A pequena mãe do Cretáceo

Escrito em: 22 de abril de 2025

Por: Fernanda Tupini

Em 2023, cientistas da Universidade de Lanzhou, na China, descobriram um fóssil raro e muito interessante que conta a história de uma mãe sapo pré-histórica. O exemplar foi encontrado na Formação de Zonggo, província de Gansu – uma região rica em depósitos lacustres do período Cretáceo.Trata-se de um fêmea de Gansubatrachus qilianensis, com ovos e tecidos moles preservados na rocha, o que é muito raro no mundo da paleontologia, já que essas estruturas tendem a se degradar com mais facilidade.

A jovem mamãe que teria vivido a cerca de 100 milhões de anos atrás, tinha cerca de 3,5 cm de comprimento e possuía ovos empilhados na parte direita de seu abdômen, onde provavelmente se encontrava seu oviduto, muito semelhantes aos anuros (sapos, pererecas, rãs e pipas) de hoje em dia.

Por meio da técnica de Tomografia computadorizada micrométrica (micro-CT), os cientistas identificaram a presença de cartilagem em áreas que ainda estavam em processo de ossificação, o que indica que o animal ainda estava em desenvolvimento. A combinação desses dados com a presença dos ovos sugere que essa rã atingiu a maturidade sexual antes mesmo de completar a maturação do esqueleto — um fenômeno que, embora comum em algumas espécies atuais, é raramente observado com tanta clareza em fósseis.

Além disso, como o fóssil não apresenta sinais de predação nem de idade avançada, os tafonômicos (pesquisadores que estudam o processo de fossilização, desde a morte do organismo, a forma de preservação dos restos orgânicos, até ser encontrado nos dias atuais) sugerem que a morte da fêmea pode ter ocorrido por afogamento ou em decorrência de comportamento reprodutivo. Após a morte, seu corpo teria sido depositado em um lago profundo, de águas frias e calmas, com um substrato rico em alumínio e silício e essas foram as condições ideais para a preservação excepcional do esqueleto, de seus tecidos moles e dos ovos carbonizados.

Esse fóssil raro tem grande importância científica, pois nos permite vislumbrar um pequeno fragmento de um passado distante. É como uma janela para observarmos como era a vida na Terra há milhões de anos e compreendermos melhor o caminho trilhado pela evolução até chegar aos animais que conhecemos hoje.

Texto fonte: Du, Baoxia et al. (2024). A cretaceous frog with eggs from northwestern China provides fossil evidence for sexual maturity preceding skeletal maturity in anurans. Proceedings of the Royal Society B: Biological Sciences, v. 291, n. 20232320, 2024. DOI: 10.1098/rspb.2023.2320.

Disponível em: https://royalsocietypublishing.org/doi/10.1098/rspb.2023.2320.

Fonte e legenda da imagem de capa: Dois sapos da espécie Gansubatrachus qilianensis em seu habitat natural no período Cretáceo.

Disponível em: https://royalsocietypublishing.org/doi/10.1098/rspb.2023.2320.


Texto revisado por: Sandro Ferreira de Oliveira e Alexandre Liparini.

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