Fossildiagênese: o que a preservação dos fósseis pode dizer sobre os paleoclimas

Escrito em: 25 de março de 2026

Por: Manuela dos Santos Rojas

Os estudos de restos de organismos e seus fósseis existem há séculos, assim como a paleontologia, propriamente dita. Apesar disso, a maior parte das observações a respeito dos processos de fossilização eram obtidas a partir de análises macroscópicas – ou seja, enxergando o espécime ao todo como uma figura. Estudos microscópicos detalhados de restos de vertebrados não são comuns, mesmo sendo uma maneira efetiva de inferir sobre o conjunto de alterações químicas e físicas sofridas pelos restos dos organismos desde o momento de soterramento até ao momento de sua coleta.

Diante desse problema, uma pesquisadora da UFOP, Ingrid Fernandes, reuniu 31 lâminas fósseis para avaliação sob microscópio óptico e difratometria de raios-X, a fim de caracterizar seus processos diagenéticos. Dentre os espécimes avaliadas, estão presentes vertebrados encontrados em cavernas carbonáticas das regiões de Minas Gerais e Bahia. Como resultado, seis processos eodiagenéticos (processos iniciais da diagênese), dois processos físicos e quatro químicos foram caracterizados, redescobrindo uma nova camada na história dos fósseis encontrados, que até então não tinha sido propriamente discutida.

O processo em destaque foi a incrustação. Trata-se de um processo de fossilização em que minerais contidos na água possuem seus restos esqueletais revestidos por crosta mineral, de pouca a nenhuma alteração no resto do organismo, isso explica o porquê dessa camada não ter sido percebida anteriormente. A incrustação foi identificada em 90% das amostras, sendo o processo mais diverso encontrado. Com diferentes minerais/materiais se sobrepondo em camadas de diferentes espessuras, muitas vezes se repetindo, estes minerais foram cristalizados no local em que foram encontrados e não foram transportados. Essa sucessão de camadas parece refletir as variações paleoclimáticas enfrentadas pelos restos dos vertebrados durante sua estadia na caverna. Além de que as camadas calcárias possuem processo de formação semelhante ao de espeleotemas.

Caracterizado como eodiagênese, o processo de incrustação iniciou no momento em que o sedimento foi depositado, e possui relação direta com a proximidade dos sedimentos com a superfície. A combinação de mudanças de pH, saturação de íons e pressão de CO₂ e o equilíbrio termodinâmico em que o processo se consolidou até o momento de ser encontrado definem as alterações que as deposições e precipitações de minerais irão sofrer, conforme essas condições mudam periodicamente. Os minerais que foram precipitados podem ser compostos de elementos químicos oriundos do próprio local, como o cálcio e apatita presentes dos registros ósseos, ou trazidos por fluídos, tal como o movimento de água e umidade.

Com uma análise mineralógica mais precisa das camadas das incrustações encontradas, foi possível obter dados indiretos para especular sobre o ambiente climático em que elas foram formadas. Enquanto a precipitação de aragonita e óxidos/hidróxidos de ferro e manganês representam tempos mais secos, pois acontecem sob condições particulares de águas quentes e alta evaporação, a calcita e a calcita-magnesiana estariam vinculadas aos períodos mais úmidos, pois o fluxo constante de água favorece sua precipitação. 

A fossildiagênese reflete a busca de equilíbrio entre o os restos fósseis e o meio. Compreender esse processo é fundamental para interpretar como se deu sua preservação. A análise mais profunda desses registros permite uma visualização do ambiente em que esses organismos possam ter vivido e das alterações de condições que esse mesmo ambiente passou após o sepultamento final do organismo. Dessa forma, portas para a paleontologia são abertas, gerando oportunidades de descrever as histórias dos registros fósseis encontrados e de um mundo que não conhecíamos.

Texto fonte: FERNANDES, Ingrid. (2020). Processos de preservação de fósseis de vertebrados quaternários coletados em cavernas carbonáticas de Minas Gerais e Bahia. 132 f. Monografia (Graduação em Engenharia Geológica) – Escola de Minas, Universidade Federal de Ouro Preto, Ouro Preto, 2020.

Disponível em: http://www.monografias.ufop.br/handle/35400000/2545.

DOI: http://www.monografias.ufop.br/handle/35400000/2545.

