Mamífero de grande porte do quaternário no Espírito Santo, Brasil

Escrito em: 01 de abril de 2024

Por Danielle Assis

Fósseis terrestres do período Quaternário brasileiro são comumente descobertos em depósitos de rios, lagos, áreas aluviais, regiões costeiras e, sobretudo, em tanques naturais e cavernas. Esses são frequentes no nordeste do país, formados por sedimentos depositados em depressões em inselbergs que são formações rochosas que resistiram ao tempo e erosão. Dessa forma, os espécimes são costumeiramente encontrados em túneis repletos de sedimentos de origem siliciclástica nas cavernas. No entanto, no Espírito Santo, onde predominam rochas metamórficas e ígneas, a descoberta de fósseis de vertebrados é rara. Mesmo assim, foram encontrados mamíferos fósseis do Pleistoceno, destacando-se os restos de Eremotherium, Gomphotheriidae, Dayproctidae relatados por Paulo Couto em 1978 e fragmentos ósseos de Amphibia, Reptilia e Neornithes coletados em 1974. Esses fósseis foram encontrados em um conglomerado de seixos de mármore em matriz de argila localizada em uma pedreira (Indústria de Mármore Italva Ltda) na Serra de Gironda, no distrito de Itaoca, Município de Cachoeira de Itapemirim.


O material fóssil analisado consiste em diversos fragmentos ósseos, incluindo partes do crânio, mandíbula, vértebras, costelas e ossos dos membros inferiores, todos identificados sob o número UFES-Pal-001. Como dito posteriormente, esses fósseis foram coletados no Distrito de Itaoca- ES, durante a extração de mármore em uma jazida. O material foi encontrado depositado em uma fenda entre calcários e dolomíticos, parcialmente cobertos por argila. Após o resgate, os fósseis foram brevemente analisados e separados em três partes, sendo duas delas depositadas em coleções públicas no Museu do Espírito Santo (UFES), enquanto a terceira parte foi guardada em uma coleção particular no Município onde ela foi encontrada. Infelizmente, devido ao incêndio no Museu Nacional em 2018, apenas os espécimes tombados na coleção de paleontologia da UFES estão disponíveis para análises atuais


Após a investigação do material, concluiu-se que os fósseis encontrados na mesma área pertencem a um único individuo de Eremotherium Laurillardi,com exceção de um fragmento de dente e uma porção de fêmur que são atribuídos a outros animais. Dessa forma, a morfologia dos ossos, incluindo crânio, mandíbula, vértebras e tíbia, é congruente com características conhecidas da espécie E.laurillardi, uma preguiça gigante que habitava desde a América do Sul até os Estados Unidos. Ademais, a presença de ossos de outras espécies sugere transporte e deposição conjunta, enquanto as marcas nos ossos indicam exposição ao ar após a morte, embora por um curto período, e também mostram evidências de necrofagia por carnívoros, principalmente canídeos. Portanto, a análise da integridade física dos ossos sugere transporte hidráulico de baixa energia que os conduziu ao interior de uma fenda formada por rochas metamórficas.

Texto fonte: Germano, R.V.;Buchmann, R.;Rodrigues, T.(2019). Fósseis em uma frente de extração de mármore? Análises tafonômica e paleoicnológica de mamíferos de grande porte do quaternário do Espírito Santo, Brasil.Revista Brasileira de Paleontologia, v.22, n.3, p. 240-252. Doi: 10.4072/rbp.2019.3.06

Disponível em: https://sbpbrasil.org/assets/uploads/files/rbp2019306.pdf acessado em 03/04/2024

Fonte e legenda da imagem de capa: figura 9 do artigo

Disponível em: https://sbpbrasil.org/assets/uploads/files/rbp2019306.pdf acessado em 03/04/2024


Texto revisado por: Lucélio Batista, Alexandre Liparini.

Paleontologia de Vertebrados no Brasil

Escrito em: 04 de abril de 2024

Por: Gustavo Henrique Jamarino Parreira

Uma infinidade de fósseis de vertebrados se mostram no Brasil em diversas bacias e formações rochosas. Os mais conhecidos são fósseis de peixes e répteis, além de, em menores quantidades, mamíferos da época do Pleistoceno. Muito pouco se tem sobre vertebrados do Paleozóico devido às limitações dos afloramentos do país.

