O fóssil da última ceia

Escrito em: 23 de junho de 2025

Por: Sofia Castro Machado

O estudo da interação inseto-planta é de extrema relevância, isso porque é graças a uma dessas inter-relações, a que é conhecida como polinização, que muitas árvores tiveram sua reprodução e dispersão viabilizadas.

O avanço acelerado do desmatamento, o uso indiscriminado de agrotóxicos e os efeitos crescentes das mudanças climáticas têm provocado o declínio e até a extinção de diversas espécies de polinizadores. Essa situação é extremamente alarmante, pois esses organismos desempenham um papel essencial na manutenção da biodiversidade, na regeneração e sobrevivência das florestas — que, por sua vez, regulam o regime de chuvas, os ventos, a fauna, a temperatura, o armazenamento de água e o equilíbrio dos gases atmosféricos. Além disso, grande parte das culturas agrícolas que sustentam a alimentação depende direta ou indiretamente da polinização para ocorrer e se desenvolver adequadamente.

A fim de aprofundar-se nessa compreensão, registros fósseis são de significativa importância, apresentando evidências e informações sobre o comportamento dos polinizadores, como, por exemplo, de uma mosca, encontrada em Messel, na Alemanha, e datada em 47,5 milhões de anos. Seu fóssil estava seccionado em duas diferentes partes: a primeira apresentando uma “impressão” do dorso deste animal, ao passo que a segunda, do ventre.

O curioso fato a respeito do fóssil dessa mosca, é que nele era possível visualizar o papo, estrutura intestinal, repleta de pólen. Esse detalhe revela nada menos que a sua última refeição… ou melhor, a sua última ceia! Até então, as moscas fósseis registradas pertencentes a esse grupo não apresentavam comportamento de polinizadores, consumindo somente o néctar. Isso se apresentou, portanto, como a primeira observação de uma mosca das veias-emaranhadas (moscas da família Nemestrinidae), com tal hábito alimentar.

Com a análise dos pólens, constatou-se que estes pertenciam ao menos a quatro grupos de plantas, o que indica visitas sucessivas e permutáveis por parte dessa mosca a diferentes flores. A atração pelo pólen é mais incomum comparativamente ao néctar, sugerindo que o atrativo primário para essa mosca seria o próprio nectário, e posteriormente ela teria introduzido pólen na sua dieta.

Ademais, devido à configuração de sua cabeça e ao material intestinal, depreendeu-se que essas moscas não tinham a estrutura necessária para que pudessem permanecer sobrevoando as flores visitadas. Ocorre que, as plantas que ela polinizava, chamadas Decodon sp. e Parthenocissus sp., possuíam flores agrupadas, possibilitando que este inseto caminhasse de uma para a outra, sem necessitar visitá-las individualmente pelo ar.
Este registro paleontológico, então, sinaliza que esse grupo de moscas, também conhecido pelos cientistas como Hirmoneura, teve uma função muito impactante no que concerne à reprodução vegetal, sendo profundamente subestimadas e negligenciadas no campo da polinização, fato que reitera a urgência e o caráter inadiável de uma mudança.

Texto fonte: Wedmann, Sonja et al. (2021). The last meal of an Eocene pollen-feeding fly. Current Biology, Volume 31, Issue 9.

Disponível em: https://www.cell.com/current-biology/fulltext/S0960-9822(21)00232-3.

Fonte e legenda da imagem de capa: Fóssil de mosca que se alimenta de pólen com idade estimada em 47,5 milhões de anos.

Disponível em: https://www.cell.com/current-biology/fulltext/S0960-9822(21)00232-3.


Texto revisado por: Sofia Castro Machado, Sandro Ferreira de Oliveira e Alexandre Liparini.

Monumentos Históricos com Fósseis no Antigo Centro do Rio de Janeiro

Escrito em: 25 de março de 2024

Por: Mateus Batista

Um resumo sobre a cidade do Rio de Janeiro

A colonização portuguesa na cidade do Rio de Janeiro teve início na transição do século XVI para o século XVII. Nos primeiros anos, os colonizadores enfrentaram desafios como a falta de mão de obra qualificada, escassez de ferramentas e o trabalho com rochas duras, como o granito-gnaisse, que não eram comuns na Europa. Para superar essas dificuldades, começaram a importar rochas carbonáticas do continente europeu, como o Calcário de Lioz e de Pero Pinheiro de Portugal, além do Travertino Italiano. Posteriormente, o calcário brasileiro passou a ser explorado, especialmente a partir do século XIX. Tanto as rochas estrangeiras quanto as brasileiras possuem vestígios paleontológicos, como conchas de bivalves e estromatólitos.

