Primeira evidência de Relação entre Barbeiro e Tripanossomatídeo, a chave para a ampla distribuição da Doença de Chagas.

Escrito em: 10 de abril de 2025

Por: Victor Lucas Duarte Armani

Foi encontrado, na Mina La Toca, República Dominicana, entre as cidades de Puerto Plata e Santiago de los Cabalerros, um pedaço de âmbar que guardava a primeira evidência fóssil da associação entre um triatomíneo, Triatoma dominicana sp., popularmente conhecidos como barbeiro, e um tripanossomatídeo, Trypanosoma antiquus sp. possivelmente ancestral do Trypanosoma cruzi, o causador da doença de Chagas. No achado de cerca de 15 a 40 milhões de anos atrás, do Eoceno-Oligoceno ou começo do Mioceno, estavam presentes diferentes artrópodes hematófagos, incluindo um barbeiro próximo a partículas fecais contendo os parasitos. Mas por que essa descoberta é tão importante?

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Quando o corpo também pensa: a inteligência dos polvos

Escrito em: 26 de abril de 2025

Por: Camila Muzzi

A lógica, aparentemente universal, de que a inteligência surge da integração entre um centro de comando — o cérebro — e um corpo executor, é desafiada por uma criatura que “borra” a linha entre a mente e o corpo: o polvo. Com um sistema nervoso fascinante, ele escapa às nossas classificações tradicionais. Complexo para um invertebrado e, embora modesto quando comparado ao dos mamíferos, seu sistema apresenta uma sofisticação cognitiva equivalente. Que pressões seletivas foram capazes de moldar, em um animal tão próximo de uma lesma, uma inteligência tão elaborada?

Além de um cérebro comparável em tamanho ao de pequenos mamíferos, cerca de dois terços dos neurônios do polvo se espalham por seus oito braços, conectados a um grande cordão nervoso. Cada braço é capaz de processar informações sensoriais e tomar decisões locais, funcionando de maneira semiautônoma. Entretanto, seu sistema nervoso é mais do que apenas um corpo guiado por um cérebro, o que sugere a existência de uma forma diferente — e altamente eficiente — de consciência.

Diferente de ossos ou conchas, que resistem ao tempo, sistemas nervosos raramente deixam rastros no registro fóssil. No entanto, em formações geológicas com condições extremamente favoráveis, foram encontrados fósseis extraordinariamente bem preservados de Coleoidea — sub-classe que inclui polvos, lulas e seus ancestrais. Esses fósseis trouxeram revelações raríssimas: não apenas músculos, mas também cordões nervosos axiais. A partir desse material, pesquisadores traçaram comparações anatômicas com espécies modernas e utilizaram modelos matemáticos para inferir o modo de vida desses antigos coleoides. Utilizando técnicas avançadas de visualização tridimensional, associadas a análises filogenéticas e a modelos de reconstrução ancestral, eles decifraram as pistas escondidas nas rochas.

Os resultados revelaram que esses animais antigos já exibiam uma arquitetura neural sofisticada e descentralizada. Desde o Jurássico Médio, suas capacidades motoras eram refinadas e permitiam uma interação complexa com o ambiente, muito semelhante à dos polvos modernos. Isso mostra que o ambiente em que viviam exerceu pressões seletivas intensas: a necessidade de capturar presas na escuridão, mover-se com precisão em três dimensões e escapar de predadores, tudo sem um exoesqueleto protetor, impulsionou o surgimento de comportamentos mais elaborados e de uma cognição descentralizada. Eram predadores ativos, capazes de manipular objetos, caçar estrategicamente e navegar em ambientes complexos.

Dessa forma, o que emerge é a história de uma inteligência antiga e solitária, que floresceu contra todas as probabilidades e nos confronta com algo que também fala sobre nós mesmos: a consciência, em suas muitas formas, é uma resposta engenhosa às complexidades da vida — e não uma conquista exclusiva da nossa linhagem. 

Texto fonte: Klug, C.; Hoffmann, R.; Tischlinger, H.; Fuchs, D.; Pohle, A.; Rowe, A.; Rouget, I.; Kruta, I. (2023). ‘Arm brains’ (axial nerves) of Jurassic coleoids and the evolution of coleoid neuroanatomy. Swiss Journal of Palaeontology’, v. 142, n. 1, p. 22. Doi: 10.1186/s13358-023-00285-3.

Disponível em: https://doi.org/10.1186/s13358-023-00285-3.

Fonte e legenda da imagem de capa: Polvo nadando próximo aos corais.

