Descobrindo os Segredos do Passado: O Fascinante Mundo da Paleobotânica

Escrito em: 24 de março de 2024

Por: Maria Campos

“Na natureza, nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”. Essa famosa frase de Lavoisier explica muito bem o interessante e pouco conhecido tema trazido hoje: a Paleobotânica. Porém, o que seria essa área e o que fazem os profissionais que trabalham nela?

Os paleobotânicos praticamente viajam no tempo e desvendam os mistérios da história da vida na Terra, como detetives do passado, usando fósseis vegetais para reconstruir o mundo como era há milhões de anos.

Já a paleobotânica é uma área da ciência que une conhecimentos da biologia e da geologia para estudar os restos de plantas fossilizadas encontradas em rochas sedimentares. Esses fósseis podem ser macroscópicos, como folhas, ramos e sementes, ou microscópicos, como grãos de pólen e esporos, e são como peças de um quebra-cabeça que nos ajudam a entender como era a vida no passado.

Ao analisar uma folha fossilizada, é possível descobrir como era a planta a que ela pertencia, e analisando grãos de pólen, torna-se possível a descoberta de ecossistemas inteiros. Os profissionais dessa área utilizam-se de técnicas muito avançadas para decifrar esses registros. 

Esses estudos não são apenas interessantes por si só, mas também têm importantes aplicações na compreensão da evolução da vida na Terra. Por exemplo, ao reconstruir a distribuição de plantas em diferentes períodos geológicos, os cientistas podem entender como os ecossistemas mudaram ao longo do tempo e como isso afetou outras formas de vida, incluindo os seres humanos.

Além disso, os fósseis vegetais podem nos ajudar a entender as mudanças climáticas do passado, já que as plantas são sensíveis às condições ambientais. Através da análise de características como a densidade de estômatos nas folhas, os paleobotânicos podem inferir informações sobre os níveis de dióxido de carbono na atmosfera em diferentes épocas da história da Terra.

Mas o trabalho dos paleobotânicos não se resume apenas a estudar o passado. Suas descobertas também têm importantes aplicações no presente, como na conservação da biodiversidade e na compreensão dos impactos das mudanças climáticas no meio ambiente.

Portanto, a paleobotânica é muito mais do que apenas estudar plantas fossilizadas. É uma jornada emocionante pelo tempo, que nos ajuda a entender de onde viemos e para onde estamos indo.

Texto fonte: MARQUES-DE-SOUZA, Juliane. Paleobotânica: o que os fósseis vegetais revelam?. Cienc. Cult., São Paulo , v. 67, n. 4, p. 27-29, Dec. 2015 . Available from http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0009-67252015000400011&lng=en&nrm=iso. access on 24 Mar. 2024.

Disponível em: http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0009-67252015000400011&lng=en&nrm=iso

DOI: http://dx.doi.org/10.21800/2317-66602015000400011.

Fonte e legenda da imagem de capa: Registro fossil da folhagem na região de Wayanad, Índia, uma janela que revela a riqueza da flora ancestral.

Disponível em: https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/1/1f/Wayan_foliage.jpg/640px-Wayan_foliage.jpg.


Texto revisado por: Ítalo Augusto de Oliveira Barboza, Sandro Ferreira de Oliveira e Alexandre Liparini.

Descoberta de Floresta Fóssil no Piauí

Escrito em: 27 de março de 2024

Por: Laura Amaral Máximo

O Brasil é rico em fósseis, e o Piauí guarda um tesouro que ainda está longe de ser totalmente explorado. No Sítio Paleobotânico São Benedito, pesquisadores encontraram dezenas de troncos fossilizados agrupados em uma mesma região, um verdadeiro registro de uma floresta petrificada que existiu há milhões de anos. Mas um problema surge quando a localização destes fósseis se encontram próximas a áreas urbanizadas e agrícolas, demonstrando a necessidade de uma legislação vigente para a proteção dessas estruturas fossilizadas, pois eles ficam mais vulneráveis à degradação.