Panorama Geral: Rochas Utilizadas nas Construções

As principais rochas utilizadas nas construções são originárias de Portugal, da região de Pero Pinheiro e Terrugem, conhecidas como “Calcários de Lioz”. Esses calcários, predominantemente brancos, possuem idades jurássicas e cretáceas e foram amplamente empregados como rochas ornamentais. A coloração branca do calcário sugere sua formação em ambiente aquático de baixa profundidade, alta energia e alto poder de oxidação, favorecendo a proliferação de bivalves do tipo rudistas. Além destas, foi utilizado o travertino italiano, formado pela deposição de águas termais durante a era Cenozoica. Outra rocha observada foi o metacalcário de idade paleoproterozoica da Pedreira de Cumbi, localizada em Cachoeira do Campo, ao sul de Ouro Preto, em Minas Gerais.

Monumentos e Construções Notáveis:

Chafariz do Mestre Valentim

O Chafariz do Mestre Valentim, construído em 1747 pelo governador Gomes Freire de Andrade, é um marco histórico importante no Rio antigo. Composto por Gnaisse Facoidal e calcário branco Lioz, este monumento revela aspectos paleontológicos notáveis. Em cortes transversais, são visíveis bivalves rudistas da Família †Radiolitidae, gênero †Radiolites, cujos fósseis destacam-se pela espessura e solidez das conchas, evidenciando um ambiente aquático do Cretáceo com forte energia hidrodinâmica.

Tribunal da Justiça

Inicialmente projetado para abrigar o antigo Entreposto Federal de Pesca e inaugurado em 1941, o Tribunal da Justiça foi posteriormente utilizado como sede da Companhia Nacional de Abastecimento (CONAB). Seu revestimento é feito de metacalcário de cor amarelada, provavelmente extraídos da Pedreira do Cumbi, Minas Gerais. Esse mármore apresenta estromatólitos, estruturas bioquímicas formadas por atividades microbianas, especialmente cianobactérias, mostrando cortes longitudinais semelhantes a faixas paralelas e transversais com formatos praticamente circulares.

Tabacaria Africana

A Tabacaria Africana, fundada em 1846 e frequentada pela elite do segundo império, incluindo o Imperador D. Pedro II, é considerada a casa comercial mais antiga da cidade. Sua fachada é revestida por dois tipos de calcários fossilíferos separados por uma faixa de calcário preto. Na parte inferior, há um calcário rosa fossilífero conhecido como calcário Encarnadão, ainda explorado nas regiões de Terrugem e Pêro Pinheiro, ao norte de Lisboa. Esses calcários, de idade cenomaniana (Cretáceo), apresentam a coloração rosa devido à presença de óxido de ferro, indicando deposição em ambiente oxidante. A assembleia fossilífera observada inclui bivalves rudistas da Família †Radiolitidae, gênero †Radiolites Lamarck, 1801, na parte inferior, e um revestimento superior de Calcário Lioz de cor clara, rico em fósseis de bivalves rudistas da Família †Caprinidae, gênero †Caprinula.

Texto fonte: Marco André Malmann MEDEIROS1 & Márcia Aparecida dos Reis, 2017, São Paulo, UNESP, Geociências, v. 36, n. 1, p. 118-137. Doi:https://doi.org/10.5016/geociencias.v36i1.12300

Disponível em: https://www.periodicos.rc.biblioteca.unesp.br/index.php/geociencias/article/view/12300 acessado 04/04/2024

Legenda da imagem de capa: rochas ornamentais, Rio de Janeiro, construções históricas, calcário de Lioz, bivalves rudistas, estromatólitos, arquitetura colonial, Tabacaria Africana, Chafariz do Mestre Valentim

Disponível em: https://www.periodicos.rc.biblioteca.unesp.br/index.php/geociencias/article/view/12300 acessado 04/04/2024

Texto revisado por: Leticia Lopes e Alexandre Liparini.

Microestrutura óssea de um fóssil vestigial: O que tem a dizer sobre o passado?

Escrito em: 25 de março de 2024

Por: Beatriz Fonseca Durão

Você sabia que o estudo dos ossos fossilizados é extremamente importante para a compreensão da história dos organismos? Isso é possível porque existem microestruturas ósseas que estão associadas à fisiologia, à idade e até mesmo à adaptações que seres vertebrados tiveram em vida. Esse é o estudo feito pela análise ósseo histológica. 

Como já sabemos, o Brasil é o berço de muitos fósseis importantes para a compreensão da vida no passado. Porém, os estudos de microestruturas ósseas ainda são escassos. Abordando o tema, o artigo de OLIVEIRA fala sobre uma espécie de porco-espinho sul-americano já extinta: Coendou magnus. Ele viveu no Pleistoceno e foi encontrado em uma caverna carbonática do Nordeste brasileiro: a caverna Toca da Barriguda (Campo Formoso, Bahia).

