A Fauna de Ediacara: Possível Novo Local de Aparição

Escrito em: 03 de abril de 2024

Por: Matheus Mesquita

A Fauna de Ediacara, foi um grupo de organismos pré-históricos que surgiram no Pré-Cambriano no período ediacarano, cerca de 635 a 541 milhões de anos atrás, que foram extintos, possivelmente, na transição para o Cambriano. Esses organismos são importantes para a paleontologia, pois, apesar de não sabermos exatamente de que tipo de seres se tratavam (fungos, algas, protozoários, animais, entre outros) por falta de maiores informações, estão dentre as primeiras formas de vida pluricelular. Os primeiros fósseis da fauna de ediacara foram encontrados na Austrália Meridional, em uma região chamada Ediacara, da qual o nome foi originado.

Durante algumas investigações geológicas na região sul do País de Gales, no Reino Unido, foram encontradas rochas que não condizem com a geologia da região e que possuíam vestígios de fósseis aparentes. Esses vestígios, que possuíam em torno de 1 centímetro de diâmetro, foram analisados por vários pesquisadores e os resultados sugeriram que se tratavam de organismos referentes à Fauna de Ediacara, do final do Pré-Cambriano.

Alguns materiais coletados foram reconhecidos e identificados com a sua respectiva espécie, como os gêneros Cyclomedusa e Medusinites, mas alguns, aparentemente, não puderam ser relacionados com qualquer organismo conhecido anteriormente. Até então, não foram encontradas rochas na área que sejam do Cambriano, mesmo com a presença de um gênero deste período. Existe a possibilidade de que esses seres sejam do Período Cambriano, porém, em outros pontos do Reino Unido, foram encontradas medusoides semelhantes e descritas como da Fauna de Ediacara, como no condado de  Leicestershire.

No entanto, a falta de uma fauna semelhante nas rochas do Cambriano em outras partes do País de Gales e a ausência de fósseis de organismos multicelulares sugerem uma idade do final do Pré-cambriano para os fósseis encontrados. Detalhes completos serão publicados após investigação adicional.

Texto fonte: Cope, J.; An Ediacara-type fauna from South Wales. Nature (London), 1977-08, Vol. 268 (5621), p. 624-624.

Disponível em: https://www.nature.com/articles/268624a0.

DOI: 10.1038/268624a0.

Fonte e legenda da imagem de capa: Vestígio Fóssil da Fauna de Ediacara encontrado em South Wales, País de Gales, Reino Unido.


Texto revisado por: Milena Ramos Fonseca, Sandro Ferreira de Oliveira e Alexandre Liparini.

Origens e Migrações: O Mochilão das Abelhas Pelo Mundo

Escrito em: 04 de abril de 2024

Por: Laura Luiza Ramalho de Paula

Quando pensamos em angiospermas, mais conhecidas como plantas com flores, logo nos vem à mente aquele inseto fofinho, mas também perigoso, que rodeia-as na primavera, o polinizador mais comum entre as flores: as abelhas. Você já pensou como as abelhas, insetos tão pequenos, se espalharam pelo mundo antes mesmo do surgimento do homem na terra? Ou então, quem veio primeiro a flor ou a abelha?

É sabido que as abelhas surgiram há 120 milhões de anos, no período do Cretáceo, 20 milhões de anos antes das primeiras plantas com flores. O artigo “The evolutionary history of bees in time and space”, através de análises genômicas e de fósseis, mostra que a origem das abelhas ocorreu na Gondwana, um supercontinente formado pelas faixas de terra que hoje constituem, em maior parte, os continentes do hemisfério sul, sendo eles a América do Sul, África, Antártica, Índia e Austrália, principalmente na sua parte Ocidental, respectivamente a América do Sul e a África. Após sua origem em Gondwana, a história biogeográfica das abelhas foi posteriormente impactada pela fragmentação dos continentes do sul no Cretáceo (separando as linhagens sul-americanas e africanas). As abelhas migraram para os continentes localizados ao norte, e por último atingiram Austrália e Índia. A chegada tardia dos futuros polinizadores nesses ambientes tem ainda hoje implicações significativas para a compreensão da formação das flores locais e de diversos possíveis métodos de polinização.