Fonte e legenda da imagem de capa: Fotomicrografias de exemplos de incrustações encontradas nas amostras analisadas. A (luz polarizada) e B (nicóis cruzados) – processo de incrustação por argilominerais e mosaico fino de calcita; amostra ESC-001; diâmetro do campo 60mm; C (luz polarizada) – processo de incrustação por mosaico fino e grosso de Trabalho de Conclusão de Curso, n.362. 2020. 31 calcita, este na forma de cristais prismáticos inequigranulares e anédricos; amostra ESC-093; diâmetro do campo 60mm; D (nicóis cruzados) – detalhe da incrustação de calcita prismática, amostra ESC-093; diâmetro do campo 4,5mm. Foto retirada do artigo original.

Disponível em: http://www.monografias.ufop.br/handle/35400000/2545.


Texto revisado por: Manuela dos Santos Rojas, Sandro Ferreira de Oliveira e Alexandre Liparini.

Maturin: A gigante de água doce da Amazônia brasileira

Escrito em: 04 de dezembro de 2024

Por Ana Eduarda Lino da Silva

É possível imaginar que a Amazônia brasileira já foi habitada por uma magnífica tartaruga de água doce com, aproximadamente, 180 cm de comprimento de carapaça? Prepare-se para se surpreender, pois uma pesquisa recente, realizada por diversos pesquisadores, incluindo das universidades brasileiras UFMG e USP, e publicada pela The Royal Society, nos trouxe essa incrível descoberta.

As análises do fóssil de uma mandíbula inferior parcial da tartaruga nos leva a supor que há similaridade com espécies amazônicas existentes e já descritas, como a Peltocephalus dumerilianus, a tartaruga-cabeçuda do Amazonas. Uma comparação mostrou que esta espécie possui características que apareceram também no fóssil encontrado, como a anatomia da mandíbula e do bico, com o padrão de seu bico córneo adaptado para uma dieta onívora.

Sobre a localização, o fóssil foi encontrado e coletado por garimpeiros no sítio Pedreira Taquaras, em Porto Velho (RO), da Formação Rio Madeira, e pertence a uma tartaruga gigante de água doce da Amazônia brasileira. O nome escolhido para essa espécie é bastante curioso: Peltocephalus maturin sp. nov., uma vez que de acordo com os pesquisadores, maturin se refere à tartaruga gigante que vomitou o universo nas histórias do escritor Stephen King, que por sua vez foram inspiradas no personagem Stephen Maturin que, no livro “HMS Surprise” da série “Aubrey-Maturin” de Patrick O’Brian, dá nome a uma tartaruga gigante.

A datação do fóssil foi feita por radiocarbono e apontou uma idade entre 14 e 9 mil anos (Época Holoceno) e, até agora, nenhum representante gigantesco deste grupo ecológico era conhecido após o Mioceno, afirmam os pesquisadores. Por fim, uma hipótese que pode explicar a extinção da gigante, assim como de outras espécies da megafauna no fim do Pleistoceno, é que esta tenha coexistido com as civilizações indígenas americanas e sofrido com a superexploração humana, principalmente para a alimentação. Contudo, mais pesquisas são necessárias para embasar esta suposição.

Fonte e legenda da imagem de capa:  Representação da tartaruga gigante da Amazônia brasileira, Peltocephalus maturin sp. nov..

Disponível em: Site CNN Brasil (https://www.cnnbrasil.com.br/tecnologia/fossil-revela-tartaruga-gigante-que-viveu-na-amazonia-ha-40-mil-anos/), por Júlia d‘Oliveira/Universidade de Tubingen

Texto fonte: FERREIRA, G. S.; NASCIMENTO, E. R.; CADENA, E. A.; COZZUOL, M. A.; FARINA, B. M.; PACHECO, M. L. A. F.; RIZZUTTO, M. A.; LANGER, M. C. The latest freshwater giants: a new Peltocephalus (Pleurodira: Podocnemididae) turtle from the Late Pleistocene of the Brazilian Amazon. Biology Letters, [s.l.], v. 20, n. 2, p. 1-5, 2024.

Disponível em: https://royalsocietypublishing.org/doi/10.1098/rsbl.2024.0010. Acesso em: 04 dez. 2024.

DOI: 10.1098/rsbl.2024.0010.


Texto revisado por: Eric Issao Inamura e Alexandre Liparini.

