Desvendando o comportamento animal através de uma “antiga” perspectiva*

24 de setembro de 2022

Por: Cynthia Salzgeber

*Texto publicado também no espaço biótico <confira aqui>

Paleontólogos e biólogos, apesar de terem interesses similares, costumam utilizar diferentes linhas de pesquisa e métodos para entender o comportamento animal. Enquanto biólogos utilizam de observações naturais e experimentos para testar suas teorias, paleontólogos não conseguem fazer observações comportamentais em tempo real, e dependem da análise de amostras fósseis preservadas. Entretanto, apesar de os fósseis terem potencial para fornecer evidências diretas relacionadas as origens e modificações comportamentais ao longo do tempo, eles nem sempre contém informações completas e os estudos comportamentais dentro da paleontologia costumam se basear em casos individuais e isolados, ou seja, não é possível fazer observações repetidas de um mesmo indivíduo em diferentes momentos.

Os estudos de comportamento animal podem ser divididos em diferentes categorias, como por exemplo alimentação, defesa, comunicação e migração. Destes, evidências de comportamentos voltados para o aspecto social, como comunicação e cuidado parental são mais difíceis de serem encontrados em registros fósseis, enquanto as categorias envolvendo transmissão cultural, aprendizagem e personalidade não são observadas devido a impossibilidade de preservar momentos instantâneos. Entretanto, alimentação, seleção de habitat e migração são exemplos mais comuns de serem encontrados em registros fósseis, sendo os vestígios e “comportamentos congelados” produtos preservados do comportamento.

Em alguns casos, os corpos de organismos são preservados na posição exata em que eles desempenhavam prováveis ações comportamentais no momento de sua morte, sendo chamados de “comportamentos congelados”. Esses registros, como a cópula de insetos ou predação de peixes, podem ser encontrados em âmbar ou em depósitos de lagos e fornecem uma possível confirmação direta de um comportamento. No entanto, esse tipo de fóssil exige uma preservação em condições específicas e com pouca perturbação, sendo, portanto, raros.

Já os fósseis do tipo vestígio (icnofósseis) são os mais comumente utilizados para estudar comportamentos preservados. Esses tipos de fóssil são estruturas resultantes da modificação do substrato devido a atividades de vida de um organismo. Entretanto, eles registram apenas os comportamentos capazes de modificar alguma estrutura ou material, como perfurações, tocas, pegadas e trilhas. Outra dificuldade é que traços de vestígios capturam apenas uma fração do corpo animal e organismos diferentes podem produzir vestígios semelhantes, enquanto um mesmo organismo pode produzir diferentes marcas. Além disso, um mesmo comportamento pode deixar marcas diferentes dependendo do substrato em que o animal estava, como uma pegada de pé que deixa marcas diferentes quando feita na areia ou na terra. Apesar de todas essas complicações, esses vestígios fósseis são fundamentais para documentar a evolução do comportamento, principalmente em situações em que o corpo fóssil não está disponível ou não é capaz de fornecer informações.

Portanto, os registros fósseis podem servir como uma rica fonte de dados acerca do comportamento de animais já extintos, mas, para isso, é necessário entender como os fósseis capturam informações comportamentais e como elas variam entre as categorias e grupos taxonômicos. Assim, uma possível junção entre estudos comportamentais da fauna atual e fóssil parece ser promissora para o entendimento da evolução e desenvolvimento animal ao longo do tempo.

Artigo fonte: Hsieh, Shannon; Plotnick, Roy E. (2020). The representation of animal behaviour in the fossil record. Animal Behaviour, v.169, p.65-80. Doi: https://doi.org/10.1016/j.anbehav.2020.09.010 Disponível em:https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0003347220302773 . Acessado em: 20/04/2023.

Fonte e legenda da imagem de capa: Caranguejo-ferradura Mesolimus fossializado com seu rastro abaixo do corpo. Extraída do artigo fonte.

A queda dos fósseis no ambiente escolar*

22 de setembro de 2022

Por: Keven Roques

*Texto publicado também no espaço biótico <confira aqui>

O ensino de paleontologia na educação básica é prevista pelo Ministério da Educação e isso é um fato! Todavia, as raras vezes em que a paleontologia é introduzida no ambiente escolar, ela se resume a dinossauros e, esporadicamente, se menciona a origem da vida, o que ainda é muito pequeno se considerarmos a densidade e a amplitude dessa área do conhecimento. Essa é, uma realidade que acomete os alunos da educação básica.