Com essa pesquisa, envolvendo a comparação de genes e uma exploração mais detalhada do registro fóssil das abelhas, os pesquisadores conseguiram uma reconstrução biogeográfica e assim um bom relato sobre a história evolutiva das abelhas. A chegada das abelhas em diferentes tempos e em diferentes regiões do mundo teve implicações que dificultam a reconstrução da história delas e das flores de forma conjunta.

Mas é muito legal saber que existem trabalhos de pesquisas sendo realizados para reconstruir a história temporal e espacial da diversificação das abelhas, e que estamos cada vez mais perto de entender verdadeiramente sobre a evolução das interações entre plantas e polinizadores.

Texto fonte: Eduardo A.B. Almeida, Silas Bossert, Bryan N. Danforth, Diego S. Porto, Felipe V. Freitas, Charles C. Davis, Elizabeth A. Murray, Bonnie B. Blaimer, Tamara Spasojevic, Patrícia R. Ströher, Michael C. Orr, Laurence Packer, Seán G. Brady, Michael Kuhlmann, Michael G. Branstetter, Marcio R. Pie. (2023). The evolutionary history of bees in time and space. ScienceDirect. Volume 33. Issue 16.Pages 3409-3422.e6.

Disponível em: https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0960982223009120

DOI: https://doi.org/10.1016/j.cub.2023.07.005.

Fonte e legenda da imagem de capa: A figura ilustra as possíveis distribuições de espécies específicas de abelhas em diferentes períodos geológicos da Terra, destacando o distanciamento dos continentes e a dispersão das abelhas pelo mundo.

Disponível em: https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0960982223009120.


Texto revisado por: Ítalo Augusto de Oliveira Barboza, Sandro Ferreira de Oliveira e Alexandre Liparini.

Paleoarte e a caracterização de dinossauros

Escrito em: 28 de março de 2024

Por Carla Fernanda Silva Garcia 

A paleoarte teve seu início simultâneo ao surgimento da ciência conhecida como paleontologia, que é responsável por estudar as formas de vida existentes em períodos geológicos passados, com base em seus fósseis. Ambas surgiram por volta de dois séculos atrás mas a origem do termo paleoarte deriva de paleoartista, nome designado a um grupo de desenhistas da época, que eram responsáveis por recriar os cenários e a biodiversidade dos ambientes pré-históricos, se baseando nas descrições e conceitos determinados por paleontólogos. Vale ressaltar que a paleoarte não é uma ciência assim como a paleontologia, mas sim, arte baseada em dados científicos.

Com o passar dos anos e os inúmeros avanços tecnológicos, diversos programas de modelagem 3D e outros foram desenvolvidos, o que serviu de base para as representações mais realistas e aprofundadas destes ambientes pré-históricos. A tecnologia também foi e é de grande ajuda na divulgação científica. Os conhecimentos adquiridos através dos anos pela paleontologia, durante muito tempo só eram acessíveis e discutidos entre a comunidade acadêmica, fazendo com que a população de forma geral tivesse uma imagem distorcida de como seriam estes animais em vida, sendo vistos como grandes e lentos lagartos. 

Neste momento, a mídia foi essencial pois com o lançamento de Jurassic Park, que usou computação gráfica para dar vida aos dinossauros, o interesse pelos estudos da paleontologia por parte da população aumentaram, além de trazer a perspectiva de futuramente existir representações com a mínima margem de erro possível. Por mais que haja equívocos na obra, é indispensável citá-la como marco que despertou o interesse do meio não científico sobre os estudos da paleontologia.

Com base nessa introdução dada nos parágrafos anteriores, será apresentado a seguir o passo a passo da construção de uma paleoarte. A classe de animais analisada é a Pterosauria, que abriga os primeiros vertebrados e maiores organismos a alçarem voo. Se espalharam pelo globo na era mesozoica e através de adaptações conseguiram viver também em ambiente terrestre. O animal a ser analisado é o Gnathossauro macrurus, que pertence a um grupo de pterossauros com características semelhantes às das aves das zonas húmidas costeiras, como estuários e lagoas. 

