A fascinante dança entre nossos antepassados e os animais gigantes

Escrito em: 7 de novembro de 2023

Por: Ana Maria Alvarenga Fagundes

Na vastidão da América do Sul, onde paisagens antigas guardam segredos perdidos no tempo, uma equipe de cientistas mergulhou profundamente na pesquisa sobre as interações entre humanos pré-históricos e a megafauna quaternária que habitava o continente sul americano. O artigo intitulado “Interações entre Humanos Pré-Históricos e a Megafauna Quaternária na América do Sul: Aspectos Zooarqueológicos e Paleoecológicos” nos leva a uma jornada emocionante pelo passado, revelando descobertas significativas e surpreendentes.

O estudo aprofundado detalha os vestígios arqueológicos que revelam como nossos antepassados pré-históricos interagiram com a megafauna quaternária na América do Sul, que incluía mamutes, mastodontes, tigres-dentes-de-sabre, preguiças gigantes e vários outros animais incríveis. A partir de análises zooarqueológicas (vestígios de animais em sítios arqueológicos) e paleoecológicas (ecologia dos ambientes pré-históricos), os pesquisadores descobriram padrões intrigantes de caça, comportamento e adaptação, permitindo um novo entendimento sobre a interação entre humanos e essas criaturas impressionantes.

Uma das descobertas mais intrigantes deste artigo é a evidência de caça de megafauna por grupos humanos pré-históricos. Os vestígios zooarqueológicos sugerem que os caçadores eram capazes de abater criaturas que muitas vezes eram muito maiores do que eles. O estudo não apenas descreve as ferramentas e estratégias utilizadas por esses caçadores antigos, mas também explora o impacto dessas atividades de caça na extinção da megafauna. Um dos padrões observados foi da preferência dos caçadores pelos megamamíferos, como a preguiça-gigante: Como eram animais que viviam em bandos e migravam de forma sazonal, eram mais fáceis de seguir e caçá-los, garantindo uma segurança maior de quantidade de comida.

Além disso, os autores investigaram a ecologia dos ambientes pré-históricos, reconstruindo os ecossistemas e as paisagens que existiam na época. Isso nos permite entender as condições ambientais nas quais essas interações ocorreram e como as mudanças climáticas desempenharam um papel na dinâmica entre humanos e megafauna.

Em resumo, o artigo “Interações entre Humanos Pré-Históricos e a Megafauna Quaternária na América do Sul” nos oferece uma visão esclarecedora de como nossos ancestrais antigos compartilharam o continente com criaturas agora extintas. A pesquisa ilumina não apenas o passado, mas também lança luz sobre questões atuais, como a conservação da biodiversidade e os efeitos das atividades humanas no meio ambiente. 

Texto fonte:  ROSA, G. M.; SILVA, L. H. M.; ARAÚJO-JÚNIOR, H. I.*2018). Interactions Between Pre-Historic Humans and Quaternary Megafauna in South America: Zooarcheological and Paleoecological Aspects. Anuário do Instituto de Geociências – UFRJ, v. 41, n. 1, p. 296–307.

Disponível em: https://doi.org/10.11137/2018_1_296_307.

Fonte e legenda da imagem de capa: A imagem representa, em forma de desenho, a caça da megafauna (neste caso um mastodonte) realizada pelos humanos pré-históricos.

Disponível em: https://paleontologiahoje.com/wp-content/uploads/2025/04/5774b-e2864cce93e64917fd477395967d58b0.jpg.


Texto revisado por: Fernanda Moreira Batitucci e Alexandre Liparini.

Combatendo desinformação com datação Isotópica

Escrito em: 3 de novembro de 2023

Por: Artur Neves Guedes da Silva

Com frequência, pessoas fora do meio científico se deparam com afirmações que soam difíceis de acreditar, alimentando uma teia de desinformação que, em última instância, mina a credibilidade da ciência. Em 08/09/2023, uma publicação viral em redes sociais levantou dúvidas sobre sua veracidade, colocando em xeque o impacto da atividade humana no clima da Terra.

Para entender como é possível reconstruir o clima do passado com precisão, é essencial explorar as técnicas da paleoclimatologia. Elas não apenas revelam variações climáticas históricas, mas também fornecem detalhes sobre o ambiente e a dieta de animais extintos.

Uma das ferramentas mais importantes para estudar o paleoclima e a ecologia de fósseis, é a análise isotópica. Antes de detalhá-la, é fundamental compreender o que são isótopos: variantes de um mesmo elemento químico com massas diferentes. Por exemplo, o carbono (C) é encontrado predominantemente como carbono-12, mas uma pequena fração corresponde ao isótopo carbono-13. Isso vale para o oxigênio (O), cujos isótopos são essenciais para rastrear mudanças climáticas.