Os jardins de infância paleontológicos dos tubarões brancos

Escrito em: 06 de dezembro de 2024

Por Isabelle C. dos Reis

Você já ouviu falar do Tubarão-branco? Esse é o nome popular do Carcharodon carcharias, uma espécie de tubarão lamniforme (animais que pertencem à classe Chondrichthyes). Esses animais são encontrados em praticamente todo o globo, apesar de serem mais frequentes em mares de regiões temperadas. Eles são os peixes cartilaginosos mais longevos, podendo viver 70 anos ou mais. São animais grandes podendo atingir de 4 a 6 metros de comprimento, e considerados como um dos maiores predadores marinhos. 

Apesar de serem predadores de topo de cadeia alimentar em muitos ambientes marinhos, esses animais apresentam um hábito social interessante: a existência de “berçários”. Esses berçários são regiões onde os indivíduos imaturos nascem, crescem e residem até atingirem a maturação sexual, oferecendo aos espécimes jovens recursos alimentares abundantes e proteção contra predação.  

Os tubarões brancos são animais com origem no registro fóssil que remontam ao início do período Neógeno, há 23,03 milhões de anos atrás. Apesar de possuírem um rico registro fóssil de indivíduos adultos (compostos majoritariamente por dentes), a preservação das fases de vida mais jovens é muito rara. O conhecimento sobre a localização dos berçários e o comportamento das fases juvenis desses animais na natureza já são bem limitados atualmente, e quando se trata de registros paleontológicos essas informações são quase nulas.  

No entanto, uma pesquisa conduzida por pesquisadores da Universidade de Viena e outras universidades e centros de pesquisa do Chile, descobriu a primeira evidência da existência de berçários fósseis dos tubarões brancos em regiões da América do Sul. O achado elucidou a ocorrência de berçários paleontológicos que datam da época Plioceno, entre 5,33 e 2,58 milhões de anos atrás, localizados na Formação Coquimbo, no Chile.      

A localidade de Coquimbo apresentou um rico registro de restos fósseis de indivíduos filhotes e juvenis, além de restos de outros peixes, que podem ter servido como alimento para os tubarões imaturos, apresentou também fósseis de invertebrados e vertebrados marinhos de águas tipicamente rasas, expondo a possibilidade de essa formação ter sido uma área marinha rasa, protegendo, assim, os jovens dos ataques de predadores maiores, coisa que também é observada nos berçários atuais.  

A descoberta dessas regiões de berçários paleontológicos dos tubarões brancos é um grande achado, que nos possibilita desvendar detalhes evolutivos dessa espécie, comparar  os padrões comportamentais desses indivíduos no passado e presente e compreender a diversidade biológica e a ecologia desses animais do passado geológico do planeta Terra.

Fonte e legenda da imagem de capa: 

Autoria Própria.

Representação de um berçário de Tubarão branco na época Plioceno, na Formação Coquimbo, contendo exemplares de filhotes e juvenis de Tubarão branco e outras espécies encontradas na mesma região e época. Imagem meramente ilustrativa e sem representação de escala exata.  

Texto fonte: Villafaña, J.A., Hernandez, S., Alvarado, A. et al.(2020). First evidence of a palaeo-nursery area of the great white shark. Sci Rep 10, 8502 . https://doi.org/10.1038/s41598-020-65101-1. 

Disponível em: https://www.nature.com/articles/s41598-020-65101-1#Abs1, acessado em: 05/12/2024


Texto revisado por: Fernanda Moreira Batitucci e Alexandre Liparini.

Incrível Descoberta Cambriana: Um ‘Verme Nadador’ Gigante Revoluciona a Paleontologia

Escrito em: 08 de dezembro de 2024

Por: Lara Cunha Mello Martins

Novo ilustre fóssil encontrado na Formação Pioche, em Nevada, Estados Unidos. Intitulado de Mobulavermis adustus, este organismo faz parte de um grupo de animais bem diferentes do que estamos acostumados! Os icônicos lobopódios! Um grupo ancestral que é muito próximo dos artrópodes modernos, representando uma possível transição entre os vermes e os artrópodes. Não me leve a mal, já eram conhecidos outros lobopódios, mas o Mobulavermis é considerado bastante especial, uma vez que é descrito como o maior de sua classe, além de possuir um número recorde de nadadeiras laterais!

Esses animais possuíam uma forma bem parecida com as arraias que conhecemos hoje, com o corpo bem alongado e bastante flexível. Além disso, esse grande número de nadadeiras facilitavam a movimentação desses “vermes” nas águas profundas do Cambriano. A descoberta do Mobulavermis adustus não só demonstra mais uma vez a diversidade e a ecologia desses animais marinhos antigos, como também redefine a maneira como entendemos a evolução dos sistemas de locomoção dos artrópodes ancestrais.

