Escrito em: 27 de outubro de 2025
Por: Daniela Luciana Pereira Antônio
Pesquisadores brasileiros podem ter encontrado biofilme fóssil (estruturas formadas pela secreção de substâncias gelatinosas por colônias de bactérias e algas) em dentes bem preservados de Tayassu (Porco-do-mato) e Smilodon populator (Tigre-dentes-de-sabre) do Pleistoceno. Os achados são de uma caverna do semiárido brasileiro, próximo ao Parque Nacional da Serra da Capivara, no estado do Piauí.
O biofilme se trata de uma comunidade complexa de microrganismos que ficam aderidos em superfícies e envolvidos por uma rede de biomoléculas, como carboidratos, lipídios e proteínas. Devido a isso, o biofilme confere resistência e proteção a esses microrganismos quando estão em condições extremas de temperatura, pH, salinidade, pressão, radiação e escassez de nutrientes. No contexto dos fósseis, essas características são muito importantes na preservação de plantas, tecidos moles e até embriões fósseis.
O grande questionamento do estudo é entender se essa composição orgânica preservada vem dos organismos fósseis ou se está relacionada ao processo de soterramento e fossilização dos restos orgânicos, se caracterizando como biomoléculas de um biofilme degradado aderido ao fóssil.
Por meio de uma técnica que utiliza um fenômeno da luz para captar a impressão digital das moléculas das amostras dos dentes fósseis, os resultados do artigo demonstram ser compatíveis com outros estudos citados que apresentaram padrões semelhantes de assinaturas orgânicas de biofilmes. Além disso, esses sinais foram detectados predominantemente na superfície externa dos dentes, local propício para formação de uma comunidade microbiana.
Além disso, a água no ambiente da caverna foi apontada pelos pesquisadores como um fator crucial no favorecimento da formação de biofilme, contribuindo para a locomoção dos microrganismos e fornecimento de nutrientes vindos da decomposição orgânica e mineral dos dentes fósseis. Isso explicaria a maior probabilidade de ser uma formação de biofilme do que biomoléculas fossilizadas dos organismos analisados.
Os cientistas também questionaram se o biofilme é de fato um fóssil ou é mais recente. Os dados demonstraram que houve uma diferença na impressão digital dos biofilmes analisados comparadas às assinaturas recentes em outros estudos. Eles concluíram que essa diferença estaria relacionada à sua degradação ou pela associação das biomoléculas à minerais, indicando que a estrutura passou por um processo de fossilização.
Embora o artigo não apresenta os mecanismos claros da degradação do biofilme fóssil, ele traz a importância da estrutura na preservação de biomoléculas e elucida ideias a respeito dos processos de fossilização. Isso ajuda a entender o que se passou na Terra há milhares de anos, podendo auxiliar no desenvolvimento de futuras pesquisas.
Texto fonte: de Sousa, D.V., Maia, P.V.S., Eltink, E. et al. Biomolecules in Pleistocene fossils from tropical cave indicate fossil biofilm. Sci Rep 14, 21071 (2024).
Disponível em:
https://www.nature.com/articles/s41598-024-71313-6
Acessado em: 21/10/2025.
Fonte e legenda da imagem de capa:
Imagem retirada do artigo e elaborada por Daniel V. Sousa : https://doi.org/10.1038/s41598-024-71313-6
Esquema de formação de biofilme microbiano: É composto por 5 estágios: (A) Fixação: adesão dos microrganismos à superfície óssea; (B) Colonização: produção da rede de biomoléculas que intensificam a adesão dos microrganismos; (C, D) Desenvolvimento de multicamadas: consumo de nutrientes e crescimento em camadas; (D) Maturidade e dispersão: comunidade se estabiliza e os microrganismos se disseminam para colonizar outras superfícies; (E) Degradação do biofilme: por competição ecológica, agentes antibiofilme degradam e reconfiguram a comunidade.
Texto revisado por: Daniel dos Santos Araújo e Alexandre Liparini