Por isso, garantir proteção legal ao sítio é fundamental. Com uma duração de dois anos de pesquisa de campo, com a ajuda de GPS e registros detalhados, foram identificados cerca de 70 troncos fossilizados de antigas gimnospermas, plantas que produzem sementes sem produzirem flores ou frutos, algumas com até 1,80 m de comprimento.

A maioria está deitada sobre o solo, provavelmente devido à erosão ao longo do tempo, embora muitos ainda permaneçam próximos ao local onde crescera quando ainda estavam vivos, visto que os troncos possuem grande comprimento e diâmetro. Duas amostras já foram enviadas para a Universidade Federal do Piauí em Teresina para análises mais detalhadas, onde foram depositadas para estudos de suas sessões a procura por tecidos preservados.

Essas descobertas mostram que, no Paleozoico, a região era dominada por gimnospermas e que a área ainda pode esconder muitos outros fósseis. Isso torna o sítio extremamente importante para a paleobotânica brasileira. Por isso, proteger esse patrimônio é urgente. Próximo a áreas agrícolas, o sítio corre risco de degradação. Sendo um bem público, é essencial criar um plano de manejo e fortalecer a fiscalização para que essa floresta petrificada continue revelando segredos do passado.

Texto fonte: Domingas Maria da Conceição, Juan Carlos Cisneros, Roberto Iannuzzi.
(2016). Novo registro de floresta petrificada em Altos, Piauí: relevância e estratégias para geoconservação. Pesquisas em Geociências. v. 43 n. 3, p. 311-324.

Disponível em: https://seer.ufrgs.br/index.php/PesquisasemGeociencias/article/view/78242.

DOI: https://doi.org/10.22456/1807-9806.78242.

Fonte e legenda da imagem de capa: Tronco fossilizado encontrado de forma vertical no sítio paleobotânico, em provável posição de vida.

Disponível em: https://seer.ufrgs.br/index.php/PesquisasemGeociencias/article/view/78242.

Texto revisado por: Gabriela Azevedo, Sandro Ferreira de Oliveira e Alexandre Liparini.

A dieta de salada Nordestina da Megafauna Pleistocênica

Escrito em: 03 de abril de 2024

Por Bruno Bernardo Döhler

Na região árida do Nordeste do Brasil, encontramos lagos antigos preservados nas rochas que contêm muitos fragmentos de ossos de mamíferos gigantes que viveram na Era do Gelo. Alguns desses fragmentos eram de dentes, onde foi encontrado um tipo de mineral preservado em seu interior. Tal mineral pode nos ajudar a entender melhor o que esses animais comiam, já que a composição isotópica (o quanto de isótopos de cada elemento está presente na amostra) pode fornecer informações sobre as fontes de alimento dos organismos fósseis e consequentemente podem apontar evidências sobre o ambiente no qual esses organismos viveram. 

A partir disso, foram selecionadas três amostras de dentes encontradas na fazenda Ovo da Ema, escavadas de um dos tanques no Município de Maravilha – Alagoas. Os espécimes, que viveram durante a época do Pleistoceno (entre 2,6 Milhões e 11,7 mil anos atrás), eram os seguintes: Toxodon platensis, conhecido como Toxodonte; Stegomastodon waringi, conhecidos como Mastodontes sul-americanos; e Eremotherium laurillardi, conhecido como Preguiça Gigante. A partir dessas amostras, e com um maquinário chamado espectrômetro de massa (uma máquina que nos ajuda a identificar moléculas), foi possível determinar as razões de isótopos de carbono e oxigênio para se verificar o sinal biogênico.

Depois da análise, os cientistas chegaram à conclusão de que as razões dos isótopos de carbono do mineral do esmalte do dente fóssil retém o sinal associado com o consumo de vegetação do tipo C3 ou C4 no paleoambiente. As plantas C3 são responsáveis pela maior parte da produção fotossintética mundial e vivem em comunidades onde sombreamento, luminosidade e temperatura são médias, enquanto as plantas C4 são numerosas entre as gramíneas e dominam a vegetação dos desertos e campos nos climas temperados quentes e tropicais. 