Os integrantes deste grupo tem a parte posterior do crânio alongada e uma crista craniana, que neste caso, é possível que fosse de tecido mole. Depois da compilação destes e outros dados científicos sobre anatomia, foi feito o primeiro esboço desta espécie exótica corretamente em pé e em uma posição anatomicamente coerente. 

Mais detalhes foram adicionados posteriormente na versão final da paleoarte, como texturas da pele, estruturas parecidas com fibrilas que se estendiam do crânio às costas. Entretanto estudos recentes apontam que esta espécie poderia ter estruturas parecidas com penugens. A atenção foi dada também aos dentes desta espécie, que eram proeminentes e usados para a caça de pequenas espécies sob a água.Assim como na arte, na paleoarte não há regras sobre quais ferramentas utilizar, cada artista tem suas perspectivas dos materiais e como aplicá-los a cada representação. Na paleoarte do Gnathossauro macrurus, foram usados programas de modelagem 2D e 3D, juntamente com o Photoshop para os detalhes finais. O artista responsável por essa representação é o Português Vítor Feijó de Carvalho, que apresentou esta paleoarte em seu Trabalho de Conclusão de seu Mestrado em Desenho.

Texto fonte: Carvalho, Vitor F. (2019). A aplicação da paleoarte na representação da classe reptilia. Universidade de Lisboa. Disponível em: Repositório da Universidade de Lisboa: A aplicação da paleoarte e do desenho científico na representação da classe reptilia (ul.pt)

Disponível em: 

Legenda da  imagem: Arte final da representação do réptil Gnathosaurus macrurus


Texto revisado por: Cíntia Silva, Alexandre Liparini.

Desenterrando segredos: como os parasitos podem ajudar a explicar a história humana?

Escrito em: 30 de Março de 2024

Por: Bianca Stacanelli Ribeiro


*Texto publicado também no espaço biótico <confira aqui>

Você já pensou em como desvendar o passado e como as origens de alguns causadores de doenças em humanos pode nos ajudar a desvendar nossa própria história? Por mais absurda que essa relação possa parecer em um primeiro momento, ela é o alvo de interesse de uma área de estudo pouco conhecida, mas muito importante, a paleoparasitologia. Através de vestígios em fezes que fossilizaram (coprólitos) e de restos humanos, pesquisadores de várias áreas se unem para tentar reconstruir a história das parasitoses e suas relações com as diversas espécies. 

Para começar, imagine que você pudesse voltar séculos atrás e observar como viviam as comunidades humanas antigas. Com certeza notaria o quão parasitadas eram essas populações, que já conviviam com piolhos, pulgas e vermes intestinais. Os quais não necessariamente causavam uma doença, uma vez que ela é oriunda de um desbalanço entre o sistema hospedeiro – parasito – ambiente, mas que certamente estariam moldando o comportamento e exercendo pressão evolutiva na população. 

Ao analisar os restos arqueológicos, como os supracitados, é possível identificar um parasito, até mesmo ao nível de espécie, e, então, localizar infecções no espaço e no tempo e acompanhar as migrações humanas pelas descobertas desses pequenos organismos nos ambientes ocupados no passado. Nesse contexto, outro ponto a se pensar é que a combinação de restos alimentares com análises paleoparasitológicas nos dá indícios de dietas antigas. Por exemplo, pense que foram descobertos ovos de um parasita de lagartos em fezes humanas, a partir disso, infere-se que os humanos utilizavam tais animais como fonte de proteínas.

Além disso, uma outra coisa que vai te deixar ainda mais instigado a pensar na importância da paleoparasitologia é o fato de que ela pode ajudar a desvendar algumas mortes ou doenças de personalidades históricas. Como é o caso do imperador romano Júlio César, o qual apresentava quadros de epilepsia que poderiam ocorrer devido a uma possível neurocisticercose, já que o parasita foi encontrado em uma múmia egípcia datada do período ptolomaico (200 a 100 anos a.C.) também.

