Henry F. Osborn e sua contribuição na Paleontologia

Escrito em: 29 de março de 2024

Por: Gabriel Henrique Diniz Batista

A paleontologia consolidou-se como ciência em grande parte graças às ideias de Darwin e Lamarck, que influenciaram profundamente a biologia e, por consequência, a própria formação desse campo. No final do século XIX, destacou-se o geólogo e paleontólogo Henry Fairfield Osborn (1857–1935), formado pela Universidade de Princeton, onde teve contato com as teorias darwinistas. Desde cedo, interessou-se pela evolução das espécies e produziu importantes estudos sobre mamíferos, especialmente os ungulados do Eoceno.

A partir de 1885, seus trabalhos intensificaram-se, incluindo expedições internacionais ao lado de seu professor Edward Cope (1840–1897). Dessa parceria surgiu a teoria Cope-Osborn, que buscava explicar a evolução dos dentes trituberculados dos mamíferos, referência ainda fundamental para pesquisas sobre molares.

Entre suas contribuições notáveis está a teoria dos “Quatro Fatores Inseparáveis da Evolução”, que ressalta a interdependência entre hereditariedade, ambiente, seleção e ontogenia. Osborn também solucionou questões taxonômicas relevantes a partir de fósseis, como em seus estudos sobre o Tyrannosaurus, além de produzir modelos que facilitavam a compreensão do comportamento animal.

Sua atuação foi marcante na paleontologia de dinossauros: descreveu espécies emblemáticas como Tyrannosaurus, Velociraptor e Oviraptor, além de liderar expedições em busca de novos fósseis. Reconhecido como um dos principais divulgadores da Era Mesozoica, Osborn modernizou a forma de interpretar os fósseis, introduzindo métodos inovadores para reconstruir a história evolutiva.

Inspirado nos princípios de Darwin e Lamarck, ele também investigou a transmissão de caracteres adquiridos e as mudanças fisiológicas ao longo da vida dos organismos. Assim, suas ideias e observações foram decisivas para o avanço da paleontologia, consolidando-o como um dos pioneiros na interpretação científica da evolução através dos fósseis.

Texto fonte: Stefano, W., S. Almeida, and M. Inglez. (2018). “Concepções evolutivas de Henry Fairfield Osborn nos estudos dos fósseis: uma contribuição.” Psicologia 34: 34.

Disponível em: https://scholar.archive.org/work/zob5auukizfczpbyimrqygqwoi/access/wayback/https://s3-eu-west-1.amazonaws.com/pfigshare-u-files/27617825/STEFANO2018ConcepesevolutivasdeHenryFairfieldOsbornnosestudosdosfsseis_umacontribuio.pdf.

Fonte e legenda da imagem de capa: Foto de Henry F. Osborn.

Disponível em: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Professor_Henry_Fairfield_Osborn.jpg.


Texto revisado por: Sandro Ferreira de Oliveira e Alexandre Liparini.

E se o filme “Vida De Inseto” tivesse como cenário a Terra, só que a 66 milhões de anos atrás, e na Antártida?

Escrito em: 23 de março de 2024

Por: Sofia Castro Machado

Como sabemos, a Antártida é um continente com temperaturas rigorosas, assim como é longínquo, ou seja, distanciado dos demais. Até porque, diferentemente dos outros, 98% do seu chão é gelo. Contém um inventário paleontológico deficitário no que diz respeito às interações entre plantas e insetos, as quais são vistas como vitais, uma vez que proporcionam um extenso conhecimento sobre a cronologia da cadeia alimentar, temperaturas e clima, diversidade de espécies e funcionamento das populações.

Foram encontrados espécimes fósseis diretamente relacionados a essa interação específica na Ilha Nelson, presente no Arquipélago das Ilhas Shetland do Sul, na Antártida, e possui uma idade entre 60 a 100 milhões de anos, sendo assim pertencente ao período chamado Cretáceo Superior. Compreende impressões de folhas pertencente ao gênero Nothofagus sp., nativo do respectivo continente, a qual fora encontrada na formação costeira “Fossil Hill”, composta por lava basáltica, arenito e rochas vulcanoclásticas, sendo alcançável apenas em momentos de maré baixa.

Para diferenciar quais folhas haviam sido deterioradas por insetos, alguns pontos foram colocados sob análise, dentre os quais: tecido de reação, o qual ocorre em caso de herbivoria, levando a um aumento do número de células em certas regiões do vegetal (galha), e singularidade das lesões, como a elaboração de túneis (minas). A partir dessa distinção, averiguou-se que, em um grupo de 200 folhas, 15 indicaram interação, havendo os dois modelos de lesão previamente mencionados; galhas e minas.

