Descoberto o menor dinossauro do Mesozoico

Em 16 de março de 2020

Por: Clara Massote Pidner

Paleontólogos descobriram e descreveram a espécie Oculudenativs khaungraae, um dinossauro cujo tamanho se equivale a um beija-flor. Dado que aves são descendentes diretos dos dinossauros, o fóssil preservado em âmbar intrigou os acadêmicos já que mistura características de aves atuais com aves há muito extintas.

Ao longo da história dos vertebrados os biólogos têm discutido a tendência evolutiva, ou seja, um padrão que se observa em várias espécies , da diminuição de tamanho. É fácil imaginar isso quando pensamos em um Tiranossauro rex ao lado de uma galinha. Nos animais de hoje é muito mais difícil encontrar um exemplar do tamanho de um Tiranossauro rex. Estudiosos explicam esse padrão principalmente pelo fato de animais maiores precisarem ingerir muito mais alimento para manter o metabolismo. O achado da espécie O. khaungraae pode ser uma pista de como esse processo começou a desenrolar, bem como uma pista a mais sobre a história da vida na Terra.

Artigo fonte: Xing, L., O’Connor, J. K., Schmitz, L., Chiappe, L. M., McKellar, R. C., Yi, Q., & Li, G. (2020). Hummingbird-sized dinosaur from the Cretaceous period of Myanmar. Nature, v. 579, n. 7798, p. 245–249. Doi:10.1038/s41586-020-2068-4 <Clique aqui para acessar o artigo fonte>

Fonte da imagem: Extraída do artigo fonte (Figura 4).

Preguiça marinha da América do Sul!

Em 11 de setembro de 2019

Por: Vítor Emídio de Mendonça

É estranho imaginar, mas há cerca de sete ou oito milhões de anos atrás, os mares da América do Sul possuíam uma fauna muito diferente do que observamos hoje. Um exemplo que é particularmente chocante de um dos animais marinhos desse período – conhecido como Mioceno Superior — são as preguiças gigantes marinhas. Esses animais eram parentes das preguiças atuais e das preguiças gigantes extintas que encontramos no registro fóssil brasileiro, mas diferem radicalmente de hábito de vida: ao contrário dos seus primos terrestres, as preguiças do gênero Thalassocnus tinham hábitos aquáticos.

Esse grupo é composto por quatro espécies, sendo que todas habitavam a costa peruana e apresentam adaptações notáveis para o hábito aquático. Em 2003, um grupo de pesquisadores liderado por Christian de Muizón descreveu uma nova espécie para esse gênero, denominada Thalassocnus antiquus, encontrada na formação de Pisco, também no Peru. Essa espécie é menor em tamanho e tem o crânio menos robusto do que as demais preguiças marinhas conhecidas até então.

Os autores do estudo também apontam a possibilidade de que a espécie nova tenha sido a primeira espécie de preguiça marinha aquática que surgiu. O trabalho também sugere que os animais desse grupo foram aumentando em tamanho ao longo da evolução do grupo. Com esse trabalho, o número de espécies do gênero Thalassocnus sobe para quatro, e é preenchida mais uma lacuna de conhecimento da estranha fauna do Mioceno sulamericano.

Artigo fonte: Christian De Muizon, H. Gregory McDonald, Rodolfo Salas & Mario Urbina. (2010). A new early species of the aquatic sloth Thalassocnus (Mammalia, Xenarthra) from the Late Miocene of Peru. Journal of Vertebrate Paleontology, v. 23, n. 4, p. 886–894. Doi: 10.1671/2361-13 <Clique aqui para acessar o artigo fonte>

Fonte da imagem: Extraída do livro de Thomas Defler, History of Terrestrial Mammals in South America (2019), p. 133. Arte de Roman Uchytel.