Disponível em: Canva Pro, design de Ann Antonova.


Texto revisado por: Eric Issao Inamura e Alexandre Liparini.

Urso d’Água Pré-Histórico: Descoberta em Âmbar Revela Segredos do Passado Profundo

Escrito em: 04 de dezembro de 2024

Por: Emanuelly Christine

Pesquisadores da Universidade de Harvard fizeram uma descoberta fascinante em um pedaço de âmbar do Período Cretáceo: uma nova espécie de tardígrado, microrganismos conhecidos por sua incrível resiliência. Esses “ursos d’água”, como são popularmente chamados, são famosos por sobreviverem em condições extremas, mas a origem e a evolução dessa habilidade sempre foram um mistério. Agora, fósseis preservados há mais de 80 milhões de anos estão ajudando os cientistas a compreender melhor essa história.

A descoberta ocorreu ao revisitar uma peça de âmbar encontrada no Canadá na década de 1960. Essa peça já abrigava um fóssil conhecido, o Beorn leggi, mas o uso de novas técnicas, como microscopia confocal a laser, permitiu a identificação de outra espécie até então desconhecida, batizada de Aerobius dactylus. O nome foi inspirado em características únicas do fóssil: ele parece estar “flutuando no ar” dentro do âmbar e possui garras alongadas que lembram dedos.Esses fósseis são particularmente raros, com apenas quatro exemplares conhecidos até hoje. Isso faz com que cada descoberta seja um marco importante. Ao estudá-los, os cientistas conseguem obter pistas sobre a evolução dos tardígrados e sobre como eles desenvolveram a habilidade de entrar em criptobiose, uma espécie de hibernação extrema que os permite sobreviver a condições adversas, como radiação e o vácuo do espaço.

Além disso, a nova espécie revelou detalhes únicos sobre sua morfologia, como garras de tamanhos diferentes em seus membros. Essas características ajudam a traçar a árvore genealógica dos tardígrados e a estimar quando eles divergiram de outros organismos, possivelmente durante o Período Cambriano, há mais de 500 milhões de anos.

A descoberta também reforça a importância do âmbar como uma “cápsula do tempo” natural. Ao preservar organismos em detalhes impressionantes, ele oferece aos cientistas uma janela para ecossistemas e espécies que coexistiram com os dinossauros. Estudos como esse demonstram como novas tecnologias podem revelar segredos escondidos em fósseis que já estavam disponíveis, mas não completamente explorados.

Com esses avanços, a pesquisa não só ilumina o passado dos tardígrados, mas também nos inspira a continuar explorando os mistérios da vida na Terra. Afinal, quem sabe o que mais pode estar oculto em uma peça de âmbar esperando para ser descoberto?

Texto fonte: MAPALO, Marc A.; WOLFE, Joanna M.; ORTEGA-HERNÁNDEZ, Javier. (2024). Cretaceous amber inclusions illuminate the evolutionary origin of tardigrades. Communications Biology, v. 7, n. 1, p. 953. Doi: 10.1038/s42003-024-06643-2.

Disponível em: https://www.nature.com/articles/s42003-024-06643-2.

Fonte e legenda da imagem de capa: Reconstrução artística (feita por Franz Anthony), onde o maior e mais claro corresponde ao já conhecido Beorn leggi, enquanto o menor e mais alaranjado representa a nova espécie Aerobius dactylus. Essa diferenciação é baseada em características morfológicas específicas analisadas no artigo, como o tamanho e detalhes das garras, que são mais distintas na nova espécie.

Disponível em: https://www.nature.com/articles/s42003-024-06643-2.


Texto revisado por: Sandro Ferreira de Oliveira e Alexandre Liparini.

Berthasaura leopoldinae: o dinossauro banguela!

Escrito em: 20 de Abril de 2025

Por: Lara Ribeiro Maia

Novas descobertas de animais são sempre muito curiosas, e, quando envolvem dinossauros, sempre chamam bastante atenção. Encontrar fósseis desses seres nos ajuda a entender um pouco mais sobre a vida que existiu na Terra há milhões de anos. O que é mais curioso ainda é um achado de um fóssil de dinossauro que indicava que o animal teria dentes bem afiados para devorar presas, mas ele na verdade não tinha dente nenhum!