O conhecimento sobre fósseis de vertebrados no país data de 1820, quando dois naturalistas alemães, Johann Baptist von Spix e Karl Friedrich Philipp von Martius, descreveram pela primeira vez o que atualmente se conhece como Formação Santana, uma das mais importantes e vastas do país. Desde então, o conhecimento na área se amplificou cada vez mais.

No âmbito geral, o que se observa é que o Brasil possui uma grande diversidade de alguns tipos de fósseis. Na grande maioria das formações e bacias, encontram-se fósseis de peixes e, em boa parte delas, de répteis. Formações como a Botucatu e a Rio do Peixe possuem grande quantidade de fósseis de rastros e pegadas (icnofósseis). São encontrados alguns fósseis de pterossauros e tetrápodes. Mais raro, mas ainda relevante, vemos fósseis de dinossauros, anfíbios, mamíferos e aves, e o único local que possui fósseis de répteis marinhos é a Bacia Pernambuco Paraíba, umas das poucas no mundo que preservaram tais animais.

Entre todas as abordadas, destaca-se a Formação Santana uma das mais importantes e famosas no quesito de vertebrados para o Brasil e para o mundo. Ela é dividida em membro Crato e membro Romualdo, com Crato possuindo fósseis de peixes, tetrápodes e alguns raros pterossauros, enquanto Romualdo possui fósseis de milhares de espécimes de peixes, muitos grupos de répteis, algumas espécies de dinossauros e tetrápodes, assim como de pterossauros. Ainda vale a pena citar as Formações Adamantina e Marília, que também possuem uma quantidade significativa de registros de vertebrados.

Portanto, essas descobertas realçam a importância do estudo paleontológico no Brasil, deixando evidente a grande variedade de fósseis preservados no país. Esse tipo de pesquisa revela cada vez mais sobre a diversidade de animais, plantas e paleoambientes que já existiram nos territórios brasileiros, o que nos ajuda a entender um pouco mais da história do lugar onde vivemos.

Texto fonte:  Alexander W. A. Kellner; Diogenes de Almeida Campos. (1999). Vertebrate paleontology in Brazil – a review. IUGS Episodes. v. 22, n. 03, p. 238-252. 

Disponível em: https://www.episodes.org/journal/view.html?doi=10.18814/epiiugs/1999/v22i3/012.

DOI: https://doi.org/10.18814/epiiugs/1999/v22i3/012.

Fonte e legenda da imagem de capa: Pegadas de dinossauro.

Disponível em: Figura 2(c) do artigo.


Texto revisado por: Luís Filipe Cardoso Queiroz e Alexandre Liparini.

Uma descoberta de folhas fósseis— com vestígios de interação planta-animal

Escrito em: 29 de março de 2024

Por: Micaella Eduarda

As plantas desempenham um papel fundamental na evolução do nosso planeta. Os fósseis vegetais são peças-chave para compreender não apenas a evolução das plantas, mas também a história da terra e suas condições ambientais ao longo do tempo. Fósseis de flora são restos ou vestígios de plantas preservados em rochas sedimentares ao longo de milhões de anos.

   O artigo trazido relata a descoberta de folhas fossilizadas com vestígios de interação planta-animal, encontradas no Quaternário dos Açores, território de Portugal. O material utilizado para este estudo consistiu em coleções de impressões de plantas fósseis dos Açores, localizadas nos depósitos de diversos museus e universidades localizados na cidade de Angra do Heroísmo.

   A amostra acima está presente nas coleções do Museu Vulcanoespeleológico “Os Montanheiros”, que abriga uma coleção de 30 amostras contendo impressões de folhas, cascas de galhos e troncos de árvores. Esta amostra, relacionada ao Icnogênero Cuniculonomus, está associada a minas de folhas feitas por insetos conhecidos como anófionomos, pertencentes à família Anophionidae.

   “Devido ao pequeno número de amostras coletadas, não é possível identificar as espécies ou gêneros exatos dos criadores de rastreamento. No entanto, considera-se que pode ser o resultado da atividade de insetos (Lepidoptera, Orthoptera e Coleoptera).”- parte retirada do artigo.

 A descoberta de folhas fósseis é crucial para ampliar nosso conhecimento sobre a história da vida vegetal no planeta Terra.