Entretanto, depois de apresentar alguns exemplos históricos, é importante mencionar que a relevância da paleoparasitologia não se restringe apenas ao estudo do passado distante, no sentido que suas descobertas têm importantes implicações para a saúde pública contemporânea. Isso porque garante a compreensão da evolução e da disseminação dos parasitos ao longo de toda a história, fazendo com que estratégias mais eficazes de prevenção e de controle de doenças parasitárias presentes nos dias de hoje possam ser tomadas.

Resumindo, a paleoparasitologia oferece uma visão fascinante da relação entre humanos e parasitas ao longo da história, destacando sua importância ao compreendermos a evolução dessas infecções para enfrentar os desafios de saúde do presente e do futuro.

Texto fonte:  Adauto Araújo, Karl Reinhard, Luiz Fernando Ferreira, Elisa Pucu, Pedro Paulo Chieffi (2013). Paleoparasitology: the origin of human parasites. Arq Neuropsiquiatr; 71(9B):722-6. Doi: 10.1590/0004-282X20130159. PMID: 24141513. 

Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/24141513/

DOI: 10.1590/0004-282X20130159. PMID: 24141513. 

Fonte e legenda da imagem de capa: Coprólito e sua importância para a história da interação entre parasitos e espécies antigas.

Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/24141513/


Texto revisado por: Ana Luísa Ferreira e Alexandre Liparini.

Região rica em fósseis mas pouco explorada no interior de Goiás intriga cientistas 

Escrito em: 03 de abril de 2024

Por: Gustavo de Souza Siqueira

Apesar da grande diversidade de fósseis no Brasil, estudos paleontológicos no nosso país ainda são relativamente recentes. O território brasileiro contém várias bacias sedimentares de diversos períodos geológicos e uma delas é a Bacia do Paraná. Ela foi bastante estudada em relação ao período Devoniano, mas esse estudo se limitou apenas aos fósseis do estado do Paraná (Sub-bacia Apucarana) e, apesar do nome, essa bacia também engloba regiões do Mato Grosso do Sul, Mato Grosso e Goiás (além de estar em parte da Argentina, Uruguai e Paraguai) que possuem poucos estudos em relação aos seus fósseis. Com isso, os cientistas Fábio Augusto Carbonaro e Renato Pirani Ghilardi buscaram fazer um levantamento paleontológico sobre os fósseis do período Devoniano do estado de Goiás  (Sub-bacia Alto Garças) com intuito de instigar mais estudos nesta região. 

Em uma breve contextualização geológica, há a presença de siltitos e arenitos na Sub-bacia Alto Garças, a qual é dividida entre unidades 1, 2, 3 e 4 (unidades geológicas, ou seja, de diferentes tipos de ocorrências rochosas) do Grupo Chapada (grupo de determinadas rochas que estão na região). Todas as camadas contém arenito, sendo que a unidade 3 contém também folhelhos e a unidade 4 siltitos e folhelhos de coloração cinza escuro. O arenito e o siltito são rochas conhecidas por terem a possibilidade de conter conteúdo fóssil, já que suas origens sedimentares são associadas ao soterramento rápido de materiais na superfície, facilitando a fossilização.

Em geral, tem-se que o Devoniano é um período da era paleozoica que está compreendido entre, aproximadamente, 416 e 360 milhões de anos atrás, sendo mais antigo que os dinossauros, que viveram entre 230 e 66 milhões de anos. Foram encontrados registros fósseis do Devoniano em Goiás, que revelaram diversos animais que teriam vivido naquela região. Os principais tipos de fósseis encontrados foram de braquiópodes antigos (seres que vivem no fundo do mar, associados a conchas de duas valvas), de moluscos e de trilobitas, além de, em menor quantidade, tentaculitoideos (invertebrados com conchas em forma de cone). Ademais, uma certa quantidade de icnofósseis (marcas deixadas pelos seres vivos) e microfósseis foram encontrados.