Por fim, foi possível interpretar o que esses três mamíferos do pleistoceno costumavam comer. O Bicho Preguiça e o Mastodonte sul-americano possuíam uma alimentação predominantemente de C4, enquanto os Toxodontes consumiam ambas as plantas C3 e C4. Assim sugere-se que os dois primeiros se alimentavam de gramíneas e os Toxodontes, de plantas aquáticas, já que as gramíneas estavam cada vez mais escassas. Esse tipo de pesquisa e descoberta são de extrema importância para a paleontologia, já que assim conseguiríamos ter mais conhecimento sobre os hábitos de animais tão importantes para a história da Terra.

Texto fonte:  VIANA, M. S. S.; SILVA, J. L. L.; OLIVEIRA, P. V.; JULIÃO, M. S. S. (2011). Hábitos alimentares em herbívoros da megafauna pleistocênica no nordeste do Brasil. Estudos Geológicos, v. 21, n. 2, p. 89-95. 

Disponível em: https://periodicos.ufpe.br/revistas/index.php/estudosgeologicos/article/view/260922. Acesso em: 03/04/2024

Fonte e legenda da imagem de capa: Uma restauração dos meso-megamamíferos do Pleistoceno que habitam pastagens de Sergipe, Brasil. incluindo: Glyptotherium, Toxodon, Panochthus, Eremotherium, Holmesina e Pachyarmatherium. https://commons.wikimedia.org/wiki/File:A-Pleistocene-meso-megamammals-from-Sergipe-Brazil.jpg


Texto revisado por: Fernanda Moreira Batitucci e Alexandre Liparini.

Fóssil do menor pinguim existente é encontrado na Nova Zelândia

Escrito em: 03 de abril de 2024

Por: Bruna Nascimento Neiva

Em 2023, foram encontrados dois fósseis de crânios de pinguins pertencentes ao gênero Eudyptula. Estes fósseis remontam ao período Neógeno, cerca de 23 milhões de anos atrás, mais precisamente à idade do Piacenziano, há 3,6 milhões de anos, pertencente à época do Plioceno. Um dos fósseis corresponde a um pinguim adulto, enquanto o outro é de um juvenil. A coleta do material ocorreu em Taranaki, na Nova Zelândia, em uma formação geológica que é chamada de Tangahoe. É importante ressaltar que estes fósseis representam uma espécie já extinta do menor pinguim atualmente conhecido, ou seja, o menor pinguim do mundo só é encontrado no registro fóssil e os dados obtidos são de grande relevância devido à escassez de registros fósseis das aves desse gênero.

O espécime foi denominado Eudyptula wilsonae e é considerado ancestral do atual pinguim azul ou também conhecido como pinguim fada. Para a identificação das espécies de aves marinhas, foram realizadas medições nos crânios, bem como estimativas de idade baseadas na presença de suturas cranianas. Adicionalmente, foram conduzidas análises filogenéticas e morfométricas. Segundo o estudo, o fóssil apresenta um crânio ligeiramente mais estreito, porém outras características cranianas e a possível estatura do fóssil assemelham-se aos pequenos pinguins existentes na atualidade. Mesmo diante das mudanças ambientais ocorridas nos últimos 3 milhões de anos, características significativas permaneceram preservadas.
A descoberta desse fóssil fortalece a teoria que sugere que os pequenos pinguins do gênero Eudyptula têm suas origens na Nova Zelândia. Hoje em dia, os pinguins Eudyptula habitam tanto na Austrália quanto na Nova Zelândia, constituindo duas espécies distintas. Em síntese, essa pesquisa contribui de maneira significativa para a compreensão da história evolutiva desses pinguins e também destaca a importância de investigações mais detalhadas sobre essas aves.

Texto fonte: Thomas, Daniel B., Alan J.D. Tennyson, Felix G. Marx, and Daniel T. Ksepka. (2023). “Pliocene Fossils Support a New Zealand Origin for the Smallest Extant Penguins.” Journal of Paleontology 97(3): 711–21. doi: 10.1017/jpa.2023.30.

