Retrato cristalizado do passado: remontando histórias a partir de fósseis

Escrito em: Outubro de 2025

Por: Ruth Helena

O mundo conhecido hoje é composto por seis continentes, separados por grandes oceanos, com diversas projeções vastamente conhecidas. Porém, há cerca de 145 milhões de anos atrás, haviam somente dois grandes continentes chamando a atenção para Gondwana, que começou a se fragmentar,  dando origem a massas continentais como a América do Sul. Para compreender melhor esse passado, estudos paleontológicos utilizam evidências fósseis, como os depósitos de âmbar encontrados no Equador.

O âmbar é uma resina fossilizada, capaz de preservar restos orgânicos e seus tecidos com detalhes excepcionais, este processo é  chamado de “bioinclusão”. Devido a essa característica, esses fósseis se tornam arquivos que informam o passado da vida terrestre. Esse material é uma substância líquida e viscosa, expelida pelas coníferas, que capturam os organismos que andam sobre ela. Houve um “pico” em sua produção no chamado “Intervalo resinoso do Cretáceo”, entre 125 a 72 milhões de anos atrás.

Os registros encontrados desse intervalo concentram-se no hemisfério norte, portanto, foi uma grande surpresa quando houve a recente descoberta de um rico depósito de âmbar na pedreira Genoveva, localizada na província de Napo, no Equador. Os fósseis encontrados estão associados a pólen, macrofósseis vegetais e diversas bioinclusões. As análises identificaram a presença de samambaias, angiospermas, gnetófitas e coníferas, além de indicarem que a resina foi produzida por araucárias. Com o estudo desse material, foi possível fazer uma reunião dos grupos vegetais que um dia existiam naquele local. Já os fósseis com bioinclusões contém majoritariamente representações de insetos como mosquitos, moscas, vespas e besouros, que descrevem uma parte da fauna local.

Essas evidências permitiram reconstruir parte da paisagem da antiga floresta gondwânica, visto que cada vestígio encontrado carrega indicativos de fauna, flora e clima. As plantas indicam um ambiente úmido e com certa diversidade, porém dominado pelas araucárias. Ainda, a presença de insetos que precisam da água para se desenvolver, como larvas de mosquitos e de alguns besouros, corroboram essa afirmação, além de indicarem a presença de corpos de água doce. Ainda há muito o que se desvendar sobre Gondwana, porém a investigação do âmbar, retrato cristalizado de um tempo, pode nos ajudar a remontar histórias e entender os mistérios desse passado..

Texto fonte: Delclòs, X., Peñalver, E., Jaramillo, C. et al. (2025). Cretaceous amber of Ecuador unveils new insights into South America’s Gondwanan forests. Commun Earth Environ 6, 745.

Disponível em: https://www.nature.com/articles/s43247-025-02625-2

DOI: 10.1038/s43247-025-02625-2

Fonte e legenda da imagem de capa: Fotografia retirada do artigo original, expondo os dois tipos de âmbar encontrados na Pedreira de Genoveva. De a-c, grandes pedaços de âmbar(com formato de rins), formados a partir de resinas expelidas de raízes em condições de confinamentos, pedaços frequentes no afloramento mas com ausências de bioinclusões. De d-h, são menores a médios pedaços de âmbar(com formatos semelhantes a estalactites), formados a partir da resina expelida de troncos ou galhos em condições aéreas, alguns contendo bioinclusões.

Disponível em: https://www.nature.com/articles/s43247-025-02625-2


Texto revisado por: Manuela dos Santos Rojas, Sandro Ferreira de Oliveira e Alexandre Liparini.

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