Registro de pegadas fósseis revela vida de répteis marinhos

Em 12 de setembro de 2019

Por: Carolina Gomes Ferreira

Cientistas da Universidade Federal do Paraná relataram, em 2004, o primeiro registro de icnofósseis no sul do Estado de Goiás, isto é, de rastros fósseis que indicam atividade biológica de um grupo de tetrápodes que viveu no período Permiano (cerca de 298 milhões de anos atrás), equivalente ao último período da Era Paleozoica. Essas impressões observadas em uma área da Bacia do Paraná, denominada Formação Irati, correspondem a pegadas fósseis de répteis marinhos da família Mesosauridae, grupo que se encaixa dentro dos Sauropsida, popularmente conhecidos como “face de lagarto”. Vale ressaltar que apesar de fósseis desses animais serem amplamente encontrados na América do Sul, por exemplo, evidências de suas atividades são atípicas, por isso a importância de tal registro.

Para a realização do estudo foram coletadas amostras de rochas calcárias contendo rastros fósseis de mesossaurídeos. Por conseguinte, tornou-se possível observar como seriam as pegadas dos animais a partir de padrões, espaçamento, formatos e profundidade de traços presentes nas rochas. Esses traços corresponderiam a marcas de alguns dos dígitos desses animais formadas, provavelmente, durante sua locomoção. Ademais, pôde ser verificado que havia diferenças de tamanho entre os apêndices locomotores, sendo os posteriores maiores que os anteriores. Essas considerações, associadas a informações já relatadas em outras pesquisas, como a presença de membranas entre os dedos que se assemelhavam às observadas em nadadeiras e a existência de uma longa cauda que serviria para a impulsão, tornaram-se, portanto, indicações pertinentes de que os mesossaurídeos eram nadadores ágeis e de que realizavam movimentos de arraste durante a natação. Dessa forma, após a reconstituição e exame das características do ambiente e a associação com as impressões encontradas, inferiu-se que esse grupo de tetrápodes teria origem, adaptações e hábitos de vida aquáticos, reforçando, por exemplo, achados semelhantes provenientes de uma área conhecida como Formação Whitehill, na África.

O encontro dos icnofósseis de Mesosauridae no Brasil é, por isso, de grande relevância para trabalhos paleontológicos, evolutivos e geológicos e abre um leque de novas perspectivas para o estudo de comportamentos de organismos já extintos e de seus descendentes que, em conjunto, constituem a história natural.

Artigo fonte: Fernando Antonio Sedor, Rafael Costa da Silva. (2004). Primeiro registro de pegadas de Mesosauridae (Amniota, Sauropsida) na Formação Irati (Permiano Superior da Bacia do Paraná) do Estado de Goiás, Brasil. Revista Brasileira de Paleontologia, v. 7, n. 2, p. 269-274. Doi: 10.4072/rbp.2004.2.21 <Clique aqui para acessar o artigo fonte>

Fonte da imagem: Extraída do sítio blog.frontiersin.org/2018/10/08/ecology-evolution-mesosaurus-semi-aquatic-reptile/ Acessado em 10 de setembro de 2019.

Ensinando paleontologia à crianças surdas: uma abordagem inovadora

Em 13 de setembro de 2019

Por: Bruna Pires Rodrigues

Ensino de paleontologia nas escolas, tanto de nível fundamental como médio,
por si só já é um desafio. Entretanto, esse desafio é acrescido quando a
tarefa é ensinar paleontologia para crianças surdas em uma escola voltada
justamente para esse público. Dessa forma, Mário André Trindade Dantas e
Fernanda Torello de Mello mostram uma metodologia facilmente aplicável em
diferentes contextos escolares, no artigo “Um Conto, uma Caixa e a
Paleontologia: uma maneira lúdica de ensinar Ciências a alunos com
Deficiência Auditiva”, publicado na Revista Electrónica de Investigación
en Educacíon en Ciencias (v. 4, n.1)