Disponível em: https://www.cambridge.org/core/journals/journal-of-paleontology/article/pliocene-fossils-support-a-new-zealand-origin-for-the-smallest-extant-penguins/A722D072F8EE3B5FC194A33EF7DBC47F.

Fonte e legenda da imagem de capa: A figura apresenta um comparativo entre o crânio da espécie fóssil descoberta e uma espécie de Eudyptula atual.

Disponível em: https://www.cambridge.org/core/journals/journal-of-paleontology/article/pliocene-fossils-support-a-new-zealand-origin-for-the-smallest-extant-penguins/A722D072F8EE3B5FC194A33EF7DBC47F.


Texto revisado por: Sandro Ferreira de Oliveira, Damiane Melo e Alexandre Liparini.

Paleontologia: Newton e os dinossauros

Escrito em: 28 de março de 2025

Por: Luiza Rizzo Mello

Esta pesquisa busca analisar e interpretar o estudo feito pelo departamento de Física da Universidade Federal de Sergipe, desenvolvido pelos estudantes Lucas Freitas Calheiros e Ana Figueiredo Maia. 

Uma das dificuldades no ensino de Física é fazer o aluno conectar o que foi ensinado em sala com o mundo a sua volta. Com isso em mente é relevante pensar que a interdisciplinaridade no ensino é uma ferramenta muito útil para construir um aprendizado mais significativo. Atividades que contemplem conexões com outras áreas do conhecimento contribuem para um entendimento da natureza e seus fenômenos de forma mais completa. Assim, o artigo científico em análise possui como objeto de estudo um material didático em formato audiovisual relacionando conteúdos de física com a paleontologia. 

Foram realizadas 5 videoaulas, com conteúdos de biomecânica e o comportamento de combate dos dinossauros, correlacionando com as Leis de Newton. Durante a primeira videoaula é feita uma introdução do tema de paleontologia, abordando suas bases biológicas e geológicas, com exemplos de dinossauros brasileiros (Angaturama e o Titanossauro) e, finalmente, é feita uma proposta de interação entre a Física e a Paleontologia. 

Durante o segundo vídeo o exemplo escolhido para exemplificar a soma de forças e aceleração é utilizada a biomecânica. Para iniciar a discussão sobre o tema de biomecânica foram disponibilizados momentos breves que retratam o combate de carneiros e bisões, a seguir são retratados outros exemplos que auxiliam em como a 1ª Lei de Newton se apresenta em cada situação. Ainda é incluído o exemplo de Pachycephalosaurus wyomingensise e Prenocephale prenes dinossauros que possuíam uma cabeça com uma calota muito espessa relacionada a um possível hábito de dar cabeçadas uns nos outros. Além disso, o professor pode seguir um roteiro opcional dado pelos pesquisadores que ajudará no domínio do tema e aplicação em sala de aula. 

Ao final de cada uma das aulas os alunos se deparam com uma atividade de investigação científica para aplicarem o conhecimento adquirido. Observou-se, ao fim das aulas, um maior interesse e empolgação  no que se refere às leis de Newton, consequentemente um entendimento mais evidente.

As referências utilizadas para elaboração dos vídeos foram: Structural Mechanics of Pachycephalosaur Crania Permitted Head-Butting Behavior [6], Dynamics of Dinosaurs and Other Extinct Giants [7] e Física 1 [8]. As videoaulas produzidas possuem de 2 a 6 minutos de duração e agrupadas numa lista de reprodução no Youtube denominada “Newton e os Dinossauros”, e estão disponíveis no link: https://www.youtube.com/watch?v=glI0hjZsG2s&ab_channel=F%C3%ADsicanaPalmadaM%C3%A3o.

Texto fonte: Freitas Calheiros, L., & Figueiredo Maia, A. (2022). Newton e os Dinossauros: uma proposta de aplicação da paleontologia no ensino das Leis de Newton. Scientia Plena, 18(8).