Texto fonte: Texto fonte: RICHARD POKORNÝ1* and PAULO A. V. BORGES2,Plant–insect interactions in the Quaternary fossil record of the Azores Archipelago (Portugal), Quaternary Sci., Vol. 38(4) 597-607 (2023),Disponível em: https://repositorio.uac.ptbitstream/10400.3/6839/1P2101_Borges_2023_JournalQuaternaryScience.pdf Acesso em: 29/03/2024.

Fonte e legenda da imagem de capa: Uma amostra da folha com traço fóssil.


Texto revisado por: Cíntia Silva, Sandro Ferreira de Oliveira e Milena Ramos Fonseca.

Perfurações em vértebras de mastodontes revelam história post mortem desses animais

Escrito em: 04 de abril de 2024

Por: Gustavo H. P. Torquato

Uma descoberta feita na região de Araxá, em Minas Gerais, trouxe à tona um detalhe curioso sobre a vida (e a morte) dos mastodontes que habitaram o Brasil há milhares de anos. Ao analisar vértebras cervicais fossilizadas desses gigantes do período Pleistoceno, pesquisadores encontraram perfurações incomuns no osso.

Esses buracos, de formato ovóide e totalmente ocos, não foram causados por predadores ou processos naturais de erosão. A explicação é ainda mais intrigante: eles correspondem ao icnofóssil Cubiculum ornatus, produzido por larvas de besouros dermestídeos. Este foi o primeiro registro desse tipo de marca em fósseis do Quaternário continental brasileiro.

A presença dessas câmaras escavadas indica que os mastodontes permaneceram expostos após a morte por tempo suficiente para que a pele e os músculos que recobriam as vértebras se decompusessem ou fossem consumidos, permitindo a colonização por besouros carniceiros. Estima-se que esse processo tenha levado de um a dois anos, intervalo em que partes do corpo já estariam desarticuladas, embora a coluna (uma das últimas regiões a se separar) ainda estivesse preservada de forma articulada, antes do soterramento.

Além de servirem como “berçários” para as larvas, os dermestídeos provavelmente também aceleraram o processo de esqueletização, contribuindo para a desarticulação dos ossos. Outro aspecto relevante é que as perfurações de C. ornatus aparecem associadas a fraturas nas vértebras, sugerindo que a ação dos besouros também pode ter facilitado a fragmentação do esqueleto.

Mais do que simples marcas, esses registros revelam interações complexas entre carcaças de gigantes do passado e pequenos insetos, e mostram como até mesmo a decomposição deixou pistas importantes sobre os ecossistemas antigos. Essa descoberta não apenas enriquece nosso conhecimento sobre a paleontologia brasileira, mas também nos lembra que, na natureza, até os maiores animais dependem (em vida e após a morte) da ação de organismos muito menores.

Texto fonte: Dominato, V. H., Mothe, D., Avilla, L. S., & Bertoni-Machado, C. (2009). Ação de insetos em vértebras de Stegomastodon waringi (Mammalia, Gomphotheriidae) do Pleistoceno de águas de Araxá, Minas Gerais, Brasil. Revista Brasileira de Paleontologia, 12(1), 77-82. Doi: 10.4072/rbp.2009.1.07.

Disponível em: https://www.academia.edu/download/4836297/dominato.pdf.

DOI: https://doi.org/10.4072/RBP.2009.1.07.

Fonte e legenda da imagem de capa: Exemplar de mastodonte.

Disponível em: [[File:Stegomastodon arizonae.jpg|Stegomastodon_arizonae]].


Texto revisado por: Marina Purri, Sandro Ferreira de Oliveira e Alexandre Liparini.

Nova espécie de camarão do Cretáceo é descoberta no Brasil: fóssil incrivelmente bem preservado é o primeiro do tipo a ser descrito

Escrito em: 02 de Abril de 2024

Por: Gabriela Pessoa

Pesquisadores do Ceará descobriram um fóssil extremamente bem preservado de um camarão planctônico da família Luciferidae. Essa pequena família de camarões é conhecida por sua bioluminescência, e até então só possuía dois gêneros integrantes, Lucifer e Belzebub.