Foram encontrados fósseis nasais e dentários do C. magnus, que foram identificados como dessa espécie de Eretizontídeos – a família dos porco-espinhos – no Laboratório de Ecologia & Geociência, da Universidade Federal da Bahia. Os fósseis apresentavam 103 ossos muito bem preservados! 

Mas como foi analisada a microestrutura deles? Basicamente, foi criada uma amostra de resina, que passou por vários processos de polimento, visando deixar a superfície mais lisa possível. Com isso, os pesquisadores puderam utilizar Difratometria com Raio-X para identificar os elementos contidos no material. A análise resultou na presença de silicato de cálcio e na ausência de calcita, revelando a preservação em ambiente com pouco intemperismo e baixas trocas geoquímicas.

E aí, você já sabia que era possível um estudo tão profundo assim dos ossos fossilizados?

Texto fonte: OLIVEIRA, M. A. N.; SILVA, E. C. da; CAMPOS, L. dos S.; DANTAS, M. A. T.; LEAL, L. A. Osteohistological analysis and preservation stage of Coendou magnus Lund, 1839 (Rodentia, Erethizontidae) fossils recovered at Toca da Barriguda Cave, Northeastern Brazil. Revista Brasileira de Paleontologia, [S. l.], v. 26, n. 4, p. 330–336, 2024. DOI: 10.4072/rbp.2023.4.06

Disponível em: https://sbpbrasil.org/publications/index.php/rbp/article/view/410.

Legenda da imagem de capa: Ossos nasais do Coendou magnus.

Disponível em: https://sbpbrasil.org/publications/index.php/rbp/article/view/410.

Texto revisado por: Tiago Lopes Siqueira e Alexandre Liparini.

Pensando sobre: a evolução dos cérebros em golfinhos

Escrito em: 31 de março de 2024

Por: Dani

*Texto publicado também no espaço biótico: <confira aqui>

Os golfinhos e seus parentes, como as baleias dentadas e os botos, fazem parte do grupo dos Odontoceti, composto por mamíferos marinhos com dentes. É notável que os golfinhos se destacam por possuírem cérebros surpreendentemente grandes em relação ao corpo, até maiores do que os de alguns primatas! 

Essa peculiaridade levanta a questão: por que os golfinhos possuem cérebros tão grandes? O cérebro é considerado um “motor” que demanda muita energia para funcionar adequadamente. Portanto, ao observar que os golfinhos possuem cérebros tão grandes, acredita-se que há uma vantagem evolutiva relacionada com o tamanho do cérebro. Esta característica parece estar conectada à vida em sociedades complexas, como a dos golfinhos, onde há intensa comunicação, cooperação e competição entre os membros do grupo.

Contudo, os cérebros raramente fossilizam por serem de um tecido mole que costuma desaparecer antes de ser preservado em rocha. Assim, é necessário buscar outros métodos indiretos para estudar sua evolução, principalmente em grupos já extintos. Uma estratégia é estudar os endocastos – moldes da parte interior do crânio formados em alguns fósseis – que podem ajudar a  entender características do cérebro como tamanho e formato. O presente estudo se refere ao endocasto de uma espécie fóssil chamada Prosqualodon davis, conhecido como o golfinho ‘tubarão dentado’ (shark toothed dolphin). Estes animais viveram na região da Nova Zelândia, no início do período Mioceno, cerca de 20 milhões de anos atrás.

Um grupo de cientistas realizou uma análise comparativa do endocasto deste golfinho arcaico com outros fósseis conhecidos, a fim de entender melhor como o cérebro evoluiu nos Odontoceti – grupo que inclui golfinhos e baleias dentadas. As descobertas sugerem que o aumento no tamanho do cérebro começou no início do Mioceno, nas linhagens que eventualmente deram origem aos golfinhos modernos. Ao mesmo tempo, houve perda de áreas cerebrais ligadas ao olfato, o que pode ter economizado energia e permitido seu uso em outras funções cerebrais. Essas evidências sugerem que espécies fósseis de golfinhos já estavam começando a viver em sociedades mais complexas durante o Mioceno.

Ainda há muito a se desvendar sobre a história evolutiva dos mamíferos aquáticos, principalmente sobre os cérebros dos golfinhos. Novos estudos comparativos com mais endocastos e de diferentes espécies são essenciais para mais avanços. Entretanto, este estudo mostra um avanço para o entendimento dessa história tão misteriosa.