Existem materiais paradidáticos (livros, jogos, etc.), que são excelentes ferramentas de auxílio na construção e na complementação do conhecimento paleontológico. Porém, a construção desses materiais pedagógicos pelos paleontólogos ainda é muito discreta, apesar de se possuir grandes nomes de referência, como: Luiz Eduardo Anelli, Marina Bento Soares e outros. Embora os livros didáticos sejam materiais que estão intimamente relacionados aos alunos, eles possuem alguns déficits quando o assunto é paleontologia, a citar: a pouca variabilidade de obras para o ensino básico e o conteúdo em si, que na maioria das vezes é superficial e démodé.

Outro ponto também que deve ser levado em consideração, é a falta de preparação do professor, uma vez que, os institutos universitários possuem uma preocupação maior em formar pesquisadores do que professores, por exemplo. O professor educador é, o mediador entre o aluno e o conhecimento, todavia, nem sempre ele é preparado corretamente para trabalhar esse conteúdo com plena eficiência. Algo ainda pior acontece no ensino infantil onde, o extinto curso de magistério ou até mesmo o atual curso de pedagogia, faz com que os estudantes se dividam entre outras disciplinas e tenham pouca bagagem nos estudos das ciências e ainda menos, na paleontologia dentro da ciência.

Apesar da paleontologia ser uma área complexa, justificada pelo seu caráter integrador por exemplo, causa a sensação de que ela deve se restringir ao ambiente laboratorial, porém há diversos temas que são de relevância social e que não deveriam se ater as paredes da universidade.

Problemas então como: deficiência de material pedagógico, deficiência na formação dos alunos e dos professores e o distanciamento entre Universidade-Sociedade, são elementos que se integram e formam um ciclo que sempre culmina no desinteresse geral pelo tema. Todas essas deficiências citadas, geram um certo distanciamento entre a população e a paleontologia, sobretudo das crianças, o que faz com que a população no geral ignore ou nem mesmo conheçam seus ícones e conceitos mais elementares. Se as informações mais elementares são desconhecidas, não há demanda o suficiente para se manter museus e exposições paleontológicas por exemplo, onde a formação escolar poderia ser auxiliada e complementada. Uma vez em que não há demanda, não há maiores interesses por parte dos paleontólogos acadêmicos em investirem tempo e dinheiro de suas pesquisas com a elaboração de materiais pedagógicos, tornando a paleontologia de fato, restrita aos laboratórios.

Como foi dito, os estudantes universitários que têm maior contato com a paleontologia, são encorajados a desenvolverem pesquisa, ao passo que os atuantes da educação básica, só possuem contato com uma formação paleontológica superficial, e não conseguem estimular em seus alunos interesse pelo tema. Com isso, a paleontologia se torna esquecida ou desconhecida pela população e pelos envolvidos na educação básica e até mesmo, desvalorizada na educação superior.

Artigo fonte: Mello, F.T.; Mello L.H.C.; Torello, M.B.F. (2005). A Paleontologia na educação infantil: alfabetizando e construindo o conhecimento. Ciência e Educação, v. 11, n. 3, p. 395-410. Doi: 10.1590/S1516 . Disponível em: https://www.scielo.br/j/ciedu/a/RQpZvQKLgH5KCWTLhVTB34n/?format=pdf&lang=pt . Acessado em: 17/04/2023.

Fonte e legenda da imagem de capa: Estegossauro criado por alunos do ensino fundamental a partir de materiais recicláveis e nomeado gentilmente de “sucatossaro.”. Extraída do artigo fonte.

Análise de fósseis para a preservação marinha*

25 de setembro de 2022

Por: Dafne Monteiro de Carvalho Freire

*Texto publicado também no espaço biótico <confira aqui>

O mundo tem sofrido com os impactos das ações humanas, como a poluição e alterações climáticas, e o ambiente marinho é um dos ecossistemas mais impactados. Os oceanos ocupam a maior parte do nosso planeta, abriga uma enorme diversidade de seres vivos e são essenciais para toda a vida na Terra. No entanto, os impactos humanos têm ameaçado o ambiente marinho e colocado diversas espécies em risco iminente de extinção.

Há um enorme esforço para a preservação ambiental entre biólogos e ambientalistas e esse tópico já ocupa pautas políticas e debates internacionais, dada sua enorme importância. Diversos métodos são usados atualmente para o cálculo de riscos e para a criação de ações conservativas, como a análise de características específicas das espécies ameaçadas, como o modo e duração de vida, hábitat e modos de reprodução, por exemplo. Um método adicional, proposto pelo artigo, seria a análise paleontológica (de fósseis de animais extintos) para calcular estimativas e fazer previsões da extinção de seres de diversos grupos taxonômicos.

O registro fóssil nos dá uma rica informação sobre extinções passadas e isso nos permite estimar o risco intrínseco de extinção dos diferentes táxons (grupos de organismos) atuais. Podemos também estimar as respostas bióticas desses organismos frente à diferentes estímulos e prever, graças ao risco intrínseco calculado, o risco de extinção no contexto atual, com os diversos impactos humanos no ambiente.