O fóssil não só revelou uma nova espécie, mas também todo um novo gênero, batizado pelos cientistas de Sume, em homenagem a uma antiga entidade conhecida como Sumé, que teria desaparecido no oceano Atlântico segundo a religião dos povos tupis. Já o nome completo da espécie, Sume marcosi, foi dado em homenagem ao biólogo e especialista em crustáceos Marcos Tavares.

O holótipo, ou seja, o espécime físico descoberto pelos cientistas e utilizado como base para a descrição formal da nova espécie, foi encontrado na cidade de Trindade, em Pernambuco, que pertence à região da Bacia Sedimentar do Araripe. A Bacia do Araripe abrange, além de Pernambuco, partes dos estados do Ceará e Piauí, e corresponde ao maior sítio paleontológico do Brasil, sendo reconhecida mundialmente por seus depósitos fossilíferos. Dentre as formações geológicas da Bacia do Araripe, uma que se destaca pela quantidade de fósseis é a Formação Romualdo, onde Sume marcosi foi achado. Sua idade data do Cretáceo Inferior, mais especificamente do Albiano, com cerca de 110 milhões de anos.

A descoberta impressiona por ter sido o primeiro fóssil de um representante da família Luciferidae encontrado e descrito pela ciência, já que, não só os camarões Luciferidae, mas os artrópodes planctônicos em geral, são muito raros de serem encontrados em registros fósseis. Impressiona também a qualidade do que foi preservado (ainda que com algumas partes faltando): tecido mole, olhos, antena e maxilípedes (espécies de “patas” que auxiliam na alimentação), considerando ainda que o espécime possuía apenas pouco mais do que 1 centímetro de comprimento!

Esta preservação de organismos tão pequenos e delicados, que habitaram a Terra há tanto tempo atrás, permite aos pesquisadores uma oportunidade única de compreender melhor alguns grupos biológicos até então desconhecidos pela ciência, e entender um pouco mais a história da vida no nosso planeta.

Texto fonte: SARAIVA, A.; PINHEIRO, P.; SANTANA, W. (2018). A remarkable new genus and species of the planktonic shrimp family Luciferidae (Crustacea, Decapoda) from the Cretaceous (Aptian/Albian) of the Araripe Sedimentary Basin, Brazil. Journal of Paleontology, v. 92 n. 03, p. 459-465.

Disponível em: https://www.researchgate.net/publication/324484049_A_remarkable_new_genus_and_species_of_the_planktonic_shrimp_family_Luciferidae_Crustacea_Decapoda_from_the_Cretaceous_AptianAlbian_of_the_Araripe_Sedimentary_Basin_Brazil

Legenda da imagem de capa: Fóssil do camarão da espécie Sume marcosi encontrado pelos pesquisadores na Formação Romualdo/Bacia do Araripe (PE). (Foto tirada por William Santana, co-autor do artigo)

Disponível em: https://www.researchgate.net/publication/324484049_A_remarkable_new_genus_and_species_of_the_planktonic_shrimp_family_Luciferidae_Crustacea_Decapoda_from_the_Cretaceous_AptianAlbian_of_the_Araripe_Sedimentary_Basin_Brazil

Texto revisado por: Tiago Lopes Siqueira e Alexandre Liparini

Fósseis de preguiça-gigante são encontrados em lagoa no município de Salgueiro – Pernambuco

Escrito em: 06 de abril de 2024

Por: Giovana Pires Cardoso Gonçalves

As preguiças-gigantes são mamíferos pré-históricos que habitaram o território das Américas, isso quer dizer que muitas espécies de preguiças-gigantes viveram aqui no Brasil. Sabe-se que o grupo teve origem na região da Patagônia, no sul da América do Sul e se estabeleceu no Panamá e que esses mamíferos possuem parentesco com as preguiças atuais, que são arborícolas. As preguiças-gigantes pertencem a um grupo já extinto de seis famílias, cuja extinção é datada de mais de 10.000 anos, no final do período Quaternário. No entanto, alguns estudos comprovam que alguns sobreviventes se mantiveram resistentes ao processo de extinção até cerca de 1500 a.C. em Cuba, na América Central.

