Desvendando os Titanossauros: descoberta em Uberaba indica característica de nidificação do grupo

Escrito em: 27 de março de 2024

Por: Isadora Canto

Os titanossauros foram um grupo de muito sucesso que viveram há cerca de 70 milhões de anos no Cretáceo Superior. O grupo, que pertence a classe Sauropoda, povoou todos os continentes, com maior diversidade na América do Sul. Eram animais de hábitos herbívoros e andavam sempre em bandos familiares, viviam no mesmo local no qual faziam seus ninhos e, de acordo com pesquisas, habitavam em território compartilhado com outras espécies de dinossauros.

O artigo em questão aborda a descoberta de cerca de 20 ovos de titanossauros que foram achados entre os anos 1990 e 2000, em um sítio paleontológico na cidade de Uberaba. O local já tinha relevância reconhecida pela paleontologia, uma vez que os fósseis encontrados lá estavam em boas condições de preservação e em grande quantidade, atraindo muitos pesquisadores. Os ovos descobertos têm aproximadamente 12 centímetros de diâmetros e cerca de 10 deles estavam dentro de um sedimento de ninho, sugerindo o tipo de nidificação do grupo.

Para melhor compreender os ovos encontrados, os pesquisadores usaram análise de tomografia computadorizada e de microscopia eletrônica. Assim, os resultados evidenciaram que os ovos estavam organizados em um arranjo compacto composto de duas camadas que se sobrepunham, sugerindo a preservação em seu lugar natural e uma incubação através do substrato arenoso. Esses dados servem para corroborar o sucesso adaptativo do grupo, caracterizado pelo seu tipo de nidificação. Assim, os titanossauros construíram ninhos enterrados para que os ovos fossem incubados pelo calor do ambiente. 

Por fim, a descoberta em Uberaba, não só reafirma a importância da paleontologia brasileira, como também estimula o investimento na área, além de ser de grande relevância para a compreensão da diversidade do grupo. Além disso, é possível inferir que o sucesso evolutivo dos titanossauros se dá ao seu comportamento adaptativo para nidificar em diversos ambientes com condições geológicas e climáticas diferentes. 

Texto fonte: Fiorelli, L.E., Martinelli, A.G., da Silva, J.I. et al. (2022). First titanosaur dinosaur nesting site from the Late Cretaceous of Brazil. Sci Rep 12, 5091. https://doi.org/10.1038/s41598-022-09125-9.

Disponível em: https://www.nature.com/articles/s41598-022-09125-9.

DOI: https://doi.org/10.1038/s41598-022-09125-9.

Fonte e legenda da imagem de capa: Tomografia computadorizada dos ovos que foram encontrados.

Disponível em: https://www.nature.com/articles/s41598-022-09125-9.


Texto revisado por: Sandro Ferreira de Oliveira, Damiane Melo e Alexandre Liparini.

A importância dos elementos químicos presentes em ossos e marfins de mamutes.

Escrito em: 26 de março de 2024

escrito por: Guilherme Ranieri

foto do interior da caverna cáustica, Hohle Fels. disponível em: https://www.visit-bw.com/en/article/hohle-fels/f84391fe-432d-4936-ac12-c55d19ec171a#/

Um artigo de 2023 nos mostra a importância que a Paleontologia e a Arqueologia têm para compreendermos melhor tanto os hábitos de vida dos mamutes, quanto a relação dos seres humanos com esses animais.

Este artigo analisou doze amostras de marfim de mamute e dez amostras de ossos provenientes do sítio paleolítico de Hohle Fels, localizado no Jura Suábio. Hohle Fels é uma caverna situada no vale do Achtal, próximo a Schelklingen, na região administrativa de Baden-Württemberg, Alemanha. Desde o século XIX, diversos achados pré-históricos são descobertos nesse local. Assim, a caverna constitui uma importante fonte de informações sobre o uso do marfim de mamutes pelos nossos ancestrais.

