Vírus ancestrais, placenta moderna: o que a paleovirologia nos conta sobre a origem dos mamíferos

Escrito em: 21 de abril de 2025

Por: Giovanne de Aguiar Barra

Quando ouvimos a palavra “fóssil”, normalmente pensamos em ossos ou pegadas preservadas em rochas. Mas você sabia que também carregamos fósseis dentro do nosso DNA? A paleovirologia estuda justamente isso: os restos de antigos vírus que se integraram aos genomas de diversos hospedeiros ao longo da evolução.

 Esses vestígios virais, chamados de retrovírus endógenos, são como pegadas genéticas deixadas por vírus que infectaram os seres ancestrais há dezenas de milhões de anos. Ao sequenciar e comparar genomas de diferentes espécies, cientistas conseguem rastrear esses fragmentos virais e reconstituir sua história — assim como um paleontólogo reconstrói esqueletos completos com fragmentos fósseis. Essa abordagem nos ajuda a entender como certos vírus passaram de parasitas a peças essenciais da biologia daqueles a quem infectaram.

 No artigo em questão, é investigado a história de proteínas chamadas sincitinas, derivadas de vírus antigos, cruciais para a formação da placenta em mamíferos. Esses genes, originários de retrovírus que infectaram nossos ancestrais há mais de 80 milhões de anos, perderam sua capacidade infecciosa e foram “domesticados” pelo organismo para promover a fusão de células no tecido placentário. Sem eles, a gravidez em espécies como humanos e camundongos seria inviável.

 No estudo, a equipe comparou genes de diversas espécies, datando sua inserção e identificando mutações que revelam pressão seletiva (ou seja, a “necessidade” de mantê-los funcionais). Camundongos geneticamente modificados sem essa proteína, por exemplo, não formam a placenta corretamente, comprovando seu papel essencial. Isso é possível descobrir justamente porque os genomas guardam esses registros antigos, que podem ser comparados entre linhagens e datados com precisão.

 O estudo também sugere que a captura de genes virais pode ter sido um marco na transição de mamíferos ovíparos para placentários. Curiosamente, diferentes linhagens (como primatas, roedores e carnívoros) “domesticaram” sincitinas distintas, independentemente, em um exemplo notável de evolução convergente.

 A paleovirologia, portanto, nos mostra que a evolução não descarta nada: até mesmo genes de vírus extintos podem ser aproveitados para construir novidades evolutivas. No caso dos mamíferos, foi graças a um antigo invasor viral que a placenta pôde emergir.

Texto fonte: Lavialle, C.; Cornelis, G.; Dupressoir, A.; Esnault, C.; Heidmann, O.; Vernochet, C.; Heidmann, T. (2013). Paleovirology of ‘syncytins’, retroviral env genes exapted for a role in placentation. Philosophical Transactions of the Royal Society B: Biological Sciences, 2013, 368(1626), 20120507. Doi: 10.1098/rstb.2012.0507.

Disponível em: https://royalsocietypublishing.org/doi/10.1098/rstb.2012.0507.

Fonte e legenda da imagem de capa: Imagem criada por Amr Aswad. Modificado a partir de uma imagem de um peixe fóssil, obtida por meio da HAAP Media Ltd. e originalmente fotografada por Miguel Saavedra.

Disponível em: https://drive.google.com/open?id=1YkoNwVgkKjHMTVQLI1Gu6Q4sx7W88WQk.


Texto revisado por: Henrique Tosta Hernandes, Alexandre Liparini e Sandro Ferreira de Oliveira.

Deixe uma resposta

Descubra mais sobre Paleontologia Hoje

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continuar lendo