O registro fóssil marinho é muito rico e, nesse trabalho que analisou fósseis dos últimos 23 milhões de anos (período conhecido como Neógeno-Pleiostoceno), possui organismos muito similares e próximos aos táxons de hoje em dia. Esses indicadores podem complementar as avaliações de risco atuais, indicando os grupos mais vulneráveis de serem extintos, de acordo com a história evolutiva de seus antepassados.

A análise dos fósseis coletados indicou que o tamanho geográfico de distribuição das espécies e o grupo taxonômico no qual ela é incluída influencia fortemente em seu risco de extinção. Além disso, os táxons com maior risco intrínseco de extinção se concentram nas regiões tropicais, geralmente por possuírem mais espécies endêmicas (que ocorrem exclusivamente naquela região). Com esses dados, uma sobreposição foi feita, contendo as informações de locais com maiores impactos humanos e alterações climáticas.

Percebemos então que as regiões tropicais e subtropicais concentram os locais com organismos com maiores riscos de extinção e maiores impactos ambientais. Já as regiões extratropicais do hemisfério norte possuem alto grau de impactos ambientais, porém espécies com baixo risco de extinção. Por fim, as regiões extratropicais do hemisfério sul possuem baixo impacto ambiental e organismos com alto risco de extinção.

Entender como o risco intrínseco dos diferentes grupos e os impactos ambientais interagem entre si possibilita compreender melhor o risco real de extinção das espécies atuais, em um contexto onde os humanos fazem parte, e criar planos de conservação mais específicos e focados em regiões mais biologicamente relevantes.

Artigo fonte: Finnegan, S.; Anderson, S.; Harnik, P.; Simpson, C.; Tittersor, D.; Byrnes, J.; Finkel, Z.; Lindberg, D.; Liow, L.; Lockwood, R.; Lotze, H.; McClain, C.; McGuire, J.; O’Dea, A.; Pandolfi, J. (2015). Paleontological baselines for evaluating extinction risk in the modern oceans. Science, v. 348, n. 6234, p. 567-570. Doi: 10.1126/science.aaa6635 . Disponível em: https://www.science.org/doi/10.1126/science.aaa6635 . Acessado em: 10/04/2023.

Fonte e legenda da imagem de capa: Risco intrínseco de extinção de diferentes animais (regiões coloridas) e os impactos humanos (regiões contornadas) e alterações climáticas (regiões hachuradas), em diferentes regiões do planeta. Extraída do artigo fonte.

Como viviam os maiores animais voadores da história, os Quetzalcoatlus?

22 de setembro de 2022

Por: Bruno Scott Fragoso Cerqueira

Atualmente, vivemos com dois grupos de animais vertebrados voadores ativos, as aves e os morcegos, mas, além deles, outro grupo extinto de vertebrados também podia alçar vôo: os répteis pterossauros! Os Quetzalcoatlus são um grupo de pterossauros que viveram no final do Período Cretáceo, conhecido como Cretáceo Superior, que ocorreu por volta de 100 a 65 milhões de anos atrás. Seu nome vem do deus asteca Quetzalcoatl, um deus réptil voador! Esse grupo contém somente duas espécies, o Quetzalcoatlus lawsoni, que possuía uma envergadura de 4,5 metros, e o Quetzalcoatlus northropi, com mais que o dobro de envergadura, chegando a cerca de incríveis 10 metros, sendo considerado um dos maiores, senão o maior, animal voador da história! Como os fósseis de tais animais foram encontrados em rochas de idades similares e com uma relativa proximidade, supõe-se que ambas espécies foram contemporâneas, ou seja, provavelmente viveram juntas em um mesmo período e região!

Em um estudo recente de 2021, pesquisadores analisaram as rochas em que os fósseis desses gigantes animais foram encontrados e puderam entender um pouco mais sobre como eles viviam.

As rochas em que continham os fósseis de Q. lawsoni apresentavam características que indicavam que a região, na época em que estes animais viviam, era composta por lagos pequenos e rasos. Além disso, tais rochas continham furos específicos, que indicam a presença de invertebrados do mesmo grupo das minhocas, dos caranguejos e das ostras! Isso, somado ao fato de que a água desses lagos parece ter sido inabitável para animais como peixes e tartarugas, indica que aqueles invertebrados eram a fonte principal de alimento de Q. lawsoni, o qual vivia ao redor destes pequenos corpos de água, ou pelo menos os visitava de tempos em tempos. E não é somente sobre o ambiente que podemos fazer suposições, mas também sobre o comportamento destes grandes voadores: como foram encontrados muitos fósseis de Q. lawsoni juntos que aparentavam ter a mesma idade, os pesquisadores supõem que eles eram um bando em migração!

