Restos de baleia-azul com 1,9 ka encontrado no Brasil

Escrito em: 18 de outubro de 2025

Por: Bianca Ribeiro Cunha

Fragmentos de ossos de baleia-azul (Balaenoptera musculus) de 1,9 ka (1,9 mil anos) foi encontrado no litoral brasileiro. Essa descoberta foi marcante, visto que o estudo sobre a fossilização de cetáceos ainda é escasso por conta dos desafios envolvidos em encontrar fósseis desses animais devido à sua comum morte em ambiente costeiro. Além disso, a preservação de uma carcaça por tanto tempo em ambiente praiano depende do contexto envolvido no soterramento e de diversos fatores climáticos, como temperatura, ondas, correntes e sedimentação, dificultando a fossilização nessas localidades.

Os restos foram encontrados na Praia do Leste, no litoral de São Paulo, e foram analisados por pesquisadores do Laboratório de Estratigrafia e Paleontologia da Universidade Estadual Paulista (UNESP), com o objetivo de realizar o estudo das características tafonômicas. A tafonomia (ramo da paleontologia que estuda o que ocorre após a morte de um organismo) buscou identificar e descrever as alterações físico-químicas macroscópicas presentes no esqueleto, bem como realizar um estudo por sensoriamento remoto, através de drones, a fim de compreender a dinâmica climática da região.

Para a realização dos estudos em laboratório, foram retirados apenas nove elementos ósseos devido ao grande tamanho das peças, o restante do material foi mantido no local por questões logísticas. Após diversas análises eles foram caracterizados como nível 1 de conservação (partes duras, como ossos e dentes, bem preservadas) contendo apenas marcas superficiais, o que é um ótimo facilitador para pesquisas paleontológicas.Os resultados da pesquisa mostraram que a morte da baleia ocorreu em ambiente raso e que ela foi rapidamente transportada do mar aberto para a praia, o que impediu a desarticulação dos ossos antes do encalhe. Além disso, o encalhe provavelmente ocorreu durante o outono ou inverno, por apresentarem os padrões climáticos mais favoráveis para que as baleias realizem a migração em regiões tropicais e subtropicais, com ocorrência de ondas e tempestades.

Através das análises de geoprocessamento, também foram possíveis inferências sobre a história evolutiva do ambiente em que o fóssil foi encontrado, indicando um evento erosivo há 0,7 ka que expôs o esqueleto. Posteriormente, ocorreu uma nova progradação (avanço de sedimentos da costa em direção ao mar) em um ambiente saturado de água doce, cobrindo o material novamente. Logo, o afloramento da ossada foi resultado de outra erosão recente, que vem ocorrendo até hoje.

Tendo em vista todos os resultados obtidos a partir deste achado, fica claro como a pesquisa e a preservação de restos orgânicos são fundamentais para compreender a história evolutiva e os processos ambientais que moldaram os ecossistemas atuais. Além de ampliar o conhecimento científico sobre a biodiversidade pretérita e as mudanças climáticas ao longo do tempo geológico, esses estudos fornecem subsídios importantes para estratégias de conservação e educação ambiental. Assim, a tafonomia assume um papel essencial não apenas para a ciência, mas também para a sociedade, ao promover a valorização do patrimônio natural e o entendimento das interações entre o passado e o presente da vida na Terra.

Texto fonte: Spanghero, N.F. (2021). Tafonomia do fóssil de baleia-azul (Balaenoptera musculus) do Holoceno (Iguape, São Paulo, Brasil). Dissertação de Mestrado – Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (UNESP), Instituto de Biociências, Câmpus do Litoral Paulista, São Vicente – SP, 82 p.

Disponível em: https://repositorio.unesp.br/entities/publication/1eb8e7e1-20b6-4aa8-b2da-405a405b04db.

Fonte e legenda da imagem de capa: Evolução do fóssil de baleia-azul ao longo do tempo. A imagem mostra como o animal morreu e encalhou há cerca de 1,9 mil anos, foi soterrado rapidamente (progradação) e depois exposto por erosões e novos soterramentos ao longo dos séculos. Hoje, o fóssil voltou a aparecer na praia devido à erosão recente da costa.

Disponível em: https://repositorio.unesp.br/entities/publication/1eb8e7e1-20b6-4aa8-b2da-405a405b04db.


Texto revisado por: Sandro Ferreira de Oliveira, Luís Filipe Cardoso Queiroz e Alexandre Liparini.

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