O marfim dos mamutes, de maneira semelhante ao dos elefantes, possuía uma fase orgânica, composta por colágeno (uma proteína estrutural que forma a matriz do tecido), e, ao longo do tempo, desenvolvia uma fase mineral, formada por apatita (um mineral que dá rigidez ao tecido). A fase orgânica, formada pelo colágeno, inclui aminoácidos como prolina e hidroxiprolina importantes para estabilizar as proteínas tornando o tecido resistente e flexível; já a fase inorgânica, corresponde à hidroxiapatita carbonatada, um tipo de mineral encontrado em dentes e ossos — inclusive nos dentes humanos — composto principalmente de cálcio e fósforo, com pequenas quantidades de carbonato. Essa substância é responsável pela rigidez e dureza do marfim. Com o passar do tempo, o marfim vai incorporando elementos químicos do ambiente à medida que cresce. Esse processo contínuo de crescimento e mineralização, transforma o marfim em uma verdadeira “caixa de informações” sobre as condições ambientais e climáticas vivenciadas pelo animal.

O principal objetivo desta pesquisa foi identificar elementos marcadores específicos do marfim, capazes de fornecer informações sobre o habitat dos mamutes. Para isso, foram utilizados o NewAGLAE, um acelerador de partículas, utilizado para identificar os elementos leves presentes na composição química do marfim e o PUMA/SOLEIL, um síncrotron de raios X, ótimo para mapear elementos pesados. Estes métodos permitiram detalhar a composição química do marfim — desde elementos maiores até os traços — de maneira menos invasiva e bem eficiente.

A partir das imagens obtidas com as composições elementares do marfim e dos ossos de elefantes em diferentes locais, foi possível realizar uma análise bastante completa das amostras. Alguns microelementos, como Cr, Se, Rb, Y e Ba, não foram detectados pelo PIXE (método utilizado para identificar os elementos mais pesados), devido ao baixo teor, mas foram identificados nas imagens por XRF síncrotron. Os elementos endógenos (Ca, Zn, Br e Sr) apresentaram distribuição uniforme na superfície e intensidades elevadas. Já os elementos exógenos (Ti, Cr, Mn, Rb, Y, Ba e Pb) apareceram de forma desorganizada sobre a superfície das amostras.

Comparando o marfim de Hohle Fels com o de outros sítios arqueológicos, observou-se uma leve diferença, sobretudo pela variação nos microelementos e pelo teor de F, que se mostrou mais elevado nas amostras da caverna. Essa diferença se deve ao fato de terem sido analisados tanto marfim de mamute proveniente do permafrost (gelo permanente) quanto marfim de elefante moderno. Dessa forma, ainda são necessários estudos adicionais para uma definição mais precisa.

Raro fóssil de escorpião vinagre encontrado no Brasil

Escrito em: 24 de Março de 2024

Por: Marcela Oliveira

*Texto publicado também no espaço biótico <confira aqui>

Os Escorpiões-vinagre fazem parte de um grupo de aracnídeos conhecidos no meio científico pelo nome de Thelyphonida. Esses aracnídeos possuem o primeiro par de pinças bem desenvolvidos e uma cauda longa e fina, que lembra um chicote. Além de serem um grupo pouco conhecido, possuem poucos fósseis encontrados e documentados, principalmente no Brasil. No entanto, foi encontrado um espécime fóssil desse aracnídeo na Pedreira Três Irmãos, localizada em Nova Olinda no estado do Ceará. A região em que esse fóssil foi encontrado é chamada de Bacia do Araripe, local que apresenta camadas de rochas sedimentares relacionadas à chamada Formação Crato. Essa formação geológica é extremamente rica em fósseis bem preservados, o que confere a ela o nome de Fóssil Lagerstätte. Esse excepcional sítio paleontológico é datado do período Cretáceo, com fósseis de 100 milhões de anos de idade.

O exemplar em questão, foi o primeiro fóssil de escorpião-vinagre encontrado com pulmões laminares (forma que alguns invertebrados possuem, para trocas gasosas). Considerando os espécimes fósseis de diferentes períodos encontrados, e comparando com outros exemplares referentes ao período Cretáceo, eliminou-se o parentesco com o escorpião-vinagre encontrado no âmbar datado do Cenomaniano (95 milhões de anos), em Mianmar.

