos peritos.

Com base na experiência, treinamento, conhecimento e ferramentas úteis, a paleontologia pode ser utilizada para ajudar em investigações, mas ainda enfrenta diversas dificuldades para isso, como a dificuldade de comunicação, ter que usar linguagem adequada para o entendimento de todos, ter de simplificar suas explicações e são muitas vezes subestimados já que não podem dar certeza de muitas coisas, e sim basear na experiência.

Artigo fonte: E. Sacchi ;U. Nicosia (2013).Forensic Paleontology: A Tool for “Intelligence”and Investigation. J Forensic Sci, May 2013, Vol. 58, No. 3. DOI: 10.1111/1556-4029.12084 <Clique aqui para acessar o artigo fonte>

Fonte e legenda da imagem de capa: Faixa de cena de crime para ilustrar que estamos falando de investigações criminais. Extraída do WikiMedia. Autoria de Kat Wilcox <link>.

Fósseis de marsupiais encontrados no planalto brasileiro dão pistas sobre a última era glacial

12 de julho de 2021

Por: Guilherme Passos Avelar

Pesquisadores da UFRJ e UFPE encontraram 57 fragmentos ósseos em gruta calcária no estado do Tocantins.

Os restos fósseis do gênero Didelphidae foram coletados de um bloco de rocha calcária com idade estimada de 25 mil anos em um depósito na parede da sala principal da caverna de calcário, Gruta dos Moura, em Aurora de Tocantins (12 ° 42 ’47 “S e 46 ° 24′ 28” W), estado do Tocantins, norte do Brasil. Além dos fragmentos de ossos de didelfídeos, foi encontrado também um fragmento ósseo de uma espécie extinta de porco-do-mato (Catagonus stenocephalus). A Gruta tem grande desenvolvimento vertical e horizontal, os níveis superiores apresentam galerias com numerosos espeleotemas, mais conhecidos como estalactites e estalagmites. Os fósseis foram encontrados nos níveis inferiores que consistem em passagens estreitas que levam a água para o lençol freático e salas com poucos espeleotemas.

Outros estudos realizados na região que incluem incursões realizadas à Gruta do Urso, localizada nas proximidades, apresentam fauna fóssil da mesma idade (25 a 22 mil anos), e que sugerem assim como na Gruta dos Moura uma íntima associação com ambientes abertos e secos com alta abundância de fontes de água. Dentre a fauna, destacam-se mamíferos de regiões de pampa, capivaras, crocodilos e sucuris, além disso os porcos-do-mato do gênero Catagonus apresentavam características como rostro alongado, posição das orbitas oculares e redução dos dedos laterais que inferem que o animal caminhava por grandes áreas. Além disso, um dos espécimes encontrados pertence a um didelfídeo já extinto, do gênero Sairadelphys. Os estudos corroboram com a teoria da ultima do Último Máximo Glacial que se refere ao período de maior extensão dos mantos de gelo da última era glacial tendo em vista as condições climáticas e ambientais atuais da região, que são muito diferentes daquelas encontradas a 25 mil anos.

Artigo fonte: Vila Nova P, Avilla LS, Oliveira EV, 2015. Didelphidae marsupials (Mammalia, Didelphimorphia) from the Late Pleistocene deposit of the Gruta dos Moura Cave, northern Brazil. Anais da Academia Brasileira de Ciências v. 87 (01), p. 193-208. Doi: 10.1590/0001-3765201520140229 <Clique aqui para acessar o artigo fonte>

Fonte e legenda da imagem de capa: Ilustração da Era Glacial. Extraída do blog Iseu2021 <link>.