Após a aplicação de uma história a alunos surdos na Sociedade de Ensino e
Reabilitação CIRAS/Rosa Azul, em Aracaju, Sergipe, os autores analisaram como
foi o aproveitamento do ensino de paleontologia por meio de uma conversa com
alguns dos alunos presentes. A metodologia apresentou um bom resultado, no qual
os alunos demonstraram ter compreendido o conteúdo passado, porém relataram a
dificuldade com algumas palavras novas, como toxodonte, gliptodonte, amonoide,
mosassauro, etc, por não serem comuns ao seu vocabulário. Entretanto tais
termos eram importantes, uma vez que são os nomes de alguns fósseis
encontrados no estado. Observou-se também que a história e a caixa de contos
são metodologias bastante eficazes para a divulgação de conhecimentos
científicos. Uma vez que contar histórias faz parte da humanidade, basta
lembrar das pinturas rupestres nas cavernas.

Os materiais para aula se mostraram acessíveis, pois é necessário apenas
alguns bonecos de Lego, alguns cenários que podem ser pintados ou impressos,
bonecos de pano em formato de dinossauro que também foram pintados de acordo
com imagens modelo dos reais e uma arca ou uma caixa para guardar os objetos.
Tal organização mostrou atrair a atenção do público por gerar curiosidade
e apreensão sobre o que poderia ser tirado da caixa durante a história.

Antes de aplicar o método, os pesquisadores participaram de cerca de três
aulas na turma dos alunos de interesse para ganharem a confiança desses. No
dia da apresentação uma das professoras auxiliou fazendo a interpretação da
história “Ema e os fósseis” através da LIBRAS para os alunos. Além
desses recursos, havia uma personagem surda na narrativa justamente para causar
empatia entre os discentes.

Tendo em vista tudo que foi apresentado até agora, este projeto se mostrou
imprescindível por dois motivos: em primeiro lugar pela importância de passar
a educar verdadeiramente os alunos surdos e não focar apenas no
desenvolvimento da comunicação; e em segundo pela importância do ensino de
paleontologia no nível básico, uma vez que essa ciência está diretamente
relacionada a outras como a Geologia e a Biologia. Todas essas três áreas
deveriam ser mais presentes nos sistemas de ensino, pois são necessárias para
melhor compreensão do surgimento da Terra e mecanismos da evolução,
incentivando o pensamento crítico e formando cidadãos ativos.

Artigo fonte: Mário André Trindade Dantas & Fernanda Torello de Mello. (2009). Um Conto, uma Caixa e a Paleontologia: uma maneira lúdica de ensinar Ciências a alunos com Deficiência Auditiva. Revista electrónica de investigación en educación en ciencias, v. 4, n. 1, p. 51-57. <Clique aqui para acessar o artigo fonte>

Fonte da imagem: Figura 1 do artigo fonte

Cientistas chineses comprovam a existência de angiospermas no período Jurássico

Em 12 de setembro de 2019

Por: Ana Maria Abreu Santos

Uma pesquisa liderada por Xi Wang e Zhong-Jian Liu, do Centro de Conservação e Pesquisa de Orquídeas, em colaboração com cientistas do mundo todo, descreveu, em 2018, um fóssil de angiosperma, a qual nomearam Nanjinganthus – Nanjing se refere à cidade chinesa onde o fóssil foi encontrado, e anthos significa flor em latim – que compartilhava várias características com as angiospermas atuais.

Através de técnicas de datação de rochas e comparação de suas características-chave – como por exemplo as estruturas reprodutivas e grãos de pólen – com outras angiospermas, como as Malváceas (família do hibisco) e Rosáceas (família das rosas), e gimnospermas, como ginko e coníferas, comprovou-se a hipótese de que realmente se tratava de uma angiosperma do início do Jurássico, datada de aproximadamente 174 milhões de anos. Essa análise também revelou que a dispersão de pólen e sementes era realizada através do vento, o que era de se esperar por se tratar de um ancestral que ainda não teve tempo para estabelecer relações ecológicas com polinizadores e dispersores, como fazem a maioria das angiospermas atuais.