O estudo, que foi liderado pelo pesquisador Christian McCall, além de descrever uma nova espécie, propõe o estabelecimento de uma família totalmente nova, chamada de Kerygmachelidae que abriga o Mobulavermis e outros lobopódios semelhantes. O autor enfatiza que “Esta espécie desempenha um papel crucial na compreensão da complexidade da evolução dos primeiros artrópodes”, demonstrando, dessa forma, que ainda há muitos segredos sobre a vida cambriana a serem desvendados que impactam nossos conhecimentos dos ecossistemas modernos de maneiras que nem imaginamos…

Texto fonte: McCall CRA. A large pelagic lobopodian from the Cambrian Pioche Shale of Nevada. Journal of Paleontology. 2023;97(5):1009-1024.

Disponível em: https://www.cambridge.org/core/journals/journal-of-paleontology/article/large-pelagic-lobopodian-from-the-cambrian-pioche-shale-of-nevada/11B0704C49A7730AA3E8F46EB2CA1C95

DOI: 10.1017/jpa.2023.63

Legenda da imagem de capa: Reconstrução digital do Mobulavermis adustus nadando no Cambriano

Disponível em: https://www.cambridge.org/core/journals/journal-of-paleontology/article/large-pelagic-lobopodian-from-the-cambrian-pioche-shale-of-nevada/11B0704C49A7730AA3E8F46EB2CA1C95


Texto revisado por: Tiago Lopes Siqueira.

Mexendo em time que está ganhando

Escrito em: 07 de dezembro de 2024

Por: Pedro Marzano

“Não se mexe em time que está ganhando” é um ditado popular e é, certamente, muito sábio. Mas, como de costume, a biologia gosta de desafiar as regras que nós, humanos, gostamos de aplicar.

Você, provavelmente, ouviu falar do trilobita, um artrópode extinto cujo charme cativa, não só pesquisadores, mas qualquer um que se depara com alguma imagem deste bicho. A questão é: quando falamos do trilobita, na verdade, estamos falando dos trilobitas. Porque, na realidade, estes animais formaram um grupo imenso com, literalmente, milhares de espécies descritas. E isso apenas a partir do registro fóssil!

Continuar lendo “Mexendo em time que está ganhando”

Paleobiologia da Conservação: Lições do Passado para Salvar o Futuro

Escrito em: 05 de dezembro de 2024

Por: Luana Maria Silva

A paleontologia é a ciência que estuda a terra, os seres vivos e a biodiversidade ao longo do tempo. Ela possui diversas áreas, e por vezes é confundida como uma ciência que estuda somente o passado. Mas sabia que, assim como outras ciências que estudam a história da terra, a paleontologia busca aplicar este conhecimento no presente?

Existem diversas áreas dentro da paleontologia, uma delas é a Paleobiologia da Conservação. O campo da Paleobiologia da Conservação, ou PBC do inglês, Conservation Paleobiology, engloba cientistas de diversas áreas como Paleoclimatologia, Ecologia da Conservação,  Arqueologia, etc. Esse campo tem como foco o estudo de diferentes organismos, que podem variar desde plantas, a animais e inclusive os seres humanos que viveram em diversos períodos de tempo, comparados e aplicados à terra no presente e os impactos dos mesmos na atualidade.

O tempo abordado pela Paleobiologia da Conservação pode variar de acordo com a linha de pesquisa do cientista. O tempo dentro da Paleontologia é extremamente importante, é como um quebra cabeças que contém a história da vida, e precisa ser encaixado cuidadosamente. Nossa Terra já foi palco de cenários completamente diferentes dos que vivenciamos na atualidade, seja pelo calor e nenhuma forma de vida do Hadeano, que foi a mais de bilhões de anos, ou pelo frio da última era glacial. E saber qual período de tempo está sendo referenciado em seu estudo é como encaixar uma informação, cuidadosamente, no grande quebra cabeça da terra.

O período de tempo estudado pela Paleobiologia da Conservação são períodos que vão até centenas de milhões de anos. Embora a menção da palavra ‘milhões’ pareça muito tempo, isso pode ser considerado um estudo de períodos mais recentes. Pois devemos nos lembrar que nosso planeta possui bilhões de anos.