Outros indícios de uma possível interação englobam postura de ovos, túneis, fezes dessecadas e cicatrizes. Importante ressaltar que estes insetos são especialistas, isto é, possuem alimentação e hábitos bastante específicos. Dessa forma, as minas se fazem importantes no que concerne à segurança desse animal contra seus predadores e também, contra a perda de água para o ambiente. 

Em razão do pequeno número de táticas utilizadas pelos animais associadas à danificação da folhagem, depreende-se a existência de uma baixa diversidade. Isso pode ser justificado pela ocorrência de instabilidades climáticas, ambientais e ecológicas, assim como pela dificuldade de fossilização. A complexidade da preservação de fósseis reside em episódios de erosão, ventos fortes e movimentação do gelo que causam a decomposição do ser vivo ou destruição de seu fóssil antes que possa ser encontrado. Outros estudos discorrem sobre a Antártida e seu clima mais ameno que antes preponderou, dificultando a vida nesse ambiente, o que é justificado pela seguinte elevação da temperatura durante o Cretáceo Superior. Tal fator poderia ter colaborado com a instalação das interações inseto-planta neste novo clima, de maneira a concorrerem no mesmo local, convertendo tal vínculo em importante parte da história do planeta Terra. E a releitura dessa história? Com novas escavações e evidências fósseis, exatamente como fora com o caso do gênero Nothofagus e o inseto minador.

Texto fonte: SANTOS FILHO, E. B. D., BRUM, A. S., SOUZA, G. A. D., FIGUEIREDO, R. G., USMA, C. D., RICETTI, J. H. Z., TREVISAN, C., LEPPE, M., SAYÃO, J. M., LIMA, F. J., OLIVEIRA, G. R., & KELLNER, A. W. A.. (2023). First record of insect-plant interaction in Late Cretaceous fossils from Nelson Island (South Shetland Islands Archipelago), Antarctica. Anais Da Academia Brasileira De Ciências, 95, e20231268.

Disponível em: https://www.scielo.br/j/aabc/a/H39DmsfkXyHWmQF4kXrk8Cy/?lang=en#.

DOI: https://doi.org/10.1590/0001-3765202320231268.

Fonte e legenda da imagem de capa: Interação entre inseto e planta congelados no tempo.

Disponível em: https://www.scielo.br/j/aabc/a/H39DmsfkXyHWmQF4kXrk8Cy/?lang=en#.


Texto revisado por: Sandro Ferreira de Oliveira e Alexandre Liparini.

O contato (ou a falta dele) com a paleontologia

Escrito em: 18 de março de 2024

Por: Ívian Gomes

Quem não se lembra do primeiro contato com a paleontologia quando criança? Escavações, fósseis e, claro, DINOSSAUROS. Mais que isso, quem não se lembra de mais nada relacionado a isso? Bom, os autores do artigo A paleontologia na educação infantil: alfabetizando e construindo conhecimento fizeram dessa questão o ponto central de seu estudo. A abordagem da paleontologia é uma recomendação feita pelo PCN (Parâmetros Curriculares Nacionais) para ser usada no ensino de ciências para o ensino básico. Porém, o contato com a paleontologia se resume a uma visão estereotipada de exploradores que caçam ossos, não de qualquer tipo, mas sim ossos de dinossauros! Essa é a ideia com que a maioria de nós crescemos, sem saber sobre a importância e as diversas possibilidades de materiais com que essa área de estudo trabalha de fato. 

Nas aulas de geologia da escola estudamos sobre o planeta e suas dinâmicas, formação e classificação de rochas, distribuição dos continentes e demais informações gerais acerca das características físicas da Terra. Apesar de haver materiais paradidáticos para apoio para esse ensino, a produção desses apoios por parte dos paleontólogos brasileiros é muito pequena.

 O artigo sugere que tanto a falta de produção de material quanto a defasagem em sala por parte dos professores se deve, principalmente, ao fato de que, ainda hoje, as universidades dão maior importância à formação de pesquisadores em detrimento da de professores. A impressão que se passa é que a paleontologia é complexa demais para a sala de aula e por isso deve ser restrita a academia. O que muitos não sabem é que diversos resultados de pesquisas nessa área não só podem como devem ser de interesse da população externa à academia, para que todos possam melhor entender sobre nosso passado como indivíduos e como comunidade.

O artigo propõe soluções para essa defasagem através da articulação entre as diversas partes do ensino, a comunidade escolar (alunos, professores, coordenadores) e instituições de ensino superior que devem trabalhar juntas para superar essas barreiras. 

