Cingulados quaternários da Bahia: novos dados sobre distribuição e saúde paleobiológica

Escrito em: 23 de outubro de 2025

Por: Daniela Reis Passos Sana Morais

Foram descritos e analisados novos materiais encontrados no estado da Bahia que pertencem a vários cingulados quaternários. Esses materiais correspondem a uma carapaça parcial e 211 osteodermos, placas ósseas que compõem a carapaça desses animais, sendo descritos por um estudo publicado em 2023 que revelou novos fósseis de cingulados quaternários na Bahia, incluindo o primeiro registro do gênero Neuryurus no estado. Em especial, foi descrito um relevante material exoesquelético e o primeiro registro  do gênero Neuryurus sp. para o estado da Bahia.

E o que são os cingulados? Eles são uma ordem de mamíferos placentários encontrados exclusivamente nas Américas que, no presente, são representados pelos tatus modernos. Entretanto, no passado, sua diversidade era bem maior, incluindo espécies de diversas famílias que hoje se encontram extintas. Esses animais são caracterizados por sua carapaça dorsal usada principalmente para defesa. Essas placas constituem o registro paleontológico mais comum desses animais e sua morfologia é de extrema importância para identificação de espécies.

Já a paleopatologia é o estudo das doenças que afetam os fósseis. Por meio dela foi possível obter informações valiosas sobre como era a vida desses animais fossilizados através do estudo e da interpretação das lesões e de seus possíveis causadores, as causas paleopatológicas podem ser feitas por diversos organismos, como pulgas, fungos, bactérias e outros animais da mesma espécie em brigas e disputas.

Os espécimes descritos neste estudo vieram de sete depósitos de tanque e cavernas da Bahia, localizados nos municípios de Guanambi, Ourolândia, Santaluz e entre a Serra do Ramalho e Carinhanha. Para estudá-los, foram feitas análises macro e microscópicas, sendo realizadas interpretações e diagnósticos paleopatológicos por meio de comparações com casos documentados na literatura existente. Para isso, foram utilizados um microscópio digital para analisar as lesões e um software específico para fornecer informações adicionais mais detalhadas sobre as alterações observadas. 

Por meio da análise dessas amostras foi possível não só encontrar o primeiro registro de animal do gênero Neuryurus no estado da Bahia, mas também ampliar os registros de distribuição geográfica de diversas espécies de cingulados e obter novas evidências de parasitismo e outras lesões nos osteodermos destes animais. Entre as espécies descritas e analisadas estão: Pachyarmatherium brasiliense; Propraopus sulcatus; Tolypeutes cf. tricinctus; Glyptotherium sp.; Neuryurus sp.; Panochthus sp.; Hoplophorus cf. euphractus; Pampatherium humboldti e Holmesina paulacoutoi. Dentre essas espécies, algumas necessitam de estudos mais detalhados de comparação com as respectivas espécies-tipo para confirmar a hipótese de novos registros de distribuição geográfica.

Ademais, as alterações paleopatológicas encontradas nesses osteodermos apresentam evidências de terem sido produzidas durante a vida desses animais e indicam ser lesões causadas por pulgas, tendo em vista que a morfologia dessas lesões é semelhante ao que é observado no parasitismo de pulgas. Além disso, outras lesões encontradas possivelmente estão associadas a infecções causadas por microrganismos oportunistas, indicando que as pulgas não eram o único problema dos cingulados. 

Sendo assim, esse estudo foi de extrema relevância tendo em vista que, além de ampliar o conhecimento existente sobre a distribuição de diversas espécies de cingulados no estado da Bahia, ele também permitiu ressaltar as relações desarmônicas que existiam entre estes animais e seus parasitas, o que nos fornece mais informações sobre como era a vida deste importante grupo pré-histórico.

Texto fonte: PALES, Letícia Francielle Moreira; PORPINO, Kleberson de Oliveira; SCHERER, Carolina Saldanha (2023). New exoskeletal material from Bahia provides new evidence of geographic distribution and paleopathology for Quaternary cingulates. Revista Brasileira de Paleontologia, v. 26, n. 4, p. 315–329. Doi: 10.4072/rbp.2023.4.05.

Disponível em: https://sbpbrasil.org/publications/index.php/rbp/article/view/389/198.

Fonte e legenda da imagem de capa: 1- Fragmentos de osteodermos analisados no estudo 2- Carapaça parcial de Panochthus sp. analisada no estudo 3- Pachyarmatherium brasiliense, exemplo de cingulado.