Texto fonte:  Yoshihiro Tanaka, Megan Ortega & R. Ewan Fordyce (2023). A new early Miocene archaic dolphin (Odontoceti, Cetacea) from New Zealand, and brain evolution of the Odontoceti, New Zealand. Journal of Geology and Geophysics, 66:1, 59-73.

Disponível em: https://www.tandfonline.com/doi/full/10.1080/00288306.2021.2021956.

DOI: 10.1080/00288306.2021.2021956.

Legenda da imagem de capa: Crânio de Prosqualodon davidis no Museu de História Natural em Londres, Inglaterra.

Disponível em: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Em_-_Prosqualodon_davidis_-_1.jpg.


Texto revisado por: Damiane Mello, Sandro Ferreira e Alexandre Liparini.

Pterossauros, Os Gigantes voadores na Antártica

Escrito em: 04 de abril de 2024

Por: Leandro Rodrigues Santos

Os pterossauros fazem parte de um grupo seleto, dentre os maiores animais com capacidade de voo, chegando a 3 metros de altura e uma impressionante envergadura de até 10 metros. Para desvendar os segredos desses gigantes alados, um importante estudo brasileiro foi feito por pesquisadores do Museu Nacional do Rio de Janeiro, com objetivo de estudar fósseis de pterossauros encontrados na Antártica, nas ilhas James Ross e Vega. Dessa iniciativa surgiu o projeto Paleoantar, vinculado ao Programa Antártico Brasileiro, (Proantar). 

Ao longo de 15 anos, cinco expedições na península antártica foram realizadas, e o projeto cumpriu seu objetivo, encontrar fósseis de pterossauros, revelando novos detalhes sobre essas criaturas aladas gigantes. A presença desses fósseis sugere que os pterossauros habitaram a Península Antártica durante o Cretáceo Superior (do Santoniano ao Maastrictiano), entre 85 milhões e 66 milhões de anos atrás.  

Além disso, a análise dos espécimes fornece informações sobre o desenvolvimento biológico dos pterossauros e seus ambientes de vida. No contexto geológico, os fósseis foram encontrados em formações geológicas de dois tipos, tanto basaltos (rochas vulcânicas), como arenitos de diferentes granulações, ambos encontrados  na Península Antártica.

Foram descritos dois espécimes de pterossauros no estudo, o primeiro foi encontrado a partir da extremidade distal de uma falange, o osso que se localiza na pontinha do dedo, sugerindo um pterossauro com uma envergadura estimada entre 3 e 4 metros. O segundo foi identificado por um metacarpo, osso localizado entre os pequenos ossos do punho e as falanges dos dedos da asa.

Diante disso, prova-se a  importância para a academia explorar e estudar a Antártica, sendo fundamental para ampliar o conhecimento da paleontologia sobre fósseis que viveram lá e compreender a evolução desses seres. Além disso, esses estudos são essenciais para entender como os ecossistemas da Antártica e de continentes vizinhos se desenvolveram ao longo do tempo.

Texto fonte:  Kellner, AWA et al. (2019). Pterodactyloid pterosaur bones from Cretaceous deposits of the Antarctic Peninsula. Anais da Academia Brasileira de Ciências, v. 91, p. e20191300.

Disponível em: https://doi.org/10.1590/0001-3765201920191300.

Legenda da imagem de capa: Imagem de como seria a representação de um pterossauro.

Imagem Fonte: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Dinosaurios_Park,_Pterosauria.JPG.


Texto revisado por: Gabriel Félix Diório e Alexandre Liparini.

Águas passadas: desvendando novo tubarão Symmoriiforme e outros dentes de condrictes permianos no sul do Brasil

Escrito em: 02 de março de 2024

Por Maria Eduarda Carvalho

*Texto publicado também no espaço biótico <confira aqui>

Ouvimos com frequência histórias populares e até folclóricas dos peixes cartilaginosos do mar, incluindo as arraias, quimeras e, principalmente, os tubarões. Sim, os tubarões, arraias e quimeras pertencem à mesma classe: os Chondrichthyes! Os Chondrichthyes são registrados desde o início do Siluriano (444 a 419 milhões de anos atrás) até os dias atuais. Este grupo de peixes ainda é subdividido em Elasmobranchii (tubarões e arraias) e em Holocephali (com único representante vivo, as quimeras). Falando sobre tubarões e sobre paleontologia, cada dente, dentículo e espinho de nadadeira conta uma história marinha antiga sobre habitats, ecologia, interações entre espécies e acontecimentos evolutivos dos tempos geológicos.

Mesmo existindo registros de Chondrichthyes  a partir do Siluriano, no território brasileiro o grupo só se torna diverso e abundante em formações rochosas do Permiano (289 a 252 milhões de anos atrás), com Elasmobranchii permianos somente sendo encontrados nas bacias sedimentares paleozoicas do Paraná e Parnaíba.

