Estudos em paleotocas como evidência de comunicação acústica em preguiças-gigantes.

Escrito em: 5 de maio de 2026

Por: Cecilia Alves das Dores

Megaichnus major parece o nome de alguma espécie animal, porém é o nome atribuído a estruturas subterrâneas produzidas por grandes animais da megafauna no Plioceno e Pleistoceno. Essas galerias são consideradas traços fósseis da atividade desses indivíduos e podiam atingir cerca de 2 metros de altura e até 4 metros de diâmetro. Trata-se de estruturas tipicamente sul-americanas, com ocorrências distribuídas por grande parte da região sul do continente, onde se ambienta este trabalho (Município de Urubici, Santa Catarina).

Embora seja difícil determinar com precisão quais animais foram responsáveis pela escavação dessas paleotocas, a análise dos vestígios preservados em suas paredes, associada ao contexto geográfico e paleontológico dos achados, permitiu relacioná-las a alguns gêneros de preguiças-gigantes. Marcas de garras e padrões estruturais indicam que esses animais possuíam hábitos fossoriais e gregários, utilizando as galerias não apenas como verdadeiros caminhos subterrâneos, mas também como abrigo e local de descanso.

Diante desse modo de vida, surgem algumas questões intrigantes: de que maneira esses indivíduos se comunicavam dentro desses ambientes escuros e confinados? E mais, será que eles desenvolviam formas de comunicação adaptadas à esse estilo de vida?

Alguns estudos sobre as estruturas de comunicação de organismos viventes de Xenarthra — clado que inclui os tatus, preguiças e tamanduás —, identificou diferentes tipos de vocalizações associadas a situações de estresse, forrageamento, acasalamento e interação entre mãe e filhote, incluindo grunhidos, choros, assovios, gritos e rosnados. A partir dessas observações, levantou-se a hipótese de que formas semelhantes de comunicação também poderiam ter ocorrido entre esses grupos extintos. Alimentando essa hipótese, a análise dos ossos do ouvido e massa corporal desses organismos fósseis indicaram que esses animais provavelmente possuíam maior sensibilidade a sons de baixa frequência, além de apresentarem o tamanho desses ossos comparáveis a animais vivos que usam ondas sísmicas e a água para propagarem seus sons. Dessa forma, mecanismos de comunicação semelhantes poderiam ter sido empregados por esses organismos fósseis em suas estruturas subterrâneas, onde sons de baixa frequência e vibrações poderiam se propagar com maior eficiência, menor atenuação e intensificação de propagação (efeito estetoscópio).

Com essas informações em mente, a paleotoca escolhida para a condução deste estudo, apresentava um ótimo estado de conservação; possuindo aproximadamente 15 metros de extensão, altura máxima de 2,85 metros e largura máxima de 1,30 metro. Com o auxílio de uma caixa de som, foram emitidos sons puros e contínuos em diferentes frequências, e os mecanismos de captação acústica foram posicionados em três alturas, na parte superior, média e inferior da escavação, e também em diferentes distâncias ao longo da galeria, com o objetivo de medir a propagação sonora no interior da paleotoca.

Os resultados demonstraram que sons de baixa frequência se propagaram de maneira mais eficiente, sofrendo menor atenuação ao longo do percurso. Além disso, observou-se um aumento do chamado “efeito estetoscópio”, percebido principalmente na região média da escavação, onde a captação sonora foi mais eficiente. Tais resultados podem corroborar a hipótese de que as adaptações auditivas observadas nas preguiças-gigantes evoluíram otimizando a comunicação em ambientes subterrâneos. Mas traçar a história evolutiva dessa informação permanece um desafio em aberto para a paleontologia e abre um caminho para que novos paleontólogos se aventurem em busca de novas descobertas.

Palavras chave: Paleotocas, preguiças-gigantes, comunicação, frequência, Xenarthra. 

Texto fonte: Munhoz, M. S., Audi, C., & Buchmann, F. S. (2025). Propagação sonora em Megaichnus major (paleotocas) como evidência de comunicação acústica de Mylodontoidea fossoriais. Revista Brasileira De Paleontologia, v. 27 no 4, e20240428. 

Disponível em: https://sbpbrasil.org/publications/index.php/rbp/article/view/428

DOI: 10.4072/rbp.2024.4.0428.

Fonte e legenda da imagem de capa: Tocas/tuneis escavados por preguiças- gigantes durante o Plioceno/Pleistoceno (de 5,3 milhões de anos a 11,7 mil anos atras). Fotos por Francisco Buchmann.


Texto revisado por: Lucas Ferreira, Sandro Ferreira de Oliveira e Alexandre Liparini.

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