Disponível em: https://felipe-elias-portfolio.blogspot.com/2010/11/pachyarmatherium-brasiliense-2009.html.


Texto revisado por: Luís Filipe Cardoso Queiroz, Sandro Ferreira de Oliveira e Alexandre Liparini.

Osteologia craniana de Pampaphoneus biccai (Anteosauridae: Syodontinae)

Escrito em: 27 de outubro de 2025

Por: Isaac Rafael Freitas Borges

O Pampaphoneus biccai foi um predador terrestre da América do Sul que viveu no período Permiano, há cerca de 265 milhões de anos atrás, quando a terra era dominada por Sinapsídeos, parentes distantes dos mamíferos atuais. Seus fósseis foram encontrados no Rio Grande do Sul, na Formação Rio do Rasto, uma região que já revelou diversos vestígios importantes da vida pré-histórica.

Até pouco tempo atrás, essa espécie era conhecida somente por um crânio incompleto, porém, um achado de um novo exemplar de Pampaphoneus biccai com um crânio bem preservado e ossos isolados de outras partes do corpo nos revelam novas informações sobre este animal. Este novo fóssil, identificado como UNIPAMPA 759, é maior e mais detalhado que o primeiro indivíduo encontrado, permitindo estudar a anatomia do animal com muito mais precisão.

O crânio de P. biccai chama atenção por seu tamanho e por sua estrutura robusta, possuindo uma dentição muito desenvolvida e fortes músculos mandibulares. Comparações com espécies semelhantes da Rússia demonstraram que muitas das diferenças antes utilizadas para separá-las podem, na verdade, estar ligadas ao crescimento e à idade dos indivíduos, e não à diferença entre espécies. Ainda assim, o novo estudo identificou traços exclusivos, como certas cristas e depressões cranianas, que confirmam que o P. biccai era de fato uma espécie distinta das demais.

As novas descobertas também ajudaram a entender melhor a posição evolutiva do Pampaphoneus biccai. Ele pertence ao grupo dos Anteossaurídeos, que inclui alguns dos primeiros grandes carnívoros da Terra. A análise demonstrou que essa espécie brasileira é um dos membros mais antigos do grupo, indicando que havia uma conexão entre as faunas do Brasil, da Rússia e da África do Sul durante o Permiano.

Texto fonte: Mateus A Costa Santos, Voltaire D Paes Neto, Cesar L Schultz, Juan Cisneros, Stephanie E Pierce, Felipe L Pinheiro, Cranial osteology of the Brazilian dinocephalian Pampaphoneus biccai (Anteosauridae: Syodontinae), Zoological Journal of the Linnean Society, Volume 199, Issue 4, December 2023, Pages 1034–1058.

Disponível em: https://www.pnas.org/doi/full/10.1073/pnas.1115975109

DOI: https://doi.org/10.1073/pnas.1115975109 

Fonte e legenda da imagem de capa: Reconstrução artística do primeiro crânio completo encontrado de Pampaphoneus biccai

Disponível em: https://www.pnas.org/doi/full/10.1073/pnas.1115975109


Texto revisado por: Lucas Ferreira Bispo da Silva e Alexandre Liparini.

A história do pequeno Parvosuchus aurelioi

Escrito em: Outubro de 2025

Por: Gabriela

Para iniciar essa história, vamos imaginar o lugar onde atualmente se localiza o Rio Grande do Sul. Porém, não como ele é hoje, mas como ele era há 237 milhões de anos. Difícil, certo? Então, vamos pensar num lugar onde os dinossauros ainda não existiam, muito menos os gaúchos. As florestas eram úmidas, haviam muitos rios, e uma pequena criatura vagava pelo ambiente: o Parvosuchus aurelioi. Esse ser era um réptil pré-dinossauriano, veloz e caçador.

Mas como se sabe da existência dessa criatura atualmente? Essa espécie ainda existe? Um médico apaixonado por paleontologia chamado Pedro Lucas Porcela Aurélio fez uma grande descoberta, descoberta essa que mudou informações da paleontologia brasileira. O médico encontrou fósseis nas rochas de Paraíso do Sul. Esses fósseis eram fragmentos de ossos que demonstraram o primeiro representante brasileiro do grupo de répteis Gracilisuchidae. Esse grupo é uma família extinta de arcossauros suchianos. 