Um estudo intitulado “A new symmoriiform shark and other chondrichthyan teeth from the earliest Permian of southern Brazil”, escrito por paleontólogos brasileiros traz à tona fósseis incrivelmente preservados de tubarões que viviam em águas marinhas frias do Permiano de um ambiente periglacial no sul do Brasil. O que é muito interessante é que, além de dois dentes fossilizados que foram atribuídos a condrictes indeterminados, as descobertas desta recente pesquisa nos revelam um dente fossilizado de tubarão que agora é a primeira espécie de Symmoriiformes brasileira!

Mas, afinal, quem são os Symmoriiformes? São um grupo de peixes condrictes fósseis que existiram do Devoniano Superior ao Cretáceo Inferior, entre cerca de 400 e 100 milhões de anos atrás. Esses peixes apresentam um padrão de dentição característico que chamamos de cladodonte: dente apresentando cinco cúspides, em que a cúspide central é mais alta que as demais e é flanqueada por dois pares de cúspides laterais menores (e que foi usado como base para as conclusões da pesquisa em questão).

Esses três dentes isolados foram encontrados no “Folhelho Lontras”, uma importante unidade estratigráfica da Bacia do Paraná, originada pela deposição de sedimentos em um ambiente marinho de quase 300 milhões de anos atrás, no início do Permiano. Essa formação rochosa é como um tesouro fossilífero, recebe até status de Konservat-Lagerstätten, que do alemão significa “jazida de conservação”! Sua importância paleontológica é global, pela capacidade de conservação de restos de organismos de forma extraordinária. No presente estudo, os autores trazem hipóteses para tal qualidade da preservação, como condições específicas que diminuíram atividade bacteriana, não degradando as partes moles de animais, por exemplo. 

 A nova espécie foi registrada como Crioselache wittigi, o que faz referência às águas geladas que esse tipo de tubarão vivia durante o período de glaciação e deglaciação. Essa descoberta e a de outros dentes de condrictes é uma peça fundamental no quebra-cabeça da evolução marinha, sendo esses, alguns dos primeiros registros desse tipo tubarão no início do Permiano, destacando, inclusive, a importância de formações rochosas brasileiras para novas descobertas paleontológicas.

Texto fonte:  Pauliv, V. E., Dias, E. V., Sedor, F. A., Weinschütz, L. C., & Ribeiro, A. M. (2023). A new symmoriiform shark and other chondrichthyan teeth from the earliest Permian of southern Brazil. Revista Brasileira De Paleontologia, 26(3), 227–237.

Disponível em: https://doi.org/10.4072/rbp.2023.3.07

Fonte e legenda da imagem de capa:  Parte, contraparte e e desenho esquemático de dente fossilizado da nova espécie de Symmoriiformes do Brasil. (Imagem retirada do texto fonte.)


Texto revisado por: Fernanda Moreira Batitucci e Alexandre Liparini.

Como seria a ancestral de todas as flores?

Escrito em: 03 de abril de 2024

Por: Henrique Ribeiro Mendes

As angiospermas são as plantas que produzem flores. Elas representam cerca de 90% de todas as espécies vegetais vivas da Terra. Apesar dos inúmeros conhecimentos obtidos a partir de estudos sobre elas, um mistério ainda permanecia não resolvido: como seriam as características da primeira espécie de flor — aquela que deu origem a todas as espécies que conhecemos hoje? E quando ela teria surgido?

Pesquisadores publicaram na revista Nature o que seriam as possíveis respostas a essas perguntas. Através de um trabalho de reconstruções baseadas em modelos para flores ancestrais, eles chegaram a um resultado de como seriam as possíveis características da flor ancestral de todas as outras: bissexual (com órgãos reprodutores masculino e feminino em um mesmo indivíduo), com simetria radial, mais de três estames (órgãos masculinos) e mais de cinco carpelos (órgãos femininos).

Diferente da maior parte das espécies vegetais da atualidade, essa flor ancestral não possuía uma separação bem definida entre suas pétalas e sépalas. Ou seja, ela possuía, em seu perianto, tépalas em espiral.

O estudo se baseou no maior conjunto de informações sobre características florais já reunido, utilizando amostras de 792 espécies de plantas, de diferentes famílias e ordens. Essa grande amostragem foi fundamental para chegar a esse resultado e possibilitar a montagem de uma árvore evolutiva das angiospermas.

Segundo os pesquisadores, essa espécie ancestral teria vivido entre 140 e 250 milhões de anos atrás (mesma época em que viveram os dinossauros), enquanto o fóssil de flor mais antigo é datado de cerca de 130 milhões de anos.