As angiospermas são um dos grupos mais diversos de plantas, e são conhecidas pela habilidade de gerar flores e frutos. Elas se diversificaram durante o período Cretáceo, e, atualmente, contam com cerca de 300.000 espécies, ocupando quase todos os biomas, terrestres e aquáticos.

Estudos recentes com modelos de DNA sugerem que as angiospermas surgiram há 145 milhões de anos, antes do Cretáceo, e talvez até antes, há 201 milhões de anos, antes do Jurássico. Antes desse achado, o registro fóssil mais antigo datava de apenas 135 milhões de anos, bem depois do fim do Jurássico. Além disso, trabalhos sobre flores do Jurássico não têm sido bem aceitos pela academia – seja pelo baixo número amostral ou por puro ceticismo – mas a descoberta do Nanjinganthus mudou essa perspectiva. Agora, o próximo passo será a análise de parentesco com outros grupos de angiospermas, além do estudo de novos fósseis para melhor estudar suas características.

Artigo fonte: Qiang Fu e colaboradores. (2018). An unexpected noncarpellate epigynous flower from the Jurassic of China. eLife, v. 7, p. e38827. Doi: 10.7554/eLife.38827.001 <Clique aqui para acessar o artigo fonte>

Fonte da imagem: Extraída do sítio sciencephoto: jurassic-landscape-illustration

Colorindo fósseis: a redescoberta do pigmento avermelhado

Em 13 de setembro de 2019

Por: Lívia Stemler de Godoi Quintão

Você já se perguntou como a cor de animais extintos é determinada? Essa pode ser uma tarefa difícil, uma vez que os registros fósseis raramente apresentam tecidos moles preservados o suficiente para se identificar pigmentos, o que abrange justamente as partes referentes à coloração, como pele, pelos e penas. Assim, os paleontólogos se limitavam, em muitos casos, a pintar esses animais utilizando as cores que encontravam em seus ancestrais vivos mais próximos.

Nos últimos anos, no entanto, novas tecnologias nos deixaram cada vez mais próximos de descobrir como esses bichos realmente se pareciam, permitindo aos pesquisadores identificar restos de pigmentos nos fósseis. Entretanto, outro obstáculo surgiu: apesar de muito importantes, essas técnicas eram menos eficazes qualitativamente e muito invasivas, sendo necessária a destruição de parte das peças para a realização do estudo, o que impede, por exemplo, de se utilizar fósseis mais raros.

Felizmente, esses problemas também estão sendo superados, como mostra o estudo publicado na Nature comunications em maio deste ano, no qual cientistas do Reino Unido, Estados Unidos e Espanha trabalharam em conjunto, apresentando um método não destrutivo e extremamente sensível que utiliza ferramentas de raio-X super potentes. Nesse artigo, Phillip Manning e colaboradores estudaram o fóssil de um mamífero extinto, mapeando a presença de feomelanina – um tipo de melanina responsável pelo tom marrom avermelhado, encontrado, por exemplo, na pelagem de tigres. Apesar de já existirem estudos semelhantes para a eumelanina (pigmento melanínico escuro), esse é o primeiro protocolo desenvolvido para o pigmento avermelhado, que é o segundo mais abundante em mamíferos. Quanto ao objeto de estudo, os fósseis utilizados datam de cerca de 3 milhões de anos e são resquícios do Apodemos atavus, uma espécie de roedor já extinta que vivia na Alemanha.

Os resultados do mapeamento indicaram o padrão de coloração do A. atavus, sugerindo que é bem semelhante ao de outras espécies viventes do mesmo gênero. Esse trabalho abre caminho para outras pesquisas, ajudando a elucidar a questão da tonalidade em diferentes seres vivos e como essa característica evoluiu. Um estudo como esse apresenta grande importância paleontológica, já que saber da cor de um animal nos permite abstrair informações diversas, nos dando pistas de como seu organismo funcionava, como ele se comportava e qual era sua relação com o ambiente e com outros animais ao seu redor.