Esse e outros grupos de arcossauros dominavam os ecossistemas terrestres antes da existência dos dinossauros. Alguns indivíduos eram imensos, mas o protagonista dessa história, o Parvosuchus aurelioi tinha aproximadamente um metro de comprimento. Ele tinha dentes afiados em um crânio de apenas 14 centímetros.
Como a união faz a força, o paleontólogo Rodrigo T. Muller, autor do artigo A new small-sized predatory pseudosuchian archosaur from the Middle-Late Triassic of Southern Brazil (Um novo arcossauro pseudosúquio predador de pequeno porte do Triássico Médio-Superior do sul do Brasil), publicado em 2024 na revista Scientific Reports, foi quem analisou o fóssil entregue pelo Pedro ao Centro de apoio à Pesquisa Paleontológica da Quarta Colônia (CAPPA/UFSM) e fez as comparações necessárias. É raro ter esqueletos quase completos de espécies desse porte, mas esse possuía crânio, patas traseiras, bacia e as vértebras. 

Mas com o que ele comparou? Esse pesquisador comparou esse fóssil brasileiro com fósseis da China e Argentina concluindo que ele era então do grupo Gracilisuchidae, que até então não tinha sido documentado no Brasil. O nome Parvosuchus aurelioi vem do latim parvus (pequeno), suchus (crocodilo), com uma homenagem ao Pedro Aurélio, que descobriu o material. 

E como são feitas essas comparações? Foram feitas análises filogenéticas (métodos para inferir relações evolutivas), com uso de programas computacionais. Com isso, nosso pequeno protagonista ganhou um destaque: uma nova espécie! Esse carnívoro viveu num supercontinente da Terra que nomeamos como Pangeia, durante o período do Triássico, onde todos os continentes estavam unidos. Assim, o pequeno Parvosuchus aurelioi era um viajante que não conhecia fronteiras. 

Essa descoberta mostra o poder da ciência e da colaboração entre pesquisadores e a comunidade local. Juntos, eles mudaram o que se sabia sobre os répteis pré-dinossaurianos no Brasil. Essa história mostra como a paleontologia no Brasil pode revelar cada vez mais sobre a vida que foi escondida entre as rochas e sedimentos, reconstruindo a realidade antes dos dinossauros, dando relevância às pequenas criaturas carnívoras que também moldaram o mundo que conhecemos hoje. 

Então, o Parvosuchus aurelioi pode ajudar a paleontologia a compreender melhor a transição entre os répteis primitivos e os grandes predadores que estavam pelos ecossistemas terrestres antes dos famosos dinossauros surgirem.

Texto fonte: Müller, R. T. (2024). A new small-sized predatory pseudosuchian archosaur from the Middle-Late Triassic of Southern Brazil. Scientific Reports, . 14, n. 1, p. 12706, Doi:10.1038/s41598-024-63313-3.

Disponível em: https://www.nature.com/articles/s41598-024-63313-3.

DOI: 10.1038/s41598-024-63313-3.

Fonte e legenda da imagem de capa: Representação artística de uma paisagem do Triássico Médio-Superior do sul do Brasil. (a) Um grande Prestosuchus chiniquensis se alimenta da carcaça de um dicinodonte enquanto indivíduos de Parvosuchus aurelioi gen. et sp. nov. competem por restos. (b) e (c) mostram detalhes de indivíduos de Parvosuchus aurelioi gen. et sp. nov. Ilustração de Matheus Fernandes.

Disponível em: https://www.nature.com/articles/s41598-024-63313-3.


Texto revisado por: Natália Ferreira de Freitas Medeiros e Alexandre Liparini.

Biofilme fóssil: será uma possível sobrevivência de biomoléculas em fósseis do Pleistoceno?

Escrito em: 27 de outubro de 2025

Por: Daniela Luciana Pereira Antônio

Pesquisadores brasileiros podem ter encontrado biofilme fóssil (estruturas formadas pela secreção de substâncias gelatinosas por colônias de bactérias e algas) em dentes bem preservados de Tayassu (Porco-do-mato) e Smilodon populator (Tigre-dentes-de-sabre) do Pleistoceno. Os achados são de uma caverna do semiárido brasileiro, próximo ao Parque Nacional da Serra da Capivara, no estado do Piauí.

O biofilme se trata de uma comunidade complexa de microrganismos que ficam aderidos em superfícies e envolvidos por uma rede de biomoléculas, como carboidratos, lipídios e proteínas. Devido a isso, o biofilme confere resistência e proteção a esses microrganismos quando estão em condições extremas de temperatura, pH, salinidade, pressão, radiação e escassez de nutrientes. No contexto dos fósseis, essas características são muito importantes na preservação de plantas, tecidos moles e até embriões fósseis.