Os resultados obtidos por meio desse estudo são um avanço significativo para a compreensão da origem da diversidade das flores e da evolução das angiospermas. No entanto, a forma como a flor surgiu nas plantas permanece desconhecida.

Texto fonte: Sauquet, H., von Balthazar, M., Magallón, S. et al. (2017). The ancestral flower of angiosperms and its early diversification. Nat Commun V. 8, n. 16047 Doi: https://doi.org/10.1038/ncomms16047

Disponível em: https://www.nature.com/articles/ncomms16047. Acesso em: 20/06/2025

Fonte e legenda da imagem de capa: Estrutural floral estimada da espécie ancestral das angiospermas.

Disponível em: https://www.potencialbiotico.com/espacobiotico/paleontologia/como-seria-a-ancestral-de-todas-as-flores?searchTerm=Como+seria+a+ancestral+de+todas+as+flores%3F


Texto revisado por: Giulia Alves

Paleopatologia: a “veterinária” dos dinossauros

Escrito em: 20 de março de 2024

Por: Luiza Borges Brasileiro Leite

Assim como os animais modernos, aqueles que já foram extintos (incluindo os dinossauros não-avianos) estavam sujeitos a todo tipo de doença e lesão, desde parasitas até membros deslocados e ossos quebrados. Apesar de não poder curar os animais extintos, ao contrário da veterinária moderna, que busca atingir a saúde e bem estar dos nossos amigos peludos, a paleopatologia é uma ciência que pode nos ajudar a entender mais sobre os tipos de doenças e ferimentos que acometeram os animais do passado.

Descoberto por Salgado & Carvalho em 2008 no município de Uberaba, o Uberabatitan ribeiroi é uma espécie de titanossauro que pode nos ajudar a exemplificar o estudo de doenças e lesões em animais extintos. Sabe-se muito pouco sobre esses gigantes de 65 milhões de anos, já que apenas três espécimes diferentes foram descritos. No entanto, dois deles apresentam sinais de ferimentos e doenças, que serão discutidos adiante.

Primeiramente, o próprio holótipo (espécime usado para a primeira descrição de uma espécie) do U. ribeiroi apresenta indícios de lesão óssea em sua cauda: um calo ósseo em um arco hemal (osso da parte ventral da cauda de um vertebrado). O arco hemal desse espécime não apresenta indícios de alguma doença óssea, então sugere-se que o calo ósseo é proveniente da cicatrização de uma fratura causada por impacto.

O segundo espécime a ser discutido, sendo o maior dos três descritos, e portanto, o mais velho, apresenta uma patologia óssea mais intrigante: duas das vértebras do meio de sua cauda estão fusionadas. Isso deixou os paleontólogos intrigados, pois esse é o primeiro registro de vértebras fusionadas em titanossauros. Então, para descobrirem mais sobre a patologia curiosa, o dinossauro foi literalmente levado para o hospital: foram feitos exames de tomografia computadorizada de suas vértebras fusionadas no Hospital das Clínicas da Universidade Federal do Triângulo Mineiro.

Descobriu-se então que as vértebras estavam completamente fusionadas, destacando-se a fusão do corpo das vértebras, pela provável ossificação do disco intervertebral, e a fusão dos processos articulares posterior e anterior das vértebras, causada pela ossificação da articulação zigoapofisária direita, com desenvolvimento de um osteófito (isso tudo quer dizer que uma vértebra juntou-se à outra por causa de uma hipertrofia óssea em uma articulação do lado direito).

Além disso, os ligamentos longitudinais, especialmente do lado esquerdo das vértebras, também se encontram ossificados, e há osteófitos e exostoses (crescimento ósseo anormal, mas benigno) em diversos locais das vértebras. Outra evidência de patologia óssea importante que foi encontrada nas vértebras fusionadas, é a erosão óssea, em algumas regiões.
O conjunto de todas essas patologias ósseas indica que, provavelmente, o espécime de U. ribeiroi teve uma infecção no local das patologias. Apesar de a causa das alterações patológicas apresentadas ser de difícil determinação, é possível que o gigante do Cretáceo tivesse espondiloartropatia, ou seja, algum tipo de artrite, mais provavelmente osteoartrite, mais comum em organismos mais velhos, o que pode explicar o crescimento ósseo fora do comum apresentado.

Texto fonte: Martinelli, A. G., Teixeira, V. P. A., Marinho, T. S., Fonseca, P. H. M., Cavellani, C. L., Araujo, A. J. G., Ribeiro, L. C. B., Ferraz A. L. F. (2015). Fused mid-caudal vertebrae in the titanosaur Uberabatitan ribeiroi from the Late Cretaceous of Brazil and other bone lesions. DOI 10.1111/let.12117 © 2014 Lethaia Foundation. Published by John Wiley & Sons Ltd.

