Escrito em: Outubro de 2025
Por: Gabriela
Para iniciar essa história, vamos imaginar o lugar onde atualmente se localiza o Rio Grande do Sul. Porém, não como ele é hoje, mas como ele era há 237 milhões de anos. Difícil, certo? Então, vamos pensar num lugar onde os dinossauros ainda não existiam, muito menos os gaúchos. As florestas eram úmidas, haviam muitos rios, e uma pequena criatura vagava pelo ambiente: o Parvosuchus aurelioi. Esse ser era um réptil pré-dinossauriano, veloz e caçador.
Mas como se sabe da existência dessa criatura atualmente? Essa espécie ainda existe? Um médico apaixonado por paleontologia chamado Pedro Lucas Porcela Aurélio fez uma grande descoberta, descoberta essa que mudou informações da paleontologia brasileira. O médico encontrou fósseis nas rochas de Paraíso do Sul. Esses fósseis eram fragmentos de ossos que demonstraram o primeiro representante brasileiro do grupo de répteis Gracilisuchidae. Esse grupo é uma família extinta de arcossauros suchianos.
Esse e outros grupos de arcossauros dominavam os ecossistemas terrestres antes da existência dos dinossauros. Alguns indivíduos eram imensos, mas o protagonista dessa história, o Parvosuchus aurelioi tinha aproximadamente um metro de comprimento. Ele tinha dentes afiados em um crânio de apenas 14 centímetros.
Como a união faz a força, o paleontólogo Rodrigo T. Muller, autor do artigo A new small-sized predatory pseudosuchian archosaur from the Middle-Late Triassic of Southern Brazil (Um novo arcossauro pseudosúquio predador de pequeno porte do Triássico Médio-Superior do sul do Brasil), publicado em 2024 na revista Scientific Reports, foi quem analisou o fóssil entregue pelo Pedro ao Centro de apoio à Pesquisa Paleontológica da Quarta Colônia (CAPPA/UFSM) e fez as comparações necessárias. É raro ter esqueletos quase completos de espécies desse porte, mas esse possuía crânio, patas traseiras, bacia e as vértebras.
Mas com o que ele comparou? Esse pesquisador comparou esse fóssil brasileiro com fósseis da China e Argentina concluindo que ele era então do grupo Gracilisuchidae, que até então não tinha sido documentado no Brasil. O nome Parvosuchus aurelioi vem do latim parvus (pequeno), suchus (crocodilo), com uma homenagem ao Pedro Aurélio, que descobriu o material.
E como são feitas essas comparações? Foram feitas análises filogenéticas (métodos para inferir relações evolutivas), com uso de programas computacionais. Com isso, nosso pequeno protagonista ganhou um destaque: uma nova espécie! Esse carnívoro viveu num supercontinente da Terra que nomeamos como Pangeia, durante o período do Triássico, onde todos os continentes estavam unidos. Assim, o pequeno Parvosuchus aurelioi era um viajante que não conhecia fronteiras.
Essa descoberta mostra o poder da ciência e da colaboração entre pesquisadores e a comunidade local. Juntos, eles mudaram o que se sabia sobre os répteis pré-dinossaurianos no Brasil. Essa história mostra como a paleontologia no Brasil pode revelar cada vez mais sobre a vida que foi escondida entre as rochas e sedimentos, reconstruindo a realidade antes dos dinossauros, dando relevância às pequenas criaturas carnívoras que também moldaram o mundo que conhecemos hoje.
Então, o Parvosuchus aurelioi pode ajudar a paleontologia a compreender melhor a transição entre os répteis primitivos e os grandes predadores que estavam pelos ecossistemas terrestres antes dos famosos dinossauros surgirem.
Texto fonte: Müller, R. T. (2024). A new small-sized predatory pseudosuchian archosaur from the Middle-Late Triassic of Southern Brazil. Scientific Reports, . 14, n. 1, p. 12706, Doi:10.1038/s41598-024-63313-3.
Disponível em: https://www.nature.com/articles/s41598-024-63313-3.
DOI: 10.1038/s41598-024-63313-3.
Fonte e legenda da imagem de capa: Representação artística de uma paisagem do Triássico Médio-Superior do sul do Brasil. (a) Um grande Prestosuchus chiniquensis se alimenta da carcaça de um dicinodonte enquanto indivíduos de Parvosuchus aurelioi gen. et sp. nov. competem por restos. (b) e (c) mostram detalhes de indivíduos de Parvosuchus aurelioi gen. et sp. nov. Ilustração de Matheus Fernandes.
Disponível em: https://www.nature.com/articles/s41598-024-63313-3.
Texto revisado por: Natália Ferreira de Freitas Medeiros e Alexandre Liparini.