O grande questionamento do estudo é entender se essa composição orgânica preservada vem dos organismos fósseis ou se está relacionada ao processo de soterramento e fossilização dos restos orgânicos, se caracterizando como biomoléculas de um biofilme degradado aderido ao fóssil.

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Caminhando entre continentes

Escrito em: 16 de abril de 2025

Por: Maria Eduarda Damasceno Santos

Que tal uma caminhada do Brasil até… Camarões?

Mas isso é possível? Camarões não fica no continente africano, separado do Brasil por um enorme oceano?

Tudo é possível, desde que tenhamos uma máquina do tempo! Vamos voltar atrás, há mais ou menos 100 milhões de anos. Agora estamos no período Cretáceo, em um planeta bem diferente do atual, habitado pelos celebres dinossauros! Nesse momento, um em particular nos chama atenção: vemos andando por uma estrada enlameada, um bicho engraçado, meio dinossauro meio pássaro, coberto de penas, com os braços em forma de asa, uma longa cauda, bico e pés de galinha. Engraçado como um dinossauro pode parecer uma ave atual… Além de sua aparência incomum, nada muito diferente do esperado, né? Um dinossauro andando.

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Ovos de vermes Pré-Históricos encontrados na Espanha, o que isso nos diz?

Escrito em: 10 de outubro de 2025

Por: Diego de Souza Fagundes

Atualmente, diversos vermes afligem as populações humanas, causando diversas doenças intestinais, como a ascaridíase (lombriga), a teníase (solitária) e a esquistossomose (barriga d’água). Essas patologias estão fortemente associadas ao estilo de vida e hábitos alimentares que potencializam as chances de manutenção dessas parasitoses nos seres humanos.

No entanto, levantamentos feitos em pesquisas paleontológicas mostram que animais que viveram há milhões de anos também eram acometidos por esses vermes. Tais evidências já foram observadas em diversos fósseis, como nos localizados em Las Hoyas, perto de Cuenca, Espanha, cujos coprólitos encontrados neste local são vestígios de grande importância para as análises de paleoecologia e paleoparasitologia. Os coprólitos são icnofósseis (registros indiretos de atividade biológica) formados a partir do processo de fossilização das fezes de animais que viveram em nosso planeta.

Las Hoyas compreendiam regiões lacustres no período Cretáceo, e por essa e outras características – como a composição de microrganismos presentes nestes locais -, diversos fósseis foram formados e preservados na região, tornando-a especialmente rica em registros fósseis.

Os coprólitos investigados no artigo “Helminth eggs from early cretaceous faeces” (Ovos de helmintos de fezes do início do Cretáceo), possivelmente pertencem a dois grupos distintos – peixes e répteis – devido aos diferentes formatos. Nessas fezes fossilizadas, foram encontrados ovos de vermes muito semelhantes aos que infectam os humanos atualmente.

A diversidade de ovos de helmintos encontrados nas fezes pré-históricas em La Hoyas revela muito sobre os hábitos alimentares dos animais que os produziram. Isso é possível pois, atualmente, sabe-se que essas parasitoses são transmitidas principalmente por via fecal-oral, ou seja, o animal adquire o parasita e posteriormente o elimina nas fezes, finalizando o seu ciclo em um de seus hospedeiros. Mas outro fator muito importante é a plasticidade dos hospedeiros que esses vermes apresentam. Normalmente tais vermes possuem pelo menos dois hospedeiros, como ocorre com o causador da esquistossomose, que tem o ser humano como hospedeiro definitivo (onde o verme se reproduz) e o caramujo como hospedeiro intermediário (onde o verme se desenvolve). E esse mesmo perfil de parasitismo múltiplo também é identificado em alguns dos ovos encontrados nos coprólitos.

Os pesquisadores dividiram os ovos em 3 grupos distintos, baseados na morfologia dos ovos, comparando-os com vermes morfologicamente aparentados ainda existentes, bem como nos perfis reprodutivos desses supostos parasitos, tomando como referência os grupos mais próximos que vivem atualmente. Os ovos identificados no Grupo A possivelmente pertencem a vermes platelmintos, ou seja, vermes planos e achatados, enquanto os ovos dos Grupos B e C possivelmente correspondem a vermes nematoides, isto é, vermes de corpo cilíndrico. A partir dessas observações, foi possível inferir o ciclo de vida desses parasitos: onde os ovos do Grupo A (platelmintos) possivelmente possuem um ciclo de vida mais complexo, passando por pelo menos três hospedeiros; os do Grupo B possuem um ciclo que contempla pelo menos dois hospedeiros, e os do Grupo C que, possuem um ciclo que envolve no mínimo, um hospedeiro. 