Além do levantamento de novos fósseis encontrados, os cientistas puderam sinalizar novos afloramentos rochosos, mostrando como a região é rica em conteúdo e tem muito a ser explorada. Evidencia-se, portanto, a grande importância de fomentar os estudos paleontológicos no Brasil, visto que ainda há muito que se descobrir sobre os paleoambientes, paleofauna e paleoflora que já existiram em nosso país.

Texto fonte:  Carbonaro, F.B.; Ghilardi, R.P;(2016)  Fósseis do Devoniano de Goiás, Brasil (Sub-bacia Alto Garças, Bacia do Paraná),Papéis Avulsos de Zoologia(PAZ), v.56, n 11 pag 135-149. 

Disponível em: https://www.scielo.br/j/paz/a/YkTLjCZKcTrcBVTXvkgF6Xz/#

DOI: 10.1038/s41598-022-09125-9.

Fonte e legenda da imagem de capa: Fósseis encontrados nos afloramentos pelos cientistas mostram a diversidade da fauna e flora no estado de milhões de anos atrás.

Disponível em: Figura 6 do artigo.


Texto revisado por: Luís Filipe Cardoso Queiroz e Alexandre Liparini.

Os fungos talvez sejam mais antigos do que você pensa

Escrito em: 24 de março de 2024

Por Maria Eduarda Ávila Aguiar

Você acha que os fungos existem desde quando? Nós sabemos que eles estão presentes em todos os lugares (quem nunca teve um pão mofado, não é mesmo?), mas a quanto tempo eles existem no contexto da vida?

Os fungos são organismos extremamente importantes para o funcionamento do ciclo da vida na Terra. Eles participam de importantes processos, principalmente no solo, que tornam o meio adequado para o desenvolvimento das plantas e outras formas de vida! Nesse sentido, o estudo paleontológico do Reino Fungi é extremamente importante, ele pode nos dizer muito sobre como os organismos vivos conseguiram habitar o meio terrestre.

Um artigo, publicado em 2020, na revista Science Advances, apresentou o achado de filamentos fúngicos em uma rocha, na República Democrática do Congo, datada de 810 a 715 milhões de anos, o que corresponde ao final da Era Pré-Cambriano no contexto geológico (Período Neoproterozoico). O fóssil encontrado passou por uma série de análises moleculares até ser caracterizado como de origem fúngica e, com essa conclusão, descobriu-se que é um dos fósseis de fungo mais antigos já identificados molecularmente!

Com análises geológicas, observou-se que a rede de filamentos de fungo foi encontrada em rocha sedimentar, o que possibilitou a observação de características morfológicas associadas aos fungos. O fóssil apresenta uma rede de filamentos, com ramificações e tamanho condizente a estruturas de redes fúngicas. Para maior confirmação, as análises moleculares de compostos químicos e bioquímicos apontou a presença de quitina, uma proteína presente na composição da parede celular dos fungos. Além disso, alguns compostos químicos presentes evidenciam a diferença desse fóssil para outros tipos de microrganismos, apresentando marcações moleculares similares a espécies fúngicas modernas e a fósseis quitinosos.

Com esse achado, os fungos mais antigos já documentados avançam no Período Neoproterozoico, levando a possibilidade de os fungos terem contribuído para a colonização da superfície terrestre antes das plantas a mais de 300 milhões de anos atrás. Pode-se inferir que os fungos, provavelmente, ajudaram a estabilizar a matéria orgânica, contribuindo assim para a oxigenação gradual ao final da Era Pré-Cambriana, participando da mudança de condições ambientais para a explosão de biodiversidade do Cambriano.

Os dados levantados pelo artigo demonstram que microrganismos contribuíram (e ainda contribuem) muito para a vida e diversidade encontradas atualmente! Com os estudos na área, podemos encontrar ainda mais informações a respeito do pouco conhecido mundo antes da presença da biodiversidade da qual fazemos parte atualmente!

Texto fonte: S. Bonneville; F. Delpomodor; A. Préat; C. Chevalier; T.Araki; M. Kazemian; A. Steele; A. Schreiber; R. Wirth; L. Benning, 2020. Molecular identification of fungi microfossils in a Neoproterozoic shale rock. (2020) Science Advances v. 6, n. 4, p. 52-58. Doi: 10.1126/sciadv.aax7599.

Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/32010783/

Fonte e legenda da imagem de capa: Estrutura da rede de filamentos fúngicos por microscopia confocal fluorescente.

fonte da imagem: Figura 2 do artigo


Texto revisado por: Lucélio Batista, Alexandre Liparini.

Preguiças-gigantes e a paleotoca de Morro Vermelho: memória do Pleistoceno em Minas

Escrito em: 01 de abril de 2024

Por: Luís Otávio Rodrigues Saldanha

A descoberta de uma paleotoca no Parque Nacional da Serra do Gandarela representa um achado de grande relevância científica e cultural. Esses túneis escavados por animais extintos nos transportam ao Pleistoceno, período em que a megafauna habitava a região.

A paleotoca encontrada em Morro Vermelho é a maior já registrada em Minas Gerais e traz evidências claras da presença das preguiças-gigantes, animais emblemáticos daquele período. O estudo desses vestígios pode revelar informações valiosas sobre o comportamento, a ecologia e a distribuição dessas espécies.

Além do valor científico, a descoberta reforça a necessidade de proteger o patrimônio arqueológico e paleontológico, especialmente em áreas naturais preservadas como o Parque Nacional da Serra do Gandarela. A atuação de mineradoras na região acende um alerta para os riscos à integridade desse importante sítio.

Diante do possível conflito entre exploração econômica e conservação, é essencial promover um diálogo transparente entre pesquisadores, autoridades, organizações ambientais e comunidade local. Somente assim será possível construir estratégias de gestão que conciliem desenvolvimento sustentável, proteção ambiental e preservação cultural.

Por fim, a conservação desse patrimônio depende de vigilância contínua, medidas eficazes e do engajamento da sociedade. A defesa de locais como a paleotoca de Morro Vermelho garante não apenas a preservação da história natural, mas também o legado para as futuras gerações.

Texto fonte: Ruchkys, U.A., Bittencourt, J. S., Carvalho e Buchmann, F.S. (2014). A paleotoca daSerra do Gandarelae seu potencial como geossítio do Geoparque Quadrilátero Ferrífero, Minas Gerais. Caderno de Geografia, v.24, n.42, 10.5752/P.2318-2962.2014v24n42p249.

Disponível em: https://periodicos.pucminas.br/index.php/geografia/article/view/8757/7386.

Fonte e legenda da imagem de capa: Imagem ilustrativa de caverna.

Disponível em: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Phong_Nha-Ke_Bang_cave3.jpg.

Texto revisado por: Sandro Ferreira de Oliveira e Alexandre Liparini.

A Importância e Contribuição do Âmbar nos Estudos Paleoecológicos

Escrito em: 02 de abril de 2024

Por Yasmin Andrade

 Diferente do que muitas pessoas imaginam, o âmbar não é um mineral. Embora seja frequentemente comercializado como uma gema e utilizado na manufatura de objetos ornamentais como pingentes, brincos, colares e até mesmo em objetos de decoração, na verdade, trata-se de uma resina vegetal fossilizada, com a função original de proteger a árvore e agir como um cicatrizante natural. Dentro do âmbar, é comum encontrar, não apenas plantas e insetos fossilizados, mas também outros produtos animais, como fezes, pêlos, penas e exúvias de insetos. Além disso, há registros de momentos singulares da vida, como formigas em combate e até mesmo insetos em cópula.

Sendo assim, o âmbar desempenha um papel crucial na preservação de fósseis desses pequenos animais, os quais raramente são preservados em rochas sedimentares. Nos dias atuais, apenas duas variedades de árvores possuem a capacidade de produzir a resina vegetal que, ao longo dos anos, se fossilizaria em âmbar: Uma espécie da Nova Zelândia chamada pinhos de Kauri e algumas espécies de Hymenacea encontradas nas Américas do Sul e Central e na África Ocidental.