Uma das soluções sugeridas para essa lacuna de formação é o incentivo do interesse das crianças (pesquisadoras por natureza) na área, através de atividades diversas como passeios de campo para museus e exposições paleontológicas. O que dificulta essa iniciativa é a escassez desses espaços em várias cidades do país. Ficam-se então claro os aspectos mais relevantes nessa problemática:  a deficiência na formação dos educadores e alunos, deficiência de material didático e paradidático e a distância existente entre a universidade e a comunidade externa. Esses são aspectos que se organizam de maneira a formar e fomentar um ciclo vicioso que tem como resultado o desinteresse.

Universidades que priorizam a formação de pesquisadores e não professores, professores sem uma base de conhecimento satisfatórios e sobrecarregados, materiais de apoio sem revisão apropriada que acabam criando um corpo de alunos desinteressados pela falta de um contato apropriado. Com este cenário a demanda por museus e outros espaços de conhecimento não escolares voltados à paleontologia, se tornam incapazes de se sustentar e acabam em situação de sucateamento. Com essa falta de interesse não há motivação para que paleontólogos invistam na produção de mais materiais e exposições.

Outras soluções discutidas, ou melhor dizendo, os planos sugeridos para sanar essas faltas  se pautaram na introdução da paleontologia durante a educação infantil, como mencionado no título do estudo. Através de mudanças no espaço da escola e realização de dinâmicas dentro e fora de sala, para que já ocorra essa familiaridade com a área desde cedo e dessa forma esse conhecimento seja popularizado, contando com a disseminação dos aprendizados entre as crianças e delas para o mundo. Além disso, fica clara a necessidade da atuação junto aos educadores é mencionada a possibilidade de um curso de formação continuada como também a assessoria direta para as aulas. Tais medidas foram implementadas ao Colégio Pequenópolis em São Paulo, através de construção de espaço de exposição, mini jardins de exploração, a construção de uma linha do tempo com idades, períodos e eras geológicas na parede da escola, curso para complementação de conhecimento prévio dos professores e a abertura de um canal de dúvidas permanente para que os professores e educadores que participaram do curso tenham uma rede de apoio e um canal de contato permanente. A resposta a essas medidas foi tão positiva e gerou um interesse grande da parte dos alunos ao passo que os professores viram a necessidade de colocar as crianças em contato com um paleontólogo. 

Para que iniciativas como essa  funcionem devemos apoiar o extravasamento das amarras aos livros didáticos  na busca de iniciativas inovadoras, informativas e interessantes que, de preferência, se adequam à faixa etária com que se trabalha e suas limitações.

A forma como o conhecimento é transmitido é algo que se reflete durante  toda a vida, logo devemos tomar os devidos cuidados e dar a devida importância a esse papel tão marcante e definidor que tem a transmissão do conhecimento em nossas vidas.

Link para o artigo original:

https://www.redalyc.org/pdf/2510/251019515005.pdf: O contato (ou a falta dele) com a paleontologia

O que pode ser descoberto através de uma costela de um animal extinto?

Escrito em: 03 de Abril de 2024

Por: Giovanna Lage Almeida

O Coendou magnus Lund, 1839, é uma espécie extinta de um porco espinho sul-americano, pertencente à ordem Rodentia e à família Erethizontidae, formada por indivíduos de hábitos noturnos e arbóreos e que possuem uma dieta de frutas e sementes. Pesquisadores brasileiros fizeram uma análise histológica e difração de raios-X de uma costela de C. magnus, encontrada na caverna Toca da Barriguda em Campo Formoso (Bahia), a qual está situada na Caatinga brasileira.

A histologia do osso tem como objetivo analisar microscopicamente a sua estrutura, já a difração de raios-X permite a identificação de processos de diagênese do fóssil, ou seja, as mudanças ocorridas no sedimento em que ele se encontra e as mudanças químicas e minerais, que ocorreram no próprio fóssil.

Como resultado da análise histológica, os cientistas observaram que o osso coletado está bem preservado, sem grandes alterações de sua microestrutura. Além disso, eles puderam observar uma matriz óssea fibrolamelar muito vascularizada, com feixes vasculares desorganizados, o que indica deposição rápida de tecido ósseo fibroso e altas taxas de crescimento no primeiro estágio de vida. Contudo, os pesquisadores também verificaram tecido fibroso disposto paralelamente com menor vascularização, indicando uma deposição mais lenta de tecido e menor taxa de crescimento ósseo na segunda metade da vida do animal. Por último, eles analisaram que há 5 linhas de pausa de crescimento nessa amostra, indicando que o animal analisado morreu no sexto ou sétimo ciclo de crescimento.