Nem sempre a espécie teve um tamanho grande o suficiente que justificasse seu pseudônimo de preguiças-gigantes, durante o seu surgimento, algumas delas eram pequenas, com tamanhos próximos às preguiças de hoje. O que ocorreu foi que durante o processo de evolução, a seleção natural favoreceu alguns grupos para a ordem do gigantismo. Durante várias análises e estudos dos chamados coprólitos (ou em bom linguajar popular, cocô fossilizado) pertencentes às preguiças-gigantes, verificou-se que eram espécies puramente herbívoras, tendo sua base alimentar concentrada em folhas e ramos de árvores, além de consumirem em abundância uma gama variedade de frutos e sementes.

Como a sua disposição no território americano foi bem sucedida, é possível encontrar fósseis nos mais variados estágios de conservação e arranjos. Um dos sítios paleontológicos com esses fósseis fica localizado em Salgueiro no estado de Pernambuco em uma lagoa, que tem por nome Uri de Cima. Como a lagoa em questão se localiza num ambiente semiárido, percebe-se que durante boa parte do ano ela permanece seca ou com médias mínimas de volume, além disso é um sítio a céu aberto, algo que possibilitou o encontro de fósseis de um indivíduo adulto de preguiça-gigante. 

Após as análises tafonômicas do sítio, percebeu-se que a disposição dos restos estavam numa área restrita de 8 metros e concluiu-se que todo o conjunto de restos pertencem a um mesmo indivíduo, entretanto, vale salientar que no mesmo local também foram encontrados restos de outros indivíduos. Foram encontrados ao total 86 restos que apresentavam marcas de abrasão, o que indicaria transporte do material junto ao lago. Apresentaram também, marcas de rachadura que indicam intemperismo (ação química, física e/ou biológica que desgasta o material), por conta da ação do tempo que ficaram expostos antes do soterramento. Por fim, foi possível identificar a espécie, que foi  reconhecida como Eremotherium rusconii, no entanto, havendo discordância taxonômica relativa a esta espécie, chamada de Eremotherium laurillardi (Lund, 1842) por alguns e E. rusconii por outros, os pesquisadores optaram por identificar o animal apenas como Eremotherium.

Texto fonte: VALLI, Andrea Maria Francesco; MUTZENBER, Demetrio. (2016). Observações Sobre a Repartição Espacial dos Restos Fósseis de Preguiça-Gigante (Gênero Eremotherium) na Lagoa Uri de Cima, Pernambuco, Brasil.

Disponível em: https://www.nature.com/articles/s41598-022-09125-9.

Fonte e legenda da imagem de capa: Representação artística de preguiça-gigante brasileira.

Disponível em: https://images.app.goo.gl/stG3nZgCjhsazoed6.


Texto revisado por: Sandro Ferreira de Oliveira e Alexandre Liparini.

Cal Orcko: um patrimônio paleontológico

Escrito em: 24 de março de 2024

Por: Gabriel Bárbara Gomes

Cal Orcko é uma região próxima da cidade de Sucre, na Bolívia, onde uma empresa que realizava demolições descobriu um paredão de rochas contendo vestígios de uma vida que existiu e foi extinta da Terra. Esses vestígios consistem em trilhas com mais de 5000 pegadas de diversos dinossauros que acabaram  fossilizadas, datadas do período do Cretáceo, cerca de 145 a 65 milhões de anos atrás, conforme identificado na tabela estratigráfica.

Por meio de técnicas de identificação que consideram o tamanho da pegada, o tamanho da passada e morfologia (formato), foram identificados principalmente indivíduos pertencentes a dois grupos de dinossauros, dos terópodes e dos saurópodes. Os saurópodes eram animais herbívoros, quadrúpedes, com pescoço e cauda longos, como o diplodoco e o braquiossauro. Por outro lado, os terópodes eram carnívoros, bípedes de tamanhos variados, desde os pequenos dromeossaurídeos com os velociraptors até animais enormes como os espinossauros. Além de identificar os animais, as pegadas indicam que havia uma grande variedade de vida durante o período cretáceo, sugerem que na mesma época a região de Cal Orcko possivelmente era uma bacia lacustre perene (observe na imagem a baixo), um ambiente cheio de lagos e água durante todo o ano. As pegadas também ajudam a entender sobre os movimentos tectônicos que ocorreram na área, tornando-a importante em diversos campos acadêmicos.