Camadas de gelo acumuladas ao longo de milênios preservam a proporção de isótopos de oxigênio de cada época, funcionando como um registro das temperaturas passadas. Isso ocorre porque a quantidade relativa de oxigênio-18 e oxigênio-16 na água varia conforme a temperatura global. O mesmo princípio se aplica a fósseis, indicando o clima das regiões onde essas espécies viveram.

Já os isótopos de carbono —como a relação entre carbono-12 e carbono-13— revelam hábitos alimentares de animais pré-históricos, a composição da vegetação, e permitem estimar idades geológicas (Leoni et al., 2023).

Esses métodos são respaldados pelo rigor científico e constituem evidências sólidas para embasar teorias. No entanto, sua divulgação acessível —seja por canais científicos ou pela mídia— é crucial para combater a desinformação, e mostrar que tais processos são reais e mensuráveis.

Texto fonte:  LEONI, R. A.; DANTAS, M. A. T.; CHERKINSKY, A.; Silva, L. A. (2023). Paleoecologia isotópica (δ13C, δ18O) de mamíferos do Pleistoceno final–Holoceno de Ituaçu, Bahia, Brasil. Revista Brasileira de Paleontologia.

Disponível em: https://doi.org/10.4072/rbp.2023.2.05.

Fonte e legenda da imagem de capa: Imagem representando consequências das ações humanas.

Disponível em: http://commons.wikimedia.org/wiki/File:Klimawandel_003_2016_06_06.jpg


Texto revisado por: Gabriel Félix Diório e Alexandre Liparini.

Como podemos estudar os vírus do passado, se eles não fossilizam?

Escrito em: 8 de novembro de 2023

Por: Felipe Clarindo

O registro fóssil nos fornece importantes informações a respeito da evolução dos seres vivos ao longo do tempo. No entanto, esse registro é incompleto e não permite, por exemplo, traçar com precisão a origem da vida no planeta ou dos primeiros eucariotos — organismos com células que possuem núcleo definido — como os animais, plantas, fungos e também diversos seres unicelulares, como certas algas e protozoários. Nesse sentido, o desenvolvimento de novas tecnologias surge como uma possibilidade para preencher essas lacunas. Através dos chamados fósseis moleculares, como restos ancestrais de ácidos nucleicos, proteínas, carboidratos e — principalmente — lipídios em rochas, os cientistas têm buscado compreender melhor a origem da vida e sua evolução.

Ao contrário dos fósseis clássicos, que ainda preservam material ou vestígios derivados do organismo original, os fósseis moleculares servem como biomarcadores, representando parte de sua composição química, muitas vezes única a cada grupo de seres vivos. Esses biomarcadores que se incorporam nas rochas e sedimentos sofrem modificações através dos milhares ou milhões de anos, mas ainda assim alguns deles podem ser identificados e datados. O método mais comumente utilizado de datação indireta é feito pela análise das camadas da rocha em que está presente o fóssil molecular (estratigrafia), mas sua precisão pode ser limitada devido à possibilidade de contaminação da amostra com moléculas mais recentes do que a matriz rochosa.

Uma questão associada é o estudo da evolução de grupos como os vírus, que provavelmente estavam presentes na mesma época que as primeiras formas de vida, tendo coevoluído com elas. Apesar disso, não é possível confirmar diretamente sua presença, uma vez que eles não deixam nem mesmo fósseis moleculares. A solução encontrada para procurar pistas ancestrais tem sido o estudo dos genomas modernos para compreender melhor as estruturas dos vírus e primeiras formas de vida. Isso é possível porque os genomas e proteínas modernos carregam diversos genes e estruturas conservadas que receberam de seus organismos ancestrais e sofreram pouca modificação com o tempo.

Assim, a análise comparativa de genomas e proteínas atuais tem ajudado os cientistas a entender como os vírus evoluíram antes mesmo da separação da vida em seus 3 domínios (arqueas, bactérias e eucariotos). Inclusive, recentemente os virologistas foram capazes de observar características compartilhadas entre vírus que infectam células de diferentes domínios, permitindo conectar sua origem. Sabendo que os vírus são parasitas intracelulares obrigatórios e que, para se multiplicarem, eles desenvolveram mecanismos para infectar as células de seus hospedeiros, o compartilhamento de estruturas como determinadas proteínas estruturais entre vírus muito diferentes indicaria uma mesma ancestralidade.