Como resultado da difração de raios-X, os pesquisadores observaram que não havia calcita no osso, que é um mineral muito comum de ser encontrado em fósseis de cavernas, portanto, sua falta indica que houve pouca substituição da matéria óssea original. Além disso, eles verificaram que há silicato de cálcio (Ca2SiO4) no fóssil, mineral que ajuda a preservar o esqueleto.

Portanto, foi possível concluir que o C. magnus analisado teve sua microestrutura bem preservada e teve uma fase de crescimento rápido e uma de crescimento mais lento e com pausas, falecendo já adulto. Ademais, concluiu-se que esse fóssil foi pouco exposto aos intemperismos químicos e físicos e que passou por baixa substituição por minerais.

Texto fonte: Miquéias A. N. Oliveira; Elvis C. da Silva; Leomir dos S. Campos; Mário A. T. Dantas; Luciano A. Leal. (2023). Osteohistological analyses and preservation stage of Coendou magnus Lund, 1839 (Rodentia, Erethizontidae) fossil recovered at Toca da Barriguda cave, northeastern Brazil. Revista Brasileira de Paleontologia, v. 26, n. 4, p. 330-336. Doi:10.4072/rbp.2023.4.06.

Disponível em: https://sbpbrasil.org/publications/index.php/rbp/article/view/410.

Legenda da imagem de capa: Porção óssea com tecido fibrolamelar e vascularização. Seta amarela: Ósteo. Seta preta: canais vasculares.

Disponível em: https://sbpbrasil.org/publications/index.php/rbp/article/view/410.

Texto revisado por: Tiago Lopes Siqueira e Alexandre Liparini

A importância de propostas lúdicas para o conhecimento da Paleontologia em escolas

Escrito em: 29 de março de 2024

Por: Ana Júlia de Freitas

*Texto publicado também no espaço biótico <confira aqui>

O ambiente escolar é o primeiro contato das crianças para além do núcleo familiar, ou seja, é ali em que se desperta o interesse e curiosidade sobre o mundo. Por isso, é de grande importância que existam atividades fáceis, didáticas e interativas que aproximem as crianças à vida acadêmica. Por isso, um grupo de estudantes realizou uma proposta lúdica nas escolas de São Gabriel, no Rio Grande do Sul, com o objetivo de apresentar a Paleontologia para os alunos.

Essa atividade foi dividida em três etapas, sendo, a primeira delas, realizada a partir de uma palestra ensinando o que é a Paleontologia, o que essa ciência estuda, o que são fósseis, onde eles foram encontrados, etc. Também, visando que as crianças e adolescentes tivessem um contato maior com esses organismos pré-históricos, na segunda etapa dessa atividade, eles realizaram uma confecção de réplicas de fósseis.

E, por último, a terceira etapa contou com um jogo de cartas, no qual, sempre que o dado era jogado os estudantes recebiam uma pergunta sobre a Paleontologia. No decorrer do jogo as perguntas podiam ficar mais difíceis. Além desse, também foi realizado um segundo jogo, “Entendendo a Evolução da Vida na Terra”, e, consistia em imagens com alguns representantes de plantas ou animais, e o objetivo era que as crianças conseguissem associa-las ao tempo geológico que esse organismo viveu. Dessa forma, os alunos puderam aprender de forma divertida sobre os períodos históricos, e a evolução e extinção de diversos grupos.

Mas afinal, depois de tudo isso, o que é a Paleontologia? A Paleontologia é a ciência que estuda os registros de organismos que viveram no passado, chamados fósseis, e tem o objetivo de conhecer a vida do passado geológico. Comumente, é apresentada de forma incompleta para o público, por isso, fez-se necessário a realização dessa atividades em centros educacionais, com o objetivo de trazer informações ao público jovem.

Portanto, com o resultado dessa pesquisa foi possível analisar que a concepção dos alunos sobre o que é Paleontologia melhorou muito, mas ainda é necessário realizar novas atividades regularmente com o apoio dos professores. Para que, assim, os estudantes fiquem mais interessados pelo tema, tenham informações sobre a ciência e aprendam de forma divertida.

Texto fonte: Izaguirry, Bruna & Ziemann, Djulia & Müller, Rodrigo & Dockhorn, Juliana & Pivotto, Otávio & Costa, Fabiane & Alves, Bianka & Ilha, Ana & Stefenon, Valdir & Dias-da-Silva, Sérgio. (2013). A Paleontologia nas escolas: uma proposta lúdica e pedagógica em escolas do município de São Gabriel, RS. Cadernos da Pedagogia. 7. 2-16.

Disponível em: https://www.cadernosdapedagogia.ufscar.br/index.php/cp/article/view/569/221 acessado em 03/04/2024.