A identificação de espécies fósseis é sempre muito difícil, pois raramente todas as partes se preservam. Para esse escorpião-vinagre do Crato, os autores determinaram que ele pertence ao gênero Mesoproctus. Mais do que isso, tendo em vista as características do fóssil e a presença de outros fósseis encontrados na região, os autores conseguiram reconhecer que o exemplar estudado pertencia a uma nova espécie, que os cientistas denominaram de  Mesoproctus rowlandi. Esse achado reforça a importância de estudos com espécies extintas permitindo conhecer melhor a diversidade do passado e a sua relação com as formas de vida que conhecemos hoje.

Texto fonte: Alberto, G. de M., Bezerra, F. I., Giupponi, A. P. de L., & Mendes, M. (2023). A new specimen of whip scorpion (Arachnida; Thelyphonida) from the Crato Formation, Lower Cretaceous of Brazil. Revista Brasileira De Paleontologia, 26(3), 147–155. https://doi.org/10.4072/rbp.2023.3.01

Disponível em: https://sbpbrasil.org/publications/index.php/rbp/article/view/404

Legenda da imagem de capa: Fóssil de Escorpião-vinagre, Mesoproctus rowlandi, encontrado no Brasil 

Disponível em: https://sbpbrasil.org/publications/index.php/rbp/article/view/404

Texto revisado por: Ana Luísa Ferreira e Alexandre Liparini

O Âmbar Mexicano

Escrito em: 04 de Abril de 2024

Por: Yuri Matos Ribeiro

Você sabe o que é âmbar? Âmbar é um tipo de resina vegetal fossilizada que normalmente apresenta coloração amarelada. Mas o mais interessante é seu potencial como registro de épocas antigas, pois o âmbar possui capacidade de preservar material biológico em seu interior. Só no México cerca de 200 famílias de artrópodes (como: aranhas, escorpiões e insetos) foram registradas preservadas em âmbar, esses achados permitem um entendimento mais preciso sobre a história antiga da terra, não só das espécies da época, mas também, de algumas condições ambientais.

O estado mexicano Chiapas possui grande importância paleontológica devido aos seus afloramentos de xisto (um tipo de rocha) formados no início do mioceno, cerca de 23 milhões de anos atrás. Nesses afloramentos é encontrado o âmbar, que nessa região é produzido principalmente por leguminosas.

Um processo importante durante o estudo de um fóssil é o de identificação, pois nele tentamos determinar a qual espécie o indivíduo pertence. Para a identificação podemos fazer uma análise genética, fisiológica ou morfológica. Para a avaliação morfológica são selecionados caracteres comuns para determinado grupo e comparamos quais o indivíduo possui e quais ele não possui. Um outro dado importante que pode ser levado em consideração é a região onde o indivíduo foi encontrado, levando em conta as espécies e famílias que são mais comuns em cada lugar do globo.

Um exemplo de fóssil de âmbar, que foi encontrado em Chiapas, é um indivíduo da família de aranhas Anyphaenidae. Essa família é conhecida como aranhas fantasmas por causa da sua grande velocidade de fuga quando estão em perigo. Essa grande velocidade, também pode ser o motivo dos poucos registros fósseis uma vez que elas poderiam ser mais aptas para conseguir fugir do âmbar antes que ele endurecesse. Essas aranhas são de pequeno e médio porte, normalmente vivem sobre a vegetação e são caçadoras. São encontradas principalmente na américa do sul, mas existem registros dela por todo o mundo.

Dito isso, é importante ressaltar a importância do estudo e preservação dos fósseis. As informações obtidas são de valor inestimável e as legislações que regem a preservação dos fósseis devem ser respeitadas, assim como seus locais de origem.

Texto fonte: García-Villafuerte, M. Ángel. (2020). First record of the family Anyphaenidae (Arachnida: Araneae) from the Chiapas amber (Early Miocene, Mexico). Revista Brasileira De Paleontologia, 23(3), 165–170. https://doi.org/10.4072/rbp.2020.3.01

Disponível em: https://sbpbrasil.org/publications/index.php/rbp/article/view/165

Legenda da imagem de capa: Fóssil de aranha encontrado em âmbar.