Isso porque, ao se adaptarem a diferentes hospedeiros ao longo da evolução, os vírus ancestrais passaram por mudanças fundamentais, adquirindo novas funções, sem que houvesse uma pressão seletiva para mudar essas proteínas estruturais amplamente conservadas. Assim, acredita-se que os vírus ancestrais já existiam na época do último ancestral comum aos três domínios celulares e que eles não apenas coevoluíram com os domínios emergentes, como também tiveram um importante papel em sua evolução, graças a sua capacidade de doar genes aos seus hospedeiros.

Texto fonte: HUNTER, P. (2013). Molecular fossils probe life’s origins. EMBO reports, v. 14, n. 11, p. 964–967, 2013.

Disponível em: https://doi.org/10.1038/embor.2013.162. Acesso em: 7 abr. 2025.

Fonte e legenda da imagem de capa: Representação artística de partículas virais (vermelho/rosa) enquanto interagem com uma célula (em verde/azul). Você já pensou como podemos estudar a origem e evolução dos vírus se eles não se preservam nos registros fósseis? Ilustração por David S. Goodsell, RCSB Protein Data Bank.

Disponível em: < https://pdb101.rcsb.org/sci-art/goodsell-gallery/zika-virus&gt;, acesso em: 07/04/2025.


Texto revisado por: Lucas Rabelo e Alexandre Liparini.

Descobertas Paleontológicas: Revelações Extraordinárias sobre as Sementes Antigas do Rio Grande do Sul

Escrito em: 3 de novembro de 2024

Por: Tainá Chagas Arreguy

Sementes são muito mais do que apenas fontes de alimentação ou precursoras de energia, como no caso do biodiesel. Elas são essenciais no ciclo de vida das plantas, em particular para o grupo das angiospermas, desempenhando um papel fundamental no ciclo reprodutivo e na perpetuação das espécies vegetais. Neste sentido, compreender e estudar as sementes vai além de simplesmente conhecer sua biologia. É, também, desvendar o enigma da reprodução das plantas e suas estratégias de sobrevivência ao longo do tempo. Por isso, o estudo das sementes se torna imperativo, não apenas para compreensão da natureza, mas também para preservar a diversidade biológica. Desta forma, surgem perguntas intrigantes: seria possível desvendar a história evolutiva por meio das sementes? Existem métodos para rastrear as transformações que cada espécie de semente experimentou ao longo das eras? E qual a importância desse estudo para a ciência?

Na busca por compreender a evolução das plantas, os fósseis são uma importante forma de visualização e compreensão do passado. Dentre eles, os fósseis de sementes têm um papel pouco explorado, mas crucial na compreensão da história das angiospermas. Assim, podendo fornecer informações valiosas sobre as espécies, comunidades vegetais e as estratégias reprodutivas da época.

Neste sentido, no estado do Rio Grande do Sul, uma mina de caulim desativada revelou um tesouro científico: impressões fossilizadas de sementes de diversas formas e tamanhos, datadas do Permiano Inferior, cerca de 280 milhões de anos atrás. Deste modo, esse achado surpreendente incluiu a identificação de uma espécie totalmente nova, a Samaropsis gigas, que habitou a região nas idades do Sakmariano tardio ao Artinskiano (298,9 milhões a 251,902 milhões de anos atrás). Além disso, os cientistas identificaram a presença inesperada da espécie S. kurtzii, anteriormente desconhecida na região para esse período. Outras quatro espécies de plantas também foram descobertas, não tendo registros anteriores na área. Mais duas morfoespécies foram identificadas e estão aguardando estudos comparativos para uma classificação precisa.

Em conclusão, essas descobertas destacam a escassez de estudos e registros sobre a classificação e identificação de sementes. No entanto, é esperado que essas revelações inéditas inspirem novas pesquisas, enriquecendo o campo científico e expandindo nosso conhecimento sobre a evolução e a história das plantas. Portanto, essas revelações paleontológicas são um lembrete do vasto e rico patrimônio de informações que as sementes fossilizadas podem proporcionar. Elas não apenas nos ajudam a compreender o passado, mas também nos auxiliarão a entender melhor o futuro das descobertas científicas na área da botânica e paleontologia vegetal.

Texto fonte: SOUZA, J. (2007).Sementes do gênero Samaropsis Goeppert no Permiano inferior da bacia do Paraná, Sul do Brasil. Revista Brasileira de Paleontologia, v. 10, n. 2, p. 95–106, 30 ago. 2007.

Disponível em: http://www.sbpbrasil.org/revista/edicoes/10_2/souza&iannuzzi.pdf.

Legenda da imagem de capa: Foto do fóssil de semente da nova espécie descrita no artigo: Samaropsis gigas.

Disponível em: http://www.sbpbrasil.org/revista/edicoes/10_2/souza&iannuzzi.pdf.


Texto revisado por: Tiago Lopes e Alexandre Liparini.