O trabalho destes pesquisadores fica mais interessante quando vemos as características das rochas em que foram encontrados os fósseis da outra espécie, o colossal voador Q. northropi. Apesar de relativamente próximas, elas eram bastante diferente daquelas em que foi encontrada a outra espécie, sugerindo uma região com córregos, em que a quantidade de água corrente era muito variável, sendo, provavelmente, córregos efêmeros, ou seja, eles secavam e enchiam com frequência! Ainda, foram encontrados poucos exemplares dessa espécie, isolados entre si. Tudo isso leva a hipótese de que o Q. northropi era um gigante solitário e que preferia regiões de zona ripária, ou zona ribeirinha (sim, é daí que vem o nome da população ribeirinha, que vive exatamente nestas áreas de bordas de vegetação alagada!).

Apesar das diferentes composições paisagísticas preferidas, ambas espécies viviam em áreas de clima quente e seco, prosperando em uma região tropical, tendo condições climáticas similares aos estepes tropicais existentes hoje, característicos pela sua falta de umidade!

A partir das informações encontradas para cada região específica em que ambas espécies viveram, os pesquisadores concluíram que, se elas realmente viveram juntas, elas eram separadas por comportamentos ecológicos distintos e diferentes, mas próximos, habitats, assim como observado em algumas aves atualmente!

Texto fonte: Thomas M. Lehman (2021) Habitat of the giant pterosaur Quetzalcoatlus Lawson 1975 (Pterodactyloidea: Azhdarchoidea): a paleoenvironmental reconstruction of the Javelina Formation (Upper Cretaceous), Big Bend National Park, Texas. Journal of Vertebrate Paleontology, v. 41:sup1, p. 21-45. DOI: 10.1080/02724634.2019.1593184. Disponível em: https://www.tandfonline.com/doi/full/10.1080/02724634.2019.1593184 . Acessado em: 10 de abril de 2023.

Fonte complementar: Brian Andres & Wann Langston Jr. (2021) Morphology and taxonomy of Quetzalcoatlus Lawson 1975 (Pterodactyloidea: Azhdarchoidea). Journal of Vertebrate Paleontology, v. 41:sup1, 46-202, DOI: 10.1080/02724634.2021.1907587. Disponível em: https://www.tandfonline.com/doi/full/10.1080/02724634.2021.1907587 . Acessado em: 10 de abril de 2023.

Fonte e legenda da imagem de capa: Reconstrução hipotética de como seriam os Quetzalcoatlus em vida. Autoria de Mark Witton and Darren Naish. Extraída de commons.wikimedia.org. Disponível em: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Life_restoration_of_a_group_of_giant_azhdarchids,_Quetzalcoatlus_northropi,_foraging_on_a_Cretaceous_fern_prairie.png . Acessada em: 10/04/2023.

O primeiro Megalodon de Buenos Aires

25 de setembro de 2022

Por: Clarice Poesia

É fato que gigantes predadores que habitavam nosso planeta Terra há milhões de anos atrás despertam o interesse e a curiosidade de muitos. E o Megalodonte, cujo nome científico é Carcharocles megalodon, é protagonista de muitas histórias e filmes, sendo, para muitos, o predador marinho mais poderoso que já existiu. “Megatubarão”, filme lançado em 2018, é um exemplo disso. Saindo um pouco da ficção e falando sobre ciência, vestígios desse animal, que nos ajudam a estudar sua fisionomia, hábitos alimentares e outras características já foram documentados em vários lugares do mundo, e agora, pela primeira vez, na província de Buenos Aires, na Argentina.

Um dente, que pertencia a um jovem Megalodonte, foi encontrado na praia de Punta Médanos, próximo a um farol. Por estudos já publicados anteriormente que definem as características dos dentes da espécie, os cientistas conseguiram afirmar que se tratava de um indivíduo desse táxon, jovem, com aproximadamente 6 metros de comprimento e pesando 2.279kg! Essas afirmações só foram possíveis porque o dente estava bem preservado e era possível identificar as suas estruturas específicas. Entretanto, não conseguiram afirmar a posição exata do dente na arcada dentária do Megalodon, e pensaram em 4 possibilidades que levariam o indivíduo a medir impressionantes 5.8, 5.48, 5.89 ou 7.2 metros.

Essas descobertas nos ajudam a conhecer os seres vivos que habitaram a Terra muito antes da espécie humana, e estudar o passado pode ser útil para que consigamos compreender o futuro das espécies atuais. Agora que sabemos mais sobre a espécie em um ambiente novo, podemos entender mais sobre seu habitat local, sua alimentação, e sua relação com outras que coabitaram os mares argentinos há milhões de anos atrás. Apesar de não conseguirem afirmar com precisão a época em que viveu, acredita-se ser um achado fundamental para entendermos melhor a herança paleontóloga daquela região e, quem sabe, não serve de incentivo para novos estudos sobre os fósseis locais!