Disponível em: https://sbpbrasil.org/publications/index.php/rbp/article/view/165

Texto revisado por: Tiago Lopes Siqueira e Alexandre Liparini

Spinosaurus: um Predador de Dois Ambientes

Escrito em: 01 de abril de 2024

Por: João Francisco Braga Cardoso

Os Spinosaurus são dinossauros bípedes que habitaram o planeta durante o período Cretáceo. Fósseis dessa família foram encontrados em diversos continentes diferentes, e o primeiro esqueleto foi encontrado no Egito. Entretanto, o registro fóssil mais antigo, um dente, foi descoberto no Brasil, trazendo evidências que esses dinossauros habitavam o continente de Gondwana. Estavam presentes em ambientes costeiros e próximos de rios. Se alimentavam tanto de peixes como de animais terrestres.  No entanto, durante muito tempo, existiram muitas dúvidas a respeito se eles, de fato, possuíam hábitos aquáticos.

Esses gigantes possuíam até 17m de comprimento e 6m de altura, além de pesarem até 8 toneladas. Apesar dessas medidas notórias, o fator anatômico pelo qual os Spinosaurus são mais conhecidos é a presença de uma grande vela dorsal, uma estrutura nas costas do animal cujas utilidades são objeto de discussão no meio científico até os dias atuais. A principal hipótese afirma que essa estrutura tinha como utilidade a captação de energia solar, que aquecia o sangue do animal e o tornava mais ágil que os demais dinossauros. Outra hipótese diz que além disso, o membro tinha o propósito de tornar o animal mais hidrodinâmico, facilitando a locomoção na água. 

O crânio alongado e os dentes similares aos de crocodilianos atuais dão ainda mais pistas sobre os hábitos aquáticos do animal: eram perfeitos para a caça de peixes. Além disso, recentemente foi descoberto em Marrocos, um fóssil preservado da cauda desse animal, e foi constatado que ela tinha um formato plano, funcionando como um remo. Essa evidência colocou um ponto final na discussão, comprovando que de fato os Spinosaurus possuíam adaptação para o ambiente aquático. 

A taxonomia e filogenia interna da família Spinosauridae apresentam desafios e lacunas devido à falta de elementos diagnósticos suficientes. A origem, distribuição e extinção dos Spinosaurus ainda não estão completamente esclarecidas, e mais descobertas e revisões detalhadas são necessárias para resolver essas questões.

Texto fonte: TERRAS, Rafael ; CARBONERA, Mirian; BUDKE, Guilherme; LEITE, K. J.G (2022). FAMÍLIA SPINOSAURIDAE (DINOSAURIA: THEROPODA): TAXONOMIA, PALEOBIOGEOGRAFIA E PALEOECOLOGIA (UMA REVISÃO). Paleodest v. 37 n. 77,  p 14-54.

Disponível em: https://sbpbrasil.org/publications/index.php/paleodest/article/view/357.

DOI: https://doi.org/10.4072/paleodest.2022.37.77.02.

Fonte e legenda da imagem de capa: Reconstrução de um Spinosaurus em seu habitat.

Disponível em: https://sbpbrasil.org/publications/index.php/paleodest/article/view/357.


Texto revisado por: Ítalo Augusto de Oliveira Barboza, Sandro Ferreira de Oliveira e Alexandre Liparini.

Espinossauro: o primeiro dinossauro aquático

Escrito em: 03 de abril de 2024

Por: Enzo Zanetti Pierdomenico

Pode parecer curioso, ou até estranho, mas sim, aquele dinossauro enorme e feroz que aparece lutando com um Tyrannosaurus rex no filme “Jurassic Park 3″ na verdade viveu na água e muito provavelmente seria incapaz de protagonizar uma luta daquelas. Dito isso, não se engane, isso não o torna menos interessante, na verdade o torna mais especial. O espinossauro, mais especificamente a espécie Spinosaurus aegyptiacus, é até então (2025) o primeiro e único dinossauro aquático não aviano da história. 