No entanto, o âmbar não preserva apenas animais e seus insumos, mas também gotas de água e bolhas de ar. Um estudo realizado por Bernes & Landis em 1988 analisou um âmbar do Cretáceo com bolhas de ar preservadas, observando que a atmosfera desse período geológico continha muito mais CO2 e amônia em sua composição do que a nossa atual atmosfera. Além disso, os âmbares de diferentes lugares nos permitem conhecer mais sobre a flora e ambiente local da época, já que cada resina têm composições químicas diferentes e característica das plantas que se encontravam nas florestas pré-históricas.

Portanto, a importância e contribuição do âmbar para estudos paleoecológicos é gigante, visto que o mesmo fornece dados valiosos para a reconstrução de ecossistemas antigos e a compreensão das relações ecológicas entre diferentes espécies, bem como aspectos do clima.

Texto fonte:  FILIPE, C. H. O.; DIAS-JUNIOR, S. C.; MARTINS-NETO, R. G. O âmbar e sua importância para estudos paleoecológicos. VIII Congresso de Ecologia do Brasil. Caxambu: [s.n.]. 2007 .

Disponível em: https://www.seb-ecologia.org.br/revistas/indexar/anais/viiiceb/pdf/1113.pdf Acesso em: 02 de abril de 2024.

Fonte e legenda da imagem de capa: “Relações ecológicas entre diferentes espécies preservadas em âmbar.” Disponível em: https://www.nationalgeographicbrasil.com/ciencia/2023/04/o-que-sao-e-como-sao-criados-os-fosseis-de-ambar


Texto revisado por: Fernanda Moreira Batitucci e Alexandre Liparini.

Desvendando os Titanossauros: descoberta em Uberaba indica característica de nidificação do grupo

Escrito em: 27 de março de 2024

Por: Isadora Canto

Os titanossauros foram um grupo de muito sucesso que viveram há cerca de 70 milhões de anos no Cretáceo Superior. O grupo, que pertence a classe Sauropoda, povoou todos os continentes, com maior diversidade na América do Sul. Eram animais de hábitos herbívoros e andavam sempre em bandos familiares, viviam no mesmo local no qual faziam seus ninhos e, de acordo com pesquisas, habitavam em território compartilhado com outras espécies de dinossauros.

O artigo em questão aborda a descoberta de cerca de 20 ovos de titanossauros que foram achados entre os anos 1990 e 2000, em um sítio paleontológico na cidade de Uberaba. O local já tinha relevância reconhecida pela paleontologia, uma vez que os fósseis encontrados lá estavam em boas condições de preservação e em grande quantidade, atraindo muitos pesquisadores. Os ovos descobertos têm aproximadamente 12 centímetros de diâmetros e cerca de 10 deles estavam dentro de um sedimento de ninho, sugerindo o tipo de nidificação do grupo.

Para melhor compreender os ovos encontrados, os pesquisadores usaram análise de tomografia computadorizada e de microscopia eletrônica. Assim, os resultados evidenciaram que os ovos estavam organizados em um arranjo compacto composto de duas camadas que se sobrepunham, sugerindo a preservação em seu lugar natural e uma incubação através do substrato arenoso. Esses dados servem para corroborar o sucesso adaptativo do grupo, caracterizado pelo seu tipo de nidificação. Assim, os titanossauros construíram ninhos enterrados para que os ovos fossem incubados pelo calor do ambiente. 

Por fim, a descoberta em Uberaba, não só reafirma a importância da paleontologia brasileira, como também estimula o investimento na área, além de ser de grande relevância para a compreensão da diversidade do grupo. Além disso, é possível inferir que o sucesso evolutivo dos titanossauros se dá ao seu comportamento adaptativo para nidificar em diversos ambientes com condições geológicas e climáticas diferentes. 

Texto fonte: Fiorelli, L.E., Martinelli, A.G., da Silva, J.I. et al. (2022). First titanosaur dinosaur nesting site from the Late Cretaceous of Brazil. Sci Rep 12, 5091. https://doi.org/10.1038/s41598-022-09125-9.

Disponível em: https://www.nature.com/articles/s41598-022-09125-9.

DOI: https://doi.org/10.1038/s41598-022-09125-9.