Disponível em: https://www.idunn.no/doi/full/10.1111/let.12117. Acessado em 20/03/2024.

Fonte e legenda da imagem de capa: Representação artística, em cores fantasia, do espécime de Uberabatitan ribeiroi, com a cauda machucada, indicando um tipo de infecção que a acometeu.

Disponível em: https://paleontologiahoje.com/2025/06/18/paleopatologia-a-veterinaria-dos-dinossauros/. Imagem autoral.


Texto revisado por: Sandro Ferreira de Oliveira e Alexandre Liparini.

Fragmentos de carvão e grãozinhos de pólen: “um pouco” da história do Cerrado

Escrito em: 06 de novembro de 2023

Por: Maria Romano

E se os biomas tivessem suas biografias escritas, como seria a do Cerrado, esse gigante conhecido como a savana brasileira que cobre o miolo do Brasil? Quando ele se tornou da forma como nós o conhecemos hoje? Com sua enorme biodiversidade de gramíneas e árvores, na maior parte das vezes espaçadas. Como bons biógrafos, paleontólogos brasileiros foram atrás de pistas, investigando sedimentos na Paleolagoa Seca, em uma mina de fosfato no município de Catalão, Goiás, encontrando evidências de que, no final do Pleistoceno (há aproximadamente 43 mil anos), a vegetação que compunha a paisagem local não era tão distinta da atual, e que há mais de 43 mil anos já havia a ocorrência de fogo no local.
Para isso, os fósseis de pólen de diferentes camadas de sedimento foram analisados, já que este tipo de estrutura é produzida em grande quantidade por boa parte das plantas, por todas aquelas que produzem sementes, mais exatamente. Além disso, os grãos de pólen são altamente resistentes, o que possibilita um bom registro fossilífero, ou seja, são fáceis de se encontrar e possuem formatos muito distintos que permite saber qual planta os produziu. Desta forma, eles serviram de referência para que a história do Cerrado, em Catalão, seja contada: a vegetação local há 43 mil anos era semelhante a atual, mas o mosaico da paisagem, embora predominantemente savânico, também era composto por regiões com características florestais, de vegetação mais densa, e áreas mais alagadas.
Conforme os pesquisadores observaram, em algumas camadas (camadas diferentes aqui podem ser entendidas como idades diferentes, sendo as mais inferiores, mais antigas) havia mais espécies de gramíneas, enquanto, em outras, grãos de pólen de espécies de árvores estavam mais presentes. Na camada mais profunda, havia uma maior concentração de espécies arbóreas, reconhecidas como típicas das matas que cercam os rios que cruzam os rios do bioma, o que indica que a vegetação estava adaptada a um clima mais úmido. Em contraste, na camada mais acima desta, a vegetação predominante era de uma savana bem mais aberta com gramíneas e arbustos, indicando um clima mais seco.
Outro tipo de registro fóssil que os pesquisadores procuraram nas camadas de sedimento foram os fragmentos de carvão fossilizado, produzido pelo fogo natural, que na atualidade ainda é presente no bioma com uma certa periodicidade, queimando boa parte da vegetação rasteira que logo depois rebrota. Estes fragmentos, neste local, foram surpreendentemente encontrados em uma camada de mais de 43 mil anos, sendo que até então, o achado mais antigo de registros da passagem do fogo no Cerrado era de 36,5 mil anos. Outro ponto curioso, foi que uma das camadas mais recentes dentre as analisadas não se viu fragmentos de carvão, uma lacuna que suscita a questão: durante a formação desta camada, a ocorrência de fogo foi reduzida, ou isso se deve a um ambiente que não favoreceu a formação deste tipo de fóssil?

Características como formatos dos fragmentos de carvão levam ainda a outro tipo de informação: o principal combustível para o fogo durante a formação de cada camada. Neste sentido, o formato mais alongado destes fósseis sugere que, há mais de 43 mil anos, a principal fonte de energia para os fogos naturais eram as gramíneas. De acordo com os pesquisadores, a alta frequência do fogo teve ainda um papel fundamental para que a vegetação herbácea e rasteira das savanas persistisse ao longo dos anos, dado o rápido crescimento das gramíneas entre um evento de queima e outro, em detrimento da vegetação arbórea, de crescimento mais lento.

