Escrito em: 25 de abril de 2025
Por: Victor Abdallah Rogana
Os ictiossauros gigantes — répteis marinhos que podiam rivalizar com as baleias‑azuis em comprimento — sobreviveram até o fim do Triássico, aproximadamente 201 milhões de anos atrás. Em 2024, Lomax e colaboradores descreveram um enorme surangular (osso da mandíbula encontrado em alguns vertebrados) direito encontrado em Blue Anchor, Somerset na Inglaterra, e demonstraram que ele corresponde a um surangular esquerdo divulgado em 2018 em Lilstock, a cerca de 10 km dali. Juntos, esses dois ossos de mandíbula sustentam a criação do novo gênero e espécie Ichthyotitan severnensis, o primeiro ictiossauro gigante nomeado para a Idade Rhaetiano e, com cerca de 25 m de corpo, potencialmente o maior réptil marinho já registrado.
Ambos os espécimes provêm do topo da Formação Westbury Mudstone, depositada há cerca de 202 Ma (202 milhões de anos atrás) e posicionada apenas alguns metros abaixo das camadas que marcam a extinção Triássico‑Jurássica. Essa proximidade estratigráfica, somada à morfologia idêntica dos ossos, elimina a hipótese de deformação tafonômica. O exemplar de Blue Anchor tem mais de 2 m de comprimento, preservado em três dimensões, e exibe características diagnósticas como a curvatura posterior de quase 90 graus, um processo coronoide bulboso deslocado lateralmente e uma crista muscular extremamente robusta — traços que distinguem I. severnensis de animais shastasaurídeos como Shonisaurus sp.
A histologia reforça essas conclusões: o córtex ósseo apresenta tecido PIFT (periosteal intrinsic‑fiber tissue) com canais vasculares estritamente longitudinais e remodelação “em molde”, padrão conhecido apenas em outros ictiossauros gigantes. Marcas de crescimento abundantes, mas sem um sistema fundamental externo, indicam que o animal ainda crescia; canais periosteais abertos na superfície confirmam um estágio sub‑adulto ou adulto inicial.
Estimativas de tamanho foram refinadas por escalonamento das distâncias entre a crista muscular e o coronoide em comparação com Besanosaurus leptorhynchus e Ophthalmosaurus icenicus do jurássico; ambas convergem para ~25 m. Fragmentos adicionais de Aust podem sugerir indivíduos de até 30 m, mas requerem mais material para confirmação.
Assim, Ichthyotitan severnensis estende o intervalo temporal dos ictiossauros colossais até a beira do Jurássico e sublinha o quanto ainda ignoramos sobre os ecossistemas marinhos que antecederam uma grande extinção. A descoberta também lembra colecionadores de que ossos gigantes expostos na orla do estuário do rio Severn provavelmente pertencem a “lagartos‑peixe” e não a dinossauros — e que achados futuros talvez revelem, enfim, o esqueleto completo do último verdadeiro titã dos oceanos.
Texto fonte: Lomax, D.R.; de la Salle, P.; Perillo, M.; Reynolds, J.; Reynolds, R.; Waldron, J.F. (2024). The last giants: New evidence for giant Late Triassic (Rhaetian) ichthyosaurs from the UK. PLOS ONE, v. 19, n. 4, p. e0300289. DOI: 10.1371/journal.pone.0300289.
DOI: https://doi.org/10.1371/journal.pone.0300289.
Fonte e legenda da imagem de capa: Reconstrução artística de Ichthyotitan severnensis em vida, demonstrando um porte robusto e um corpo comprido e hidrodinâmico, evidenciando as adaptações deste grupo de répteis para a vida aquática.
Disponível em: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Ichthyotitan_severnensis.png
Texto revisado por: Lucas Ferreira Bispo da Silva e Alexandre Liparini.