Paralitherizinosaurus japonicus, uma nova espécie de Therizinosauridae descoberta no Japão

Escrito em: 06 de novembro de 2023

Por: Ícaro Teixeira de Albuquerque

Os therizinossauros são um grupo de dinossauros que viveram do Cretáceo Inferior ao Cretáceo Superior, cujos fósseis são encontrados na Ásia e na América do Norte. São animais muito interessantes por conta de diversas características que os distinguem de outros terópodes mais típicos. Eles apresentam diversas adaptações que sugerem que eram um grupo de hábitos herbívoros, como uma cintura pélvica ampla (indicativa de uma cavidade abdominal larga), e dentes pequenos e pouco espaçados. Com base nas estruturas e proporções de seus membros acredita-se que eram animais lentos. Apesar disso, a característica mais distinta desse grupo de dinossauros são as suas garras, falciformes, ou seja, com formato de foice.

Os therizinossauros asiáticos do Cretáceo Superior, do Campaniano (83,6 a 72,1 milhões de anos), ao Maastrichtiano (72,1 a 66 milhões de anos), são representados por três gêneros chineses (Erliansaurus, Neimongosaurus e Nanshiungosaurus) e um gênero mongol (Therizinosaurus). Existem registros na literatura científica especializada sobre fósseis japoneses de therizinossauros, mas nenhum deles havia sido descrito, até a descrição formal do Paralitherizinosaurus japonicus. P. japonicus é a ocorrência mais recente de um therizinossauro em território japonês e também o primeiro registro fóssil de um therizinossauro asiático encontrado em sedimentos marinhos.

Atualmente, os therizinossauros são agrupados em um clado próprio, Therizinosauroidea, que inclui a família Therizinosauridae. O mais novo membro da família, Paralitherizinosaurus japonicus, foi referenciado inicialmente em uma publicação de 2008. Entretanto, no momento da publicação, não havia sido propriamente descrito pela escassez de informação acerca da morfologia comparada dos ungueais dos therizinossauros, os ossos distais dos dedos que terminam na garra em formato de foice.

O fóssil de P. japonicus foi encontrado próximo à confluência do rio Rubeshibe e do riacho 36 Ten-zawa em Nakagawa, Hokkaido. O fóssil estava contido isolado em uma concreção, processo de fossilização que ocorre quando a decomposição do animal promove um microambiente para a fossilização, sendo bem diferenciado do substrato ao seu redor. O fóssil é constituído de uma vértebra parcialmente preservada e uma mão direita, que inclui metacarpo I, extremidades proximais (isto é, mais próximas à palma da mão) dos ungueais I e II e um ungueal III quase completo. Acredita-se que todo o material pertence a um único indivíduo com base no ambiente de deposição e na proximidade dos elementos do animal preservados no fóssil.

Kobayashi e colaboradores, além de descreverem essa nova espécie de therizinossauro, propõem uma nova definição para o clado Therizinosauridae. Todos os therizinossauros do Cretáceo Inferior são considerados não-therizinossaurídeos, e todos os therizinossaurídeos são do Cretáceo Superior, exceto o gênero Suzhousaurus. O estudo indica que os therizinossauros mais “primitivos” utilizavam suas “foices” de forma mais generalista, enquanto os therizinosauros mais derivados eram mais restritos. Eles não apresentavam comportamentos escansoriais (tanto arbóreos quanto terrestres), ou fossoriais (em tocas e/ou enterrados), utilizando as garras numa função de agarrar e puxar a vegetação para próximo da cabeça.

Texto fonte: Kobayashi, Y., Takasaki, R., Fiorillo, A. R., Chinzorig, T., & Hikida, Y. (2022). New therizinosaurid dinosaur from the marine Osoushinai Formation (Upper Cretaceous, Japan) provides insight for function and evolution of therizinosaur claws. Scientific reports, 12(1), 7207.

Disponível em: https://www.nature.com/articles/s41598-022-11063-5.

Doi: https://doi.org/10.1038/s41598-022-11063-5.

Fonte e legenda da imagem de capa: Paralitherizinosaurus japonicus em vida.

Disponível em: https://www.nature.com/articles/s41598-022-11063-5.


Texto revisado por: Sandro Ferreira de Oliveira e Alexandre Liparini.

Voando pelo tempo: desvendando o cérebro do primeiro pássaro

Escrito em: 06 de novembro de 2024

Por: Lia Martins Silva

Imagine segurar a história da evolução em suas mãos – não através de fósseis empoeirados, mas através de uma janela tecnológica que revela segredos de 147 milhões de anos. O Archaeopteryx, uma criatura que desafia as categorias de ‘pássaro’ e ‘dinossauro’, tem fascinado cientistas desde sua descoberta nas calcárias da Alemanha. Agora, uma nova pesquisa está desvendando mistérios que vão além dos ossos, explorando as profundezas do cérebro dessa antiga ave.