Disponível em: https://www.scientiaplena.org.br/sp/article/view/6448.

DOI: 10.14808/sci.plena.2022.084806.

Fonte e legenda da imagem de capa: Velociraptor vs protoceratops.

Disponível em: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Velociraptor_v._Protoceratops.jpg.

Paleontologia dos Alpes Cárnicos – Monte Cocco

Escrito em: 03 de Abril de 2024

Por: Caio Henrique de Martins Ferreira

O estudo realizado no Monte Cocco é a primeira parte do mapeamento da região dos Alpes Cárnicos, que se localiza no limite entre Itália e Áustria. Ele teve como objetivo reconstruir o processo de evolução da bacia durante o período Siluriano a partir da estratigrafia, ou seja, usando as camadas do sedimento da região do Monte Cocco, localizado na região oriental dos Alpes. A região do Monte Cocco é conhecida por ser rica em fósseis do Paleozoico e pela extração mineral de ferro e manganês. Por ser rica em fósseis, as rochas do monte são alvos de estudo de diversos geólogos, descrevendo inúmeros táxons de cefalópodes, que são moluscos como os polvos e lulas.

As rochas silurianas são distribuídas irregularmente em toda cadeia de montanhas e são, predominantemente, calcários bioclásticos, que são calcários formados por fragmentos de fósseis, de águas rasas, calcários contendo nautilóides e xistos intercalados com calcário. A desconformidade entre os períodos Ordoviciano e Siluriano criou uma fauna rica em conodontes (microfósseis) nesse espaço, o que possibilita afirmar que as rochas estudadas pertencem ao final do Siluriano (Ludlow-Pridoli). As características de deposição sugerem uma transgressão (quando o nível do mar aumenta, invadindo o continente) entre as épocas Llandovery e Ludlow, com uma sedimentação uniforme de calcário na época Pridoli.

A sequência estratigráfica do Monte Cocco é marcada por rochas carbonáticas de tom mais escuro, que marcam o Ludlow inferior. Por outro lado, as camadas acima são castanhas a vermelho escuro, devido à abundância de ferro e ao intemperismo da região. 

O conteúdo paleontológico é representado, em sua maioria, por cefalópodes, nautilóides, trilobitas e bivalves. Geralmente, cefalópodes em calcários depositados em forma de bioclastos por processos pelágicos, que ocorreram no fundo do oceano, e hemipelágicos, que ocorreram entre o mar aberto e o continente. Foi observada, na análise, grande concentração de pequenas conchas, o que indica retrabalho de deposição, que é quando o fóssil passa por processos depois do soterramento. Além disso, os calcários ricos em ferro são indícios de deposições em águas oxigenadas. 

O Monte Cocco é rico em cefalópodes (macrofósseis) e conodontes (microfósseis), com trilobitas e bivalves presentes em algumas camadas. As espécies do gênero Orthoceras são o tipo de cefalópodes mais abundantes encontrados. Foram encontradas, também, conchas raras, como de Cyrtocone, e indivíduos juvenis de Orthoceras contendo protoconchas, que são conchas jovens, se tornando apenas resquícios no organismo adulto. A fauna encontrada no Monte Cocco faz uma ligação com diversos pontos do norte da Gondwana, como o Sudoeste da Sardenha, Saara no Marrocos e, pelo fato de possuir o gênero Andigenoceras, com o Cazaquistão.

O estudo nos possibilita afirmar que os calcários contendo cefalópodes no Monte Cocco vão desde a época Llandovery até a Pridoli, compreendendo todo o Siluriano. Além disso, observamos a ocorrência de nautilóides jovens que portam protoconchas que, apesar de poucas, estão preservadas. O que foi observado pela primeira vez naquela região!

