Escrito em: 30 de março de 2025
Por: Matheus Magno Rosa de Assis
Em 2007, ao inspecionar algumas peças vindas da escavação na Mina de Carvão de Cerrejón, Alexandre K. Hastings que na época era um estudante de pós-graduação, encontrou, entre os fósseis coletados e inicialmente classificados como pertencentes a crocodilos, uma vértebra estranha e extremamente grande. Para ele, era evidente que essa vértebra não pertencia a um crocodilo. Ao mostrar o achado a seu colega Jason R. Bourque, Bourque concluiu que se tratava de uma vértebra de cobra.
Com a ajuda de Jason J. Head, os pesquisadores descobriram que os ossos encontrados apresentavam muitas características exclusivas das cobras da família Boidae, que inclui jiboias e sucuris. Além disso, graças a Head e P. David Polly, foi possível estimar o posicionamento das vértebras gigantes na coluna dessa cobra por meio da comparação com vértebras de cobras atuais, que recebeu o nome de Titanoboa cerrejonensis.
Com a estimativa do posicionamento pronta, foi possível calcular o tamanho e a massa corporal dessa cobra. A Titanoboa tinha um comprimento corporal estimado em aproximadamente 13 metros e peso superior a 1 tonelada, sendo a maior cobra já conhecida. Ela habitava as florestas tropicais da América do Sul, e seu registro fóssil data de 58 a 60 milhões de anos atrás, no período Paleoceno.
Mas como a Titanoboa, assim como as outras cobras que não produzem calor próprio e depende do ambiente para manter sua temperatura corporal conseguiu atingir tamanha proporção? Considerando que seu metabolismo e crescimento são diretamente influenciados pela temperatura.
A resposta para essa pergunta é relativamente simples: basta que a temperatura de seu habitat tenha sido mais alta do que a atual.
A temperatura média anual das florestas equatoriais da América do Sul durante o Paleoceno pode ser estimada comparando fósseis de animais ectotérmicos, como a Titanoboa, com animais ectotérmicos modernos. Isso pode ser feito medindo a diferença entre os tamanhos máximos dos corpos desses animais, já que essa diferença é proporcional à variação na temperatura ambiental para uma determinada taxa metabólica específica.
Para essa estimativa, foi comparado o tamanho máximo corporal da Titanoboa com o da Eunectes murinus (sucuri-verde), a maior cobra dos neotrópicos modernos. A análise indicou que a temperatura média anual mínima necessária para a sobrevivência de uma cobra boina de 13 metros de comprimento seria de 32–33 °C, variando entre 30 °C e 34 °C para tamanhos corporais entre 11 e 15 metros. Essa é uma temperatura relativamente alta em comparação com a média anual dos neotrópicos modernos, que gira em torno de 26–27 °C.
Com isso, podemos perceber como as temperaturas médias anuais variaram ao longo das eras nas florestas equatoriais da América do Sul e como a temperatura influencia diretamente o tamanho máximo corporal de animais ectotérmicos.
Ainda bem que a temperatura dos neotrópicos diminuiu um pouco! Já imaginou encontrar uma cobra desse tamanho rastejando por aí?
Texto fonte:Head, J., Bloch, J., Hastings, A. et al. (2009). Giant boid snake from the Palaeocene neotropics reveals hotter past equatorial temperatures. Nature 457, 715–717.
Disponível em: https://www.researchgate.net/publication/23980887_Giant_boid_snake_from_the_Palaeocene_neotropics_reveals_hotter_past_equatorial_temperatures.
Fonte e legenda da imagem de capa: Vértebras pré-cloacais de Titanoboa Cerrejonensis
Disponível em: https://www.researchgate.net/publication/23980887_Giant_boid_snake_from_the_Palaeocene_neotropics_reveals_hotter_past_equatorial_temperatures.
Texto revisado por: Ruan Honorato Marzano Cintra, Alexandre Liparini e Sandro Ferreira de Oliveira.