Primeiro, é interessante entendermos um pouco da história das descobertas desse animal. No início do século XX foi encontrado o primeiro esqueleto de espinossauro no Egito. Porém, todo esse material original coletado na primeira metade do século XX foi destruído na segunda guerra mundial na Alemanha, consequência do colonialismo científico de fósseis. Isso gerou uma lacuna enorme no nosso conhecimento a respeito desse misterioso animal. Em 2014 o Dr. Ibrahim publicou um artigo com o que seria o primeiro esqueleto encontrado após a segunda guerra mundial, sendo encontrado no Marrocos, porém essa escavação foi feita por amadores locais, que depois disponibilizaram esses fósseis para o Dr. Ibrahim estudar. Nesse esqueleto não havia parte alguma da cauda e apenas em 2018, Dr. Ibrahim volta ao local com sua equipe e dessa vez conduz uma escavação com verdadeiros profissionais que encontram registros caudais do Spinosaurus aegyptiacus pela primeira vez. 

Esses achados incríveis nos levam à discussão acalorada que vem sendo travada há anos por cientistas: a ecologia do espinossauro. Para a grande maioria das espécies de Spinosauridae encontradas pelo mundo é nítido que existam diversas adaptações para hábitos semi-aquáticos e de piscivoria. Entre essas adaptações estão, no crânio: o formato do focinho, o formato e arranjo dos dentes e um sistema sensorial tegumentar na parte frontal da mandíbula, sendo muito semelhantes às adaptações craniais de crocodilianos. Porém as adaptações pós-craniais sempre deixaram um grande ponto de interrogação a respeito da locomoção desses animais nesses ambientes perto de corpos d’água.

É nesse sentido que a descoberta dessas vértebras caudais é tão importante. Ela soluciona o importante mistério ecológico do Spinosaurus aegyptiacus de acordo com testes de propulsão realizados no laboratório, Dr. Ibrahim foi capaz de provar que o formato da cauda do Spinosaurus aegyptiacus é capaz de gerar propulsão para se locomover embaixo d’água ou em sua superfície. Assim, a ecologia do S. aegyptiacus seria comparativamente bem semelhante a de crocodilianos. Ou seja: o espinossauro foi um animal que viveu a maior parte de seu tempo dentro da água, nadando e caçando peixes e outros animais aquáticos. Assim como os crocodilianos, a sua estratégia de caça consistia mais em emboscada do que em perseguição. 

Com esse artigo, o Dr. Ibrahim nos apresentou aquele que seria o primeiro dinossauro aquático registrado, gerando um grande alvoroço na comunidade científica e nos dando esperança de entendermos melhor o mundo que nos antecedeu.

Texto fonte: Ibrahim, N., Maganuco, S., Dal Sasso, C. et al. (2020). Tail-propelled aquatic locomotion in a theropod dinosaur. Nature 581, 67–70. DOI: https://doi.org/10.1038/s41586-020-2190-3.

Disponível em: https://www.nature.com/articles/s41586-020-2190-3.

DOI: https://doi.org/10.1038/s41586-020-2190-3.

Fonte e legenda da imagem de capa: Possível reconstrução do corpo do Spinosaurus aegyptiacus..

Disponível em: https://www.nature.com/articles/s41586-020-2190-3.


Texto revisado por: Sandro Ferreira de Oliveira e Alexandre Liparini.

A árvore que desafiou os efeitos da gravidade

Escrito em: 02 de abril de 2024

Por: Giovana Magalhães

O achado de cinco fósseis da planta Sanfordiacaulis densifolia em New Brunswick, Canadá, datados de aproximadamente 350 milhões de anos atrás, revela detalhes interessantes sobre a flora antiga. Esses fósseis foram descobertos em uma área adjacente a um lago, onde evidências de um terremoto indicam que houve o soterramento das plantas, preservando suas marcas em rochas sedimentares.

O que mais chama a atenção nessas descobertas são as características únicas da planta. Com base em um dos fósseis, os especialistas deduziram que essa árvore antiga, que atingia até três metros de altura, tinha um caule fino de 16 centímetros de diâmetro e folhas com mais de 1,75 metros de comprimento dispostas em espiral. Assim, essa descrição sugere que um caule longo e fino sustentava numerosas folhas grandes e largas, sem a produção de madeira, o que parece desafiar a força da gravidade.