Essas evidências permitem inferir aspectos importantes sobre a biodiversidade e as interações ecológicas que existiam dos ambientes lacustres de Las Hoyas durante o Cretáceo Inferior, contribuindo para a compreensão da complexidade ecológica dos ecossistemas do Cretáceo. 

Texto fonte: Sandra Barrios-de Pedro, Antonio Osuna & Ángela D. Buscalioni (2020). Helminth eggs from early cretaceous faeces. Nature, v.1, p8. DOI:10.1038/s41598-020-75757-4.

Disponível em: https://www.nature.com/articles/s41598-020-75757-4.

Fonte e legenda da imagem de capa: Vermes nematódeos responsáveis por diversas doenças intestinais de importância parasitológica.

Disponível em: commons.wikimedia.org Autor : Heiti Paves.


Texto revisado por: Eric Issao Inamura e Alexandre Liparini.

Gondwanax paraisensis: O réptil brasileiro que ajuda a contar a história dos dinossauros

Escrito em: 22 de outubro de 2025

Por: Ana Júlia Marinho

Pesquisadores brasileiros revelam um fóssil que está mudando o que sabemos sobre a origem dos dinossauros: o Gondwanax paraisensis, um réptil encontrado no Sul do Brasil que viveu há 237 milhões de anos, no Período Triássico. O fóssil encontrado é um dos “silesaurídeos” mais antigos do mundo e um dos precursores de dinossauros mais antigos da América do Sul. Os silesaurídeos são como “primos” dos dinossauros, sendo fundamentais para entendermos a evolução da linhagem que daria origem a eles. 

 O nome Gondwanax significa “senhor do Gondwana”, em referência ao supercontinente que existia na época e ao domínio que a linhagem dos dinossauros alcançaria milhões de anos depois. Mas o que torna este “senhor” tão especial?

 A grande surpresa está na anatomia do animal. O fóssil, estudado pelo paleontólogo Rodrigo Temp Müller da UFSM, revelou que este réptil já possuía três vértebras sacrais, que são os ossos que ligam a coluna vertebral à bacia. Embora pareça um detalhe técnico, essa característica é crucial: essa característica, que garante mais suporte e estabilidade, era considerada uma ‘inovação’ dos dinossauros mais desenvolvidos. Encontrar essa estrutura em um ancestral tão antigo sugere que a evolução da locomoção na linhagem dos dinossauros foi mais complexa e aconteceu mais cedo do que se imaginava.

 Outra novidade é que o Gondwanax é a evidência mais antiga de que dois tipos diferentes desses “primos dos dinossauros” conviviam no mesmo local na América do Sul. Essa descoberta pôde ser feita a partir da análise da combinação de características nos ossos da perna. O fêmur do Gondwanax tem particularidades que o distinguem de outros silesaurídeos conhecidos, indicando um modo de andar e correr único. Essa coexistência em Paraíso do Sul (RS) mostra que, mesmo em seus estágios iniciais, os ancestrais dos dinossauros já haviam se dividido em nichos ecológicos distintos, ou seja, eles viviam lado a lado, mas com hábitos diferentes. 

 Em resumo, o Gondwanax não é apenas um novo fóssil descoberto, mas também um projeto que desafia a ciência a questionar os modelos evolutivos já estabelecidos. A descoberta consolida a pesquisa brasileira como referência mundial e reforça a Formação Santa Maria como um dos locais mais importantes para decifrar as complexas origens da vida pré-histórica.

Texto fonte: Müller, R.T. (2025). A new “silesaurid” from the oldest dinosauromorph-bearing beds of South America provides insights into the early evolution of bird-line archosaurs. Gondwana Research, v. 137, p. 13-28. DOI: 10.1016/j.gr.2024.09.006

Disponível em: https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S1342937X24002764

Fonte e legenda da imagem de capa: Representação da fauna Triássica no Sul do Brasil: Representação artística de como seria a paisagem do Sul do Brasil há aproximadamente 237 milhões de anos. A ilustração mostra a convivência de três espécies cruciais para entender a origem dos dinossauros: O recém-descoberto Gondwanax paraisensis (o novo “primo do dinossauro” em estudo), o Gamatavus antiquus (outro “silesaurídeo” da mesma região) e O Parvosuchus aurelioi (um réptil ancestral da linhagem dos crocodilos).