Texto fonte: De Pasqua, J., Agnolin, F., Aranciaga Rolando, A. M., Bogan, S., & Gambetta, D. (2021). First occurrence of the giant shark Carcharocles megalodon (Agassiz, 1843) (Lamniformes; Otodontidae) at Buenos Aires Province, Argentina. Revista Brasileira De Paleontologia, 24(2), 141–148. Doi: 10.4072/rbp.2021.2.05. Disponível em: https://sbpbrasil.org/publications/index.php/rbp/article/view/201 . Acessado em: 05 de abril de 2023.

Fonte e legenda da imagem de capa: Uma descoberta que pode nos ajudar a descobrir mais sobre a distribuição geográfica de um gigante marinho de milhões de anos atrás. Autoria de Mary Parrish, Smithsonian, National Museum of Natural History. Extraída de commons.wikimedia.org. Disponível em: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Carcharodon_megalodon_SI.jpg . Acessada em: 05/04/2023.

A hélice do demônio: a história de um fóssil

25 de setembro de 2022

Por: Mila Morales

Em 1892, foi descrito um tipo de fóssil peculiar. Eram grandes (de 2,10 a 2,75 metros em média) estruturas em espiral embaixo da terra, batizadas, portanto, de hélices do demônio, ou em latim, Daemonelix. Pensou-se primeiramente que seriam fósseis de plantas ou algas, tendo sido encontradas estruturas vegetais em sua superfície. Mas as estruturas estranhas também continham elementos que não costumamos achar em plantas. Primeiramente, as hélices possuíam uma estrutura de apêndice linear que se estendia numa inclinação em direção a superfície; algo que parecia uma espécie de raiz ou rizoma, mas não encaixava na descrição muito bem. Além disso, ossos! Ossos principalmente pertencentes a uma espécie de castor norte-americano que viveu entre o fim do Oligoceno e o início do Mioceno, o Paleocastor.

Acontece que esses fósseis (os Daemonelix) não eram seres vivos em si, eram rastros da existência e comportamento de mamíferos antigos. Eram tocas! Tocas de Paleocastor, que cavava túneis profundos em espiral usando os dentes e garras. As hélices também continham restos de outros animais, alguns carnívoros, como o pequeno mamífero Zodiolestes, e outros com o perfil mais próximo a Paleocastor, como o esquilo subterrâneo Gregorymys. Ou seja, Daemonelix revela possíveis interações ecológicas que aconteciam nessas tocas. Zodiolestes era um possível predador de Paleocastor, enquanto Gregorymys podia ser oportunista, se aproveitando das tocas já estruturadas.

Mas porque uma espiral? Os castores viviam na porção linear das tocas (o que se chamou de rizoma), onde não havia hélices. Então, as espirais (que davam em média 9 voltas por toca) serviam provavelmente para conectar a porção subterrânea onde eles viviam com o meio externo, como escadas em espiral. Os conjuntos de tocas eram organizadas em “cidades”, onde se aglomeravam os Paleocastor, indicando grande socialidade.

Muito do que sabemos sobre o estilo de vida desses animais é devido a esses fósseis, que não são ossos nem restos orgânicos, mas buracos. Eles foram preenchidos por matéria vegetal, o que despistou os primeiros pesquisadores, mas possibilitou a conservação do formato original. E assim, puderam nos contar essa história.

Texto fonte: Martin, L. D., & Bennett, D. (1977). The burrows of the miocene beaver palaeocastor, Western Nebraska, U.S.A. Semantic Scholar. Doi: 10.1016/0031-0182(77)90027-X. Disponível em: https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/003101827790027X . Acessado em: 31 de março de 2023.

Fonte e legenda da imagem de capa: Exemplar de Demonelix no Royal Ontario Museum, Toronto, Ontário, Canadá, 21 de novembro de 2011. Autoria de Daderot. Extraída de commons.wikimedia.org. Disponível em: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Daemonelix,fossil_rodent_burrow_created_by_Fossorcastor,_Sioux_County,_Nebraska,_USA,_Early_MioceneRoyal_Ontario_Museum-_DSC00111.JPG . Acessada em: 31/03/2023.

Preguiças-gigantes e a disputa por habitat*

25 de setembro de 2022

Por: João Pedro Lazzarini

*Texto publicado também no espaço biótico <confira aqui>

Há cerca de 17 mil anos, no que ficou denominado como período Pleistoceno tardio, o Pampa brasileiro (região na qual hoje está o estado do Rio Grande do Sul) era o lar de alguns mega mamíferos. Entre esses seres, que pesavam mais de 1000 kg, estavam as preguiças-gigantes.