Desta forma, aos poucos os pesquisadores recolhem mais informações a partir dos fósseis, neste caso de origem vegetal, que são testemunhas do passado deste bioma que segue tão ameaçado, com o qual boa parte da população brasileira convive, em certo grau, mas que ainda é capaz de surpreender. Muito desta história foi escrita, ao que tudo indica, relacionado ao fogo, falta ainda que outras partes se revelem, enquanto ela ainda segue sendo escrita, desta vez sofrendo também a influência de outro agente, o homem, o qual, sobre o Cerrado, faz investidas constantes, apagando a vegetação nativa em alguns cantos e mantendo-a em outros.

Texto fonte: Follador, Gabriela Luiza Pereira Pires, et al. (2023). Paleofires and Vegetation in a Late Pleistocene Paleolake (>43 Ka bp ) of the Savannas of Central Brazil. Journal of Quaternary Science, vol. 38, no 8, novembro de 2023, p. 1305–12. DOI.org (Crossref).

Disponível em: https://www.researchgate.net/publication/371547304_Paleofires_and_vegetation_in_a_Late_Pleistocene_paleolake_43_ka_bp_of_the_savannas_of_central_Brazil.

DOI: https://doi.org/10.1002/jqs.3551.

Fonte e legenda da imagem de capa: Rebrota da vegetação do cerrado.

Disponível em: https://ciclovivo.com.br/planeta/meio-ambiente/planta-do-cerrado-floresce-queimada/.


Texto revisado por: Sandro Ferreira de Oliveira e Alexandre Liparini.

O fóssil que virou canção

Escrito em: 12 de junho de 2025

Por: Cíntia da Silva Xavier

A paleontologia é uma ciência incrível e cheia de descobertas, mas de tempos em tempos há fósseis que conseguem se destacar ainda mais, a ponto de até mesmo furar a bolha científica, chegando em núcleos da sociedade antes impensáveis.

Foi o caso do fóssil de um  Thrinaxodon em estivação, ou seja, o animal se escondeu no subsolo para escapar da seca escaldante. O protomamífero, porém, não estava sozinho: um raro anfíbio, o Broomistega, estava deitado sobre a barriga do “amigo”.

Esta cena improvável, datada de mais de 245 milhões de anos, foi descoberta em 1975, perto da base do Passo Oliviershoek, na África do Sul, pelo paleontólogo James Kitching. Com isso, as hipóteses começaram a surgir: há certo debate acerca da habilidade de Thrinaxodon em cavar tocas, mas Broomistega com certeza não poderia tê-la feito, sugerindo que o protomamífero era o principal ocupante da toca. Tendo isso em vista, parece uma coincidência absurda que os dois animais fossem soterrados juntos, com o Broomistega sendo carregado pela lama até o esconderijo.

Considerando isso, podemos chegar em duas hipóteses mais prováveis: Thrinaxodon  arrastou Broomistega para a toca ou Broomistega entrou propositalmente na toca. Apesar de o anfíbio apresentar duas possíveis marcas de mordida em seu corpo, os espaços não correspondiam à dentição do Thrinaxodon. Sendo assim, Fernandez e seus companheiros concluíram que o Broomistega simplesmente entrou na toca onde o Thrinaxodon descansava, e posteriormente, ambos foram soterrados pela lama que adentrou na toca, preservando-os em um abraço muito único.

Mesmo nos dias de hoje, essa interação é intrigante. Porém, ao analisar o fóssil do anfíbio, podemos deduzir porque o animal decidiu correr o risco e adentrar a toca: ele possuía várias costelas quebradas, parcialmente curadas, o que poderia dificultar sua respiração e locomoção, dando a ele um bom motivo para se aventurar na toca de um animal muito maior.É realmente impressionante o impacto desse fóssil descoberto há 50 anos, que conseguiu até mesmo o feito de sair da bolha científica, eternizado em uma canção (triassic love song de Paris Paloma)  que celebra essa união improvável, juntando-se a Lucy no seleto grupo de fósseis relacionados a músicas, o Australopithecus afarensis descoberto em 1974, porém sendo o primeiro fóssil a ser homenageado em uma canção, e não sendo nomeado em homenagem a algo, como foi o caso de Lucy.

Texto fonte: Fernandez, V., Abdala, F., Carlson, K., Cook, D., Rubidge, B., Yates, A., Tafforeau, P. (2013). Synchrotron Reveals Early Triassic Odd Couple: Injured Amphibian and Aestivating Therapsid Share Burrow. PLoS ONE 8, 6: e64978. Acesso em: 11/06/2025.

Disponível em: doi:10.1371/journal.pone.0064978.

Fonte e legenda da imagem de capa: Representação do fóssil de um Thrinaxodon e um Broomistega juntos.

Disponível em: https://journals.plos.org/plosone/article?id=10.1371/journal.pone.0064978.