Com o auxílio da tomografia computadorizada, uma equipe de pesquisadores liderada por Domínguez Alonso revelou a estrutura cerebral do Archaeopteryx. Eles descobriram que, embora primitivo, o cérebro dessa criatura tinha uma organização surpreendentemente avançada, com áreas de movimento aprimoradas e centros visuais ampliados. Essas características sugerem uma agilidade e uma coordenação de movimentos que são marcas registradas dos pássaros modernos. O Archaeopteryx não era apenas um animal visualmente orientado, mas também possuía um sistema sensorial que poderia ter suportado o voo.

A pesquisa também revelou que os canais do ouvido interno do Archaeopteryx são mais parecidos com os dos pássaros do que com os dos répteis atuais. Isso sugere que a capacidade de voo pode ter exigido não apenas penas e asas, mas também um aparato sensorial sofisticado para manobrar pelos céus jurássicos. A evolução do voo, ao que tudo indica, foi uma questão de cérebro tanto quanto de corpo.

Ao desvendar os segredos do cérebro do Archaeopteryx, os cientistas estão reescrevendo o que sabemos sobre a transição dos dinossauros para as aves. Este estudo não apenas destaca a importância da visão e da coordenação na evolução do voo, mas também nos ensina uma lição valiosa: mesmo os fósseis mais antigos e estudados podem revelar novas histórias, se olharmos de perto e com as ferramentas certas. O cérebro do Archaeopteryx, encapsulado em pedra por milhões de anos, é um testemunho da incrível jornada da vida na Terra e da constante busca da ciência para entender nosso passado pré-histórico.

Texto fonte: Alonso, P., Milner, A., Ketcham, R. et al. (2004). The avian nature of the brain and inner ear of Archaeopteryx. Nature 430, 666–669. Doi: https://doi.org/10.1038/nature02706.

Disponível em: https://www.researchgate.net/publication/8414617_The_avian_nature_of_the_brain_and_inner_ear_of_Archeopteryx. Acesso em: 02/04/2025.

Fonte e legenda da imagem de capa: Representação artística do Archaeopteryx. Crédito: Vlad Konstantinov e Andrey Atuchin, 2016.

Disponível em: https://mundopre-historico.blogspot.com/2009/02/arqueopterix.html?m=1. Acesso em: 02/04/2025.

Texto revisado por: Giulia Alves e Alexandre Liparini.

Um Roubo Histórico

Escrito em: 03 de novembro de 2023

Por: Helena Meireles

O tráfico é um tema amplamente discutido no Brasil e frequentemente divulgado em jornais e noticiários por meio de diversas reportagens. No entanto, essas reportagens tendem a se concentrar principalmente no contrabando de drogas e armas, deixando de lado outros produtos que também sofrem com o comércio ilegal, como os fósseis. Esses itens são retirados de seus sítios paleontológicos e frequentemente acabam sendo enviados para o exterior, prejudicando o conhecimento do patrimônio fossilífero nacional.

As leis que deveriam proteger e regular a extração e transporte do patrimônio fossilífero estão ultrapassadas, datando de 1942. Embora criminalizem a escavação sem autorização, não estabelecem penalidades claras para aqueles que extraem e comercializam os fósseis ilegalmente. Isso cria um cenário que dificulta o fim dessa prática criminosa. A falta de penalizações efetivas, juntamente com o baixo interesse da mídia e a normalização do crime aos olhos da população local, devido à longa história do tráfico de fósseis no país, infelizmente levou à banalização do crime.

A região da Chapada do Araripe, considerada a mais importante do Brasil em termos de conteúdo fossilífero, é a mais afetada pelo tráfico de fósseis. A cadeia do crime começa com as pessoas mais vulneráveis, os escavadores das minas de calcário laminado e argilas da região. Eles costumam receber quantias irrisórias por eventuais fósseis encontrados e muitas vezes não têm consciência do dano causado. Para ilustrar a extensão do problema, apenas em 2021, mais de 200 fósseis na região foram vítimas do comércio ilegal, mostrando a atuação ativa da cadeia de tráfico. Na maioria das vezes, os fósseis retirados ilegalmente de seus sítios de origem são vendidos a revendedores recorrentes, e acabam nas mãos de colecionadores particulares ou até mesmo em universidades estrangeiras, por meio do mercado negro.

Os fósseis encontrados em Araripe, por exemplo, são considerados de alto valor econômico devido à sua raridade e bom estado de conservação, podendo custar milhares de dólares no mercado clandestino. O problema é que esses fósseis contrabandeados não passam por uma análise completa de seu conteúdo fossilífero, não possuem documentação precisa sobre sua localização original e permanecem inacessíveis aos pesquisadores locais, prejudicando muito a pesquisa paleontológica nacional.