Figura 2:  Lagos marítimos internos remanescentes do recuo do oceano atlântico que, em época anterior à elevação da cordilheira dos Andes, tinha incursionado pela América do sul e pela este da Argentina. (Branisa, 1968).

Atualmente, essas pegadas são encontradas em um paredão com 1.200 metros de comprimento, 110 metros de altura e uma inclinação de 72°, obviamente esses animais não estavam treinando escalar paredes, mas isso nos mostra que inicialmente, esse paredão estava em uma posição bem menos inclinada que permitia aos dinossauros caminhar sobre ele, deixando as pegadas de seu trajeto. Com a movimentação das placas tectônicas Sul-americana e Nazca, o relevo acabou se transformando e onde era o chão por onde caminhavam estes animais, hoje é o paredão de pegadas cretáceas, graças a exuberante geomorfologia da Cordilheira dos Andes. A imagem abaixo demonstra como é a aparência destas camadas.

Figura 3: Dobramento do grupo de sedimentos denominado “Formação El Molino” do Maastrichtiano superior (68 milhões de anos atrás) do Cretáceo Andino.

Com o objetivo de preservação, a formação está localizada dentro de um parque de proteção chamado Parque Cretácico de Cal Orko, aberto à visitação. No projeto de criação do parque, artistas e paleontólogos trabalharam juntos para pesquisar e construir réplicas de dinossauros em escala real, como mostrado na imagem abaixo.

Texto fonte: SCHMIDT, Gustavo Adolfo. Costa, Thaíssa Amim. (2018). AS PEGADAS DE CAL ORCKO: O MAIOR LEGADO DA PALEONTOLOGIA DA AMÉRICA DO SUL. Revista Transformar, 12° edição, 2018. E-ISSN:2175-8255, pg. 134-143.

Disponível em: http://www.fsj.edu.br/transformar/index.php/transformar/article/download/151/126#:~:text=Localizada%20nas%20imedia%C3%A7%C3%B5es%20de%20Sucre,da%20fam%C3%ADlia%20dos%20Ter%C3%A1podos%20e.

Fonte e legenda da imagem de capa: Imagem de fósseis de pegadas de dinossauro em Cal Orcko.

Disponível em: http://www.fsj.edu.br/transformar/index.php/transformar/article/download/151/126#:~:text=Localizada%20nas%20imedia%C3%A7%C3%B5es%20de%20Sucre,da%20fam%C3%ADlia%20dos%20Ter%C3%A1podos%20e.

Texto revisado por: Ana Damiane Mello, Sandro Ferreia de Oliveira, Alexandre Liparini.

Fósseis encontrados em caverna no Tocantins é conjunto fóssil mais diverso de marsupiais encontrado em uma só caverna

Escrito em: 04 de abril de 2024

Por Maria Gabriela Louzada Natividade

 Sobre os marsupiais sul-americanos, diferenciam-se duas linhagens: Ameridelphia e Australidelphia. Este primeiro, bem diversificado, abrange a família Didelphidae (que inclui os gambás, conhecidos também como saruês, de hoje em dia). No estudo em questão, os fósseis abordados se encontravam todos próximos, integrando um bloco na parede da caverna calcária denominada Gruta dos Moura, localizada em Aurora do Tocantins, parte da Província Espeleológica (regiões que possuem certas rochas características e suscetíveis à estudos) do Grupo Bambuí, que inclui territórios de Tocantins, Bahia, Goiás e Minas Gerais. 

O bloco foi lavado com água e peneirado com peneiras de diferentes tamanhos para separar os sedimentos de forma mais precisa. “A identificação e diagnóstico dos espécimes da caverna Gruta dos Moura foram feitos através da comparação morfológica de elementos cranianos e mandibulares de espécimes dos Didelphidae alojados” [trechos do artigo em questão] em diferentes instituições no Brasil e Argentina. Nessa pesquisa, foram identificadas partes do crânio e mandíbula (com dentes preservados) de 57 indivíduos, pertencentes a 5 gêneros e 8 espécies da família. 