O fóssil foi encontrado pelos pesquisadores no sítio chamado “Cemitério dos Pterossauros”, na Formação Goio Êre, onde fósseis de diversas espécies têm sido encontrados. Com o achado, o local não apenas ganha importância na história dos dinossauros, mas também se estabelece como um potencial sítio para futuros estudos sobre a fauna do Cretáceo na América do Sul.  Essa descoberta feita por uma equipe de paleontólogos brasileiros foi publicada em 2021 na revista Scientific Reports, do grupo Nature, e nos apresentou o Berthasaura leopoldinae, o primeiro ceratossauro sem dentes conhecido da América do Sul. 

Análises detalhadas de seu esqueleto quase completo mostraram que ele não possuía dentes e além disso, tinha um bico com bordas cortantes, adaptado para mordidas diferentes das de um carnívoro. Isso levou os pesquisadores a levantarem a hipótese de que o Berthasaura fosse herbívoro ou onívoro. Esse achado é muito peculiar pois os ceratossauros, grupo ao qual o Berthasaura pertence, são dinossauros bípedes e, em sua maioria, carnívoros. Mas esse dinossauro, que viveu há cerca de 125 milhões de anos no que hoje é o estado do Paraná, quebrou esse padrão.

Mas será que esse dinossauro não poderia pertencer a outro grupo? Para responder isso, os pesquisadores compararam seu esqueleto com fósseis de outros ceratossauros e realizaram análises filogenéticas, que são estudos que investigam as relações evolutivas entre espécies. O resultado incluiu o Berthasaura dentro do grupo dos Noasauridae, uma família de ceratossauros.

Essa análise mostra que diferentes formas de alimentação evoluíram nesse grupo de maneira independente. Isso porque o único outro ceratossauro sem dentes conhecido até então era o Limusaurus, da China, mas ele só perdia os dentes na vida adulta, diferente do Berthasaura que era jovem e já nasceu banguela. 

Além disso, você se perguntou o porque do nome Berthasaura leopoldinae? Ele é uma homenagem a duas mulheres importantes da história do Brasil. Berthasaura faz referência à cientista e ativista Bertha Lutz, pioneira na luta pelos direitos das mulheres no Brasil, e leopoldinae à imperatriz Maria Leopoldina, uma figura fundamental na independência do país.  A descoberta do Berthasaura leopoldinae vai muito além de um novo personagem para filmes como Jurassic Park. Ela enriquece nosso conhecimento sobre os dinossauros brasileiros e oferece pistas sobre como esses animais se adaptaram a diferentes ambientes e modos de vida ao longo do tempo.

Texto fonte: de Souza, G.A., Soares, M.B., Weinschütz, L.C. et al. (2021). The first edentulous ceratosaur from South America. Scientific Reports 11, 22281.

Disponível em: https://www.nature.com/articles/s41598-021-01312-4.

Fonte e legenda da imagem de capa: Imagem do artigo fonte, ilustrada por Maurílio Oliveira. Imagem da reconstrução da vida de Berthasaura leopoldinae no ambiente do “Cemitério dos Pterossauros”, há milhões de anos.

Disponível em: https://www.nature.com/articles/s41598-021-01312-4.


Texto revisado por: Fernanda Moreira Batitucci e Alexandre Liparini.

Diamantes fósseis e a vida extraterrestre

Escrito em: 19 de abril de 2025

Por Guilherme Santos Freire

Cientistas russos descobriram um novo tipo de diamante fóssil que contém vestígios de plantas! Encontrado na costa do Mar de Kara, na Zona Ártica Europeia da Rússia, esse diamante foi batizado de ”karite”, em homenagem ao local da descoberta.

Diamantes naturais se formam quando átomos de carbono se organizam de forma cristalina sob altíssimas temperaturas e pressões, normalmente no manto terrestre. No entanto, esse novo estudo mostrou que impactos de meteoritos também podem gerar diamantes e, surpreendentemente, preservar estruturas microscópicas de origem biológica. Os cientistas observaram fragmentos de lignina e celulose, compostos típicos das paredes celulares de plantas, além de detalhes da estrutura celular, como esporos e fragmentos de madeira fossilizada.

Essa descoberta abre novas possibilidades para a astrobiologia, o campo científico que busca compreender a origem e a existência da vida no universo.

Uma das hipóteses mais curiosas sobre a origem da vida na Terra é a da panspermia cósmica. Ela propõe que a vida (ou seus compostos fundamentais) teria vindo do espaço, trazida por meteoritos, cometas, asteroides ou poeira cósmica. Embora seja uma teoria fascinante, ainda não é amplamente aceita pela comunidade científica, principalmente pela falta de evidências diretas — afinal, nunca encontramos um microrganismo vivo fora da Terra. Além disso, a panspermia não explica como a vida surgiu, apenas sugere uma origem extraterrestre.