Os restos fósseis de duas espécies, as Megatherium americanum e as Eremotherium laurillardi, foram encontrados nos mesmos sítios de escavação: Arroio Pessegueiro e Arroio Chuí. Mas, será que estas duas preguiças-gigantes dividiam o mesmo espaço e os mesmos recursos? Essa é a pergunta que pesquisadores buscaram responder com o estudo “The Paleoecology Of Pleistocene Giant Megatheriid Sloths: Stable Isotopes (Δ13c, Δ18o) Of Co-Occurring Megatherium And Eremotherium From Southern Brazil”.

O Pampa ocupa parte da Argentina e do Rio Grande do Sul. Dominada por amplas colinas e com vegetação herbácea e arbustiva, com presença remanescente de mata xerofítica, o que indica que, durante o período glacial, a área passava por longos períodos de seca.

A alimentação disponível para os herbívoros era constituída por plantas C3 (árvores, arbustos, ervas e gramíneas que crescem durante a estação fria) e C4 (gramíneas, dicotiledôneas e ciperáceas que crescem durante a estação quente). Para que ambas as espécies de preguiça-gigante pudessem coexistir, ao mesmo tempo e ocupando o mesmo espaço, a alimentação destes mega-mamíferos deveria ser baseada em diferentes tipos de organismos vegetais, que precisariam existir em abundância.

Para descobrir se as preguiças Megatherium e as preguiças Eremotherium coabitavam, os pesquisadores utilizaram técnicas de medição dos isótopos de oxigênio e isótopos de carbono retirados de dentes fossilizados encontrados nos sítios paleontológicos. Com essa medição, foi possível descobrir que as dietas e a composição da água ingerida por estes dois mega-mamíferos apresentavam diferenças notáveis.

Enquanto os Eremotherium se alimentavam principalmente de caules e poucos frutos, o Megatherium tinha nas gramíneas e pastagens sua base alimentar. Já quanto às fontes de água, os Megatherium consumiam parte da água necessária por meio de sua alimentação, que era enriquecida por meio das chuvas subtropicais, e se hidratavam em fontes de água enriquecidas por evaporação sob condições secas. Já os Eremotherium se hidratavam principalmente em rios próximos às matas ciliares, e poderiam ter vivido em tempos dominados por chuvas de origem tropical. Por isso, pode ser que as espécies não tenham convivido. Por outro lado, pode ser que as espécies tenham, sim, coexistido, mas em habitats e nichos distintos.

O estudo ainda precisa de continuidade. Isso porque, os pesquisadores estavam limitados a poucas amostras. Contudo, os resultados concordam com o que foi obtido em pesquisas realizadas anteriormente.

Texto fonte: Lopes, R.P.; Dillenburg, S.R.; Pereira, J.C.; Sial, A.N.. (2021) The Paleoecology Of Pleistocene Giant Megatheriid Sloths: Stable Isotopes (Δ13C, Δ18O) Of Co-Occurring Megatherium And Eremotherium From Southern Brazil. Revista Brasileira de Paleontologia. V. 24, nº 3. p. 245-264. Doi: 10.4072/rbp.2021.3.06. Disponível em: https://sbpbrasil.org/publications/index.php/rbp/article/view/214. Acesso em 31 março 2023.

Fonte e legenda da imagem de capa: Pesquisadores querem saber se duas espécies de preguiça-gigante coabitavam os pampas brasileiros. Autoria de Robert Bruce Horsfall (1869–1948). Extraída de commons.wikimedia.org. Disponível em: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Megatherium_americanum.jpg . Acessada em: 31/03/2023.

Estudo e comparação da tafonomia da megafauna de mamíferos do Rio Grande do Sul

24 de setembro de 2022

Por: Valber Marques Pereira

Buscando trabalhar a comparação da tafonomia, ou seja, o entendimento do estado de conservação e dos processos de transformação da carcaça em fósseis, que foram encontrados na porção sul do Brasil, foram realizados análises sobre as peças achadas no Arroio do Chuí e nas demais porções do litoral gaúcho, a fim de se comparar como os fósseis eram incorporados na litosfera das diferentes regiões e avaliar em qual posição de fato esse material estaria em meio as diferentes camadas de rocha sedimentar.

A motivação para o desenvolvimento do estudo está muito atrelada ao fato de que a área analisada é marcada por características geográficas peculiares com a presença de barreiras rochosas intercalados por grandes corpos de água salgada e também por ter um histórico geológico ímpar, visto que pelo que se entende, o litoral gaúcho é oriundo de quatro grandes processos de transgressão e regressão do mar, o que consequentemente acabou por formar cordões de sedimentos arenosos ao longo do litoral e inevitavelmente também impactou fortemente da deposição e molde da matéria, como os sedimentos e fósseis.