O estudo das rochas da gruta, acrescentado ao estudo com base nos animais encontrados (os marsupiais em questão e também uma espécie extinta de queixada) e comparando com representantes vivos, seus modos de vida semelhantes, próximos, ou passíveis de certa adaptação, permitiu aos pesquisadores chegar à conclusão de que todos os indivíduos encontrados naquele bloco coexistiram no ambiente ao redor da caverna. Concluiu-se que o período em que esses espécimes viveram foi o final do Último Período Glacial (no final do Pleistoceno, cerca de 22 mil anos atrás), em ambiente seco e aberto ao redor da gruta; provavelmente uma floresta aberta. 

Com 8 espécies de didelfídeos encontrados na mesma caverna, a Gruta dos Moura apresenta a maior diversidade desta família em uma única caverna (isso aqui no Brasil), já que em lugares com número parecido ou superior (Lagoa Santa e Serra da Mesa), apresentaram materiais que vinham de cavernas diferentes. O material de estudo também é o único conjunto fóssil de que se tem certeza a datação do final do Pleistoceno.

Texto fonte:  Patricia Villa Nova; Leonardo S. Avilla; Édison V. Oliveira (2015).  Didelphidae marsupials (Mammalia, Didelphimorphia) from the Late Pleistocene deposit of the Gruta dos Moura Cave, northern Brazil. Anais da Academia Brasileira de Ciências. Volume 87, Número 01.

Disponível em: https://doi.org/10.1590/0001-3765201520140229

Fonte e legenda da imagem de capa: Desenho de Marmosa murina, uma das espécies encontradas fossilizada na caverna e que ainda vive atualmente. Uma das 3 espécies que, nesse estudo, teve seu primeiro registro fóssil. Imagem retirada de: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:DidelphysWaterhousiiWolf.jpg


Texto revisado por: Fernanda Moreira Batitucci e Alexandre Liparini.

Trilobitas: Fósseis Antigos Revelam Segredos da Vida Pré-Histórica 

Por:Alessandro Renato Rio Salvador

Escrito em: 04 de abril de 2024

Os trilobitas, invertebrados artrópodes do Paleozoico, estão entre os fósseis mais abundantes e fascinantes já encontrados. Com seus exoesqueletos mineralizados pela fossilização, eles oferecem compreensões preciosas sobre a vida marinha há milhões de anos. 

Uma pesquisa feita pela UFRJ, revelou detalhes intrigantes sobre a preservação e o ambiente onde os trilobitas foram fossilizados. De acordo com o estudo, os fósseis foram encontrados em depósitos sedimentares das formações geológicas Maecuru e Ererê localizadas na Bacia do Amazonas e datadas do período Devoniano (entre 420 e 360 milhões de anos), destacando a importância dessas áreas para entender a evolução dos trilobitas.  

O estudo revelou que a maioria dos espécimes não estão , sugerindo que houve movimentação de seus restos após sua morte, assim preservando parcialmente seus corpos. No entanto, um exemplar raro de Eldredgeia paituna foi encontrado por completo na Formação Ererê, proporcionando uma visão única da vida desses antigos habitantes dos mares. 

Além disso, a análise dos hábitos de vida dos trilobitas revelou três tipos distintos de formatos, cada um com adaptações específicas para a alimentação e a locomoção. Essas descobertas lançam luz sobre a diversidade ecológica dos trilobitas e seu papel nos ecossistemas marinhos do passado. 

Por outro lado, os pesquisadores também examinaram a sistemática dos trilobitas das formações geológicas citadas anteriormente, identificando a necessidade de uma revisão detalhada de várias espécies, que estão classificadas de forma ambígua na literatura. Essa revisão sistemática é essencial para compreender com maior precisão a diversidade e a distribuição desses organismos antigos. 

Além disso, considerações tafonômicas levantaram questões interessantes sobre os processos deposicionais que afetaram os trilobitas em diferentes locais de estudo. Por exemplo, a presença de trilobitas desmembrados e fragmentados sugere eventos deposicionais distintos, indicando possíveis variações no tempo de deposição e na origem dos espécimes fossilizados. 

As descobertas também destacam a importância dos ambientes de deposição na preservação dos fósseis. Enquanto os trilobitas encontrados em arenitos da Formação Maecuru sugerem condições de transporte e seleção, os encontrados em rocha da Formação Ererê originada de finos sedimentos indicam ambientes de deposição mais calmos, favorecendo a preservação de espécimes completos e bem conservados.