Embora a panspermia ainda seja uma hipótese, é certo que os impactos de meteoritos tiveram um papel importante na história da Terra. Esses eventos influenciaram a formação da crosta terrestre e podem ter trazido compostos orgânicos essenciais para o surgimento da vida.

No caso da “karite”, os diamantes foram encontrados em uma região sedimentar do baixo curso do rio Kara, na Rússia. As imagens obtidas pelos pesquisadores revelaram detalhes incríveis da estrutura celular de plantas, fossilizadas e transformadas em diamante pelo calor e pressão do impacto. Esse processo extremo conseguiu preservar fragmentos orgânicos, mesmo em condições de alta pressão.

A descoberta desses diamantes fósseis mostra que é possível preservar matéria orgânica mesmo em ambientes extremos, como os gerados por impactos de meteoritos. Isso tem implicações diretas para a astrobiologia, pois sugere que resíduos biológicos poderiam sobreviver em ambientes extraterrestres — e até mesmo viajar pelo espaço em fragmentos rochosos.

Esses fósseis minerais podem ajudar a responder perguntas fundamentais sobre a origem da vida e oferecer pistas para a busca por vida fora da Terra. Afinal, se a vida deixou marcas em um diamante aqui na Terra, por que não poderia fazer o mesmo em Marte… ou além?

Fonte original: T.G.Shumilova.(2022). Diamond Fossils: a New Object for Astrobiology. Paleontological Journal, v. 56, n.22, p.1074-1083. Doi: https://doi.org/10.1134/S0031030122090064

Fonte e legenda da imagem de capa: Imagens de microscopia de varredura de fragmentos de madeira fossilizadas na amostra de diamante. paredes celulares preservadas (a); múltiplos canais (b, c); junções intracanal (d).

Disponível em: https://www.researchgate.net/publication/366331879_Diamond_Fossils_a_New_Object_for_Astrobiology


Texto revisado por: Cíntia Silva, Sandro Ferreira.

Penas do passado: Como erupções vulcânicas podem contribuir para o processo de fossilização

Escrito em: 20 de abril de 2025

Por: Louise Lissa Denda

Quando pensamos em fósseis, a primeira coisa que pensamos são ossos ou pegadas marcadas em rochas. Agora imagine encontrar uma pena fossilizada em perfeitas condições, não apenas como uma impressão em uma rocha, mas em três dimensões, contendo uma riqueza microscópica de detalhes. Isso é exatamente o que um grupo de cientistas encontrou na Itália.

Pesquisadores encontraram os restos fósseis de um abutre-euroasiático (Gyps fulvus), dentro de um depósito vulcânico do Pleistoceno, na região de Colli Albani, perto de Roma. Mas o que de fato chamou a atenção foi a forma como ocorreu a preservação. Ao contrário do que é mais comum para tecidos moles, em que viram marcas ou filmes de carbono, essas penas mantiveram sua forma tridimensional, preservando até mesmo algumas estruturas microscópicas ligadas à coloração das penas.

Essa riqueza de detalhes só foi possível graças a um processo raro de fossilização: a mineralização em zeólita, um tipo de mineral vulcânico. Esse tipo de preservação geralmente acontece em ambientes aquáticos, como lagos e mares calmos, ou então em âmbar. Mas nesse caso, o ambiente era subaéreo e vulcânico — ou seja, em terra firme, ao ar livre, e com forte atividade vulcânica, uma condição praticamente desconhecida até então.

Mas como isso foi possível? Segundo os cientistas, logo após a morte do animal, ele foi coberto por uma camada de cinza rica em minerais, que em contato com a água forma a zeólita. Essa interação ocorreu tão rapidamente (dias ou semanas) que as estruturas da pena foram “congeladas” no tempo antes de se decompor por completo. 

Essa descoberta abre novas portas para a paleontologia pois mostra não apenas um novo tipo de preservação fossilífera, mas também apresenta um potencial grande de estudo em áreas vulcânicas, que são muitas vezes ignoradas, mas que podem ser verdadeiros tesouros para a paleontologia, preservando materiais que seriam facilmente degradados em outros ambientes.

Texto fonte: Valentina Rossi, Tiffany Slater, Richard Unitt, Beatriz Carazo del Hoyo, Edoardo Terranova, Mario Gaeta, Maria E. McNamara, Raffaele Sardella, Dawid A. Iurino; Fossil feathers from the Colli Albani volcanic complex (Late Pleistocene, Central Italy) preserved in zeolites. Geology 2025.