Fonte e legenda da imagem de capa: Ilustração acerca do ensino investigativo, com o estudante explorando possibilidades de aprendizagem.

Disponível em: Extraída do site novaescola.org.

Geologia e Paleontologia da Formação Marília 

Escrito em: 17 de junho de 2025

Por: Luís Filipe Cardoso Queiroz

A Formação Marília é uma formação geológica que ocorre, entre outras localidades, no Sítio Paleontológico de Peirópolis, localizado 20 km a leste da cidade de Uberaba, no Estado de Minas Gerais (MG). Ela pertence ao Grupo Bauru (do Cretáceo Superior, entre 100,5 a 66 milhões de anos atrás) e apresenta os membros Echaporã, Serra da Galga e Ponte Alta (na Geologia, separam-se as camadas por grupos, formações e membros de acordo com as rochas ali encontradas, sendo que grupos contém formações, que por sua vez, contém membros, que são a menor unidade de caracterização geológica de uma área). 

Essa formação é composta por rochas calcárias e areníticas, contendo sequências de camadas(estratros) em angulações diferentes. A região contava com um paleoclima semi-árido, o que favoreceu a fossilização nesta área (pois em ambientes mais secos, ou seja, carentes de umidade, a degradação de restos orgânicos ocorre de forma limitada) e era um ambiente associado a rios e lagoas , que experimentava intermitentes inundações e ocasionais secas. 

Encontram-se fósseis de vertebrados e invertebrados nessa formação, além de muitas marcas e alterações em rochas e em solos formadas por seres vivos e, embora muitos desses fósseis estejam fragmentados, o que dificulta a sua classificação, foram reconhecidos peixes, tartarugas, crocodilianos e dinossauros (saurópodes e terópodes) de idade Neomaastrichtiana (cerca de 66 milhões de anos atrás).

Os restos de vertebrados são coletados em sedimentos da Formação Marília no Triângulo Mineiro e no oeste do estado de São Paulo desde o início do século passado. Os sedimentos dessa formação afloram de forma desigual no Triângulo Mineiro e no oeste paulista, com isso existe uma diferença no tempo de conhecimento dos vertebrados das duas áreas, sendo que os vertebrados fósseis da região do Triângulo Mineiro são conhecidos desde 1920 enquanto que os fósseis da região paulista passaram não somente a ser divulgados, mas melhor classificados a partir do trabalho pioneiro do paleontólogo Llewellyn Ivor Price a partir de 1947.

Mesmo com tantos trabalhos realizados apenas parte do material coletado nessa formação foram descritas a nível de espécie, devido à natureza fragmentária dos espécimes, algo que impossibilita uma descrição mais pormenorizada. Por conseguinte, isso faz parte do trabalho do paleontólogo, que realiza diversos trabalhos conectando peças para solucionar os casos, dessa forma compreende-se a importância do trabalho desse profissional e o valor que cada fóssil possui para a história daquela região.

Texto fonte:  CANDEIRO, Carlos Roberto dos Anjos. GEOLOGIA E PALEONTOLOGIA DE VERTEBRADOS DA FORMAÇÃO MARÍLIA (NEOMAASTRICHTIANO) NO SÍTIO PALEONTOLÓGICO DE PEIRÓPOLIS. Caminhos de Geografia, Uberlândia, v. 6, n. 16, p. 117–124, 2005.

Disponível em: https://seer.ufu.br/index.php/caminhosdegeografia/article/view/15453

Fonte e legenda da imagem de capa: Reconstrução paleoambiental da Formação Marília

Disponível em: https://revistaig.emnuvens.com.br/derbyana/article/view/776/745


Texto revisado por: Luís Filipe Cardoso Queiroz, Sandro Ferreira de Oliveira e Alexandre Liparini.

A mais antiga evidência de uma floresta no registro fóssil

Escrito em: 21 de junho de 2025

Por: Murilo Valdo Soares Costa

Anteriormente à formação da Pangeia, durante o Período Devoniano, entre 419 e 359 milhões de anos atrás, existia um outro continente, a Laurússia, onde os ambientes terrestres mudariam completamente, graças às plantas. O Devoniano marca uma transição morfológica nas plantas desse período, as quais passaram de pequenas e similares aos musgos à enormes árvores, constituindo complexas florestas ao final do período.

Em 2024, pesquisadores da Universidade de Cambridge observaram o mais antigo achado de uma floresta preservada, no registro fóssil. A floresta pertence à Idade geológica denominada Eifeliana, tendo existido aproximadamente há 390 milhões de anos. A descoberta ocorreu a partir do estudo da formação Hangman Sandstone, ao sudoeste da Inglaterra, onde foram preservados fósseis de árvores primitivas e marcas singulares na sedimentação local, as quais indicam a disposição dessas plantas em uma floresta relativamente densa.