Disponível em: Artigo fonte. Matheus Fernandes Gadelha.


Texto revisado por: Fernanda Moreira Batitucci e Alexandre Liparini.

Cromossomo milenar

Escrito em: 16 de abril de 2025

Por: Júlia Aguilar Maximiano

Imagine encontrar um pedaço de pele de um animal extinto há mais de 50 mil anos, mais ainda, contendo cromossomos fósseis! parece mentira né? Mas foi exatamente o que ocorreu em 2018, nos quais foram desenterrados restos mortais de uma mamute de 52 mil anos em uma escavação no permafrost da Sibéria. Mas o que é permafrost? Estamos falando de todo terreno que, por no mínimo dois anos, permaneceu congelado, mas nesse caso, foi por milhares! Essas regiões ajudam na conservação de restos mortais por ser um ambiente extremo para a ação de microrganismos decompositores.

Foi assim que os pesquisadores encontraram parte da morfologia (estrutura) da pele preservada, que continham inclusive os folículos capilares intactos, ou seja, encontraram pelos ainda presos a pele junto com estruturas que os envolve e protege. Por mais que essa descoberta por si só já se faz interessante, é inédita, pois um pedaço de pele de mamute foi encontrado contendo cromossomos fósseis. E, nesse caso, estamos falando especificamente de uma fêmea de mamute-lanoso ou mamute-lanudo, cujo nome científico é Mammuthus primigenius, que é a espécie de mamute mais famosa.

Mas, como sabiam que era fêmea? Ao analisarem as células dessa amostra encontram preservado corpúsculos de barr ou cromatina sexual, uma estrutura que só aparece em células de fêmeas de mamíferos. Isso acontece porque nas células da fêmea há 2 cromossomos X, um deles, ao acaso, encontra-se inativo e condensado, sendo possível de ser visualizado através de observação microscópica. Mas não para por aí… por falar em cromatina, eles conseguiram notar que a cromatina ativa e inativa do mamute ainda estava separada corretamente, o que indica que a organização do DNA desse animal estava praticamente intacta. Isso é surpreendente, sabe por quê? Normalmente em amostras biológicas antigas acontece a degradação da estrutura que mantém o DNA unido, e mesmo quando encontrados, os pequenos pedaços de DNA restantes poderiam se espalhar livremente o que não ocorreu nesse caso.

Mas como o DNA sobreviveu por tanto tempo? Os pesquisadores acreditam que logo após a morte desse mamute, a amostra sofreu uma liofilização espontânea, que graças ao frio siberiano, preservou o material biológico. Esse é um processo físico, em que fatores como resfriamento e desidratação — perda rápida de água — deixam esse material em um estado parecido com vidro, interrompendo movimento molecular, ou seja, não apaga a posição e nem a organização original dos cromossomos. Para compreender essa disposição tridimensional, foi utilizado uma técnica interessante chamada PaleoHi-C. Ela foi aplicada à pele do mamute-lanoso e ajudou a entender como as sequências do DNA estão próximas. Além disso, essa técnica revela informações sobre a biologia desse animal.

Isso permitiu aos cientistas estudarem não apenas a genética desse mamífero, mas também como seu DNA estava organizado dentro das células quando ele era vivo. Mas, o que mais essa descoberta revelou? Os cientistas compararam seu DNA com o de seus parentes vivos, os elefantes modernos. Assim, com relação ao seu parente mais próximo, o elefante-asiático, foi possível identificar reguladores-chave de crescimento dos pelos — já que aqui falamos de uma amostra de pele — desse animal, bem como o gene relacionado ao desenvolvimento de folículos pilosos e glândulas sudoríparas. Dessa forma, foi possível observar diferenças quanto à atividade gênica, podendo ter implicações evolutivas de adaptação ao frio extremo, os quais os mamutes eram submetidos em comparação aos elefantes-asiáticos.

Além de comparações com estrutura do DNA, ativação dos genes e organização nuclear, os cientistas conseguiram reconstruir também grande parte do genoma do mamute, identificando mais de 90% dos genes esperados e essa montagem foi feita a partir do genoma do elefante-africano. Além de preservar a memória genética de um animal extinto, essa pesquisa contribuiu para entender como o DNA pode se manter estável por milhares de anos e como poderíamos aplicar isso a outros fósseis no futuro. Será que conseguiremos encontrar mais cromossomos de animais extintos por aí, ou até trazer a espécie de volta à vida?