Disponível em: https://pubs.geoscienceworld.org/gsa/geology/article-standard/doi/10.1130/G52971.1/653118/Fossil-feathers-from-the-Colli-Albani-volcanic

DOI: https://doi.org/10.1130/G52971.1

Legenda da imagem de capa: Representação artística de um abutre-euroasiático, durante uma erupção vulcânica. 

Disponível em: https://www.instagram.com/p/DITuAawM6uU/


Texto revisado por: Tiago Lopes Siqueira.

Fósseis revelam segredos de comunidades marinhas antigas no Paraná

Escrito em: 20 de Abril de 2025

Por: Bianca Ramos Cortezi 

Você já parou pra pensar como viviam os animais marinhos há centenas de milhões de anos? Um grupo de pesquisadores da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG) mergulhou nessa investigação e trouxe à tona novos olhares sobre fósseis encontrados na Bacia do Paraná. O foco do estudo são os invertebrados marinhos bentônicos (animais como moluscos e trilobitas que viviam no fundo dos oceanos) e a forma como eles se organizavam. Ao contrário dos vertebrados, esses fósseis costumam ser encontrados quase completos e agrupados, permitindo entender melhor como viviam em comunidade.

Os autores do artigo analisaram conceitos antigos e novos usados para descrever essas comunidades fósseis. Com base no artigo de Kurovski et al. (2022), termos como “paleocomunidade”, “guilda” e “grupo funcional” ajudam a classificar esses organismos não apenas pela aparência, mas também pelos hábitos e comportamentos: o que comiam, onde viviam e como se relacionavam com o ambiente ao redor.

A pesquisa também destacou a chamada biorregião Malvinoxhosan, onde, atualmente, está localizado o sul do Brasil. Essa era uma área coberta por um mar frio e raso, habitado por criaturas estranhas aos nossos olhos, durante o período Devoniano, há mais de 400 milhões de anos. A localidade era lar de espécies únicas, mas extremamente sensíveis às mudanças do ambiente, como variações no nível do mar ou na temperatura, que levaram à extinção de várias dessas criaturas, deixando os fósseis como registros de sua existência (KUROVSKI ET AL., 2022).
Por fim, os autores reforçam que revisar estudos antigos com essas novas classificações pode trazer respostas para perguntas que antes pareciam sem solução e pode revelar detalhes incríveis sobre o passado da vida marinha. Mais do que falar sobre fósseis, o artigo mostra como a ciência está sempre se atualizando, e como até os registros mais antigos podem nos ajudar a entender melhor a história da vida no planeta.

Texto fonte: KUROVSKI PEREIRA, I.; BOSETTI, E.; GOLTZ, G. (2022). Paleocomunidades e guildas: conceitos chave para a compreensão da fauna de invertebrados marinhos bentônicos fósseis. Terr@ Plural, [S. l.], v. 16, p. 1–23. DOI: 10.5212/TerraPlural.v.16.2221067.043.

Disponível em: https://revistas.uepg.br/index.php/tp/article/view/21067

DOI: 10.5212/TerraPlural.v.16.2221067.043.

Fonte e legenda da imagem de capa:  DUGORNAY, Olivier. Praires communes (Venus verrucosa) dans leur environnement (Ifremer 00543-65507 – 11352). 28 jan. 2009.

Moluscos bilvalves (Venus verrucosa) no fundo do mar.

Disponível em: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Praires_communes_(Venus_verrucosa)_dans_leur_environnement_(Ifremer_00543-65507_-_11352).jpg.


Texto revisado por: Ana Luísa Ferreira, Sandro Ferreira de Oliveira e Alexandre Liparini.

O fóssil “Hannah” e sua assimetria reveladora.

Escrito em: 08 de maio de 2025

Por: Maria Fernanda Felice Martinelli Silva

O fóssil da espécie Styracosaurus, com código UALV 55900 – nomeado como “Hannah” – foi encontrado na formação “Dinosaur Park”, na província de Alberta no Canadá pelo paleontólogo Scott Persons.

Este crânio era diferente de outros já encontrados, sendo, além de excepcionalmente completo, assimétrico: Sua metade direita exibia sete “chifres”, enquanto sua metade esquerda exibia oito, e todos eles variavam em tamanho e ângulo de crescimento. Entretanto, previamente ao desenterro de Hannah, ao observar as amostras dos fósseis disponíveis, majoritariamente incompletas, os cientistas presumiram que as metades perdidas dos fósseis seriam perfeitamente espelhadas àquelas que tinham em mãos.