Fonte e legenda da imagem de capa: Tomografia computadorizada dos ovos que foram encontrados.

Disponível em: https://www.nature.com/articles/s41598-022-09125-9.


Texto revisado por: Sandro Ferreira de Oliveira, Damiane Melo e Alexandre Liparini.

A importância dos elementos químicos presentes em ossos e marfins de mamutes.

Escrito em: 26 de março de 2024

escrito por: Guilherme Ranieri

foto do interior da caverna cáustica, Hohle Fels. disponível em: https://www.visit-bw.com/en/article/hohle-fels/f84391fe-432d-4936-ac12-c55d19ec171a#/

Um artigo de 2023 nos mostra a importância que a Paleontologia e a Arqueologia têm para compreendermos melhor tanto os hábitos de vida dos mamutes, quanto a relação dos seres humanos com esses animais.

Este artigo analisou doze amostras de marfim de mamute e dez amostras de ossos provenientes do sítio paleolítico de Hohle Fels, localizado no Jura Suábio. Hohle Fels é uma caverna situada no vale do Achtal, próximo a Schelklingen, na região administrativa de Baden-Württemberg, Alemanha. Desde o século XIX, diversos achados pré-históricos são descobertos nesse local. Assim, a caverna constitui uma importante fonte de informações sobre o uso do marfim de mamutes pelos nossos ancestrais.

O marfim dos mamutes, de maneira semelhante ao dos elefantes, possuía uma fase orgânica, composta por colágeno (uma proteína estrutural que forma a matriz do tecido), e, ao longo do tempo, desenvolvia uma fase mineral, formada por apatita (um mineral que dá rigidez ao tecido). A fase orgânica, formada pelo colágeno, inclui aminoácidos como prolina e hidroxiprolina importantes para estabilizar as proteínas tornando o tecido resistente e flexível; já a fase inorgânica, corresponde à hidroxiapatita carbonatada, um tipo de mineral encontrado em dentes e ossos — inclusive nos dentes humanos — composto principalmente de cálcio e fósforo, com pequenas quantidades de carbonato. Essa substância é responsável pela rigidez e dureza do marfim. Com o passar do tempo, o marfim vai incorporando elementos químicos do ambiente à medida que cresce. Esse processo contínuo de crescimento e mineralização, transforma o marfim em uma verdadeira “caixa de informações” sobre as condições ambientais e climáticas vivenciadas pelo animal.

O principal objetivo desta pesquisa foi identificar elementos marcadores específicos do marfim, capazes de fornecer informações sobre o habitat dos mamutes. Para isso, foram utilizados o NewAGLAE, um acelerador de partículas, utilizado para identificar os elementos leves presentes na composição química do marfim e o PUMA/SOLEIL, um síncrotron de raios X, ótimo para mapear elementos pesados. Estes métodos permitiram detalhar a composição química do marfim — desde elementos maiores até os traços — de maneira menos invasiva e bem eficiente.

A partir das imagens obtidas com as composições elementares do marfim e dos ossos de elefantes em diferentes locais, foi possível realizar uma análise bastante completa das amostras. Alguns microelementos, como Cr, Se, Rb, Y e Ba, não foram detectados pelo PIXE (método utilizado para identificar os elementos mais pesados), devido ao baixo teor, mas foram identificados nas imagens por XRF síncrotron. Os elementos endógenos (Ca, Zn, Br e Sr) apresentaram distribuição uniforme na superfície e intensidades elevadas. Já os elementos exógenos (Ti, Cr, Mn, Rb, Y, Ba e Pb) apareceram de forma desorganizada sobre a superfície das amostras.

Comparando o marfim de Hohle Fels com o de outros sítios arqueológicos, observou-se uma leve diferença, sobretudo pela variação nos microelementos e pelo teor de F, que se mostrou mais elevado nas amostras da caverna. Essa diferença se deve ao fato de terem sido analisados tanto marfim de mamute proveniente do permafrost (gelo permanente) quanto marfim de elefante moderno. Dessa forma, ainda são necessários estudos adicionais para uma definição mais precisa.