Ainda não há uma explicação definitiva sobre como essa planta era capaz de se manter ereta, porém sua grande área foliar com certeza aumentou o contato com a luz solar, o que potencializaria a fotossíntese e, portanto, sua produção de energia foi intensificada. Essa adaptação pode ter sido crucial para a sobrevivência da planta em seu ambiente antigo, levando os pesquisadores a pensarem que o solo poderia ter sido pobre em nutrientes, o que fez a Sanfordiacaulis maximizar a captura de luz, ao invés de competir com outras plantas pelo domínio do solo.

Essas descobertas não apenas enriquecem nosso entendimento da evolução das plantas e sua interação com o meio ambiente ao longo do tempo, mas também destacam a importância contínua da pesquisa paleobotânica para desvendar os mistérios do passado da Terra. Ao continuarmos explorando e analisando esses registros fósseis, estamos ampliando nossa visão do mundo antigo e construindo pontes entre o passado e o presente, contribuindo assim para uma compreensão mais completa da história natural do nosso planeta.

Texto fonte: GASTALDO, Roberto A.; GENSEL, Patrícia G.; GLASSPOOL, Ian J.; PARQUE, Adrian F.; STIMSON, Matthew R.; STONESIFER, Timothy. Enigmatic fossil plants with three-dimensional, arborescent-growth architecture from the earliest Carboniferous of New Brunswick, Canada. Current Biology, [s. l.], v. 34, ed. 4, p. 781-793, 2 fev. 2024.

Disponível em: https://www.cell.com/current-biology/fulltext/S0960-9822(24)00011-3?_returnURL=https%3A%2F%2Flinkinghub.elsevier.com%2Fretrieve%2Fpii%2FS0960982224000113%3Fshowall%3Dtrue

DOI: https://doi.org/10.1016/j.cub.2024.01.011.

Fonte e legenda da imagem de capa: Figura 6 do artigo; Ilustração da possível aparência da Sanfordiacaulis densifolia, usando os achados fósseis como base.

Disponível em: https://www.cell.com/current-biology/fulltext/S0960-9822(24)00011-3?_returnURL=https%3A%2F%2Flinkinghub.elsevier.com%2Fretrieve%2Fpii%2FS0960982224000113%3Fshowall%3Dtrue


Texto revisado por: Luís Filipe Cardoso Queiroz e Alexandre Liparini.

O que a flora fóssil pode nos dizer sobre o paleoclima?

Escrito em: 03 de abril de 2024

Por: Laura Proença

Texto publicado também no espaço biótico <confira aqui>

“Atenção para clima quente e úmido: temperatura média anual (TMA) de 22,1 a 22,8 ºC e precipitação média anual (PMA) de 566-831 mm para o município de Jaguariúna. TMA de 24,6 a 25,1 ºC e uma PMA de 747 a 961 mm para o município de Vargem Grande do Sul.” Essas seriam possíveis previsões meteorológicas informando o clima dessas regiões, milhares de anos atrás.

Mas afinal, como é possível saber como era o clima há milhares de anos, especificamente durante o Pleistoceno (Época geológica entre 2,5 milhões e 11,7 mil anos atrás)?

Para responder a essa pergunta, vários paleontólogos e outros cientistas reuniram esforços e, a partir de estudos de folhas fósseis encontradas nos municípios de Jaguariúna e Vargem Grande do Sul, no estado de São Paulo, encontraram algumas pistas de como era o paleoclima dessas regiões.

Os municípios onde os fósseis foram encontrados apresentam rochas da formação Rio Claro, onde há uma grande riqueza de fósseis vegetais. A formação apresenta sedimentação areno-argilosa, e as folhas fósseis encontradas foram possivelmente depositadas em paleoambientes como: pântanos, rios ou planícies de inundação. 

Para chegar aos resultados encontrados, os cientistas analisaram as folhas fósseis, ao passo que são indicadores confiáveis para a reconstrução de climas de ambientes antigos, devido a sua sensibilidade às condições ambientais.