Até então, como não era considerada a possibilidade do desenvolvimento assimétrico das estruturas cranianas, a categorização das espécies havia sido estabelecida dentro da noção de que os diferentes padrões destas estruturas indicavam grupos de animais completamente diferentes.

Hannah teria, então, tornado plausível a hipótese de que a anatomia desses animais era variável dentro da própria espécie, podendo ser influenciada pela própria genética dos indivíduos ou até mesmo vivências, como ferimentos que causaram deformações enquanto regeneravam.

Estando contestada a validade da categorização existente naquele momento, houve um esforço para atualizá-la de acordo com a nova convenção aceita, resultando, por exemplo, na incorporação da espécie Rubeosaurus ovatus ao Styracosaurus, os tornando sinônimos.

Conclusivamente, a descoberta de Hannah contribuiu para a Paleontologia não só com mais conhecimento morfológico sobre sua espécie, ao mostrar a existência de variações anatômicas desde muito cedo, como também remodelou todo o método utilizado pelos especialistas para interpretar os restos deixados a milhares de anos pelos seres que compunham sua família, em prol de conduzir seus estudos a mais descobertas.

Texto fonte: Robert B. Holmes, Walter Scott Persons, Baltej Singh Rupal, Ahmed Jawad Qureshi, Philip J. Currie, 2020, “Morphological variation and asymmetrical development in the skull of Styracosaurus albertensis“, Revista Science Direct, volume 107, DOI:https://doi.org/10.1016/j.cretres.2019.104308.

Disponível em: https://www.sciencedirect.com/science/article/abs/pii/S0195667119301946.

DOI: https://doi.org/10.1016/j.cretres.2019.104308.

Fonte e legenda da imagem de capa: Imagem em preto e branco, exibindo um desenho de linhas preto do crânio assimétrico do fóssil UALV 55900 visto de cima, sobreposto sobre o mesmo desenho, espelhado e na cor branca. O fundo é composto por dois tons de cinza diferentes dividindo metades iguais da imagem no sentido vertical, “dividindo” o desenho do crânio. Acima, há o texto “Styracosaurus HANNAH”, dentro de um retângulo claro.

Disponível em: https://www.sciencedirect.com/science/article/abs/pii/S0195667119301946.


Texto revisado por: Ítalo Augusto de Oliveira Barboza, Sandro Ferreira de Oliveira e Alexandre Liparini.