A comunidade de paleontologia brasileira luta para acabar com a prática do tráfico e recuperar os fósseis retirados ilegalmente da região de Araripe. Algumas medidas já foram adotadas para combater esse crime, como o treinamento das forças de segurança, a criação do Geoparque do Araripe, que estabelece uma região protegida na bacia sedimentar do Araripe de cerca de 35.000 km² e possui o selo da UNESCO, além da criação do Museu de Paleontologia de Plácido Cidade Nuvens, também localizado na região da bacia sedimentar do Araripe.

De acordo com Hara Nunes, essas ações geraram uma maior atenção ao potencial científico do registro fossilífero da bacia do Araripe, tanto em relação à curadoria do acervo quanto à divulgação da importância desse registro. Isso tem gerado um maior interesse da população pela sua história natural, valorização da ciência e o desenvolvimento econômico da região.

No entanto, percebe-se que ainda são necessárias muitas medidas adicionais. Começando por uma legislação mais rigorosa para proteger o patrimônio fóssil e uma fiscalização mais eficaz. Também é fundamental conscientizar a população sobre o risco que nosso patrimônio fossilífero enfrenta. A falta de ações efetivas resultará em prejuízos significativos para a ciência, pois o tráfico impacta diretamente nas pesquisas paleontológicas, tornando impossível comparar novas descobertas locais com fósseis antigos.

Além disso, os fósseis que estão no exterior carecem de informações essenciais para pesquisas, por não possuírem dados suficientes que são perdidos no contrabando. Fósseis são bens que merecem ser protegidos e conservados em coleções científicas nacionais de instituições públicas de pesquisa, como universidades e museus.

É fundamental que os órgãos de fiscalização, pesquisadores e instituições de ensino estejam alinhados na proteção desse patrimônio, a fim de desmantelar o mercado ilegal e sensibilizar a população sobre a importância desses bens nacionais. Já passou da hora de reconhecer e preservar nossos patrimônios científicos e culturais, buscar justiça e recuperar o que ainda pode ser restaurado. A Chapada do Araripe merece ser uma região de destaque e florescimento científico ainda maior, acessível para a sociedade e protegida pela lei e pelos moradores da região.

Texto fonte: Mayara Maria da Silva, Alisson Justino Alves da Silva, Tayslane dos Santos Gonçalves, João Paulo Camilo de Oliveira, David Ian Machado Alves, Fabiana Correia Bezerra, Renan Alfredo Machado Bantim. (2023).A LUTA POR LEIS MAIS SEVERAS: INVESTIGAÇÃO DO TRÁFICO DE FÓSSEIS NA REGIÃO DO CARIRI CEARENSE. Revistaft, v. 27, n. 122, p. DOI: 10.5281/zenodo.7975567.

Disponível em: https://revistaft.com.br/a-luta-por-leis-mais-severas-investigacao-do-trafico-de-fosseis-na-regiao-do-cariri-cearense/. (Acesso em: 03/11/2023).


Fonte e legenda da imagem de capa: Fósseis contrabandeados apreendidos pela Polícia Federal.

Disponível em: https://www.blogs.unicamp.br/colecionadores/page/17/.


Texto revisado por: Cíntia Silva e Alexandre Liparini.

Fósseis em Ação: Explorando a Paleontologia na Sala de Aula

Escrito em: 05 de dezembro de 2024

Por Camilly Vitoria Silva Costa

Você sabia que a paleontologia e a arqueologia são áreas diferentes? Enquanto a arqueologia investiga as civilizações humanas do passado, a paleontologia estuda os seres vivos – como plantas e animais – que habitaram a Terra há mais de 11 mil anos, e cujos restos se transformaram em fósseis. Se você já assistiu a Jurassic Park, provavelmente conhece o trabalho dos paleontólogos – cientistas que desenterram e analisam fósseis de dinossauros e outras formas de vida pré-históricas.

A Base Nacional Comum Curricular (BNCC) destaca a paleontologia como um tema essencial no ensino de ciências, ela permite que os alunos compreendam as origens e a evolução da vida no planeta. No entanto, ensinar esse conteúdo pode ser desafiador. Muitos alunos consideram o tema muito teórico, e os professores frequentemente enfrentam dificuldades para criar atividades práticas que envolvam os estudantes de maneira lúdica e engajante.

Para superar essas barreiras, a atividade prática “Paleontólogos por um Dia” surge como uma solução criativa e acessível. Indicada para turmas do Ensino Fundamental II e Ensino Médio, a proposta alia aprendizado e diversão, proporcionando aos alunos uma experiência que simula o cotidiano de um paleontólogo. E o melhor? A atividade não exige laboratórios sofisticados, apenas materiais simples e muita criatividade!