Os estudos apontam pontos relevantes, como relações entre o clima da terra a milhões de anos e seu clima hoje, e como isso pode ajudar a entender os processos de mudanças climáticas. Mas em termos práticos ainda falta treinamento para conectar estas ideias a profissionais e gerar impactos práticos, como novas políticas de manejo ecológico, propostas econômicas para redução de impacto ambiental, ou até mesmo ações de educação ambiental e ciência cidadã, etc. A quantidade de áreas englobadas na PBC leva muitos a definirem esta área como transdisciplinar, pois embora seja um braço da Paleontologia, esta vertente precisa de conhecimentos de Ecologia, Climatologia, Arqueologia, Biogeografia, Ciências Sociais, etc. Portanto, é difícil encontrar pessoas que estejam familiarizadas e qualificadas em todas estas áreas, logo, parte da distância entre acadêmicos e profissionais se deve a falta de pessoas capacitadas em todas estas áreas.

Os objetivos de estudo da PBC passam por todos os seres vivos, sociedade humana, clima e as formações geológicas e precisa de diversos profissionais para atuar na área. Portanto ainda é uma vertente jovem e que precisa de tempo para se consolidar totalmente.

Texto fonte:DILLON, Erin M.; PIER, Jaleigh Q.; SMITH, Jansen A.; RAJA, Nussaïbah B.; DIMITRIJEVIĆ, Danijela; AUSTIN, Elizabeth L.; CYBULSKI, Jonathan D.; DE ENTRAMBASAGUAS, Julia; DURHAM, Stephen R.; GRETHER, Carolin M.; HALDAR, Himadri Sekhar; KOCÁKOVÁ, Kristína; LIN, Chien-Hsiang; MAZZINI, Ilaria; MYCHAJLIW, Alexis M.; OLLENDORF, Amy L.; PIMIENTO, Catalina; REGALADO FERNÁNDEZ, Omar R.; SMITH, Isaiah E.; DIETL, Gregory P., 2022, What is conservation paleobiology? Tracking 20 years of research and development, Front. Ecol. Evol., 06 December 2022 Sec. Paleoecology Volume 10 – 2022 

Disponível em: https://www.frontiersin.org/journals/ecology-and-evolution/articles/10.3389/fevo.2022.1031483/full?trk=organization_guest_main-feed-card_feed-article-content em 06/12/2024

DOI:  https://doi.org/10.3389/fevo.2022.1031483

Fonte e legenda da imagem de capa: Michael Barera, CC BY-SA 4.0

Árvore da vida exibida em Museu Público de Milwaukee, em Milwaukee.

Disponível em: <https://creativecommons.org/licenses/by-sa/4.0>, via Wikimedia Commons


Texto revisado por: Ana Luísa Ferreira, Sandro Ferreira de Oliveira e Alexandre Liparini.

Possível Toca Fóssil de Peixe Pulmonado Descoberta em Minas Gerais: Implicações Paleobiológicas e Paleoambientais

Escrito em: 07 de dezembro de 2024

Por: Marcos Paulo Pimenta da Cruz

Pesquisadores brasileiros descobriram uma possível paleotoca atribuída a um peixe pulmonado na Formação Adamantina, no município de Ituiutaba – Minas Gerais. Essa formação geológica data do Cretáceo Superior (Turoniano-Santoniano, ~90 milhões de anos) e é conhecida por abrigar fósseis de dinossauros terópodes, crocodiliformes e outros vertebrados. 

No entanto, registros de paleotocas de vertebrados são pouco comuns e relativamente pouco estudadas nessas formações. Assim, essa descoberta fornece novas pistas sobre as condições ambientais e contribui para ampliar o registro fóssil local, evidenciando a possível existência de peixes pulmonados que podem ter habitado a região há milhões de anos atrás.

Diversos organismos são capazes de escavar o solo, dando origem à buracos ou túneis,  geralmente utilizados como abrigo, permanente ou temporário, para reprodução ou proteção.  No caso de peixes pulmonados, essa adaptação é datada desde o Devoniano e a produção dessas tocas geralmente indica períodos de seca, em que esses animais escavavam o solo para se abrigar e sobreviver em estado de dormência, conhecido como estivação, reduzindo sua taxa metabólica e a necessidade por oxigênio.

A paleotoca encontrada apresenta uma forma simples, semelhante a um frasco, medindo cerca de 35 centímetros de profundidade e 32 centímetros de largura e sua estrutura interna encontrava-se preenchida por sedimentos que se acumularam ao longo do tempo, possivelmente devido a inundações. Além disso, fragmentos ósseos foram encontrados em seu interior, no entanto, dados mostram que eles não são do animal que a escavou. 