As árvores preservadas, e passíveis de identificação, pertencem ao gênero Calamophyton, plantas evolutivamente próximas das samambaias atuais. Essas árvores chegavam à quatro metros de altura e se vistas de longe, pareceriam palmeiras. Foram preservadas especialmente impressões do tronco dessas plantas, porém o que consolidou a noção dessas árvores estarem dispostas em uma floresta, foram as estruturas singulares na sedimentação, induzidas por essas plantas. Se observou a presença de impressões relativamente circulares e próximas à elas, impressões alongadas, as quais demonstram um evento de queda dessas árvores frente à mudanças no ambiente, onde a planta estava fixa ao solo verticalmente e caía posteriormente. Essas impressões e outras estruturas sedimentares foram encontradas densamente agrupadas, elucidando a posição dessas árvores na floresta primitiva.

Durante a Idade Eifeliana, a área da formação Hangman Sandstone apresentava um clima semiárido e um rio com enchentes sazonais, com as árvores dispostas em suas margens. A floresta afetou profundamente o ambiente fluvial, onde o sistema de raízes das plantas aumentou a estabilidade do solo e a queda de galhos e outras estruturas supriu matéria orgânica em abundância ao ambiente. Ademais, a densidade e tamanho das árvores possibilitaram que a floresta perseverasse frente a inundações e pudesse aumentar em complexidade apesar de eventos externos.

A investigação da formação Hangman Sandstone elucidou parte da transição de plantas durante o Devoniano, quando ocorreu um aumento gradual em complexidade morfológica e de seus ecossistemas. Além disso, pôde-se observar alguns exemplos da influência dessas plantas em seu ambiente.

Texto fonte: DAVIES, N.S.; MCMAHON, W.J.; BERRY, C.M. (2024). Earth’s earliest forest: fossilized trees and vegetation-induced sedimentary structures from the Middle Devonian (Eifelian) Hangman Sandstone Formation, Somerset and Devon, SW England. Journal of the Geological Society, v. 181.

Disponível em: https://www.lyellcollection.org/doi/full/10.1144/jgs2023-204.

DOI: https://doi.org/10.1144/jgs2023-204?ref=pdf&rel=cite-as&jav=VoR

Fonte e legenda da imagem de capa: Representação de espécimes agrupados de Calamophyton. Representação da floresta encontrada no estudo.

Disponível em: https://www.cam.ac.uk/stories/earths-earliest-forest-somerset


Texto revisado por: Murilo Valdo Soares Costa e Alexandre Liparini.

OS ANÉIS BRILHANTES DA TERRA

Escrito em: 30 de junho de 2025

Por: Damiane Mello Andrade

Há mais de 450 milhões de anos, durante o Período Ordoviciano, nosso planeta pode ter sido circulado por belíssimos anéis cintilantes. Essa hipótese surpreendente foi levantada por um estudo publicado em Novembro de 2024, pela revista  Earth and Planetary Science Letters intitulado ”Evidence suggesting that earth had a ring in the Ordovician” de Andrew G. Tomkins, Erin L. Martin e Peter A. Cawood. Os pesquisadores analisaram 21 crateras de impacto de meteorito distribuídas pelo globo, todas formadas em um intervalo de 40 milhões de anos, conhecido como Pico de Impacto do Ordoviciano. O que torna essas crateras especiais é sua localização: todas estão situadas muito próximas da linha do Equador — o que é curioso. Por que tantas crateras de um determinado momento da história da Terra estão localizadas na linha do equador? Existe alguma explicação para o por que os meteoros não se dispersaram para outros lugares?

Os pesquisadores propõem uma explicação fascinante para essa concentração estranha: um asteroide gigantesco com aproximadamente 12 quilômetros de diâmetro, teria se aproximado demais da Terra e sido despedaçado pelas forças de maré ao cruzar o Limite de Roche — ponto onde a gravidade de um planeta (Terra) consegue romper um corpo celeste (meteoro) e despedaçá-lo de dentro para fora. Os destroços resultantes desse rompimento teriam se organizado em um anel de detritos ao redor do planeta, concentrado na região equatorial devido ao efeito centrífugo, resultado do movimento de rotação — movimento de giro que a Terra faz ao redor de seu próprio eixo — que com o tempo foi enfileirando os pedaços do meteoro como um enorme bambolê.

