Escrito em: 28 de Abril de 2026
Por: Anna Clara Braz
Quando nos deparamos com uma aranha tecendo sua teia no canto do teto, ou com a imagem de um escorpião cruzando as areias de um deserto, é quase automático associarmos esses animais à vida terrestre. Eles são os mestres da caça em terra firme, donos de reflexos impressionantes e de uma precisão cirúrgica. No entanto, um novo e surpreendente achado paleontológico nos convida a mergulhar fundo no tempo (e nos oceanos) para descobrir que a agilidade dos aracnídeos modernos nasceu debaixo d’água, há mais de 500 milhões de anos. Um estudo recente publicado na prestigiada revista Current Biology, liderado pelo neurobiólogo evolutivo Nicholas J. Strausfeld e sua equipe, jogou uma nova luz sobre a árvore genealógica dos artrópodes. E o protagonista dessa reviravolta é uma pequena criatura marinha extinta chamada Mollisonia symmetrica.
Para entender a magnitude dessa descoberta, precisamos viajar para o período Cambriano, uma época que presenciou a maior explosão de diversidade biológica da história da Terra. Foi nesse mar primordial que o Mollisonia symmetrica viveu. Até pouco tempo atrás, ao analisar o exoesqueleto desse pequeno artrópode, os paleontólogos o classificavam como um parente primitivo dos caranguejos-ferradura (límulos). O problema é que o exoesqueleto conta apenas metade da história. A verdadeira identidade de um animal muitas vezes está escondida na sua biologia interna, nos tecidos moles que quase nunca resistem à passagem do tempo. Mas, em um golpe de extrema sorte e condições de preservação excepcionais, os pesquisadores conseguiram algo raríssimo: ter acesso aos restos fossilizados do sistema nervoso dessa criatura!
Na biologia evolutiva, o cérebro funciona como uma espécie de “código de barras” da linhagem de um animal. A maioria dos artrópodes daquela época (e parentes dos caranguejos-ferradura de hoje) possuía um sistema nervoso mais alongado e linear. Quando Strausfeld e sua equipe colocaram o fóssil sob lentes de alta precisão, o que viram foi de cair o queixo: o cérebro do Mollisonia não era reto. Em vez disso, ele apresentava uma estrutura compacta, onde o cérebro era “dobrado para trás” (ou invertido), fusionando-se e sobrepondo-se aos gânglios da parte inferior e frontal do corpo. O que isso significa? Significa que os cientistas estavam olhando para o mesmíssimo arranjo cerebral que encontramos hoje em aranhas, escorpiões, ácaros e carrapatos. A natureza não costuma criar estruturas complexas sem um bom motivo. A grande questão que o artigo levanta é: por que ter um cérebro tão compactado? A resposta está na eficiência. O fóssil do Mollisonia revelou nervos muito curtos que se conectavam diretamente a pequenos apêndices frontais que funcionavam como pinças ou presas, os ancestrais das famosas quelíceras das aranhas (as estruturas usadas para injetar veneno e segurar a presa).
Ao “encolher” e dobrar o cérebro, aproximando-o desses apêndices, a distância que a informação neural precisa percorrer é drasticamente reduzida. Isso cria um centro de processamento de informações incrivelmente rápido e eficiente. Portanto, a destreza assustadora com que uma aranha dá o bote em uma mosca, ou a rapidez de um escorpião ao usar seu ferrão, não são características que evoluíram nas florestas ou desertos. São ferramentas de caça de alta performance lapidadas nos antigos oceanos do Cambriano, muito antes de o primeiro animal sequer pensar em pisar na terra firme. Descobertas como a do Mollisonia symmetrica são o motivo pelo qual a paleontologia é uma ciência tão fascinante. Elas nos mostram que a evolução não é uma linha reta e previsível.
Da próxima vez que você cruzar com uma aranha na sua casa, antes de se assustar, tire um segundo para observar seus movimentos. Você estará testemunhando o resultado de meio bilhão de anos de uma engenharia biológica perfeita, que sobreviveu à extinção dos dinossauros, às mudanças climáticas extremas e que começou sua jornada nadando nos mares de um mundo antigo.
Texto fonte: Strausfeld, N.J.; Andrew, D.R.; Hirth, F. (2025). Cambrian origin of the arachnid brain. Current Biology, v. 35, n. 15, p. 3777-3785. Doi: 10.1016/j.cub.2025.06.063.
Disponível em: https://doi.org/10.1016/j.cub.2025.06.063.
Fonte e legenda da imagem de capa: Esquema representativo da evolução do cérebro dos aracnídeos. A ilustração estabelece um paralelo evolutivo e anatômico entre um predador marinho ancestral do período Cambriano (abaixo, em ambiente aquático) e um predador terrestre de topo da atualidade, ilustrado por uma aranha saltadora (acima, em ambiente terrestre). Os diagramas neurais em destaque evidenciam a conservação e o desenvolvimento das estruturas do sistema nervoso ao longo do tempo geológico, sustentando a origem cambriana do cérebro dos aracnídeos modernos.
Disponível em: https://doi.org/10.1016/j.cub.2025.06.063.
Texto revisado por: Cíntia Silva, Sandro Ferreira.