A análise da paleotoca, bem como a análise sedimentar do local em que foi encontrada é de extrema importância, uma vez que os dados obtidos podem ajudar a esclarecer como era o clima local no passado, assunto que é amplamente debatido. Nesse sentido, a descoberta reforça hipóteses anteriores de que o clima na região da Formação Adamantina era predominantemente seco, com episódios ocasionais de inundação. 

Além disso, ainda que estudos mais detalhados sejam necessários, atribuir a toca à um peixe pulmonado é de grande relevância para reconstruir os antigos ecossistemas de nosso país e compreender como diferentes espécies interagiam com o ambiente, além de ampliar o registro desse grupo na formação geológica em questão, o que enriquece ainda mais a paleofauna brasileira e contribui para o melhor entendimento da mesma.

Texto fonte: Rangel, C. C., Francischini, H., Rodrigues, S. C., Netto, R. G., Buck, P. V., & Sedorko, D. (2022). A possible lungfish burrow in the Upper Cretaceous Adamantina Formation (Bauru Basin, Brazil) and its paleoecological and paleoenvironmental significance. Revista Brasileira De Paleontologia, 25(3), 167–179. https://doi.org/10.4072/rbp.2022.3.01.

Disponível em: https://sbpbrasil.org/publications/index.php/rbp/article/view/336.

DOI: https://doi.org/10.4072/rbp.2022.3.01.

Fonte e legenda da imagem de capa: Figura 1 do artigo. Registro da paleotoca e localização em que foi encontrada.

Disponível em: https://sbpbrasil.org/publications/index.php/rbp/article/view/336.


Texto revisado por: Ítalo Augusto de Oliveira Barboza, Sandro Ferreira de Oliveira e Alexandre Liparini.

Por que os Tiranossauros não Conseguem se Abraçar?

Escrito em: 06 de dezembro de 2024

Por: Larissa Assaf

A hipótese do uso e desuso propõe que os braços dos tiranossauros foram reduzidos ao longo do tempo porque simplesmente deixaram de ser úteis. À medida que esses dinossauros se especializaram em caçar grandes presas, suas necessidades de mobilidade e força nas patas traseiras e mandíbulas se tornaram mais importantes do que o uso dos braços. Com o tempo, os membros anteriores foram se tornando desnecessários para a caça e outras atividades. A ideia é que, sem um uso constante, os braços sofreram uma redução gradual, já que a seleção natural favoreceu dinossauros com membros menores, mais eficientes para suas novas necessidades. Isso levanta a questão: será que indivíduos com braços maiores não teriam a mesma vantagem evolutiva?

A hipótese nula, por sua vez, sugere que a redução dos braços dos tiranossaurídeos pode não ter sido motivada por uma necessidade específica. Em vez de um processo de adaptação para uma função específica, a diminuição dos membros poderia ser um efeito secundário de outras mudanças evolutivas. Em outras palavras, os braços podem ter diminuído sem uma pressão seletiva clara para isso. Essa hipótese defende que a evolução nem sempre segue uma lógica de otimização funcional, e que a redução dos braços pode ter ocorrido sem trazer um benefício direto para a sobrevivência ou reprodução do animal.

Uma terceira hipótese, chamada de hipótese de troca de desenvolvimento, sugere que a redução dos braços foi uma consequência de uma “troca” evolutiva, nesse processo os recursos energéticos para o desenvolvimento do T. rex foram redirecionados para outras partes do corpo, como a cabeça e a mandíbula. Como esses dinossauros precisavam de uma mordida extremamente poderosa para caçar grandes presas, a evolução pode ter favorecido características como um crânio maior e dentes mais fortes, em detrimento do desenvolvimento de membros anteriores maiores. Essa troca de prioridades evolutivas pode ter levado à redução dos braços, já que a mordida se tornou a principal arma de caça e os braços se tornaram cada vez mais dispensáveis.

Uma teoria recente, proposta pelo paleontólogo Kevin Padian, sugere que a redução dos braços pode ter sido uma adaptação para evitar ferimentos durante a alimentação em grupo. Tiranossauros, com suas cabeças e mandíbulas enormes, alimentavam-se de carcaças e, por isso, poderiam dar mordidas acidentais uns nos outros. Se os braços fossem maiores, haveria mais chances de serem atingidos por uma mordida fatal. A redução dos membros anteriores, portanto, poderia ter minimizado o risco de lesões durante esses momentos de alimentação intensiva.