Texto fonte: Corradini, Carlo & Pondrelli, Monica & Serventi, Paolo & Simonetto, Luca. (2003). The Silurian cephalopod limestone in the Monte Cocco area (Carnic Alps, Italy): Conodont biostratigraphy. Revista española de paleontología. 35. 285-294

Disponível em: https://www.researchgate.net/publication/256444339_The_Silurian_cephalopod_limestone_in_the_Monte_Cocco_area_Carnic_Alps_Italy_Conodont_biostratigraphy

Legenda da imagem de capa: Fósseis presentes nos Alpes Cárnicos

Disponível em: https://www.researchgate.net/publication/256444339_The_Silurian_cephalopod_limestone_in_the_Monte_Cocco_area_Carnic_Alps_Italy_Conodont_biostratigraphy

Texto revisado por: Tiago Lopes Siqueira e Alexandre Liparini

Como as amebas com casca surgiram e se desenvolveram: uma história que une DNA, forma e fósseis!

Escrito em: abril de 2024

Por: Wesley L. S. Ferreira

Os Arcellinida são organismos microscópicos fascinantes que habitam ambientes de água doce, como lagos, rios e solos úmidos. No entanto, a história evolutiva desses seres levanta questões intrigantes para os cientistas. Neste texto, buscaremos explorar algumas das questões por trás da transição dos ancestrais dos Arcellinida do ambiente marinho para o ambiente de água doce, mergulhando nas descobertas e desafios enfrentados pelos pesquisadores.

Um dos principais enigmas enfrentados pelos cientistas é compreender como os protistas mais antigos relacionados aos Arcellinida, representados pelos microfósseis em forma de vaso do Neoproterozoico (VSMs), estão relacionados com os Arcellinida modernos, e quando exatamente ocorreu a transição do ambiente marinho para o ambiente de água doce. Duas hipóteses fundamentais emergem dessa questão: os VSMs seriam ancestrais diretos dos Arcellinida modernos, ou ambos evoluíram separadamente de ancestrais diferentes?

A interpretação dos dados filogenéticos e do registro fóssil apresenta desafios significativos para os cientistas. A reconstrução das relações filogenéticas entre os VSMs e os Arcellinida modernos é complexa devido à falta de informações morfológicas detalhadas nos fósseis. Além disso, a interpretação das condições tafonômicas (os processos que afetaram – positivamente ou não – a preservação dos organismos ao longo do tempo) das rochas onde os VSMs foram encontrados ainda não é bem compreendida, sendo necessária para determinar o ambiente em que esses organismos viveram.

Com base nas evidências disponíveis, uma síntese do conhecimento atual sugere que os VSMs estão relacionados aos Arcellinida modernos, e a transição do ambiente marinho para o ambiente de água doce ocorreu várias vezes ao longo do Fanerozoico, período marcado por uma diversificação da vida na Terra.

As pesquisas para desvendar a evolução dos Arcellinida são complexas e desafiadoras, mas repletas de descobertas intrigantes. À medida que os cientistas continuam a explorar esses pequenos organismos e seu passado distante, esperamos que mais conhecimento seja alcançado sobre a história evolutiva da vida em nosso planeta.

Texto fonte: Lahr, D. J.. (2021). An emerging paradigm for the origin and evolution of shelled amoebae, integrating advances from molecular phylogenetics, morphology and paleontology. Memórias do Instituto Oswaldo Cruz, 116, e200620. Doi: 10.1590/0074-02760200620.

Disponível em: https://doi.org/10.1590/0074-02760200620.

Fonte e legenda da imagem de capa: Ameba com casca do tipo Schoenbornia. A casca é como uma “concha” feita de grãos minerais colados juntos. Imagem retirada do artigo.

Disponível em: https://doi.org/10.1590/0074-02760200620.


Texto revisado por: Milena Ramos Fonseca e Alexandre Liparini. 

Nematoides e insetos: Revelações de uma antiga relação no Cretáceo

Escrito em: 03 de março de 2024

Por Nathália Oliveira

Link para espaço biótico: https://www.potencialbiotico.com/espacobiotico/paleontologia/nematoides-e-insetos-revelacoes-de-uma-antiga-relacao-no-cretaceo?searchTerm=Nematoides+e+insetos%3A+Revela%C3%A7%C3%B5es+de+uma+antiga+rela%C3%A7%C3%A3o+no+Cret%C3%A1ceo

Embora os nematoides sejam conhecidos pelos danos que causam aos humanos e outros animais, novas pesquisas sugerem que eles já desempenharam um papel importante como controle biológico de insetos durante o período Cretáceo.