Artigo fonte: Phillip L. Manning e colaboradores. (2019). Pheomelanin pigment remnants mapped in fossils of an extinct mammal. Nature communications, v. 10, n. 1, p. 2250. Doi: 10.1038/s41467-019-10087-2 <Clique aqui para acessar o artigo fonte>

Fonte da imagem: Modificado da Figura 1a do artigo fonte.

O elo não mais perdido: O fóssil de Casuar que pode mudar tudo

Em 7 de setembro de 2019

Por: Marina P. Lodi

Paleontólogos australianos encontram fósseis que acreditam pertencer a um grupo de escassos registros e parentescos desconhecidos, o que pode ajudar a elucidar sua história.

Figura 1: Espécies viventes de Casuares. Da esquerda para a direita: Casuarius casuarius; Casuarius unapendiculatus; Casuarius bennetii
Figura 2: Comparativo da pelve (osso da bacia) de espécies atuais, à esquerda, de: (A) Emu (D. novaeholandier); (B) Casuar anão (C. bennetti); (C) Casuar do Sul (C. casuarius); e (D) Casuar do Norte (C. unnapendiculatus); e da espécie fóssil, à direita (C. lydekkeri).

Paleontólogos australianos encontraram o que acreditam ser uma espécie extinta do grupo dos Casuares, grandes aves não voadoras que habitam o extremo norte da Austrália e as ilhas de Papua Nova Guiné. O estudo, publicado em 1988 no Journal of Australian Geology & Geophysics, discute a relação entre esse novo registro e o pouco conhecido Casuarius lydekkeri, podendo ser o achado de uma nova espécie.

Por possuir registros fósseis escassos, a história natural dos Casuares (Figura 1), aves parentes dos avestruzes e Emus, ainda é nebulosa. Não há registros confirmados de espécies extintas além do C. lydekkeri, espécie de casuar anão registrada por Miller em 1962, que é um fóssil de origem desconhecida.

Os novos fósseis encontrados em depósitos de sedimentos em Pureni, Papua Nova Guiné, datam do Pleistoceno e se assemelham em forma e tamanho com os de origem desconhecida do C. lydekkeri, mas têm diferenças evidentes o que deixa a dúvida:

Seria esta uma espécie extinta ainda não registrada?

Os paleontólogos P.V. Rich, Michael Plane e Natalie Schroeder, em seu artigo, procuram discutir as possíveis relações entre estes achados e a morfologia das aves viventes, tentando estabelecer alguma ligação com os poucos dados disponíveis sobre a história natural desses animais. Para tal, se apoiam na geologia do local, e nos aspectos anatômicos dos animais do grupo (Figura 2), estudos ainda pouco precisos para a dificuldade do desafio de desvendar a história natural das aves.

Se confirmada, a nova espécie seria um marco sem precedentes na paleontologia, e ainda pode gerar muitas discussões, a começar por essa.

Artigo fonte: P. V. Rich, Michael Plane, Natalie Schroeder. A pygmy cassowary (Casuarius lydekkeri) from late Pleistocene bog deposits at Pureni, Papua New Guinea. Journal of Australian Geology & Geophysics, v. 10, p. 377- 389 (1988).

Fonte da primeira imagem: Modificada de diferentes pranchas da monografia: A monograph of the genus casuarius, de Lionel Walter Rothschild (1868-1937), disponível no sítio archive.org/details/monographofgenus00roth/page/290, acessado em: 07 nov. 2019.

Fonte da segunda imagem: Extraída e modificada da Figura 4 do artigo fonte e de pranchas da monografia citada acima.

A megafauna esquecida

Em 10 de setembro de 2019

Por: Matheus Carlos Valinhas

Em maio de 2009 o artigo “The forgotten megafauna” foi publicado. Sendo uma cooperação do professor Mauro Galetti, da Universidade de São Paulo, com o professor Dennis Hansen, da Universidade de Zurich, o artigo busca discutir as similaridades entre os processos de redução da diversidade ecológica resultantes da extinção de certos grupos de mamíferos.