Um grupo de Tiranossauros comendo uma carcaça.

Essas teorias ilustram a complexidade da paleobiologia do T. rex e a dificuldade de entender as funções anatômicas de estruturas em espécies extintas. A pesquisa continua avançando, oferecendo novas perspectivas sobre a vida desses antigos predadores. Mas e você, qual sua opinião sobre os pequenos braços do T. rex?

Texto fonte: DE MELO ALBERTO, G.; BEZERRA, F. I.; GIUPPONI, A.; MENDES, M. (2023). A new specimen of whip scorpion (Arachnida; Thelyphonida) from the Crato Formation, Lower Cretaceous of Brazil. Revista Brasileira de Paleontologia, 26(3), 147–155.

Disponível em: https://sbpbrasil.org/publications/index.php/rbp/article/view/404/187.

Fonte e legenda da imagem de capa: Dois tiranossauros esfregando o focinho um no outro.

Disponível em: https://dinoplanet.com.br/2023/01/15/tiranossauro-rex-era-tao-inteligente-quanto-os-primatas-modernos-sugere-estudo-de-brasileira/.


Texto revisado por: Damiane Mello, Alexandre Liparini e Sandro Ferreira de Oliveira.

Novo espécime de Escorpião Chicote encontrado no Brasil

Escrito em: 04 de dezembro de 2024

Por: Gabrielle Caroline de Souza Dutra

Pesquisadores descobriram na Formação Crato, localizada na Bacia do Araripe, no Ceará, Brasil,  um novo espécime de escorpião-chicote, do Cretáceo, com aproximadamente 115 milhões de anos. Este fóssil, raro e incompleto, traz à tona uma descoberta notável: pela primeira vez, pulmões foliáceos foram identificados em fósseis dessa espécie. Até o momento, apenas quatro espécimes foram descritos, todos pertencentes ao gênero Mesoproctus, com a espécie Mesoproctus rowlandi Dunlop sendo a única formalmente identificada. 

Os escorpiões-chicote (Mesoproctus rowlandi) são aracnídeos mais próximos das aranhas que dos escorpiões. Eles podem ser reconhecidos por seus pedipalpos robustos (primeiro par de apêndices táteis) e um flagelo longo e fino que se assemelha a um chicote. São predadores noturnos, alimentando-se principalmente de insetos, milípedes, escorpiões e isópodes terrestres.

O fóssil encontrado, apresenta pernas estreitas e alongadas, com prosoma (parte anterior do corpo) e quelíceras (apêndices articulados que auxiliam na alimentação) visíveis como uma impressão bidimensional. O opistossoma (parte posterior do corpo) é alongado, e os seus pedipalpos são grandes, robustos e bem desenvolvidos, e seu pigídio (extremidade posterior do corpo) é bem estruturado e seguido por um flagelo típico da espécie.

Embora o fóssil esteja incompleto, ele é de tamanho superior em relação aos espécimes que foram descritos anteriormente, e é possível observar pela primeira vez, a presença de pulmões em fósseis de escorpiões-chicote. Apesar da preservação incompleta, é possível associar este fóssil a espécie Mesoproctus rowlandi com base nas semelhanças morfológicas e ao fato de já ter sido registrada na mesma formação. No entanto, a falta de detalhes dificulta uma identificação taxonômica mais precisa, dessa forma, compreende-se a necessidade de investimentos na área da paleontologia para que haja novos estudos e consequentemente novas descobertas na ciência

Texto fonte: DE MELO ALBERTO, G.; BEZERRA, F. I.; GIUPPONI, A.; MENDES, M. (2023). A new specimen of whip scorpion (Arachnida; Thelyphonida) from the Crato Formation, Lower Cretaceous of Brazil. Revista Brasileira de Paleontologia, 26(3), 147–155.

Disponível em: https://sbpbrasil.org/publications/index.php/rbp/article/view/404/187.

Fonte e legenda da imagem de capa: Fotografia microscópica de LP/UFC CRT 2798, Mesoproctus rowlandi. Barra de escala = 5 mm.

Disponível em: https://sbpbrasil.org/publications/index.php/rbp/article/view/404/187.


Texto revisado por: Ruan Honorato Marzano Cintra, Alexandre Liparini, Sandro Ferreira de Oliveira.