Texto fonte: Sandoval-Velasco M, Dudchenko O, Rodríguez JA, Pérez Estrada C, Dehasque M, Fontsere C, Mak SST, Khan R, Contessoto VG, Oliveira Junior AB, Kalluchi A, Zubillaga Herrera BJ, Jeong J, Roy RP, Christopher I, Weisz D, Omer AD, Batra SS, Shamim MS, Durand NC, O’Connell B, Roca AL, Plikus MV, Kusliy MA, Romanenko SA, Lemskaya NA, Serdyukova NA, Modina SA, Perelman PL, Kizilova EA, Baiborodin SI, Rubtsov NB, Machol G, Rath K, Mahajan R, Kaur P, Gnirke A, Garcia-Treviño I, Coke R, Flanagan JP, Pletch K, Ruiz-Herrera A, Plotnikov V, Pavlov IS, Pavlova NI, Protopopov AV, Di Pierro M, Graphodatsky AS, Lander ES, Rowley MJ, Wolynes PG, Onuchic JN, Dalén L, Marti-Renom MA, Gilbert MTP, Aiden EL. (2024). Three-dimensional genome architecture persists in a 52,000-year-old woolly mammoth skin sample. Cell. 2024 Jul 11;187(14):3541-3562.e51. doi: 10.1016/j.cell.2024.06.002. PMID: 38996487.

Disponível em: https://www.cell.com/cell/fulltext/S0092-8674(24)00642-1.

Fonte e legenda da imagem de capa: Representação ilustrativa da análise de uma amostra de mamute-lanoso encontrada há 52.000 anos, incluindo investigações em escala biomolecular.

Disponível em: https://www.cell.com/cell/fulltext/S0092-8674(24)00642-1.


Texto revisado por: Sandro Ferreira de Oliveira e Alexandre Liparini.

Seis novas espécies de besouro-soldado: fósseis do Eoceno em âmbar

Escrito em: 26 de outubro de 2025

Por: Letícia Bossi Lima Ferreira

Na Península Sambian, na Rússia, cientistas descobriram seis novas espécies de besouro-soldado, insetos pertencentes à família Cantharidae. Esses besouros são popularmente chamados de soldados por terem as laterais do corpo retas, lembrando armaduras. Eles estão espalhados por todo o mundo nos dias de hoje, mas ao contrário dos besouros que vemos atualmente, os novos achados têm milhares de anos! Os fósseis foram encontrados recobertos por uma resina vegetal fóssil chamada âmbar, de aspecto rígido, transparente e cor amarelada. Esse material foi formado há entre 47,8 a 33,9 milhões de anos atrás, intervalo de tempo que é chamado de época Eoceno. Apesar do tempo que se passou, o âmbar é capaz de preservar detalhes de forma impressionante.

As seis espécies encontradas se agrupam em quatro diferentes gêneros: Podistra, Malthinus, Malthodes e Sucinorhagonycha. Somente esse último gênero citado não tem indivíduos que vivem atualmente, apenas fósseis.

A identificação dessas espécies se deu por características físicas. Assim, foi possível distinguir o que encaixava cada besouro dentro de determinado gênero, além de ver o que os diferenciava dos outros integrantes, tornando-as espécies novas dentro do gênero. Por exemplo, um dos besouros (espécie Sucinorhagonycha maryae sp. nov.), entrou no gênero Sucinorhagonycha por ter um élitro longo e fino, além de 12 segmentos de antena. O élitro nada mais é que aquele par de asas rígidas que todo besouro tem e que recobre suas costas. Mas o que diferenciou esse besouro das outras espécies de Sucinorhagonycha já conhecidas? O quinto segmento de antena é distinto de todas as outras e o tamanho acima da média: 7 mm de comprimento, em contraste à média de 4,5 mm dos outros integrantes do gênero.

Já a espécie Podistra madelineae sp. nov. se encaixa em Podistra por ter um élitro longo e fino, somado ao pronoto (primeira parte do dorso, após o fim da cabeça) retangular. Trata-se de uma espécie nova por ser cerca de 2 mm maior e ter antenas diferentes das espécies registradas anteriormente.

A espécie Malthinus karenpankowskiae sp. nov. é um Malthinus por apresentar um élitro curto e pontilhado, além da cabeça totalmente posicionada atrás dos olhos: nenhuma parte da cabeça se projeta à frente deles. Seu pronoto é tão diferente que foi o que tornou essa uma espécie nova, facilmente diferenciável dos outros Malthinus.