No contexto específico da bacia do Amazonas, a descoberta de trilobitas é particularmente significativa, sua presença na região da bacia do Amazonas pode fornecer pistas importantes sobre a paleogeografia e a evolução dos ambientes marinhos nessa área. Além disso, a análise dos fósseis de trilobitas pode ajudar os cientistas a reconstruir a biodiversidade passada e a compreender as interações entre diferentes espécies dentro desses antigos ecossistemas marinhos. 

Essa pesquisa de várias áreas ressalta a importância da tafonomia e da paleobiologia na reconstrução do passado geológico da Terra. Ao estudar os fósseis dos trilobitas, os cientistas podem desvendar segredos há muito tempo enterrados e entender melhor a história da vida em nosso planeta.

Esses resultados fornecem uma visão mais detalhada da vida e dos ambientes marinhos do Paleozoico, ajudando os cientistas a reconstruir os ecossistemas antigos e entender melhor as mudanças ambientais ao longo do tempo geológico.

Texto fonte: SILVA, Cleber Fernandes da. Hábitos de vida dos trilobitas das formações Maecuru e Ererê (Devoniano ), Bacia do Amazonas / Cleber Fernandes da Silva. – Rio de Janeiro: UFRJ/ MN, 2004

Disponível em: https://pantheon.ufrj.br/handle/11422/3051

Fonte e legenda da imagem de capa: estampa 2 do artigo https://pantheon.ufrj.br/bitstream/11422/3051/1/618442.pdf
A figura ilustra a diversidade de preservação e morfologia cefálica e torácica dos trilobitas das formações estudadas.


Texto revisado por: Ruan Honorato Marzano Cintra, Alexandre Liparini e Sandro Ferreira de Oliveira.

A Fauna de Ediacara: Possível Novo Local de Aparição

Escrito em: 03 de abril de 2024

Por: Matheus Mesquita

A Fauna de Ediacara, foi um grupo de organismos pré-históricos que surgiram no Pré-Cambriano no período ediacarano, cerca de 635 a 541 milhões de anos atrás, que foram extintos, possivelmente, na transição para o Cambriano. Esses organismos são importantes para a paleontologia, pois, apesar de não sabermos exatamente de que tipo de seres se tratavam (fungos, algas, protozoários, animais, entre outros) por falta de maiores informações, estão dentre as primeiras formas de vida pluricelular. Os primeiros fósseis da fauna de ediacara foram encontrados na Austrália Meridional, em uma região chamada Ediacara, da qual o nome foi originado.

Durante algumas investigações geológicas na região sul do País de Gales, no Reino Unido, foram encontradas rochas que não condizem com a geologia da região e que possuíam vestígios de fósseis aparentes. Esses vestígios, que possuíam em torno de 1 centímetro de diâmetro, foram analisados por vários pesquisadores e os resultados sugeriram que se tratavam de organismos referentes à Fauna de Ediacara, do final do Pré-Cambriano.

Alguns materiais coletados foram reconhecidos e identificados com a sua respectiva espécie, como os gêneros Cyclomedusa e Medusinites, mas alguns, aparentemente, não puderam ser relacionados com qualquer organismo conhecido anteriormente. Até então, não foram encontradas rochas na área que sejam do Cambriano, mesmo com a presença de um gênero deste período. Existe a possibilidade de que esses seres sejam do Período Cambriano, porém, em outros pontos do Reino Unido, foram encontradas medusoides semelhantes e descritas como da Fauna de Ediacara, como no condado de  Leicestershire.

No entanto, a falta de uma fauna semelhante nas rochas do Cambriano em outras partes do País de Gales e a ausência de fósseis de organismos multicelulares sugerem uma idade do final do Pré-cambriano para os fósseis encontrados. Detalhes completos serão publicados após investigação adicional.

Texto fonte: Cope, J.; An Ediacara-type fauna from South Wales. Nature (London), 1977-08, Vol. 268 (5621), p. 624-624.

Disponível em: https://www.nature.com/articles/268624a0.

DOI: 10.1038/268624a0.

Fonte e legenda da imagem de capa: Vestígio Fóssil da Fauna de Ediacara encontrado em South Wales, País de Gales, Reino Unido.


Texto revisado por: Milena Ramos Fonseca, Sandro Ferreira de Oliveira e Alexandre Liparini.