Esses parasitas, apesar de serem comuns, raramente são observados no registro fóssil. No entanto, um estudo recente trouxe à luz a família Mermithidae, parasitas de invertebrados, sobretudo insetos, encontrados em âmbar de cerca de 99 milhões de anos. Este estudo, realizado por pesquisadores chineses, baseia-se em fósseis encontrados no Vale Hukawng, em Mianmar, no sudoeste asiático. A descoberta mais notável é que esses nematoides parasitaram vários grupos de insetos no Cretáceo que não são conhecidos por serem infectados atualmente. Além disso, há evidências de que houve uma mudança nos hospedeiros, de insetos em sua forma imatura semelhante ao adulto no Cretáceo Médio para insetos com metamorfose “completa” no Eoceno.

Os representantes da família Mermithidae geralmente são específicos quanto a espécie e família de insetos e são quase sempre letais para seus hospedeiros. Eles colocam seus ovos no ambiente, depois se desenvolvem e saem dos ovos em sua forma infectante. Após um crescimento rápido, os nematoides Mermithidae deixam seus hospedeiros e passam por um último estágio no ambiente até se tornarem adultos. É justamente no momento da saída que os hospedeiros geralmente morrem, por isso que esses nematoides estão sendo estudados como possíveis agentes de controle biológico, principalmente contra estágios aquáticos de insetos de importância clínica. Estes nematoides exercem um impacto significativo na morfologia, fisiologia e comportamento de seus hospedeiros, e sua análise pode fornecer percepções fascinantes sobre a coevolução de parasitas e seus hospedeiros.

Os resultados deste estudo ajudam nosso conhecimento do registro fóssil de Mermithidae, os quais são parasitas ecológicos importantes de artrópodes, anelídeos e moluscos. Atualmente, esses nematoides são encontrados em uma variedade de ambientes, infectando grandes porcentagens de populações hospedeiras e causando mortalidade em massa. A grande diversidade de nematoides Mermithidae encontrados no período Cretáceo Médio nos fornece uma ideia de como eram as relações entre esses parasitas e seus hospedeiros, e como evoluíram ao longo de 100 milhões de anos.

Texto fonte: Luo, C., Poinar, G. O., Xu, C., Zhuo, D., Jarzembowski, E. A., & Wang, B. (2023). Widespread mermithid nematode parasitism of Cretaceous insects. Elife, 12, e86283. Doi: 10.7554/eLife.86283.

Disponível em: https://elifesciences.org/articles/86283

Fonte e legenda da imagem de capa:

https://elifesciences.org/articles/86283

Fotografias detalhadas de Cretacimermis perforissi sp. nov., holótipo NIGP201868 (A–E) e parátipo NIGP201878 (F–H). (A) Hospedeiro, Perforissidae (Hemiptera: Fulgoromorpha), observar o abdômen oco (indicado por seta), que provavelmente continha o nematódeo em desenvolvimento. (B) Hábito do corpo enrolado de C. perforissi, alguns restos de trofossoma estão marcados por setas pretas triangulares. (C) Detalhe do corpo, observar as cristas artefatuais na cutícula. (D) Cabeça. (E) Cauda. (F) Hospedeiro, Perforissidae (Hemiptera: Fulgoromorpha), observar o abdômen rompido, provavelmente devido à emergência do mermitídeo. (G) Vista frontal do hospedeiro, indicando que se trata de um fulgoromorfo da família Perforissidae. (H) Detalhe do corpo, mostrando cutícula lisa e trofossomas escuros e fraturados (indicados por seta). Barras de escala = 0,5 mm (A, B, F), 0,2 mm (G), 0,1 mm (C–E, H).


Texto revisado por: Ruan Honorato Marzano Cintra, Alexandre Liparini.