Ao longo de milhões de anos, esses pedaços começaram a colidir entre si, formando blocos cada vez maiores. Foram surgindo “pequenas luas” que por serem mais massivas saiam de órbita. Atraídas pela gravidade caíam em direção à superfície do planeta, criando o padrão de crateras encontrado no equador! Ou seja, aquelas crateras na verdade são rastros do anel! Hoje estas marcas são encontradas em locais como América do Norte, Europa, Rússia, China, África, América do Sul e Austrália — continentes que, no Ordoviciano momento da queda dos meteoros) — estavam posicionados próximos ao Equador e hoje estão deslocados devido ao movimento dos continentes.

Distribuição das crateras de impacto do período Ordoviciano sobre a reconstrução paleogeográfica

A pesquisa ainda sugere que o sistema de anéis pode ter influenciado inclusive o clima do planeta! Os anéis provavelmente criaram um ambiente muito diferente do que é a Terra nos dias de hoje: eles poderiam diminuir a quantidade de luz solar que chegava no planeta, deixando ele mais frio do que o normal. Imagine só como seria um inverno sob a sombra dos anéis impedindo a chegada da luz solar? Além do resfriamento, as “pequenas luas” que caíam na Terra teriam levantado grandes nuvens de poeira na atmosfera, dificultando a chegada da luz solar e aumentando ainda mais o efeito de resfriamento. O resultado seria um “inverno prolongado e nebuloso”, com temperaturas globais caindo drasticamente o que teria grandes impactos sobre a vida da época. 

Vale lembrar que sistemas de anéis não são exclusividade dos gigantes gasosos. Saturno, com seus deslumbrantes anéis de gelo, é o exemplo mais famoso, mas Júpiter, Urano e Netuno também possuem seus próprios anéis. Evidências recentes sugerem até que Marte pode ter tido anéis no passado!!!

Referência: Tomkins, A. G., Martin, E. L., & Cawood, P. A. (2024). Evidence suggesting that Earth had a ring in the Ordovician. Earth and Planetary Science Letters, 646, 118991.

Disponível em: https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0012821X24004230.

Texto revisado por: Alexandre Liparini.

Visitando o passado com a Tecnologia 3D

Escrito em: 22 de abril de 2025

Por Laura Costa Leite Gueron

Imagine poder visitar um sítio paleontológico sem sair da tela do computador? Graças a tecnologia que transforma fotos em modelos 3D, denominada fotogrametria, isso é possível!

Foi isso que pesquisadores da universidade estadual de São Paulo objetivaram fazer ao tirar centenas de fotos do interior de uma paleotoca. Localizada no Município de Doutor Pedrinho, SC e atribuída a espécie Megaichnus major, a paleotoca, considerada um icnofóssil (registros de uma atividade biológica nas rochas e sedimentos), foi escavada em arenitos da Formação Taciba, uma unidade litoestratigráfica, pertencente ao Grupo Itararé. Os responsáveis por essa escavação foram mamíferos gigantes que habitavam o planeta há milhares de anos.

Através da análise das dimensões dos túneis, assim como traços de polimento e marcas de garras duplas paralelas e traços entrelaçados e com convergência em “Y” foi possível delimitar que o animal escavador responsável pela formação dessa paleotoca foi ao menos um indivíduo de preguiça gigante da família Mylodontidae.

Tais medidas e marcas foram exaustivamente registradas e fotografadas a fim de se obter material suficiente para a reconstrução 3D, que depende de fatores minuciosos tais como a abertura da lente da câmera fotográfica, a quantidade de iluminação, o zoom e a padronização das imagens para o encaixe perfeito no modelo final. Com isso, os pesquisadores conseguiram recriar as texturas, os formatos dos túneis, os polimentos e os traços de escavação da paleotoca, disponibilizando os resultados em sites de livre acesso para que qualquer um possa sentir que está em uma estrutura formada há milhares de anos.

Nesse caso, a reconstrução 3D permite a visualização do interior detalhadamente de uma área de difícil acesso. Mas muito além disso, a tecnologia de Modelos Digitais Tridimensionais traz diversos benefícios para áreas como a paleontologia. Permite a preservação e conservação de sítios paleontológicos que podem deteriorar com o tempo ou até mesmo com o caráter destrutivo de escavações. Permite a revisitação de pesquisadores, para pesquisas sem necessidade de visitar o local. Democratiza o acesso à ciência, de modo que, com poucos equipamentos é possível aproveitar dos frutos dessa tecnologia. E muito além disso, essa é uma tecnologia que não se limita a paleontologia e que pode ser benéfica em diversas áreas da produção e divulgação de conhecimentos científicos.