Por fim, um exemplo do último gênero que teve espécie registrada: Malthodes. Esse gênero tem um élitro muito curto e de aspecto liso, cabeça totalmente atrás dos olhos e últimos esternitos (placas abdominais) altamente modificadas em formato. Porém, apesar de ter essas características, Malthodes greenwalti sp. nov. se diferencia pela aparência do último esternito (placa que forma a parte ventral dos insetos), que nele é alongado e largo.

Portanto, aqui foram mostrados aspectos físicos de quatro dos seis fósseis de besouro-soldado encontrados, contemplando uma espécie de cada gênero. Essas descobertas ampliam o conhecimento sobre a história dos membros da família Cantharidae e sobre a biodiversidade de milhares de anos atrás.

Texto fonte: Pankowski, M. G; Fanti, F. (2023). Six new species of fossil soldier beetles (Coleoptera: Cantharidae) from Eocene Baltic amber. Palaeoentomology, v. 6, n. 3, p. 300–312.

Disponível em: https://www.mapress.com/pe/article/view/palaeoentomology.6.3.13

DOI: 10.11646/palaeoentomology.6.3.13.

Legenda da imagem de capa: Uma nova espécie fóssil de besouro do gênero Malthodes inserida em âmbar.

Disponível em: https://www.mapress.com/pe/article/view/palaeoentomology.6.3.13.


Texto revisado por: Tiago Lopes Siqueira e Alexandre Liparini.

A pequena mãe do Cretáceo

Escrito em: 22 de abril de 2025

Por: Fernanda Tupini

Em 2023, cientistas da Universidade de Lanzhou, na China, descobriram um fóssil raro e muito interessante que conta a história de uma mãe sapo pré-histórica. O exemplar foi encontrado na Formação de Zonggo, província de Gansu – uma região rica em depósitos lacustres do período Cretáceo.Trata-se de um fêmea de Gansubatrachus qilianensis, com ovos e tecidos moles preservados na rocha, o que é muito raro no mundo da paleontologia, já que essas estruturas tendem a se degradar com mais facilidade.

A jovem mamãe que teria vivido a cerca de 100 milhões de anos atrás, tinha cerca de 3,5 cm de comprimento e possuía ovos empilhados na parte direita de seu abdômen, onde provavelmente se encontrava seu oviduto, muito semelhantes aos anuros (sapos, pererecas, rãs e pipas) de hoje em dia.

Por meio da técnica de Tomografia computadorizada micrométrica (micro-CT), os cientistas identificaram a presença de cartilagem em áreas que ainda estavam em processo de ossificação, o que indica que o animal ainda estava em desenvolvimento. A combinação desses dados com a presença dos ovos sugere que essa rã atingiu a maturidade sexual antes mesmo de completar a maturação do esqueleto — um fenômeno que, embora comum em algumas espécies atuais, é raramente observado com tanta clareza em fósseis.

Além disso, como o fóssil não apresenta sinais de predação nem de idade avançada, os tafonômicos (pesquisadores que estudam o processo de fossilização, desde a morte do organismo, a forma de preservação dos restos orgânicos, até ser encontrado nos dias atuais) sugerem que a morte da fêmea pode ter ocorrido por afogamento ou em decorrência de comportamento reprodutivo. Após a morte, seu corpo teria sido depositado em um lago profundo, de águas frias e calmas, com um substrato rico em alumínio e silício e essas foram as condições ideais para a preservação excepcional do esqueleto, de seus tecidos moles e dos ovos carbonizados.

Esse fóssil raro tem grande importância científica, pois nos permite vislumbrar um pequeno fragmento de um passado distante. É como uma janela para observarmos como era a vida na Terra há milhões de anos e compreendermos melhor o caminho trilhado pela evolução até chegar aos animais que conhecemos hoje.

Texto fonte: Du, Baoxia et al. (2024). A cretaceous frog with eggs from northwestern China provides fossil evidence for sexual maturity preceding skeletal maturity in anurans. Proceedings of the Royal Society B: Biological Sciences, v. 291, n. 20232320, 2024. DOI: 10.1098/rspb.2023.2320.

Disponível em: https://royalsocietypublishing.org/doi/10.1098/rspb.2023.2320.

Fonte e legenda da imagem de capa: Dois sapos da espécie Gansubatrachus qilianensis em seu habitat natural no período Cretáceo.

Disponível em: https://royalsocietypublishing.org/doi/10.1098/rspb.2023.2320.


Texto revisado por: Sandro Ferreira de Oliveira e Alexandre Liparini.