Como funciona?

A atividade é dividida em quatro etapas:

  1. Desenterrando Fósseis

Os alunos realizam escavações em “rochas sedimentares”, representadas por biscoitos do tipo cookie. Com ferramentas improvisadas, como palitos de dente, palitos de churrasco e pincéis, eles aprendem sobre o cuidado e a precisão necessários para extrair fósseis.

  1. Formando Moldes e Impressões

Nesta etapa, os alunos criam moldes e impressões usando materiais como massinha, gesso em pó, água e miniaturas de animais. Essa atividade simula o processo de formação e preservação de fósseis ao longo do tempo geológico.

  1. Exposição dos Fósseis

Após preparar e pintar os moldes com tintura caseira, os alunos organizam uma exposição para compartilhar os resultados com a turma. Essa etapa incentiva a criatividade, o senso de pertencimento e simula exposições reais de fósseis em museus.

  1. Reflexão e Avaliação

Por fim, os estudantes respondem a perguntas que incentivam a análise da atividade e reforçam os conceitos trabalhados. 

Por que funciona?

Segundo Pilleti (1988), o aprendizado é mais eficaz quando o aluno participa ativamente do processo, gerando inferências e testando hipóteses. Nesse sentido, a atividade “Paleontólogos por um Dia” não apenas facilita a compreensão de conceitos científicos, mas também promove habilidades como trabalho em equipe, pensamento crítico e a integração entre ciência, tecnologia e sociedade.

  • Além disso, a prática estimula a curiosidade dos estudantes e demonstra, de forma prática e divertida, a relevância da paleontologia.

Com essa proposta, os professores têm em mãos uma ferramenta poderosa para transformar o ensino de ciências em uma experiência dinâmica e envolvente. Que tal levar essa ideia para a sala de aula e inspirar novos paleontólogos a desvendarem os mistérios do passado?


Texto fonte: Santos, F.S.; Lucas, G.S.; Oliveira, V.M.; Jesus, J. S.; Campos, C.R.P. (2023). O ensino da Paleontologia por meio de uma aula prática: relato de experiência docente. Revista de Ensino de Biologia da SBEnBio, v. 16, n. 2, p. 1279-1296.

Disponível em: https://www.researchgate.net/publication/376421888_O_ensino_da_Paleontologia_por_meio_de_uma_aula_pratica_relato_de_experiencia_docente (acessado em: 08/12/2024).

Doi: 10.46667/renbio.v16i2.912.

Fonte e legenda da imagem de capa: Projeto De Dinossauros.

Disponível em: Pinterest https://pin.it/77hlMtiQt.

O que o passado pode nos dizer sobre o futuro?

Escrito em: 06 de dezembro de 2023

Por: Vitória Ramos

As mudanças climáticas sempre fizeram parte da história do planeta Terra. Ao longo dos 4,6 bilhões de anos de sua existência, o clima passou por várias transformações. No entanto, atualmente, essas mudanças estão se intensificando, principalmente devido à emissão de gases de efeito estufa. Para compreender como esses fenômenos podem impactar o futuro, pesquisadores têm combinado conhecimentos de paleontologia, ecologia e genética para estudar as dinâmicas vegetacionais do passado.

O estudo analisou regiões temperadas e revelaram que mudanças no clima frequentemente deixaram marcas genéticas em populações de plantas atuais. om a ajuda de técnicas modernas, como o sequenciamento de DNA antigo (aDNA) retirado de sedimentos, os cientistas conseguem identificar espécies e populações do passado. Essa abordagem muitas vezes é mais eficiente do que métodos tradicionais, como a análise de fósseis ou pólen.

Durante os episódios glaciais do Quaternário, vastas áreas do hemisfério norte foram cobertas por gelo. Apesar disso, várias espécies de árvores sobreviveram em refúgios glaciais – lugares com clima mais ameno, localizados em regiões de latitude média e alta. Esses refúgios funcionaram como “esconderijos” de biodiversidade, protegendo as espécies e permitindo que elas resistissem ao frio. Quando o gelo derreteu, durante os períodos mais quentes, essas árvores se espalharam para novas áreas a partir dos refúgios.

A genética ajuda a rastrear essas migrações, mostrando como as espécies se expandiram, geralmente para o norte ou por meio de “corredores” ecológicos. Esses movimentos foram acompanhados por mudanças importantes, como reduções drásticas no tamanho das populações (chamadas de gargalos populacionais) e expansões rápidas, que afetaram a diversidade genética das plantas que conhecemos hoje.