A temperatura média anual e a precipitação média anual são inferidas pela análise da margem foliar e do tamanho da folha fóssil, respectivamente. Nesse estudo foram utilizadas folhas de angiospermas eudicotiledôneas (plantas capazes de produzir flores e frutos, com dois cotilédones em cada semente). A partir de sua análise, observou-se que as condições climáticas na região eram mais quentes e menos úmidas que as atuais.

Pela observação do tipo de planta encontrado e das características das folhas, foi possível atestar que as floras fósseis estudadas representam ancestrais de um dos tipos de vegetação da Floresta Atlântica. 

Estudos como esse são fundamentais para a reconstrução de biomas tão importantes quanto a Floresta Atlântica. Sendo possível compreender a dinâmica vegetacional e climática, bem como a riqueza de sua biodiversidade ao longo do tempo

Texto fonte: Santiago, F., Jurigan, I., & Ricardi-Branco, F. (2022). Interpretação paleoclimática com base na análise da fisionomia foliar de duas floras pleistocênicas, Formação Rio Claro, São Paulo, Brasil. Revista Brasileira De Paleontologia, 25(3), 219–228. https://doi.org/10.4072/rbp.2022.3.05

Disponível em: https://sbpbrasil.org/publications/index.php/rbp/article/view/313

Fonte e legenda da imagem de capa: Mamute indicando a previsão meteorológica nas áreas estudadas. Créditos: Francisco Santiago; Imagem original alterada por: Ana Beatriz Gualberto.

Disponível em: https://paleontologiahoje.com/wp-content/uploads/2025/08/a73e6-304a4a_1ded0e4e389f462d88bbcc7e88844f7fmv2.jpg


Texto revisado por: Murilo Valdo, Alexandre Liparini.

Descoberta na China revela achados raros de embriões de dinossauros do Jurássico Inferior.

Escrito em: 28 de março de 2024

Por: Isabela Farias de Castro Soares

Embriões de dinossauros fossilizados são extremamente raros e são, principalmente, encontrados em camadas do Cretáceo Superior que registram os estágios finais da evolução dos dinossauros. Existem exceções de embriões no Jurássico Superior, encontrados na África do Sul. No entanto, a raridade desses embriões, geralmente encontrados dentro de ovos, limita sua disponibilidade para investigações do desenvolvimento em nível de tecido e célula. Como resultado, pouco se sabe sobre os padrões de crescimento nesses embriões, apesar dos diversos estudos envolvendo a origem e desenvolvimento de algumas espécies.


Porém, foi descoberto um leito ósseo embrionário de dinossauros do Jurássico Inferior da China, o mais antigo registro desse tipo. Os embriões têm idade geológica semelhante ao leito encontrado na África do Sul. A preservação de numerosos elementos esqueléticos desarticulados e cascas de ovos nesse local com apoio ósseo parcial, representando diferentes estágios de desenvolvimento, oferece oportunidades para novas investigações da embriologia de dinossauros, principalmente referente ao gigantismo desses animais.


Em relação a localização e a análise das camadas rochosas da formação Lower Lufeng, na qual o leito foi encontrado, sabe-se que foi um ambiente formado por inundações lentas de baixa energia e, esporadicamente, correntes de água com sedimentos (arenito e siltito predominantemente) que sofreram altos níveis de retrabalhamento de solo por atividade de seres vivos. Portanto, não há a presença de ovos ou ninhos intactos, porém há uma alta qualidade de preservação de fragmentos de ossos embrionários, depois submetidos a processos de formação de solo. Foram encontrados mais de 200 ossos, contendo dorsais, fragmentos de costelas, fêmures, entre outros.


A análise desses embriões revelou características distintas, e chegou-se na conclusão de que esses embriões pertencem ao grupo sauropodomorpha, graças a semelhanças marcantes com outros embriões conhecidos. Estudos nos tecidos e células revelaram estágios variados de desenvolvimento embrionário, sugerindo um período de incubação curtos e crescimento rápido desses animais. Essa descoberta oferece uma janela fascinante para compreender como os dinossauros se desenvolviam antes de eclodirem, ampliando nosso conhecimento sobre sua embriologia e crescimento.