Inicialmente, os pesquisadores realizaram pesquisas que constataram quais eram animais que viviam na região em períodos do passado. Os fósseis utilizados foram coletados entre os anos de 1999 e 2001 nos arredores do arroio e que foram analisados quanto a presença ou ausência de articulações, a camada de sedimento as quais estavam associados, o quão preservados estavam e quais os possíveis processos tafonômicos aos quais foram submetidos. As análises do solo e das camadas se deram por meio do recolhimento de amostras de 10 cm verticais e também por corte verticais nos barrancos do arroio. Nas Praias foram coletados 4.116 fragmentos fósseis, ao longo de uma extensão de 500 km ao longo da costa.

No arroio os fósseis de mamíferos da megafauna como do Lestodon (preguiça terrícula) foram encontrados em uma profundidade entre 2,5 a 3,5 metros de profundidade, marcados por aparente fraturas causadas por peso do substrato e por predação oportunista de outros animais sobre o cadáver que deixou o registro fóssil.

Ao comparar esse trabalho com um artigo de 1973, levando em consideração a disposição dos sedimentos e condições dos fósseis, o arroio do Chuí, que antes era classificado por apresentar sedimentos lagunares, foi reinterpretado como uma acumulação de sedimentos de praia que sofreu com influência de ondas e com energia moderada. A litosfera originárias das praias, que antes era classificado apenas como paleossolo (solo formado há aproximadamente 11,5 mil anos atrás) foi reinterpretado como um composto de sedimento lagunar oriundo do penúltimo grande corpo d´água do litoral formado há mais de 120 mil anos.

O que se concluí é que ambos os fósseis estavam em sistemas lagunares e que alguns podem ter sofrido transporte por meios hídricos localizados entre o continente e o litoral que existiam no Quaternário. Os fósseis transportados até o atual litoral sofreram mais degradações e foram mais dispersos por ação da água e energia das ondas e os do arroio do Chuí permaneceram relativamente mais preservados.

Artigo fonte: LOPES, RENATO PEREIRA, FRANCISCO SEKIGUCHI BUCHMANN, FELIPE CARON, e MARIA ELIZABETH ITUSARRY. 2001. Tafonomia De Fósseis De Vertebrados (Megafauna Extinta) Encontrados Nas Barrancas Do Arroio Chuí E Linha De Costa, Rio Grande Do Sul, Brasil. Pesquisas Em Geociências 28 (2):67-73. Doi: 10.22456/1807-9806.20269. Disponível em: https://doi.org/10.22456/1807-9806.20269 . Acessado em: 31/03/2023.

Fonte e legenda da imagem de capa: Exemplo do fóssil coletado, com partes relativamente bem preservadas e algumas fraturas causadas pela pressão do solo na estrutura. Extraída do artigo fonte.

Megalodon: Topo da cadeia alimentar?

24 de setembro de 2022

Por: Bruna Emanuelle

Um dos maiores desafios da paleontobiologia é reconstruir as características e condições que permitiram a sobrevivência de uma espécie já extinta no ambiente. Sabe-se que a dieta e interações como competição entre espécies podem determinar sua sobrevivência. Baseando-se nisso, cientistas geralmente usam de conteúdo do estômago fossilizado, marcas de mordidas etc., para se basear e recriar a dieta desses animais. No entanto, essas ocorrências são raras e não necessariamente mostram a alimentação daquela espécie durante um longo período de tempo, nem a posição da espécie na cadeia alimentar.

Otodus megalodon é uma espécie de tubarão, sendo um dos maiores carnívoros que já existiram, sua dieta e a competição por recursos têm sido discutidas como possíveis responsáveis por sua evolução e extinção. O que ainda não se sabe explicar é seu desaparecimento repentino no registro fóssil. Com o uso de isótopos de zinco presentes em tecidos vertebrais e na fase mineral de tecidos esqueléticos (que vêm principalmente da alimentação), pesquisadores compararam a dieta do megalodon com a do grande tubarão branco. Com ambos se alimentando no topo da cadeia alimentar (ou próximo dele), existiu a possibilidade de competição por recurso.

A análise feita demonstrou uma potencial mudança hierárquica na cadeia alimentar, onde foram encontradas evidências de que o megalodon apresentou declínio populacional devido à queda da população de presas. A população de tubarões brancos teriam sido menos afetadas, sendo que o tamanho da espécie e a necessidade menor de recursos teriam contribuído para que isso acontecesse. Não se pode afirmar que isso levou à extinção desses gigantes, mas sim são evidências do que talvez tenha acontecido.

Texto fonte: McCormack, J., Griffiths, M.L., Kim, S.L. et al. Trophic position of Otodus megalodon and great white sharks through time revealed by zinc isotopes. Nature Communications 13, 2980 (2022). Disponível em: https://doi.org/10.1038/s41467-022-30528-9 acessado em: 23/03/2023.