Os cientistas também destacam um fenômeno chamado “dilema riqueza do sul versus pureza do norte”. Ele explica que regiões próximas ao equador costumam ter mais biodiversidade. Por outro lado, as espécies que migraram para o norte após a Era do Gelo enfrentaram perdas genéticas, já que pequenas populações fundaram novos grupos e acabaram perdendo parte da variedade de seus genes.

Hoje, com o aquecimento global e o aumento de eventos extremos, como secas, as áreas próximas ao equador, que abrigam grande parte da biodiversidade, estão em risco. Entender como as plantas sobreviveram e se adaptaram no passado pode ajudar a criar estratégias para proteger a biodiversidade em um mundo que está mudando rapidamente. Essas informações são fundamentais para preservar ecossistemas importantes e reduzir os impactos das mudanças climáticas.

Legenda da imagem de capa: Imagem criada por inteligência artificial (IA) representando dois cenários contrastantes: de um lado, um ambiente afetado por eventos climáticos extremos, como tempestades, incêndios florestais e inundações; do outro, um ecossistema preservado, com vegetação exuberante, águas cristalinas e fauna em equilíbrio.

Texto fonte: WILLIS, K. J.; BIRKS, H. J. B. (2006). Paleoecology meets genetics: deciphering past vegetational dynamics. Trends in Ecology & Evolution, v. 21, n. 10, p. 674-680.

Disponível em: https://www.researchgate.net/publication/341819862_Paleoecology_meets_genetics_deciphering_past_vegetational_dynamics.

Texto revisado por: Tiago Lopes Siqueira Alexandre Liparini e Vitória Ramos.

Frutas Lanterna: fósseis revelam a origem antiga da família do tomate

Escrito em: 21 de janeiro de 2025

Por: Marcus Vinícius Santos Moreira

Uma descoberta recente na região da Patagônia, Argentina, mostrou que a família de plantas que inclui tomates, batatas e pimentas (Solanaceae), tem suas origens muito anteriores ao que se imaginava. Pesquisadores encontraram fósseis de frutos em forma de lanterna, datados de 52 Ma, da época Eoceno, momento ao qual várias linhagens de mamíferos surgiram e grandes bosques tropicais se espalharam pelo globo. Esses frutos, extremamente bem preservados, são, atualmente, os registros fósseis mais antigos conhecidos da Família Solanaceae, um grupo no qual raramente se encontram vestígios fósseis de flores e frutos. 

A análise mostrou que esses fósseis têm características morfológicas típicas dessa família de plantas, como estruturas que protegem as sementes, chamadas cálices, que são semelhantes aos frutos de algumas espécies modernas, que inclusive são muito consumidas (especialmente na América do Sul). Essa descoberta reforça a ideia de que a família Solanaceae surgiu antes do que se imaginava, no supercontinente Gondwana, em um período anterior à separação dos continentes da América do Sul, África, Antártica e Austrália, possivelmente ainda no Cretáceo (o fim do reinado dos dinossauros), quando estes continentes já haviam começado seu processo de separação, mas ainda não haviam se separado completamente.

Além de nos contar a história evolutiva dessa importante família de plantas, que hoje é indispensável para a agricultura e alimentação humana, os fósseis revelam como era o ambiente do hemisfério sul há milhões de anos, antes da separação dos continentes que hoje conhecemos. Eles também oferecem pistas sobre como as plantas se diversificaram e se adaptaram ao longo do tempo, pois evidencia uma característica marcante de Physalis, um cálice inflado que envolve a flor e o fruto (Provavelmente uma característica que ajudou estas plantas na dispersão de suas sementes por meio da flutuação do fruto após enchentes), criando as variedades e a diversidade que conhecemos atualmente.

Essa pesquisa não apenas resgata o passado, mas também traz luz à conexão entre os ecossistemas antigos e os atuais, destacando o papel crucial dos fósseis no estudo da biodiversidade e das mudanças ambientais através dos tempos.

Texto fonte: WILF, P. et al. (2017). Eocene lantern fruits from Gondwanan Patagonia and the early origins of Solanaceae. Science, v. 355, n. 6320, p. 71–75.

Disponível em: https://www.researchgate.net/publication/312089125_Eocene_lantern_fruits_from_Gondwanan_Patagonia_and_the_early_origins_of_Solanaceae.

DOI: http://dx.doi.org/10.1126/science.aag2737.

Fonte e legenda da imagem de capa: Frutas Lanterna: iluminando a origem fóssil da família do tomate.

Disponível em: https://www.bbc.com/news/science-environment-38511034.


Texto revisado por: Sandro Ferreira de Oliveira, Marcus Vinícius Santos Moreira e Alexandre Liparini.