Divulgação Científica de Paleontologia no mundo Pokémon

Escrito em: 17 de abril de 2026

Por: Sandro Ferreira de Oliveira

A paleontologia é uma área que desperta bastante interesse nas pessoas, sejam crianças ou adultos, independente da faixa etária, todos ficam fascinados pelas características únicas dos seres pré-históricos. Por meio da indústria cinematográfica essa área começou a ganhar mais destaque a partir do final do século XX. Com o lançamento do filme “Jurassic Park — Parque dos dinossauros” em 1993, a popularidade da paleontologia tomou proporções jamais vistas e essa popularidade persistente até os dias atuais, com filmes que marcam gerações, tais como “Dinossauro (2000)”, a franquia Jurassic World com o último lançamento em 2025 e o filme animado “O Bom Dinossauro” da Disney. Também podem se destacar séries e documentários como a série de animação “Em Busca do Vale Encantado”, a série britânico-americana de documentário “Prehistoric Planet” (a primeira a apresentar um dinossauro brasileiro) e uma recente série que destaca os fósseis brasileiros “Dinos do Brasil”, que destaca a grande relevância da área em nosso país. Quando a série animada “Pokémon” foi lançada, o seu design carismático e a representação de animais, plantas e objetos animados cativou tanto os espectadores que praticamente todas as pessoas de hoje em dia conhecem esse desenho animado. Dentre todos os monstrinhos, alguns deles são considerados fósseis, que morreram há muito tempo e seus restos foram conservados em rochas, que podem ser reanimados com tecnologias, ideia parecida com a de Jurassic Park, que impacta diretamente no imaginário das pessoas. Baseado nessas informações, um trabalho feito por pesquisadores da UFRJ estabeleceu comparações morfológicas entre os Pokémons fósseis e seus respectivos organismos reais, abrangendo todas as gerações até a VI.Os Pokémons omanyte e sua evolução omastar são inspirados em amonoides, grupo extinto de moluscos cefalópodes. O Pokémon omanyte possui pouca quantidade de caracteres, o que dificulta a identificação completa, enquanto que sua evolução foi inspirada em Spinikosmoceras aculeatum. Os Pokémons kabuto e sua evolução kabutops são inspirados no grupo extinto dos trilobitas, baseados nas espécies Phacops sp. e Panduralimulus babcocki respectivamente. As espécies Anomalocaris canadenses e Anomalocaris saron foram as inspirações para se criar o anorith e sua evolução armaldo. Já os Pokémons lileep e cradily foram inspirados no gênero Eretmocrinus sp. uma espécie da classe Crinoidea. Passando agora para os vertebrados, nós iniciamos apresentando tirtouga e sua evolução carracosta, que representam o gênero Protostega, que por sua vez, possui apenas uma única espécie descrita de tartaruga marinha pré-histórica, a Protostega gigas. O aerodactyl deve ser um dos mais chamativos e embora se pareça muito com um pterossauro, suas características quiméricas dificultam sua precisão, podendo ser um pterossauro basal ou um grupo irmão do clado, mas pode-se ressaltar algumas características de Rhamphorhynchidae que são semelhantes ao aerodactyl, como o quarto dígito alongado com uma membrana ligada ao corpo. Cranidos é inspirado em Pachycephalosaurus wyomingensis e a principal característica da espécie é a cabeça dura, tendo como principal hipótese de função a luta para dominar território e conseguir parceiros sexuais, sua evolução rampardos é inspirada em Stygimoloch spinifer. Os Pokémons shieldon e a evolução bastiodon foram criados baseados em ceratopsídeos, Protoceratops andrewsi e Chasmosaurus russelli respectivamente. Os Pokémons tyrunt e tyrantrum são representados pelo famoso Tyrannosaurus rex e sem deixar de fora os saurópodes temos amaura e aurorus, baseados na curiosa espécie Amargasaurus cazaui que chama muita atenção pelo estrutura em forma de leque sobre o pescoço e dorso. Por fim, archen e a evolução dele, arqueops, são baseados na espécie de dinossauro aviano mais antiga e popular do mundo, o Archaeopteryx lithographica. A sistemática de Pokémon é bastante empregada como ferramenta de divulgação científica, pois os táxons analisados no trabalho possuem uma grande variedade de caracteres anatômicos, isso fez com que todos os grupos apresentados se enquadrem no reino Animalia, mesmo com alguns sendo considerados pela franquia como pertencentes ao reino Plantae, pode-se perceber essa evidência devido a possibilidade de associação de características seguindo o sistema de classificação zoológica utilizada pelos sistematas. Vale ressaltar que o grande sucesso de bilheteria produzido pelo conteúdo de paleontologia na indústria cinematográfica proporcionou indiretamente um maior financiamento na área científica, com mais fósseis sendo descobertos. Além disso, o número de estudantes apaixonados pela área cresceu a partir de então, dessa forma podemos ver diretamente a importância do papel da divulgação científica como interface entre ciência e cultura. Novos Pokémons fósseis foram criados ao longo da franquia, e com eles foram apresentadas teorias de sua evolução e adaptação, além disso, existem pokémons que não se enquadram como fósseis que foram inspirados em seres pré-históricos da vida real que podem ser discutidos em um outro trabalho futuro.

Texto fonte: HÖRMANSEDER, Beatriz Marinho; REZENDE, João; AGUIAR, Marina; SOUZA, Lucy. (2019). A paleontologia de Pokémon como ferramenta para a divulgação científica. A Bruxa. 3(2): 1-20.

Disponível em: https://www.researchgate.net/publication/338607542_A_paleontologia_de_Pokemon_como_ferramenta_para_a_divulgacao_cientifica.

Fonte e legenda da imagem de capa: Imagem ilustrativa criada por Inteligência Artificial com edições e adaptações para mostrar um ambiente com pokémons fósseis realizando interações.

Disponível em: Imagem gerada por Gemini.


Texto revisado por: Sandro Ferreira de Oliveira.

Plantas Fósseis: O Que a Paleobotânica nos Ensina Sobre o Amanhã

Escrito em: 08 de dezembro de 2024

Por: Eduarda Fantini

*Texto publicado também no espaço biótico <confira aqui

Você já pensou que as plantas fósseis podem ser como máquinas do tempo? Elas guardam informações valiosas sobre como o clima da Terra mudou ao longo de milhões de anos e como a vegetação respondeu a essas transformações. Cientistas que estudam paleobotânica — ramo da ciência dedicado ao estudo de plantas fósseis — estão descobrindo lições surpreendentes para entender o futuro do nosso planeta. Afinal, será que os eventos climáticos extremos do passado podem nos ajudar a prever o que está por vir em tempos de mudanças climáticas aceleradas?