Primeiro registro de fósseis de mamíferos pleistocênicos em caverna de Sergipe, Brasil

Escrito em: 02 de abril de 2024

Por Letícia Pereira dos Santos

Os estudos paleontológicos em Sergipe, apontam que o estado possui alto índice de fósseis, do período Cretáceo e da época Pleistocênica, principalmente em cavernas. Em 1997 foi registrado uma das primeiras descobertas paleontológicas em cavernas sergipanas. Foi encontrado na Gruta da Raposa, em Laranjeiras, restos e vestígios de animais marinhos. Tempos depois foi encontrado em outra caverna a carapaça de um réptil no Abismo de Simão Dias. Desde então houve vários registros de fósseis em cavernas, mas nunca de mamíferos, esses por sua vez eram encontrados somente em afloramentos do tipo tanque, que são cavidades ou depressões em rochas, formadas a partir de processos de intemperismo em fraturas preexistentes e são preenchidas por sedimentos e água.

A primeira aparição de mamíferos nessas cavidades no Estado de Sergipe foi em meados de 2008, com a descoberta da arcada dentária de duas espécies, a Galea spixii (preá) e Glyptodon clavipes (uma espécie de tatu-gigante) na Toca da Raposa, no município de Simão Dias. A partir da descoberta começou a coleta e a deposição para estudos na coleção científica do Laboratório de Paleontologia da Universidade Federal de Sergipe (LPUFS). Dentre os materiais encontrados, foram descobertos fragmentos em formato de molares, osteodermos e um fragmento dentário. 

Como descrito no artigo, as análises apontaram que os molariformes são trilobados (com três cúspides), sem raízes e de crescimento contínuo, assim compatíveis com o fato que os Gliptodontes eram herbívoros e pastadores. Já os estudos com o Galea mostraram que seus dentes são de crescimento contínuo, com dois prismas de esmalte, lâminas cortantes e projeções angulares. É importantes ressaltar que os Galea spixii é uma espécie ainda vivente conhecida como Preá que são adaptados a ambientes abertos, que vivem na caatinga e no cerrado, tendo gramíneas como sua mais importante fonte de alimentação

Texto fonte: ANDRÉ TRINDADE DANTAS, MÁRIO. Maio/Agosto 2009. PRIMEIRO REGISTRO DE FÓSSEIS DE MAMÍFEROS PLEISTOCÊNICOS EM CAVERNA DE SERGIPE, BRASIL. Revista Brasileira de Paleontologia by The Sociedade Brasileira de Paleontologia. v. 12(2), p.161-164. 

Disponível em: https://d1wqtxts1xzle7.cloudfront.net/30560291/DANTAS_MAT_%282009%29_Revista_Brasileira_de_Paleontologia-libre.pdf?1391836007=&response-content-disposition=inline%3B+filename%3DPrimeiro_registro_de_fosseis_de_mamifero.pdf&Expires=1712088500&Signature=NzUTzHJn7yBZFP1br8OcYyCo4sVZQplxwidYZ5dtCGSqDO5OcJiZp4VIvIirsyRuCUDQ52Vn55lRMpHL9NOI1Z~F29YmWwNn1ON2KEwC8K-VggmLm1u1oUAROEpHA-RGCPZGshQWtcJUCfRTCi7wpEYLlZ~Z2vh1DECjeLKju2tWWiyocfjaHUJxixd6YbnMFnWz2rrj10bBi-S9vUJSI5hoG92dkWb7WktJQ6NNTbBf7dWkqj~15hP26Q~lrOHP6B-blNqpxW0CU9eJcsCMqEnH597zRJLmYsQ6ClLYexSd4VHx2gKSFx8AZlU8c9xS25ZNXuXa2qNH5noiC-kOSQ__&Key-Pair-Id=APKAJLOHF5GGSLRBV4ZA.

Fonte e legenda da imagem de capa: Glyptodon clavipes feito por Sanrou


Texto revisado por: Ana Luísa Ferreira, Alexandre Liparini.