Megafauna é o termo usado para designar o grupo de animais de grandes proporções corporais (ultrapassando 44 kg) que conviveram com a espécie humana e desapareceram no evento de extinção do Quaternário tardio, temos como exemplo na América do Sul a preguiça gigante (Megatherium americanum) e o Notiomastodon (Notiomastodon platensis).

Há Cerca de 10 à 50 mil anos atrás ocorreu uma série de extinções desses determinados grupos, seja por causa natural ou por intermédio dos humanos. É perceptível a correlação de tais extinções com a perda de riqueza ecológica nesses ecossistemas. O ponto mais forte está na proporção entre a massa dos indivíduos frugívoros e o tamanho relativo dos frutos que os alimentavam. Pode-se ver a relação lógica diretamente proporcional entre tais. Daí, é possível analisar um outro ponto: a dinâmica da relação de tais animais com os frutos cabíveis aos seus tamanho contribuíam para a dispersão de sementes de certas espécies vegetais, que acabaram por ser afetadas após as extinções.

Os pesquisadores perceberam uma diminuição na população de espécies vegetais que dependiam da aspersão de sementes pelos animais da megafauna, verificando também um aumento nas espécies arbóreas cujos animais aspersores não foram extintos.

Ao estudar mais a fundo eventos similares ocorridos em diferentes lugares do mundo, vê-se o mesmo efeito de perda das relações ecológicas e a mudança (miniaturização) dos mamíferos dispersores de sementes.Tal efeito foi mais exacerbado nas ilhas estudadas (Madagascar e Mauritius) do que no continente sul americano.

A relação entre o tamanho da espécie propagadora das sementes é crucial para entender a dinâmica do ecossistema, e o artigo traz essa questão de maneira clara, contextualizando tais relações e comparando seus efeitos em locais separados fisicamente. O estudo foi possível graças ao registro fóssil de tais espécies, que possibilitaram um maior entendimento sobre as mesmas.

Artigo fonte: Dennis M. Hansen, Mauro Galetti. (2009). The Forgotten Megafauna. Science, v. 324, n. 5923, p. 42-43. Doi: 10.1126/science.1172393 <Clique aqui para acesso ao artigo fonte>

Fonte da imagem: Extraída do sítio altamontanha.com/a-extinao-da-megafauna/, acessado em 07/11/2019

Paleontologia na escola

Em 20 de setembro de 2019

Por: Ana Mattioli Laborne

A Paleontologia é uma área da Ciência que se dedica ao estudo das formas de vida passadas. É um conteúdo o qual encontra-se presente na grade curricular brasileira, desde o Ensino Infantil até o Ensino Médio, estando presente nos materiais didáticos tradicionais, como livros.

A paleontologia, contudo, é apresentada e abordada de maneira extremamente defasada durante a formação básica, média e até mesmo superior. Essa defasagem é perceptível se analisados os temas trabalhados em sala de aula do Ensino Básico, sendo eles: dinossauros, origem da vida e alguns tipos de fósseis (como são formados e o que são). Raras são as vezes em que há aprofundamento desses ou de outros assuntos nas aulas do Ensino Infantil, Fundamental e Médio.

Os autores do artigo levantam algumas hipóteses na tentativa de explicar por que a paleontologia se apresenta (ou melhor, não se apresenta) tão distante dos alunos da Educação Básica.

A ideia de que seja um assunto de alta complexidade e de difícil compreensão é colocada como um dos fatores, além da deficiência existente no que tange a formação dos alunos e dos professores para que esses tema seja mais e melhor abordado dentro de sala de aula. Outro fator de extrema importância é a lacuna existente entre a Universidade e a Sociedade. A partir dessas e de outras análises, os autores almejavam, com a realização do projeto, aproximar a paleontologia dos alunos e dos professores, inclusive.