A história climática da Terra está profundamente conectada às mudanças atmosféricas e aos eventos geológicos de sua escala de tempo. Durante o Carbonífero (há cerca de 360 a 300 milhões de anos), o planeta experimentou níveis excepcionalmente baixos de dióxido de carbono (CO2), enquanto vastas florestas tropicais dominavam áreas equatoriais. Essas florestas formaram os grandes depósitos de carvão que conhecemos hoje. A capacidade das plantas de sobreviver a esse período de “icehouse”, com baixas temperaturas globais e extensas geleiras, destaca sua notável resiliência.

No entanto, a história da Terra não foi apenas de frio. Durante o Máximo Térmico do Paleoceno-Eoceno (PETM), cerca de 56 milhões de anos atrás, as temperaturas médias subiram até 5°C em poucas dezenas de milhares de anos. Esse aquecimento foi causado pelo aumento abrupto de CO2 na atmosfera, resultado de atividade vulcânica e a liberação de metano dos fundos oceânicos. Surpreendentemente, florestas tropicais, em vez de colapsarem, prosperaram e expandiram sua diversidade, mostrando uma resiliência notável em face de condições extremas das altas temperaturas.

Por outro lado, o bioma tundra, predominante nas regiões polares atualmente, é um dos mais ameaçados tendo em conta o aumento de CO2 atmosférico. Durante o Eoceno (entre 56 e 34 milhões de anos atrás), os pólos eram cobertos por densas florestas, e o gelo era praticamente inexistente. Isso reflete o impacto da amplificação polar. Outro ponto crítico é a velocidade das mudanças climáticas. No Triássico (há cerca de 200 milhões de anos), durante a extinção em massa no final do período, a liberação massiva de CO2 devido à atividade vulcânica levou a aquecimentos graduais que permitiram às plantas migrarem para regiões mais favoráveis. No entanto, a velocidade desse evento é insignificante se comparada ao ritmo das mudanças climáticas do “Antropoceno” (Holoceno), o que pode dificultar a adaptação das plantas no futuro.

Além disso, períodos como o Mesozoico (entre 252 e 66 milhões de anos atrás) testemunharam a evolução de adaptações importantes nas plantas, incluindo a proliferação das angiospermas (plantas com flores), que eventualmente dominaram os ecossistemas terrestres. Essas mudanças mostram a incrível capacidade das plantas de se diversificarem e responderem às condições climáticas em constante transformação.

O que o registro fóssil nos ensina é que, embora as plantas tenham sobrevivido a períodos de intensa mudança, o ritmo atual das alterações climáticas apresenta um desafio sem precedentes. As evidências destacam a necessidade de um futuro mais sustentável, em que a resiliência das plantas seja respeitada e as condições para sua adaptação sejam preservadas e, para isso, aprender com o passado é crucial para garantir um futuro em que a vegetação e os ecossistemas possam continuar desempenhando seu papel vital no planeta. As decisões que tomarmos hoje podem determinar se os biomas do futuro serão mais como as florestas tropicais resilientes ou as tundras desaparecidas do passado. 

Texto fonte: McElwain, J.C. (2018). Paleobotany and Global Change: Important Lessons for Species to Biomes from Vegetation Responses to Past Global Change. Annual Review of Plant Biology, v. 69, n. 1, p. 761-787. DOI: 10.1146/annurev-arplant-042817-040405.

Disponível em: https://www.annualreviews.org/doi/full/10.1146/annurev-arplant-042817-040405.

DOI: https://doi.org/10.1146/annurev-arplant-042817-040405.

Fonte e legenda da imagem de capa: Imagem ilustrativa demonstrando as mudanças de bioma do Eoceno à modernidade. À esquerda temos uma representação de como seriam as florestas tropicais do Eoceno em seu volume e vegetação. À direita uma representação de como seria o bioma tundra atualmente.

Disponível em: Imagem gerada por DALL·E, ferramenta de inteligência artificial da OpenAI, sem restrições de direitos autorais. Criada para fins educativos e de divulgação científica.


Texto revisado por: Sandro Ferreira de Oliveira e Alexandre Liparini.