Como Fósseis de Mamutes explicam a História da Vida Microscópica na Terra?

Escrito em: 27 de outubro de 2025

Por: Lorena Batista Teixeira

Quando se pensa em fósseis, é comum que venham à mente enormes dinossauros que um dia habitaram a Terra. Também é comum imaginar que seres menores não teriam a menor chance de se perpetuar ao longo do tempo. No entanto, a vida na Terra sempre foi complexa e composta por inúmeros organismos, inclusive microrganismos. Esses seres microscópicos são componentes fundamentais dos ecossistemas e essenciais para seu funcionamento desde a origem da vida. Entender suas relações e comportamentos é importante para desvendar mistérios que atravessam a história do planeta.

A questão é: de que forma esses organismos podem ser estudados após tanto tempo? Pesquisas que buscam compreender a existência desses seres analisam principalmente suas relações com o ambiente, seja por meio do hospedeiro em que viviam, seja a partir de amostras antigas de solo. Um estudo publicado em 2025 na revista Cell avaliou amostras de 483 mamutes, datadas de cerca de 1 milhão de anos até o momento de sua extinção, para entender a relação dos micróbios que coexistiam com esses animais. As amostras incluíam dentes, pele e ossos fossilizados, sendo examinada a composição microbiana de cada uma.

Alguns gêneros de bactérias identificados mostraram-se filogeneticamente próximos de espécies que ainda hoje vivem em mamíferos. Entre eles, destaca-se um dos dois clados de Pasteurella, encontrado em 11 mamutes-lanosos de diferentes regiões, com semelhança genética a uma bactéria do gênero Actinobacillus isolada de fezes de porcos. O estudo também revelou a presença de um clado de Erysipelothrix em um molar de mamute-das-estepes e em ossos de mamutes-lanosos. A linhagem relacionada ao mamute-das-estepes foi datada em aproximadamente 1,1 milhão de anos, tornando-se, segundo o artigo, o genoma microbiano mais antigo associado a um hospedeiro já identificado.

Entre as limitações apontadas, destaca-se o alto risco de contaminação que restos mortais podem sofrer após a morte ou durante o processo de fossilização, devido à colonização por microrganismos que podem interferir na análise. Ainda assim, a avaliação desses organismos é de extrema importância para compreender sua evolução e sua influência na evolução dos próprios hospedeiros, revelando como a vida, visível ou microscópica, está interligada desde os tempos mais antigos.

Texto fonte: Guinet B, Oskolkov N, Moreland K, Dehasque M, Chacón-Duque JC, Angerbjörn A, Arsuaga JL, Danilov G, Kanellidou F, Kitchener AC, Muller H, Plotnikov V, Protopopov A, Tikhonov A, Termes L, Zazula G, Mortensen P, Grigorieva L, Richards M, Shapiro B, Lister AM, Vartanyan S, Díez-Del-Molino D, Götherström A, Pečnerová P, Nikolskiy P, Dalén L, van der Valk T. (2025). Ancient host-associated microbes obtained from mammoth remains. Cell. Sep 2:S0092-8674(25)00917-1. doi: 10.1016/j.cell.2025.08.003. Epub ahead of print. PMID: 40902595.

Disponível em: https://www.cell.com/cell/fulltext/S0092-8674(25)00917-1.

Fonte e legenda da imagem de capa: A imagem mostra um resumo geral sobre todos os pontos abordados no artigo, indicando a abrangência das amostras fósseis utilizadas, quais partes foram analisadas e como as descobertas podem se relacionar filogeneticamente.

Disponível em: https://www.cell.com/cell/fulltext/S0092-8674(25)00917-1.


Texto revisado por: Sandro Ferreira de Oliveira e AlexandreLiparini.

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