Fonte e legenda da imagem de capa: Comparação do tamanho do megaladon e do ser humano. Autoria de Oliver E. Demuth. Extraída de commons.wikimedia.org. Disponível em: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Megalodon_size_chart.png Acessada em: 23/03/2023.

Fósseis mais antigos de bichos-preguiça nas ilhas do Caribe

24 de setembro de 2022

Por: Maria Isabel Rodrigues e Carvalho

Os bichos-preguiça que existem atualmente podem ser agrupados em apenas dois gêneros arbóreos, que são Bradypus (preguiças-de-três-dedos) e Choloepus (preguiças-de-dois-dedos), ambos encontrados nas florestas tropicais da América Central e América do Sul.

O artigo trazido para discussão hoje trata sobre novas descobertas sobre a presença de preguiças nas Grandes Antilhas, que não estão presentes hoje na região, apesar de já ter sido habitada por uma diversidade impressionante de bichos-preguiça Megalonyx, um grupo endêmico — exclusivo da região. As Grandes Antilhas são um conjunto das quatro maiores ilhas do norte do Caribe, compreendendo Cuba, Jamaica, Porto Rico e a chamada Hispaniola (dividida entre Haiti e República Dominicana).

Estudos moleculares recentes sugerem que os ancestrais das preguiças Megalonyx chegaram à região ao final da época do Eoceno (aproximadamente 35 milhões de anos atrás) e, posteriormente, esses animais evoluíram de formas diferentes, dando origem a bichos-preguiça distintos que permaneceram nessas ilhas por aproximadamente 35 milhões de anos, até sua extinção. Essa variação das espécies ia desde grandes bichos-preguiça terrestres, como o Megalocnus rodens, até espécies arbóreas menores, como Neocnus toupiti.

A escassez de fósseis de preguiças pré-quaternárias (anterior a 2.58 milhões de anos atrás) nas Grandes Antilhas limitou bastante a compreensão da paleobiogeografia e diversidade do grupo.

Trazendo então uma grande novidade, trabalhos de campo recentes em afloramentos do final do Mioceno (5.3 milhões de anos atrás) na República Dominicana levou à descoberta de uma parte de tíbia e escápula de uma preguiça da família Megalocnidae, podendo até mesmo ser identificado de uma forma mais específica como sendo da subfamília Megalocninae.

Esses restos de ossos encontrados são o registro mais antigo que se tem de um bicho-preguiça na ilha de Hispaniola, e também de qualquer mamífero descrito a partir de depósitos sem conter âmbar. Todos os outros registros já feitos dessa família de preguiças nas ilhas eram do Pleistoceno-Holoceno, ou seja, muito mais recentes.

Os novos fósseis trazem novas percepções na mal resolvida história evolucionária da família de preguiças Megalocnidae, uma vez que preenche uma lacuna temporal de registros desses animais entre o gênero extinto Imagocnus, datado do início do Mioceno (24 milhões de anos atrás), e o grupo bem-documentado mais atual, da época do Pleistoceno-Holoceno.

Ambos os restos encontrados não podem ser diagnosticados formalmente ainda, mas provavelmente pertencem a uma espécie de bicho-preguiça ainda não descrita, proximamente relacionadas com o gênero Megalocnus do período Quaternário de Cuba (a partir de 1.8 milhões de anos atrás).

Ainda é necessário uma série de trabalhos de campo na ilha de Hispaniola e ao longo da extensão das Grandes Antilhas na área da paleontologia. Isso possibilitaria o preenchimento de lacunas temporais e geográficas dos registros fósseis de fauna terrestre, levando a um entendimento melhor das origens e da evolução das preguiças.

Texto fonte: Viñola-Lopez, L., Core Suárez, E., Vélez-Juarbe, J., Almonte Milan, J., & Bloch, J. (2022). The oldest known record of a ground sloth (Mammalia, Xenarthra, Folivora) from Hispaniola: Evolutionary and paleobiogeographical implications. Journal of Paleontology, 96(3), 684-691. doi:10.1017/jpa.2021.109 Disponível em: https://www.cambridge.org/core/journals/journal-of-paleontology/article/oldest-known-record-of-a-ground-sloth-mammalia-xenarthra-folivora-from-hispaniola-evolutionary-and-paleobiogeographical-implications/FD228BE96C7C27F74AA0562EA0B980A1 . Acessado em: 23/03/2023.

Fonte e legenda da imagem de capa: Espécime de grande bicho-preguiça terrestre fóssil, do gênero Megalocnus. Autoria de Ghedoghedo. Extraída de commons.wikimedia.org. Disponível em: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Megalocnus_rodens.JPG Acessada em: 23/03/2023.