Diversas foram as atividades desenvolvidas em parceria com um colégio do Rio de Janeiro, na Educação Infantil. Dentro dessas atividades, podemos citar: a) mudanças no espaço físico do colégio; b) e desenvolvimento da parte teórica, capacitando os professores.

As alterações feitas na escola (mencionadas em “a”) envolveram a construção de uma linha do tempo para representação do tempo geológico em escala grande, para melhor compreensão dos alunos, construção de um minijardim com representantes de briófita, pteridófita, gimnosperma e angiosperma (relação entre a paleontologia e a botânica) e uma sala de exposições, que funcionava como um espelho de um museu sobre temas da paleontologia.

Como resultado do trabalho, os projetos desenvolvidos na escola foram de extrema eficácia, despertando interesse nos alunos, professores e nos pais. Esses ficavam extremamente curiosos quando seus filhos chegavam em casa contando sobre coisas novas que haviam aprendido. Até que, mais tarde uma visita guiada pelos alunos, foi organizada e pode proporcionar aos pais uma maior aproximação com as atividades realizadas pelos filhos e com a paleontologia.

Artigo fonte: Fernanda Torello de Mello, Luiz Henrique Cruz de Mello, Maria Beatriz de Freitas Torello. (2005). A paleontologia na educação infantil: alfabetizando e construindo o conhecimento. Ciência & Educação, v. 11, n. 3, p. 397-410. <Clique aqui para acessar o artigo fonte>

Fonte da imagem: Figura 1 do artigo fonte.

De peixes à tetrápodes

Em 9 de setembro de 2019

Por: Izabela Mamede Costa Andrade da Conceição

Pesquisadores da Academia de Ciências Naturais dos Estados Unidos, da Universidade de Harvard e da Universidade de Chicago descobrem um novo fóssil na Formação Rochosa de Nunavut no extremo Norte do Canadá que pode ajudar no detalhamento da árvore filogenética da origem dos tetrapodes.

O ancestral dos tetrápodes mais conhecido atualmente, Panderichthys, possui algumas características similares aos vertebrados terrestres como órbitas oculares mais dorsais e próximas e a ausência de barbatanas mediais, entretanto, ainda há ausência de sinapomorfias comuns aos tetrápodes e a descoberta de outros fósseis intermediários poderia ajudar na montagem desse mapa evolutivo.

Segundo o autor: “A descoberta de um novo Sarcopterygii (…) aumenta significantemente nosso conhecimento da transição entre peixe e tetrápodes. Muitos espécimes de um mesmo sítio (paleontológico) são usadas para descrever um táxon que é um impressionante intermediário entre o Panderichthys e os primeiros tetrápodes.”

Quais as novidades encontradas nesse espécime?

Esse espécime, chamado de Tiktaalik como uma homanagem à lingua nativa do local na qual significa grande peixe de águas rasas, se diferencia do Panderichthys pela perda de alguns ossos no crânio e pela presença de costelas imbricadas entre outras características; e dos demais tetrápodes, como Acanthostega e Ichtyostega, pelas barbatanas peitorais como ramos entre outras.

Seu modo de vida provavelmente se diferenciava dos demais Elpistostege por viver em água doce e suas diferenças morfológicas na cabeça o permitiam explorar ambientes aéreos ou semi-aéreos. Essas diferentes características craniais também se relacionam à possível movimentação do sistema cabeça-pescoço o que influenciaria também seus modos alimentares e sua forma de locomoção.

Todas essas características e as outras citadas no artigo corroboram a posição intermediária do Tiktaalik na evolução dos tetrápodes e são adições importantes a uma transição tão difícil de se imaginar observando os peixes e tetrápodes terrestres atuais.

Artigo fonte: E. Daeschler, N. Shubin & F. Jenkins. (2006). A Devonian tetrapod-like fish and the evolution of the tetrapod body plan. Nature, v. 440, p. 757–763. Doi: 10.1038/nature04639 <Clique aqui para acessar o artigo fonte>

Fonte da imagem: Wikipedia – Tiktaalik roseae