Caminhando entre continentes

Escrito em: 16 de abril de 2025

Por: Maria Eduarda Damasceno Santos

Que tal uma caminhada do Brasil até… Camarões?

Mas isso é possível? Camarões não fica no continente africano, separado do Brasil por um enorme oceano?

Tudo é possível, desde que tenhamos uma máquina do tempo! Vamos voltar atrás, há mais ou menos 100 milhões de anos. Agora estamos no período Cretáceo, em um planeta bem diferente do atual, habitado pelos celebres dinossauros! Nesse momento, um em particular nos chama atenção: vemos andando por uma estrada enlameada, um bicho engraçado, meio dinossauro meio pássaro, coberto de penas, com os braços em forma de asa, uma longa cauda, bico e pés de galinha. Engraçado como um dinossauro pode parecer uma ave atual… Além de sua aparência incomum, nada muito diferente do esperado, né? Um dinossauro andando.

Voltemos agora para o presente. É noticiada a descoberta de pegadas muito semelhantes entre si no nordeste do Brasil e no norte de Camarões. E se eu te contasse que essas pegadas são as mesmas da nossa viagem no tempo do parágrafo anterior? Mas não vimos o dinossauro pegar um barco para atravessar o Oceano Atlântico! E outro detalhe: uma pegada de 100 milhões de anos atrás visível até hoje? Pois é, eu não disse que nossa caminhada seria tão rápida de ser compreendida. Mas, calma, não é nada difícil também!

Há 100 milhões de anos, os continentes América do Sul, África, parte da Ásia, Oceania e Antártica eram juntinhos, num supercontinente chamado Gondwana. Isso significa que toda a fauna daquele tempo andava livremente por um enorme espaço, sem separação dessas terras. Então aquele dinossauro que vimos andando, estava cruzando o que seria milhões de anos depois, dois continentes separados por milhares de quilômetros pelo enorme e rico Oceano Atlântico Sul. Incrível, né? Tudo isso graças aos movimentos tectônicos da crosta do nosso planeta, que modificam o design dos continentes da Terra ao longo do tempo. Me lembra aquela música da Anavitória e Rubel, “Se for preciso, eu giro a Terra inteira até que o tempo se esqueça de ir pra frente e volte atrás milhões de anos quando todos continentes se encontravam pra que eu possa caminhar até você”… aaah, nossa caminhada está ficando romântica também.

Bom, vamos para nossa outra dúvida: como uma pegada de 100 milhões de anos atrás está visível até hoje? Isso é graças a outro processo incrível do nosso planeta, a fossilização. Pois é, fósseis não são só restos do corpo de um ser vivo, mas também evidências da sua existência, nesse caso, pegadas. Quando estávamos na nossa viagem, percebemos que o local estava enlameado, se lembra? Isso foi importante para a impressão das pegadas. Para fixá-las, outros processos foram necessários, em que sedimentos (partículas do solo) recobriram essa impressão, depois foram compactados por um longo período de seca, tornando-se uma rocha muito resistente, do formato e do tamanho da pegada original. A partir disso, com estudos dessas rochas, os cientistas chegaram à conclusão de que as pegadas eram de um mesmo tipo de animal nos dois continentes e que elas poderiam se tratar de um dinossauro terópode, que tem as características que percebemos na nossa viagem no tempo, com aquele aspecto clássico de dinossauro, mas lembrando as aves atuais.

Mas tem mais uma dúvida surgindo… conseguiu perceber? Dinossauros parecidos com aves? Isso é só uma coincidência? Os dinossauros foram extintos pela queda de um asteroide, porém, não é bem assim. As aves atuais são descendentes diretos dos dinossauros! Você já deve ter ouvido falar que as galinhas são dinossauros, não é? E é verdade! Tudo isso se explica pela Teoria da Evolução, em que os seres vivos se modificam ao longo do tempo, frente a pressões ambientais, buscando se adaptar, sobreviver e reproduzir, perpetuando sua linhagem. Nem todos os dinossauros foram extintos com o asteroide, e isso explica a aparência similar do dinossauro que encontramos com as aves que conhecemos hoje! Aquela linhagem foi se modificando ao longo de milhões de anos, tendo algumas características que permaneceram e que conseguimos hoje associar às aves atuais, por meio de estudos.

Viu como uma simples caminhada nos levou a diversos novos conhecimentos? A cada passo que demos, reconstruímos a história do nosso planeta, entendemos o processo de fossilização e a jornada evolutiva dos dinossauros. O tempo nos levou à separação dos continentes, mas com a ajuda das marcas do passado, podemos caminhar sobre as histórias passadas, que nos ajudam a entender o presente e pensar o futuro.


Texto fonte: Jacobs, L. L.; Flynn, L. J.; Scotese, C. R.; Vineyard, D. P.; Carvalho, I. S. (2024). The Early Cretaceous Borborema-Cameroon Dinosaur Dispersal Corridor. New Mexico Museum of Natural History and Science Bulletin, v. 95, p. 199-212. ISSN: 1524-4156.

Disponível em:

https://smu.app.box.com/s/e2ghm8ycjb1zf6hu9pooypdl4sosylbn

Acessado em: 16/04/2025.

Outras referências utilizadas para construir o texto:

Notícia da UOL: https://noticias.uol.com.br/internacional/ultimas-noticias/2024/09/01/um-pe-na-africa-e-um-no-brasil-pegadas-de-dinossauros-em-dois-continentes.htm

“Como se tornar um fóssil após a morte” da BBC News: https://www.bbc.com/portuguese/vert-fut-43646990#:~:text=No%20entanto%2C%20se%20voc%C3%AA%20quer,Pode%20levar%20milh%C3%B5es%20de%20anos.

Vídeo “Processos de fossilização”, da RPT ensina: https://ensina.rtp.pt/artigo/processos-de-fossilizacao/#:~:text=Os%20processos%20de%20fossiliza%C3%A7%C3%A3o%20s%C3%A3o,%C3%A9%20o%20caso%20das%20pegadas.

Artigo: Benjamim Bley de Brito Neves (2022). A Teoria dos Supercontinentes: discussão e crítica construtiva. Revista do Instituto de Geociências – USP, v. 22, p. 109-230. DOI: https://doi.org/10.11606/issn.2316-9095.v22-191048 Disponível em: https://repositorio.usp.br/directbitstream/c14e86af-a939-4018-bb7a-3174b299eba4/3088206.pdf acessado em 16/04/2025.

Fonte e legenda da imagem de capa:

Figura 2 do artigo de referência.

Imagem representando o globo terrestre com os continentes sulamericano e africano conectados com as divisões atuais dos países. As terras que, hoje, estão submersas estão coloridas em azul e as emersas estão em tons de verde a amarelo. Há duas estrelas, uma no nordeste do Brasil e outra no sul de Camarões, mostrando o caminho em que as pegadas foram encontradas.


Texto revisado por: Milena Ramos Fonseca e Alexandre Liparini.

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