Paleobiogeografia Ordoviciana da Subordem Cheirurina (Trilobita)

Escrito em: 08 de dezembro de 2024

Por: Thalita Cardoso Hott

O artigo aborda a paleobiogeografia da subordem Cheirurina, um grupo diversificado de trilobitas, durante o período Ordoviciano (485,4 a 443,8 milhões de anos atrás). Este grupo teve ampla distribuição geográfica e desempenhou um papel importante nos ecossistemas marinhos. A pesquisa investiga como fatores como tectônica de placas e mudanças climáticas moldaram a distribuição desses organismos, utilizando ferramentas como cluster hierárquico e escalonamento multidimensional não métrico (NMDS) para identificar padrões de dispersão e reorganização ao longo do tempo.

No início do Ordoviciano (Tremadociano), as faunas de Cheirurina eram altamente isoladas, devido ao grande afastamento entre os continentes. Três províncias principais foram identificadas: Alta Latitude, Latitude Intermediária e Baixa Latitude. Cada província era caracterizada por grupos específicos, como Anacheirurus na Alta Latitude, Parapilekia na Latitude Intermediária e Pilekia na Baixa Latitude. O isolamento geográfico resultava em alto endemismo, com espécies restritas a poucas regiões.

Com o passar do tempo, os continentes começaram a se mover, reduzindo as barreiras geográficas. Avalônia e Báltica se aproximaram de Laurentia, enquanto a China do Sul migrou para áreas tropicais. Esses movimentos tectônicos promoveram o intercâmbio faunístico entre regiões, transformando as províncias existentes. Durante o Floiano ao Darriwiliano, quatro grandes províncias biogeográficas surgiram: Alta Latitude, Baixa Latitude Gondwana, Baixa Latitude Laurentia-Sibéria e a Província Báltica. Essas novas províncias eram mais amplas e conectadas, mas ainda apresentavam diferenças faunísticas notáveis.

No final do Ordoviciano (Katiano), o cenário mudou novamente. A redução contínua do isolamento geográfico, combinada com eventos climáticos, como o aquecimento global associado ao Evento Boda, resultou em um aumento significativo no cosmopolitismo. As províncias de Alta Latitude, Baixa Latitude Gondwana e Baixa Latitude Laurentia-Sibéria permaneceram, mas com composições faunísticas mais integradas. Já a Província Báltica perdeu sua identidade distinta, sendo absorvida pelas faunas de Laurentia e Gondwana.

Mudanças climáticas também desempenharam papéis importantes. No Darriwiliano, uma grande transgressão marinha expandiu habitats e conectou áreas antes isoladas. No Katiano, o aquecimento permitiu que faunas tropicais colonizassem regiões de alta latitude. Esses eventos moldaram a biodiversidade e ajudaram a integrar as faunas globais.

O estudo destacou a redução progressiva do endemismo ao longo do Ordoviciano. No início, as espécies eram limitadas a poucas regiões. Com o tempo, o aumento da conectividade resultou em uma fauna mais integrada e cosmopolita. Essas transformações refletem processos evolutivos globais e ajudam a compreender o Grande Evento de Biodiversificação Ordoviciana (GOBE), um marco no aumento da diversidade marinha impulsionado por mudanças paleogeográficas e climáticas.

Texto fonte:   Pérez-Peris, Francesc; Adrain, J.M.; Daley, A.C. (2024). Ordovician paleobiogeography of the Suborder Cheirurina (Trilobita). Palaeogeography, Palaeoclimatology, Palaeoecology, v. 647, n.112222, ISSN 0031-0182.

Disponível em: https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0031018224002116, acesso em 08 de abril de 202.

DOI: https://doi.org/10.1016/j.palaeo.2024.112222

Fonte e legenda da imagem de capa: Mapa paleogeográfico representando a distribuição dos continentes e oceanos durante o Período Ordoviciano, há aproximadamente 470 milhões de anos. As massas continentais, como Laurência, Sibéria, Báltica e Gondwana, estão localizadas em diferentes latitudes, evidenciando a configuração tectônica e climática que influenciou a biodiversidade marinha, incluindo os trilobitas da subordem Cheirurina. Os oceanos, como Pantalassa e Paleo-Tétis, desempenharam papel crucial na dispersão e isolamento das faunas.

Disponível em: https://www.invivo.fiocruz.br/cienciaetecnologia/extincao-em-massa-5-maiores/


Texto revisado por: Giulia Alves Viana e Alexandre Liparini.