Em resumo, o achado deste leito ósseo representa um marco na paleontologia, para que seja possível descobrir e saber mais sobre o desenvolvimento e vida dos dinossauros pré-históricos. Com cada nova descoberta, estamos um passo mais perto de desvendar os mistérios do passado e compreender melhor o incrível mundo dos dinossauros.

Texto fonte: Reisz, R.; Huang, T.; Roberts, E. et al. (2013). Embryology of Early Jurassic dinosaur from China with evidence of preserved organic remains. Nature, v. 496, n. 7444, p. 210-214. Doi: 10.1038/nature11978. Acessado em: 25/08/2025.

Disponível em: https://www.nature.com/articles/nature11978

Fonte e legenda da imagem de capa: Esqueleto embrionário reconstruído de dinossauro do grupo sauropodomorpha do Jurássico Inferior com ossos encontrados na China.

Disponível em: https://www.nature.com/articles/nature11978


Texto revisado por: Lucélio Batista, Alexandre Liparini.

Primeiras ocorrências de marcas de mordidas de carnívoro em fósseis de mamíferos do Pleistoceno no nordeste do Brasil

Escrito em: 29 de março de 2024

Por Isaely Vieira

Pela primeira vez, foram identificadas marcas de dentes de animais em um fóssil de mamífero do Pleistoceno (2.58 a 0.0117 Ma) no nordeste do Brasil. Esta descoberta ocorreu no sítio paleontológico de Jirau (Tanque de Jirau), localizado no Ceará. No entanto, esta não é a primeira vez que essas marcas são encontradas no Brasil. De acordo com Avilla et al. (2009) e Dominato et al. (2011), marcas similares já foram registradas em depósitos de idade semelhante nas regiões Norte e Sudeste do país.

Os fósseis do Tanque do Jirau foram datados como Pleistoceno tardio, com base na presença de espécies como Notiomastodon platensis e Xenorhinotherium bahiense (ambos animais da megafauna da época). A identificação das características foi conduzida através da comparação com a literatura especializada e fotografias de espécies semelhantes em coleções de instituições de pesquisas.

Foi observado que as marcas de dentes (classificadas como “scratches” ou ‘arranhões’) identificadas nos herbívoros de grande porte estavam presentes em ossos como fêmures, úmeros, tíbias e vértebras, principalmente na face medial e lateral dos ossos. Essa característica de “arranhões” é típica de carnívoros e carniceiros, que têm o hábito de ‘mordiscar’ os ossos para acessar os tecidos moles das carcaças, que estão em quantidade pequena acima dos ossos. As características observadas levaram os autores a descartar a possibilidade de as marcas terem sido causadas por seres humanos, felídeos ou ursídeos, já que as marcas nos ossos feitos por estes indivíduos têm padrões diferentes dos que foram observados nos ossos estudados. Eles sugerem que a Protocyon troglodytes (um canídeo do Pleistoceno) seja o possível responsável pelas marcas de dentes observadas nos fósseis de mamíferos do Nordeste do Brasil, já que ele foi considerado como um animal carniceiro por muitos cientistas.

A identificação dessas marcas é muito importante para compreender os estudos tafonômicos (estudo do processo de preservação do fóssil), além de permitir uma melhor compreensão das interações entre presas e predadores em paleocomunidades. A descrição das marcas também permite associá-las a táxons de carnívoros conhecidos na região durante o Pleistoceno.

Texto fonte:  JÚNIOR, H.I; PORPINO, K.O.; BERGQVIST, L.P. (2011). MARCAS DE DENTES DE CARNÍVOROS/CARNICEIROS EM MAMÍFEROS PLEISTOCÊNICOS DO NORDESTE DO BRASIL. Rev. bras. paleontol. Doi:10.4072/rbp.2011.3.08

Disponível em: https://www.researchgate.net/publication/277469893_Marcas_de_dentes_de_carnivoroscarniceiros_em_mamiferos_pleistocenicos_do_Nordeste_do_Brasil

Fonte e legenda da imagem de capa: Figuras 3 do artigo. Figura 2(A) Marcas  de mordidas em um fóssil (B) Ampliação das  Marcas.


Texto revisado por: Fernanda Moreira Batitucci e Alexandre Liparini.