Texto fonte:  AUDI, Caroline; MEYER, Douglas; TJUI YEUW, Tan; BARALDO, Kleber Barrionuevo; FEY, Jesica Daniela; SPANGHERO, Natalie Fernandes; MUNHOZ, Marcelo Schereiber; OLIVEIRA, Bruno Júlio de; BUCHMANN, Francisco Sekiguchi. Fotogrametria de um icnofóssil escavado por Preguiças-gigantes (Megaichnus major). Revista Brasileira de Paleontologia, [S. l.], v. 25, n. 3, p.208–218, 2022. DOI: 10.4072/rbp.2022.3.04.

Disponível em: https://sbpbrasil.org/publications/index.php/rbp/article/view/306. Acesso em: 22 apr. 2025.

Fonte e legenda da imagem de capa:  Imagem do modelo 3D da paleotoca Megaichnus major que permite a observação das marcas de garras na parede. (Imagem retirada do texto fonte.)


Texto revisado por: Fernanda Moreira Batitucci e Alexandre Liparini.

Primeira evidência de relação entre Barbeiro e Tripanossomatídeo, a chave para a distribuição da Doença de Chagas.

Escrito em: 10 de abril de 2025

Por: Victor Lucas Duarte Armani

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Foi encontrado na República Dominicana, na Mina La Toca, entre as cidades de Puerto Plata e Santiago de los Cabalerros, um pedaço de âmbar que guarda a primeira evidência fóssil de um triatomíneo, popularmente conhecidos como barbeiros, com um tripanossomatídeo, possivelmente ancestral do Trypanosoma cruzi, o causador da doença de Chagas. No achado de cerca de 15 a 40 milhões de anos atrás, estavam presentes diferentes artrópodes que se alimentam de sangue, incluindo um barbeiro próximo a partículas fecais contendo os parasitos. Mas por que essa descoberta é tão importante?

A Doença de Chagas é uma doença endêmica da América Latina, causada pelo protozoário Trypanosoma cruzi e é um problema de saúde pública que afeta cerca de 6-8 milhões de pessoas no mundo todo. Uma das características mais marcantes desse parasito é sua capacidade de infectar diversos tipos de seres vivos além de humanos, como mamíferos silvestres e aves. Porém nem sempre esse protozoário teve a capacidade de infectar tantos animais.

É teorizado que formas mais antigas de T. cruzi, eram mantidas em gambás, por volta de 65 milhões de anos atrás. Durante esse período os barbeiros ainda não existiam, então o parasito era transmitido a partir das glândulas anais dos gambás, penetrando barreiras e chegando na circulação sanguínea dos animais. Nesse contexto os hospedeiros da parasitose se limitavam a gambás, mas o que possibilitou a diversificação dessa característica?

Se você pensou nos barbeiros, você está totalmente correto. A associação da relação triatomíneo-barbeiro permitiu que o parasito “pulasse” para outros animais, e criasse um ciclo silvestre contínuo e amplo. O barbeiro se infecta quando pica um animal infectado, ingerindo junto com o sangue o parasita, no meio doméstico classicamente o ser humano é infectado por contato com as fezes desse barbeiro, mas no meio silvestre isso acontece majoritariamente quando no momento da picada o animal tenta revidar contra o inseto e acaba o ingerindo junto com o parasito se tornando infectado. Esse processo é um dos principais motivos pela ampla disseminação da doença na América Latina, assim como a causa da dificuldade para erradicá-la, uma vez que é basicamente impossível tratar e impedir que animais silvestres infectados transmitam a doença para outros.

Assim, a descoberta desse fóssil em âmbar é significativa, porque registra o primeiro momento em que a relação parasito-vetor já estava estabelecida, abrindo caminho para a diversificação dos hospedeiros de T. cruzi. Sem essa associação é bem possível que a doença permanecesse restrita a um grupo limitado de animais, sem se tornar um problema de saúde pública de proporção continental.  Além disso, ele também representa como o estudo paleontológico também conversa com o estudo de questões de saúde pública, sendo importantes para monitorar e entender como doenças chegaram no status que se encontram no mundo atual.

Texto fonte: Poinar, George. (2005). Triatoma dominicana sp. n. (Hemiptera: Reduviidae: Triatominae), and Trypanosoma antiquus sp. n. (Stercoraria: Trypanosomatidae), the First Fossil Evidence of a Triatomine-Trypanosomatid Vector Association. Vector borne and zoonotic diseases (Larchmont, N.Y.). 5. 72-81. 10.1089/vbz.2005.5.72. 

Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/15815152/

Legenda da imagem de capa: Fóssil de Triatoma dominicana sp.

Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/15815152/

Texto revisado por: Victor Lucas Duarte Armani, Tiago Lopes Siqueira, Sandro Ferreira, Alexandre Liparini